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Do alto do sicômoro, a paisagem de folhas desbotadas não é menos entediante, apenas o vento chega com mais intensidade para combater o calor da tarde. O tronco retorcido e firme da árvore da família é tão convidativo quanto traiçoeiro. Liam já havia desbravado as possibilidades e desvendado a rota segura antes mesmo de conhecer Bert, e apresentar a ele tinha sido uma missão divertida. Desde então, subir a árvore para jogar conversa fora, discutir suas pinturas e observar os pássaros havia se tornado um passatempo dos dois jovens, e o interesse de ambos na atividade, sobretudo na solitude que proporciona a eles, parecia estar crescendo.
Porém, no dia de hoje, aquele espaço tão familiar decide trair o garoto Salisbury. Ou quem sabe são seus reflexos que falham com ele. Ele sempre desce primeiro, como se ainda precisasse guiar o visitante que, na verdade, sempre teve uma percepção espacial muito mais aguçada que a sua. Então talvez — mas uma possibilidade bem menos provável, certamente — seja apenas sua distração com os arredores, como a visão do bíceps tensionado do amigo que se apoia em um galho enquanto aguarda sua vez…
Liam desce sem a atenção usual e seu pé escorrega no galho mais fino. A queda é tão rápida que não há tempo de registrar. Apenas um ruído surpreso lhe escapa dos lábios, que não se compara à dor que segue. Liam tenta localizar seus próprios membros: suas mãos, surpreendentemente, não estão raladas, pois os joelhos que amorteceram parte da queda, e esses decerto que já estão ganhando marcas roxas por baixo das calças de linho.
— Liam! Puta merda!
Ele escuta Bert falar. É na tentativa de levantar-se que sobe uma queimação na sua panturrilha. Só há tempo de registrar a calça rasgada e o brilho vermelho do sangue, que sobre sua pele pálida é ainda mais vivo e horrorizante, e Bert já se encontra ao seu lado.
— Deixa eu ver — ele se agacha ao lado de Liam, que parece sentir cada centímetro do seu corpo enquanto busca uma posição mais confortável. — Não tá tão ruim, não.
Seu rosto discorda fortemente.
— Eu consigo ver, Bert.
— É, tá horrível. Ao menos não é nenhum corte profundo, tá só… muito ralado. — O desconforto e a busca infrutífera de fazê-lo se sentir melhor são adoráveis. — Eu vou te levantar, vem.
— Só um minuto — pede o rapaz ferido, se escorando no tronco da árvore para se recompor.
— Você não quebrou nada, né? Torceu? Me deixa examinar.
O jeito despojado é posto de lado por um momento e Bert fica mais sério e alerta. Começa a investigar todo o corpo do outro cheio de cuidado e atenção. Suas mãos ágeis se movem para a outra perna e sobem até seus braços, girando os cotovelos e seguindo até pousarem no seu queixo.
— Só alguns machucados. Aqui ficou vermelho também.
Sim, e agora meu rosto inteiro vai ficar, Liam pensa, sentindo o toque gentil. Ou talvez seja a vergonha por uma queda tão ridícula, afinal, nunca antes havia caído daquela maldita árvore. Sem dúvidas seu corpo está formigando pelos caminhos específicos traçados momentos atrás devido ao grande papel de bobo que fez.
— Dói?
Leva um instante para entender que ele ainda se refere ao seu queixo.
— Não muito. É muito fácil marcar minha pele — Liam se apressa a justificar o que quer que o amigo esteja vendo.
— Não tem ninguém na casa, mas tem remédios, certo?
— Sinceramente? Acho que não. É tão raro ter acidentes assim que qualquer coisa lá deve estar anos além da validade.
— Se não tiver ao menos pomada, vamos ter que recorrer ao beijo de melhora.
Um dar de ombros e um aceno com a mão traem a seriedade no seu rosto. Bert já está de volta ao seu eu espirituoso. Liam ri.
— Me vê como uma criança?
Há uma pitada de preocupação na pergunta. Como, de fato, Bert o vê?
— Eu não sou milagreiro, então só me resta tentar te fazer sorrir. E funcionou.
— Ah, não! Você dando um beijinho de melhora na minha perna me faria rir muito mais.
— Hilário.
— Agora eu vou te assombrar à noite, “Beert, eu morri de infecção, cadê meu beijinho de melhora?”
— Seu senso de humor é horrível, Liam, deixa essa parte comigo.
— “Beert, estou esperando seus lábios na minha perna gangrenada…”
Dessa vez, o garoto de cabelos escuros se engasga com um riso e depois balança a cabeça. Com olhos suspeitos semicerrados, ele se inclina e se aproxima.
— Está me desafiando, Liam Salisbury?
— “Vem aqui me dar um beijinho…”
Liam não sabe o que estava fazendo. De onde está surgindo essa vontade repentina de provocar? Apenas se sente confortável o suficiente com Bert para se entregar a brincadeiras, como se recebesse uma dose de impulso — de coragem — quando está perto dele. E é assim, perdido em pensamentos leves, que não tem tempo de perceber a aproximação entre seus corpos antes de ser arrebatado por um beijo que não chega nem perto de sua perna. Sem prelúdio, Bert pressiona seus lábios contra o dele.
