Chapter Text
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Entre escamas e mechas azuis
Chanyeol perdeu as contas de quantos cocos abriu naquele início de tarde.
Aquela sexta-feira estava especialmente quente e abafada, o que fez o movimento no quiosque aumentar consideravelmente. Todos que iam até lá queriam bebidas geladas. Para ser mais exato, queriam água de coco. Desde que investiu na importação dos cocos, o que mais aparecia no quiosque eram pessoas querendo comprá-los. Afinal, aquele era o diferencial do quiosque de Chanyeol. Nenhum outro quiosque da ilha vendia cocos.
Por conta da alta demanda de cocos, o trabalho braçal que estava tendo naquela tarde escaldante estava acabando com ele. Além de furar uma série de cocos, ainda tinha que manter o sorriso no rosto ao entregá-los aos fregueses. Mau humor espanta a clientela, a mãe sempre o lembrava.
A verdade é que estava cansado e irritado por justo no dia de maior movimento da semana ter sido abandonado por Sehun, seu melhor amigo que sumiu com o namorado. Foi o primeiro a dar a bênção ao namoro de Sehun com Junmyeon, um rapaz de bochechas salientes e sorriso amável. O que irritava Chanyeol era o fato de Sehun ser um pentelho irresponsável que só o avisou sobre a fuga romântica quando já estava bem distante da ilha que residiam. Recebeu a mensagem do cretino logo após abrir o quiosque e teve que respirar bem fundo para não vociferar um palavrão no momento que uma mulher com duas crianças pequenas estavam passando.
Comerei Sehun vivo quando ele voltar, foi esse pensamento que manteve Chanyeol com a mente sã até Sohee chegar e o ajudar a dar conta dos fregueses que pareciam que vinham em bando atrás de coco e garrafas d’água. Teve que recorrer à amiga, que estava de folga naquele dia, para o ajudar, ou seja: mandou um áudio implorando para Sohee ir socorrê-lo com a promessa de que lhe daria um extra.
Nessas horas que agradecia aos céus por Han Sohee morar perto de onde trabalhavam. Em um pulo a mulher apareceu em seu resgate.
— Vi que Sehun foi para Seul — Sohee comentou assim que entrou no quiosque. Suas bochechas estavam coradas e ela mantinha um sorriso entretido no rosto. — Junmyeon postou uma foto no Instagram, quer ver?
Chanyeol fechou a cara.
— Se você me mostrar essa foto, não irei me responsabilizar pelo que pode acontecer com o seu celular. Adoro eles, mas os calos das minhas mãos não me deixam esquecer que Sehun foi um grande filho da puta de me avisar em cima da hora que eu ficaria trabalhando sozinho hoje.
Sohee deu risada enquanto amarrava a cascata de cabelo escuro em um coque desleixado no alto da cabeça.
— Relaxa. Sua salva-vidas chegou, mas saiba que você irá ficar me devendo uma.
— Já não basta o extra que vou te pagar? — Arqueou uma sobrancelha em direção a Sohee, que o lançou um sorrisinho cretino.
— Se esse extra ser o valor exato do ingresso para o Festival do Sol, então estamos quites.
— Um me abandona e a outra quer me extorquir, fracamente… — Chanyeol resmungou antes de torcer os lábios em uma careta. No entanto, não demorou para suspirar, vencido. — Tudo bem. Te pago o valor do ingresso, não quero ficar em dívida com uma mercenária.
— Mercenária é um termo tão feio, prefiro o “mulher de negócios” — pontuou antes de abrir um sorriso arteiro. — Bem, temos um acordo. Agora vá cuidar de seus calos e pegue um pouco de ar. Assumirei o atendimento até você tirar essa carranca da cara.
Chanyeol não se desfez da cara de poucos amigos, mas obedeceu à amiga de longa data. Tinha amizade com Han Sohee e Oh Sehun desde que eram crianças. Foram pirralhos bem levados que adoravam deixar os pais de cabelo em pé com suas travessuras, que se estenderam um pouco para a adolescência. Foi só na vida adulta que eles sossegaram, mas continuam grudados, tanto que trabalham juntos no quiosque que Chanyeol é dono.
