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Na mensagem de texto Leona pergunta se ele estava acordado. Foi uma pergunta burra; Ruggie nem havia dormido, acordado desde a manhã do dia anterior. Já haviam se passado vinte e três minutos do dia seguinte, mas sem sol ainda não tinha cara de dia seguinte, então o loiro ainda sente o peso da sexta-feira mesmo já sendo sábado. Chamam isso de enfado, sono. Ele precisava dormir, mas nem podia, nem conseguia.
Leona pergunta se ele está acordado e ele responde que sim, está acordado. Ele digita, pressiona "Enviar" e a mensagem só chega quinze minutos depois, pois sua conexão com a grande rede de computadores era instável onde morava.
Lembra do que eu te disse .
Eu enterrei a chave no quintal. Você vai ter que pular o muro.
Está debaixo de uma cruz.
Se você for burro o suficiente pra não conseguir abrir a porta, tem permissão pra quebrar uma janela.
Só tenta fazer o que eu mandei .
Por um minuto Ruggie havia esquecido o que Leona tinha mandado. Tinha a cabeça tão vagarosa que ele seria capaz de esquecer um monte de coisas, e as memórias vinham bem devagarzinhas, repetindo cenas como se fosse um filme num disco arranhado. A avó falando boa noite algumas horas antes, o vizinho lhe dando uma sacola de acerolas quando chegou da escola, ele indo atrás de Leona pelos corredores, mas um loiro feioso do clube de francês que também era da turma dele o dissera "não, ele faltou hoje" e tentou lhe dar as provas zeradas dele, "você sabe o endereço dele, entregue isso, por favor", e na sua cabeça tão lenta, ele tinha o loiro feioso o dizendo isso e lhe entregando aquelas provas umas dezoito vezes. Cinco vezes a sacola cheia de acerolas, oito vezes o boa noite.
Dezoito vezes Leona pedindo pra que Ruggie invadisse a casa do seu irmão e roubasse tudo enquanto eles viajavam.
Era por isso que Leona havia faltado a escola.
O irmão mais velho dele esporadicamente fazia destas viagens, mas Leona nunca o acompanhava. Costumava ficar no casarão completamente só e quando cansado de ouvir os próprios passos repetidos por ecos, ele chamava Ruggie pra aproveitar de tudo o que aquela enorme residência do senador tinha a oferecer. Dessa vez Leona teve de ir porque o irmão mais velho estava preocupado, ele dissera. Leona era esquisito demais. Talvez porque passasse tempo demasiado em casa. Porque não tinha um amigo sequer, e talvez ele não tenha amigos porque era um adulto numa sala cheia de crianças e talvez isso o deixasse solitário. Não tinha amigos porque era antipático pra caralho e talvez merecesse ficar sozinho, pra sempre e sempre.
Leona era estranho porque passava mais tempo enfiado no quarto do que sendo um jovem adulto por aí a fora. Muitas vezes estava dormindo, passava dias inteiros dormindo, e dormir demais era o sintoma de algum problema. Depois, seu irmão o pegou pesquisando formas de se fazer explosivos caseiros, e o declarou mentiroso quando disse que estava fazendo isso pelo amigo Ruggie (ele não sabia quem era esse Ruggie e se Leona tivesse amigos ele saberia), só que ele não estava mentindo, era verdade: Ruggie queria explodir o clube de francês, pois o loiro feioso de lá vivia o perseguindo dizendo que o achava uma personalidade interessante e que queria ser seu amigo, sendo que Ruggie não precisava de amigos, ele já tinha Leona e com Leona ele não corria o risco de ir parar na diretoria por roubar canetas e dinheiro do lanche de seus colegas de classe. Leona tratava andar lado a lado com um furtador uma experiência divertida para sua vida tão monótona. E ele não sabia da índole do loiro feioso. Se fosse boa, não poderia andar com Ruggie, nem com Ruggie nem com Leona. Mais ainda, ele sempre olhava estranho para Leona; com os olhos brilhando, o rosto corado, um sorriso encantado. Era uma cidade pequena demais para duas pessoas com as mesmas ideias e Ruggie não queria disputas.
Antes de falar sobre sua viagem, Leona foi direto e pediu para que fizesse algo.
Não era um favor.
Era uma ordem.
— Semana que vem não vai ter ninguém em casa, então eu quero que você entre lá e roube tudo o que conseguir.
