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I guess the end is here

Summary:

Regulus pensou que fosse mais fácil ser feliz, principalmente depois de começar a medicação.

Notes:

Oioi,
por favor antes de lerem prestem atenção nas tags e se cuidem! são temas delicados e que podem ser gatilho.
essa oneshot veio da minha experiência com a minha medicação e com as minhas questões de auto mutilação, então é uma escrita bem pessoal.

Work Text:

Regulus não sente nada nesse momento. Nadica de nada. Não sente e não ouve. Mas ele sabe que em algum lugar algum aluno deve estar falando mais alto que o normal, e que deve ter um grupo sussurando fofocas por ai. Mas ele não ouve. Ele também não sente, e ao mesmo tempo sabe e sente demais.

Como pode a folha do livro ter uma textura tão fascinante e tão estranha a pele?

Bom, ele não sente muita coisa. Mas sabe que não está em casa e, infelizmente, não havia como fugir daquela sala de aula. Estar ali era a maior dificuldade das últimas duas semanas depois de ter passado tanto tempo apenas no seu quarto, como se estivesse preso no topo de uma torre, o que sinceramente não era um problema para ele.

Em algum momento desde que passou pelo corredor das salas, sorrindo para todo mundo que lhe dirigia a palavra, beijando James e dando a melhor de suas raras risadas pra alguma piadinha idiota de Sirius, Regulus realmente chegou a cogitar que não tinha como ele estar melhor. Que então aquela deveria ser a felicidade que tanto se escuta ou que talvez a medicação finalmente havia feito seu trabalho. E veja, por algum momento Regulus acreditou piamente que era exatamente isso que estava acontecendo, que conseguir levantar da cama e viver com os seus amigos era tudo que ele precisava, era tudo que a felicidade podia ser. Até ele ficar sozinho novamente.

"Sempre sozinho'', Regulus pensou, como se a solidão fosse para sempre sua própria sombra, como se rastejasse pela sua pele o cobrindo da maior vergonha que já sentiu na vida. Uma sensação de derrota paira e pousa nos ombros de Regulus. É sempre assim e parece que sempre será. Uma solidão que consome cada canto da mente de Regulus, que já fraca, inconstante, aceita que cada espaço seja preenchido, canto por canto. Impossível para Regulus nesse momento, não sentir o gosto da falsidade de cada momento minimamente feliz que teve nas últimas 24 horas. Mas veja, Regulus também conhece a própria mente a 19 anos e ele sabe, e como sabe, que ela ama pregar peças, então é só um vislumbre, uma tentação, uma semente de desgraça que o faz duvidar. Será? Será que é tudo uma grande mentira?

Regulus em algum momento, depois da volta da aula, adormeceu. Sonolento desde de que começou com os remédios. Ele não gosta, nem um pouco. Claro, ele esta melhor, ele sabe. Poxa ele conseguiu escovar os dentes essa manhã, mesmo que tenha fumado um cigarro logo em seguida, mas mesmo assim, ele gosta de pensar que já conta como uma melhora. Ele tem saído mais, consegue levantar da cama, fica animado com seu tópico favorito na aula de poções, porque a saudade de conseguir finalmente amar novamente o que sempre amou tiram metade do seu desgosto e da sensação estranha que o persegue.

Mas, agora na cama, com uma vontade devastadora de fumar de novo, Regulus só consegue sentir algo borbulhando dentro dele, e com a metáfora mais batida possivel, se equiparando a um vulcão que de alguma forma não é mais permitido explodir, chorar por meio das cinzas e se esconder por meio da fumaça. Que tipo de vulcão é esse que não parece um vulcão. Até onde Regulus sabe ele esta acordado, de olhos muito bem abertos, e não adormecido, vaziu de qualquer lágrima que queira em algum momento escorrer pelas rochas da montanha.

Em alguns dias Regulus sente como se tudo que ele tivesse dentro do seu ser, do seu ser biológico, ocupando o lugar do seu coração, do seu pulmão, do seu estomago, fosse um grande círculo vazio, mas tão vazio que não há palavras nessa terra que ajudariam Regulus a explicar essa coisa que o habita. Hoje é um desses dias, hoje não há nada pra chorar e nunca houve. Hoje não há sentido. Não há qualquer sorriso de James e qualquer abraço de Remus que faça com que ele veja sentido em estar cordado. Ele se sente mal por isso. ''Você não ama o suficiente?'' Regulus pergunta a si mesmo em tom debochado, provocador. É claro que ele os ama, ama tanto que a falta de palavras o pega de surpresa novamente. Os ama tanto que sente profundo e quente dentro dos ossos esse amor. Os ama tanto que fez, faz e faria qualquer coisa por essas pessoas. A parte ativa do vulcão, lhe passa pela cabeça, e talvez ele devesse escrever tudo isso depois em seu caderno de poesia, o qual, vaziu por alguns dias, agora vai ser preenchido com versos e mais versos.

O pensamento cômico de que ele é uma pessoa mais legal e criativa quando esta triste faz Regulus soltar um riso baixo. Não é uma mentira. Há dias que o vulcão sente coisas demais mas ao mesmo tempo não sente nada. Uma lava que ele não conhece e que sobe até sua garganta e para, no mundo limítrofe da garganta com a língua, da linha da água com o cílio, do sentir tudo e do não sentir nada.

