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Capítulo 1 - (What’s the story) Morning Glory?
— Bem vindo ao inferno de novo. — Avril cumprimentava Louis que estava arrumando seu armário que, propositalmente, era ao lado do dela. — Animado para esse ano? — Perguntou. Louis não prestou atenção porque cantarolava “ you’re in high school again ” do Nirvana no fone e aproveitou para esquivar da tentativa da loira de bagunçar seu cabelo. Depois, ele disse com um sorriso que não via a hora do ano começar de verdade. — Animada para realizar sonhos, loirinha? — Contou enquanto tentava ver o que tinha de tão sério no armário de Avril que ela se esforçava tanto para esconder. — Sai da frente, garota, o que tem aí? — ele tentou tirá-la da frente e ela o mandou sair dali.
Quando os dois amigos caminhavam para sala pelos corredores movimentados do primeiro dia de aula, como de costume, sempre chamavam a atenção dos novatos e de quem já os conheciam. Com péssimas reputações devido aos históricos de problemas na escola, Avril e Louis destoavam dos demais apesar da padronização dos uniformes. A loira platinada fez enormes rasgos em sua meia calça preta que acompanhava de um cinto spark preto em cima da saia, maquiagem preta nos olhos e usava a gravata que é do uniforme masculino. Louis seguia o padrão da amiga, com piercing na boca, lápis de olho e a gravata aberta por baixo do casaco uniformizado, eles sentiam orgulho de serem observados pelos outros.
— Senta logo, vai começar a aula, presta atenção. — A amiga riu do deboche de Louis que sentou ao seu lado na última fileira de cadeiras da sala jogando sua mochila na mesa. No momento em que a turma se ajeitou, a professora já conhecida dos alunos antigos, se identificou aos que entraram naquele ano e deu início a apresentação dos novatos.
— Como vocês sabem, todo início de ano temos a apresentação dos novos alunos da McKinley High School, vamos começar pelo cacheado da primeira fileira, levante-se rapaz e se apresente para sua nova turma. — Mrs. Dorothy apontou para Harry, um menino tímido escondido atrás de cachos definidos que desciam até seu ombro e uniforme perfeitamente ajustado. Ele caminhou com as pernas bambas até a frente da lousa verde. — Oi, me chamo Harry, tenho 18 anos e sou de Holmes Chapel, Cheshire. — Com a fala acelerada, voltou para sua carteira suando frio. Os amigos ao fundo se olharam porque perceberam na hora pelo sotaque do cacheado não era de lá. — Eu tenho quase certeza que ele foi o novato sorteado para dividir o quarto comigo. — Louis comentou sorrindo de canto e Avril o olhou no fundo dos olhos tentando entender o que aquele sorriso significava.
Durante as aulas, Avril e Louis só pensavam em uma coisa: o plano perfeito para fugir daquele lugar. Isso já era o objetivo desde que pisaram no internato no ano anterior quando entraram para o ensino médio e se conheceram e, por isso, aproveitaram as férias para colocar a estratégia em prática. Avril estava animada quando conseguiu escapar da sala com Louis e mostrar o que havia de tão importante no seu armário. Ela tampou os olhos do menor e tirou um saco plástico que estava enrolado em um moletom de caveira por baixo de diversos livros, levou a mão dele para sentir e Louis sorriu de canto de boca. — Shiu, não faz barulho para ninguém nos achar aqui. Mas eu consegui, Lou, eu roubei o dinheiro que a gente precisava. — Foi quando ela tirou as mãos dos olhos do amigo e eles tentaram comemorar sem fazer barulho no corredor. Aquilo era o primeiro passo para o plano que eles estavam planejando colocar em prática.
— Como você conseguiu isso? Quando eu dei essa ideia eu nem estava acreditando tanto assim.
— Você acha que eu sou lerda, seu idiota? Eu era mimadinha, mas eu sei fazer as coisas. Um dia meu pai entrou no escritório e deixou a porta aberta, eu me escondi atrás de um vaso gigante de flores que tinha por perto e tentei enxergar se ele dava alguma pista. Até que ele foi no cofre e pegou uma grande quantidade de dinheiro. Eu nunca vi esse cofre na vida, quando ele saiu eu fui direto lá, mas precisava de uma senha…
— Eai? Sério, como você descobriu a porra dessa senha? Que mente brilhante é essa?
— Meu pai é um porco que só pensa em dinheiro, mas no fundo eu sei que ele me ama, então pensei que pudesse ser a data do meu aniversário e eu acertei. Muito querida do papai… — Ela ri com deboche.
— Nossa, acho que essa é a maior ironia do destino, o dia que você nasceu na senha do cofre de dinheiro dele quando, na verdade, ele te mandou para um internato. Uau.
— Foda-se aquele velho desgraçado, ele ama mais o dinheiro do que a mim.
— Isso todo mundo sabe, Avril.
Quando voltaram para aula, a Mrs. Dorothy permanecia dando a aula de Matemática e anunciou que chamaria um aluno para resolver uma equação de primeiro grau na lousa. Os dois se afundaram nas cadeiras para evitar serem vistos pela professora. Foi quando ela olhou direto para os dois. — Senhora Avril e senhor Louis não adianta se esconderem, vocês eu conheço bem, não perderia meu tempo chamando-os ao quadro, quero carne nova. — Eles se levantaram dando o dedo do meio para a mais velha. — Venha Mr. Styles, resolva essa equação para sua turma. — Harry seguia tremendo e mergulhado em timidez, talvez por isso Dorothy tenha se interessado por ele, ela gostava de causar constrangimento e era zero empática.
O cacheado tentava resolver a equação e o cronômetro apitava ainda mais alto dentro de sua mente, ele suava frio de nervoso porque sabia que era capaz de resolver, mas não conseguia raciocinar com tanta pressão. Mrs. Dorothy bateu a mão na lousa fazendo o pó de giz espalhar por seu rosto e avisou que ele tinha um minuto restante. Quando ela gritou que o tempo havia acabado, Harry estava no meio da equação e ela arrancou o giz da mão do aluno que se assustou com tamanha agressividade. — Estão vendo, crianças? É por isso que devem estudar aqui desde pequenos, o ensino lá fora é de péssima qualidade e cria crianças burras como Mr. Styles. Vocês querem ser como ele? — Pergunta com tom irônico olhando nos olhos de cada um. — Estenda a mão. — afirmou ao pegar um instrumento de madeira escondido e Harry engoliu seco sem reação. Ela gritou novamente e ele por reflexo estendeu no que apertava os olhos para não ver. Ela bateu com a palmatória contra a palma da mão do novato três vezes seguidas e disse à turma que aquilo era apenas uma demonstração de como lá funcionava.
Harry voltou para o seu lugar fraco, se sentia humilhado, queria sumir dali. Não entendia porque precisava passar por isso. Avril e Louis viam a reação de longe com sangue quente, os dois nunca aceitaram as violências que aquele lugar promovia nos alunos, por isso enfrentavam todos. Louis levantou da carteira e ameaçou gritar com Mrs. Dorothy quando o sino do intervalo toca e ele termina seu aviso e sai da sala.
O local tinha grandes janelas e o sol inglês, apesar de tímido, invadia a cara de sono dos alunos no primeiro dia de aula. Avril e Louis estavam muito mais animados que os demais e ninguém poderia imaginar o porquê. Eles caminhavam para o refeitório e lá perceberam os grupinhos se formando, mas eles seguiam juntos e sem aliados. Quando todos já estavam sentados lanchando, Louis viu o novato da sua sala sozinho em uma mesa, ele observava discretamente enquanto Avril ouvia música no fone, algo naquele menino o chamava atenção. Sua feição era extremamente angelical, como se fosse alguém muito ingênuo para aquele ambiente. Louis estava a um ano naquele ambiente e sabia que ingenuidade não era um bom sinônimo para viver naquele lugar.
