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zombies everywhere

Summary:

Depois de alguns rumores circulando pela cidade, é comprovado que zumbis são reais.

E se, no meio do caos de um cenário apocalíptico, Jeongin, o melhor amigo de Seungmin, se confessasse para ele?

Notes:

Olá! Isso já está postado no meu Wattpad e Spirit, mas estava no tédio e resolvi postar aqui também pra movimentar essa conta.

Se liguem nas tags!

Boa leitura <3

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

“Depois de quase um mês de especulações, cientistas confirmaram, na manhã do dia de hoje, que as amostras do vírus coletado próximo ao local da explosão atômica têm o poder de modificar os genes humanos." A voz da repórter soou de forma robótica pela sala pequena e outrora silenciosa, assustando Seungmin e atrapalhando a leitura diária e matinal dele. 

"Ele age impossibilitando o raciocínio e o discernimento do que é certo e do que é errado, obstrui as vias aéreas e diminui a oxigenação. Consequentemente, causa falência múltipla dos órgãos a longo prazo. O mais preocupante, no entanto, é que os infectados continuam de pé mesmo depois do contágio. Com base neste comportamento, especialistas afirmam que o vírus tem a capacidade de controlar funções corporais, como o movimento de membros e da arcada dentária." 

Sem perceber, Seungmin se mexeu desconfortavelmente no sofá de pano, deixando o livro cair aberto pelo assento vago ao lado dele, sentindo o corpo todo pulsar em ansiedade e medo, sem querer conceber o que ela falava de forma floreada, como todos os canais de mídia e comunicação deviam fazer. Silenciosamente, ele caminhou rapidamente até a televisão em tubo e girou o botão do volume, aumentando-o. 

"Testes realizados com o intuito de descobrir uma forma de parar a transmissão do vírus e o que ele pode se tornar com as mutações já observadas foram inconclusivos. A recomendação geral e urgente é que a população estoque comida e utensílios de higiene e não saia de casa a não ser que seja extremamente necessário.”

Quando ela se despediu e o cara do esporte começou a falar, Seungmin soltou o fôlego que nem tinha percebido que estava segurando, limpando as palmas das mãos suadas na calça de moletom azul-marinho que usava. 

Estava com medo. 

Morrendo de medo. 

Seungmin conseguia lembrar claramente de quando houve a virada do século, há três anos, e todos diziam que o mundo iria acabar quando virasse meia noite e um de primeiro de janeiro de 2000. Lembrava perfeita e vividamente sobre os rumores de que o Sol iria explodir, que a Terra ia ser sugada para dentro de um Buraco Negro, que um asteróide colidiria com o planeta e extinguiria todos os seres vivos. Lembrava, também, de como tinha ficado com medo e ansioso durante toda a véspera, qualquer barulho diferente assustando-o e deixando-o alheio às pessoas e ao momento.  

Não era idiota, sabia que as probabilidades dessas coisas acontecerem eram quase nulas, mas, mesmo assim, viver esperando algo catastrófico acontecer não era legal ou calmo. Era sufocante, esperar pelo pior é tão ruim quanto apenas sobreviver, é viver com medo e arisco, cauteloso de forma quase neurótica. 

E era exatamente isso que ele estava sentindo no momento que se levantou e, com um clique mais forte do que precisava, desligou a televisão no botão, sentindo a estática arrepiar os pelos finos do braço dele. Com a diferença de que, agora, ele tinha certeza que essa coisa catastrófica ia acontecer. 

Na verdade, ela estava acontecendo. 

Estava vivendo a porra de um apocalipse zumbi, com direito a canibalismo e tudo mais. 

Parado no meio da sala de estar, em frente à televisão, ele pensou no quanto aquela notícia era real e no quanto não era, dividido entre duvidar da mídia que fazia de tudo para causar histeria e pânico, ou acreditar nos boatos que já circulavam pela cidade há algumas semanas. 

Sabia, obviamente (e por experiência própria), que a mídia era sensacionalista e tendia a exagerar em algumas notícias e todos estavam bem cientes do quão esdrúxula esse tipo de reportagem podia ser, principalmente se a intenção fosse realmente gerar um pânico. Pânico gera histeria, que gera gente desesperada e burra e pronta para fazer qualquer coisa para se salvar e viver mais três anos. Isso engloba muitas coisas, desde estocar alimentos e papel higiênico e gastar todo o dinheiro acumulado embaixo do colchão a se mudar para o interior do país e viver em um bunker pelo resto da existência dos seres vivos, sobrevivendo de comida enlatada e de luz artificial até que esses recursos também se extinguissem. 

Com um trim extremamente alto, o telefone fixo tocou, assustando Seungmin que continuava em pé no meio do cômodo e fê-lo acordar do frenesi de dúvidas e incertezas. 

Suspirando, passou a mão pela blusa branca para ajustá-la ao corpo e andou lentamente até o telefone que estava afixado à parede bege da cozinha, que simplesmente tocava de forma incessante, alheio à raiva de Seungmin. 

Odiava esses aparelhos tecnológicos imediatistas e impessoais e que simplesmente não sabiam calar a porra da boca. 

Arrastando os pés, ele chegou até o portal da cozinha se jogando no batente, pegando o aparelho com um revirar de olhos e levando-o até a orelha, imediatamente identificando os ruídos e sons na outra linha. 

"Minnie?" A voz de Jeongin soou de forma robótica e isso fez com que ele odiasse menos o telefone do que odiava há trinta segundos, quando ele estava tocando incessantemente. Para ele, essa era uma das únicas vantagens de ter algo tão imediatista assim, poder ter contato com outra pessoa que estivesse distante dele, mesmo que essa pessoa estivesse na casa do outro lado da rua.

"Oi, Innie," ele respondeu, já tendo uma noção do motivo pelo qual o amigo tinha ligado. 

"Você viu a reportagem?" Apesar de não conseguir ver o rosto dele (outra coisa que Seungmin não gostava nesses aparelhos), conseguiu perceber o nervosismo e o medo na voz do mais novo. Sinceramente, se sentia exatamente da mesma forma. 

"Vi," respondeu de forma simples, tentando não se mostrar afetado para não desesperar ainda mais Jeongin. 

"O que a gente vai fazer agora?" Seungmin conseguia ver, quase vividamente, a forma como ele (provavelmente) estava mordendo a ponta dos dedos agora, nervoso e ansioso. Quis sorrir, apesar dos pesares, ao imaginar a cena. 