Quando Ruggie questionou seus motivos, ele disse que queria dar uma lição no irmão. Por ser controlador demais e etcetera. Por achar que algum dia conseguirá substituir seus pais, mas só acaba sendo um filho da puta o tratando como uma marionete, sumindo com seus livros e seus poemas e dizendo "não fui eu, você está enganado, se vista melhor, ouça música melhor, ande com gente melhor, tenha hobbies melhores, não seja da área de humanas, você não pode furar as orelhas". Ruggie topou porque por causa desse cara ele não passaria a semana na casa gigantesca do senador, comendo da comida, gastando da água e eletricidade dele e aproveitando das coisas que ele nunca teria acesso nem nessa vida nem nas próximas cinco se houvesse cinco.
Sério, a casa do senador era tão grande que parecia um shopping. A diferença era que as coisas bonitas expostas lá não estavam à venda, mas ainda se podia enfiar na mochila quando ninguém tiver olhando e ir embora tranquilamente.
Pôs uma mochila vazia nas costas.
Fez silêncio para que a avó não acordasse. Era uma casa pequena de paredes finas, então dava pra se ouvir qualquer gesto executado.
Sei de algumas lojas de penhores abertas vinte e quatro horas.
Enquanto saia, planejou mentalmente maneiras de como esconder dinheiro no seu quarto.
Caminhou sozinho por ruas desertas e mal iluminadas, com o céu parecendo mais escuro do que pensou que fosse quando foi (tentar) dormir. Na cabeça, ele relia as mensagens de Leona e ouvia suas falas mais duas, cinco, sete vezes, fazendo um mapa mental claro do que deveria fazer.
Pular o muro.
A chave debaixo da cruz.
Pegar tudo o que puder.
— Pode ser até só do meu quarto, mas pega o que você sabe que vai fazer falta.
Todo o percurso feito ele completou pensando em Leona, e sendo um bairro bem distante, e ele estando a pé, pode-se dizer que ele pensou bastante no mais velho.
Ele sabe como subir aquele muro do quintal da casa da família Kingscholar. Já o pulara tantas vezes que a esse ponto já ficaram amigos, podiam ter longas conversas. Sempre o mesmo padrão: com um pulo, ele prende as mãos no topo; pendurado, ele iça o corpo para cima, apoiando os pés contra parede; uma perna passa por cima, a outra em seguida, e ele pula em direção a um chão coberto por grama.
Era um quintal bem espaçoso pra uma casa que ocupava quase um quarteirão inteiro. De noite, a grande árvore que o loiro usava pra entrar no quarto do amigo parecia um enorme vulto obscuro, como um dos jogos de terror. O jardim que cercava, quietinho, parecia dormir como o resto da cidade. Ele olhou para a casa. A porta que levava para a cozinha era o seu alvo.
Uma cruz.
Foi fácil de achar a cruz, perto da árvore sombria que também não se mexia. Ela estava em pé, fincada no chão como se fosse uma pequenina lápide para um pequenino cadáver, e era feita de dois lápis colados com fita adesiva. Enfiou as mãos na terra e cavou até ouvir um barulho metálico e algo brilhar por entre as folhinhas do gramado.
Adentrando a casa ele se sente estranho. Ele nunca havia a visto tão silenciosa. Em todas as vezes em que ele esteve lá, acompanhava Leona e as luzes nem sempre estavam apagadas. Mas agora era uma nova situação e ele não estava lá para estadias.
Passando pela sala ele viu todas as fotografias mais uma vez, como gostava de fazer. Olhando em cada par de olhos, e então passando para observar a figura de Leona, às vezes inexpressivo, às vezes com um plácido sorriso forçado. Algumas delas tinham seus pais presentes, e o rapaz que gostava de admirar aparentava muito mais novo, bem pequenininho. Na primeira vez em que vira aquelas fotografias, ele questionou sobre seus pais, tão misteriosas existências, e ele respondeu que estavam no cemitério que ficava na saída da cidade. — É uma linhagem de saúde fraca. Até eu posso acabar assim.
No final da semana que passou lá, em que perguntara isso, voltando pra casa de madrugada, ele chorou porque não queria que Leona morresse cedo, pelo menos não antes dele.
Não queria vê-lo só nas fotografias. Queria vê-lo na casa, ameaçando jogar suco na sua cara sempre que fazia uma piada suja, tomando café da manhã às 15h e almoçando às 22h.
