Work Text:
Eu sempre tento pensar em como tudo poderia ter sido diferente se eu estivesse do outro lado, na perspectiva do meu povo, e não como parte da descendência real. Não que isso seja um grande problema, pelo contrário, eu sou grato; tenho uma família incrível e amo meus irmãos, mas eu sempre quis fazer algo mais, não só estar do lado deles, como também protegê-los e proteger o meu reino.
Meu irmão, Teru, fala o quanto eu sou ingênuo e altruísta, sempre bagunçando os meus cabelos loiros com a sua mão e indo embora da sala, desconversando. Ele só está tentando me aquietar, porém, eu simplesmente não consigo! Desde pequeno eu quero ser um cavaleiro, quero proteger a população dos ladrões e malfeitores! É um grande sonho, e na minha posição eu acho que pode acabar sendo difícil, de qualquer forma eu vou tentar o meu melhor e me esforçar para conseguir.
– Príncipe Kou, por favor tome cuidado, o castelo está uma turbulência desde que foi anunciada a festa de coroação.
A voz vem do meu professor e mestre de esgrima Tsuchigomori, ele sempre está organizando as pendências do palácio, como se fosse um administrador.
– Mestre Tsuchigomori, não se preocupe, estou aqui para garantir que tudo esteja ocorrendo bem.
Tsuchigomori vê uma sujeira em meu rosto e tira com a mão. – Isso não é o dever de um príncipe. Deixe comigo para organizar tudo, você deveria estar se aprontando para a festa no momento, e não aqui.
Cruzo os braços e estufo as bochechas, revirando os meus olhos. – Eu não sou mais criança, Tsuchi.
Tsuchigomori olha para mim mais uma vez e depois observa a prancheta que está segurando, dando um suspiro. – Está certo.. de qualquer forma, tenho de ir, boa noite alteza.
Acredito que não há muito que eu possa fazer..
Subo as escadas acarpetadas que levam até o corredor principal do segundo andar, uma enorme janela me dá as boas-vindas com uma fresta de Sol atrevida que acaba incomodando o meu olho; cubro os meus olhos com a minha mão e vejo a fresta se alastrando por ela, dou um leve sorriso e vou até a janela. O segundo andar tem uma vista das muralhas do castelo, mas se olhar bem ao canto da janela, é possível observar a cidade: ela é encantadora. Só consigo pensar na quantidade de vezes que me peguei sonhando acordado com o dia em que enfrentaria um monstro enorme e salvaria o meu povo, ou o dia em que conseguiria resgatar a bolsa de uma donzela que havia sido roubada por ladrões.. Enfim, contos e mais contos que enfeitiçam a minha mente e me perseguem até os dias atuais.
Quem sabe um dia...
Meu pai sabe sobre os meus desejos, acredito que posso convencê-lo em algum momento se eu realmente tentar; meu irmão provavelmente não apoiará essa ideia, mas não há nada que ele possa fazer contra isso. Revirei meus olhos risonhos e comecei a andar até o meu quarto, decidi que finalmente era a hora de me preparar para o baile.
_____________________________________
Não era surpresa para ninguém que a família Minamoto sabia como fazer festas, Kou só não imaginava que tudo estaria tão perfeito como estava naquele momento; uma mesa que acolhia uma pirâmide de taças para serem usadas para champanhe estava no canto da sala, um pouco mais ao lado havia um pequeno estande com dois músicos se aprontando para começar a tocar. Os lustres nunca estiveram tão radiantes como naquela noite, provavelmente o objetivo era que a luz pudesse dar ênfase ao trono real, onde havia cinco cadeiras: a maior de todas era o trono do rei e pai da família Minamoto, ao seu lado (tão grande quanto a cadeira do rei) havia a cadeira de sua esposa, na outra lateral do assento do rei estava o encosto de Teru, a vizindade estava o lugar de Kou e à esquerda da rainha havia uma cadeirinha pequena para a irmã mais nova da família, Tiara.
Kou não conseguia conter o enorme sorriso no seu rosto ao ver como tudo estava organizado, seu irmão seria coroado naquela noite, ele mal imaginava isso. O garoto sempre via o seu irmão como uma inspiração, ele sempre era tão atencioso, conseguia fazer várias coisas ao mesmo tempo e mesmo assim tinha tempo de sobra para dar atenção tanto para Kou quanto para Tiara; sempre agradava o pai e cumpria tudo que lhe era pedido com um sorriso gracioso no rosto, sorriso esse tão evidente que mesmo sem verem, as meninas do reino inteiro sabiam sobre e espalhavam cada vez mais rumores sobre a beleza indescritível de Minamoto Teru. O pequeno príncipe não poderia estar mais feliz, seu irmão finalmente era digno da coroa real, um título que Teru de fato merecia.
Alguns convidados já haviam chegado e estavam conversando cordialmente uns com os outros, alguns saudavam a família, dando congratulações ao Teru. O príncipe se dirigiu ao seu respectivo lugar e começou a falar com o seu irmão discretamente.
– Eu estou tão feliz por você irmãozão! Tenho certeza de que vai dar tudo certo, você é o herdeiro perfeito.
Os olhos encantados de Teru encontraram o rosto do seu irmão mais novo e deram um sorriso acolhedor. – Obrigado, Kou. Mas não se esqueça, eu ainda vou continuar puxando o seu pé e te obrigando a ajudar em algumas tarefas. - Teru olhou novamente para o salão, acenando para os novos convidados.
– Pode deixar comigo! - O garoto de cabelos loiros deu um enorme sorriso.
