Work Text:
O jogo entre os times Vorpal Swords e Jabberwock terminou. Todos ali estavam muito contentes e comemorando a vitória, menos Takao. Ele ficou sentado um pouco afastado do resto, tentando não se lembrar do jogo e dos sentimentos que o corroiam. Mas atingiu seu limite quando ouviu Kise gritar para Akashi.
— Akashi, aquele passe para o Midorima foi incrível! Vocês têm tanta sincronia! — exclamou o jogador, animado.
Kazunari apenas se levantou da cadeira e se retirou da sala, não se importando com a opinião dos presentes. Estava sendo infantil, sabia disso, mas seu coração estava partido. Era um misto de sentimentos muito fortes.
Midorima não precisaria mais de seus passes se Akashi fazia isso melhor. Obviamente não tinha como competir com a Geração Milagrosa, mas pensou que ao menos como companheiro de Shin-chan teria alguma chance, agora nem isso. Talvez ele até mudasse para Rakuzan e se tornasse companheiro de time de Akashi.
Porém o ciúmes não era só por causa do basquete, claro que não. Também tinha o fato de que Takao estava profundamente apaixonado pelo melhor amigo, por isso não suportava a ideia de perdê-lo para Akashi.
Se deu conta dos próprios sentimentos há bastante tempo, durante um treino, depois que perderam para Seirin. Shintaro estava acertando todas as cestas de três, como sempre fazia, e Kazunari o observava atentamente, analisando cada músculo, cada respiração, cada detalhe. Do levantar do calcanhar ao arremessar da bola com as mãos. Seu coração acelerava cada vez que a bola entrava na cesta. Então Miyaji se esgueirou e sussurrou em tom de brincadeira "Disfarça melhor, você está quase babando", Takao retrucou e disse que o veterano estava imaginando coisas. Contudo, a breve provocação levou o armador a aceitar algo que ele negava ferrenhamente. Estava apaixonado por Midorima.
Takao também prestou atenção nos olhares, toques e conversas, Midorima não perdia uma oportunidade de se aproximar de Akashi, parecia um cachorrinho, se olhasse com atenção era possível ver orelhas abaixadas e um rabo abanando. Ele riu desse pensamento, Shin-chan ficaria furioso se pudesse ler a mente dele agora. Se lembrou de quando Midorima contou que ele e Akashi foram amigos próximos no time do fundamental, mas se distanciaram após a mudança repentina e drástica de Akashi. Apesar de Shintaro não ser muito fácil de ler, Takao estava aprendendo, nesse dia ele viu um olhar triste e pesaroso que nunca tinha visto antes no rosto dele. Takao queria abraçá-lo, mas não o fez. Se contentou em segurar o ombro dele e apertá-lo. Se tentasse qualquer contato mais íntimo poderia acabar deixando sua paixão muito evidente e ele não queria isso, aliás queria mesmo era enterrá-la o mais fundo possível.
Andou sem rumo pelo grande ginásio até a parte de fora, onde sentou em um banco e se permitiu respirar o ar fresco. A noite estava agradável, tinha uma brisa refrescante, apaziguadora.
Ele não era louco ciumento, claro que não. O relacionamento de Midorima com o resto da Geração Milagrosa não o deixava ouriçado dessa forma. Com Aomine, por exemplo, ele poderia andar pendurado em Midorima como um chaveiro que Takao não se importaria. Kise poderia agarrar Midorima o quanto quisesse, chamá-lo por todos os apelidos do mundo, Takao achava divertido. O sentimento por si só já era sufocante, mas ele tinha noção que era um ciúmes infundado e estava sendo perigosamente injusto com Midorima. Afinal, não era como se eles estivessem em um relacionamento e, mesmo que estivessem, não deveria agir assim. Então acabava por mesclar o ciúmes com culpa por senti-lo.
Kazunari segurou a cabeça com as mãos, estava começando a pesar. Lágrimas aos poucos caíam e acabaram molhando a sua calça de moletom. Ele tentou parar, fungou e secou as lágrimas com as mangas da jaqueta, mas não funcionou. Pela visão periférica, viu uma figura alta e de cabelos esverdeados se sentando no banco, a razão de algumas de suas noites em claro. Ele se esforçou ainda mais para tentar parar de chorar, estava fazendo um papel ridículo.
Midorima mexeu nos bolsos da jaqueta do uniforme, tirou um lenço de papel e estendeu para Takao, que não hesitou em pegar e assoar o nariz.