Estava com saudade dele, e agora questionava se seria mesmo capaz de fazer o que ele havia pedido. Mas os olhos de Leonas de todas as idades nas paredes exigiam que não abandonasse a missão no seu ponto mais crucial.
Tudo daria certo. Ele não havia sido percebido.
Então, o que tomar?
Ele olhou por toda extensão da casa escura e nada lhe pareceu de agrado. Na verdade, muita coisa ali lhe agradava, mas de alguma forma, não sentia a mesma comichão nas mãos que sempre sentia quando objetivava tomar algo pra si. As circunstâncias eram diferentes agora. Ele não fazia isso por si, então era uma experiência diferente, além de que deveria deduzir astutamente o que realmente faria falta na casa caso fosse levado.
Como se seguisse a memória dos músculos, ele percorreu o mesmo trajeto que fazia rumo ao quarto de Leona sempre que estava lá, mas ao invés de entrar na porta da direita, que era o quarto dele, ele seguiu para a porta da esquerda que por sorte não estava trancada.
A cama de casal indicava que era o quarto do irmão mais velho e sua esposa (uma coisa que incomodava Ruggie era como em uma casa tão grande só moravam quatro pessoas). Ao mesmo tempo em que estranhava o local, sentia um senso de familiaridade, já que não era muito diferente do quarto do morador que conhecia: era o mesmo papel de parede e as janelas tinham a mesma posição e tinham estantes do mesmo lado que só tinham de diferente seus conteúdos: as estantes do irmão mais velho (Farena, sei lá) não tinham nenhum romance, coisa que Leona vivia lendo. No mais era só coisa de ciência política que Ruggie nunca teria cérebro pra entender, nem mesmo os títulos.
Por se tratar do quarto do homem da casa, Ruggie esperava encontrar mais coisas, mas enquanto inspecionava o quarto, notou que ele era bem sem graça. Talvez adultos sejam assim mesmo, sem graça. O quarto de Leona era mais legal porque tinha um monte de posters de bandas de death metal e bonecos que ele tinha que chamar de action figure se não Leona se irritava e tentava jogar coisas nele.
Ao invés de posters, no quarto do Kingscholar mais velho tinha fotografias da família. Na parede, ao lado da janela, tinha a foto muito recente de um bebê, que Ruggie assumiu ser o sobrinho de Leona; já havia ouvido do menino por ele quando Leona disse que gostava de tentar ensiná-lo equação de segundo grau e palavrões quando estava sem nada pra fazer. Sob uma cômoda, achou a foto de uma moça de cabelos curtos que assumiu ser a mulher da casa e da qual Ruggie nunca cogitou a existência já que Leona nunca havia a mencionado, e se Leona não tinha nada a dizer sobre ela, provavelmente porque ela era uma pessoa tolerável. Acima da cama, havia pendurado uma foto do casamento dos pais de Leona, que Ruggie assumiu ser um lugar meio peculiar pra se pôr uma foto dos pais.
Do lado esquerdo da cama, tinha outra moldura com uma foto, e desta vez era uma foto de Leona. Mas não era uma foto qualquer, igual às outras. Nessa Leona sorria. Um sorriso diferente de qualquer outro sorriso – um que não parecia forjado para as fotos, um sorriso de verdade. Ruggie sabia como era o sorriso de Leona. É uma curva que às vezes passa despercebida, mas que quando você enxerga, você não consegue mais parar de pensar sobre. Era também uma curva que só aparecia quando Ruggie relatava algo de ruim que aconteceu com ele.
Ruggie sentou-se na cama e tomou a foto em mãos. Sentia um formigamento no peito, como se estivesse dormente por dentro. Suspirou fundo e ficou longos minutos observando aquela foto até finalmente colocá-la de volta na mesinha. E pensar que o que ele estava fazendo agora era só por aquele sorriso.
A fotografia o fez voltar para sua missão.
Resumindo: nada de interessante no quarto. Ele poderia levar os relógios ou as jóias que achou nas gavetas, mas essas pareciam facilmente substituíveis. Ele poderia levar os livros, mas eram muitos livros e Ruggie não sabia nem quais livros eram importantes e nem o que fazer com livros. Ele poderia levar uma TV que tinha ali, mas não cabia uma TV na sua mochila. Então ele saiu do quarto de mãos abanando e percebeu que sua missão poderia ser mais difícil do que esperava.
No final do corredor tinha uma terceira porta que ele nunca tinha percebido com certeza. Semelhantemente, ela estava destrancada e Ruggie perguntou quem são os tontos que saem da casa por dias e não trancam as portas dos quartos, sabendo que existe gente como ele por aí a solta.