Um silêncio agradável voltou a se instalar entre eles, afinal de contas, Teru estava muito ocupado cumprimentando todos que chegavam. Kou percebeu depois de um tempo que seu pai queria conversar com ele e com seu irmão, só estava esperando um momento melhor.
– Meu filho, - o rei chamou o príncipe, que levantou sua cabeça. - Agora, como seu irmão assumirá o trono, acredito que é um ótimo momento para vocês dois procurarem boas mulheres para terem como esposa.
Kou ficou parado por um momento, não imaginou que seu pai poderia trazer esse assunto à tona tão cedo, ele nem sabia o que dizer direito.
– Acredito que sim, meu pai. - O garoto engoliu seco, sentia que tinha algo de errado, mas era só uma ordem e sabia que seu irmão também haveria de cumprir, provavelmente se sairia bem. Porém, era a primeira vez que seu pai lhe concedeu o dever de cumprir uma ordem de grande gravidade. Um brilho surgiu nos olhos do menino quando pensou nisso, e logo um sorriso também se mostrou.
– Vou organizar um cortejo assim que possível.
Teru volta o seu foco para a conversa entre o seu irmão mais novo e seu pai. – O que vocês estavam conversando? - Pergunta em tom doce, voltando seus olhos para seu pai.
– Não se preocupe, não era nada de mais Teru. - O rei desconversa e se volta para a sua esposa.
Kou ficou sem entender, mas não deu muita importância, talvez eles já tenham conversado sobre isso antes, pensou.
– Kou, por que você ainda não foi ao salão?
– Bem, a família real sempre tem que estar sentada no trono até o final da festa, não é?
Teru revira os olhos de forma brincalhona, sem tirar seu sorriso característico do rosto. – Não se preocupe com essas regras por agora, hoje eu sou príncipe, mas amanhã serei rei e como futuro rei eu lhe ordeno que se divirta! - Teru aperta o nariz de Kou levemente e o pequeno príncipe acaba dando uma risadinha.
– Tá bom, tá bom!
O garoto de cabelos loiros desce do seu banco e anda pelo salão por um tempo. Por não ser tão famoso quanto o primogênito da família, poucas pessoas acabam parando para conversar ou saudá-lo, algumas chegam a confundi-lo com o próprio Teru. Não é nada alarmante, pelo contrário, é bem comum.
O menino estava tão distraído que nem notou que havia acabado de esbarrar em uma menina.
– Meu Deus, desculpa! Estava muito distraído e nem percebi por onde andava..
A garota ajeitou seu cabelo e olhou para o menino com um leve sorriso. – Não se preocupe, eu também não estava prestando atenção por onde andava! - Os olhos da menina encontraram os olhos azuis do príncipe que estava na sua frente.
Meu Deus! Esse é o Minamoto Teru?? Não! Não pode ser.. Ele não parece ser o primogênito, mas é bem semelhante.
– O meu nome é Yashiro Nene! - Falou como se fosse uma única palavra, tinha um certo receio, pois as palavras saíram juntas demais e ela não sabe se o menino chegou a entender ou não. – Desculpe a pergunta, mas você tem algum parentesco com a família Minamoto? - a garota falou de forma calma dessa vez.
– Ah sim, eu sou o irmão do meio da família. Meu nome é Minamoto Kou. - O menino falou sem jeito, não era culpa da menina, afinal, Kou era uma cópia do seu irmão, Yashiro foi bem respeitosa por fazer tal pergunta cuidadosamente.
– Entendi, vocês são tão parecidos, desculpe-me se acabei ofendendo.
– Não, está tudo bem! - O menino respondeu.
Nene, esse nome soa familiar..
– Senhorita, você por acaso é uma baronesa?
– Sim! - A menina de cabelos longos responde. – Minha família tem esse título há alguns anos, você descobriu pelo meu sobrenome, certo?
– Isso mesmo. Minha família tem laços muito grandes com barões, seu sobrenome acabou me lembrando..
Uma sinfonia começa a surgir pelo salão, instalando um momento de silêncio entre os dois.
– Você gostaria de dançar, senhorita? - Kou foi o primeiro a falar, tomando iniciativa, resolveu chamar a baronesa para uma dança amistosa, um leve rubor rosa preenchia suas bochechas.
– Mas é claro! - Yashiro falou sem ao menos pensar na cordialidade, só depois conseguiu reparar, mas não chegou a se corrigir.
O príncipe Minamoto estendeu a sua mão na direção da menina, que a segurou com a destra e a outra mão apoiou no ombro do rapaz. O menino segurou na cintura da donzela e começou a dar alguns passos conforme a música; Yashiro olhava para ele enquanto tentava conter suas bochechas avermelhadas. A música era tão agradável e convidativa que os dois acabaram notando o deslize entre os passos de dança, porém isso não os impediu de ter um bom momento juntos.
Depois de alguns minutos dançando, a baronesa se pronunciou. – Conte-me mais sobre você, por favor. - A menina falou de forma calma, curiosa, imaginou que o príncipe seria gentil o suficiente para iniciar uma conversa com ela.
– Bem, mesmo fazendo parte da família real eu tenho certos devaneios..
– Como assim?
– Eu sempre quis ser um cavaleiro, proteger a cidade dos ladrões imundos e ser um herói com títulos, e não por simplesmente ter nascido na realeza!
– Entendo. Certamente ser um cavaleiro parece ser incrível! Como cavalheiro, você deve ter várias aventuras e missões para cumprir, é bem legal! Eu tenho um amigo que faz parte da cavalaria.