Eles passaram alguns minutos em silêncio, Takao não queria realmente conversar sobre, mas era necessário.
— Me desculpa por ser estúpido, Shin-chan — Takao disse com a voz ainda chorosa e sorriu fraco. Deu outra fungada e assoou o nariz. — Vocês fizeram o necessário pra vencer, sei disso. Mas era a nossa jogada e eu me senti deixado de lado. Trocado por alguém melhor. Muito melhor do que eu, na verdade. O Akashi é praticamente desumano de tão incrível em quadra, o melhor armador que eu já vi. Vocês juntos seriam uma dupla imbatível em qualquer lugar do mundo. Talvez ele te convide para jogar em Rakuzan. Sim, você com certeza se daria bem lá.
Kazunari ainda não tinha coragem de olhar diretamente, então olhou de soslaio para Shintaro. O mais alto tirou as faixas do bolso e estendeu, num pedido silencioso para que Takao enfaixasse sua mão, como costumava fazer.
— Então é sobre basquete? — Midorima perguntou com sua voz grave, mas calmo como sempre.
Takao se surpreendeu com a pergunta, mas tentou não demonstrar. Pegou as faixas e começou a passar em cada dedo da mão esquerda de Midorima. Esse contato sempre lhe causava borboletas no estômago. Os dedos de Midorima eram compridos e ele os enfaixava como uma forma de cuidado. O olhar de Shintaro ativou ainda mais as borboletas que agora pareciam dançar e querer desesperadamente sair pela sua boca.
— Sobre o que mais seria? — respondeu Takao, tentando não parecer na defensiva, mas estava.
Quando terminou de passar as faixas, ele rapidamente soltou a mão do amigo e voltou a olhar para frente. Ainda podia sentir o calor da mão de Midorima entre as suas. Ouviu-o suspirar.
— Eu não vou mudar de escola, nem de time — Midorima deu uma pausa e olhou para Takao. — Muito menos de armador.
Eram palavras sinceras, Kazunari acreditava que provavelmente Shin-chan era biologicamente incapaz de mentir. Era uma das coisas que ele admirava no amigo. Mas acabava por tornar tudo pior já que se um dia ele tomasse coragem para confessar seus sentimentos, certamente seria rejeitado sem qualquer enrolação. Takao respirou fundo, tentou afastar quaisquer pensamentos ruins para longe e deu o seu típico sorriso.
— Ah, Shin-chan! Você é sempre tão sério. Já passou, não foi nada demais.
Ele estava fingindo descaradamente. Também sabia que Midorima tinha notado pela forma como ajustou os óculos e a ruga que formou-se entre as sobrancelhas.
— Achei que já tínhamos passado da fase de encenações e mentiras. Tudo bem você ficar chateado.
— Você está sendo muito sentimental hoje. A vitória te deixou mole? Já passou, eu estou bem.
Takao se levantou do banco, precisava de espaço, distância de Midorima para conseguir se organizar mentalmente. Ter o seu crush preocupado fazia seu coração bater rápido demais para o seu próprio bem. Takao ficou grato por ser noite e Midorima não poder notar seu rosto vermelho.
— Takao - Midorima o chamou.
Takao lutou internamente para não atender, mas acabou se virando. Midorima estava sério, mas era notável a sua preocupação. Como forma de confortar Midorima, Takao se aproximou e afagou aqueles cabelos verdes lindos e macios que ele tanto gostava. Não gostava quando seu amigo se preocupava demais, não entendia porque ele se preocupava tanto.
— Me conforta saber que você não vai me trocar por outro cara — Takao disse sem pensar, mas quando notou as palavras que saíram de sua boca se corrigiu rapidamente. — Ou melhor, outro jogador.
Midorima levantou a cabeça e, graças a luz da lua, Takao conseguia ver os seus olhos claramente. Escondido atrás dos óculos de grau estavam os olhos verdes que eram capazes de tirar o foco de Takao do jogo, caso não se atentasse.
— Eu não te trocaria por ninguém.
Passaram alguns minutos sem falar nada, apenas olhando um para o outro. A escolha de palavras de Midorima fizeram os sentimentos de Takao entrarem em ebulição. Ele sentiu um nó na garganta e uma vontade imensa de dizer para Midorima como se sentia, mas se confessar estava fora de questão. A amizade deles era mais importante do que qualquer paixonite idiota. Takao poderia continuar arrumando motivos fúteis para escrever mensagens de texto e receber atenção, poderia continuar se deleitando com os "e se" que sua mente projetava e, principalmente, poderia continuar ao lado dele como sempre esteve.