Só bastou uma análise rápida para perceber que aquele quarto pertencia a uma criança. Desde os brinquedos espalhados que foram deixados daquele jeito à rabiscos tímidos nas paredes perceptíveis mesmo no escuro. No meio do cômodo tinha uma mesinha de plástico onde foram abandonadas algumas folhas com desenhos de bonecos palito, sempre os mesmos quatro bonecos palito em diferentes cenários, fosse a própria casa, um vago descampado ou um parque. Quatro bonecos palito feitos em linhas tortas, e os olhos de Ruggie se direcionavam sempre em um único boneco que nunca era desenhado com um sorriso no rosto redondo, e era esse único boneco triste que em todas as aparições recebia uma seta apontada dizendo “tio”.
Nada pareceu interessante. Na sua mente nada parecia importante, mas poderiam ser importantes para o menino, e seria injusto para uma criança tirar coisas importantes dela, pois apesar de ter tido pouco na infância Ruggie se lembrava de também ter seus objetos de valor simbólico.
O quarto do sobrinho ficou do mesmo jeito que foi deixado. Ruggie seguiu para outro lugar.
Ele passou pela porta do quarto de Leona pela terceira vez naquela noite, e mesmo desejando profundamente entrar lá, alguma coisa o impedia de encostar suas mãos na maçaneta.
Descendo as escadas, ele avista uma nova porta: era a que levava ao escritório. Ele já havia entrado lá antes, mas nestas vezes ele tinha tantos olhos para Leona que nunca chegou a perceber o quão monótono, chato e sem graça era o cômodo. Na verdade a casa toda era sem graça, refletindo como famílias ricas costumam ser.
Talvez a única coisa que a tornasse especial era Leona lá. E sem ele a experiência daquela casa era praticamente tortuosa.
Sentou-se em uma das poltronas. Observou dali mais uma estante com mais livros, e ele tinha dúvidas se alguém no mundo leria tantos livros. Era ali que Leona guardava seu tabuleiro de xadrez; foi ali que um dia Leona perguntou a ele: — Se eu perco contra mim mesmo numa partida de xadrez, eu sou um gênio ou muito burro?
Sem muita ideia do que responder, Ruggie deu de ombros e disse — Você é você mesmo.
Leona riu com a resposta e voltou a brincar sozinho com suas peças de xadrez.
Ele não tinha nada para tirar dali. Tudo era tão substituível que se sumisse não faria falta de verdade. Ruggie estava falhando em sua missão e não sabia como Leona reagiria se falhasse.
Cada vez mais sem esperança, ele finalmente seguiu para o quarto de Leona.
O cômodo tinha uma vasta remessa de objetos de valor mesmo sendo apenas um dos cômodos da casa. Não conseguia raciocinar bem o que tomar em mãos, sua vista transitando por tudo, mas sem vontade de guardar nada na mochila.
Por acidente seus olhos pousaram no cesto de roupa suja, e inconscientemente lembrou de outro caso do loiro feio do clube de francês que também era da mesma sala de Leona. Era irritante quantas lembranças tinha daquele cara. Não só feio, ele era um grandessíssimo pé no saco: um dia tentando invadir a aula de educação física da turma de Leona, acabou pegando aquele cara escondido no vestiário. Ele mexia no armário de Leona e cheirava as roupas guardadas lá. No momento da cena, Ruggie não mediu esforços pra sentar a porrada naquele esquisito, mas não era como se ele estivesse em posição de julgar vendo a si mesmo agora, não muito diferente.
Cheirou todas as camisas que conseguiu e sentiu o cheiro de Leona que estava faltando tanto naquela casa vazia.
No meio desse evento, ele percebeu que não conseguiria continuar. Não sabia o que levar, pois não reconhecia o que poderia fazer falta ali. Na sua cabeça, a única coisa que fazia falta era Leona. E se desistisse, Leona poderia ficar bravo e nunca mais olhar na sua cara.
Odiava pensar isso, pois o deixava com uma tremenda vontade de chorar.
Saiu do quarto, andou pelos corredores e observou de novo as fotografias. Os Leonas nelas agora pareciam terem olhares julgadores e decepcionados. Se passasse por um episódio de insanidade, pediria perdão aquelas imagens, esperando que sua devoção apenas fosse o suficiente para pagar seus pecados; sua paixão tamanha preenchia seu peito com a decepção que sentia de si mesmo. Como pôde ele se acovardar no momento mais crucial?