– Sério? Ele protege as pessoas dos ladrões e das crises climáticas? Por favor, apresente-me a ele assim que você puder!!
– Ah, com certeza! Ele está em uma missão no reino vizinho agora, espero que ele esteja bem... Enfim, teve uma vez que ele salvou uma família de um incêndio do outro lado da cidade, não era uma missão, mas ele tem um coração de ouro e não poderia deixá-los daquela forma.
– Ele parece ser extraordinário!!
– Ele é! - A baronesa deu um sorriso meigo ao lembrar do rapaz. – No mês passado ele lutou com um grupo de ladrões que planejavam assaltar um mercado.
– Uau!! Eu daria tudo que eu tenho só para lutar contra esses malfeitores! Senhorita, permita-me perguntar, qual é o nome desse sujeito?
– Ele se chama Amane Yugi. A família Yugi é conhecida por ser composta de cavaleiros.
– Eu acredito que já ouvi sobre os Yugi, mas não lembro de ouvir sobre nenhum Amane.
– Acredito que seja porque o Amane usa um pseudônimo, ele é conhecido como Hanako.
– Meu Senhor! Ele é o mesmo rapaz da lenda do dragão? O mesmo que achou um dragão e sobreviveu para contar história?!
– Sim!
– Eu sou super fã dele!! Assim que puder, chame-o para o palácio, quero condecorá-lo!
– Claro!
Os dois continuaram a dança depois da conversa energética, até que um estrondo de vidro se quebrando ecoou pelo salão, chamando a atenção dos convidados.
– O que deve ter sido isso? - A baronesa questiona. – provavelmente algum acidente, não é? - A menina olha para o garoto ao seu lado, mas percebe como o menino está focado em encontrar o barulho.
Kou pisca algumas vezes após ouvir o silêncio da menina e se volta a ela, como se tivesse saído de um transe. – Yashiro, eu tenho que ir, ok? - o rapaz desconversa, dando um aperto de leve no ombro da garota, e oferecendo um sorriso inseguro. Era perceptível a inquietude do príncipe.
– Claro.. Até mais! - Yashiro retribui com um sorriso meia boca, confusa, mas aceitando sua despedida.
Minamoto anda em passos rápidos até o ponto do salão em que aconteceu o estrondo, ele percebe que há pessoas em volta de um garoto de cabelos cor-de-rosa. Kou automaticamente vai até o menino e estende a mão.
– Você está bem?
O menino de cabelo rosa dá um tapa na mão do garoto de cabelo loiro, afastando a sua mão.
– Eu não pedi a sua ajuda, riquinho! Não preciso da compaixão de uma pessoa tão.. tão.. - O garoto encara a fisionomia de Kou até achar alguma coisa que chamasse a sua atenção - tão patética! Que brinco ridículo! Vocês esnobes não tem nenhum apreço pela aparência mesmo, essa quinquilharia valeria mais se fosse usada como uma moeda de um centavo! Hahaha!
Kou esconde seu brinco instintivamente com as suas mãos. Por um segundo, ele fica chocado, ninguém nunca ousou falar com ele daquele jeito. – Quem você pensa que é para falar assim comigo??!
– Quem você acha que eu sou, senhor panaca de brinco idiota? Eu acabei de invadir a sua festinha de riquinhos, e daí?!
O príncipe finalmente decide analisar o garoto; uma mochila grande e gasta, roupas meio largas.. Ele não parece ser uma ameaça grande, não parece nem estar armado.
– Você é lerdo por acaso, príncipe brinquinho?! Ein? Estou falando contigo!! Para de ficar olhando para mim sem falar nada! Será que a minha beleza te cativou? Eu sou fofinho demais 'pra você, não olha para mim, brinco pervertido!
– Pode calar a boca por um minuto, por favor? Estou tentando pensar! - Kou finalmente se pronuncia.
– Uii, o príncipe fala, afinal!
– Eu não estou entendendo você. Por que você invadiu a festa?
– Não é óbvio?
– ...
– Sério? Nossa, além de rico, é lerdo... Para pegar umas coisinhas emprestadas.
O pequeno príncipe nunca imaginou que uma situação como essas poderia estar acontecendo com ele mesmo, por um momento ele sentiu pena de todas as diversas pessoas que poderiam ter passado pelo mesmo acontecimento. Porém, ele não conseguia parar de pensar no garoto que estava na sua frente; ele parecia tão indefeso que chegava a ser cômico a forma como ele falava sem ao menos manejar a sua opinião, mas de qualquer maneira ele era uma ameaça, uma escória suja que só queria incomodar e causar problemas, provavelmente já deve ter roubado de mais e mais pessoas na cidade: ele deveria pagar pelos seus pecados. Os olhos de gatinho abandonado não conseguiram esconder as intenções perversas do rosado, e Kou apertou o punho e juntou as sobrancelhas antes de pensar em tomar qualquer decisão precipitada.
– Diga-me, o que pretende fazer comigo? Vai me prender?? - O menino rosado não parava de debochar.
– Exatamente isso. - Minamoto segura o pulso do malfeitor com força, chegando a receber um choramingo de dor.
– Não, por favor, não!!
Os seguranças começam a segurar o menino pelo braço. Porém, Kou os impede de chegar perto. – Deixem comigo, eu vou levá-lo ao calabouço.
– Como quiser, alteza.. Eu acredito que ele não trouxe nenhuma arma, então não vejo problema. - Comenta um dos guardas.