"Não tem muito o que fazer, né," ele respondeu com um suspiro, a cabeça pensando em mil cenários diferentes de como ele podia sobreviver a essa distopia junto de Jeongin. 

Talvez eles devessem estocar o máximo de comida e utensílios possível, comprar armas e munição e viver no porão da casa de Seungmin, esperando que o apocalipse não chegasse até eles; talvez eles devessem ser mais espertos e ir logo procurar ajuda governamental e se alojar nos bunkers que o governo havia criado há alguns anos por precaução (como se isso enganasse alguém). 

Talvez devessem pegar o carro e sair em uma aventura louca, bancar os heróis e matar esses bichos, mas, se estavam buscando a sobrevivência, essa deveria ser a última opção deles, já que eles claramente não eram nem aventureiros e nem treinados para atirar (apesar de terem servido ao exército quando mais novos). 

Por um minuto a mais que o normal, a linha do lado de Jeongin ficou extremamente silenciosa, de forma quase suspeita e Seungmin percebeu que estava franzindo as sobrancelhas, tentando captar qualquer ruído que viesse do outro lado, mas nada. 

"Innie?" Chamou preocupado, a voz saindo mais séria e nervosa do que ele gostaria. Silêncio. "Jeongin?" Ele chamou novamente, a voz mais alta e histérica do que ele jamais imaginou, rezando (por mais que não acreditasse muito) para que Jeongin respondesse logo antes que ele fosse obrigado a atravessar a rua e arrombar a porta da casa do mais novo. 

Um barulho alto de interferência soou, machucando o ouvido de Seungmin, que afastou o aparelho da orelha, xingando baixinho. Estava prestes a jogar o telefone de volta no gancho com um desespero e brutalidade desmedida, até que a voz levemente anasalada do amigo soou novamente. 

"Desculpa, Minnie, o fio soltou do aparelho e eu não tava conseguindo encaixar de novo," pediu parecendo receoso, talvez ciente do que esse tempo de silêncio tinha causado no amigo. 

"Hm," respondeu aliviado, sentindo o coração começar a bater no seu ritmo normal. 

"E se a gente se juntasse?" Perguntou e ao ver que não teve nenhuma resposta, resolveu elaborar, provavelmente percebendo que Seungmin não tinha entendido, "você sabe que as chances da gente sobreviver são maiores se a gente estiver junto." 

Seungmin ponderou por um instante e percebeu que todos os "se's" que ele estava imaginando anteriormente, envolvia ele e Jeongin juntos, e não somente ele. Parecia algo bem justo, na verdade. Duas cabeças pensam melhor que uma. Uma vez juntos, eles podiam pensar no que fazer, qual plano de contingência eles seguiriam. 

"Acho que é uma boa ideia," levou o dedo até o lábio inferior, pensando por um segundo quais seriam as logísticas disso, até Jeongin falar primeiro. 

"A gente pode ficar no porão da sua casa enquanto isso," Jeongin deu a ideia que Seungmin não conseguiu verbalizar. 

Mais uma vez, a mente racional de Seungmin tentou pensar em todos os cenários possíveis. 

As chances deles morrerem eram enormes, provavelmente quase cem por cento, visto que, num cenário apocalíptico, a dedução é que toda a população seja extinta. Mas, talvez, eles tivessem uma oportunidade maior de sobrevivência se ficassem trancados no porão, esperando que uma pessoa corajosa e imbecil o suficiente saísse em uma aventura suicida e matasse os zumbis ao mesmo tempo. 

Precisariam comprar muitas coisas, comidas, objetos de higiene, armas e munição, mas parecia ser a melhor opção até um segundo momento. 

"Ok, acho que é o melhor que a gente pode fazer," decidiu finalmente. 

"Vou separar algumas coisas e em alguns minutos estou na porta da sua casa," Jeongin falou e logo desligou o telefone. 

Seungmin suspirou, colocando o objeto no gancho e indo até a janela da sala que dava para o quintal (e, consequentemente, para a rua) pela primeira vez desde que a notícia tinha saído. 

Apesar dos boatos serem fortes e recorrentes, ele nunca tinha visto um zumbi na frente dele, por isso ele até mesmo duvidava da existência deles. Se fosse sincero, ainda não estava completamente certo da veracidade da informação, mas isso não fazia ele sentir menos o pânico e medo. 

O pior, era perceber que a rua estava calma. 

Calma demais.

Era uma vizinhança residencial, cheia de crianças brincando de bola e andando de bicicleta pela rua, idosos sentados na calçada enquanto fofocavam sobre a vizinha que estava grávida do cara casado que morava a algumas casas de distância, os carros passavam para lá e para cá o tempo todo. No entanto, não tinha nada. 

Nem uma criança, nem um carro, nem uma alma viva. E nem morta, vale ressaltar. 

Talvez a notícia tivesse mesmo se espalhado - o que era de se esperar, provavelmente isso estava em todos os canais e jornais -, mas ver tudo tão silencioso e vazio, era estranho, aumentava o medo e o pânico dele, fazia aquele sentimento que antecede uma catástrofe se intensificar e o sangue dele ferver em ansiedade. 

Pensou em esperar por Jeongin na varanda, mas ele não tinha nada para se defender a não ser a faca de cortar carnes na gaveta da cozinha, e ele duvidava da capacidade dele de esfaquear algo, mesmo que fosse algo já morto, ou se ele teria coragem o suficiente para isso. 

Ao invés de ficar parado observando, ele resolveu fazer alguma coisa, então foi até a cozinha para ver o estoque dele de comidas, anotando mentalmente o que eles teriam que comprar e pensando, mais ou menos, quanto tempo isso tudo duraria. Os mercados, provavelmente, estariam com limite de produtos por pessoa, o que não era legal (apesar de necessário, mas ele estava olhando para a situação de forma egoísta, realmente não se importava muito se alguém além dele e Jeongin sobrevivessem), então teria que pensar cautelosamente. 

Outra questão que devia ser considerada, era o dinheiro: Seungmin não era pobre, mas dizer que ele era rico também estava fora de questão; não podia se apoiar na ideia de que isso continuaria para a vida e se endividar e depois sofrer as consequências, mas também não podia deixar de pensar no agora e no futuro mais próximo. 

