Work Text:
— …É que isso é complicado demais. Eu não- Consigo. Achar. Palavras. Boas. — A de cabelos brancos encaracolados permanece parada, olhando para o céu, pensativa.
Óbvio que estou curioso, a minha melhor amiga anda mais quieta que o normal e mais deprimida que o normal, eu preciso saber se tem alguma mísera coisa que eu possa fazer para melhorar isso.
Quer dizer, o sobrenome dela 'tá no meu pulso, com uma letra familiar, desde o meu aniversário de 16 anos. As chances que eu vá achar amor na família dela é grande. E se esse tal de Rubens Naluti, possivelmente primo dela, é tão querido quanto ela, eu preciso causar ótimas impressões.
— Só fala. Com quaisquer palavras, eu juro que vou entender. Ou tentar.
Ela ri, e eu rio de volta. A risada dela parece um pouco nervosa, na verdade.
— Sabe… Eu tinha te falado antes que eu tava meio confuso- Que tipo… Algo parecia errado. E sempre pareceu, na verdade, mas… Aí… Eu tava falando com um amigo meu… Da internet… E… Acho… Descobri. Um negócio — Sumia entre as roupas largas de inverno, seus olhos viajando e se encontrando com os meus.
— O quê? — Disse, e fiz uma careta — Eu… Eu não vou julgar.
Eu nem posso, eu sou o cara com o nome de outro cara no braço. Eu sou o cara que tem o sobrenome da melhor amiga no braço, eu sou o cara que-
— Eu sou um menino — Disse, curto e grosso.
— Quê?
— Eu não deveria ter falado nada, desculpa, eu não vou te encher o saco mais- Eu… — Começou a se levantar, mas eu segurei seu braço antes que pudesse sair de perto de mim.
Acontece que eu sou o cara que menos consegue aconselhar ou acolher as pessoas. Não que eu não tenha vontade, eu só não sei o que falar ou fazer, então meus braços ficam parados ao lado do meu corpo, meus olhos tentando dizer alguma palavra antes que a minha boca idiota pudesse falar alguma merda.
— Na-Naluti. Espera. O que você disse?
— Eu sou trans, Johnny. Tipo, menino que era menina. Tipo… eu sou um cara.
— Certo, eu… Parabéns?? É uma descoberta e tanto, eu… Não consigo imaginar como você deve se sentir, eu… Quem mais sabe?
— Só você. E a minha família, mas isso é complicado… — Ele batucou em suas coxas enquanto falava.
— Eu… Naluti, desculpa se parece que eu não… sei lá, é só… algo que muda muita coisa. Mas eu 'tô orgulhoso de você… Quer dizer, como eu te chamo? Tipo, ele e dele e… Eu sempre te chamo de Naluti mas qual o seu nome? Nome de verdade, dessa vez.
— É… É Rubens.
Acho que meu coração era a coisa mais alta entre nós dois. Eu olhei nos olhos dele, e a realização foi abrupta e silenciosa.
Acontece que eu sou, na verdade, também o cara que nunca percebeu que a alma gêmea dele tava bem na frente dos seus olhos. Sendo meu melhor amigo, inclusive.
— Rubens Naluti. — Eu disse, testando as águas, e seu nome parecia caber perfeitamente na minha língua. Eu fiquei vermelho, mas se ele percebeu, não falou nada — É um nome bonito.
Ele acenou com a cabeça, e meu coração acelerou. Eu tentei me manter em silêncio, tentei manter a postura mais agressiva, mas ele acabava com tudo isso com só um olhar.
E então, eu me lembrei. O aniversário dele de 15 anos foi mais cedo esse ano, o que significa que vai demorar uns bons meses até ele descobrir a alma gêmea dele. E as chances dessa pessoa não ser eu são muito grandes.
Consigo me lembrar perfeitamente de como foi na minha vez:
Foi aquele blá-blá-blá de sempre, falam "no seu aniversário de 16 anos, você recebe o nome da sua alma gêmea na caligrafia dela no seu pulso esquerdo", mas nunca te avisam o quão dolorido é o processo.
Eu tava xingando alto no banheiro durante a minha festa de aniversário quando minha mãe me encontrou:
— Johnny! Johnny, filho, você... Meu deus, tá... Olha, aqui a sua pulseira de privacidade. Depois me fala tudo sobre ela... Daqui a pouco a gente vai cortar o bolo — gritava pela porta.
Minha mãe é um pouco entusiasmada demais sobre festas em geral, e acredito que, desde que fui adotado por ela, a ideia que eu nunca tive uma festa grande cheia de gente é inadmissível. Não que eu não aprecie o cuidado, mas eu mal tenho gente para chamar!