– Claro que eu não trouxe! Eu sou fofo demais para usar uma faca!! Ou qualquer coisa do tipo! - Retruca o menino rosado.
Kou puxa o menino que estava no chão, fazendo ele ficar de pé em um segundo, logo depois sai por trás do salão com o rosado, que tenta abrir um pouco o punho do príncipe em ínfima represália. O garoto de cabelos cor-de-rosa começa a ficar nervoso ao ver que eles estavam indo para uma direção do palácio que tinha pouca iluminação; eles começam a descer escadas e mais escadas até chegarem em um lugar insalubre cheio de guardas e grades, era uma espécie de masmorra.
– Por favor.. Não me deixe aqui.. - O garoto de cabelos cor-de-rosa puxou a manga do terno do rapaz com a sua outra mão, sussurrando apelos.
– Agora é tarde demais, você já me encheu a paciência, hoje você vai dormir com a sua escória.
O rosado bufou, mudando de humor drasticamente. – Escória?! Escória são vocês! Vocês se vestem e se comportam como se fossem mais importantes do que outras pessoas, usufruem do bom e do melhor enquanto têm pessoas passando fome!
Kou arregalou os olhos por um momento e parou um segundo para pensar, mas ignorou. – Eu não tenho tempo para você. - o príncipe disse enquanto se voltava às escadas.
– Interrogue ele. - Ordenou o rapaz ao guarda, que acenou com a cabeça.
Antes de subir, olhou mais uma vez para trás, vendo o menino sendo preso atrás das grades. Porém, o jovem Minamoto não se sentiu bem com a cena como imaginava; o menino achava que prender um ladrão faria com que ele se sentisse incrível, mas.. Tinha algo diferente. O loiro tentou não ligar muito para isso e continuou a subir as escadas.
_____________________________________
As cortinas que cobriam a enorme janela do quarto foi aberta com força, com intuito de acordar o garoto que dormia pacificamente em sua cama.
– Tsuchi.. Está muito cedo para isso, feche as cortinas.. - Uma voz abafada e sonolenta veio da cama.
– Sinto informar, mas este foi o horário em que está combinado de treinarmos esgrima, não há escapatória.
– Aranhudo.. Eu não sei se consigo continuar acordando tão cedo.
– Já te falei para não me chamar assim! E um príncipe tem suas obrigações, você tem que ir independentemente do horário.
– Tá, tá. Agora deixa eu me vestir!
Assim que fechou a porta, o príncipe se deparou com Tsuchigomori de braços cruzados.
– Vamos? - Perguntou o homem, recebendo um aceno de cabeça por parte do menino.
Os dois começaram a andar pelo grande corredor dos quartos, logo saindo e descendo a grande escadaria e chegando ao andar principal do palácio. Enquanto andavam, Kou percebeu que todas as janelas estavam abertas, porém uma lhe chamou atenção. A enorme vidraça do salão principal estava sendo consertada e ele acabou lembrando dos acontecimentos de ontem. O infrator tinha razão em alguns pontos, mas Minamoto não queria aceitar aquilo; o que o rosado fez foi errado e pronto, agora ele vai ter que arcar com as consequências de qualquer jeito. Ele era podre, imundo, mesquinho, a aparência do menino não condizia com o seu péssimo comportamento: um insolente, de fato.
Kou juntou as sobrancelhas ao se lembrar do menino com tamanho rancor.
– Está tudo bem? - Perguntou Tsuchigomori. – Se você não estiver bem, nós podemos adiar a aula-
– Não! Está tudo certo! Eu só estava distraído.. - O príncipe cortou a fala de seu mestre, voltando a andar como se nada tivesse acontecido. O professor não deu muita importância e prosseguiu com o menino.
Finalmente estavam na parte exterior do palácio, na lateral, onde só havia grama e uma enorme macieira, grande o suficiente para cobrir a mesa de madeira que estava sob ela. O menino prontamente andou até o banco de madeira e se sentou esperando o mestre.
– Vamos retomar a aula de geografia, okay? - O professor recebeu um sorriso como resposta.
– Alteza! - Um dos guardas surge chamando a atenção do menino.
O príncipe, que estava fazendo anotações sobre a aula, levanta a cabeça na direção do homem. – Sim?
– Temos um problema com o novo prisioneiro. Ele se recusa a falar uma palavra sequer no interrogatório, ele disse que só irá falar se for com você.
Kou dá um suspiro pesado, olhando para seu mestre, se desculpando pela repentina urgência, e se levantando da cadeira para ir até a masmorra com o guarda. O caminho parecia ser mais curto do que o menino lembrava, descendo as escadas alguns guardas o saudavam e o desejavam sorte. De todos os prisioneiros, o garoto malfeitor era quem chamava mais atenção; seus cabelos rosados pintavam a atmosfera escura do lugar, chamando a atenção de qualquer um que ousasse entrar no calabouço.
Finalmente o príncipe estava frente a frente com as grades do garoto de cabelos cor-de-rosa. – Poderiam nos deixar um momento a sós? - Pediu o loiro aos guardas, que acenaram com a cabeça.
– Não vai pegar uma cadeira para se sentar?
– Não pretendo demorar muito.
– Hm, como quiser, Alteza. - O rosado falou com uma entonação sarcástica.
O príncipe suspirou fundo, mal tinha chegado e já estava quase perdendo a paciência. – Tá, vamos começar pelo básico. Qual é o seu nome?
– Mitsuba.
Minamoto cruzou os braços enquanto esperava o nome completo do rapaz.
– Mitsuba Sousuke. Já acabou?
