Work Text:
Kelvin estava em seu quarto, ajeitando suas roupas no armário quando Ramiro chegou.
- Noite, Kevinho.
Kelvin olhou em sua direção de soslaio, mas logo desviou o olhar sem responder. Ramiro não estava acostumado com o tratamento de silêncio, mas sabia que havia chateado Kelvin quando não respondeu suas mensagens.
- Ei... - disse Ramiro, o segurando suavemente pelo braço.
Kelvin tentou se desvencilhar, mas Ramiro reforçou seu aperto.
- Me deixa, Ramiro.
- Não, não inté cê ouvir minhas desculpas.
- Eu não quero suas desculpas. - disse Kelvin o encarando. Seus olhos brilhavam com lágrimas não derramadas. - Eu não quero nada que venha de você.
Ramiro o soltou, surpreso com a raiva que ouviu na voz de Kelvin, que se afastou em direção as portas duplas que davam para o solário, cruzando os braços sobre si mesmo, as lágrimas caiam livremente agora.
Após um momento de silêncio, Kelvin se virou.
- Ramiro, o que você quer?
Ramiro franziu o cenho.
- Eu vim te pedir desc...
- Não, não, não, não, não. - Kelvin o interrompeu. - O que você quer disso? - disse ele gesticulando entre os dois.
- Nós semo amigo... - disse Ramiro incerto. Kelvin fechou os olhos e instantaneamente Ramiro percebeu que havia dito a coisa errada.
Kelvin limpou as lágrimas o melhor que pôde e respirou fundo.
- Certo. Escuta, eu preciso trabalhar, nós nos vemos depois.
- Mai eu nem pedi...
- Está tudo bem, Ramiro, vamos esquecer isso, mas eu realmente preciso descer agora.
Kelvin fez um sinal na direção da porta para que Ramiro saísse e caminhou em direção a ela.
Ramiro de repente se sentiu de um jeito estranho que ele não sabia explicar. Ele assentiu de cabeça baixa e saiu, com Kelvin logo atrás. Ao chegar ao bar, Kelvin imediatamente começou a bradar ordens ao redor, ignorando Ramiro completamente.
Ramiro foi em direção à saída, mas ao entrar no carro não conseguiu se fazer ligar a chave, mas tampouco conseguia voltar. Ficou parado ali pelo que pareceram horas, até que ouviu a porta do passageiro abrir. Era Kelvin.
- Pensei que tinha ido embora. - disse Kelvin olhando para as próprias mãos em seu colo depois de sentar no banco e fechar a porta. Sua voz era quieta.
- Eu não consegui, não. - disse Ramiro. Kelvin então olhou para ele.
- Por que?
- Eu não sei, senti um negócio esquisito bem aqui, - passou a mão sobre o peito - quando ocê mandou eu ir embora. - houve um instante de silêncio até que Ramiro se virou para Kelvin. - É assim que ocê se sentiu aquela vez que eu mandei ocê embora do quartinho?
Kelvin desviou o olhar sem responder, mas seu silêncio parecia confirmar.
- Ocê me desculpa, viu, Kelvin. Ocê sabe que eu sou um jumento, mai eu não quero ficar longe d'ocê, não.
- Então por que você sumiu por dois dias, Ramiro? Por que não respondeu minhas mensagens? Eu estava preocupado e você só me ignorou. - Kelvin soava magoado,
Ramiro permaneceu em silêncio, mas parecia aflito, e Kelvin saltou para a conclusão que lhe pareceu mais óbvia. Ele baixou os olhos.
- Você... você não gostou do beijo, é isso?
Ramiro franziu o cenho.
- O quê?
Era isso não, era? Kelvin pensou. Por isso ele parecia nervoso depois, por isso a desculpa de que precisava ir pois tinha que trabalhar, por isso o silêncio de dois dias. Ele não sabia como dizer a Kelvin que não o queria desse jeito, mesmo que o amasse.
- Está tudo bem, Ramiro. - sua voz era frágil, ele sentiµ um nó na garganta, mas estava determinado a não chorar, ele precisava fazer isso direito. Ele segurou uma das mãos de Ramiro em um aperto firme.
- Escuta, você não precisa fazer nada que você não quer. Aquilo que eu disse sobre me recusar a ser viúva de um marido que eu nunca tive, aquilo foi jeito de falar, viu? Eu não falei sério, a gente não tem.... - Kelvin gesticulava freneticamente agora, sua fala era acelerada e seu aperto sobre a mão de Ramiro se intensificou, ele só precisava que Ramiro entendesse. - A gente pode continuar com os apertãozinho. Você gosta dos apertãozinho, certo?
Ramiro assentiu.
- Então pronto. - Kelvin bateu palma. - Vamos esquecer isso.
- Mai Kevinho, eu gostei do beijo.
- Quê? - agora era Kelvin quem parecia confuso. - Mas então por que...
Ramiro suspirou.
- Olha, Kevinho, eu fiquei pensando nas coisas que ocê falou, sobre sair de Nova Primavera e deixar o patrão. Mai Kevinho, isso não vai dar certo, não.
Kelvin suspirou, mas aquilo não era inesperado.
- Tem certeza que era só isso? Que você não se sentiu pressionado a...
- Beijar ocê? - Ramiro completou. Kelvin assentiu.
- Eu beijei ocê porque eu quiz. Eu queria beijar ocê faz é tempo. - Ramiro estendeu a mão pra fazer um carinho na bochecha de Kelvin. - E eu gostei, eu gostei demais.
Kelvin deu uma risadinha nervosa. - Isso é... - ele engoliu. - Isso é bom,
- É... - Ramiro começou a se inclinar, com os olhos vidrados sobre os lábios de Kelvin. Sua mão escorregou da bochecha para a nuca, instando-o a se aproximar. Kelvin sentia como se fosse hiperventilar, sua respiração soava alta em seus ouvidos.
Seus lábios finalmente se uniram. E no fôlego seguinte, suas bocas se abriram para deixar o outro entrar.
Kelvin colocou as mãos sobre o peito de Ramiro, amassando sua camisa em punhos, enquanto a mão de Ramiro deslizou para o seu cabelo, segurando de maneira firme, enquanto a outra apertava sua cintura.
Eventualmente, eles tiveram que se afastar para respirar. Eles apoiaram as testas uma na outra, tentando normalizar a respiração, ainda com os olhos fechados.
- Mato Grosso do Céu. - disse Ramiro ofegante.
- Sim. - Kelvin concordou.
Eles olharam um para o outro, um olhar que transmitia afeto, desejo e felicidade em igual medida, e permaneceram assim completamente absortos até que as vozes dos últimos clientes do bar saindo chamaram a atenção dos dois. Ramiro se virou para Kelvin.
- Eu preciso ir que eu trabaio cedo, ocê sabe que eu sou homi trabaiador.
- Eu sei. - Kelvin sorriu afetuoso. Ele estendeu a mão para fazer um carinho no cabelo de Ramiro e deu um beijo na sua bochecha, mas quando estava prestes a sair do carro, foi puxado para um último beijo. Foi apenas uma pressão firme e rápida de lábios, mas Kelvin sentiu que a pele das suas bochechas ia rasgar com a força do seu sorriso.
Kelvin finalmente saiu do carro e fechou a porta.
- Boa noite, Rams Rams. Sonhe comigo! - disse ele em tom coquete.
- Noite, pequetito! - Ramiro respondeu com um sorriso torto.
Ele observou enquanto Kelvin se afastava do carro em direção à entrada do bar, então finalmente ligou o motor do carro e partiu.
