Work Text:
Azul céu, light pink e branco
A sala de estar era uma terceira guerra mundial, com direito a palavrões gritados por Chan como se berrar mudasse o curso do jogo. Havia louça na pia e um par de tênis jogados no canto do tapete. Oficialmente, era o primeiro dia de verão.
— Vai jogar comigo, né? — falou para o microfone perto da boca. — Bin, eu tô falando a semana inteira!
Distraído, Chan nem notou sua irmã passar por trás do sofá, na ponta dos pés. Ou pelo menos fingiu não ver, porque a pegou de surpresa, segurando o ursinho da mochila dela.
— Bang Haein… — Chan abriu um sorriso de lado, o mesmo que abria quando estava prestes a propor um acordo entre eles. — O que o papai vai achar de você trazendo um garoto em casa?
Parado atrás dela, havia Lee Minho. Uma figura pouco conhecida por Chan, mas não precisava conhecê-lo para ter certeza de que ele era irritante. A risada que ele deu depois do que disse parecia um desaforo. Chan fechou a expressão, seu nariz franzido acompanhou o rosto de poucos amigos.
Secretamente, mesmo que Chan tenha dito as palavras com uma certa ignorância, Minho ficou feliz com a denominação, uma euforia constante. Alegria imensurável, uma chamazinha em seu coração que se alastrou e permaneceu lá, ardendo, de maneira que, entre os três, Minho era o único que entendia.
Haein ignorou o irmão e virou-se para Minho, sorrindo ao vê-lo com os olhos cheios d’água. A mão dela desceu pelo pulso dele e suavemente segurou seus dedos.
— Pode confiar que não vou deixar você sozinho com ele, ok? — Ela usou a mão para passar um dedo pela bochecha dele e recolher a lágrima. Minho assentiu.
Sem entender o que Haein quis dizer e com um vinco entre as sobrancelhas, Chan ficou boquiaberto quando ela puxou Minho em direção às escadas.
— Sério? — gritou ao vê-los subindo. — Você acabou de fazer dezoito anos!
— Você também e trazia meninas para casa muito antes disso. Não enche! — Haein respondeu e bateu a porta do quarto, deixando o irmão mais velho morrendo de raiva no sofá.
✩
O sol do fim da tarde fazia um bem danado para Chan. Subiu as escadas dos fundos, ofegante e suado pelas horas de corrida no parque. Entrou e pegou uma maçã no balcão. Fitou, no canto do sofá, uma mochila familiar.
O almoço subiu pela garganta. Tinha raiva do mínimo pensamento que envolvesse Minho. As visitas constantes desde o início do verão contabilizavam uma semana, ele já estava no limite.
Tudo bem que Chan levou garotas para casa uma ou outra vez, mas nunca sucessivamente e por tanto tempo. A existência de Minho era incômoda, ele sempre agia como se não tivesse visto Chan, não cumprimentava, nunca largava o celular. Ele se perguntava como Haein conseguia namorar um cara tão expressivo quanto uma porta.
Carrancudo e com uma pitadinha de desgosto, subiu as escadas. Seus pais assistiam filme no quarto. Bateu na porta de Haein.
Olhou para baixo, esperando ver Haein, que era baixinha. No entanto, seus olhos bateram em outro peitoral igual ao seu, e ele lentamente subiu o rosto até encontrar o dono da mochila.
— Você de novo — Chan estreitou os olhos. — Tá morando aqui, parasita?
Minho levantou o olhar do celular e arriscou um sorriso pequeno, sem mostrar os dentes.
— Vamos lá, você é melhor do que isso — riu soprado.
Chan sentiu aquilo igual um soco no estômago. Era a primeira vez que Minho lhe dirigia a palavra e, se fosse descuidado de novo, seria a última.
Antes que pudesse dar uma resposta feia, Haein apareceu de toalha e caminhou entre eles. Minho saiu da porta para que ele entrasse e se sentou na cama.