O moreno que certamente era mais velho, era o completo oposto, sua personalidade era rebelde, marcado pelas tragédias da sua vida, Louis não tinha compromisso com mais ninguém e não respeitava nenhuma autoridade daquela escola. Qualquer tentativa de humilhação ele fazia pior, não abaixava a cabeça e por isso era suspenso muitas vezes. Ao se deparar com alguém que parecia ser tão frágil, ele se sensibilizou. Enquanto Louis observava Harry mexer os talheres no prato com uma cara abatida, o cacheado, de forma repentina, saiu correndo do refeitório.
Louis franziu a sobrancelha sem entender o que aconteceu e não pensou duas vezes em ir atrás. Avril tirou os fones assustada sem entender nada e foi junto, ela era sua companheira em tudo. O caminho que Harry fazia era em direção ao banheiro masculino, Avril entrou junto porque a última coisa que ela se importava eram as regras da escola que ela odiava. Eles procuravam por pés olhando por baixo das cabines e em silêncio ouviam Harry chorar. Os amigos ficaram uns minutos pensando no que fazer. Até que Louis deu leves batidas na porta chamando leve por Styles. — Harry? É o Louis, sou seu colega de classe. — Não encontrou respostas. Harry se assustou e ficou em silêncio, para ele, todos agora poderiam ser uma ameaça. Não deu tempo de ouvir a resposta quando um menino saiu de outra cabine e encontrou Avril por lá. Eles discutiram porque a aluna não deveria estar lá, ela o enfrentou até que o outro foi para cima dela caindo em uma briga, Louis foi defender a amiga e disparou socos no desconhecido, Harry saiu imediatamente da cabine pegando Avril pela mão e a tirando dali. Ela saiu xingando e Louis conseguiu o jogar no chão indo atrás da amiga. — Para de bater em mulher, seu merda. — Ele gritou no rosto do aluno.
— O que vocês estão fazendo? — Harry perguntava desnorteado quando os dois amigos o levavam para o alojamento. No momento em que chegaram no quarto de Louis, Harry percebeu que era o seu quarto. — Você é o menino que divide o quarto comigo? — Louis confirmou com a cabeça. — Era o que eu estava tentando falar desde o começo. — Sentou na cama. — Vamos.. senta aqui e se acalma. — Harry seguiu o conselho. Ele acabou se sentindo confortável na presença daqueles que apesar de serem seu oposto, foram os únicos que se importaram com sua situação. — Harry, sinto muito pelo o que aconteceu com você mais cedo. Esse lugar é um hospício, nos tratam como se fossemos nada, mas seja forte e não deixe isso te abalar, estamos aqui para te ajudar. — Louis falou segurando a mão machucada, fazendo um carinho, o mais novo desviou o olhar com ternura quando sentiu o carinho na mão esquerda. Os três conversaram até voltarem para a sala de aula. Quando anoiteceu, Louis teve a ideia de fazer uma mini party em seu quarto e Harry se preocupou de imediato em dar algum problema, ele ainda não havia entendido que isso não era impedimento de nada para aqueles dois.
O quarto era pequeno, mas cheio de referências. Posters de bandas, livros jogados na cômoda e uma bagunça de roupas e itens de estudo. Harry se sentiu interessado por esse universo instigante e cheio de personalidade que ele foi colocado e os amigos estavam empolgados com a possibilidade de ter um novo amigo, um possível aliado.
— Quer fazer uma festa para estrear seu quarto novo? — O moreno perguntou para Harry que estava prestando atenção na forma que Louis se movimentava pelo próprio quarto, ele passava uma energia de liderança sempre. Harry olhou para Avril buscando saber se era sólida a proposta e ela fez um sinal de afirmação com as duas mãos entre o rosto sorrindo. — A gente gostou de você, cacheado, vai virar nosso mascotinho. — Ela chegou mais perto buscando um abraço. Louis gritou abraço coletivo e pulou em cima dos dois. Harry pela primeira vez desde que saiu do caos de sua casa, se sentiu acolhido, pelo pouco que conversaram, o mais novo percebeu que talvez fossem mais parecidos do que imaginam.
Avril raramente ficava em seu quarto que dividia com uma colega da sala. As duas eram extremo oposto, Elizabeth era estudiosa e disciplinada, Avril fazia questão de ser rebelde e fora de qualquer ordem de comportamento. Assim, a cacheada ruiva que dividia uma beliche tinha pavor de confrontar a loira, Avril sabia que causava essa reação nos alunos que se rendiam às doutrinas daquela escola. Nem sempre ela se explicava, mas naquela noite, a loira avisou que sairia do quarto por um tempo pedindo para que caso a inspetora aparecesse fazendo ronda que Elizabeth dissesse que Avril estaria usando suas horas de ligação para seu pai no telefone público da escola.
Harry se arrumava nervoso ali no quarto, pegou suas roupas e foi para o banheiro, Louis terminava de arrumar o quarto. O cacheado tentou não se arrumar tão alinhado para não destoar dos outros. Experimentou deixar os cachos mais soltos e saiu do banheiro de toalha enrolada na cintura dando espaço para o outro entrar no banho. Aproveitou para colocar sua blusa do Oasis e surpreender Louis, sorriu no espelho quando estava pronto imaginando sua reação, era forma do mais novo de mostrar a Louis que podiam ser mais parecidos do que ele imaginava.
Louis queria distrair sua cabeça e conhecer mais do menino angelical que o chamou tanto atenção. Quando abriu a porta da suíte, ele se ajeitou e reparou instantaneamente na blusa do álbum do Oasis que Harry usava e ameaçou um sorriso enquanto esfregava a toalha em seu cabelo. Foi quando ouviu barulhos leves na sua porta e correu para ver no olho mágico, era Avril toda agasalhada para ninguém a reconhecer.
Quando todos já estavam juntos, Harry se sentiu mais confortável e passou a cantar e dançar as músicas quando sentia vontade, sempre em tons baixos para que nenhuma pessoa ouvisse nada, quase em forma de sussurro. Louis não conseguia tirar os olhos do cacheado que parecia hipnotizante e, por isso, quando Avril falou que precisava pegar algo no seu quarto, pediu para Louis ir com ela. — Fecha mais a boca. — Louis não entendeu. — Está quase babando no menino. — Os dois riram. — Ele veio com a blusa da minha banda preferida de forma inocente? Não me culpe, loirinha. Eu não sou idoita e ele é uma gracinha. — Nós acabamos de ganhar um companheiro para passar por esse inferno, talvez um aliado para fugir daqui, só cuidado para não estragar tudo. — Ele concordou e prometeu ter atenção.
Em algum momento da conversa ao som de uma música levemente alta, Harry sentiu necessidade de falar mais, ele tinha passado o dia todo sendo mais ouvinte e tentando entender tudo. — Sabe… eu não esperava terminar meu primeiro dia em um internato com dois novos amigos que foram cuidar de mim depois que levei uma agressão da professora. É muito para processar. — Ele riu. — Mas eu, sem dúvidas, não quero terminar mais nenhum dia nesse inferno sem vocês.
— Um trio? — Avril perguntou. — Um trio. — Louis e Harry responderam. Os três estenderam as mãos, as seguraram e levantaram, imitando uma comemoração.
