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Fandom:
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Characters:
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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2015-11-18
Completed:
2016-04-06
Words:
22,438
Chapters:
3/3
Comments:
6
Kudos:
15
Bookmarks:
4
Hits:
217

linked

Summary:

"Ou talvez tivesse medo de gostar." — às vezes, quando se conhece alguém em um jogo online, acaba se esbarrando naquilo que pode ser uma das pessoas mais importantes de sua vida.

Notes:

• Explicações simples sobre o AU: Kenma e Kuroo se conhecem jogando (para ser mais específica, League of Legends. Mas nunca joguei, eu só sei algumas coisas e preferi não aprofundar para não falar nada errado) e agora estão rumo ao seu Primeiro Encontro™.

• Eu sei, o fandom de fanfics em língua portuguesa em torno de Haikyuu é ínfimo. Tudo bem. Eu sobrevivo. Eu só precisava escrever isso.

• Quem me deu o plot foram Mitch e Kichi, então essa fanfic é um oferecimento Mikichina™. Não lembro os users delas para mencionar aqui hue

• TW: crise de ansiedade. Porque Kenma com ansiedade/depressão é real para mim.

Chapter 1: meeting

Chapter Text

Kenma Kozume respirou fundo.

Talvez seja um clichê, mas é isso: ele respirou fundo. Acordou antes do despertador tocar, seus olhos quase que dourados mirando o teto, tentando lembrar com o quê sonhara. Tinha certeza que envolvera peixes esquisitos que cantavam ópera e que ele precisava muito conseguir um cupom dourado para comprar chocolates. Ele não fazia ideia do porquê era necessário comprar chocolates dentro do sonho, mas agora tudo se esvaía lentamente de sua mente, sufocado por outros pensamentos muito mais exasperantes, e Kenma chegou à conclusão de que tinha visto filmes demais, no fim das contas. No dia anterior, Hinata viera à sua casa com uma sacola cheia de salgadinhos, refrigerante e um pendrive repleto de filmes horríveis que ambos assistiram por horas a fio. Isso tinha sido bom — esse dia precioso no qual se afundou em distrações de ordem completamente aleatória. Mas, agora, o dia havia chegado e tudo o que Kenma conseguia sentir era nada.

Isso era quase desesperador: nada.

 

Kenma Kozume respirou fundo outra vez.

 

✧✧✧

[quatro anos atrás]

kittenma: aquilo foi realmente estúpido.

hotassroo: mas você conseguiu, não conseguiu? No final, a gente fez aquele cretino se foder.

kittenma: de fato. Bem, amanhã eu estarei aqui. Você vai poder?

hotassroo. amanhã é sábado. Eu vou sair um pouco.

kittenma: [pausa] oh, okay. Depois a gente se fala então.

hotassroo: beleza, ‘tô indo agora. Até!

kittenma: até mais.

 

Kenma encarou a tela, a expressão tão morna, como aquele leite que não é nem frio nem quente, indiferente e vazia. Eram exatamente três e dez da manhã, os números no canto da tela toda iluminada em tons de verde e azul. Ainda não terminara essa parte, o que significava que não podia ir dormir ainda, então permaneceu ali, na frente do computador, seus dedos agilmente deslizando pelo teclado. É véspera do seu aniversário — doze anos — mas Kenma nunca realmente teve qualquer tipo de apreço pelos aniversários no geral.

Não fazia muito tempo que jogava aquilo, criando personagens e formulando estratégias, mas já se destacava entre os jogadores, alcançando pontos mais altos no ranking geral. Kenma se espreguiçou na cadeira, alongando os braços e massageando os pulsos doloridos, pensando se deveria apenas ir dormir e deixasse a missão para o dia seguinte. Não teria, porém, Kuroo para auxiliá-lo nisso. Não que ele fosse o melhor, porque não era: em uma simples busca, Kenma conseguia jogadores muito melhores e que não agiam de forma tão estúpida e imprudente quanto Kuroo.

Que fosse.

Após contemplar a tela do monitor por longos segundos, Kenma acaba por decidir simplesmente ir dormir. Os gestos são quase automáticos, ainda que lhe soem estranhos, deslizando sobre os botões do monitor e desligando-o. Não há mais luzes oscilantes, não há mais áudios de frases feitas, apenas silêncio. Era o bastante. Deixou os fones sobre a escrivaninha e foi dormir.

 

✧✧✧

 

Tetsurô Kuroo abriu o guarda-roupa.

Havia muitas opções: camisas brancas e coloridas e, principalmente, escuras. Calças de vários tipos, casacos e echarpes. Ele percorre cada uma delas, um tanto hesitante, um tanto agitado. O que deveria vestir?, e a pergunta não cessava por mais que repassasse as opções, por mais que considerasse o que seria apropriado. Encarou-se no espelho por um bom tempo, inspirando e expirando, analisando cuidadosamente a primeira roupa. Tinha quase certeza que Kenma sabia tanto de moda quanto uma cobra sabia voar, mas ainda assim queria passar uma boa impressão à primeira vista. Largou as roupas sobre a cama, impaciente.