— Em plena luz do dia, com o pai e a mãe em casa? — disse Chan, perplexo. Ligeiro, escorregou em direção a Minho e ergueu pela borda da jaqueta. — Eu vou matar você!
Num movimento único, jogou Minho com as costas na parede e o prendeu com seu próprio corpo, segurando-o com as mãos em seu peito. O rosto de Chan estava tão próximo que Minho sentiu a respiração furiosa dele bater em sua bochecha, o coração batendo violentamente no peito. Cada parte do corpo de Chan pulsava contra o seu, a testa suada e enrugada, as pupilas o encarando em chamas dançantes. Minho prendeu a respiração.
— Chan, ei — Haein segurou-o pelos ombros, com uma plenitude contrastante ao irmão. Ele não moveu um músculo, então Haein bufou. — Chan, para! Ele é gay!
Ao ouvir aquelas palavras, o rosto de Chan se suavizou por um momento. Espera, aquilo repintou o quadro. Não se afastou imediatamente, para não afetar seu orgulho, mas o soltou devagar e deu dois tapinhas na jaqueta de Minho.
— Tem certeza que ele não tá mentindo? — cruzou os braços e encarou Haein. — O que impede ele de fazer mal a você?
— A minha confiança — respondeu uma quarta voz, que fez os três olharem na direção da porta, onde a mãe de Chan e Haein assistia a cena. — Eu denuncio ele para a Sohee na hora.
— Ele é filho da Sohee? — Chan entreabriu os lábios.
Ele provavelmente deveria se desculpar agora, porém evitou olhar para o outro garoto e saiu do quarto. Agora Minho tinha uma pequena pontuação de confiança, quase nula. Porém, aquele sentimento em Chan estava longe de cessar. Tinha algo em Minho que o aborrecia ao extremo, ao ponto de não conseguir olhá-lo.
E ninguém parecia perceber ou respeitar o seu querido rancor, pois quando saiu do banho e foi para a sala, viu Minho sentado no sofá. Revirou tanto os olhos que eles podiam ter girado na cabeça.
— Você está no meu lugar — disse, o tom de voz porcamente amigável. Secou os cabelos e jogou a toalha de qualquer jeito na poltrona.
Um pouco contra a vontade, Minho se moveu até a outra extremidade do sofá. De nariz arrebitado, Chan se sentou.
Tinha um pote de sorvete e uma colher de prata nas mãos de Minho enquanto assistia Chan jogar. Os palavrões ecoando pela sala, a veia saltada no pescoço perto da linha do microfone… às vezes ele morria e dava um pulinho. Virava para o lado, dava um sorriso torto para Minho e voltava para o jogo.
— Mais tarde — Minho falou devagar, largando a colher com um tilintar no pote vazio. — A Haein queria saber se você poderia me ensinar a jogar.
Chan, entretido no videogame, gritou com os colegas no jogo de tiro. Minho estendeu o pé até alcançá-lo e o arrastou sobre a coxa dele.
Mesmo não entendendo de videogame, Minho entendeu que Chan morreu no jogo, porque a mão dele escorregou e quase deixou o controle cair.
— Você nunca para de ser um pé no saco? — Chan arqueou as sobrancelhas.
— Me ensina a jogar.
Os olhos dele foram do tornozelo de Minho para seu quadril, o torso e, por fim, o rosto, os olhos brilhantes o encarando com expectativa.
— Quer aprender a jogar? — Havia a aurora de um sorriso perverso nascendo em seus lábios.
Entregou um controle para Minho, que ajeitou a postura. Alterou a dificuldade do normal para o modo God e riu para Minho, como se ele não entendesse. Colocou um contra um e, sem ditar nenhum comando para Minho, iniciou. Três golpes e a tela de Minho ficou cinza.
— Fraco. — Chan deu um sorrisinho.
— Azar de iniciante. — Minho bateu no ombro dele. Limpou a garganta, encarando a tela cinza e os segundos que faltavam para seu boneco renascer. — Quero revanche.