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Capítulo 2 - Forget about everything and runaway
Era 7h40 quando Avril e Louis se encontraram no refeitório para o café da manhã, ela havia acabado de sair da revista dos uniformes, onde os alunos em fileiras eram avaliados se estavam com o uniforme de forma adequada. Avril sempre aparecia padronizada até sair dali, entrar no banheiro, passar maquiagem e colocar sua gravata, ela levava diversas advertências, mas não era uma infração gravíssima, então não podia ser expulsa.
Eles começaram o dia como começaram desde o primeiro dia de aula, elaborando o plano para fugir dali. Depois de uns dias de convivência com Harry, os amigos sentiram que ele chegou para ficar, existia confiança no mais novo neles, mas precisavam confirmar essa ideia. — Você que vai perguntar, aproveita e chama ele para ficar no almoço com você, chega dá ânsia de vômito vocês dois nessa melação sem fazer nada. — A loira comentou parando no bebedouro enquanto todos entravam na sala, Louis riu porque concordava, ele já estava a um tempo querendo um tempo sozinho com Harry. Na hora do intervalo, Avril iria inventar que estava passando mal e ficaria no seu quarto até Louis dar um sinal que podiam se reunir em trio novamente.
Quando faltavam alguns minutos para o intervalo, Louis cutucou Harry que agora sentava na sua frente e entregou um papel amassado por baixo da carteira. - Me encontra no corredor L28 -, o cacheado já estava familiarizado com a arquitetura renascentista do internato e sabia onde era, eles se olharam com um sorriso de canto, Harry imaginou que fosse para se reunir com ele e Avril. Quando todos foram deixando a sala, Louis saiu sem que o mais novo percebesse e o esperou no lugar marcado.
Harry sabia que não seria nada além do habitual como sentar em algum lugar e conversar sobre qualquer coisa com seus novos amigos, mas sempre que estava perto de Louis sentia um frio na barriga. No momento que ele chegou e encontrou Louis sentado no chão encostado na parede o esperando, deu falta da amiga, por isso, aproveitou um pouco para admirar Louis de longe, em como ele ficava bem naquele uniforme desleixado azul marinho clássico, com o cabelo tão liso contrapondo o seu e o rosto de perfil era extremamente delicado. — Te achei! — Harry proferiu por trás de Louis tocando no ombro do amigo. Louis levou um leve susto e sorriu ao mesmo tempo. Depois de uns minutos de conversa para quebrar o clima e o mais velho ter mentido sobre Avril, o mais velho direcionou a conversa para o assunto principal.
— Estava pensando, Harry, tem semanas que nos tornamos amigos, eu e Avril estamos muito felizes que te encontramos. — Harry se aproxima e senta ao seu lado. — Mas nós dois estamos aqui há um ano e não aguentamos mais isso, você sabe das nossas intenções, queremos fugir daqui, Harry. — Suspirou alto. — Eu sinto que posso enlouquecer a qualquer momento, meu pai me mandou para cá porque desde a morte da minha mãe eu corria risco de vida na rua, meu pai era extremamente homofóbico, quando ela se foi, perdi minha proteção e ele me expulsou de casa, eu vivia na rua sem saber se queria continuar existindo. Até que um dia ele me achou e disse que ia me levar para um lugar onde eu aprenderia a ser gente. Eu pensei que, pelo menos aqui, estava seguro, mas a última coisa que tenho aqui é segurança. Os professores batem na gente, nos ameaçam, a gente vive preso aqui. — Desabafou cabisbaixo. Harry ouvia atentamente. Ele sentia o desespero na voz de Louis porque sentia o mesmo sentimento dentro de si.
Quando Harry foi mandado para o McKinley High School, ele não foi informado. Sua mãe o levou no carro sem dizer para onde iam, quando chegou na escola ele nunca mais saiu. Demorou alguns dias para ele processar que estava sendo abandonado e não iam voltar para buscá-lo. Apesar da violência física assustar muito Louis que nunca havia passado por isso antes, Harry estava familiarizado. Sua mãe sempre o agrediu e o tratou como um peso morto, dizia que se arrependia de ter tido ele e que não o suportava, portanto, aquilo não era o que mais movia o cacheado, era como se tivesse uma espécie de anestesia sobre isso. A vontade que permeava a boca do seu estômago sempre foi ser livre e ali ele jamais encontraria aquilo.
— Eu não imagino o que é viver a sua história, mas sinto sua dor. Pode ter certeza que sinto. — Harry o confortava, quando o mais velho quis saber também como ele foi parar lá o cacheado foi sincero. — Harry… sinto muito. — Sibilou em um abraço acalorado. — Você vai querer fugir com a gente? — Louis perguntou sincero. — Entendo se não estiver pronto, você acabou de chegar aq- — Harry não o deixou finalizar. — Eu quero, conte comigo. Qual o plano? — Harry estendeu a mão como se fizesse um trato com Louis e apertaram as mãos se olhando com expressão de alívio.
Louis explicou a situação familiar de Avril parcialmente, pois não queria invadir a privacidade da amiga, mas falou o suficiente para Harry entender que ela roubou dez mil libras do cofre do pai. — Ainda não sabemos como usar esse dinheiro da melhor forma, nos ajude a achar uma solução, Styles. — O cacheado garantiu que pensaria em algo. Como a amiga sugeriu, Louis aproveitou e convidou Harry para almoçarem juntos. Trocas de olhares eram inevitáveis, o cacheado o olhava com admiração, depois de conhecer um pouco mais de sua história. Acabou descobrindo que Louis era gay assumido e aquilo bateu diferente em Harry. O mais novo sempre soube que gostava de meninas, desde então, nunca questionou sua sexualidade, mas ao mesmo tempo, nunca tinha sentido o que sentia naquele momento. A um tempo cacheado vinha tentando entender o que sentia sobre Louis, era semelhante ao que com outras meninas que já passaram em sua vida, só que ele era seu amigo. Isso lhe causava conflitos internos que Harry preferiu lidar sozinho. Entretanto, cada vez que via o mais velho de novo aquilo aumentava.
Avril estava com um sorriso em cada orelha, ficou genuinamente feliz com a notícia que Harry seria um aliado, ela se apegou ao menino. Na volta do intervalo de almoço, Mrs. Dorothy sentiu falta de Styles nas primeiras carteiras e pediu para que ele se manifestasse. Envergonhado, ele esticou o braço revelando estar sentado na penúltima carteira, perto de Avril e Louis. — O que está fazendo no fundo da sala, rapaz? Por acaso eu autorizei que você saísse de sua carteira? — Perguntou de forma retórica. — Volte imediatamente e me entregue sua agenda, tomará uma advertência por falta de disciplina. Não pense que chegará muito longe sentado próximo desses dois imprestáveis atrás de você, — Louis suspirou em seu ouvido quando ele levantava: — Conversamos melhor no nosso quarto. — Harry sentiu seu coração palpitar ao ouvir nosso quarto e afirmou ao que saíra rápido dali.