Para Chanyeol, o mais velho entre eles, trabalhar com os melhores amigos às vezes dava muito certo, outras só queria os esganar. Mas, em uma visão geral, era bom, pois, apesar dos pesares, trabalhavam bem juntos.
Chanyeol se afastou de Sohee e deixou com que ela cuidasse dos novos clientes que chegaram. Foi até a pia lavar as mãos, que arderam onde os calos se formaram. Após higienizá-las, tirou uma pequena maleta de primeiros socorros de um dos compartimentos perto de onde guardavam o dinheiro e de lá pegou dois curativos. Com a mão tratada, foi se sentar em uma das cadeiras que ficava de frente ao quiosque. Sentia as costas doloridas e a necessidade crescente de um banho gelado. Adorava trabalhar à beira da praia, mas em dias calorentos como aquele era torturante se manter tão vestido e tão grudado de suor.
Suspirou, cansado, e se permitiu fechar os olhos no momento em que uma brisa fresca se infiltrou por entre os fios de seu cabelo e os jogou para trás. Naquele instante pensou que, se o pai o visse à toa daquele jeito ficaria com dor de cabeça do tanto que ouviria. Para sua sorte, o pai estava pescando por aí com os amigos, bem longe do quiosque e bem longe dele. Gostava do pai, mas detestava o hábito do mais velho de ficar palpitando em seu negócio e de chamar uma atenção desnecessária para ele. Não era fácil ser o filho único do pescador mais famoso e respeitado da Ilha Areum, segunda província autônoma do país que se localizava próximo à Ilha de Jeju. Assim como a maior e mais visitada ilha da Coreia, Areum também tem suas belezas naturais — que chama bastante a atenção dos turistas — e a fama de ilha mística, por ser popularmente conhecida por ser o berço de muitas lendas.
Park Hyunwoo já apareceu no jornal local e em muitos outros canais fechados de televisão; ele é uma celebridade na ilha e parte dessa fama respinga em Chanyeol e em seu quiosque, que se tornou o point preferido da região justamente por ele ser filho de quem é.
Para Chanyeol, ser dono e funcionário do próprio negócio não era esse sonho lindo que tanto pregam, ainda mais quando o pai monitorava tudo. No fundo, só queria fazer que nem Sehun e fugir sem dar maiores explicações além de uma mensagem de texto falando:
“Foi mal não ir hoje. É meu aniversário de namoro, você sabe como é…”
Não. Chanyeol não sabia como era abandonar as responsabilidades quando bem quisesse, nunca soube.
— Chanyeol? — a voz masculina falou seu nome como se fosse o verso de uma música, o que levou Chanyeol a abrir os olhos de imediato e encarar o rosto de quem o chamava.
Arrepio. Foi isso que cruzou a pele de Chanyeol assim que seus olhos se fixaram no homem. Reconhecia que era um belo rapaz, mas tinha algo sobre aquele rosto que fazia seu interior se agitar. Sentia uma estranha sensação de déjà vu que não conseguia acessar com clareza. O rosto daquele homem não lhe era estranho e aquilo o deixou desassossegado. Como um rosto que nunca viu podia ser tão estranho e tão familiar ao mesmo tempo?
— Sou eu. E você, quem seria?
Um dos cantos da boca de lábios finos se ergueu, mas logo se voltou para baixo. O estranho desviou o olhar.
Apesar da evitação do contato visual, Chanyeol conseguiu ver um lampejo de ansiedade neles.
— Alguém que sabe de algo que pode lhe interessar — devolveu e voltou a encarar Chanyeol, que estreitou os olhos e fez uma rápida análise da figura à sua frente.
O homem era bem mais baixo que ele, possuía uma aparência jovem e uma beleza singular que fazia a cabeça de Chanyeol pensar em diversos adjetivos para descrevê-lo. Apesar do tempo abafado, ele vestia calça jeans de lavagem clara com a barra dobrada até os tornozelos e uma camisa branca lisa que deixava os ombros largos em evidência. O cabelo dele era loiro com mechas azul bebê, o que lhe conferia uma aparência etérea. Nem as roupas simples anulou o magnetismo daquele homem, que deixou Chanyeol bem intrigado e estranhamente ansioso.