Suspirou mais uma vez, abrindo a geladeira e lembrando que ele tinha ido ao mercado dois dias antes. A dispensa estava cheia, assim como a geladeira. Mas não seria o suficiente, eles precisavam comprar mais coisas e estocar tudo que fosse possível. 

De repente, na vizinhança estranhamente silenciosa, gritos esganiçados puderam ser ouvidos, junto com rugidos quase animalescos. O som era diferente de tudo que Seungmin já tinha ouvido, se assemelhava mais a um grito de um animal desesperado do que de uma pessoa com medo, era gutural. 

Batendo a porta da geladeira e passando rapidamente pela gaveta de talheres, ele correu até a janela da sala com a maior faca que achou na mão, o coração acelerado e na cabeça mil preces para que o grito não tivesse sido de Jeongin.

No entanto, no momento que colocou os olhos na janela, não tinha nada. Ele não conseguia ver nada. A porta da casa de Jeongin estava aberta, mas não estava acontecendo nada dentro do campo de visão dele. 

Os sons estavam ficando cada vez mais próximos e altos, os gritos mais agudos e os rugidos mais fortes e assustadores. Passou a mão pelo cabelo, sentindo o coração acelerar de forma desenfreada e sentiu uma gota de suor escorrendo pela lateral do rosto dele. Respirou fundo, tentando controlar a respiração totalmente descompassada e foi para a porta da sala, as mãos trêmulas agarradas à maçaneta enquanto se xingava por tentar bancar o herói. 

Quando estava pronto para abrir a porta, um paft seco e forte veio de fora da rua, como se algo tivesse caído de uma altura muito grande, até a maçaneta se virar sozinha e a porta se abrir lentamente, rangendo enquanto a luz do Sol entrava pela casa pelo feixe do pedaço de madeira. 

Seungmin se distanciou empunhando a faca, o rosto contorcido em medo e concentração, pronto para fazer qualquer coisa que tivesse ao alcance dele para ir lá fora e ver se algo tinha acontecido com Jeongin, até a porta se abrir por completo. 

"Você não vai acreditar, Minnie," Jeongin falou de forma quase esganiçada, totalmente eufórico, as pupilas levemente dilatadas e o corpo todo tremendo, a respiração saindo em lufadas de ar. 

A primeira reação de Seungmin foi largar a faca no chão sem se importar se ela poderia cair no pé dele, sem se preocupar que a porta ainda estava aberta, sem se preocupar com o que tinha acontecido e quais tinham sido os sons que tinha ouvido. No momento, tudo o que importava era que Jeongin estava ali, vivo e, aparentemente, bem. 

Alargou os passos para que chegasse em Jeongin mais rapidamente e segurou-o pelo ombro, olhando cautelosamente para o amigo e querendo confirmar se não tinha nenhum machucado nele que os olhos não pudessem ver. 

Seungmin ainda conseguia sentir as mãos tremendo onde elas estavam presas no ombro de Jeongin e um rugido da rua lembrou-o que a porta ainda estava aberta e eles estavam parados no meio da sala. Circulando Jeongin, Seungmin trancou a porta e passou todos os cadeados possíveis, correndo para as janelas, trancando-as e fechando as cortinas. Jeongin observava tudo quieto, com a testa franzida e cabeça levemente inclinada para o lado. 

Quando Seungmin se deu por satisfeito, pegou a faca do chão e, com a mão livre, o pulso de Jeongin, só então percebendo que ele tinha uma arma na mão. 

Uma arma

Incapaz de se conter, Seungmin quase gritou, "uma arma?", enquanto olhava descrente para o mais novo. 

Jeongin deu de ombros, "estava na rua, e eu achei melhor a gente se precaver." 

"Garoto, você sabe como se mexe numa arma?", Seungmin falou entredentes, forçando-o a andar e arrastando-o para o porão. 

"Não deve ser difícil," ele deu de ombros mais uma vez, se deixando levar, a arma sempre apontada para o chão, "eu lembro um pouco do treinamento que a gente teve no exército, também."

"Eu e você sabemos que aquilo não serviu pra porra nenhuma," Seungmin abriu a porta do porão com mais força do que deveria, se abaixando para descer as escadas de forma confortável e puxando a corda para que a lâmpada amarela acendesse e iluminasse o ambiente, "você sabe pelo menos se ela tá travada?" 

"Tá, olha," falou quando Seungmin finalmente largou o pulso dele, levantando a mão até que a arma estivesse na mesma altura do rosto de Seungmin, que torceu o nariz. Estava realmente travada, mas ainda era uma arma dentro da casa dele, "é só você ver aqui," apontou para a trava da arma, que estava levantada e na posição de segurança, confirmando o que ele estava falando.

"E o que aconteceu? Por que tinha uma arma na rua?"  Finalmente deu voz às curiosidades, lembrando do jeito eufórico que Jeongin tinha praticamente invadido a casa dele. 

 "Eu arrumei as minhas coisas," Jeongin falou e algo na cabeça de Seungmin acendeu, olhando para os lados e para o amigo e vendo que ele não tinha nada nas mãos a não ser a arma. Jeongin percebeu que seria interrompido e levantou uma mão, pedindo para que Seungmin esperasse e não fosse afobado, "mas aí eu ouvi uns gritos na rua e uns barulhos estranhos e fui ver o que tinha acontecido, a arma só estava ali, eu não sei de onde ela veio, mas tava dando sopa e eu resolvi pegar." 

Seungmin arqueou as sobrancelhas, odiando o suspense que ele estava fazendo para contar a história, "o que aconteceu, Jeongin?" 

Jeongin revirou os olhos, mas voltou a falar, "tinha uma mulher caída na rua com um zumbi em cima dela, comendo ela e os órgãos dela," ele torceu o nariz, descontente pela memória, "não sei se ela tava viva ou não e também não sei o que aconteceu comigo, eu só não conseguia sair do lugar para tentar ajudar." 

"E você fez bem! Ninguém sabe ainda o que é eficiente contra eles," Seungmin falou, sentindo a garganta fechar pela perigo que o mais novo tinha passado, queria ter estado do lado dele para confirmar que ele não iria fazer algo estúpido, tipo tentar salvar a mulher de mãos vazias. Pelo sorriso amarelo que Jeongin deu, Seungmin percebeu que tinha sido exatamente isso que tinha acontecido. "Jeongin, o que você fez?" 