Avril não podia sempre ir para o quarto dos meninos, nem podia arriscar sua sorte fugindo da inspetora a todo momento. Aproveitava para ouvir músicas e pensar. Naquele dia pensou em escrever uma carta para seu pai, ele não a visitava a muito tempo, não sabia se era porque podia ter dado falta do dinheiro ou era apenas a indiferença casual de sempre. Filha de uma psiquiatra respeitada no país e do empresário dos Rolling Stones , ela não era a prioridade de nenhum dos dois. Sua mãe a abandonou desde o nascimento e nunca mais a visitou, o que a designou ao pai, mas ele deixou Avril com uma babá, a Srta. Alisson, e raramente aparecendo em casa. A caçula dos amigos nasceu em uma ambiente confortável financeiramente e não conhece os problemas da família de Louis que quando perdeu a matriarca, tinha cinco crianças para alimentar, deixando Mr. Tomlinson sobrecarregado enquanto ainda tentava lidar com Louis. Ou talvez na situação do Harry que embora fosse ele e a mãe, passavam necessidades e Mrs. Styles trabalhava como faxineira em mansões da área rica de Manchester. Assim como para os outros dois, para a loira fugir dali era tentar começar uma vida 100% sua, na qual ela passaria a necessidade que fosse, mas estaria livre de todos esses sentimentos ambíguos que vivam consigo.
Enquanto isso, no quarto dos meninos, eles jogavam xadrez entre as camas e se aproximavam cada vez mais. Louis decidiu preparar chocolates quentes com marshmallows e Harry adorou a ideia. Riam, sem deixar de ser competitivos na mesa de tabuleiro, o entardecer da noite gélida do interior da Inglaterra servia de plano de fundo para a alegria branda que nascia entre os dois em um quarto e a angústia flamejante no coração da adolescente no quarto de outro bloco. Os dois adormeceram após a partida e dormiam em sono profundo até que o mais velho passou a se movimentar muito na cama e despertou Harry. Aos poucos Louis ia ficando mais agitado e o cacheado se sentou colocando seu óculos que usava de descanso para enxergar melhor. Ele ia ver se Louis estava acordado quando ele acordou assustado e suando.
Harry sentou ao seu lado e o acalmou. — Você teve um pesadelo, calma, está tudo bem. — Louis ia voltando a realidade, mas seu corpo seguia quente e suava muito. — O que você está sentindo? — Perguntou. — Eu sonhei que estava morando na rua de novo. — Harry tentou o cobrir melhor pois via que ele ainda se tremia. — Não se preocupe, eu estou aqui com você, Louis, você não está sozinho. Tente dormir, vou esperar você pegar no sono. — Ele avisou levantando para voltar à sua cama e ouviu Louis o chamar baixo. — Ter falado sobre isso me fez acessar memórias que queria esquecer. Fica aqui comigo, por favor. — Harry ainda de costas paralisou e lentamente tornou-se a sentar na cama de Louis sensibilizado. — Estou aqui com você, descanse. — Louis segurou a mão do cacheado e pegou no sono lentamente, o mais novo dormiu sentado, mas acordou de manhã dividindo a cama com Louis sentindo o braço do outro o enlaçar por trás e a respiração em sua nuca. Levantou devagar percebendo que dormiu e óculos, encostou na beira da cama e pensou no que estava acontecendo torcendo para que Louis não se lembrasse de nada disso, sem saber que Louis pensava o mesmo.
Uma semana depois, durante a aula, os alunos foram comunicados que um evento aconteceria na McKinley High School pelo diretor. Ele passou de sala em sala informando a todos que a escola iria escolher uma professora e um aluno para conhecer a Universidade de Oxford. A escolha seria feita de acordo com a média de cada um, seguido do nível de disciplina. O aviso de quem seria selecionado aconteceria no final do dia. A notícia era o assunto do momento, todos queriam saber quem iria para Oxford.
Os amigos dividiram a mesa no refeitório do almoço percebendo a movimentação que acontecia na escola, eles não ligavam para aquela viagem, não tinham interesse e não viam como aquilo poderia servir de algo para eles. Louis e Avril já tinham infringido todas as regras de disciplina e as notas não eram altas, Harry tinha acabado de chegar e já queria sair, não teria ganho a confiança da diretoria ainda, apesar das notas altas que tinha. O grupo de nerds que sentavam ao lado deles tentavam descobrir se seria um deles o selecionado ao passo que os amigos reviraram os olhos.
No final da última aula, o diretor voltou para dar a notícia. — Senhores e senhoritas, volto para comunicá-los sobre o intercâmbio que a McKinley High School está promovendo para a Universidade de Oxford, essa será uma oportunidade imperdível do aluno de conhecer uma das melhores universidades do mundo e de estudar por três semanas em um curso de férias. Sabemos que o primeiro trimestre está acabando e teremos férias a partir do mês que vem. — Ele comunicava e todos olhavam atenciosamente inclusive Harry, menos Avril e Louis. — Sem mais prorrogação, temos o aluno selecionado e a professora. Levante quando eu chamar seu nome, por favor. Senhor Styles, onde está? — Harry levantou o braço. — Você é o selecionado, levante-se. — Quando ele ressitou o nome de Harry, foi como se ele tivesse levado um tiro. Ele levantou sem forças nas pernas percebendo todos o observarem com olhares de inveja. — Para lhe acompanhar, a professora selecionada será Mrs. Dorothy. — Harry imediatamente olhou para seus amigos, eles sabiam que ficar três semanas sozinhos com aquela mulher seria uma tortura para o mais novo.
Avril deu um jeito de fugir e ir para o quarto dos meninos ajudar como podia. Eles tentavam consolar Harry. — Temos que pensar em um jeito de eu não ir para essa viagem, me ajudem, — Ele implorava enquanto olhava no mapa que tinha quarto quanto tempo de distância seria dali para Oxford. Teria que pegar um trem até chegar lá e demoraria três horas em média. Todos pensavam juntos sentados no chão em silêncio, quando um sugeria algo ouviam com atenção, mas até aquela hora, nada tinha saído muito do lugar.
— Posso falar? — Avril pergunta e eles aceitam. — Se vocês provavelmente vão pegar um trem, lá precisa ser nosso ponto de partida, correto? — Eles confirmaram ainda sem muita certeza de onde a loira iria chegar. — Então, você vai com eles até a estação, eu e Louis damos nosso jeito de sair daqui, quando você chegar lá, estaremos com nossas passagens compradas para algum trem de horário próximo para outro lugar. — Eles olharam entre si começando a gostar da ideia. — Mas eles vão achar vocês lá. — Harry pontuou. — Louis conhece essa área da cidade, você dormia por ali, você pode nos ajudar com isso. — O mais novo percebeu que eles esperavam que ele falasse algo. — Oh, não imaginei que minha experiência de gay expulso de casa serviria para alguma coisa. — Eles riram. — Perfeito. Ele acha uma forma de nos esconder, você arruma um jeito de despistar deles na hora de embarcar e a gente foge. — Harry abriu um sorriso. O problema que eles ainda não haviam pensado era: Como Louis e Avril fugiriam do internato sem ninguém saber?
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Capítulo 3 - He never seen a love as pure as it
Passaram-se duas semanas desde que o trio arquitetou o plano de fuga. O grande dia se aproximava e apesar da pressa, Louis e Harry vivam cada dia de forma mais intensa todos os sentimentos. Naquele fim de semana, era folga de todo o corredor que os meninos residiam, logo, os dois estariam livres juntos, por serem maiores de idade, não precisavam de responsável que buscasse na porta da escola. Eles passaram a madrugada em claro junto da amiga pensando em como aproveitar esse momento, logo, decidiram que os dois iriam até a estação e comprariam as três passagens de trem para o mesmo dia e hora da passagem que Harry tinha para Oxford. Louis queria muito que Avril tentasse escapar e ir com eles, mas ela preferiu evitar naquele momento. O amigo estranhou ela não querer exercer a rebeldia que tanto se orgulhava, mas Avril decidiu não chamar atenção, ficou no internato para explorar os corredores da escola sozinha, tentando encontrar alguma saída alternativa para o plano final.