— O que um estranho pode saber que seja do meu interesse, hm? — Chanyeol arqueou uma sobrancelha, desconfiado. — E outra, me sentiria mais à vontade se me dissesse seu nome.
Se tinha uma coisa que Chanyeol não gostava era de ser enrolado. Gostava de objetividade e de pessoas que iam direto ao ponto.
O estranho abriu um sorrisinho petulante.
— Sei de muitas coisas do seu interesse, mas vim até aqui para lhe falar apenas uma. — Umedeceu os lábios rosados e cruzou os braços. — E me chamo Baekhyun.
Baekhyun.
O nome fez com que o coração de Chanyeol recebesse um baque esquisito antes de se apertar como se tivesse sendo esmagado por uma mão invisível.
O que diabos esse homem está fazendo comigo?, Chanyeol se questionou mentalmente.
Não era um homem cético, afinal: vivia em uma ilha com fama de ser mística e era o filho de um pescador com uma mulher que abraçava o misticismo da ilha. Seu pai tinha uma coletânea de histórias de pescador para contar e a mãe acreditava até na existência de sereias e tritões. O misticismo pairava em sua família, o que o fazia se indagar se aquele homem estava prestes a lhe jogar uma praga. Embora o pensamento fosse coerente, algo dentro de Chanyeol falava que não tinha o que temer. Talvez fosse o instinto, quem sabe.
— Só Baekhyun? — Chanyeol perguntou mais para ver como aquele nome soava em sua boca. Novamente a sensação familiar estava lá. Era como se sua boca já estivesse habituada a falar esse nome… mas, como? — Aliás, você me conhece de algum lugar? — Eu te conheço de algum lugar?, Chanyeol quis acrescentar, mas se conteve.
Baekhyun permanecia sério, mas Chanyeol notou que uma sombra densa havia se espalhado pelos olhos dele.
— Só Baekhyun — enfatizou. — E sobre te conhecer…bem, não tem como não conhecer o filho de Park Hyunwoo. Seu pai é uma celebridade da pesca por aqui, não é? — amargura escorreu de cada letra. — Agora que já me apresentei, me responda: você quer saber o que vim te contar?
— Claro que quero, ainda mais depois de notar que você parece sentir certo desprezo pelo meu pai.
Chanyeol não era tolo, sabia identificar desprezo e o via em Baekhyun. Vivia controlando o próprio toda vez que era parado por alguém da ilha perguntando se ele era o filho de Park Hyunwoo. Sempre era reduzido à sombra do pai.
Um sorriso indigesto acompanhado de um arquear de sobrancelha, foi o que recebeu de Baekhyun antes dele puxar uma cadeira e se sentar ao seu lado.
Conforme Baekhyun se movia, Chanyeol sentiu o cheiro de brisa do mar e de água salgada se desprender da pele dele. Adorava aquela mistura de aromas.
— Posso te contar, mas em troca quero algo seu.
— Meu telefone? — Chanyeol brincou.
Baekhyun soltou um risinho baixo, mas logo se recompôs e voltou a sustentar a mesma expressão imbatível que surgiu na face dele assim que se sentou.
— Isso não é um flerte, Chanyeol — falou antes de desviar os olhos para o mar. Respirou fundo uma única vez antes de continuar, sem o encarar. — Se soubesse o que quero não iria brincar.
— E o que você quer?
Nessa altura o coração de Chanyeol batia nervosamente no peito. Algo sobre aquele homem o fazia se perguntar se tinha tomado a decisão certa ao querer saber o que o fez ir até ele.
— A memória dessa conversa — Baekhyun disse por fim. Os olhos castanhos voltaram a se pregar nos de Chanyeol. — Mas não se preocupe. Você vai lembrar do que eu for te contar, só não vai se lembrar de mim.
Chanyeol esperou que Baekhyun dissesse que estava o sacaneando, mas esse momento não veio. Ao invés disso, Baekhyun se manteve o encarando com seriedade, à espera de uma resposta.
— Você está falando sério?
— Por que eu não estaria?