— Todo seu — respondeu Chan, reiniciando o combate.
Quando Minho morreu de novo, Chan virou-se para ele apenas para ver sua face da derrota. No entanto, seus olhos ficaram presos em outro lugar. Chan apertou o controle com força entre seus dedos.
— Tem sorvete na sua boca.
— Aqui? — Minho fez biquinho e olhou para baixo. Lambeu o tiquinho que escorreu pelo canto de seus lábios.
— Hum… — bufou irritado, voltando para o videogame. Ajeitou o controle na mão de Minho. — Não é assim que segura, imbecil!
— E como vou saber se você não disse uma única palavra?!
— Achei que isso fosse senso comum, mas pelo visto você é muito burro!
— Melhor de cinco. Cinco rounds, e eu te mostro quem é burro aqui.
— Cai dentro, bebê. Você é fraco.
Na primeira, Minho perdeu, porque encarou os movimentos que Chan fazia no controle. Eram ágeis, mas não impossíveis de acompanhar. A segunda, Minho usou para testar alguns truques que observou nele. Quando ia bem, via um olhar de desespero nos olhos de Chan, por mais que ele disfarçasse. Mas seus truques não foram suficientes.
Durante a terceira, finalmente, os golpes recém-aprendidos de Minho fizeram efeito e ele derrotou Chan. Ganhou a quarta e a quinta também.
— Falei pra você! — Deu um pulo no sofá. — Quem é burro agora?
— Vai se achando. — Chan deu um empurrãozinho de leve nele.
Chan foi em direção a cozinha com Minho em seu encalço, praticamente pendurado em seu pescoço, seguindo-o como uma sombra.
— Você tem que dizer. — Minho insistiu, vendo Chan tirar uma garrafa de água da geladeira e tomar uns goles. — Fala. Fala. Fala.
— Tá bom! Só cala a boca de uma vez. — Bateu com a garrafa na pia, pressionou os lábios um contra o outro e, derrotado, disse baixinho: — Eu sou burro.
— Yes! — Minho comemorou de novo.
— Satisfeito, hum? Agora para de morar na minha casa, por favor?
✩
Existe, entre os sabores das lembranças de seu primeiro amor, certo teor agridoce.
Havia o doce. Em que, todas as manhãs, Seolhyun aparecia em sua vida como um sol.
Sohee, amiga de seus pais, tinha uma filha, Seolhyun. Quando as mães se encontravam no mercado e conversavam, Chan e ela perseguiam um ao outro pelos corredores, derrubando produtos e rindo. Por mais que corresse, Chan nunca conseguiu alcançá-la.
Havia o acre. Durou até que, certo dia, não a encontrou no mercado. Na outra ida também não. Até que Chan preferisse ficar em casa brincando do que acompanhar a mãe naquele lugar chato onde todo mundo ficava dizendo para ele não correr. Com Seolhyun não era assim, ninguém dizia “não” para ela.
Num piscar de olhos, tinha quatorze anos. Seolhyun reapareceu, foi estudar em sua escola. Houve mais um pouquinho de doce. Seolhyun foi seu primeiro amor. Um dia, ele deixou chocolates na mesa dela com um post-it magenta , com uma mensagem de conforto, porque ouviu sua mãe e Haein dizendo que meninas gostam de chocolate quando estão no período de menstruação.
E mais um pouquinho de acre, do tipo que incomoda e faz coçar a língua. Seolhyun o agradeceu com um sorriso e um abraço rápido, seu pai gritou para que ela entrasse no carro. Essa foi a última vez que Chan a viu e ele nunca, jamais, a esqueceu.
✩
Na primeira vez que interagiram depois da competição vencida por Minho, a feição de Chan já não estava regada pelo ódio costumeiro. Talvez fosse pelas condições em que seus olhares se encontraram, poderia até dizer que eram amigáveis.