Louis decidiu ficar na casa de um amigo de infância que morava com a mãe e todos o adoravam. Harry topou de imediato e formalmente eles saíram da escola como se fossem meros colegas. Se encontraram novamente na livraria que tinha duas ruas depois da escola, para evitar serem vistos. Uma mini sensação de liberdade já beirava os corações dos jovens meninos que viam a rua depois de semanas internados. O vento frio batia sobre os cachos de Harry que balançavam contra seu pescoço e Louis fechava ainda mais seu sobretudo preto para evitar sentir o sopro gelado. Caminhavam de mochilas com algumas peças de roupa e itens básicos que guardavam no quarto sem rumo, apenas para viver a sensação de fazer o que quisessem. Foi quando Harry sentiu levemente os dedos de Louis se aproximarem do seu sem tentativa de segurá-la, talvez só para uma aproximação.
Compraram fish n’ chips no caminho e sentaram no Rowntree Park de frente para um lago, no fim da tarde. — Estou feliz de estar aqui com você, Louis. Você desperta algo em mim que não sei explicar o que é, mas te agradeço por isso. — Disse sorrindo quando viu as bochechas morenas do amigo corarem. Olhando para o lago reflexivos, decidiram jogar uma moeda e fazer um pedido, só tinham os dois ali. Harry jogou a sua moeda primeiro, quando Louis assoprou a moeda na mão esquerda ainda sem coragem, Harry segurou sua mão direita e sorriu. Louis retribuiu o sorriso de forma inesperada e realizou seu pedido em seguida. O cacheado logo separou com medo de alguém ver, mas Louis pensou nesse momento até chegarem próximo da casa do seu amigo.
Perceberam uma movimentação no parque quando anoiteceu e descobriram que à noite funciona um parque de diversões naquele local. Decidiram caminhar até o parque e explorar. Harry não pensou duas vezes para irem na cadeira voadora, de noite o brinquedo era todo tinha uma decoração vintage iluminada e lá de cima era possível ter uma linda vista da cidade, mas principalmente, causava uma sensação de liberdade que o cacheado queria viver naquele momento com Louis. O mais velho sorria como bobo vendo Harry despertar seus instintos mais profundos, ve-lo se emancipando e fugindo da sensação de prisão. Compraram maçã do amor e caminhavam para casa do amigo de Louis até uma chuva repentina pegou os dois amigos desprevenidos na rua deserta. Louis colocou sua mochila na cabeça para proteger dos pingos fortes e tentou cobrir o cacheado com seu sobretudo, eles ficaram extremamente próximos a ponto de sentirem a respiração um do outro.
Harry encarava Louis como se tentasse conversar por olhares, Louis retribuía. De repente, eles já não pensavam mais em chuva, a atenção dos dois focou nos lábios avermelhados que os dois tinham por conta da maçã do amor. Louis conseguia quase ouvir o barulho das batidas do coração do mais novo, ele estava visivelmente nervoso. — Vamos andando rápido, estamos muito próximo do nosso destino. — Louis já tentava sair dali, mas Harry olhava para os lados ao que Louis falava e quando ele ficou em silêncio novamente o cacheado firmou seus olhos nos lábios em sua frente e selou um beijo. — Eu gosto de você. — Proferiu enquanto abraçava Louis e se molhava ainda mais.
Louis buscou a boca de Harry para um outro beijo, agora sem se importar com a chuva. Largou a mochila no chão e enfiou os dedos nos cachos do mais novo. Um beijo molhado que dava muitas respostas para Harry. Ele nunca tinha ficado com nenhum menino antes e além de nunca ter gostado de ninguém daquele jeito, era a primeira vez que sentia que era correspondido na mesma intensidade. Para Louis, o beijo não era nenhuma autodescoberta como para o outro, mas também lhe causou sentimentos que o eram desconhecidos até então.
A família de Oli, amigo de Louis, rapidamente se lembrou do colega de escola e ofereceu abrigo no meio da chuva. Tomaram um banho quente e jantaram, Louis apresentou Harry como um amigo do internato e, devido Oli dividir o quarto com a irmã, os amigos dormiram na sala não podendo evitar os olhares e beijos proibidos.
Acordaram com um arco-íris no céu que atravessava a janela, Oli e Harry puderam conversar melhor e se tornaram grandes colegas. O ruivo sempre foi super extrovertido e engraçado, usava isso a seu favor e estava sempre rodeado de pessoas. — Louis, você lembra como eu era excelente em imitações, não lembra? — Ele imitou o âncora do jornal famoso de York e Harry levou a mão à boca chocado. Seguiram um tempo quando Louis interrompeu a brincadeira abruptamente. — Oli, preciso te contar uma coisa. — Louis explicou sobre seu plano. — Mas você quer minha ajuda? Como posso te ajudar? — Perguntou. — Imite meu pai, sim, imite ele. — Ele imitou falando “Meu nome é Mark e eu sou pai do Louis”.. — Quero que ligue para escola e imite meu pai, diga que será aniversário da minha irmã mais nova e gostaria que eu fosse liberado para voltar para casa. — Oli arregalou os olhos em direção a Louis que o olhava confiante. O cacheado assentiu, confiando na ideia de Louis, agora só faltava pensar em uma saída para Avril.
No último dia de folga, eles fizeram o prometido. Se despediram de Oli e sua família para chegarem à estação de trem de York e comprarem as passagens. Avril havia separado uma parte do dinheiro para isso e entregou para Louis com as notas escondidas entre as folhas de um caderno. Louis e Harry, que estavam cada vez mais próximos, queriam o tempo todo abraçar o outro, mas sabiam do preconceito e o medo gritava mais alto. — Você já dormiu nessa estação mesmo, Louis? — O cacheado perguntou reflexivo admirando o local que um dia quem ele gosta já dormiu no chão sozinho. O mais velho confirmou pedindo em seguida que ele não se preocupasse com seu passado, mas Harry encheu os olhos de lágrimas. — Lembra que você mesmo me disse que estava tudo bem agora e você estava comigo? — Louis fez um carinho no pescoço quente de Harry o consolando.
Ao chegarem na bilheteria, eles deveriam escolher qual seria a viagem que fariam. Eles conversavam olhando para o folheto que pegaram com as viagens disponíveis para os próximos 15 dias, precisavam ver a logística e pensar no que Avril acharia também. — Eu queria muito conhecer o Palácio de Buckingham e a Tower Bridge de Londres, mas algo em molhar nossos pés nas águas salgadas do litoral me deixa muito animado. — Harry refletia. Por fim, optaram pelo trem que sairia de uma plataforma bem distante da que iria para Oxford, o que seria bom para despistar dos demais, e que iria para Brighton, no litoral. Concluíram que seria interessante conhecer a praia, mar era sinônimo de liberdade e para jovens do interior da Inglaterra também. Louis entregou à atendente as três identidades que estavam em seu bolso torcendo que ela não exigisse que todos estivessem presentes. Os segundos seguintes que ela analisava os dados dos documentos provavelmente buscando ver se eram maiores de idade foram infinitos. Louis segurava forte a mão de Harry com o casaco tampando quando ela devolveu os documentos junto com as passagens. Eles respiravam aliviados, pensavam na sensação de pisar na areia e ver o mar pela primeira vez, na sensação do sol batendo na pele, da emoção de se sentirem livres da escola, das famílias, dos traumas, dos rostos conhecidos.
