Work Text:
Dia 19 de maio, um dia após o aniversário de Sara Chidouin. O clima estava agradável, já que era outono. Sara hoje estaria bastante ocupada, porque já que ela completou 18 anos, o Keiji havia se voluntariado para ensiná-la a dirigir (tecnicamente isso seria ilegal, mas quem se importa?). Assim, ela caminhou até a casa do policial, tocou na campainha, mas não recebeu retorno. Então, a estudante decidiu esperar um pouco em frente à casa.
Enquanto estava na espera, Sara viu um carro se aproximando da casa. Nada demais, é uma rua, afinal. O carro estacionou na calçada - era um automóvel pequeno e surrado, parecia ser um carro usado (usado era pouco, abusado seria o termo mais adequado). Dele desceu uma pessoa de cabelos azuis, roupas de frio e um gorrinho.
Esse cara lembra bastante o Sou — Sara Chidouin pensou para si mesma.
O homem andou até a porta da casa do Keiji, e os dois se olharam com uma certa confusão.
"Sou?"
"Sara?"
"Você veio ver o Keiji? Que inesperado..."
"Realmente, mas foi ele que me pediu para passar aqui."
Um silêncio um desconfortável se instaurou. Eles dois estavam muito longe de se darem bem.
"Ei, Sou..."
"Diz."
"Por que o Keiji te chamou?"
"Ah, sim... Ele me pediu ajuda."
Que estranho, o Keiji nunca precisa da ajuda de ninguém. Sara ficou curiosa.
"Ajuda?"
"...É."
"Posso perguntar em quê?"
"Tá aí uma boa pergunta... Eu não faço ideia."
"Entendi..."
Silêncio constrangedor. Novamente.
"...E você? veio aqui fazer o quê?"
"O Keiji ia tentar me ensinar a dirigir."
"Ah... Faz sentido."
"Por quê?" — A menina estava um pouco confusa pela afirmação do universitário.
"Vocês já são meio que pai e filha, nesse ponto." — Sou fala isso em um tom de chacota.
"Nem tanto." — Sara ficou visivelmente envergonhada por causa do comentário
"Se você diz..." — Ele sorri timidamente.
De repente, o celular de Sou toca e ele atende rapidamente.
É uma ligação do Keiji.
"Sou?"
"Onde você se meteu?"
"Haha... O policial aqui acabou se envolvendo em um caso mais longo do que o esperado e eu provavelmente não estarei em casa até as cinco da tarde."
"...Entendi. Então eu vou para casa-"
"Opa, calma lá. A Sara está aí, não tá?"
"Aham..."
"Faz um favorzinho então para o seu amigo policial?"
O que eu fiz para merecer isso...
"Manda."
"Eu ia ensinar a Sara a dirigir. Você tem carteira de motorista, não tem?"
Sou já sabia no que isso ia dar
"Tenho."
"Dá umas aulas aí para ela no meu lugar?"
"...Sem chance."
"Eu vou parar de pagar seu alug-"
"Ok. Eu vou ensinar." — Hiyori soou irritado
"Obrigado por ser tão colaborativo" — Keiji disse em tom de ironia — "Agora eu tenho que ir."
A chamada foi encerrada.
"Aconteceu alguma coisa?" — Sara perguntou
"Nada demais, só o usual do Keiji: não vai poder ver a gente por estar ocupado com trabalho..."
"Que pena... ele deu bolo em nós dois..."
"Enfim, ele me disse pra ensinar você a dirigir no lugar dele, mas eu acho que você não está interessada, certo?"
Diz que não tem interesse diz que não tem interesse diz que não tem interes-
O semblante de Sara ficou muito mais animado do que antes. Ela realmente queria aprender a dirigir o quanto antes.
"Eu ficaria feliz se você pudesse me ensinar o básico!"
Droga...
Juntando toda a coragem dele, deixando todos os ressentimentos de lado, e pensando no aluguel do apartamento, o jovem respondeu com um ar de cansaço:
"Um... Bem, então eu vou tentar..."
"Obrigada!"
O Sou andou em direção ao carro dele e encarou Chidouin.
"Você não vem, não?"
"A gente vai usar seu carro...?"
"Estamos sem opção."
"Verdade..."
Os dois entram no pobre carro: Sara senta no banco do motorista, e Sou no banco de passageiro da frente. O ambiente é bagunçado, e os visores estão levemente arranhados. Sara se pergunta o que aconteceu com o veículo.
"...Certo... Presta atenção no que eu vou explicar, ok?"
Chidouin responde com um joinha muito confiante.
"Primeiro... uh... o ideal seria regular o banco, mas eu acho que já deve estar ok já que nos temos praticamente a mesma altura."
"Depois tem que ajeitar o retrovisor-"
Sara começa a mexer no retrovisor do carro de uns jeitos bem estranhos. Parece que isso vai ser mais difícil do que o esperado...
"... Sara, você quer ajuda...?"
"Calma... eu consigo."
"Tem certeza?"
"Pronto. Ajustado."
A garota mostra orgulhosamente a regulagem que ela fez no retrovisor.
"... Isso aí tá errado..."
"Ah..."
"...Eu ajeito, Sara."
Sou ajusta o retrovisor corretamente. Agora eles poderão iniciar as aulas de direção propriamente.
"...Já que nós resolvemos isso, eu vou explicar pra que serve cada parte do carro."
"Estou ouvindo."
"Eh... o volante deve ser bastante óbvio: controlar a direção do carro... Depois temos esses três pedais."