Chanyeol soltou um riso descrente.
— Posso listar uma série de razões, quer que eu comece?
Baekhyun respirou fundo antes de estalar a língua e se levantar com impaciência.
— Venha comigo — comandou. — Não quero gastar saliva em explicações inúteis que você não irá acreditar.
Chanyeol sorriu, entretido, e ainda mais curioso a respeito daquele homem.
— Bem, você pode tentar ser mais convincente.
Algo dentro de Chanyeol sentia o ímpeto de provocar aquele rapaz de falas absurdas, o que não fazia o menor sentido. Talvez já tivesse perdido a sanidade por conta do calor.
— Prefiro mostrar. — Baekhyun ergueu os lábios em um sorriso pequeno e desafiador. — Me siga — pediu antes de dar as costas a Chanyeol e rumar em direção à areia. Em nenhum momento ele olhou para trás, apenas caminhou com os pés descalços para longe.
Chanyeol observou Baekhyun se afastar, mas nem o distanciamento do rapaz aquietou seu interior ou a sensação estranha de déjà vu. Tudo aquilo era estranho, mas era o tipo de estranheza que o fazia ferver de curiosidade e o atiçava a descobrir a razão de Baekhyun mexer tanto com ele mesmo sendo um desconhecido.
Em um minuto hesitava, no outro pulou da cadeira em que estava sentado e se pôs a seguir o caminho que Baekhyun percorreu. Mesmo que ele fosse menor, andava rápido, o que levou Chanyeol a apressar os passos para alcançá-lo.
Em poucos minutos, Chanyeol se viu andando na areia com tênis e tudo. Mesmo com as solas dos pés protegidas, seus tornozelos desnudos sentiam a quentura que vinha da areia em que pisava enquanto Baekhyun parecia nem ligar de caminhar por ela com os pés desprotegidos. Estava alguns poucos passos atrás de Baekhyun, que não se virou e nem deu indícios que notou sua presença. Ele só continuou caminhando em direção às pedras, a parte mais afastada da praia.
— Até onde pretende andar? Estava descansando antes de você aparecer, ainda tenho que trabalhar, sabe — Chanyeol falou em voz alta, o que fez Baekhyun parar e se virar para olhá-lo.
— Quero privacidade.
Chanyeol revirou os olhos.
— Não tem ninguém além de nós por aqui. Da para desembuchar de uma vez que história é essa de memória? Está um calor da porra e eu me recuso a continuar andando até seu abatedouro.
Para a surpresa de Chanyeol, Baekhyun olhou ao redor e soltou um risinho baixo. Chanyeol queria dizer que sentiu raiva daquela risada curta e graciosa, mas seria mentira. Por conta da risada, pôde perceber os dentes bonitos e brancos de Baekhyun e notar que ele tinha os dentes caninos um pouco afiados.
— Você tem razão, estamos sozinhos. Já posso te abater — sorriu pretensioso e deu vários passos em direção a Chanyeol, que não se moveu e esperou que Baekhyun viesse até ele. Uma parte de Chanyeol queria isso.
Contudo, Baekhyun parou em frente a ele e o encarou, entretido.
— Não vou te abater, mas tente não fazer nenhum barulho estranho. Não quero chamar atenção.
— Por que eu faria algum barulho estranho? — Chanyeol perguntou, ainda mais desconfiado.
Baekhyun não respondeu, ao invés disso abriu um sorriso enigmático e caminhou até a beira do mar. Esperou a onda vir lamber seus pés antes de se agachar e molhar as mãos.
Chanyeol, que estava há cerca de oito passos de Baekhyun, observou a cena. Não pôde deixar de notar a graciosidade na forma como Baekhyun andou até o mar. Parecia que ele flutuava na areia. Contudo, a contemplação foi substituída por um engasgo assombrado. Ainda prevalecia observando Baekhyun, que caminhava de volta até ele com os dorsos das mãos levantados. Podia estar maluco, mas tinha escamas nos dorsos das mãos do rapaz.
Piscou e limpou os olhos antes de voltar a encarar as mãos de Baekhyun. As escamas não sumiram.