– Por que você invadiu o castelo ontem?
– Pfft.
– Estou esperando, fale.
Mitsuba bocejou.
– Mitsuba! Estou falando com você!
– Ah! 'Tá bom, só não grita! - Sousuke deu uma volta pela sua cela e sentou numa cadeira que estava no canto dela. – cara chato.. - O rosado sussurrou baixinho.
– Eu ouvi isso! Vou perguntar mais uma vez, por que você invadiu o palácio ontem à noite?
– Não sei.
– Como assim você não sabe?!
– Eu estava com fome.. Você já acabou com isso?
Kou ficou parado por um instante, agora um sentimento de culpa preenchia o príncipe. Mitsuba era só um garoto como ele, um menino que estava com fome e que agora estava sendo tratado como criminoso. Isso não justificava as atitudes de Sousuke, mas o príncipe não estava mais vendo ele como ladrão, e sim como parte da população. Kou balançou a cabeça tentando espantar os pensamentos alheios e voltou a focar no menino.
– Só mais uma pergunta, onde estão os seus pais?
Ao ouvir essa pergunta, Mitsuba se encolheu na cadeira. – Nem todo mundo tem uma família perfeita como a sua, príncipe... Vai embora. - Retrucou o garoto.
Kou sentiu algo se contorcer dentro de si, o loiro era um menino muito altruísta, sempre botava as pessoas em primeiro plano, e ver que um garoto assim como ele, está passando por um momento ruim é como ver uma pedra sendo atirada num cachorrinho; ele não sabia o que fazer, mas se sentia culpado de trazer o tópico à tona.
– Desculpe-me, não era a minha intenção..
– Todos falam isso.
Os olhos azuis de Kou se arregalaram, ele não queria ser mais um, ele queria ajudar de alguma forma. Porém, a única coisa que conseguiu fazer naquele momento foi se afastar da grade e ir embora.
_____________________________________
Assim que acordou, Kou desceu a escadaria do palácio e adentrou a cozinha principal, tentou ser o mais sorrateiro possível, mas alguns cozinheiros o avistaram. O pequeno príncipe deu um sorriso descontraído pada distraí-los, o que deu certo com a maioria. A passos largos, o menino loiro pegou uma pequena cesta e foi até a despensa procurar algumas guloseimas.
– Sua Alteza, algum problema? - Perguntou um cozinheiro.
– Não! Não se preocupe-
– Eu poderia fazer um serviço de quarto para você, não precisava vim até aqui.
– Ah, mas eu estava com vontade de pegar as coisas por conta própria, hihi! - Minamoto pegou algumas frutas que deixou cair no chão e guardou na cesta, saindo da despensa.
Kou saiu da cozinha, tentando não parecer perceptível, caminhou até o corredor que levava às masmorras do subsolo. A atmosfera do local era completamente diferente do resto do palácio, algumas lamparinas estavam enferrujadas e mal dava para ver a luz da vela. O príncipe desceu as escadas do calabouço até finalmente chegar no corredor estreito que levava até às celas e achar o cabelo rosa que sempre o chamava atenção. Minamoto, pediu para os guardas vigiarem outra parte da masmorra e largou uma cesta perto da cela do menino malfeitor.
– O que é isso?
– O que você acha? Eu trouxe algumas coisas para você comer.
– Não sei se te contaram, mas eles dão comida para os prisioneiros.. Idiota.
– Como é?! Hm.. De qualquer forma, eu trouxe de bom grado, você vai comer ou não?
– Você não pode me obrigar a nada. - Mitsuba cruza os braços.
– Bem, é verdade..
Mitsuba arquea as sobrancelhas e olha para o rapaz. – Amoleceu comigo, Alteza?
– Huh? Nos seus sonhos, Sousuke.
Mitsuba dá uma risadinha para o príncipe. – Dê-me uma maçã, por favor.
Kou pega a fruta do cesto e passa para o rosado.
– Você até que é educado..
– Claro que eu sou! Um cavaleiro como eu precisa ser assim. - Sousuke bota a mão no peito com orgulho.
– Vai sonhando.. - Minamoto fala com deboche.
– Ei!-
– Eu percebi que você só me chama de Alteza.
– Ah! É que eu não sei o seu nome..
– Como não? - Kou arquea a sobrancelha.
– Nem todo mundo da família real é reconhecido, bobão. - O garoto de cabelo rosa pega a maçã e dá uma mordida.
– Ora seu!-
– Além disso, eu nem sabia que o antigo rei tinha mais de um filho - Mitsuba olha para a maçã em sua mão e a morde novamente - Mas você não vai se apresentar? Achei que as pessoas da monarquia tivessem modos..
Kou ignorou o último comentário e começou a se apresentar com um sorriso no rosto. – Meu nome é Kou Minamoto, sou o segundo irmão da linhagem de filhos da família Minamoto, praticamente irmão do meio.
– Uau. Quer um aplauso pela belíssima introdução?
– Mas foi você que pediu para eu fazer uma introdução!
– Eu só queria o seu nome, e não um terço da sua árvore genealógica.
– Eu peço que você tenha mais respeito quando for falar da minha linhagem-
– Tá, Kou... Interessante, mas um apelido cairia bem melhor..
O príncipe olha com um sorriso no rosto, esperando a resposta do rosado.
– Brinco estúpido, é isso!
– Por quê!?
– Porque você usa essa quinquilharia velha aí na orelha, e só em uma orelha? Meu deus, vocês ricos não tem senso crítico de moda mesmo.. - Sousuke fala enquanto termina de comer a maçã e joga o resto na cesta.
