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“Nunca me envolvi emocionalmente com Júlio César. Nunca”
As palavras ecoavam na cabeça de Maurílio. Por que ele disse aquilo? E por que de uma forma tão exaltada, deixando transparecer o quanto elas eram uma mentira deslavada?
É claro que ele se envolveu emocionalmente com Julinho. Podia tentar enganar Renan, Rogerinho, seu público. Até o próprio Julinho. Mas já havia desistido de enganar a si mesmo muito tempo atrás.
Mas justamente por já fazer tanto tempo, ele não entendia por que reagira daquela forma. Claro, Renan era especialista em tirá-lo do sério. Sempre inconveniente, com tiradinhas para diminuí-lo ou tentativas deliberadas de fazê-lo perder as estribeiras. Às vezes ele desconfiava que era por ciúmes, fosse dele com Julinho, fosse de Julinho com ele. Mas isso só faria sentido se ainda existisse algo entre eles.
Já fazia quase cinco anos que ele e Julinho ficaram juntos pela primeira vez. Foi tudo confuso, molhado e cheio de sentimentos, mas com muito poucas palavras trocadas. Ele achava que os dois se entendiam no silêncio. Mas também foi silenciosamente que eles se afastaram.
Claro que não ia dar certo. Dois idiotas incapazes de falar de sentimentos, sem nenhuma experiência bem sucedida com relacionamentos. Foi mais fácil, no fim, fingir que tudo não havia passado de um lance casual. Todos os meses de idas e vindas, os beijos trocados no estúdio (e um até na frente das câmeras), as noites, tardes e dias regados a muita cerveja e muito suor… Até que acabou.
Já fazia quase cinco anos que eles ficaram juntos pela primeira vez, e já fazia quase cinco anos que eles ficaram juntos pela última vez. Algo que durou bem menos tempo do que o tempo em que não existia mais, e que ainda o fazia reagir daquele jeito. Aos gritos. De mentiras nas quais nem ele acreditava.
Não fazia sentido, porque é claro que ele já havia superado Júlio César. Aquele showzinho teria o efeito contrário do desejado, pois não apenas confirmaria o que todo mundo já sabia sobre o sentimento de anos atrás, como os faria pensar que ele ainda estava ali. E Maurílio não estava apaixonado. Não mais.
Não havia nenhuma paixão o movendo enquanto rolava o feed do Instagram de Julinho, por pura curiosidade e falta do que fazer. E se ainda tinha uma foto impressa dele colada na parte de dentro do para-sol da Kombi, era só porque ela tinha o tamanho certinho pra tampar uma queimadura de cigarro que ele sempre tinha dificuldade de explicar.
E se o coração dele disparou e quase pulou boca afora quando o telefone tocou, foi só de susto, e não por ver o nome de Julinho ali na tela. Porque já fazia cinco anos, e Maurílio não estava mais apaixonado.
— Que que é, Julinho? – ele atendeu, ainda deitado no banco de trás da Kombi.
— Cê tá bem, Maurílio? – a voz de Julinho não era exatamente de preocupação, mas só o fato dele ter ligado, já demonstrava alguma – Pera, deixa eu ligar a câmera que é pra você não conseguir mentir.
Mas que porra..? Confuso e no susto, Maurílio se apressou para ficar sentado, o que fez o celular cair na cara dele. E, como azar pouco é bobagem, o nariz dele o fez aceitar a chamada de vídeo, e a primeira visão de Julinho foi da careta que ele fez.
— Tá tudo bem aí, Palestrinha? – ele riu, tombando a cabeça de lado como se isso o fizesse enxergar melhor a situação do outro lado da linha.
— Tô, porra, tô… Você me assustou, eu tava quase dormindo – Maurílio mentiu, porque estava bem longe de dormir, com a cabeça cheia de pensamentos – O que foi?
Julinho fez um muxoxo e um balanço de cabeça, que deixaram Maurílio confuso e perguntando o que foi.
— Nada não – ele parou, enrugou a testa, e prosseguiu antes que Maurílio pudesse dizer outra coisa – Ou melhor, tem algo sim. Cacete, isso é mais difícil do que eu pensava. Esse negócio de não deixar as coisas pra lá.
Maurílio continuava confuso, embora alguma coisa começasse a se remexer em seu estômago, antecipando o que a cabeça dele não fazia ideia do que poderia ser.