Não, o problema não era a roupa em si. Se Kuroo estivesse a ir na padaria ou se encontrar com seus amigos de sempre, a escolha das roupas teria sido quase que automática, sua intuição o fazendo optar por essa e aquela combinação sem muitas dúvidas e ele ficaria bem. Era carregado de charme, o Kuroo, sempre esbanjando um certo ar de confiança e, no entanto, aqui estava ele franzindo as sobrancelhas diante do espelho pensando que maldita roupa usaria para que Kenma o apreciasse em sua versão tridimensional. Isso era estranho. Conhecia-o há alguns anos — desde os doze, mais especificamente — mas tinha a sensação de que, na verdade, Kenma permanecia um enigma por si só.

Seria um efeito das amizades online?, perguntou-se a certa altura, ou seria apenas porque Kenma era essa pessoa que mostrava-se tão pouco, demorando-se para entregar um pouco de sua confiança, como um gato arisco? Não sabia dizer, porém, e outra vez Kuroo encarou-se no espelho, pensando se deveria usar seu casaco de couro, todo preto e meio surrado, com tachas metálicas na gola e nos punhos. Casacos de couro nunca falham, certo?

Certo?

(certo)

 

✧✧✧

[três anos atrás]

hotassroo: mas você não tem aula amanhã?

kittenma: não, amanhã vai ter uma excursão não obrigatória.

hotassroo: e você não vai?

kittenma: hm, não.

hotassroo: por quê?

[pausa]

 

Tetsurô espreguiçou-se, alongando os músculos. Tinha sido um longo dia: a aula tinha sido mais complexa que o usual, os deveres de casa tomado toda sua paciência e até mesmo o jogo parecia ter sido muito mais intenso do que o normal. Tinha pensado em ir dormir mais cedo, mas a conversa com Kenma lhe distraía o bastante para perder a noção das horas, sobretudo a essa altura quando o jogo tinha deixado de ser o assunto principal. Do desempenho em cada partida, tinham passado a conversar elaborando opiniões sobre os personagens, tramas e poderes. Dali passaram a falar de outros jogos, empresas que desenvolviam, marcas e, nesse meio tempo, suas vidas pessoais eram comentadas também. Acordei doente hoje, Kuroo disse certa vez e Kenma lhe desejou melhoras à sua maneira distante e até um pouco fria. Desculpa não entrar ontem, meus pulsos estavam bastante inflamados, Kenma acabou comentando outra vez e Kuroo apenas aconselhou bastante massagem. Já fazia mais de um ano que tinha conhecido Kenma em uma madrugada insone e, agora, as conversas tinham virado parte de sua rotina, como um hábito tão importante quanto escovar os dentes ou fazer as lições de casa.

 

kittenma: acho que não quero ir de toda forma.

asshotroo: oh, tudo bem.

kittenma: você quer jogar mais uma partida?

asshotroo: vamos lá.

 

✧✧✧

 

Seria mesmo uma boa ideia?

Kenma espiou a TV por alguns minutos, enquanto manuseava as torradas com delicadeza. Convivia com a inflamação nos pulsos há anos — desde os onze anos, mais ou menos — e vivia constantemente às voltas entre massagens, pomadas e suportes. E agora iremos falar da previsão do tempo, com Kaori— Kenma decide, então, desligar a TV. Silêncio. Era melhor assim. Kenma senta-se à mesa, as torradas ainda espalhadas no prato, a sensação ainda um tanto oscilante.

Estava acostumado ao vazio.

Aos dias mornos, às coisas nunca tendo muito significado, aos jogos que se resumiam em pensar e vencer, aos momentos que se arrastavam lentamente. Não era alguém de emoções efusivas, encerrando suas frases com pontos finais, e não era alguém que demonstrava qualquer coisa além. Encarou as próprias mãos e percebeu, não sem certa surpresa, que elas tremiam. Um pouco, quase nada, mas ainda assim podia perceber o tremor lá, como uma sombra por trás, como se o corpo não conseguisse evitar reagir a algo contra a qual a mente estava lutando.

Iria conhecer Kuroo naquela tarde.

E nem mesmo Hinata, com seus sorrisos cintilantes e sua maneira única de fazer o dia sempre soar tão mais leve — porque o vazio tem um peso e, às vezes, ele pode ser um tanto esmagador — conseguiria suavizar esse fato.

Ele iria conhecer Kuroo dali a poucas horas.

E, de repente, as torradas lhe pareceram tão enjoativas, a comida tornando-se um bolo no meio da garganta, como se ela se misturasse com toda sua ansiedade acumulada por dias. Os remédios lhe ajudavam, é claro, e Hinata mais ainda, mas ainda assim seu estômago doía e sua cabeça começava a latejar. E se— e Kenma preferiu voltar ao quarto, onde poderia ficar na cama e esperar passar. Um pouco.

Talvez devesse mudar de ideia.

Talvez não fosse boa ideia.

Talvez Kuroo se sentisse desapontado, no fim das contas, e a relação deles já não seria a mais, tornando-se esquisita e distante, e isso seria muito, muito ruim.

Respirou fundo — inspire e expire, conte muito calmamente até dez, não se deixe perder em pensamentos paranóicos — e resolveu dar uma olhada nas roupas que poderia usar, abrindo o guarda-roupas e seus olhos percorrendo cada uma das combinações que possuía. Seu cérebro, porém, não parecia registrar nada como deveria registrar, mantendo-se em um modo estranho e automático, como alguém que tenta capturar areia e não consegue, porque a areia é fina e suas mãos nem mesmo são reais. Como se fosse em um sonho, e Kenma acaba por decidir uma blusa qualquer com outra calça qualquer, sem olhar direito, não porque não se importasse, mas porque a expectativa se tornara tão dolorosa que engolia todo o resto.