Os alunos se reuniram para acender uma fogueira na grama próxima ao lago, comemorar a amálgama entre o fim do colegial e o início da vida universitária. No círculo disforme criado em torno da fogueira, Chan ria, sentado em uma cadeira listrada, dedilhando desastrosamente um violão.
Foi assim que Minho o viu quando chegou.
Minho estava um pouco letárgico, desnorteado pela caminhada que fez no bosque escuro para alcançar o lago. Haein o guiou e, em pouco tempo, havia um copo descartável vermelho em sua mão com um licor azul marinho .
Os garotos se juntaram para uma partida de futebol improvisada, uma tentativa de impressionar as meninas. Minho não estava interessado em nenhuma delas, mas aceitou o convite. Em algum momento, Chan acabou chutando seu tornozelo sem querer. A interação foi breve, tão rápido eles voltaram a prestar atenção na partida e esqueceram.
Mais tarde, Minho deitou-se na grama do outro lado da fogueira, um pouco atrás, com um cotovelo no chão, bebendo um longo gole de sua cerveja. Olhava de vez em quando para Chan, sempre fingindo que não estava fazendo isso quando era pego, e Chan apenas segurava o riso e o ignorava.
Um dos jovens tocava violão, mas parecia se importar mais em fazer piadas de mau gosto do que em tocar uma música decente, e isso fez Minho se levantar para ir até a mesa e comer. Colocou um pedaço de bolo de chocolate e uma lasca de doce de leite no prato. Se ele pudesse de alguma forma derretê-lo no fogo, seria perfeito... Quando olhou para a fogueira para ver se conseguiria algum resultado, encontrou Chan parado ao seu lado.
Haein parecia distraída demais para perceber que os dois estavam se aproximando e não era para brigar.
— Desculpe pelo tornozelo. — Chan sorriu sem jeito, com as mãos no quadril.
— Não foi nada, é só o jogo — Minho respondeu, sem tirar os olhos do copo que virava no caldeirão de ponche. Minho se viu pegando outro prato da pilha de descartáveis e servindo outro pedaço de bolo.
— Não queria você pensando que foi por causa da revanche no videogame, algo assim. — Ele deu de ombros e mordeu o lábio superior. — E nem que eu guardo mágoa, porque eu não guardo.
— Tenho minhas próprias conclusões sobre você — Minho riu e entregou-lhe um prato com bolo. — Elas não vão mudar tão facilmente.
— Obrigado. — Aceitou o pedaço de bolo e o copo de ponche. — Será que não?
Depois de uma risada anasalada, Minho caminhou para o píer no lago. Chan o seguiu. Estavam um pouco longe da fogueira, mas ainda iluminados por ela, a luz prateada da lua cobria os espaços onde o amarelado não alcançava. Sentaram-se frente a frente na ponta do píer, as chamas iluminavam brevemente o rosto de Minho, que analisava Chan. Comeram em silêncio por um tempo, rindo da paródia que um dos colegas tocava no violão. Minho umedeceu os lábios antes de retomar o assunto:
— De zero a cem, o quanto a minha opinião sobre você afeta a sua vida?
— Agora? — Chan arqueou as sobrancelhas. — Diria que oitenta por cento.
— Por que essa porcentagem tão alta? Aposto que nem Jesus influencia tanto assim na vida das pessoas.
— Tenho meus motivos — parafraseou e riu. Aproximou o rosto de Minho, fazendo-o prender a respiração até estufar seu torso. Pôs o dedo no peito dele e pressionou. — Você ainda é o cara que passa o dia todo com minha irmã.
Sem medo, Minho também se inclinou para frente, fitando-o com os olhos apertados. No instante que abriu a boca para responder algo como “Qual é o ponto em ser gay que você não entende?”, ouviram um grito de Haein.
— Minho! — Haein berrou na direção do bosque. — Lee Minho!
O amigo virou-se para ela prestes a gritar de volta, quando Chan tapou sua boca com as mãos e fez sinal para que ficasse em silêncio.
— Ei, Haein, dá um tempo — uma das meninas gritou de volta. — Ele deve estar pegando alguém.