— Escamas? Isso é um truque?! — Chanyeol, aturdido, apontou para as mãos de Baekhyun. Estava dividido entre um estado de espanto, surpresa e o início de uma estranha fascinação.
Baekhyun não se intimidou com a reação alheia e levantou ainda mais as mãos para que os olhos grandes as vissem melhor.
Naquele momento, Chanyeol teve a confirmação: eram mesmo escamas cobrindo os dorsos das mãos de Baekhyun. Não tinha nada de artificial naquele degradê de escamas, que era um misto de azul-celeste com prateado que brilhava sob a luz solar.
Em certo ponto, Chanyeol se sentiu hipnotizado por elas e cheio de vontade de tocá-las, mas se conteve. Não gostava de tocar ninguém sem o consentimento. Sohee se sentia muito incomodada quando estranhos a tocavam e Chanyeol sabia que existiam pessoas que compartilhavam do mesmo incômodo. Por conta disso, buscava sempre respeitar o espaço pessoal dos outros.
— Não perderia meu tempo vindo até aqui para fazer truques. O que você está vendo é a manifestação das minhas escamas em contato com a água salgada, mas nem adianta pensar em me molhar. Posso não controlar o surgimento das escamas em certas partes da minha pele após o contato com a água, mas posso controlar a aparição da minha cauda. Ela só surge se for da minha vontade que ela apareça.
— Você é um… — Chanyeol tentou dizer, mas foi cortado.
— Tritão. Espero que seja isso que ia dizer. — Os cantos dos lábios dele tremularam, como se tivesse contendo o surgimento de um sorriso.
Chanyeol quis rir de nervoso, mas estava embasbacado demais para isso. Seu cérebro mal estava sustentando alguma linha coerente de pensamento além de “escamas, cauda e tritão”. Sentia que seu processador interno tinha entrado em pane.
— Iria soltar um “Uau!”, porque isso é inacreditável! — exclamou com uma animação exagerada. — Não acredito que minha mãe estava certa!
Chanyeol não sabia, mas aquilo fez uma pontada dolorida cruzar o peito de Baekhyun, que se retraiu e abaixou as mãos.
Devido à euforia, Chanyeol não notou que as mechas azul bebê do cabelo de Baekhyun escureceram para um azul-marinho.
Certa vez, a mãe de Chanyeol o contou sobre a experiência de ver um tritão. Na época, Kyungmi ainda era jovem e solteira. Kyungmi falou como se sentiu atraída pelo tritão e que até entrou no mar para vê-lo mais de perto. Também contou que o tritão tinha uma cauda da cor de bronze, que brilhava quando a lua batia nela, cabelos tão negros quanto nanquim, olhos claros e mãos macias. Kyungmi nunca teve acanhamento em dizer que sentiu uma vontade absurda de beijá-lo, mas o máximo que ganhou foi uma carícia na bochecha e um sorriso charmoso antes do filho do oceano sumir e deixá-la sozinha. Até hoje Kyungmi não sabia dizer se aquilo realmente aconteceu ou se foi um sonho lúcido. No entanto, tal encontro a fez acreditar em certas lendas, principalmente em sereias e tritões habitando as profundezas do mar daquela ilha. Ela tem tanta convicção na existência das filhas e filhos do oceano que ninguém se atrevia a questionar sua crença. E, por ironia do destino, Chanyeol estava diante de um deles.
— Preciso te contar o que sei. Não posso ficar por muito tempo — Baekhyun se atropelou nas palavras, ele parecia nervoso.
Por conta da mudança de voz do outro, Chanyeol despertou do transe eufórico e notou que as mechas do cabelo de Baekhyun mudaram para um tom mais escuro de azul.
Chanyeol olhou ao redor e viu que algumas pessoas começaram a chegar no ponto da praia onde eles estavam. Flagrou o momento em que Baekhyun enfiou as mãos nos bolsos da calça para esconder as escamas das mãos.
— Todo meu corpo precisa secar para elas sumirem, antes que pergunte. Meus pés estão molhados, então… — Voltou os olhos para Chanyeol, que o encarava com um misto de dúvida e encantamento.
Baekhyun suspirou, frustrado. Não tinha tempo para aquilo.