Jogou as peças escolhidas sobre a cama. Elas pareciam okay. Não era muito capaz de julgar naquele momento, mas confiava que conseguia escolher roupas bonitas de forma automática, sem pensar muito. Não eram as roupas mais peculiares que tinha no armário, mas imaginou que talvez não fosse tão… apropriado usá-las logo no primeiro encontro.

Primeiro encontro.

Era um encontro? Kenma lançou uma olhada nervosa às roupas, as mãos apertando o abdômen, comprimindo na área do estômago, dentes se cerrando — está tudo bem, está tudo bem, está tudo bem — pensando na hipótese, em como ela era estranha, em como isso não era um encontro, era apenas uma saída. Ele só estava tendo vida social, isso era tudo. Não sentia nada desse tipo por Kuroo, nem mesmo conhecia Kuroo para poder afirmar qualquer coisa—

(não?)

Era só um relacionamento online que se tornara agradável.

Isso era tudo.

E Kenma decidiu, então, apenas enfiar as calças jeans de uma vez.

 

✧✧✧

[dois anos atrás]

asshotroo: sabe, é estranho a gente ser da mesma cidade e nunca se ver por aí.

kittenma: nem tanto. Nós nunca vamos aos mesmos lugares, então é normal que a gente nunca tenha se esbarrado.

asshotroo: você tem um ponto. Mas eu aposto que você nunca foi em alguns lugares, do jeito que você nunca sai de casa. Já foi numa boate?

kittenma: boates me parecem irritantes.

asshotroo: okay, e boliche? Você já jogou boliche?

kittenma: [pausa] não.

asshotroo: então combinado. Quando a gente se ver, eu vou te levar para jogar boliche. Quem sabe, dessa vez eu te vença em algo!

 

Não era a primeira vez que Kuroo mencionava algo do gênero, às vezes de forma muito direta e franca — tem um filme legal passando no cinema, vamos? — outras vezes com rodeios mais singelos, como se tentasse descobrir o por quê da resistência do mais novo com conhecer Kuroo em sua versão tridimensional. O próprio Kenma não fazia ideia do por quê, mas a reação de se esquivar lhe era confortável, como uma zona segura onde devia permanecer. Tinha uma boa relação com Kuroo, isso era simples de entender, as conversas fluidas, a presença reconfortante. E ele já não jogava tão mal como antes, após algum treino e técnica, de modo que Kenma podia até mesmo desejá-lo como parceiro de jogos por suas habilidades, não apenas porque era… Kuroo.

Se algo estava bom, confortável, seguro, então não havia necessidade de interferir naquilo, certo? Kenma continuou a encarar a tela do celular, reparando que já fazia meses que não conversavam primariamente pelos chats do jogo, mas por outros programas e o tinha em sua versão online a fácil acesso em vários meios. Perguntou-se se essa parte — a de conhecer alguém pessoalmente — seria o último estágio de uma amizade, se as relações humanas deveriam caminhar como se fosse uma trajetória reta, por níveis. Não era assim que casais funcionavam? Conheciam-se, apaixonavam-se, então havia o beijo, o namoro, o noivado, o casamento, os filhos. Kenma, porém, nunca sequer pensou em níveis: o seu relacionamento com Hinata permanecia tão fresco e confortável quanto na infância, por exemplo, e as coisas tinham se mantido estáveis com Kuroo desde o princípio. Kenma cutucou o esmalte preto das unhas, sentindo-se aborrecido um tanto que de repente, sem entender exatamente o por quê. Era só um convite para sair de casa, pegar um pouco de sol, socializar com as pessoas lá fora. Não era isso que seus pais viviam dizendo que ele deveria fazer, de todo modo? Talvez fosse bom. Talvez não fosse tão ruim assim.

 

kittenma: hm, okay.

asshotroo: a gente pode se encontrar no shopping esse sábado! Por volta das duas da tarde, que tal?

kittenma: [pausa] okay.

asshotroo: você vai conseguir me reconhecer? Você já viu uma foto minha?

kittenma: [pausa] não. Quero dizer, já, você já postou algumas aqui e ali. Mas não lembro agora.

asshotroo: beleza, vou te enviar uma foto minha e daí você vai poder me reconhecer em qualquer lugar.

 

Que coisa embaraçosa.

Agora Kenma tinha uma foto de Kuro (Kuro) em seu celular, onde ele sorria confiante em suas vestes do colégio. E nunca deletara — aquela foto ficaria por anos entre seus arquivos do celular.

 

✧✧✧

 

Kuroo checou as horas pelo celular. Meio-dia e quarenta e sete, e então voltou a atenção ao espelho. Demorara mais de duas horas só para decidir a roupa que usaria, e mais quarenta longos e arrastados minutos para ter certeza se a roupa era realmente a melhor possível. Sentou-se na cama, checando o celular outra vez, limpando todas as notificações. A última mensagem de Kenma tinha sido enviada na noite passada, há mais de doze horas. Ele confirmara o encontro, o que era um bom sinal. Da última vez, Kenma havia desmarcado na noite anterior, alegando uma gripe ou algo assim. Desde então, meses haviam transcorrido até que Kuroo tocasse no assunto outra vez — ele sentia, por um motivo que não conseguia explicar, que a gripe tinha sido apenas uma desculpa inconveniente, talvez uma mentira para encobrir as reais razões e, motivado muito mais por instinto do que por racionalidade, preferiu dar ao Kenma um certo espaço antes de retomar o assunto. Percebeu, um tanto surpreso, que o encontro frustrado já fazia dois anos.