— Minho — Chan murmurou, ainda segurando a boca dele. — Eu só quero conversar.
— Então me solta! — pediu, a voz abafada contra a mão de Chan.
O impulso de Minho para mandar as mãos de Chan para longe fez com que seus corpos perdessem o equilíbrio na beira do píer. Minho sentiu o corpo balançar para frente. A queda livre foi um momento breve e confuso. Para sua sorte, sabia nadar e o lago não era fundo.
— Para que você fez isso? — exclamou Minho, sacudindo a água do cabelo.
— Eu não fiz nada, isso foi pura burrice sua — Chan respondeu do píer, olhando para baixo com um sorriso tão largo quanto a lua naquela noite. — Seu cabeça de vento…
Riu com escárnio enquanto se levantava. Tirou os tênis e a camiseta, também pulando na água, sentindo o frescor imediatamente banhar a pele. Minho o observava quando ele levantou o rosto na água, usando os dedos para alisar os cabelos molhados.
— Mergulhou para eu poder socar sua cara?! — Minho jogou água no irmão da amiga, que fechou os olhos no susto.
— Calma aí! — Chan insistiu, franzindo o rosto e usando as mãos para afastar as gotículas da sua visão.
— Por que não deixou eu falar com a Haein? — Chan encolheu os ombros com a pergunta, principalmente pelo tom agressivo de Minho, que gostou da maneira que Chan ficou frustrado e um pouco desacreditado.
— Toda vez que nós vamos conversar você se esconde na sombra dela, ok? — Chan insistiu, olhando para ele e alternando entre um olho e o outro de Minho, evitando ao máximo descer até seus lábios. Estendeu a mão e pegou o pulso dele. — É o último encontro de alunos, sei que eu vou te ver de novo, mas posso pelo menos fechar o ano sem ter que ficar pensando que você me odeia?
— Quer saber? Eu nunca vou entender sua implicância comigo — Minho reclamou, mas não se esforçou para que Chan soltasse seu pulso. Nadou um pouco para perto para ver melhor o rosto dele. — Desde a droga do meu primeiro dia de aula, você pisou no meu pé, colou chiclete na minha cadeira… chega a ser difícil acreditar que você tem dezoito anos. E quando achei que podia melhorar, você me recusou no time de futebol.
— Se você não passou no teste, provavelmente foi por causa da sua incompetência — Chan deu uma risadinha e revirou os olhos.
— Só tinha uma vaga e só tinha eu.
— Quer que eu me sinta culpado? — Chan debochou, mas quando finalmente virou-se para encará-lo, sua mente ficou em branco.
O próximo pensamento de Chan foi... o quanto ele era lindo. Algo nele parecia brilhar sob o luar, fossem as bochechas coradas de raiva, que nunca tinha visto tão de perto antes, fossem os olhos cheios d'água, que pesaram como uma âncora em seu peito.
Aquilo era mesmo sua culpa.
— Olha você fazendo de novo. — Minho falou baixinho, a voz um pouco falhada.
— Fazendo o quê? — Chan se aproximou mais, como se fosse atraído por um ímã.
— Me odiando. Como você pode ser tão bom para mim em um momento, mas ruim em outros — Minho desviou o olhar.
A atitude deixou Chan pensativo por um tempo, tentando lembrar alguma situação em que foi bom para Minho. Nenhuma. Então por que ele…?
Chan continuou se aproximando. Estendeu uma mão para passar os dedos no topo do cabelo de Minho e penteá-los para trás em um movimento suave.
— Escuta, eu posso dizer mil coisas agora. Daqui a dez anos eu vou dizer que era jovem, que não sabia o que estava fazendo, que isso é coisa de adolescente… mas eu não sei por que eu implico com você, de verdade. Eu sempre trato todo mundo assim, eu acho. Não me orgulho. Eu realmente espero que as coisas mudem, que eu mude de verdade enquanto estiver na universidade. Não sei se vou viver bem pensando que tornei a vida escolar de alguém um inferno.