Observou as fotografias mais um pouco. Notou que em quase muitas, Leona estava posicionado no exato meio das imagens, como se os olhos fossem suposto pousarem primeiro nele, como se de alguma forma a atenção devesse ser direcionada para ele de imediato assim que você adentrasse a casa.
Repentinamente, Ruggie lembrou em qual gaveta da cozinha guardavam um estilete.
Ele teve uma ideia.
Poderia não agradar Leona, mas era a única ideia que tinha.
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Na escola, ele esperou ser recebido com qualquer coisa: um grito, um soco, um tapa, uma pedrada, um olhar de escárnio, mas no final ele não recebeu absolutamente nada.
Quando ele passou por Leona no corredor da escola, ele não o olhou nos olhos. Nem chegou a vê-lo, na verdade, passou direto como se ele nem estivesse ali.
Aí ele percebeu que tinha algo errado.
Aí ele percebeu que tinha fodido com tudo.
Como ele nunca assistia aulas, passou o dia inteiro se tremendo com a ideia de Leona com raiva dele e cortando qualquer contato que tivessem, que já vinha lhe assombrando desde aquela noite e praticamente todas as noites em que Leona não estava na cidade.
Às vezes os olhos ardiam querendo lacrimejar e ele puxava os fios de cabelo para que isso não acontecesse; debruçava-se sobre a mesa e escondia o rosto para que nenhum pateta da sua turma percebesse suas mudanças de expressão. Quando alguém se aproximava com perguntas burras do tipo “você tá bem?” ou “você tá passando mal?” ele tentava simular sua mais efetiva cara de cachorro bravo, e dava certo porque todos já tinham certo medo do esquisito que não falava com ninguém a não ser com um outro esquisito do terceiro ano.
No horário de almoço, pode avistá-lo sozinho no pátio, de fones de ouvido, devorando um de seus livros de romance que só se achavam na estante dele. O observando de longe, Ruggie roía as unhas se perguntando se deveria ir até ele ou não. Queria tanto chegar lá e saber o que ele estava pensando, se ainda seria seu amigo, se estava bravo – só que estava com tanta vergonha. Roubar era como um hobby pra ele, e justo quando Leona o pede para fazê-lo, não consegue. Que tipo de ladrão era ele e que tipo de amigo era ele?
Ele deveria estar numa cena triste do livro agora, onde alguma coisa trágica acontece com a mocinha da história. Ele deveria estar ouvindo Misfits nos fones de ouvido. Misfits era o favorito dele. Ele nem percebia a angústia de não tê-lo perto comendo Ruggie vivo.
Foi na tentativa de responder esta angústia que Ruggie finalmente confrontou-o. Mas só na cabeça. Ainda planejava como fazê-lo, enquanto seguia-o no caminho de volta pra casa depois das aulas, mas às vezes ele acabava se perdendo da linha dos pensamentos para observá-lo caminhar. Queria muito estar caminhando com ele, mas não podia e isso doía.
Eventualmente, ao passar por um parque, ele parou sua caminhada. Ruggie também parou.
Leona virou-se e o encarou. Tinha o cenho franzido em confusão. Perguntou: — O que caralho você quer?
Ruggie permaneceu petrificado. Quando Leona estava voltando a se mover, o loiro correu até ele e puxou a única alça da mochila que pendia de seu ombro, e o que era confusão no rosto do mais velho converteu-se em irritação.
— É sério?
Não houve resposta. Ainda com as coisas de Leona na mão, Ruggie atravessou para a outra calçada e caminhou adentro um parque, não dando outra opção ao mais velho a não ser segui-lo.
— Ruggie, se você quebrar alguma coisa minha-
Leona interrompe sua própria fala quando já distantes da calçada, Ruggie larga sua mochila bruscamente.
— Qual foi?!
O mais velho, de olhos arregalados diante a postura do outro, respondeu: — “Qual foi” digo eu, qual o seu problema?!
— Por que você tá me ignorando o dia todo?!
— Porque você é um covarde!
— Covarde?!
— Você não fez o que eu mandei!
— Tecnicamente, eu fiz sim o que você mandou!
— Fez o caralho! Você tinha um monte de coisa lá pra levar e você leva foto!, como que uma pessoa pode ser tão burra que nem você?! Ah é, e você nem roubou, você destruiu as fotos que tinham lá.