Continuou a checar o celular, muito por não ter o que fazer — o encontro seria três da tarde e já estava perfeitamente arrumado. Ajeitou novamente o casaco, pensando se deveria comer algo antes de sair de casa, ainda que não sentisse nenhuma fome. Mas talvez eles pudessem comer no shopping. O celular piscou — de novo — mas não era Kenma.

Você já está ocupado hoje, não é?, Bokuto disse entre siglas e emojis diferentes, como um código secreto. Kuroo sorriu, meio que de canto, todo torto, e seus dedos percorreram o teclado do celular com agilidade. Sim, vou encontrar Kenma. Nunca entrou em muitos detalhes sobre Kenma com seus amigos, mas eles, ao menos, sabiam que existia alguém que tomava a atenção de Kuroo em certos momentos do dia. Oh, finalmente! Espero que ele seja, você sabe, Kenma. E não um serial killer tarado e esquisito. Kuroo riu ao imaginar a voz de Bokuto dizendo aquelas coisas, em um tom leve e despretensioso. Valeu, digitou e a resposta do amigo veio rapidamente, em poucos segundos, tão cheia de emojis como antes: se ele quiser, a gente vai se reunir mais tarde. Você pode levá-lo e tudo o mais. A gente cala a boca de Tsukishima e está tudo certo. Duvidava que Kenma aceitasse essa proposta, mas era reconfortante saber que essa possibilidade estava em aberto. Valeu de novo, e Bokuto respondeu a isso com alguns emojis em sequência.

Kenma não tinha enviado nenhuma mensagem ainda e já era mais de uma da tarde. Ele não desistiria dessa vez. Era tão estranho, pensou ao encarar o celular, a tela escura, sem piscar por um único segundo. Respirou fundo e começou a arrumar a bolsa.

Talvez Kenma fosse um serial killer tarado e esquisito.

Mas ainda era o Kenma e isso bastava, por ora.

 

✧✧✧

[um ano atrás]

 

asshotroo: não era realmente gripe, era?

kittenma: [silêncio]

asshotroo: tudo bem! Mas eu ainda quero te vencer no boliche um dia qualquer.

kittenma: okay. A gente marca outra vez.

 

Estava tudo bem. Kuroo tomou um pouco mais do refrigerante, seus dentes brincando com o canudo, e ajeitou os fones. Podia ouvir a voz de Kenma, em um tom bastante monótono, lhe sugerindo fazer isso ou aquilo. Eventualmente se perguntava como aquilo se relacionaria à sua aparência — já tinha visto fotos de Kenma aqui e ali, espalhadas em alguns sites. Não que fosse uma preocupação constante, era simplesmente uma pergunta que lhe vinha de vez em quando: Kenma era alguém que fazia contato visual ou não? Ele usava as mãos para falar ou as mantinha quietas? A voz ao vivo seria muito diferente do que aquela que ele ouvia, quando estavam jogando?

Eram só especulações, claro, hipóteses levantadas em momentos como esses, quando ouvia a voz de Kenma reclamando do som que Kuroo fazia ao beber refrigerante pelo canudo ou quando as conversas eram encerradas porque Kenma precisava dormir e descansar os pulsos. Voltou a atenção ao jogo, preparando-se para aplicar os golpes enquanto Kenma lhe dava as indicações devidas. Formavam um bom time no jogo. A pergunta era se formariam um bom time para o resto da vida.

 

✧✧✧

 

Quando o som da campainha ressoou pela casa, a sensação imediata foi a de entrar em estado de alerta. Kenma ergueu os olhos na direção da porta, suas mãos ainda segurando o tubo de removedor de esmalte. Ouviu a voz familiar conversando com sua mãe e os passos cada vez mais próximos. Não demorou nem mesmo dez segundos para perceber quem tinha chegado, e logo começou a tentar lembrar se tinha marcado algo com Hinata ou algo do gênero. Não, não tinha — Hinata viera no dia anterior com todos esses filmes e Kenma contara ao amigo sobre a saída com Kuroo. Hinata tinha parecido bastante entusiasmado pela ideia — oh, aquele cara com quem você fica jogando? O que você quase foi ver uma vez? Finalmente! — e perguntado sobre o que eles fariam ou que filme veriam se fossem ao cinema. Por algum motivo, Kenma não sentia essas perguntas como intrusivas, mas como algo que diminuía sua ansiedade. Se fosse outra pessoa a perguntar, provavelmente tudo o que sentiria seria enjôo, mas saindo dos lábios de Hinata, a sensação era de que conseguir responder a essas perguntas era uma espécie de guia que lembraria quando fosse a hora. Somente por isso que não cancelara outra vez: porque ter em mente um conjunto fechado de coisas para se fazer lhe deixava mais tranquilo, de uma certa maneira.

Além do mais, Hinata saiu de sua casa saiu muito tarde e Kenma achou que seria muito inconveniente mandar uma mensagem de cancelamento (pela segunda vez!) às três e meia da madrugada.