"Calma! Não briga comigo, Minnie," ele pediu, olhando para o chão, "era uma visão horrível, você não tem noção," a voz dele ficou mais baixa e Seungmin queria quebrar as paredes com as mãos nuas e degolar todos os zumbis do mundo, só por perceber o quanto Jeongin tinha ficado abalado com a cena. 

"Você precisa se proteger, Innie," ele quase suplicou, botando uma mão na lateral do rosto do mais novo, sentindo o mais novo se aninhar ao toque como um gatinho. 

"E aconteceu alguma coisa comigo, hein?" Ele perguntou bravo, se afastando de Seungmin e recusando a olhar no rosto dele. 

"Mas podia ter acontecido. O que mais aconteceu?" 

Mais um sorriso amarelo. Seungmin teve que se controlar para não revirar os olhos. 

"Eu fui até eles, e a minha intenção era pelo menos matar aquele ser nojento, já que a mulher provavelmente já estava morta, mas aí eu percebi que eu não conhecia ela," finalmente encarou Seungmin, as sobrancelhas franzidas, olhando para a parede amarronzada. 

"E o que tem?" 

"Você sabe como a gente conhece todo mundo que mora por aqui," explicou de forma simples, "a gente mora aqui desde sempre." 

"Sim?" Seungmin ainda não entendia. 

"Por que alguém teria vindo para cá, de todos os lugares? Algo estava errado, não parecia certo," ele andou até a mesa que tinha no canto do cômodo e deixou a arma descansando ali, passando a mão pelos cabelos e bagunçando os fios escuros, de costas para o amigo, de frente para a parede com alguns posters de bandas que não existiam mais, "eu não sei o que aconteceu, só deixei minha intuição falar mais alto e dei meia volta, e que bom que eu fiz isso, Minnie." 

Então, a cabeça de Seungmin fez um clique. 

"Ela também era um morto-vivo?" 

"Sim!" A voz dele parecia abafada, como se ele estivesse se recusando a contar tudo. 

"Jeongin," chamou, a voz firme, "o que você não está me contando?" 

"Tinha uma criança, Minnie," ele se virou para o amigo e Seungmin sentiu uma dor física ao perceber os olhos avermelhados dele, "a porra de uma criança, com os braços literalmente comidos e a cara amarelada. A porra de uma criança." 

"Innie," ele chamou suave dessa vez, indo até o amigo e abraçando-o, sentindo Jeongin encaixar o rosto na curva do pescoço dele. 

Ficaram em silêncio por alguns segundos, o barulho de um mosquito batendo na lâmpada sendo o único som presente no ambiente, além das respirações calmas deles.

"O que a gente vai fazer agora?" Jeongin perguntou, a voz abafada por ainda estar abraçando Seungmin. 

"A gente precisa comprar algumas coisas, e depois eu não sei, eu realmente não sei." 


####### 


Dirigindo de forma quase automática, com Jeongin no banco do carona sem dar um pio, olhando para todos os lados o tempo todo, eles se conduziam até o supermercado mais próximo. Tiveram sorte de não esbarrar com nenhum contratempo durante o caminho, seguindo praticamente uma linha reta e contínua até o destino deles. 

Tinham um plano na cabeça: comprar o que precisavam e voltar para o porão da casa de Seungmin o mais rápido que conseguiam, sem dar voltas ou sem falar com gente desnecessária. Por isso, quando Seungmin estacionou o carro, ambos já sabiam o que cada um tinha que fazer quando colocassem os pés dentro da loja: Seungmin foi para a fila (que estava gigante, o que era de se esperar) e Jeongin foi escolher as coisas nas prateleiras. 

O mercado estava um completo caos, cheio de gente falando alto, brigando por alimentos, chorando e correndo. Era doloroso e desesperador. Deixava os cabelos da nuca de Seungmin arrepiados. Confirmava e jogava na cara dele o que eles estavam vivendo, o cataclismo. Pessoas esbarravam em pessoas que esbarravam nas prateleiras que fazia os alimentos caírem e se espatifarem pelo chão, deixando o cenário ainda mais desastroso do que já era. 

Se adiantando, Seungmin foi para a menor fila que achou, vez ou outra virando a cabeça à procura de Jeongin, preocupado com o mais novo, querendo ter certeza de que nada tinha acontecido com ele. 

Em momentos de desastre e histeria, os seres humanos conseguiam ser tão cruéis quanto os bichos que eles tanto temiam, quanto os bichos que estavam do lado de fora esperando por eles. Por isso, ele não se deixava relaxar mesmo que estivesse sob a falsa segurança que o teto e as paredes daquele ambiente passavam para ele. Só relaxaria quando Jeongin estivesse ao alcance dele e salvo. 

Depois de alguns minutos, a gritaria ficou ainda maior e o coração de Seungmin gelou. Algo tinha acontecido. 

Queria sair do lugar, queria sair correndo procurando por Jeongin e saber se tinha sido algo com ele, mas não podia sair da fila, senão eles poderiam correr o risco de se desencontrar. Tentou se acalmar e focar, tentando entender os gritos e o que as pessoas queriam dizer por trás do nervosismo. A muvuca ficou maior e, do lado direito, perto do corredor de frutas e legumes, tinha um grupo de pessoas, todos amontoados no mesmo lugar, gritando e falando um por cima do outro. Obviamente, o caos maior estava ali. 

Ouviu as vozes cada vez mais altas e agressivas, alguns xingamentos saindo com mais claridade do que outras palavras, até o som parar do nada. 

O silêncio esmagador durou quase dois segundos, mas foi o suficiente para fazer o medo crescer ainda mais rápido e forte no coração de Seungmin. Quando o barulho voltou, ele voltou com força e de uma vez só, acompanhado de passos fortes e rápidos, e mais pessoas gritando, e sons mais diferentes, como sons de tapas e gritos de dor. 

Briga! O grupo estava brigando! 

O mercado não era grande, estava longe de ser o maior do bairro, os corredores eram estreitos e curtos, tão curtos que as filas para os caixas paravam quase no final deles. Os preços já eram altos normalmente, mas, com o desastre e a procura desesperada, eles ficaram ainda maiores. E eles não tinham tanto produto assim nas prateleiras, quanto mais em estoque. Logo, não era difícil entender qual era o motivo da briga. 