– Olha aqui! Esse brinco é passado de geração em geração, ele vale muito e é muito importante para mim, meu irmão que me deu, eu não vou aceitar ouvir seu papo furado! - O menino de cabelos loiros pega um biscoito da cesta e come.
– Por isso ele tá tão caquético.. Coitadinho.
– Não fale assim, quem está realmente sofrendo aqui sou eu!
Sousuke dá uma risadinha botando sua mão na frente para esconder, e prende uma mecha de cabelo atrás da orelha. Seus olhos avermelhados encontram os olhos azulado de Kou, e por um instante, Kou finalmente percebe que o menino à sua frente é lindo. Mesmo em um local desagradável, era evidente que a beleza de Mitsuba dava um contraste a cena, os olhos eram tão brilhantes que lembravam às cerejas e o cabelo parecia macio, mesmo estando mal cuidado por um tempo. Era uma dádiva, Minamoto tinha a impressão de que poderia levar Sousuke em qualquer lugar que fosse e ele continuaria emitindo essa aura de beleza sem igual. Se o rosado estivesse bem-vestido na festa, Minamoto tem certeza de que confundiria com um dos convidados, talvez, até mesmo com um príncipe.
Mitsuba percebe que Kou o está olhando por muito tempo, e cora, decidindo retomar a conversa, ele fala:
– Brinquinho estúpido, tenho certeza de que se eu fosse o estilista do reino, as roupas e os acessórios seriam muito melhores..
Minamoto ouve a voz do menino e se recompõe para voltar a falar. – Impossível, eu não iria conseguir te aturar na sala de costura. - O príncipe fala com um sorrisinho no rosto.
– Está dizendo que a minha beleza te incomoda tanto ao ponto de você não conseguir se concentrar? - Sousuke tampa sua boca com a mão e encara o príncipe com olhar de cachorrinho pidão.
– O quê?! Eu não disse nada disso, você está botando palavras na minha boca! - Minamoto desvia o olhar, enquanto o rubor em suas bochechas aumenta gradativamente.
– Pfft, fale o que quiser, mas eu sei o que se passa na cabeça de pervertidos como você. - Mitsuba dá uma risadinha de soslaio enquanto olha para as suas unhas.
Kou olha confuso para o rapaz. – Se você sabe o que se passa, então isso também te torna um pervertido, não é?
– Claro que não! Retire o que disse!! Eu sou fofo demais para ficar pensando nessas coisas. - Mitsuba exclama, suas bochechas avermelhadas não escondem sua timidez.
Kou arqueia a sobrancelha, cruza os braços e revira os olhos dando um sorriso abobalhado. – Tanto faz. Eu tenho aula daqui a pouco, tenho de ir.
Mitsuba olha tristonho para o rapaz, mas tenta esconder. – Tá bom..
– Até que você não é tão irritante.
– Não posso dizer o mesmo de você. - O rosado revira os olhos, tentando disfarçar mais uma vez a insatisfação por ver seu novo amigo indo embora.
– Ei! - Kou vira irritado e sobe as escadas enquanto Mitsuba não para de gargalhar.
_____________________________________
Ao acordar, Kou não conseguia parar de pensar no garoto de cabelos cor-de-rosa, Mitsuba poderia até ser meio encrenqueiro e irritante, mas algo nele fazia Minamoto se encantar. A personalidade do malfeitor grudava na mente do príncipe igual um chiclete, e o pequeno príncipe se pegava pensando com um sorriso no rosto:
Será que Mitsuba está entediado? Eu deveria fazer alguma coisa para ele?
A partir desse pensamento, Minamoto se levantou da cama e foi direto até o seu armário. Abrindo a grande porta de madeira, em sua penúltima prateleira havia uma caixa; Kou subiu em um banquinho que estava perto do armário e subiu, pegando-a e segurando-a contra o seu corpo, logo descendo do banco e fechando o armário.
Kou, se aprontou rapidamente e foi andando a passos largos até a famigerada masmorra – se pudesse ele correria, mas não queria chamar tanta atenção para si – e finalmente chegou ao corredor estreito e mal iluminado. Era estranho imaginar, mas o pequeno príncipe já estava se acostumando com a atmosfera do local. Alguns guardas o saudaram e logo saíram para patrulhar a outra ala da prisão, pelo menos eles não chegaram a perguntar sobre a caixa grande que ele levava consigo.
– Olá brinquinho brega, o que te traz aqui hoje?
Kou se vira para subir as escadas de novo.
– Não, eu só estava brincando!
Kou arquea a sobrancelha e volta. – Olha.
– Uma caixa?
– Bem, - O loiro se aproxima da cela de Mitsuba e percebe que o rosado comeu o resto das coisas que estavam na cesta que ele tinha levado, e dá um sorriso lembrando do dia anterior. – É uma caixa, mas dentro dela tem alguns jogos.
– Finalmente! Está ficando entediante aqui.
Algo estala dentro de Minamoto, e por um instante ele se sente feliz em poder trazer um sorriso para o rosto de Sousuke. – O que você acha de jogarmos cartas?
– Hm. - Mitsuba olha com desdém para a caixa.
– O que foi agora? Não gosta? Que tal xadrez?
– Eu não sei jogar nenhum desses jogos..
– Oh! Tudo bem, eu posso te ensinar! - O príncipe dá um grande sorriso para o rosado, que acaba sorrindo junto sem perceber. - Só foque em reconhecer as peças e saber as suas funções; temos o bispo que se movimenta na diagonal, o cavalo que se movimenta em L, o rei que se movimenta em qualquer direção (o limite dele é a quantidade de casas) e a dama que se movimenta na vertical, horizontal e diagonal.