— Tá, mãe, eu já vou- AI CARALHO- Desculpa, por que você não me falou que DÓI? — Peguei a pulseira pela fresta da porta e coloquei ao redor do meu pulso, nem sequer parando para analisar a espécie de tinta vermelha que ia formando um nome na minha pele.
Ela riu e eu saí do banheiro, uma mão ao redor do meu pulso.
— Não é tão ruim assim, sabe, quando eu li o nome do seu pai no meu braço eu fiquei tão feliz que nem pensei na dor! Às vezes você conhece ela!
— Eu nem tenho amigos, mãe.
Em retrocesso, falar isso foi uma das coisas mais estúpidas que eu poderia ter feito.
Eu só fui descobrir o nome que estava no meu braço depois da festa, e deitado na minha cama, cansado, eu comecei a refletir sobre o nome. Óbvio que não cheguei numa resposta tão convincente quanto essa, mas-
Rubens me desperta dos meus pensamentos:
— Obrigado, Johnny. Eu tava ansioso sobre isso… Porque… Sabe, você é hétero, e-
— Quê??
— Você é hétero!
— Rubens — Comecei a rir — Eu nunca te falei nada porque você nunca perguntou, mas eu tenho o nome de um cara no meu braço…
Não conseguia me levar a dizer a verdade inteira, mas por agora, estava tudo bem. Ele soltou um som de surpresa misturado com um suspiro. Eu sorri.
— Você é gay?
— Algo… assim… Tipo… bi? Ou algo assim.
— Oh. Legal.
— Legal.
— É que tipo… você não parece… digo,
— Não, eu sei. tudo bem… e bom, você não parece super irritante, mas você é né — provoquei, rindo. Não tinha mais tensão entre nós.
— Cala a boca, idiota-
— Ih, ‘tô só falando…
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— Bom dia, Johnny, tudo bem? — Ele me cumprimentou, enquanto andávamos pelo corredor.
— Bom dia, Rubens. Tudo certo, tirando o fato que eu tenho aula de biologia agora… E você?
— Bem, mas ‘tô meio nervoso, que a gente vai ter que apresentar um trabalho, e o Arthur faltou…
Com o tempo, Rubens começou a andar com algumas outras pessoas, uma menina alta com mechas azuis, um menino bobão da minha sala, um roqueiro baixinho de olhos heterocromáticos, um menino estudioso…
— Naluti, você quer ir lá em casa depois da aula? Eu comprei um jogo novo, e eu queria jogar contigo-
— Ah, eu vou na casa do Balu hoje… Então não dá…
Eu fui ficando para trás, passando meu tempo na oficina do meu pai adotivo, conversando com a minha mãe sobre política e sobre o futuro.
Eu assistia ele ficar mais confortável na pele dele, e a minha própria pele doía, porque às vezes, as pessoas se afastam. E às vezes, as almas gêmeas não ficam juntas, ou, mais raramente ainda, não tem a mesma alma gêmea. E eu ainda tinha o nome dele no meu pulso.
Certo dia, ouvi uma conversa que, sinceramente, talvez fosse melhor que não tivesse ouvido:
— …E aquele menino que você sempre andava grudado? — A menina alta, Carina, perguntou.
— Johnny? Ah… A gente se afastou. Acho que ele… não sei… ele age meio estranho perto de mim, como se estivesse incomodado. Desconfortável…
— Desde quando?
— Desde que eu contei pra ele que… eu sou um menino.
— Que arrombado!! Isso é preconceito…
— Não, Carina, ele é tipo… bissexual e tudo mais…
— Isso não impede ele de ser transfóbico… Você precisa parar de só ver o bem nas pessoas…
— Você acha…?
— Acho. Ele é babaca. Ele erra seus pronomes?
— …Ah, uma vez ou duas, a gente se conhece faz muito tempo, sabe? Pode ser meio difícil pra-
— Abre o olho, Rubens, o que te dá certeza que ele não fala “ela” pelas suas costas??
— …
E então, ele parou de falar comigo por completo. Eu não culparia a Carina por nada, eu faria o mesmo no lugar dela, as vezes o Rubens é bonzinho demais com as pessoas… Deixa passar muita coisa… Mas, se eles soubessem… Se ao menos eu pudesse falar…
— Tabasco — Ouvi a voz de Rubens, e rapidamente me virei pra ele, deixando escapar um sorriso sincero.
— Naluti…
— É… Minha mãe pediu pra mim te entregar isso — E ele me entregou um papel. Um convite.
— Ah- É, seu aniversário! Legal, legal. Eu vou. Obrigado.