No entanto, entender o motivo da briga não significava que ela devia estar acontecendo. Aos poucos, mas mais rápido do que Seungmin gostaria, as pessoas começaram a se empurrar e a dar espaço para a briga que acontecia, e cada vez mais pessoas começavam a participar fervorosamente dela. Brigavam por produtos nos carrinhos um dos outros, brigavam por preços acima da inflação e acima do esperado, brigavam por medo. Talvez brigassem porque tivessem menos medo de enfrentar punhos e chutes do que de enfrentar zumbis que estavam com a pele descolando do corpo e com órgãos pulando para fora de seus corpos. 

Era entendível, até. Lutar com o conhecido era mais fácil do que lutar com o desconhecido. 

O espaço foi começando a ficar mais escasso e as pessoas começaram a se empurrar cada vez mais e mais, até que algumas caíram no chão, fazendo com que outras pessoas também caíssem ou pisassem nelas. Até que as pessoas, no desespero, começassem a sair com os produtos embaixo do braço sem pagar por eles. 

E, sinceramente, quem estava ligando para tal trivialidade? 

Era questão de prioridades. 

E, no momento, a prioridade da maioria das pessoas era sobreviver. 

Logo quando Seungmin estava pensando em sair correndo atrás de Jeongin, ele viu o amigo vindo na direção dele, com o carrinho cheio, o cabelo escuro grudado na testa por conta do suor. Seungmin suspirou aliviado, acenando com a cabeça para a saída do supermercado. 

Precisavam sair dali o mais rápido possível. As pessoas já estavam extremamente agitadas e se derrubando no chão. Não queria ser o próximo, não queria que Jeongin fosse o próximo. 

Quando eles se encontraram no meio do caminho, Jeongin inclinou a cabeça, perguntando mudamente sobre o pagamento das mercadorias. 

“Não vamos nos preocupar com isso agora,” foi o que Seungmin se limitou a responder, pegando o carrinho da mão do amigo e correndo mais rápido em direção ao carro. 

Contrastando com o interior da loja, o estacionamento estava calmo. Poucas pessoas passavam por eles. Mas o estacionamento estava cheio de carros. Lotado. Quase não tinha duas vagas disponíveis. 

Isso era estranho. 

“Vamos mais rápido, a gente ainda tem que guardar as compras,” Seungmin falou se apressando, andando até o fim do estacionamento para chegar no carro. 

Parou na traseira do veículo, abrindo a mala e começando a jogar os alimentos ali dentro de forma descuidada e com pressa, pouco se importando com o que iria acontecer com eles. Sentia um frio na espinha, uma sensação ruim, um medo que seria irracional se eles não estivessem vivendo a droga de um apocalipse. 

Não queria ficar mais nem um segundo em um local aberto, em um local sem a proteção de paredes e tetos. Se sentia exposto dessa forma, e não gostava da sensação. 

Quando estava colocando um dos últimos sacos na mala, ele ouviu aquele rugido. Sentiu o corpo todo arrepiando e, de uma vez só, jogou o que faltava na mala, contornando o carro e parando na porta do motorista, tentando encaixar a chave na fechadura. 

Não conseguia. As mãos tremiam e elas estavam suadas, Jeongin estava do outro lado do carro, encarando-o com os olhos arregalados, vez ou outra virando o rosto para encarar o bicho que se aproximava deles com mais velocidade do que eles achavam ser possível. 

Seungmin também viu o zumbi, se assustando com a aparência dele. Afinal, era a primeira vez que via um deles. 

Ele corria mancando, mas era incrivelmente rápido. Metade do braço esquerdo dele estava faltando, quase no cotovelo, como se ele tivesse sido brutalmente arrancado, a pele amarelada e esverdeada deixava claro que ele não estava mais vivo. No outro braço, faltavam os dedos das mãos, e os gritos dele pareciam gritos de dor, gritos de fúria e gritos de desespero, o que só deixava o som ainda mais assustador. Na barriga tinha um buraco do tamanho de um copo. O buraco era vazado, Seungmin conseguia ver o estacionamento por ele, mas não saía sangue dele. Tinha uma tripa pendurada, mas ele não parecia sentir dor. Ele andava mesmo assim, cada vez mais perto de Seungmin e de Jeongin. O rosto era o pior de se ver: os olhos estavam esbranquiçados e não tinha pupila; na boca, faltava os dentes e os que tinham pareciam podres, escuros e comidos; a bochecha tinha um buraco onde dava para ver o que um dia tinha sido a arcada dentária dele e a cabeça dele não era mais redonda, faltava um pedaço dela, como se couro cabeludo dele tivesse sido cortado fora, deixando-o com um formato de quase meio círculo. 

Era horrível. Seungmin sentia as pernas fracas e o coração acelerado, as palmas das mãos estavam formigando e ele não conseguia não olhar para o bicho. 

Minnie,” Jeongin chamou, o pedido claro na voz dele. Seungmin mudou o foco do olhar para o amigo e viu que ele estava com os olhos avermelhados e arregalados e a respiração saía irregular. Entendeu imediatamente o que ele estava pedindo. 

Abaixou a cabeça e respirou fundo, tentando controlar as mãos trêmulas para conseguir encaixar a chave. Quando finalmente conseguiu, abriu a porta com força e se jogou no banco, vendo Jeongin fazer o mesmo. Teve uma outra luta que foi colocar a chave na ignição, mas não tinha mais tempo para tremer ou sentir medo. Precisava sair dali. Precisava tirar Jeongin dali. 

Ligou o carro, pisou na embreagem e logo mudou a marcha, pisando no acelerador e tirando o carro da vaga na força, saindo na direção contrária do zumbi. Somente quando estava fora do estacionamento e longe o suficiente do mercado foi que ele diminuiu um pouco a velocidade, respirando aliviado, sentindo a cabeça doer e latejar fortemente.

Olhou pelo retrovisor e viu que estava tudo calmo, sem zumbis e nem carros, mas, a essa altura do campeonato, ele não iria mais reclamar da sorte, mesmo que ela fosse momentânea. Olhando rapidamente para Jeongin, viu que as mãos dele tremiam levemente. Pegou-as, entrelaçando, com a mão direita, os dedos aos do amigo, sentindo como ela tremia mesmo estando dentro do aperto de Seungmin. 

“Innie,” chamou, olhando por um momento para o amigo, logo voltando a atenção para a rua. A princípio, queria perguntar se ele estava bem, mas perguntar tal coisa seria idiotice, e Seungmin não era alguém de falar meias palavras, ou falar por falar. Mas queria falar algo para confortá-lo, só não fazia a mínima ideia do que seria isso. 