— Hoje, lá na gravação do podcast. Você não tava legal, Maumau.
O apelido cortou mais que navalha. A referência a seu episódio de desalinho só foi piorada por ele. Maurílio tentou rir para disfarçar.
— Não foi nada de mais, Julinho. Você sabe como Renan me tira do sério às vezes.
Julinho deu um sorriso torto de quem não estava convencido.
— Eu te conheço, moren-… Maurílio – ele falou baixinho, fazendo o coração do moren-... Maurílio palpitar – Desculpa. Mas é que essa foi a primeira vez, depois de tudo que aconteceu, que você falou sobre sentimento. Aliás, que um de nós dois falou de sentimento, né? E eu percebi que eu não gostei – ele fez uma pausa, que nem Maurílio teve coragem de interromper – Porque foi justamente pra falar que não teve nenhum.
Maurílio prendeu a respiração por um segundo. Para piorar ou melhorar, ele viu a ligação travar e balançou a cabeça, se agarrando à desculpa.
— Ju…linho – ele engoliu em seco ao completar o apelido, que quase saiu por conta própria – Tá tarde. E isso não é conversa pra gente ter por ligação no whatsapp. Deixa pra lá.
— Então abre a janela aí, pô.
Sem entender nada, Maurílio viu Julinho dar uma risadinha antes de trocar para a câmera traseira do celular. Ele levou alguns instantes até perceber que estava vendo a própria Kombi na tela. Num sobressalto, fez como pedido e abriu a janela. E se deparou com Julinho a poucos centímetros de distância, dentro da Sprinter, estacionado ao lado dele.
— Vamo conversar pessoalmente, então? – ele deu um sorriso de canto que fez Maurílio derreter em segundos, mesmo sem estar apaixonado. Ele só tinha um sorriso bonito, qualquer um ficaria assim.
Passando a mão pelos cabelos para dar uma ajeitada rápida, Maurílio se deu por vencido e desceu da Kombi tornada casa, ao mesmo tempo que Julinho descia da Sprinter. Os dois ficaram parados no pequeno espaço entre os dois veículos, um de frente para o outro e de braços cruzados. Nem havia desculpa de frio naquele calor infernal de dezembro no Rio de Janeiro: era nervosismo, mesmo.
Silêncio. Aquela porcaria de silêncio, de novo. Maurílio já estava começando a pensar que o motivo dele falar tanto era justamente porque odiava o silêncio, como se soubesse todo o mal que ele viria a causar.
— E era verdade? – Julinho finalmente o quebrou, com a pergunta que Maurílio sabia que viria. E ele não sabia se ela era tão melhor assim que o silêncio.
Mas tinha uma coisa que ele sabia que era. Uma coisa que já estava entalada há muito tempo na garganta dele e que agora, de frente pra Julinho, com os olhos nos dele, queria muito sair. A verdade.
— Não.
Ele podia jurar que viu Julinho sorrir. Mas ele ainda estava de braços cruzados e na defensiva demais para que Maurílio tivesse certeza.
— Que bom – ele respondeu, sério – Cê podia ter falado antes… Não, não – Julinho coçou a barba, finalmente descruzando os braços – Não é assim. Chega de jogar a responsabilidade toda pra ti – ele passou a mão no moicano loiro que vinha mantendo, contrariando o bom senso, nos últimos tempos – Eu podia ter falado antes.
Uma brisa surpreendentemente fria passou por eles bem convenientemente no momento em que Maurílio não conseguiu disfarçar um calafrio. E talvez fosse ela a responsável mesmo pelo calafrio, afinal de contas, por que não? Nada a ver com a forma como Julinho o encarava agora, abrindo e fechando a boca sem encontrar as palavras certas.
— Eu me envolvi emocionalmente com você, Julinho – Maurílio desistiu de esperar enquanto Julinho ainda procurava o que dizer – E eu acho que foi isso que fez tudo degringolar tão feio. Mas tá tudo bem, cara, eu só… – é, a verdade não é tão fácil assim – Tá tudo bem.
Ele deu um sorriso murcho e capenga, parecido com o que os dois deram quando decidiram continuar amigos. Era o que estava acontecendo lá de novo, né? Mais uma conversa, talvez um pouco menos vaga, e os dois se esforçando para manter a amizade, porque ao menos isso poderia sobrar entre eles.