— Alô — Hinata disse, adentrando o quarto do amigo, o sorriso aberto como sempre. Kenma lhe lançou uma olhadela, e Hinata pareceu sem jeito, coçando a cabeça — eu não vou ficar, juro. Eu só esqueci um negócio—

— Seu pendrive — Kenma respondeu, apontando para a escrivaninha, onde o pendrive estava, jogado entre o teclado e o mouse — e minha mãe colocou sua camiseta para lavar. Você não vai poder pegá-la hoje. Sinto muito.

Hinata soltou uma risada sem graça. No dia anterior, ele tinha esparramado refrigerante de laranja sobre a camiseta entre um filme e outro de um jeito tão desastrado que não houvera outra solução além de trocar por uma das camisetas de Kenma.

— Bem, eu queria te devolver a sua camiseta também — Hinata disse, erguendo a sacola que tinha em mãos — minha mãe lavou essa manhã e já está seca! Daqui a pouco você vai ao shopping, né?

— Sim.

— Boa sorte! Espero que Kuroo seja um cara legal — Hinata franziu as sobrancelhas por um segundo e logo anuviou a expressão, voltando a ter o mesmo sorriso radiante e confiante — quero dizer, que ele não seja… um desses caras esquisitos. E se… você pode me ligar, certo? Qualquer coisa.

— Okay.

Hinata ficou em silêncio por um tempo, parecendo desconfortável, sem saber se deixava a camiseta sobre a escrivaninha ou sobre a cama ou se apenas pegaria o pendrive e iria embora. Permaneceu ali até decidir, deixando a sacola no chão, ao lado da escrivaninha e pegando o pendrive.

— Essa roupa ficou bem — disse, em seu melhor tom de encorajamento.

— Obrigado, Shõyõ — foi tudo o que Kenma disse e se fosse alguém que costumasse sorrir, ele sorriria naquele momento para o amigo. Hinata, porém, pareceu se sentir satisfeito com aquilo, porque sorriu ainda mais abertamente, sua presença funcionando como um raio de sol que estimulava e reconfortava. Para Kenma, era como se Hinata fosse o ato de sair de casa e se sentir uma pessoa normal, mas sem as partes negativas de interação social em excesso.

Hinata despediu-se e se retirou, deixando Kenma sozinho encarando o esmalte escuro de suas unhas. Tinha pensado em remover, mas agora já não sabia se era a melhor ideia. Além do mais, já era mais de uma da tarde e se demorasse mais tempo ali, iria se atrasar.

Decidiu manter o esmalte. Ele estava bonito.

Não tinha comido nada, é verdade, mas se enfiasse qualquer coisa, iria vomitar de tanto que era o enjôo. Mas tinha penteado os cabelos, escolhido uma roupa apropriada, verificado se estava com dinheiro e se tinha carregado o celular.

Ele estava pronto.

 

✧✧✧

[quatro dias atrás]

 

hotassroo: que tipo de lugar você costuma ir?

kittenma: nada de especial. Shopping, acho.

hotassroo: só shopping? Você sai bem pouco, heh.

kittenma: [pausa] sim. Mas o shopping reúne bastante coisa. Poderia ser lá.

hotassroo: beleza. Eu vou só checar se eu estou livre e te confirmo, okay?

kittenma: [pausa] okay.

 

A sensação incômoda de déjà-vu lhe assaltava, como o eco de algo que já aconteceu há bastante tempo. Da outra vez, tinham marcado com mais de uma semana de antecedência e Kenma havia passado quatro dias pensando repetidamente sobre o bendito encontro até mandar a mensagem cancelando tudo, com medo demais de ir e com medo demais de desistir e transmitir ao Kuroo a impressão de que ele não se importava o suficiente. Ele se importava, a verdade era essa, e se importava tanto que simplesmente não era capaz de suportar o encontro naquelas circunstâncias, dois anos atrás.  

Mordiscou as pontas dos dedos, seus dentes arrancando pedacinhos das cutículas, sem nem perceber o que fazia. Não queria desistir dessa vez, a questão era essa, mas não fazia ideia se suportaria. Não sabia o que deveria esperar daquilo, e não sabia se era adequado imaginar como seria Kuroo — sua voz, seus gestos, o fato de que a sua presença se tornaria algo real e palpável, algo do qual ele não poderia mais se manter distante. E se isso afetasse a maneira como conversavam online? E se descobrisse que não gostava muito da maneira como Kuroo reagia às coisas, e se desapontasse? Ou, pior, e se Kuroo desgostasse dele?

Ao perceber que tinha estragado todo o esmalte das unhas, tudo o que Kenma fez foi soltar um longo e frustrado suspiro antes de pegar o removedor e consertar cada uma delas, com toda a paciência.

Decidiria depois sobre tudo.

Ainda tinha três ou quatro dias. E quanto mais tempo demorasse para decidir, menos tempo hábil tinha para desistir e isso era bom — em algum lugar dentro de sua mente, isso funcionava como uma pressão. Porque haveria um ponto que uma vez ultrapassado, Kenma não poderia mais recuar e, bem, era ir ou ir. E Kenma queria ir. De alguma maneira, ele sabia disso, com suas unhas roídas e sutis tremores que já se iniciavam ali.

Ele queria ir.

Era só porque desistir parecia mais fácil.