Afinal, existia algum tipo de conforto na situação que eles estavam? 

######### 


Faltava menos de duas horas para a virada do ano. 

Seungmin não podia dizer que essa virada seria apenas mais uma virada. Os boatos corriam, e, mesmo que ele não fosse tolo o suficiente para acreditar neles, a dúvida, o medo e a incerteza eram como uma pulga na orelha: não tinha como se livrar delas. Só restava esperar e ver o que aconteceria. 

Jeongin, no entanto, um ano mais novo que Seungmin, acreditava em tudo que era possível: alienígenas, máquinas que iriam criar consciência e sair matando os humanos como forma de vingança, a chuva de meteoros que os religiosos (ou fanfarrões) diziam que iam cair sob a Terra para eliminar os pecadores. Acreditava até mesmo em zumbis. 

Por mais que Seungmin detestasse pessoas facilmente manipuláveis, muito críveis e pouco céticas, quando era Jeongin, ele achava fofo. Inocente, até. Por mais que ele odiasse perceber que o amigo era ingênuo a esse ponto. Mas era quem ele era. E Seungmin amava tudo que compusesse o amigo. Cada detalhe. Cada característica. 

Se seungmin fosse sincero, ele também tinha medo, se sentia aflito e ansioso, esperando pelo pior. Mas ele conseguia discernir, e sabia que os sentimentos eram quase irracionais. Jeongin, no entanto, não era assim. 

Sentindo o nervosismo dele, Seungmin ofereceu um gole da cerveja que estava tomando para o amigo, vendo-o beber um gole grande e torcer o nariz no final. 

“Você sabe que eu odeio isso,” reclamou, apesar de ter bebido. 

“Bebeu porque quis,” Seungmin brincou, pegando a garrafa da mão de Jeongin e terminando com o conteúdo que tinha dentro dela. Vendo que o amigo ainda estava nervoso, encarando a parede como se ela fosse o melhor filme do mundo enquanto estava sentado naquele sofá de pano, Seungmin pegou a mão dele, e tentou pensar nas palavras que Jeongin gostaria de ouvir num momento como esse, “Innie, você sabe que a probabilidade dessas coisas acontecerem são tipo, nulas, né!?” 

“Para com isso,” reclamou mais uma vez, virando o rosto para o lado contrário, mas sem desentrelaçar os dedos, “eu só quero sentir o medo, sem saber se vai ser real ou não. E, por mais que as probabilidades sejam quase nulas,” ele zombou de Seungmin, imitando a voz mais séria e o tom mais formal dele, “isso não quer dizer que não pode acontecer.” 

“Bom, poder, pode-” 

“E pronto, é só isso que eu preciso saber,” interrompeu, se sentindo frustrado. 

“Desse jeito, até parece que você quer que aconteça,” Seungmin falou, se levantando para ir à cozinha pegar a cerveja dele e a bebida que Jeongin estava bebendo. 

“Não é que eu quero que aconteça, é só que…,” ele pensou antes de falar, provavelmente tentando achar a melhor forma de parafrasear as palavras que queria vociferar, “essas coisas, esses boatos, fazem eu sentir alguma coisa, sabe?! Algo que eu não sinto há muito tempo, Minnie.” Ele comentou olhando para o chão, enquanto brincava com o fio solto da bermuda jeans dele. 

Seungmin parou na frente dele, as mãos ocupadas segurando as bebidas. Bateu fracamente com o copo de Jeongin na cabeça dele, fazendo-o reclamar e pegar o utensílio. Com a mão agora vaga, Seungmin bagunçou o cabelo do amigo, sentindo os fios macios entre os dedos. Se agachou, ficando de frente para ele e na mesma altura. 

“Você não precisa desses rumores sem sentido para isso, Innie. Você precisa se permitir,” com isso, ele voltou para a posição inicial, se sentando ao lado do amigo, enquanto pegava a tigela de biscoitos que estava no braço do sofá. Não tendo nenhuma resposta do amigo, Seungmin estranhou e virou para encará-lo. 

“Eu quero me permitir, principalmente para uma coisa,” falou meio incerto, ainda sem encarar Seungmin, “mas acho que tem certas coisas que a gente não deve falar nem se a gente estiver na beira de um cataclisma.” 

“É algo assim tão surreal?” Seungmin perguntou curioso e Jeongin finalmente encarou-o. Os olhos atentos e intensos. Como se ele quisesse dizer algo somente pelo ato de encarar Seungmin. 

Mas Seungmin nunca entendeu. 

Seungmin não era bom ao falar meias palavras, e ele também não era bom em entender meios gestos. 

Ou era tudo, ou era nada. 

Mas Jeongin não era assim. 

Jeongin não era oito ou oitenta e ele tentava fazer Seungmin entender há tanto tempo. 

Sempre foram só eles dois. Desde sempre. 

Mas, principalmente depois da morte dos pais de Jeongin, não existia mais ninguém no mundo para eles dois. A avó de Seungmin terminou de criar Jeongin enquanto ele ainda era menor de idade e, quando ele chegou a uma idade própria, ele voltou a morar na casa que uma vez fora dos pais dele. Conquistou a independência que  tanto sonhava. E Seungmin estava ali com ele. Em todos os momentos. 

Jeongin não se lembrava de ter caído pelo amigo, só se lembrava de estar caído. Depois de tanto tempo, depois de tantas dicas, conversas suscetíveis e atos quase reveladores, Jeongin decidiu que, nesse caso, ele não ousava mais se permitir, mesmo que fosse o que ele mais quisesse. Se permitir. Se permitir falar, se permitir viver o que ele tanto queria com o melhor amigo dele. 

Mas, mais do que dos boatos que circulavam em torno do bug do milênio ou do fim do mundo, ele tinha medo de perder Seungmin. Então, ele guardava esse sentimento o mais fundo que conseguia e pedia para que ele não voltasse à superfície nunca e de maneira nenhuma. Mesmo que ele soubesse que Seungmin jamais descobriria sozinho. 

E Jeongin jamais contaria para ele. 

