Chapter Text
Particularmente, eu não gosto de vocês. Não costumo me intrometer em assuntos mortais, principalmente humanos. Vocês são entediantes, irritantes. Egocêntricos e ignorantes demais para a minha pobre sanidade.
Entretanto, existem algumas almas que se salvam.
Naquele dia, enquanto vagava pelo Parque do Eterno Descanso, um cemitério particularmente agradável e pequeno no interior de Manaus, acabei me deparando com um certo funeral. Ainda era manhã, mas o sol já ardia as costas de quem se aventurava a sair sob o céu aberto. A fúria da estrela espantava até mesmo as nuvens, de forma que o céu ficava livre para manifestar sua imensidão azul, exibindo toda a sua beleza para os mortais estúpidos que sofriam no tempo abafado. Dias assim costumam ser alegres para muitos de vocês. As crianças são as que mais aproveitam embaixo de qualquer fonte de água que encontrarem. Apesar de não ser criança, Miguel provavelmente estaria enfiado no igarapé perto de sua casa, refrescando o corpo e a mente, caso sua avó não tivesse subido à Mansão dos Mortos no dia anterior.
De início, não soube ao certo o que me chamara a atenção. Até para mim foi necessário me aproximar mais para sentir o sangue mestiço correndo dentro daquele invólucro humano. Nem ele mesmo tinha conhecimento daquela parcela de magia, muito menos a mulher que o segurava pelos ombros, lhe oferecendo um carinho e apoio maternal.
Aquele garoto detestava cemitérios tanto quanto detestava as pessoas que se debulhavam em lágrimas teatrais em volta do corpo frio. Ele se lembrava de cada Natal que passara sozinho com a avó e a madrinha, na esperança de que algum dos filhos de Dona Irene se lembrasse da mãe idosa. Tinha memória dos aniversários em que a senhora alimentou expectativas durante um dia inteiro, esperando, ao menos, receberia alguma ligação. Detestava os primos que se afastaram quando Miguel começou a ouvir coisas. Detestava cada uma das vizinhas fofoqueiras que, agora, se diziam suas melhores amigas. Para ele, era óbvio que quem não buscava informações para dissimular, buscava dinheiro.
A maioria dos presentes provavelmente se arrependeria de ter perdido tempo indo até o funeral quando soubessem que os poucos bens da senhora seriam passados ao menino louco que falava com cobras. Sua tutora legal também não seria nenhum deles.
Diferente dos parentes, Miguel não chorava. Não soluçava. Mas também não segurava nenhuma explosão de emoções. Os olhos castanho-escuros do garoto se prendiam no caixão que era enterrado pelos coveiros, vazios, refletindo sua mente em branco. Eram raras as situações em que ele saía de casa sem o corpo todo coberto. Na verdade, odiava se sentir exposto e atrair a atenção de outras pessoas. Ainda assim, o tecido claro que protegia sua pele escura e avermelhada se tornava quase insuportável pelo calor. Não sabia o porquê de estar usando branco, mas lhe parecia errado demais vestir preto naquele funeral em específico. O rosto livre de expressões, mostrando como a mente estava longe dali. Sentia um aperto estranho no peito, uma agonia entalada na garganta, uma tristeza tão grande que perdia a forma e se espalhava pelo mundo ao seu redor. Nada mais importava, nada mais existia. Não tinha mais avó, não tinha mais chão.
Ainda assim, não pensava em nada. Há algumas horas sua mente parecia um carnaval de demônios, era bombardeado por pensamentos e questões que não o deixaram em paz a noite e a manhã inteira. Como seguiria a vida sem ela? Como Niara o sustentaria numa casa pequena e apenas com o suficiente para si mesma? Ele aproveitou bem a avó enquanto estava viva? Ele já tinha medos e arrependimentos demais, não conseguiria lidar com o luto. Naquele momento, porém, o mundo ficou vazio. Não ouvia, não via, não falava e não sentia nada. Era uma pedra, um objeto maciço e pesado sem perspectivas ou vontades.
O aperto de Niara em seus ombros o trazia para a realidade, mas não bastava. As mãos de sua madrinha eram os últimos fios de um tecido prestes a arrebentar, lutando contra uma força grande demais por um pedaço de pano que não fazia questão de estar inteiro.