— Seu pai e dois biólogos estão organizando uma caça às sereias. Preciso que o faça parar antes que minha mãe o faça. A última coisa que quero é envolvê-la nisso.
— O quê?! — A bolha de encantamento estourou de vez e Chanyeol sentiu como se a realidade tivesse lhe dado um soco no estômago.
— Seu pai é o pescador mais influente dessa ilha e a conhece como a palma da mão. Ele é a pessoa perfeita para liderar essa caça. Ele levará biólogos até meu povo. Foi um deslize que o fez saber sobre nós, mas agora preciso que você o pare — Baekhyun falou baixo, mas o desespero e a urgência eram palpáveis em sua voz. Até mesmo seus olhos pareciam ter escurecido.
— O que você está falando…
— Se não acredita no que digo, vá até o porto das barcas à meia-noite e veja com seus próprios olhos o que seu pai faz pelas suas costas. Só quero proteger meu povo, mas preciso da sua palavra. Não voltaria até você se não temesse pelo meu povo. Seu pai é um homem ambicioso, mas não sabe com o que está lidando.
— Voltar até mim? Então… você realmente me conhece. — Não houve acusação na voz de Chanyeol, mas sim uma dose amarga de afirmação mesclada a decepção que quase fez Baekhyun sufocar na própria desgraça.
Baekhyun desviou os olhos e pareceu ansioso após a constatação tardia de Chanyeol.
— Não é o momento para isso. Só faça o que eu disse, ok? Agora preciso que me dê a memória de toda essa conversa. Como falei antes, você só vai se lembrar da informação que te passei.
Chanyeol sorriu amargo. Era muita coisa para assimilar de uma vez e muito sol quente em sua cabeça. Estava enjoado e não sabia se o mal-estar era por conta do calor ou pelo acúmulo de coisas despejadas nele.
— Não sei o que isso significa, mas não lhe darei nenhuma memória. Desde que coloquei os olhos em você sinto como se o conhecesse, mesmo não me lembrando do seu rosto. E ao que parece, seu povo gosta de furtar memórias alheias, não é? — A voz de Chanyeol se tornou áspera.
Baekhyun encolheu os ombros, estava desconfortável em estar naquela posição.
— Como posso confiar em você? Quem me garante que você já não roubou memórias minhas?
Baekhyun chegou a abrir a boca para o responder, mas as palavras morreram e só restou a expressão que era um misto de indignação, raiva e algo a mais que Chanyeol não teve tempo hábil de identificar antes do rosto do tritão endurecer, o peito inflar e os lábios se tornarem uma linha fina e rígida.
— Não posso falar por todas as filhas e filhos do oceano, mas posso falar por mim: não roubo memórias, mas sim às peço — retorquiu, baixo e amargo. — Peço a memória da minha presença para minha proteção. Minha existência e a de meu povo devem ser mantidas em segredo por conta do tipo de seres humanos que querem nos estudar, mesmo que isso signifique violar nossas vontades e nossos corpos. Nunca tiraria o poder de escolha de ninguém — completou. Nessa altura os olhos de Baekhyun estavam escurecidos e tempestuosos.
Uma parte de Chanyeol sentiu uma necessidade feroz de se desculpar com Baekhyun, mas como não entendia a razão dessa necessidade mordeu a língua para as palavras não saltarem da boca. Aquilo o irritou na mesma proporção que o fez querer saber a razão por trás. Sabia que Baekhyun não estava contando tudo e que não era a primeira vez que se viam. Não confiava nele, mas Baekhyun tinha conseguido plantar a semente da dúvida em relação ao pai, que andava ficando mais tempo fora de casa do que o habitual. Sabia o quanto Hyunwoo podia ser ambicioso, mas não dava muita bola. Só achava irritante o pai gostar tanto de ter os holofotes não só sobre ele, mas em cima da família, pois buscava ganhar maior notoriedade na mídia sendo um pai de família exemplar. Pensar nele envolvido em uma caça a sereias era algo absurdo demais. Ele não seria capaz disso… seria?
— Vamos fazer um acordo — Chanyeol propôs.
— Não faço acordo com humanos.