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Jeongin quis rir. No final, como Seungmin tinha falado, nenhuma daquelas coisas tinham acontecido. Não teve o bug do milênio e nem as máquinas criaram vida própria e tentaram exterminar a vida humana. No entanto, dois anos depois, zumbis viraram reais. Zumbis estavam literalmente comendo outras pessoas e vivendo em sociedade, querendo dar um fim em tudo que tivesse vida e respirasse. 

As circunstâncias pareciam um pouco diferentes agora do que eram há dois anos. 

Agora, não eram somente boatos. Era verdade. 

Eles tinham acabado de presenciar um zumbi correndo na direção deles, querendo comê-los da mesma forma que eles iriam comer, mais tarde, as comidas que compraram no mercado. 

Se esse não fosse o momento de se permitir, então nenhum outro momento seria. 

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Chegaram na casa de Seungmin sem mais nenhuma intercorrência. Foram rápidos ao levar as coisas para dentro de casa e trancar as portas e confirmar se todos os cadeados estavam funcionando, achando um jeito de prender as janelas também. 

No porão de Seungmin, eles pensavam nos próximos passos, faziam planos a's e b's, sem deixar espaço para que nada desse errado.

Ainda tinham a arma que Jeongin tinha pegado na rua, mas ela tinha poucas balas e nenhum dos dois sabiam atirar corretamente. Ela seria somente em momentos extremos e urgentes. 

Com o passar dos dias, eles foram ficando em casa, acompanhando as notícias, olhando pelas janelas e vendo que, a cada dia que passava, cada vez mais eles viam os zumbis descendo e subindo a rua. Eles não pareciam ser capazes de abrir portas ou arrombá-las, então, enquanto estivessem dentro de casa, estariam seguros. 

Na hora de dormir, eles se revezavam entre o sofá-cama que tinha no canto do porão de Seungmin e o colchão da própria cama que Seungmin desceu há poucos dias. Durante os dias, eles separavam em bolsas o que precisariam caso fosse necessário sair correndo de casa em uma emergência. Como a arma de fogo, arma branca, roupas, comidas e bebidas. 

Tudo parecia calmo e resolvido. Tinham tudo definido. 

Em uma noite, depois de algumas cervejas (Jeongin tinha aprendido a bebe-las com o tempo), Jeongin parecia estar no humor para conversar. Seungmin resolveu entrar na onda, já um pouco mais solto pelo álcool do que percebia. 

“Como você acha que meus pais reagiriam se eles estivessem aqui?” Jeongin perguntou. Estava jogado no sofá-cama, a latinha de cerveja meio cheia na mão, enquanto o outro braço tampava os olhos dele. 

“Não sei,” Seungmin respondeu, pensando na pergunta e imaginando e criando os cenários na própria cabeça, “talvez não fizesse muita diferença, sabe?! Eles já estariam bem velhos.” 

Jeongin confirmou com a cabeça, se levantando apenas o suficiente para conseguir beber da latinha sem que o líquido caísse todo em cima dele. 

“Jeongin,” Seungmin chamou, de repente querendo confirmar que o amigo estava bem e não estava remoendo as coisas que já tinham passado. Coisas que ele não tinha mais controle sobre, “você sabe que você fez o que podia, não sabe?” 

“Seungmin, você sabe que não é assim,” ele falou baixo, parecendo com raiva e rancoroso. Seungmin sabia que os sentimentos eram unicamente direcionados a ele mesmo. 

“Claro que é assim, Innie, você era um adolescente ainda e fez o que podia. Eles estavam muito doentes, você fez o que era certo.” 

Quando Jeongin tinha recém-feito dezesseis anos, ambos os pais dele ficaram muito doentes. Eles já eram quase idosos e a recuperação era lenta e difícil. Ficaram acamados por semanas, com Jeongin se dividindo entre a escola e cuidar deles e cuidar da casa. Foram semanas difíceis, mas nada que pudesse se comparar com a realidade que foi chegar em casa e ver os pais imóveis e vegetando em cima da cama. Estavam mortos. Ou melhor, quase totalmente. 

Chegada a ambulância, depois de todos os exames necessários e confirmações, foi atestado que eles tiveram morte cerebral causada pela doença. Era uma grande e infeliz coincidência que ambos tivessem tido esse fim, mas aconteceu. E, como o parente mais próximo vivo, por mais que fosse menor de idade, a decisão ficou para Jeongin. Muitos falavam que o hospital agiu de forma errada. Oras, uma criança não devia poder tomar esse tipo de decisão, mas eles estavam muito mais preocupados com o espaço na sala de emergência do que com dois pacientes já moribundos. 

Jeongin fez o que devia fazer. Mandou desligar os aparelhos e acabar de uma vez por todas com a situação. 

Quando recebeu a certidão de óbito dos pais, Jeongin tinha acabado de completar dezessete anos e já estava morando com a avó de Seungmin. 

Por mais que, no fundo, soubesse que não importava o que tivesse feito, os pais deles jamais sairiam daquela situação, ele se sentia errado. Sentia que ele tinha sido o responsável por matá-los. A ordem tinha sido dele, afinal. Quem mais ele poderia culpar por tal? 

Seungmin entendia - em partes - a dor do amigo, mas sabia que ele tinha feito a escolha certa. Não era justo com ninguém que os pais dele continuassem daquela maneira, por mais difícil que tenha sido tomar a decisão. Só queria que ele entendesse que praticamente não tinha outra escolha e que tinha feito tudo que estava ao alcance dele. 

Jeongin nunca respondeu à frase de Seungmin. Claramente ele não concordava com o que o mais velho tinha falado, mas já estava feito. A decisão há muito já tinha sido tomada. Não tinha o que mudar agora, apenas lidar com as consequências, por mais duras que elas fossem. 

“Vamos mudar de assunto?” Jeongin finalmente falou, a voz saindo fraca e ecoando pelo porão silencioso e vazio. 

“Sobre o que você quer falar?” 

“Qualquer coisa, menos isso, por favor,” pediu, se sentando e passando a mão de forma grotesca pelo rosto. 

Seungmin concedeu e esperou até que o amigo trouxesse um tópico que fosse confortável para ele. Quando a voz dele demorou a soar novamente, Seungmin levantou a cabeça para encará-lo, apenas para perceber que Jeongin observava-o em silêncio. Arqueou uma sobrancelha para ele, esperando que ele falasse o que tinha em mente. Seungmin conhecia-o bem o suficiente para saber que tinha algo rodando e perturbando a cabeça dele no momento. 