— Não é pra tanto — Minho murmurou, inclinando a cabeça para o lado, sentindo a mão de Chan descer para seu pescoço, e depois lentamente até a parte superior das costas.
— Mas agora eu só consigo dizer isso. Me desculpa. — O rosto de Chan, de repente, parecia perto demais, e Minho se sentiu tão fraco que não sabia como ainda estava de pé. — Por tudo.
Minho estremeceu na água, sem saber ou se importar se era por causa do toque ou por causa da água fria. Os dois permaneceram calados, Minho observando e sentindo os dedos curiosos e aliciantes em seu ombro que o proporcionaram certo choque; e Chan absorvendo o que podia daquela pele que parecia queimar sob seus dedos, tocando a palma ali e descendo pelo braço do mais novo até parar em seu cotovelo.
Chan se aproximou lentamente dele e, conforme avançou, Minho nadou para trás até que suas costas colidiram contra uma viga de madeira. Uns poucos feixes de luz da lua que irradiavam entre os vãos da madeira iluminavam seus rostos.
A mão de Chan emergiu das águas e tocou a viga atrás de Minho, o braço passou sobre seu ombro.
— Não faça isso para se desculpar, por favor. — Minho levantou a mão para detê-lo bem a tempo, e mal sufocou um suspiro quando sua palma tocou os músculos lisos do peito de Chan. Imediatamente, seu cérebro conjurou imagens suas arrastando as unhas pelo peito dele, tocando, sentindo-o por inteiro na ponta dos dedos.
A palma de Chan pousada na viga fez seu caminho para que ele pudesse segurar a nuca de Minho. Os dedos da outra mão percorreram a linha da mandíbula dele, inclinando seu queixo para cima até que ele estivesse no ângulo certo para Chan prosseguir.
Aquele breve roçar de lábios deu calafrios em Minho, que permaneceram tanto em seu peito quanto em seus lábios quando Chan se afastou para olhar em seus olhos.
— Não é para me desculpar. — Chan balançou a cabeça em negação, Minho seguiu cada um de seus movimentos com o olhar. — São esses oitenta por cento de interesse em você que não consigo ignorar.
— Interesse… em mim? — Minho disse um pouco atordoado, sentindo o início de um estágio de euforia despertar em si. — Achei que você me odia- mmmph!
Agarrando-o pela gola da blusa, Chan o calou com um beijo. Beijaram-se novamente, um roçar de lábios molhados, soltando leves estalos. As gotículas do cabelo de Minho escorriam por seu rosto e se entrosavam no beijo. Chan o pressionou contra a viga, deixando também as gotículas em seu corpo molharem ele.
Minho não ouvia nada além dos batimentos de seu coração em seus ouvidos. Deslizou a língua num movimento suave, e as línguas se encontraram por somente um instante. Os dois ameaçaram recuar com o toque repentino, mas então compreenderam que era exatamente assim que deveria ser. As línguas finalmente se encontraram por completo, Minho movendo a sua e tocando suavemente cada parte da língua de Chan.
Ele tinha seu coração batendo forte, a respiração arfante ao sentir a ponta do nariz gelado de Chan em seu rosto, a boca molhada pedindo discretamente para mordiscar seu lábio inferior, e ele nunca recusaria. Os toques mesclavam a Chan pendendo contra ele, seus peitos pressionados juntos, com um sentimento presente naqueles corações que, mesmo timidamente, batiam juntos.
✩
Na quadra de basquete próxima a sua casa, uma bola de neve se formou no estômago de Chan, apertando mais a cada minuto. Passou o dia ali, seus olhos iam das garotas para os garotos como se estivesse num jogo de pingue-pongue. Levou um tempo para notar que na verdade não estava prestando atenção no jogo.
Seu cabelo caía sobre a testa e havia suor escorrendo por suas costas. Era verão, mas ele tinha certeza que estava suando além do normal, e nem estava jogando... Parecia uma espécie de puberdade tardia, sentia que iria explodir e aquilo o irritou.