 

✧✧✧

 

O shopping era imenso, concentrando mais de cem lojas diversas de roupas, jogos, sapatos, itens de maquiagem, brinquedos, doces, tudo que você possa imaginar. Kuroo, particularmente, gostava do fato de que o shopping servia como um ponto de partida, um lugar que você podia encontrar pessoas, comprar algo necessário e, dali, partir para algo mais interessante. Ele colocou as mãos nos bolsos do casaco, seus olhos percorrendo o ambiente à procura de alguém que se encaixasse nas fotografias que tinha visto de Kenma. Elas não ajudavam muito, sendo franco, mas não era realmente culpa de Kenma. Ele tem o cabelo loiro, Kuroo disse a si mesmo, permanecendo em um ponto estratégico na praça de alimentação, e é mais baixo que você, ele já te disse isso. Não deve ser tão difícil.

Checou o celular outra vez. Nada de mais. A última vez que Kenma tinha visualizado as mensagens tinha sido vinte e dois minutos atrás, segundo o programa, mas ele tinha se mantido em silêncio. Okay, pensou enfiando o celular nos bolsos. Ele não vai desistir a essa altura, vai? Respirou fundo, tocou no cabelo mais uma vez, e conjecturou se Kenma era o tipo de pessoa que atrasava ou não.

E, de repente, tudo o que conseguia pensar era sobre as coisas que não sabia sobre o Kenma. Se ele tinha o hábito de se atrasar ou não, quais roupas ele costumava usar para sair de casa, por qual lado ele entraria naquela praça de alimentação, pequenas coisas que ele sabia sobre Bokuto ou Tsukishima e não fazia ideia sobre Kenma. Coisas sutis, detalhes que quase são esquecidos e que, do nada, tornavam-se tão importantes porque poderiam lhe deixar mais tranquilo nesse momento. O mero fato de que não fazia ideia nem de qual era a entrada que Kenma usaria para chegar até ali, um lugar tão grande e tão cheio de pessoas, já era um fator que pesava em seu nervosismo. E se não conseguisse vê-lo a tempo? E se ele já tivesse chegado e não tivesse visto? Há quanto tempo ele chegaria?

Então, o celular vibrou.

 

kittenma: estou a caminho.

 

✧✧✧

[um dia atrás]

 

hotassroo: combinado então. Praça de alimentação, shopping, três da tarde?

kittenma: sim. Eu te mando mensagens qualquer coisa.

hotassroo: fechado. A gente pode ver um filme depois ou algo assim, se você quiser.

kittenma: pode ser. Aquela foto de antes continua valendo, suponho.

hotassroo: estou mais bonito que aquilo, mas sim, continua valendo. Ou você acha melhor eu te enviar outra?

kittenma: talvez fosse.

hotassroo: okay, só espere um segundo então.

 

Kuroo escolheu a foto com cuidado, escolhendo uma que tirara há poucos dias, antes de sair com os amigos. Seu cabelo estava particularmente decente, brilhante e sedoso, e o sorriso que Kuroo lançava à câmera estava carregado de charme. Imaginou se Kenma já não havia visto aquela foto, porque postara em suas redes sociais e ganhado um número considerável de curtidas e comentários positivos. Mas Kenma não pareceu ter conhecimento da foto — ou apenas não verbalizara a respeito — de modo que a enviou sem fazer cerimônias. Kenma retribuiu lhe enviando uma foto qualquer de si, e agora ambos tinham um retrato atualizado de como o outro deveria parecer.

Observou a foto de Kenma por um bom tempo. Nunca havia parado para analisar uma foto do amigo desde que haviam jogado a primeira partida juntos, mas agora demorava-se, tentando decorar os traços. A maneira como Kenma tinha os ombros caídos, seus olhos inexpressivos, a expressão neutra — não era nem que Kenma fosse sério, porque pessoas sérias tendem a transmitir uma certa firmeza em suas posturas que podia ser intimidante. Oh, não, Kenma não pareceu esse tipo de pessoa em sua expressão capturada pela fotografia. Ele só parecia indiferente. Como um gato que simplesmente não se importava com as coisas e você precisava fazer um trabalho duro para cativá-lo.

Quando dormiu, sonhou com gatos de pelagem clara e olhos dourados.

 

✧✧✧

 

Kenma passara os últimos quarenta e cinco minutos trancado em um box do banheiro do shopping, sentado sobre o vaso sanitário com a tampa abaixada, seus olhos encarando a porta enquanto sua mente divagava de forma ridícula e aleatória. Não era grande coisa. Não era nem mesmo perto de ser uma grande coisa. Tinha se arrumado, tinha saído de casa, tinha tomado os remédios e isso era um bom começo. Agora tudo o que precisava era sair dali e se direcionar até a praça de alimentação, onde Kuroo lhe esperava, provavelmente. Segurou o celular entre as mãos, e o ligou, seus dedos já buscando pela foto do amigo.

Certo. Era a ele que devia procurar.

Que sensação detestável — cerrou os dentes — como se um polvo estivesse a apertar seus pulmões em um aperto. Pensou em comer algo, para ver se a sensação de fazer outra coisa além de segurar o celular tão firmemente, lhe distrairia, mas a garganta reagiu diante da cogitação, e o enjôo se intensificou. Seu celular vibrou, a tela se iluminando, fazendo Kenma despertar do seu transe por um segundo. Então? Já o achou? Você está em perigo mortal? e o pequeno avatar de Hinata piscou ao lado. Kenma quase sorriu, a pressão se atenuando um pouco. Ainda não. Ele deve estar lá em cima, respondeu, sem dar maiores detalhes. Hinata entenderia a mensagem por trás. Se você colocar uma sombra, o sol não insistirá em invadir esse espaço que você se cercou. Ele vai te cercar, simples assim, esperando pelo momento que você se sentirá muito frio na sombra e desejará sentir os raios solares, mornos e doces, em sua pele. Às vezes há dias quentes demais, e Kenma preferia simplesmente se resguardar em sua casa. Mas há dias, contudo, que sentir o sol era mais que desejável, era necessário. O celular piscou outra vez e Kenma checou as mensagens. Apenas mande uma mensagem dizendo que já chegou. Está tudo bem.