Acharam um lugar para almoçar no início da tarde nas ruas mais estreitas da cidade. No final do dia, quando já estava escurecendo, os dois começaram a caminhada até o ponto de ônibus para chegarem de volta na McKinley. No fim de tarde, durante a caminhada passaram por uma saída de metrô desativada, a entrada era subterrânea com paredes de cimento similar a um beco. Harry avistou e, sem pensar duas vezes, puxou Louis pela mão descendo as escadas correndo. Lá, empurrou o maior na parede o beijando, aproveitando que ninguém podia ver. Louis se assustou, não esperava determinada atitude. — Vai ser difícil voltar a fingir ser seu amigo. — Harry desabafou no pescoço quente de Louis antes de passar os lábios por sua pele. — Vai ser rápido, logo estaremos livres. — Prometeu enquanto raspava a respiração na boca do mais novo segurando seus cachos. Eles enxergavam a juventude que sonhavam nos olhos alheios.
Os dois saíram outras vezes à noite para terem a intimidade que não tinham na casa de Oli. De madrugada, um ia para o colchonete do outro para ficarem juntos. Aproveitaram aquele escape da realidade como puderam. Durante esses dias pensavam em como Avril estaria no internato torcendo para que tudo estivesse bem. Quando chegaram lá, logo buscaram por ela. Foram os três para o pátio, Avril contou as novidades do fim de semana. — Conseguiram as passagens? — Perguntou apreensiva enquanto percebia que tinha algo diferente entre os dois. Eles combinaram de negar para fazer suspense, mas acharam inadequado sabendo que ela estava lá sozinha sem notícias. — Sim, estão guardadas embaixo do meu colchão. — Louis contou sorridente. Quando questionaram o que ela fez nesse tempo, ela orgulhosa falou enquanto andava pelo corredor gélido: — Explorei esse hospício. Tentei encontrar alguma forma de eu e você, Louis, saímos daqui no dia que Harry sair com os representantes. — Eles ficaram curiosos sobre o que ela descobriu. — Prestei atenção em cada câmera, procurei todas as saídas daqui e olhei cada janela. Já montei nosso plano, vamos para o quarto de vocês e eu explico. — Era uma das últimas vezes que ela precisaria usar os truques dela para andar livremente pela escola.
— No momento que eles forem embora todos os inspetores estão com os olhares reforçados justamente por precaução de algum aluno aproveitar a movimentação e fugir, por isso vamos esperar o clima acalmar. — Avril avisa. — Mas nosso trem sai logo depois do que o Harry entraria, temos que chegar juntos. — Louis ficou apreensivo. — Eu sei, mas o que eu quero dizer é que preciso estar em sala de aula depois que ele sair, eles precisam ver meu rosto e saber que estou aqui. Você já combinou com Oli para que ele ligue para diretoria e peça que te liberem no início do dia, né? — Louis confirmou. — Louis, você vai usar um grampo para abrir a porta da biblioteca desativada antes de sair, por ela não estar funcionando, as câmeras dali devem estar desligadas. A janela dela dá para as costas do prédio, então, quando sair da escola, me espere embaixo daquela janela, eu vou pular de lá. Coloca seu lençol na mochila e joga pra mim, tá? De lá, precisamos recuar, correr cada vez mais para trás do campo verde da McKinley até chegarmos na rua paralela. Lá, entramos no primeiro ônibus para nos distanciar e depois vamos para a estação. — Ela buscava alguma segurança na resposta dos dois enquanto fazia um coque com o cabelo.
Harry e Louis olhavam atentos com Avril apontando para o mapa da cidade na mesa que ela arrumou na biblioteca da escola. Eles confiaram no plano da amiga e tentaram comemorar que estava dando tudo certo. Ligaram o rádio baixinho e colocaram o CD do Oasis relembrando a primeira vez que estiveram juntos naquele quarto como um trio. — Vocês não tem nada para me contar? — Ensinou a loira que percebia como os dois estavam muito próximos desde que voltaram. Harry ficou sem graça abaixando a cabeça deixando sua covinha à mostra ao lado de Louis que sorriu tentando falar com os olhos. — Não crie um clima difícil para Harry, Avril, sabe que ele é tímido. — Ela bagunçou os cachos do amigo. — Tudo bem, eu já entendi, já entendi. — Levantou as mãos rendida. — Vocês formam um lindo casal. — Avril provocou rindo baixo e Harry enfiou a cara no travesseiro sorrindo envergonhado. Louis o consolou e colocaram uma vídeo-cassete para assistirem um filme qualquer que tinha na estante da biblioteca escola só para passar o tempo. Harry e Louis aproveitavam a privacidade do quarto para estarem próximos. Da porta para fora, eram apenas colegas de sala. Por isso, desfrutavam de trocas de carinho pelo corpo, olhares apaixonados, abraços e beijos quentes. Os três acabaram pegando no sono de uniforme mesmo e dormiram sentados na cama, como se não vissem o tempo passar quando estão juntos, aproveitavam que eram os últimos momentos que tinham para viver aquilo, tudo era incerto dali para frente.
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Capítulo 4 - It’s like a gold rush
No dia esperado, a escola inteira estava focada no evento, Harry era centro de inveja dos nerds que desejavam conhecer Oxford e da atenção de qualquer um ali. Ele não poderia se importar menos com faculdade ou Mrs. Dorothy, ele só pensava no que poderia acontecer nas próximas horas. Na noite anterior, Harry dividiu a cama com Louis e Avril dormiu na sua cama, ele teve crise de pânico pensando no dia seguinte. Suava frio, achava que ia morrer devido o coração muito acelerado. Se recusou a chamar a enfermeira que a escola disponibiliza e os amigos tentaram fazer o que pode para acalmá-lo.
Apesar de ter criado um laço afetivo com os dois amigos desde cedo, Harry não está acostumado com o nível de adrenalina que a vida rebelde de Louis e Avril tinha. Aquela não era a primeira aventura de nenhum dos dois ao mesmo tempo que Harry nunca saia de casa. — Harry, está tudo bem, eu e Avril estamos com você, nada vai acontecer. Lembra quando você cuidou de mim quando tive pesadelo? Então, aquilo não era real e o que você está pensando também não. — Louis tentava trazer racionalidade para o mais novo que chorava sentado no chão do quarto. — Eu estou com muito medo e se eu não conseguir escapar deles? E se eles nos acharem antes de entrarmos no trem? Eu nunca fiz isso, tenho medo de fazer algo errado. — Desabafou no colo de Avril que fazia carinho em seu cabelo. Eles explicaram que ali ninguém nunca tinha feito aquilo também, mas que estavam juntos para ajudar um ao outro. Depois de alguns minutos, Harry se acalmou tomando um chá com leite quente que Avril o preparou.
Naquela manhã ensolarada, incomum para o clima da semana, Louis levantou mais cedo com a inspetora batendo na porta chamando pelo seu nome. Ele colocou uma blusa rápido e atendeu a porta falando baixo para não despertar Harry. — O Diretor Horan avisou que seu pai entrou em contato com ele para informar que hoje é aniversário de sua irmã mais nova. — Louis automaticamente fingiu surpresa confirmando a data. — Por isso, ele está te liberando por hoje para ir em casa e voltar amanhã nesse mesmo horário, sete horas da manhã. Você tem meia hora para estar na saída principal e fazer seu check-out na inspetoria. — Avisou para Louis que assim que fechou a porta, acordou Harry levemente.