— Bom, eu fui atrás de algo que realmente ia fazer falta, tudo na sua casa dá pra substituir em um dia porque sua família tem dinheiro pra isso! Com que dinheiro se repõe foto de família?!
Leona não respondeu; com um tom de voz mediano, cansava rápido de falar alto. Ajoelhou-se diante a mochila e conferiu seus conteúdos entre resmungos de xingamentos e palavras que pareciam desconexas nos ouvidos de Ruggie, que só chamaram sua atenção quando conseguiu entender a sentença “mudar de escola”.
Os olhos do loiro se arregalaram. — O que você falou?
— Farena quer que eu mude de escola porque ele acha que eu tenho um stalker psicótico! — Leona repetiu-se mais alto. — Ele acha que eu ‘tô sendo perseguido por um psicopata que invadiu a casa dele enquanto a gente ‘tava fora. E a culpa disso é sua...
Ruggie permaneceu em silêncio. Sentia um vazio interno nascer de seu peito e percorrer por todo seu corpo. Era como se o sangue de todas as suas veias estivesse vazando pra fora do corpo e ele iria morrer em muito, muito breve.
Depois de minutos parado e em silêncio, Leona o atira uma pedra e comenta: — Por que você foi mexer na minha roupa suja, seu tarado?!
— E-Eu não sei! — tentou responder, mas a queimação no rosto o atrapalhava.
E então, tudo aquietou-se. Pairou no ar uma melancolia indesejada, resultante de uma eminente sensação de fracasso.
Ruggie sentou-se ao lado de Leona. Tirou de sua própria mochila as fotografias que havia retirado da casa da família Kingscholar noites antes: eram recortes exclusivamente de Leona, às vezes sério, às vezes tentando sorrir, e uma única vez sorrindo genuinamente.
— Como eles reagiram? Quando viram a casa.
Leona relembrou a cena. Levaram alguns passos até perceberem o que havia acontecido; ele procurava já na sala se alguma coisa havia sumido, até ver que ele havia sumido, não fisicamente, mas nas fotos, e nelas, onde ele costumava posar, só restava um vazio dentro dos porta-retratos.
O que era alívio no rosto do irmão mais velho tornou-se confusão. Ele não lembra como a cunhada reagiu, e Cheka sentiu um estranhamento que rapidamente esqueceu. Mas o pavor que se formou no rosto do irmão foi inesquecível, principalmente quando viu que a foto dele que ficava ao seu lado na cama havia desaparecido. Ele pareceu sentir repulsa quando viu a bagunça que havia sido no quarto de Leona; as partes em que Farena o abraçava temeroso cheio de “meu querido irmão, meu pobre irmão” eram irritantes – toda a preocupação desnecessária era irritante, mas a feição dele foi exatamente como ele queria em seus planos iniciais.
— Ele ficou com bastante medo — sorriu — Foi bacana.
— Então, tecnicamente, eu fiz o que você pediu.
— Não, você não fez o que eu pedi.
O mais novo revirou os olhos. Olhou as fotos em suas mãos. Suspirou pesadamente.
— Toma — as ofereceu para o mais velho, que as olhou com desinteresse. — Se isso vai fazer você não mudar de escola, então toma de volta.
Leona encarou-o, depois encarou as fotos, depois encarou-o de novo, e tornou a encarar as fotos, até tomá-las em mão, dizendo: — Eu não quero essas fotos — em seguida as atirando adiante, fazendo todos os recortes se espalharem pela grama para o desespero de Ruggie.
— Ô, seu filho da puta, não faz isso! — levantou-se para apanhá-las. — Se não quer, deixa que eu fico então!
— O que você vai fazer com minhas fotos, seu tarado?!
— Não é nada de estranho! — exclamou, sentindo o rosto esquentar de novo por ser chamado de tarado pela segunda vez naquele dia. — Eu ia usar pra fazer um altar...
— Um altar?
— Sim, ué. Um altar... pra você… com vela e tudo...
— Um altar... só pra mim — Leona ponderou por alguns segundos, e então sorriu. — Eu quero um altar.
O outro sorriu de volta. — Então você vai ter um altar.
A ideia do altar pareceu melhorar os ânimos de Leona e no dia seguinte ele parou de ignorar sua existência.
(E para a alegria de ambos, a ideia da mudança de escolas nunca veio a se concretizar, e Farena aprendeu indiretamente a conviver com o stalker do irmão).