– E esse daqui? - Sousuke aponta para uma peça achatada.
– Esse é o peão, ele só pode andar para frente e só uma vez por jogada.
– Parece legal.
– É sim! Vamos jogar?
– Óbvio! Quero ganhar de você para esfregar na sua cara.
– Não era essa a resposta que eu esperava..
– Por quanto tempo você me conhece?
Minamoto vira os olhos e dá um sorriso de relance. – Certo, certo.
No meio da partida, ambas as partes já estavam trocando ameaças e contra-ameaças, buscando qualquer vantagem. Mitsuba faz um movimento arriscado, sacrificando um bispo para abrir a posição do rei de Kou. Este, por sua vez, encontrou um contra jogo astuto, protegendo seu rei enquanto ameaçava a rainha branca.
Depois de horas de jogo, Mitsuba, comete um erro. Fazendo com que Minamoto aproveitasse a chance, criando uma combinação brilhante que forçou o xeque-mate. O príncipe havia ganhado.
– Há xeque-mate!
– Isso é injusto! É a minha primeira vez, você deveria ser mais bonzinho comigo!
– Talvez eu possa pegar leve com você. - Um sorriso empolgado se abre no rosto de Mitsuba. – Da próxima vez, é claro. - O sorriso some.
– Vai ter vingança, riquinho! - Sousuke dá um soquinho no ombro do Kou.
Kou fica rindo da reação do menino. – Boa sorte.
Minamoto pega as coisas e sai da prisão, se despedindo de Mitsuba com um sorriso.
Naquele mesmo dia, Mitsuba se pega tendo saudades de Kou. Os olhos azulados e o sorriso meigo do menino o perseguiam justamente àquela hora da noite – era estranho, decerto, pois o príncipe Minamoto era o principal motivo pelo qual ele estava preso naquele momento, Mitsuba deveria repudiá-lo. Mas mesmo assim, o príncipe não apresentava ameaça e parecia ser um rapaz dócil e carinhoso, poderia até mesmo denominá-lo como altruísta; o loiro estava sempre fazendo algo para alegrar o garoto de cabelos cor-de-rosa, chegava a ser encantador. E de qualquer forma, Sousuke não era um Santo, ele tinha feito coisas erradas que davam inúmeros motivos para ele estar preso no momento. Todas as ações praticadas por Kou desencadearam um quadro de emoções inimagináveis dentro de Mitsuba, pensamentos e sentimentos que o rosado jamais pensou que pudesse sentir; Sousuke estava um pouco assustado, mas ele queria alcançar todas as suas emoções, queria correspondê-las de algum modo, e estava feliz por isso: eram emoções tão boas..
Em contrapartida, Kou pensava no garoto encrenqueiro mais uma vez. Chegou a conclusão que se não estivesse com ele, não iria conseguir parar de pensar no menino, em meio a isso, sorriu. Minamoto sorriu como se estivesse abraçando a ideia dos sentimentos novos, não sabia dizer o que eles significavam exatamente, mas eles o faziam tão bem, era como alimentar uma fogueira com lenha, uma coisa simples, porém tão acalentadora para o seu coração. Parecia que o loiro não conseguia encontrar nenhum defeito no menino – os defeitos que achava sumiram e se tornaram qualidades – e aquela personalidade forte o atraia cada vez mais para os encontros. Poderia ser incomum, mas até os ínfimos detalhes de Sousuke não passavam despercebidos, se o príncipe focasse atentamente nas bochechas de Mitsuba, conseguia perceber que elas tinham uma coloração rosa que combinava com os seus cabelos, e se olhasse para o lado direito do seu rosto poderia ver uma pintinha um pouco abaixo do seu olho, mesmo sendo algo tão simples Kou não conseguia nem mesmo deixar esse pormenor passar despercebido; considerava aquela pinta como uma minuciosidade de uma obra de arte, que só artistas renomados conseguiriam se dar conta de sua presença.
O príncipe botou seu braço em cima dos seus olhos, em uma tentativa de esconder o rubor avermelhado que estava começando a crescer em suas bochechas. O loiro sorriu mais uma vez naquela noite enquanto pensava no rosado, e depois finalmente fechou os olhos para poder dormir. Mal conseguia parar de pensar no amanhã.
_____________________________________
Era difícil ter noção do tempo dentro da prisão, só era perceptível pela fresta de uma pequena claraboia que ficava do lado oposto da cela de Sousuke. Porém, o rosado estava estranhando o horário, o príncipe falava geralmente com ele nesse horário, mas dessa vez ele estava demorando mais do que o costume. Mitsuba só esperava que o loiro não tivesse esquecido dele.
Mitsuba se apoiava no canto da parede, já estava tarde e o menino já estava perdendo a esperança. Entretanto, um barulho de passos chamou a atenção do rosado, fazendo ele levantar seu olhar fixo do chão para olhar para cima.
– Você demorou..
– Então você estava esperando por mim?
– Eu não falei isso. - Mitsuba cruza os braços e vira o rosto, Kou acaba dando uma risadinha.
– Ei, você não está cansado de ficar só aqui na masmorra?
– Que pergunta é essa? Óbvio que estou!
– Então eu tenho uma surpresa para você! - Kou releva as chaves que trouxe no seu bolso, Mitsuba arquea a sobrancelha e descruza os braços, focando a sua atenção na chave.