— Melhor abrir uma exceção. Esse será o único jeito que você terá de me convencer a fazer o que quer. — Chanyeol cruzou os braços e empinou o queixo, não estava aberto a negociações.
Baekhyun fechou os olhos e respirou profundamente, era como se tivesse tentando reunir uma paciência que não tinha. As mechas de seu cabelo continuavam azul-marinho. Ele parecia irritado.
— Fale antes que eu me arrependa — Baekhyun falou por fim, ainda de olhos fechados e com a expressão dura.
— Me deixe ficar com a memória do seu rosto e eu te prometo que irei averiguar por mim mesmo a respeito do meu pai. Se você estiver certo, irei te ajudar.
Baekhyun abriu os olhos e expulsou uma boa quantidade de ar pelas narinas dilatadas. Ele parecia ter ficado ainda mais irritado. No entanto, Chanyeol notou o quanto o pescoço do tritão era longo e convidativo e como gostaria de beijar a pele daquela região e deixar marcas. Sentia-se atraído tanto por homens, quanto por mulheres e Baekhyun era bonito demais, o que o fazia perder o foco mesmo estando diante de uma situação bizarra. No fim, conseguia entender a experiência que a mãe teve na presença de um tritão. Eles eram seres atraentes e incrivelmente magnéticos. O predador perfeito para os olhos de presas desavisadas.
Baekhyun voltou a fitar Chanyeol com os olhos caídos em fenda, mas em um estalar de dedos o olhar afiado se suavizou ao cair para um ponto abaixo do queixo do filho do pescador.
Curioso, Chanyeol deixou o olhar seguir o de Baekhyun e viu que o colar contendo pequenas pedras azuis-celestes nas laterais e uma única pérola delicada em seu centro tinha pulado para fora de sua camisa.
— Irei o procurar amanhã, ao meio-dia, no quiosque.
Chanyeol estreitou os olhos.
— Por que essa mudança tão súbita? Não irá insistir sobre esse negócio de memória?
Baekhyun negou com a cabeça e apontou com o queixo para o colar de Chanyeol.
— Gostei do seu colar e aconselho que continue usando ele.
— O que quer dizer com isso?
— Que iremos nos ver amanhã. — Um sorriso pequeno e enigmático surgiu nos lábios de Baekhyun enquanto seus olhos voltaram ao castanho achocolatado. — Serei pontual.
E lá estava Baekhyun o dando as costas mais uma vez. Carregando consigo segredos, o cheiro de brisa do mar e o calor. Foi só o tritão se afastar para Chanyeol perceber que tinha começado a ventar, pois o sol tinha sido encoberto por nuvens de chuva.
— Por que devo continuar usando o colar? — Chanyeol gritou tendo o chiado do vento nos ouvidos.
— Porque fica bem em você — Baekhyun gritou de volta ao passo que aumentava a distância entre eles. O tritão não olhou para trás.
O cabelo loiro de Baekhyun voava contra o vento e fazia as mechas azuis, que voltaram ao azul bebê, dançarem em meio aos fios loiros. Tal visão era encantadora aos olhos de Chanyeol, que admirou silenciosamente.
— Cretino! — o xingamento deslizou pela boca de Chanyeol até ser verbalizado em um rosnado. Podia admirar o tritão, mas da mesma forma que o admirava, ele o irritava.
Baekhyun riu. Uma risada alta, vivida e animada que arrepiou os pelos da nuca de Chanyeol antes do tritão começar a correr pela areia até virar um ponto distante.
Por alguma razão, Chanyeol não foi atrás dele. Seu instinto o dizia para não ir.
Tinha muito sobre o que pensar e processar, mas a mente o traía e cismava em manter o rosto de Baekhyun marcado como uma tatuagem em sua memória. Não confiava nele, mas era inquestionável o quanto ficou afetado. Em outra situação o teria intimidado com sua altura e não o deixado escapar até responder todas as suas perguntas, mas ali estava ele: parado e deixando um tritão escapar de suas mãos como se fosse água.
Embora não quisesse o capturar, queria o desvendar. E, claro, vê se o pai era mesmo uma ameaça às filhas e filhos do oceano.