Quando o caixão de Irene foi coberto pela terra, guardado pela eternidade ao lado de Mirian – sua filha mais velha, mãe de Miguel e tutora de Niara – algo rompeu dentro do garoto. A primeira lágrima escorreu, tímida e silenciosa, pelo rosto quente. Ele virou os lábios grossos para dentro da boca e os mordeu. Tentou regular a respiração. Não choraria ali, não na frente daquelas pessoas, não tão cedo. Não iria aceitar a partida tão fácil assim.
Muitas pessoas tentaram falar com ele no caminho para casa, Miguel não viu nenhuma. Niara respondia por ele ou simplesmente as ignorava, de acordo com o grau de inconveniência. Infelizmente, era tradição do bairro organizar um grande almoço quando alguém falecia. Era consenso que a família e os amigos em luto mereciam descansar durante aquele dia. Não precisariam cozinhar ou fazer qualquer trabalho doméstico. Miguel ajudava durante essas datas, preparava o feijão e fazia alguns trabalhos braçais, já que era péssimo em confortar, ou falar com seres humanos. Ele nunca imaginara que, algum dia, receberia aquele apoio. Não, pior, nunca imaginou que sua família negligente teria a coragem de aceitar uma ajuda de que não precisavam.
Quando chegou em casa, não se deu ao trabalho de receber ninguém, sua madrinha cuidaria disso. Ele se enfiou no quarto, sequer tirou os sapatos antes de se jogar na cama. O tempo que ficou parado, olhando para o teto, afogado em um vazio sem cor, era impossível de se saber. Podiam ser horas, podiam ser segundos. Ele não almoçou, não estava com fome. Os sons chegavam até ele, dos talheres, das conversas baixas, dos vizinhos desejando forças, das preces, mas era incapaz de ouvir. Em volta de si, crescia uma bolha, o isolando do mundo, de tudo o que existia além do vácuo.
Em algum momento, ele caiu em si. A barragem partiu e a enchente o cobriu com toda a sua fúria. Miguel, que até agora não sentia nada, sofreu tudo de uma vez. Aquela lágrima caiu novamente, mas dessa vez não estava sozinha. Ele chorou, soluçou, libertou toda a agonia que estava presa desde o dia anterior. Em algum momento, precisou se sentar no colchão. Não morreu no vazio, mas talvez afogaria no próprio pranto. Molhou os jeans claros, o piso e o rosto.
Quando inundou a alma com dor e mágoa, percebeu que não suportava mais estar ali.
Esperou sua respiração esbaforida amenizar para se colocar em pé novamente. Sua cabeça doía de tanto chorar e o rosto provavelmente estava inchado, mas nada importava naquele momento. Ele foi em direção à porta e quase a abriu, mas se conteve. Leva o casaco, menino. Quase podia escutar a voz da senhora. Ela sempre o aconselhava a se agasalhar, ele nunca a dava ouvidos quando ia para o arvoredo e sempre esfriava.
Miguel voltou, abriu o armário e retirou o casacão laranja.
Segurando a peça como se fosse um bebê ou algo igualmente frágil e precioso, ele saiu. Se deslocou rapidamente até os fundos da casa, atravessou a porta de madeira e correu para fora.
Em poucos minutos, já estava embrenhado na mata.
Aquele era o primeiro passo para o caminho que mudaria a sua vida. Em pouco tempo, tudo se transformaria por completo.
. . .
Há alguns milhares de quilômetros dali outro garoto apreciava a praia, mesmo com uma bolsa de gelo sobre o olho esquerdo.
Willian era o tipo de menino milionário que eu aprendi a ignorar. É raro sair alguém bom ou interessante de um berço de ouro. Ele e sua irmã, Alice, tinham o mundo a seus pés. Tudo sempre do bom e do melhor para os herdeiros da indústria Pinho Branco. Entretanto, ele também era especial. De uma forma diferente do incomum mestiço que lhe mostrei, claro. Aquele menino não tinha herança nenhuma de sangue. Era completamente humano assim como toda a sua família abastada. Não, seus dons iam além disso. Ele era um escolhido de Ianua.