– Você perdeu o juízo?! Isso não é perigoso? E se descobrirem?! - Sousuke exclama, enquanto Minamoto abre a cela.
– Relaxa, só vou pegar você emprestado por um momento. - O loiro puxa Mitsuba pelo braço.
– Como assim?! O brincolito endoidou de vez agora..
Eles começam a andar para fora da masmorra, passando por alguns corredores e subindo algumas escadas.
– Você poderia parar de falar do meu brinco por um segundo, por favor?
– É impossível, quando claramente o seu brinco é sua característica principal
– Você!-
– Onde você vai me levar?
Kou leva a mão para trás de seu pescoço e olha para Mitsuba meio corado. – Ah, sobre isso.. - O príncipe puxa a porta que leva para uma parte externa do castelo.
Mitsuba se impressiona com a beleza do local. Era um campo cheio de flores: helicônias, rosas, crisântemos, havia flores que o rosado nunca havia visto na vida. Havia um chafariz no centro do jardim, e a luz do luar batia na água, fazendo-a ter um brilho inimaginável.
– Vem! - Kou dá um sorriso largo e convidativo para Mitsuba, que segura na mão do príncipe e é puxado para o jardim.
– Espera!
– Minamoto fica rindo enquanto pega as mãos do Mitsuba e começa a girar com ele.
– Você é louco?!
– Talvez um pouquinho. - O pequeno príncipe dá uma risadinha, e Mitsuba se deixa levar e começa a rir também, os dois começam a girar bem rápido e depois acabam diminuindo o passo.
Kou dedilha a mão destra do rosado e chega até o seu ombro, dando um aperto, enquanto a outra mão do príncipe já reside na cintura de Sousuke. Mitsuba olha para a mão na sua cintura, mas Minamoto acaba chamando a atenção do rosado novamente, fazendo ele levantar a cabeça e olhar para os olhos azulados do príncipe. As orbes azuis não tinham uma coloração azul de neve e geada, mas sim um azul caloroso, convidativo, eram como o oceano; talvez esse seja mais um dos detalhes que encantam o coração de Sousuke.
Eles começam a dar pequenos passos e começam finalmente a dançar, Mitsuba acaba tropeçando algumas vezes, fazendo com que Kou apertasse ainda mais a sua cintura, sempre que isso acontecia o garoto corava emitindo uma reação parecida no príncipe. A dança começou a ser lenta e sincronizada, agora Minamoto olhava o garoto em seus braços com tamanha serenidade e apreço que acabava causando a existência de um leve sorriso ingênuo em seu rosto; uma sensação peculiar tomou conta do seu interior, o príncipe não sabia o que era, mas queria que aquele momento durasse para sempre.
Um enxame de vaga-lumes dominou o cenário, fazendo com que o foco de Mitsuba fosse para os insetos, o príncipe sorriu quando viu os olhos rosados brilharem em contraste com a cor amarelada. Sousuke voltou a sua atenção para o loiro e deu uma risadinha. – O que foi?
– Tem vaga-lumes no seu cabelo!
– Sério?!
– Calma, você vai assustá-los! Deixa que eu tiro - O rosado começa a mexer na cabeleira loira, fazendo com que Minamoto corasse ao toque, era como um cafuné..
Após tirar todos os vagalumes, Mitsuba sorriu para o menino, e ambos decidiram deitar no chão. Agora o loiro e o rosado estavam sobre a grama do belo jardim florido.
– Olha, é o cão maior! - Ele fala com suas mãos apoiadas atrás da cabeça.
– Um o quê? - O rosado vira para olhar para ele.
– É uma constelação. - Kou aponta para o céu e Mitsuba olha na mesma direção.
– Não parece nada de mais para mim. - Sousuke revira os olhos.
– Você tem que olhar em uma nova perspectiva. - O príncipe traz a cabeça de Sousuke para perto dele, ajeitando-a para olhar o céu estrelado.
Os olhos de Mitsuba brilharam no momento em que percebeu o desenho. – É um cachorrinho! - As bochechas dos dois estavam se tocando e Kou conseguiu perceber o sorriso se formando no rosto do garoto de cabelos cor-de-rosa, fazendo com que ele também acabasse sorrindo.
Os dois ficaram deitados olhando o céu juntinhos por mais alguns minutos, que se tornaram horas. – Mitsuba.. - O loiro percebeu que o garoto estava dormindo e se sentiu culpado por tentar acordá-lo.
Foi naquele momento que o príncipe percebeu; aquele céu estrelado, o belo jardim e, principalmente, a pessoa que estava ao seu lado dormindo pacificamente. Ele notou o quanto aquilo era especial para ele, talvez ele não precisasse de mais nada, e só aquele momento seria o suficiente para fazer com que ele enxergasse o quanto a vida valia a pena e como tudo era importante de se apreciar. Kou passou as suas mãos pelos cabelos cor-de-rosa e percebeu o quanto eles eram macios, ele sorriu ao ver que os lábios levemente rosados do outro garoto estavam risonhos; era tudo tão natural que o príncipe mal havia se dado conta quando beijou a testa do outro menino.
Sousuke acabou abrindo os olhos ao sentir o beijo, seus olhos avermelhados encontraram os olhos azulados em uma dança de entendimento que só havia entre eles. Mitsuba sorriu para o príncipe que estava na sua frente, e Kou retribuiu o sorriso. Os meninos voltaram a olhar as constelações, ambos sabiam que iriam passar por muitas coisas juntos e sabiam que estavam ainda só no começo de tudo.