Fazer isso — escrever a mensagem — tinha sido difícil.

Mas fez.

 

asshotroo: já chegou? Okay, estou aqui em frente à escada rolante. A da direita!

 

✧✧✧

 

Kenma ainda estava com os olhos grudados no celular, observando atentamente a foto, ligeiramente irritado porque, de repente, suas mãos estavam tão úmidas quando subiu para o segundo piso, onde ficava a praça de alimentação. Escada rolante. A da direita. Eram informações simples, que podiam ser armazenadas de uma forma lógica. Estava tudo bem. No que chegou ao segundo piso, parou ali por um tempo, seus olhos varrendo o ambiente. Viu diversas pessoas: famílias e grupos de amigos que riam e tagarelavam, sentados em mesas, cheias de sorrisos, consumindo todo o tipo de comida. Era tanta gente, e Kenma sentiu o menor descompasso em sua respiração ao notar esse fato. Onde será que Kuroo estaria?, perguntou-se, suas mãos segurando o celular quase como uma mãe agarrando o filhote. Não queria mesmo ficar procurando pelo amigo naquele lugar tão cheio, dando voltas e se encontrando nitidamente perdido. Isso soaria tão, tão patético—

— Boo.

(respire, respire, respire)

Kenma virou-se, percebendo quase que imediatamente a presença de Kuroo atrás de si, toda sua altura e o modo como ele lhe concedia um sorriso que, apesar de torto, não continha em si nenhuma malícia. Embaraçou-se ao perceber que o celular ainda tinha a tela iluminada, onde a foto de Kuroo mantinha-se bem nítida, e imediatamente enfiou o celular no bolso do casaco, aproveitando a ocasião para esconder as mãos — não queria que Kuroo percebesse que elas tremiam, muito mais do que o normal.

— Oh-olá — Kenma disse, seus olhos se desviando dos de Kuroo em um instante, os ombros ainda mais retraídos que o comum.

Era engraçado: passara tanto tempo a se preocupar se ele conseguiria distinguir Kuroo entre os outros, se seria capaz de perceber a sua presença e, agora, percebia que tinha sido uma preocupação infundada. Saberia quem era ele mesmo em uma multidão de cem pessoas, só sabendo, sem nenhuma razão lógica para tal. Pensou se Kuroo pensaria a mesma coisa sobre ele. Se ele também seria fácil de se distinguir, se Kuroo o tinha reconhecido tão facilmente a ponto de chamá-la por trás, certo de que estava falando com a pessoa certa.

— Como você está? — Kuroo inclinou a cabeça para trás, também colocando as mãos nos bolsos tal qual Kenma, mas por um motivo que diferia. Enquanto Kenma não sabia o que fazer com as mãos e as escondia, por embaraço, Kuroo convertia naquilo em uma pose descontraída, como se fizesse aquilo todos os dias.

— Bem — respondeu Kenma e Kuroo soltou uma risada baixa, um pouco nervosa. Então o amigo era tão monossílabo na vida presencial quanto na internet. Nenhuma surpresa até aqui.

— Você comeu algo antes de sair de casa? Eu acabei não comendo nada — Kuroo confessou, inclinando-se um pouco na direção do amigo, e apontou as mesas, num geral — então pensei em comermos algo. Se você quiser.

— Hm… tudo bem. — Kenma concordou.

Não tinha comido nada além daquelas duas ou três torradas que empurrara para dentro tão miseravelmente. Então concordou, esperando que conseguisse comer agora alguma coisa, agora que Kuroo estava ali, tão perto, a fácil alcance. Era real. Que coisa estranha pensar nisso: era real.

Escolher a comida não foi tão difícil: a despeito das facilidades que a praça de alimentação de um shopping oferece aos amigos com gostos variados, eles perceberam que tinham alguns gostos em comum e entraram em acordo em escolher um dos fast-foods simples e rápidos. Kenma fez primeiro o seu pedido, depois Kuroo e foi em silêncio que Kenma agradeceu intermanente por esses minutos que a conversa era obrigatoriamente sobre a comida, a fila, a compra. Era uma socialização fácil, uma que ele conseguia lidar. Então sentaram-se à mesa, e já não sabia mais o que fazer. Tinha repassado cada uma daquelas coisas com Hinata, que tinha feito tudo soar tranquilo e sem surpresas, mas agora tudo escapava de sua mente e só conseguia pensar que estava, de fato, na frente de Kuroo.

— Você quer ver algum filme mais tarde? — Kuroo perguntou, entre uma mordida e outra em seu sanduiche.

Era uma boa ideia. Assistir filmes significa não ter que falar e, por agora, isso era bom. Duas horas nas quais poderia ficar ao lado de Kuroo, mas sem nenhuma obrigação de arrumar assunto. Isso, na verdade, era uma excelente ideia e Kenma concordou quase que imediatamente.

— Okay, então a gente vê os horários depois. Você tem horário para voltar pra casa?