Hiyori aponta para três geringonças embaixo do painel do motorista.
"Por que tem 3 pedais? Como isso funciona, eu não tenho três pés."
Como alguém pode ser tão academicamente brilhante e fazer essa pergunta? — Sou se questiona.
"Ninguém usa os três simultaneamente, Sara..."
"Eu estava brincando."
"Voltando... o pedal único na esquerda é a embreagem, que serve para facilitar a troca de marcha... Os dois pedais da direita são o freio e o acelerador."
"Ah sim! Posso testar?"
"...Não."
"Poxa..."
"Aquele troço ali é a marcha, e isso aqui é o freio de mão... Acho que com isso já dá para começar..."
Ao ouvir isso, Sara pegou no volante, ligou o carro e pisou no acelerad-
"ESPERA."
"Ué, mas você disse que podia começar, Sou..."
"Eu ainda vou explicar como dar a partida, sua maluca..."
"Primeiro você põe o pé esquerdo na embreagem."
Sara pôs o pé na embreagem.
"Aí você passa a marcha..."
"Como passa a marcha?"
"Puxa a marcha em direção à sua perna e empurra ela para frente."
Chidouin faz o que Sou mandou.
"Ok, agora desativa o freio de mão clicando nesse botão..."
O freio de mão é desativado.
"E agora pisa no acelerador de lev- MEU DEUS A GENTE ESQUECEU DO CINTO DE SEGURANÇA-"
O carro avança bruscamente, e os dois jovens quase batem no painel do automóvel.
"O QUE FOI ISSO, SOU?"
"EU É QUE PERGUNTO? EU DISSE PARA PISAR DE LEVE NO ACELERADOR."
"EU PISEI DE LEVE?"
"SARA, NÃO TEM COMO VOCÊ TER PISADO DE LEVE. O CARRO QUASE EJETA NÓS DOIS."
"DESCULPA, TÁ BOM?"
Sou respira fundo, ele não vai se submeter a discutir com uma estudante de ensino médio. Se acalmando do susto, ele continua.
"...Pisa o mais fraco que você conseguir..."
A menina pisa tão leve no acelerador que o carro não move.
"........ Pisa mais."
"Você tinha dito para eu pisar o menos que pudesse."
"... Desse jeito o carro não vai andar. Pisa e mantém o outro pé na embreagem..."
"Tá bom, seu chato..."
Finalmente o carro anda de forma estável.
"Quando eu vou poder soltar a embreagem?"
"...Daqui há uns metros."
"Já pode soltar?"
"Ainda não."
"E agora?"
"Sara, a gente não andou nem 5 metros"
"...Solta a embreagem e continua."
A direção está indo bem. O carro está se movendo numa velocidade boa.
"Certo, agora vamos passar a segunda marcha."
"Tá."
"...Acelera só um tiquinho e depois tira o pé do acelerador e coloca o outro na embreagem aos poucos e ao mesmo tempo. Depois puxa a marcha para trás o máximo que der..."
Sara tenta fazer o que foi indicado. Não dá certo.
"Eu não tô entendendo..."
"Só acelera, transiciona entre o acelerador e a embreagem e puxa a marcha..."
Eu sou uma péssima motorista — Sara estava frustrada
Ela tenta de novo.
Dessa vez foi.
"Com isso agora tenta dar uma andada pela rua, devagar."
Sara aos poucos dirige o carro pela rua inóspita, e as coisas estão fluindo bem.
"Nossa, quem diria que dirigir é tão fácil?"
"Sara, você quase matou a gente há dez minutos atrás."
"Eu não preciso ficar ouvindo sua negatividade."
"...Só não quebra meu carro... E presta atenção na rua."
"Alias, esse carro tá meio surradinho, né?"
"...Se você quer um carro chique é só predir para o seu pai."
"Eu não quero um carro chique, é só que esse carro tá caindo aos pedaços. Dava pra mandar esse negócio para o Lata Velha do Luciano Hulk..."
"...Você sabe que nesse programa eles não consertam os carros... certo?"
"...Como assim?"
"Eles só pintam o carro de uma forma extremamente brega e voilà! Carro dado como consertado."
"Mas, enfim... Não seria melhor levar o seu carro pra um conserto ou algo do tipo?"
De repente o carro colide em um poste de luz na via.
"SARA EU DISSE PRA PRESTAR ATENÇÃO NA RUA"
"EU TAVA PRESTANDO ATENÇÃO, A CURVA ME PEGOU DE SURPRESA"
Sou sai do veículo e olha o estrago.
"Foi muito ruim o dano, Sou?"
"... Ruim ainda seria generosidade, foi horrível."
Chidouin desliga o motor e também sai.
Ambos observam a frente do carro amassada e um poste da ENEL machucado. Ótimo, será que essa desgraça de poste ainda está funcionando, ou que o bairro inteiro vai ficar sem luz por quatro horas seguidas?
Maldita seja Sara Chidouin.
Os dois olham a cena perplexos, sem dizer uma palavra.
"... Sara, você tem sorte por eu não ter força nem para abrir uma garrafinha d'água... Se não, eu já teria te esganado..."
"Desculpa..."
Depois de uns bons 15 minutos de silêncio, Hiyori e Chidouin percebem uma pessoa se aproximando deles.
"Sentiram falta do seu policial amigável favorito?"
"Keiji..." — Sara suspirou.
"O que aconteceu aqui?"
"Aulas de direção..." — Sou respondeu