Takao respirou fundo e tirou a mão dos cabelos de Midorima.
— Vamos, Shin-chan! Seus amigos devem estar te procurando.
Takao estava pronto para se virar, mas Midorima segurou sua mão. O coração de Takao disparou, aquilo já estava sendo demais.
— Você não quer entrar? — perguntou Takao, tentando fingir normalidade.
Midorima estava olhando para a mão de Takao enquanto a segurava, respondeu a pergunta apenas com um aceno negativo com a cabeça.
— Kise me disse uma coisa que me deixou intrigado — disse Midorima.
— E o que seria?
— Que você ficou com ciúmes do Akashi porque gosta de mim.
O mundo ao redor de Kazunari ficou mudo por um instante, seu ouvido estava zumbindo. Seu corpo se tornou apenas um objeto vagando pelo vácuo do espaço, sua mente se perdeu e estava sendo incapaz de processar as palavras ouvidas. Um segundo foi o tempo necessário para ele imaginar todos os piores cenários possíveis que essa conversa podia levar. Rapidamente pensou em alguns planos de contenção de dano. O primeiro era negar tudo e fingir estar bravo com Kise por inventar mentiras. O segundo era rir e tratar como piada. Terceiro e último, correr como se não houvesse amanhã. O segundo venceu.
Takao respirou fundo e soltou a risada mais alta que conseguiu. Logo seu sorriso sínico já estava novamente em seu rosto.
— Ah, Shin-chan! Essa foi boa. Eu não sei de onde Kise tirou isso, ele precisa parar de assistir filmes românticos — disse Takao, ainda rindo. — Não acredite em tudo que te falam por aí.
Quando Midorima levantou a cabeça, Takao se viu sem reação. Ele parecia tão triste, abatido, parecia que tinham destruído suas esperanças. Ele rapidamente soltou Takao, enfiou as mãos nos bolsos e se levantou.
— Você está certo, Kise é um idiota!
Takao tinha certeza que nunca viu Midorima dessa maneira. Os lábios pressionados, os ombros murchos e o olhar baixo. Midorima fez menção de sair, mas Takao era quem não iria deixá-lo ir dessa vez. Pelo menos, não sem uma boa explicação. Será que Midorima...? Será que era possível?
Ele abriu os braços e fez a mesma postura de marcação do basquete. Midorima tentou sair, mas foi cercado. Sua expressão foi de tristeza a irritação em instantes.
— Me deixa passar.
— Não.
Midorima arrumou os óculos no rosto, jogou a franja do cabelo levemente para trás e tomou a mesma posição que Takao.
— As vezes você é insuportável — disse Midorima.
Takao sorriu, um sorriso genuíno. Gostava das provocações. Midorima tomou a frente e tentou furar a marcação, mas assim que chegou perto o suficiente, Takao o abraçou. Ele envolveu os braços pelo tronco de Midorima e escondeu seu rosto no peito dele.
— Por que você ficou chateado com a minha resposta?
— Não fiquei.
— Você disse que a gente passou da fase das mentiras.
Takao percebeu instantaneamente a sua hipocrisia ao querer usar esse argumentos. Como exigir sinceridade de Midorima se ele mesmo havia mentido há dois minutos? Falar a verdade poderia custar a sua amizade, mas continuar mentindo com certeza iria destruí-la. Takao estava se sentindo uma bagunça, em um momento queria ir embora, em outro queria ficar. A inconstância de seus sentimentos e pensamentos era enlouquecedora. Tomou toda a coragem que tinha dentro de si para olhar nos olhos de Midorima. Ele estava estático, parecia tão confuso quanto Takao, até mais. Não tinha reagido ao abraço, talvez nem tivesse processado direito.
— Shin-chan, eu menti. Me desculpa, mas eu gosto de você. Não quero que as coisas fiquem estranhas entre a gente. Eu estava sim com ciúmes do Akashi, me desculpa por isso também. Se você não quiser falar comigo, eu entendo.
Takao sentiu um alívio indescritível ao dizer as palavras que estavam presas há tanto tempo. Ele soltou o abraço, ainda olhando para Midorima que estava incrédulo.
— Você não precisa me corresponder, eu só quero que a nossa amizade não acabe, tá bom? Se você quiser se distanciar um pouco para se acostumar com a ideia, tudo bem — Takao tentou ocupar o silêncio já que Midorima não disse nada. — A gente ainda pode sair, jogar juntos. Você pode até fingir que nunca me ouviu dizer isso.