Nesses dias Regulus pressente uma explosão, a ansiedade toma conta de todos os centímetros do seu corpo, e a antecipação o prepara para finalmente sentir, finalmente viver algo, finalmente deixar tudo sair, escorrer, preencher, trasbordar. Mas nada acontece. Nem uma lágrima. Todas as portas fechadas e trancadas com todas as magias possíveis. Infelizmente a agonia do não acontecido o persegue durante horas, o assombra com a duvida, ‘’o que resta de mim sem tudo isso? O que resta de mim se não posso viver o que sinto?’’ Regulus não sabe, e agora também não sente. Na verdade, Regulus se sente sozinho, se sente com frio, sente vontade de um cigarro, e desesperadamente sente saudade de conforto.

-

O dia que Regulus recaiu ele passou a tarde com James. Regulus se perguntava, como poderia dois sentimentos tão diferentes preencherem um único ser em um único dia?

Agora, nada se parecia como a tarde dos sonhos que teve. A luz do sol já não chegava mais em Regulus, o barulho da agua correndo já não era mais ouvida, e o calor da pele de James já não era mais sentida, e como Regulus odiava isso com toda a mirrada força que lhe restava. O abraço do seu sol já não o rodeava mais, e já não estava mais ali para acalentar a solidão profunda que tinha dentro de si, destrutiva, e corrosiva ao extremo no momento que tocava sua pele.

Nada daquilo o agradava, principalmente porque ele odiava estar sozinho. Era o momento que o mostro saia da toca, como uma cobra furtiva que o olhava nos olhos, mesmo que não o gerasse mais nem uma fisgada de medo, apenas entendimento.

Apesar disso, antes de recair, tudo que Regulus conseguia pensar era em como ele sentia saudade do arder, do sangrar, da tristeza, e infelizmente não havia tarde perfeita com James que poderia evitar sua mão de cortar a carne que queria cortar. Era triste na verdade. James podia fazer qualquer coisa, menos evitar aquilo. Regulus era inalcançável em sua completude.

Regulus hesitou por um momento porque ele também tinha receio da dor mas isso não o impediu de fazer. Era tudo que ele precisava naquele momento.

‘’Porque Regulus era assim? ’’

É uma pergunta que nem ele mesmo sabia responder, nem ele mesmo entendia e ele próprio teria vergonha de sabe-la. Que tristeza.

No momento que o corte se fez em sua coxa Regulus percebeu, de forma quase desesperada, que nem aquilo o alcançava mais. As lágrimas haviam sido tiradas dele, e a dor havia sido tirada junto. Ele não sentia mais nada no momento em que fez o primeiro corte, e nada mais ele sentiu logo em seguida.

‘’Mais fundo’’, ele pensou consigo mesmo.

Precisava ser cada vez mais e mais fundo porque o de costume não funcionava mais.

Sua coxa havia perdido a capacidade do toque, e sua pele parecia morta no sentido de que não doia mais ao ato. Qual o sentido então? Regulus esperava que em algum momento aquilo voltasse a doer, ele precisava que doesse. Precisava tanto como se sua vida dependesse disso. Um desespero tão latente que apertava o fundo de sua garganta da mesma forma como quando queria chorar, mas as lagrimas não caiam. Tiraram isso dele e o que restava se não uma felicidade falsa, minguada, frágil e que ele não conseguia sentir sozinho? Isso era realmente ser feliz?

Ele precisava que doesse, precisava muito. Talvez precisasse de uma lâmina nova, mais afiada, talvez fosse isso.

Regulus as vezes pensava que não era justo, porque nada do que sentia antes acabou, mas sim foi tirado dele, do seu alcance, mas ele sabia que aqueles sentimentos ainda existiam era profundamente angustiante. Ele queria sentir aquela tristeza por completo, até acabar, até esgotar a última gota e precisar ai sim, encher com alguma outra coisa, e alegria que fosse.

Mas também, qual o direito Regulus achava que tinha para pensar em injustiça, com tantas pessoas querendo que ele só estivesse bem. A inegável verdade, é que ele não estava bem e ele não queria fingir o contrário. Algo parecia o forçar àquilo, e ele não queria que fosse dessa forma.

Quantas pessoas Regulus via sendo simplesmente felizes, da maneira mais espontânea que um ser humano pode ser. Porque não poderia ser daquele jeito para ele também? Era mesmo injusto? Será que não seria isso que ele merecia? Será que isso é o máximo que o vai ser permitido ter nessa vida? Regulus não queria mais que fosse assim, e inúmeras vezes ele só não queria que fosse mais de forma nenhuma.

Infelizmente isso era algo que nem James, nem seu irmão e nem seus amigos podiam lhe dar, ninguém podia. Ao mesmo tempo, ele não sabia quem havia lhe roubado as sensações. Furtivamente as levado para longe e as escondido, as camuflado dentro de si da forma mais ironicamente perceptível possível. Estavam ali em algum lugar mas ao mesmo tempo não estavam, e como viver com essa contradição sobre si mesmo?

A que custo ele tomava os seus remédios todos os dias? Regulus questionava muito o custo, porque talvez tristeza foi a única coisa que sentiu a vida toda e agora que ela se foi, o que restava? Regulus a queria de volta. Ele queria passar o tempo com ela, queria viver ela, queria saber sobre ela, talvez escrever sobre ela.

Infelizmente o esforço de seus amigos em tenta-lo fazer viver não mudava o fato concreto de que a apatia o impedia e, de alguma maneira, Regulus pensava que provavelmente isso o fazia uma pessoa egoísta. Regulus só queria sentir de novo, era algo tão difícil de pedir? Ele não gostava de meios de caminho, de tristezas incompletas e muito menos de felicidades pela metade.