Um de seus colegas abandonou o jogo para descansar. Chan aproveitou a oportunidade para chamá-lo.
— Jeongin!
— Fala, cara. — Ele se jogou ao seu lado, exausto, a cabeça latejando. — Já decidiu sua universidade?
— Não, mas, é… Tem uma coisa que quero te perguntar.
— Hm?
— Como você e Seungmin começaram a namorar? — Chan confrontou o colega. — Eu lembro que ele tinha uma namorada no primeiro ano.
— Igual aos outros casais — Jeongin olhou para ele, um vinco em sua testa. Deu de ombros. — O Seungmin é bi.
— Como assim “bi”? O que isso significa?
— Bi. Bissexual. Bissexualidade. Para a esquerda e para a direita. Rosa, roxo e azul. Fora da caixinha.
Chan apoiou o queixo na mão. Passou tanto tempo em silêncio, perdido em pensamentos, que mal percebeu quando a quadra esvaziou. Por que ouviu falar pouco sobre isso? Era tão simples, mas ao mesmo tempo complexo, com um toque especial e interessante.
Voltou para casa em passos calmos, repetindo “bi”, palavrinha que, estranhamente, parecia pertencer a ele desde sempre. Foi como consertar uma engrenagem quebrada em sua mente e fazê-la funcionar perfeitamente, afinal de contas, sempre soube que era assim.
Sua casa estava silenciosa, exceto pela janela de Haein, com a luz acesa. As risadas vindas de lá fizeram Chan sorrir também. Tocou o próprio lábio, sentindo-se muito bem, embaraçosamente bem. Beijar outro menino lhe proporcionou uma sensação nova, formidável e viciante. Mas, sendo sincero consigo mesmo, o que realmente importava era o fato de ser Minho. Não qualquer outra pessoa no mundo, mas Lee Minho. Minho e sua risada, Minho e os cílios bonitos que tocam suas bochechas quando ele sorri, Minho e sua testa enrugada quando se irrita com Chan. Tudo nele era adorável.
Entrou em casa e tomou um banho. A mochila de Minho estava jogada no sofá, aberta, com um caderno ameaçando cair. Chan decidiu arrumá-la e, por um descuido, deixou cair um pequeno post-it na cor magenta . Pegou-o do chão para guardar de volta, e então viu.
“Seja forte, Seolhyun.”
Seus olhos encolheram, Chan engoliu em seco. Girou o post-it na mão, vendo os rabiscos em cima do nome, deixando apenas as duas primeiras palavras legíveis. Poderia ser? Não tinha como não ser. Ele conhecia a própria caligrafia.
Nesse momento, Haein apareceu para ir à cozinha. Ele a seguiu.
— A Seolhyun te deu isso? Ela tá aqui?
Haein segurou o copo com força na mão, ponderando por um segundo.
— A tia Sohee foi ao mercado com a mamãe.
— Como nos velhos tempos? — Chan perguntou, um brilho passou por seus olhos. A irmã assentiu. — Então a Seolhyun vai vir?
Haein o encarou com as sobrancelhas cerradas, como se tentasse guiar a mente dele para o lado da verdade, sem acreditar que aquele serzinho à sua frente pudesse ser tão grande e tão tapado.
— A tia Sohee só teve um filho, Chan. Minho é filho único.
Um segundo se passou e Chan ainda a fitava como se faltasse uma explicação. Dois segundos, sua expressão foi suavizando, dando lugar a um par de olhos tristes.
— A Seolhyun morreu?
Sua irmã deu uma risada alta e curta.
— Mortinha da silva.
Confuso e perplexo, Chan a seguiu para o quarto, prestes a bombardeá-la de perguntas. Repetiu as palavras da irmã em sua cabeça quando, finalmente, tudo o que aconteceu nos últimos dias o acertou de uma vez.