— De nada… — Ele sorria por educação, seus olhos apontando para qualquer lugar que não fosse eu.
Eu pensei em não ir mil vezes. Mas eu tinha falado que ia, e talvez ele nem queria que eu fosse. Minha mãe me encontrou enquanto estava no meio do meu dilema. Sentado na minha cama, pensando Ela se sentou ao meu lado:
— O que aconteceu, filho?
— Eu não sei se o Rubens ainda quer ser meu amigo…
— …Eu percebi que vocês se afastaram bastante, o que aconteceu?
— Ele acha que eu sou um babaca transfóbico!
— E você é?
— Não!
— Então o que fez ele pensar isso?
— Mãe…
Eu olhei ao redor, antes de puxar a pulseira preta para baixo, revelando o nome dele no meu braço.
— Filho… — Ela parecia chocada, uma mão nas minhas costas, me afagando.
— Eu não sei como fingir que ‘tá tudo normal… E… Agora eu fudi com tudo, porque ele me odeia e acha que eu odeio ele… e hoje é o aniversário dele… Mas foi a mãe dele que quis me chamar…
— Você se sente bem o suficiente pra ir?
— …Eu não sei… Eu tenho medo que a alma gêmea dele não seja eu.
— Você quer ficar aqui em casa assistindo filme? E aí depois eu entrego o presente dele lá na casa dele, invento alguma desculpa falando que você tá com alguma doença contagiosa ou algo do tipo…
Ela riu, e eu ri de volta. limpei as gotículas que começavam a formar em meus olhos, e consegui me acalmar um pouco.
O filme era bobo, uma comédia idiota com um romance inocente. Mas, na trama, tinha uma relação de família onde o filho era adotado, e já adolescente, e vi minha mãe me apertar de lado. Aquilo era bom, família. Passei tantos anos sem esse sentimento… Talvez ter me distanciado do único amigo verdadeiro que já tive tenha me ensinado a valorizar isso mais que tudo.
Mais ou menos no meio da noite, ouvi um barulho de batida na porta, e minha mãe já estava dormindo. Eu abri a porta com cuidado, ouvindo o barulho das gotas de água contra o telhado e as plantas lá fora.
Rubens estava parado na minha porta, cabelo e roupas ensopadas, segurando a pele de seu pulso como se quisesse arrancá-la. Na distância, conseguia ver a bicicleta dele jogada no chão, e seus amigos parando de correr atrás dele, apenas observando a cena que se desdobrava.
— Feliz aniversário — Eu segurei meu pulso na direção dele, e ele atentamente segurou a pulseira, a puxando para baixo. Estava chorando, e ele também, com certeza. Quando a expressão triste se tornou uma expressão surpresa, ele me abraçou, relutante por estar completamente molhado. E eu apertei ele forte, nem ligando para as roupas secas que usava — Desculpa por te evitar… É que… eu não sei lidar bem com os sentimentos e…
Ele não falou nada, só me deu alguns socos no peito, enquanto eu continuava a abraçar ele. Quando ele finalmente se soltou de mim e mostrou seu pulso para mim, eu comecei a rir, e ele me acompanhou.
— Minha letra é muito feia, Rubinho… Puta merda, desculpa por fazer você ficar com esse garrancho na sua pele-
— Nós somos almas gêmeas.
— Pois é.
— Não sei o que falar.
— Você não precisa falar nada. Eu sei.
Segurei o rosto dele em minhas mãos calejadas, e senti a respiração dele junto à minha, os olhos dele brilhavam até se fecharem, completamente relaxado. Deixei um suspiro antes de juntar os meus lábios aos dele. Calmo, testando as águas como se tivesse que ter cuidado com ele.
Vi os amigos dele andar até mim. Carina sorriu, Balu começou a comemorar, Arthur e Dante apenas sorriram entre si. Rubens me abraçou forte.
E após alguns segundos, vi eles começando a tremer de frio.
— …Cara, vocês são idiotas? ‘Tá chovendo demais- Entrem logo.
Adolescentes são idiotas, isso foi algo que meu pai me disse uma vez, e eu acho que é verdade. Se eu tivesse mostrado meu braço quando Rubens me falou aquilo, talvez seríamos poupados de tanto tempo sem se falar. Mas de qualquer forma, por que mudar o que já é perfeito?
Desentendimentos são ruins, e hipotermia é pior ainda, mas eu fico feliz que ele tenha tido uma ação tão adolescente e tão impulsiva. Às vezes é bom fazer o que o seu coração te manda. E quando o seu coração é tão esquisito, confuso e desajeitado quanto o meu, é melhor deixar-se apaixonar por seu melhor amigo de uma vez.