— Eu também gosto de você — disse Midorima.
Takao travou por alguns segundos, tentando processar essas poucas palavras. Midorima estava sorrindo, um sorriso pequeno, mas que ainda tem exalava toda a sua felicidade. Foi a vez de Midorima abraçar Takao, ele apertou forte e inalou o cheiro do cabelo do amigo, sempre quis fazer isso. Era tão cheiroso como ele sempre imaginou.
— Bom, e agora? — perguntou Takao, ainda abraçado. — Eu não estava pronto para ser correspondido, nem sei o que devemos fazer.
— Talvez um encontro. Podemos ir assistir um filme ou fazer um passeio no parque.
— Mas a gente meio que já faz isso. Qual seria a diferença?
Midorima olhou no fundo dos olhos de Takao e levou a mão até o rosto dele, lentamente desceu o rosto e tocou os lábios de Takao com os seus. Os dois estavam extremamente constrangidos, mas contentes. Suas bochechas ardiam de calor e suas mãos não sabiam exatamente o que fazer. Foi um selinho rápido, o primeiro beijo da vida dos dois.
— Essa é a diferença — respondeu Midorima, tentando fingir confiança. O que tirou uma risada de Takao.
— Acho que a gente pode melhorar isso, então — disse Takao, com um riso cínico.
Dessa vez, Takao segurou o rosto de Midorima com as duas mãos e o beijou, tentou imitar os movimentos com os lábios que tinha visto em filmes, mas na prática era bem diferente. Midorima tentou acompanhá-lo, porém como nenhum dos dois tinha qualquer experiência foi um beijo atrapalhado. O que, no final das contas, combinava com eles.
Um barulho alto interrompeu o beijo. Os dois se assustaram um pouco e depois riram.
— É melhor entrarmos, Vênus não está em uma boa posição — disse Midorima.
Takao não entendeu exatamente o que aquilo significava, mas concordou. Pegou a mão de Midorima e seguiram para o ginásio com os dedos entrelaçados. Tinham muito o que conversar, mas por agora queriam apenas curtir a presença um do outro.
Enquanto isso, não muito longe dali, cinco pessoas estavam escondidas atrás de um pequeno muro e uma tentava levantar uma lata de lixo.
— Porra, Aomine! Eu falei para você ficar quieto, eles foram embora — resmungou Kagami.
— Eu só queria tentar ver melhor, caralho — respondeu Aomine. — A culpa não é minha que a lata de lixo caiu.
— É sim, você esbarrou nela. Você tem a sutileza de um mamute — disse Kise em provocação.
— Falem baixo, eles ainda podem ouvir — disse Kuroko, ainda espreitando Midorima.
— Eu quero voltar, já não tem mais nada para ver — Murasakibara disse, já voltando para dentro do ginásio.
Todos concordaram e o seguiram.
— Akashi, me fala. Como você sabia que seu plano ia funcionar? — perguntou Kagami.
— Não foi meu plano, foi do Kise — Akashi respondeu. Ele andou um pouco mais rápido para alcançar Murasakibara e falar alguma coisa.
Ao ouvir isso, Kise estufou o peito e demonstrou estar bastante orgulhoso de si mesmo.
— Primeiramente, Kagamicchi, a forma como o garoto ali se comportava perto do Akashicchi era muito estranha e durante o jogo ele parecia bem incomodado. E eu já desconfiava que Midorimacchi tinha algum sentimento por ele, já que em todos esses anos, eu nunca vi ele tão próximo de alguém.
— Aí juntando dois mais dois, você e essa sua cabeça de vento chegaram a conclusão óbvia — disse Aomine, em tom de deboche.
Kise piscou lentamente e ignorou por completo o comentário de Aomine, continuando a explicação.
— Então, de forma primorosa, eu realizei meu plano. Perguntei a Midorimacchi se eles estavam juntos e ele negou tão rápido, estava escrito na testa dele o quanto ele estava a fim. Daí, eu disse que era uma pena, já que Takao parecia estar com ciúmes dele com Akashicchi porque gostava dele. Eu nunca vi ele levantar e sair de um lugar tão apressado — Kise concluiu, com um sorriso vitorioso no rosto. — Podem aplaudir.
Kuroko foi o único que realmente aplaudiu, mas apenas com duas palmas lentas.
— Você poderia resolver a sua vida amorosa com essa facilidade também — disse Akashi, ainda que estivesse na frente, estava ouvindo a conversa.
Kise ficou vermelho até as orelhas, mas logo riu, tentando espantar o constrangimento.