— Acorde, curly . — Chamava por ele pelo apelido carinhoso que criou naqueles últimos dias. Ele passava a mão pelo braço de Harry que acordou devagar esfregando os olhos. — É hoje o grande dia! Já fui liberado, vou me arrumar e sair. Preciso falar com Avril. Você está melhor? — Ele dizia animado indo para o banheiro e quando o cacheado confirmou que estava bem ele deu um suspiro aliviado. Harry ainda tentava assimilar tantas informações enquanto se levantava da cama e colocava seu óculos. Ele foi atrás de Louis no banheiro e o mais velho explicou melhor como seria o esquema. Sua função era seguir o script do projeto da escola. Sorrir para todos e disfarçar o nervosismo, quando Harry pensava no caminho que teria com eles até a estação, seu estômago embrulhava de angústia.
Louis estava pronto, encontrou Avril no refeitório do café da manhã e avisou tudo à amiga. Ela desejou boa sorte e disse que gostaria de conhecer Oli, ficou muito curiosa para saber que imitação é essa que não gerou nenhuma dúvida no Diretor Horan. Ele voltou para o quarto e acalmou Harry antes de ir, o abraçou forte aproveitando para darem um beijo que representava tantas emoções ao mesmo tempo. — Abra a mão e feche os olhos. — Harry cumpriu o pedido confuso. Louis tirou seu cordão do pescoço que tinha o pingente em forma de coração e colocou na mão macia estendida. — É meu amuleto, era da minha mãe e ficou comigo desde que ela se foi. Fique com ele. Quero que saiba que estarei com você sempre, vai dar tudo certo, Harry. — Ele olhava atentamente a Harry e admirava o cordão em sua mão, quando o mais novo abriu, viu que de um lado tinha a foto do Louis bebê e do outro sua mãe bem jovem, ele se emocionou entregando um abraço apertado no moreno sentado ao seu lado. — Vocês são muito parecidos, vou guardar vocês dois comigo, sei que estou seguro. — Comentou sorrindo depois de se despedir momentaneamente de Louis. Quando Louis foi embora, Harry ficou no quarto sozinho encarando sua mala, mas não por muito tempo. Avril logo bateu em sua porta para lhe fazer companhia e irem juntos para a aula, ela o acompanhou até ir embora, tentando o acalmar e também distraí-lo daquela tensão.
Foi no intervalo que Harry partiu falsamente para Oxford. Toda a escola parou para ver o aluno, a professora e o diretor saírem do McKinley High School. Em sua mente, tudo ao seu redor era um grande borrão, Harry não assimilava muito bem toda a atenção que recebia de uma hora para outra, as vozes eram só ruídos e não frases que ele precisava responder. Ele só pensava onde estava Louis, se ele conseguiu abrir a porta, se Avril conseguiria pular e fugir com ele. Harry recebia olhares fuzilantes de desprezo, no fundo, até o aluno mais disciplinado queria sair dali e sentiam que ele era o único que ganhou esse benefício, mesmo que tivesse acabado de chegar. Avril era a única que acenava para o amigo, gesticulando para ele dar um sorriso e Harry acabou rindo sem perceber. Junto de outros funcionários entraram no carro preto com vidros escuros, Harry foi atrás dando um último adeus para a loira que olhava atentamente lá da entrada da escola.
Paralelamente, Louis já estava longe do internato. Ele voltaria logo depois para buscar Avril, mas naquele momento achou que o ideal era se esconder o máximo que podia. O mais velho caminhou até estar perto da rodovia que ele voltaria com a amiga para dominar o caminho e voltou já preparando o lençol, que quase foi barrado na inspeção, mas ele disse que a situação na sua família estava muito precária e usaria para dormir no sofá da casa porque não tinha cama. Avril voltou para a sala inocentemente, logo no início levantou a mão surpreendendo a professora. — Oh, Avril? Acho que é a primeira vez que te vejo levantar a mão na minha aula. — A professora substituta proferiu para turma. — Eu só queria saber se podia ir ao banheiro, na verdade. — Ela debochou para não perder o costume correndo risco da professora negar. Porém, ela só revirou os olhos e autorizou, nem todas eram como Mrs. Dorothy.
Ela passou no banheiro, pegou sua mochila escondida embaixo da pia de mármore e tentou disfarçar seus passos acelerados para a biblioteca. Com as mãos gélidas, ela sentiu o frio da maçaneta dourada, fechou os olhos, sentiu sua respiração falhar e girou, torcendo para que abrisse. Abriu. A porta fez um rugido ao se mexer e ela acelerou para entrar e fechar de volta. Analisou o ambiente e correu para a janela, abrindo a maçaneta grande de ferro que fechava os vidros, com muita força ela conseguiu, mas estava arriscando muito por tanto tempo ali. Quando sentiu o vento no rosto, abaixou o tronco buscando pelo amigo. Ela encontrou apenas o gramado verde vivo. Entrou em pânico, olhou de volta para a porta para ver se tinha alguém por perto e voltou a buscar Louis. Dessa vez, lá estava ele com o lençol enrolado nos ombros. Eles se olharam, Avril jogou sua mochila e sinalizou para ele jogar o pano. Com dificuldade ela conseguiu descer. — Tá bem? Deu tudo certo? — Louis perguntou apreensivo. — Sim, agora vamos, corre! — Avril falava com adrenalina na voz. Eles pegaram tudo do chão e correram em direção ao ponto mais próximo daquele terreno.
Harry tinha acabado de chegar na estação, ele olhava atento para todos os lados, sem saber se queria ou não encontrar os amigos. Eles caminharam para a bilheteria buscando orientações de como chegar na plataforma e Harry começou a se desesperar com a possibilidade de não encontrar os amigos a tempo. Segurou seu cordão no pescoço e respirou fundo, buscando algum equilíbrio que o objeto pudesse emanar. — Harry, nos acompanhe, vamos descer para a plataforma, o nosso trem sai em 10 minutos. — O Diretor Horan avisou o aluno que travou por alguns segundos, destravando quando Mrs. Dorothy o tocou no ombro perguntando se estava bem. Enquanto isso, Louis e Avril chegaram correndo à estação, completamente camuflados com sobretudos e bonés. Não encontraram Harry no banheiro do hall de entrada e desceram para a plataforma.
No banco de espera, o diretor pediu para que Harry e a professora posassem para uma foto que ficaria emoldurada no mural da escola. A viagem de intercâmbio de 1962 . Quando faltavam cinco minutos para a chegada do trem, às 9h55, Harry foi ao banheiro, esse era o combinado. Foi questionado do porquê levaria sua mochila, mas ele explicou que precisava pegar algo pessoal se safando. Faltaria cinco minutos para saída do trem deles também, seria o tempo de trocarem de plataforma. Cada passo que dava sua perna tremia mais, ele passava a mão na testa sentindo o suar frio. — Louis? — Emanou baixo quando entrou no banheiro masculino. O mais velho colocou a mão para fora da cabine embaixo da porta, sem responder. Harry avistou e o tocou, assim, Louis abriu para o cacheado entrar. Um beijo longo recebeu Harry na cabine, eles cochichavam como estavam, Harry perguntou de Avril e Louis o acalmou. — Ela já está na plataforma nos esperando, agora preciso que seja rápido. Coloca essa touca e esconde seu cabelo, vista esse sobretudo e me segue. — Pediu enquanto tirava as peças da mochila e Harry as vestia naquela cabine apertada. Louis quis rir como Harry estava desengonçado, mas o cacheado o olhou sério. — Para de rir, Louis. Não estou achando graça. — Louis conteve o sorriso.