— Hm, não exatamente — Kenma murmurou, tentando descobrir como definir a sua situação. Não contara aos pais que estava saindo para ver um amigo que conhecera pela internet, porque não estava com o menor humor para lidar com a constante apreensão de e se ele for um desses pedófilos, mas Hinata sabia de tudo que fosse necessário. E seus pais tinham ficado quase que aliviados quando Kenma dissera que ia “sair com amigos”. Deu de ombros, então  — se eu ligar para os meus pais e avisar onde estou, não terei grandes problemas. O que você—

— Não quero te sequestrar nem nada — Kuroo soltou uma risada, e aquela fala, só aquela risada, o jeito despretensioso com o que ele se movia, dando olhadelas ao amigo já fazia Kenma se sentir um pouco mais confortável, sem nem saber o por quê — é só para eu me programar. Porque, se sobrar tempo, a gente pode ir no boliche que te falei! Você tem aula amanhã? Não, né?

— Não — Kenma respondeu, seus olhos mirando o copo de refrigerante que Kuroo segurava, os dedos do garoto em torno do plástico estampado com os logotipos da marca. Era um tanto distrativo, observar a maneira como os dedos de Kuroo seguravam o copo, e era pior ainda quando fazia o caminho do refrigerante, percorrendo o olhar pelo canudo que terminava entre os lábios de Kuroo. Kenma desviou o olhar outra vez, a sensação de enjôo voltando repentinamente, porém muito mais fraca e mesclada em meio a um turbilhão de pensamentos que ainda não conseguia decodificar de forma racional. Talvez estivesse nervoso demais. Com medo demais de abrir a boca. Com medo de se desapontar. Talvez.

Ou talvez tivesse medo de gostar.

 

✧✧✧

 

Kuroo quem tomara a decisão final sobre o filme. Kenma pareceu especialmente entediado diante de dois filmes cujos pôsteres eram coloridos e felizes, e não demorou nem um segundo para observar um pôster especialmente sombrio, com silhuetas, armas e uma sugestão qualquer de que era um filme sobre intrigas e muito dinheiro em jogo. A partir disso, Kuroo simplesmente perguntou se estava bem um filme de ação envolvendo robôs e um futuro distópico. Kenma concordou, sem fazer ressalvas, então essa parte tinha sido tranquila.

Haviam jogado na área dos jogos enquanto esperavam dar o horário do filme, aquela uma hora e meia escapando por entre os dedos de uma forma agradável. Kenma não falava muito, sim, e Kuroo constantemente corrigia a própria postura para não parecer minimamente nervoso, mas havia sido bom. A conversa não fluía como nos chats, mas ela já não se interrompia em vazios desconfortáveis e, sim, em silêncios amenos e, eventualmente, o próprio Kenma iniciava algum tópico, comentando a respeito dos jogos, fazendo algumas referências e conexões que provocavam mais discussões. Sim, isso era bom.

Quando as luzes apagaram, Kuroo aproveitou o escuro para se virar na direção de Kenma, dando uma longa olhadela. O seu rosto estava iluminado em tons de branco e vermelho, pelas imagens que passavam na tela, e pensar nisso fez o mais velho sorrir. Então ele deve ficar assim quando joga, pensou por um segundo, todo concentrado e o rosto iluminado só por uma tela. Voltou a atenção aos créditos iniciais do filme no instante que percebeu que Kenma reparara que estava sendo observado, as bochechas quentes e ardentes. E sabia — mesmo que não estivesse olhando — que Kenma estava fazendo agora a mesma coisa, de observá-lo por alguns segundos, talvez pensando a mesma coisa. Então Kenma voltou a ver o filme, ainda nos créditos iniciais.

Não se sabe quanto tempo demorou, mas houve esse momento no qual Kuroo passou a pipoca ao Kenma — nenhum dos dois estava com fome, mas quando um perguntou se comeriam pipoca por educação, o outro ficou sem graça de responder que não precisava e o primeiro já não quis negar e, no final, agora estavam com um saco imenso de pipoca que mastigavam monotonamente — e não recuou a mão, mantendo-a sobre o braço da poltrona. Kenma manteve o saco sobre o colo, comendo com a mão direita, e acabou por decidir deitar o braço esquerdo, mas acabou por encontrar com o de Kuroo no meio do caminho, como dois braços dividindo o espaço, lado a lado.

O impulso de Kenma foi recuar, ao passo que o de Kuroo foi segurar — e isso foi estranho, algo que não estava previsto nos cenários mentais projetados por Kenma e Hinata — seus dedos segurando o pulso tão levemente, quase uma carícia, e sem saber muito bem o que fazer, Kenma acabou por ceder, aceitando o toque.

Era só um aperto de mãos, certo?

Kenma voltou a atenção ao filme, fingindo que não tinha acontecido nada. Talvez isso fosse comum entre os amigos, pensou, talvez seja apenas uma das coisas misteriosas e enigmáticas que a socialização humana envolve. Talvez não fosse uma grande coisa, talvez não tivesse que fazer disso algo importante. Kuroo o observou por alguns instantes, e manteve os dedos entrelaçados aos de Kenma, o toque agradável e suave ao mesmo tempo que era estranho. Era como estar em um lugar que você tem a sensação de já ter conhecido, ainda que nunca nem sequer tenha pisado naquelas bandas em toda sua vida — a de um lar que você reencontrou.

Era só dedos entrelaçados.

(e muitas coisas começam com dedos que se entrelaçam.)