Minho, sentado no tapete felpudo, acenou para Chan. Deu um sorrisinho recheado de algo que fez o coração de Chan acelerar. Haein não sabia sobre o lago ainda, e eles também não sabiam muito bem como lidar com os próprios sentimentos, por isso aquele sorrisinho era cheio de significados que só os dois entendiam.
Era especial. Lee Minho era e sempre foi seu primeiro amor, aquele pelo qual ele se apaixonou duas vezes. E, provavelmente, acabou de se apaixonar pela terceira. Ele era o seu sol, seu próprio astro rei.
Minho usava uma jaqueta rosa old pink , um suéter azul céu por baixo e uma coroa de flores brancas . No peito, um botton listrado em tons de verde e turquesa transitando para o roxo.
— Que bandeira é essa? — Chan perguntou, aproximando-se para sentar ao lado dele.
— Gay — Minho sorriu ao olhar para o botton. — Vamos à Parada do Orgulho LGBTQIAP+.
— Posso ir com vocês? — pediu de repente, pegando os dois de surpresa.
— E você vai fazer o que lá? — Haein debochou. — Tá mais para inimigo do que aliado.
Chan lembrou-se das cores que Jeongin mencionou e da breve pesquisa que fez na web. Se levantou, pegou a maleta de tintas de Haein de cima da penteadeira e estendeu três cores com um sorriso pequeno em seus lábios.
— Desenha a minha bandeira aqui.
Haein partiu os lábios, jogou-se em cima do irmão e o encheu de beijos entre um abraço apertado.
— Eu te amo de-mais. — Apertou as bochechas dele. — Obrigada por confiar na gente. Quer um botton também?
Chan assentiu. Achou aquele o momento perfeito para contar, tinha realmente gostado do rótulo e não pretendia escondê-lo nem dos pais.
— Sobre o papai e a mamãe… A gente pode até contar no mesmo dia — Chan arriscou, apertando as mãos dela nas suas, e Haein sorriu gentilmente.
— Você era a força que eu precisava. — Ela deixou um beijo na bochecha dele antes de sair do quarto.
Chan voltou a se sentar ao lado de Minho, que trouxe as maquiagens para perto e se preparou para começar. Minho tocou a borda do pincel na bochecha de Chan e pareceu pensar por um momento. Deu tempo suficiente para policiar um sorriso antes que ele aparecesse. Esperava que a quentura em suas orelhas não ficasse visível.
Longe de onde os olhos de Minho podiam alcançar, sem que pudesse prever, os braços de Chan rodearam sua cintura e, de uma vez só, puxou-o até que ele estivesse em seu colo.
— Assim é mais confortável — disse Chan.
— A Haein vai te matar.
— Parece que trocamos de lugar, não é mesmo?
O rosto de Chan estava num leve tom corado. E ele estava tão perto. Minho queria rir, por lembrar das primeiras vezes que visitou a casa dos Bang. Comparar o Chan daquela época com o que estava ali com ele, derretido, era engraçado.
Minho tinha a língua entre os dentes enquanto contornava o canto da bochecha de Chan, desta vez com a tinta cor de lavanda . Ficou admirando o rosto dele. Seu olhar correu para as mãos de Chan, pousadas sutilmente em seu quadril, enviando correntes elétricas por todo seu corpo. A proximidade, que costumava ser um problema para ele, de repente estava completamente diferente. Era bom tê-lo tão perto que quase não sobrava espaço entre os dois.
Congelou quando o olhar de Chan desceu por seu rosto, estudando-o, parando num ponto de interesse que ele bem sabia onde e qual era. Minho fez o mesmo.
— Eu tenho algumas coisas para compreender. Sobre mim, não sobre você. Sobre você eu entendo perfeitamente. E o que eu não entender… você vai me mostrar. Vai ser forte e confiar em mim — Chan afirmou, acariciando a bochecha de Minho antes de puxá-lo para um beijo apaixonado.
Ficaram namorando por um tempinho, até Haein abrir a porta do quarto, vê-los e... Ops!