— I’m not in love.
— Que?
Maurílio despertou do pequeno devaneio, mas continuou aéreo. Especialmente porque não estava entendendo por que Julinho estava dando uma de Supla agora.
— Beleza, Julinho, eu também não tô… mais. Não precisa mostrar que tá com o Fisk em dia.
— Não, palestroy – Julinho riu, sem conseguir evitar – A música do nosso término. Era I’m not in love. Bom, pelo menos pra mim era. Acho que ainda é – ele desviou o olhar, mexendo no cadarço da bermuda, e tornou a voltá-lo para Maurílio – Faz sentido, né? Uma música de um cara que tá tentando fingir que não tá apaixonado.
Não tinha mais vento para disfarçar. Maurílio sentiu um novo calafrio, que chegou a causar um tremelique. Se reparasse bem, dava para ver que as mãos dele continuaram tremendo um pouco.
— Julinho… – ele fechou os olhos e respirou fundo. Por um momento, achou que, ao abri-los novamente, Julinho não estaria lá. Mas ele os abriu, e ele estava – Eu preciso que você seja mais claro que isso. Chega de meias palavras.
A voz de Maurílio tremeu também. Tudo nele tremia, inclusive aquela vontade ridícula, patética, vergonhosa de ouvir palavras específicas que ele sabia que não iria ouvir.
— Eu tava e ainda tô apaixonado por você, Maurílio.
Exceto que ele ouviu. Ouviu, mas não tinha certeza se podia acreditar.
— Já fazem cinco anos, Julinho… Você nunca nem ficou tanto tempo num relacionamento.
Maurílio sabia que não era essa a resposta que Julinho esperava. Mas ele sentia que era o que estava preso na garganta dele há tanto tempo. O medo que sempre esteve ali, e que ele nunca conseguiu admitir. Foi mais fácil sabotar o relacionamento desde o princípio do que se deixar apegar por algo que no fim era só mais um dos lances de Julinho.
— É por isso mesmo que eu sei que isso nunca foi um lance passageiro – Julinho deu um meio sorriso – Se já faz mais de cinco anos e eu ainda tô na tua, é porque eu te amo pra caralho.
O barulho de uma moto ruidosa ao longe cortou a noite, e ainda assim Maurílio teve medo de que desse para ouvir o coração dele bater. Sem falar nada e determinado, mas tremendo da cabeça aos pés, ele se precipitou em direção a Julinho e, com os braços cruzados atrás do pescoço dele, o beijou.
Julinho retribuiu o beijo, com entusiasmo ao ponto de fazer os dois balançarem no lugar. Maurílio chegou a tombar para trás, se apoiando na Kombi para não cair, embora, naquele momento, ele sentisse que Julinho jamais iria deixar.
— Eu também te amo, porra – Maurílio suspirou contra a boca de Julinho, com um riso aliviado, e se afastou para olhá-lo nos olhos – Eu guardei isso por tempo demais, por medo de que você nunca fosse levar a gente a sério. Mas eu te amo, Ju. Eu acho que sempre te amei.
Julinho abriu um sorriso de fazer o sol brilhar à noite. Ele ajeitou uma mecha de cabelo de Maurílio atrás da orelha, olhando cada pedacinho do rosto dele, e deu um selinho nele.
— Cinco anos pra ouvir isso foi espera demais, moreno… Cê não faz ideia do quanto eu tô feliz – ele esfregou o nariz na barba de Maurílio, que ria de um jeito bobo – Mas dá pra ficar melhor ainda se tu topar fazer isso direito dessa vez – ele aproximou a boca do ouvido do moreno e sussurrou, como se quisesse que aquele fosse um momento só dos dois e mais ninguém, mesmo com os dois sozinhos na rua – Quer namorar comigo?
Maurílio deixou o arrepio causado pela voz e a proximidade do ouvido passar, antes de abrir um sorriso daqueles que eram sua especialidade e encarar Julinho de novo.
— Definitivamente sim.
Os dois continuaram se encarando, por alguns segundos, e logo tornaram a se beijar. E continuaram se beijando, talvez mais do que todas as vezes que se beijaram aqueles cinco anos atrás. Afinal de contas, eles tinham muito tempo perdido pra compensar.