Nos segundos que Louis saiu e Harry o seguiu, o coração dos dois estava acelerado quase que vibrando na mesma batida, Harry tentava disfarçar que estava correndo e olhava diretamente ao chão, Louis seguia de cabeça erguida confiando no disfarce. Subiram as escadas rolantes e atravessaram a passarela para trocarem de plataforma.
Avril estava sentada de cabeça baixa, seu cabelo estava preso dentro da boina, o sobretudo e a bota cobriu o resto. Ela buscava os amigos pelos dois lados da plataforma, seu olhar mudava a direção a cada minuto. Um momento, os dois apareceram lá no final, os acompanhava se aproximando evitando mostrar que estavam juntos. Eles sentaram um ao lado do outro sem se cumprimentar, como se nunca tivessem se visto antes. Os minutos para o trem parar na ferrovia eram eternos, Avril e Louis perceberam as pernas de Harry subir e descer sem parar.
Quando o trem antigo todo em vermelho com destino a Brighton parou e as portas se abriram, os três logo entraram. O funcionário do trem solicitou as passagens para conferir com documentos, eles entregaram e quando foram liberados, sentaram juntos acomodando as bagagens no anexo que tinha em cima dos assentos. — Meu Deus. — As palavras de Harry saíam sobradas em um sorriso em direção a janela, sem acreditar que estava ali dentro. Buscou o olhar dos outros dois que estavam aliviados assim como ele. — Deu certo, gente, acabou. — Avril comemorava e Louis abraçava os dois ao mesmo tempo em um abraço coletivo. Ele adorava fazer aquilo. — Rumo à Brighton. — Os três repetiram juntos.
Do outro lado da plataforma, a professora e o diretor se desesperaram com a falta de Harry. Pediram para chamarem o nome dele nos alto falantes, andaram por toda a estação e não o encontraram. Naquela altura, Harry já estava saindo de York e chegando na cidade vizinha. O trem tinha assentos com camurça vermelho vivo e material de plástico bege, detalhes em ouro e chão atapetado, de alguma forma era aconchegante e bem confortável para os três, que naquele momento, nem se preocupavam tanto com isso. Passavam funcionários engravatados oferecendo água ou chá em cada fileira de cadeiras e eles aceitavam algumas vezes.
— Como deve ser a sensação de pisar na areia? — Questionou Avril pensando alto sentada ao lado de Louis que, por sua vez, sentava ao lado de Harry, o fazendo carinho no pescoço quando não tinha ninguém passando. Eles ficaram em silêncio por alguns minutos capturando imagens em suas mentes de como seria o momento. — Mágico. Deve ser como estar no paraíso. — Louis respondeu ainda se imaginando, Louis concordou e só pensava que independente de como fosse, seria perfeito se tivesse com seu cacheado. — Já vi familiar meu dizer que as pedras na areia incomodam e a areia molhada na pele causa nojo. — A loira desabafa. — Bom, então eles não sabem nada sobre incômodos e o que realmente causa nojo. — Louis falou assertivamente sem pensar duas vezes.
Passado as quatro horas de viagem, Louis dormia no ombro de Harry que olhava admirado pela janela de olhos bem abertos e Avril aproveitava para ler o único livro que tinha em sua bolsa até chegarem em Brighton. Harry sentia o coração acelerar de ansiedade, Avril e Louis sentiam-se quase pais de uma criança saindo na rua pela primeira vez, mas adoravam a sensação. — Levante-se, Louis, chegamos! — Harry beijou sua testa tentando o acordar de um sono profundo. Eles se preparavam para levantar e Avril pegavam as mochilas guardadas na parte superior do trem.
Na saída, eles já não usavam os disfarces e aquele monte de roupa, estava calor em Brighton, como era de se esperar e eles não tinham mais necessidade de se esconder. Avril soltou os cabelos loiros platinados com uma regata branca apertada e uma bermuda verde musgo que ia até embaixo dos joelhos, a maquiagem seguia pesada e seu cinto de spark continuava na cintura. Louis estava com uma touca cinza, uma blusa preta estampada com a frase “Pleasure is pain” e uma skinny preta. Já Harry, vestia uma camisa listrada preta e branca, uma calça jeans e botas pretas. Brincaram entre si que finalmente estavam vestidos de si mesmos, o que é real, se seria realmente a primeira vez que estavam fora da vigia de qualquer um que tentasse controlálos. Eles caminhavam juntos para sair da estação de trem que era a céu aberto sentindo o vento fresco e úmido da maresia passar por seus cabelos longos, assim que pisaram fora do trem, já eram capazes de sentir o cheiro de sal que dançava no ar.
Ao passarem para o hall de saída deram de cara com três pessoas paradas bloqueando a passagem, olharam para frente e pararam em estado de choque. Mrs. Dorothy, Diretor Horan e alguém que eles nunca viram na vida. Antes que eles pudessem falar algo, três seguranças pegaram cada um pelo braço com violência. — O que está acontecendo aqui? — Louis gritou tentando sair dos braços fortes. — Tira a mão de mim. — Avril se debatia e Harry só olhava com os olhos arregalados para Louis, assustado tentando entender o que estava acontecendo. Em um lapso de segundo, Louis o encarou e tentou dizer entre os olhares para ele se acalmar, que ia ficar tudo bem, aquilo era quase que um mantra que Louis recitava para Harry, na tentativa de fazer até ele mesmo acreditar naquelas palavras. Eles foram levados arrastados para uma sala branca de luz forte com apenas uma cadeira, uma mesa no centro e uma lousa atrás.
Louis questionou mais uma vez o que estava acontecendo ali, ele exigia uma resposta e fazia isso gritando com toda a força que podia. — Ande, fale, vocês não podem nos agarrar desse jeito sem explicações. — Gritava. — Eu exijo que você abaixe o tom de voz a partir de agora, você está falando com Delegado Payne, por isso, me respeite. — O delegado falou manso e com postura sentado na cadeira de frente para Avril, a única sentada na sala pequena. Na lousa, o homem forte de cabelo penteado para trás com gel, levantou algumas fotos. — Reconhecem esse local? Sabem quem é essa pessoa? — A foto era da câmera de segurança do corredor da biblioteca que Avril pensou estar desativada, era do momento exato que flagrava Louis arrombando a porta. A sala ficou em completo silêncio.
Desde o momento que encararam a professora e o diretor, todos os três entenderam que era o fim da linha. Na frente do delegado, eles só tentaram esbravejar o pouco de forças que ainda tinham, mas sabiam que haviam perdido. Harry aceitou desde o início, ele conhecia essa sensação de impotência tão bem que nem ao menos tentou escapar, aceitou derrotado. Avril sabia ao minuto que sentou na cadeira, o sangue esfriou e ela chorava sem que ninguém reparasse nas lágrimas pretas de lápis de olho que borravam seu rosto. Louis foi o último que deixou a ficha cair. Lutou até o fim, não queria acreditar no que estava acontecendo diante dos seus olhos, quando encarou as fotos, engoliu todas as palavras que gostaria de anunciar, recolheu-se em completa descrença. Não acreditava que deu errado. Tudo foi em vão. Harry tocou seu ombro por trás, o trazendo para um abraço. No fundo, era possível ouvir o delegado dar ordens burocráticas, explicando como seria dali para frente, mas eles quase não ouviam ou se importam com o que era dito. Quando Louis virou-se e largou sua cabeça nos peitos de Harry, segurou o seu cordão com força e o ouviu sussurrar: — Acabou, deu errado, Louis, para. — e o mais velho, então, despertou um choro compulsivo.