Quando, mais uma vez, Jeongin não vociferou o que estava pensando, Seungmin estranhou, “o que se passa pela sua cabeça?” Perguntou curioso, se levantando e sentando no assento vazio ao lado do amigo. 

“Não sei, é só…,” ele parecia hesitante e Seungmin botou uma mão no joelho dele. Ouviu o amigo suspirando e soube que ele falaria, “lembra quando teve aquela virada do ano?” 

“A que todo mundo falava que o mundo iria acabar?” 

“Essa.”

“O que tem ela?” 

“Você lembra da conversa que a gente teve?” Jeongin perguntou ansioso e, de certa forma, Seungmin também estava se sentindo ansioso. 

“Innie, você precisa ser mais específico, a gente tem muitas conversas.” 

“Aquela sobre ‘se permitir’, sabe?!” Seungmin se lembrou perfeitamente do momento, da conversa, de tudo. Até do cheiro da colônia que Jeongin usava naquela noite. Maneou a cabeça, esperando o amigo continuar, “na verdade, sempre teve uma coisa que eu quis fazer, que eu quis me permitir, mas eu nunca achei que eu tivesse o direito de fazer isso.” 

“Innie, você tem o direito de fazer o que você quiser,” Seungmin afirmou, odiando a forma que Jeongin sempre fazia isso com ele mesmo. Poxa, queria que Jeongin fizesse tudo que ele tivesse vontade e que fossem para o inferno todos que falassem o contrário. 

“Mas eu não sei se eu posso fazer isso, Minnie.” 

“O que é? O que você tanto quer fazer?” Seungmin perguntou, se virando para o amigo, subindo uma perna no sofá para encará-lo de frente. Jeongin olhava-o intensamente - como quase todas as vezes, na verdade -, e Seungmin, por algum motivo, sentiu as mãos suando. 

“Você me desculpa, Minnie?” Jeongin perguntou do nada, também se virando de frente para Seungmin. Seungmin não entendeu, apenas inclinou a cabeça para o lado, encarando o amigo com um ponto de interrogação visível em cima da cabeça. “Você tem que me prometer que vai me desculpar pelo o que eu vou fazer, Minnie.” 

“Jeongin, você tá me assustando,” muitas coisas passavam pela cabeça de Seungmin, desde as mais normais até as mais bizarras, mas ele não tinha a mínima ideia do que Jeongin queria dizer e fazer. Estava completamente no escuro e Jeongin estava imóvel encarando-o, como se esperasse por algo, uma aprovação ou uma negação, algo que Seungmin não fazia a mínima ideia do que era. 

Jeongin riu fraco, parecendo designado, conformado com algo. Ele não encarava mais Seungmin. Ele encarava o chão, como se estivesse com vergonha e com… medo? Mas de quê, Seungmin se perguntava. 

“Jeongin, o que está acon-” 

De repente, Seungmin não conseguia mais falar porque algo estava impedindo-o. Depois de alguns segundos, ele percebeu que esse algo era a boca de Jeongin. 

Jeongin estava beijando-o. 

Era simples e leve. Como uma brisa fresca no calor gostoso do outono. Era algo que Seungmin não estava esperando e nem sabia que precisava, mas, de repente, sentia como se o mundo fosse acabar se ele não beijasse Jeongin de volta. Sentia que o céu cairia e que o chão abriria se ele não circulasse a cintura de Jeongin com os braços e deixasse-o ainda mais perto. 

Jeongin parecia chocado; atônito, na verdade. E Seungmin se pegou pensando se ele estava assim pelo fato de estar beijando Seungmin ou pelo fato de Seungmin estar beijando-o de volta. No entanto, tal trivialidade não importava mais no momento, não enquanto Jeongin estivesse chegando mais perto e entrelaçando os dedos no cabelo de Seungmin. 

Jeongin tinha gosto de cerveja e de casa. De conforto e de certeza. Tinha gosto de algo que Seungmin precisava há tanto tempo, mas nunca realmente se deixou perceber essa necessidade. 

Às vezes, Seungmin se questionava algumas coisas. Já tinha percebido, algumas vezes, que o que ele sentia por Jeongin não era inteiramente platônico, mas nunca se deixava pensar e chegar em conclusões sobre isso.Tinha medo de interpretar errado e acabar estragando a única coisa boa da vida dele. 

No entanto, enquanto Jeongin subia no colo dele e mordia levemente o lábio inferior de Seungmin, o mais velho não tinha mais nenhuma sombra de dúvidas. Tudo estava tão claro quanto água cristalina. 

Só era uma pena que tivesse demorado tanto assim para chegar a essa conclusão. 

Seungmin passou a mão pelas costas de Jeongin, sentindo-o arfar e voltar a beijá-lo com mais intensidade, mais desejo. Sentia a cabeça girando e parecia que estava tonto, incapaz de focar em outra coisa que não fosse Jeongin, e a boca dele, e as mãos dele, o corpo dele que estava cada vez mais quente e mais perto mesmo que camadas de roupas estivessem separando os corpos deles.   

De repente, ouviram o barulho de algo quebrando do andar de cima e se separaram com pressa. As bocas avermelhadas e molhadas eram uma das testemunhas do que tinha acabado de acontecer. Só que não tinham mais tempo para falar sobre isso. Precisavam subir e ver o que estava acontecendo no andar de cima da casa de Seungmin. 

Ofegantes, se encararam por um segundo a mais antes de deixarem que a realidade caísse completamente sob eles, tentando ignorar por alguns momentos a mais o que acontecia fora das paredes grossas do porão de Seungmin. 

Sorrindo, Jeongin se aproximou e deixou um beijo no canto da boca de Seungmin, “isso significa algo, não significa?” 

Seungmin espelhou o sorriso, sentindo uma descarga de adrenalina percorrer por todo o corpo dele. Deixou um beijo no topo do nariz de Jeongin antes de se afastar e levantar, pegando a bolsa com o que eles precisavam e a bolsa de armas. 

Se significava algo? 

Definitivamente. 

Mesmo que não tivessem tempo para aproveitar, isso significava tudo

Com as bolsas nos ombros, Seungmin foi até Jeongin que estava em pé terminando de calçar os chinelos e segurou a mão dele, entrelaçando os dedos antes de levá-los à boca e beijar as falanges de forma suave. 

“Vamos?” 

“Vamos!” 

Notes:

É isso! Espero que tenham gostado.