Aquele garoto era um Duce com vocação para Sacerdote, um humano comum escolhido para representar a Deusa Mãe na Terra. Era um líder, mas também um rebelde. Não nasceu para governar anjos, mas sim para lutar a favor dos demônios. Antes dele, Ianua escolhera apenas um sacerdote mimado, vindo de família rica e vaidoso. Esse Duce em questão morreu decepado, seu corpo foi enterrado sem a cabeça, que ficou exposta durante anos no palácio da Rainha Ágatha. Claro, isso foi há muitos anos, essa história já foi modificada e recontada milhares de vezes. Ainda assim, seria encantador acompanhar a jornada daquele jovem.
Naquele dia em questão, Willian estava voltando mais cedo da escola. Era a primeira semana de aula e ele já havia conseguido uma suspensão. Não que ele se arrependesse, Will não costumava guardar remorsos de suas brigas, na verdade, achava a grande maioria justificável. Não lhe provocavam? Ele tinha o direito de revidar! Quem não gostava muito dessas explosões eram seus responsáveis. A mãe porque se preocupava com o filho, tinha medo de que em alguma daquelas brigas ele acabasse se machucando de verdade, o pai porque temia pela própria imagem e a da família. Às vezes, Will socava primeiro, gostava de irritar o Senhor Pinheiros.
Ele baixou o olhar quando entraram no condomínio. As mansões de seus vizinhos não eram nem de longe tão interessantes quanto a Praia da Barra. Observou o sangue seco e grudento em seus punhos, pintando de vermelho sua pele pálida em excesso. Conseguiu sujar seus treze anéis enquanto quebrava o nariz daquele babaca. Inferno. Fora isso, nada demais fora muito prejudicado. Bem, o uniforme estava claramente manchado, mas era tão brega que Will fazia questão de não o usar. Sua jaqueta era de couro falso, muito mais fácil de limpar do que o tecido comum. As calças eram pretas, então as poucas gotas vermelhas não eram tão aparentes.
O olho inchado doía, o corte na sobrancelha sangrava e ardia. Maurício acertara um soco em seu lábio inferior e amassado a pele contra os dentes, nada que ele não fosse capaz de suportar, mas daria um jeito naquilo assim que entrasse para não preocupar a mãe.
Quando o motorista estacionou, Willian pulou do carro com a mochila em uma das mãos e a bolsa de gelo na outra.
– Valeu, Régis. – Agradeceu o menino, pronto para entrar em casa.
O homem lhe acenou com a mão, mas interrompeu o gesto quando seu telefone tocou. Era Elisa, sua patroa e mãe dos gêmeos. O portão eletrônico já começava a se abrir, alguém em casa o viu pelas câmeras, mas Will não entrou. Ele estacou, curioso com a conversa. Quando Régis desligou o telefone, o menino não teve medo de se intrometer.
– O que aconteceu? – Indagou. O motorista suspirou antes de olhá-lo.
– Ao que parece, a senhorita Alice também vai precisar voltar para casa.
– Ela passou mal?
– Provavelmente, senhor. – Finalizou o empregado, dando partida no carro. – Até daqui a pouco.
Willian viu o veículo voltar à estrada e acompanhou sua trajetória com os olhos até dobrar à esquina. Não era de hoje que sua irmã sofria com alucinações e crises de pânico, porém, ultimamente os episódios têm se tornado mais frequentes e mais violentos. Ele se preocupava com a irmã, mas àquela altura ninguém parecia saber resolver o problema de Alice Pinheiros. A menina parecia estar sendo aos poucos consumida por uma incurável loucura.
Abaixando o gelo, o tirando de seu rosto, Will passou pelo portão, entrando no jardim de casa.
Despreocupadamente, entrou na casa, subiu pelas escadas, passou pelo quarto para deixar a mochila e os muitos acessórios, em seguida, se enfiou no banheiro. O herdeiro tomou um banho longo, quente e demorado, disposto a relaxar de verdade antes de receber a irmã.
Seu sossego chegava a ser irônico.
Dali algumas horas, passaria pela experiência mais traumática de sua vida.