Um beijo suave e úmido como o desejo genuíno, um beijo quase sem forma material que imprime calor e um rastro de luz, um raio de sol que persiste em meio à névoa dos sentimentos de ambos.
Em um segundo, o garoto moreno já havia sumido por trás da árvore e ressurgido do outro lado com aquele sorriso trapaceiro, como se tivesse guardado aquele segredo em um local seguro e deixado a realidade dele a questionamentos. Liam permanece imóvel, de olhos arregalados. Encara Bert com um novo olhar e se sente observado da mesma forma. Ambos entendem que o pêndulo daquela relação acaba de sair de curso e que precisam redefinir o equilíbrio.
— Você… Você gosta de garotos?
Bert para e pensa.
— Talvez?
Liam não sabe como é possível alguém misturar tanta confiança e hesitação em uma única palavra, mas adora aquilo em Bert.
— Eu te ofendi? — Bert pergunta, embora sem nenhum traço de preocupação.
Liam não responde. Ele ainda está tentando decifrar a excitação que havia surgido dentro de si e a sensação de borboletas rodopiando livremente com asas que ele não quer capturar. O outro, contudo, é imediato; Bert não captura as borboletas, mas corre atrás delas de palmas abertas se perguntando onde se abrigam quando estão assustadas.
— Você gosta de garotos?
Mechas loiras recaem sobre um rosto corado que se vira instintivamente.
— Eu nunca senti algo assim.
— Assim?
— O que você pergunta. Eu não sei. Eu só ficava imaginando como seria, quando acontecesse.
— E…?
A expectativa avassaladora marcha contra a inocente timidez. Liam sente a sobrecarga da proximidade entre eles, de entender não só a si mesmo, mas também a Bert. Qual é seu jogo desta vez?
— Você disse talvez, posso não ter uma resposta exata também?! Não é tão simples.
Quando Bert se aproxima, Liam o sente sorrateiro, de modo que, mesmo ao seu lado, parece chegar por trás e se inclinar para um bote. Porém, não é intimidador; Bert não consegue sê-lo.
— Então vamos simplificar.
Tais palavras pousam docemente na pele de Liam, deixando arrepios e levando embora sua energia. A distância parece mentir, pois pode jurar que havia sido tocado. Sob suas mãos nervosas e suadas encontram-se apenas raízes e gramas secas, e a textura áspera o abandona à própria sorte.
— Não entendo porque estaria com medo — o garoto impaciente insiste.
— Por que finge que não está? — Liam retruca. A pressão lhe traz uma confiança repentina, como uma injeção de adrenalina no sangue. — Está com medo de se prender às perguntas. Não quer imaginar o que vem a seguir, o que acontece se isso for maior do que parece. Sim, tenho medo. Estou sentindo algo muito forte e para você talvez seja só uma brincadeira. E se isto for apenas uma exploração, então você descobre o ouro e vai embora?
Essa é a raiz de suas preocupações. O que sente já está bem claro, mais até do que quer admitir, pois seus sentimentos haviam tomado forma tão naturalmente que ele nunca os racionalizou. Bert estava ali, sempre ali, sempre ao seu alcance, charmoso e divertido e pronto para colorir seu mundo. Liam não precisava desejá-lo. Ele achava que a excitação era apenas o que acontecia quando você tem alguém bom ao seu lado, e que o volume entre suas pernas era apenas a puberdade chegando. Seus olhos de repente descem, se perguntando se alguma vez houve um volume entre as pernas de Bert quando estavam juntos, mas daquele ângulo a camiseta larga mantém suas intenções em mistério. Liam olha para cima novamente.
— Você é o ouro? — Bert o questiona de repente, demolindo qualquer linha de pensamento que Liam tentou elaborar. É uma pergunta retórica. Bert sorri e, desta vez, se atreve a tocar os cabelos claros, indicando o lugar atingido pelo sol. — Sim… é sim. Eu já conheço o valor do que está aí dentro. Você é uma fonte inesgotável, mas eu não seria capaz de explorar e não tratar com cuidado. Se não dermos uma chance, como vamos saber? Não podemos saber até tentar.
Um passo basta quando se está à beira do precipício. Liam sorri e acaricia o rosto do garoto por quem, agora, ele sente que está apaixonado. Aqueles olhos profundos tornam-se seu abismo sem retorno e já não importa se Bert sente o mesmo. Os sinais no rosto dele trilham o caminho até o irresistível sorriso que pende para um lado da boca, agora muito mais paciente, pois ele espera. E até o ato de esperar, quando se trata de Bert, é de uma passividade magnética. Então Liam se entrega.
Na sua vez de beijar, imprime sua leveza com precisão enquanto cada um de seus sentimentos emaranhados se desfaz em êxtase. Ele ouve o suspiro triunfante de Bert, que, a princípio, apenas segue, mas logo toma as rédeas, trazendo as mãos para a cintura do seu amado, percorrendo com toques gentis o braço até desaguar no pescoço. A tensão se desfaz em trocas de pequenas mordidas, de olhares que pedem para continuar, de mãos bobas criando rotas atrevidas até chegar no limite. Agora Liam sabe exatamente o que está escondido naquelas calças, mas eles não vão além, não desta vez.
— Seria muito cruel e egoísta da minha parte te segurar aqui sangrando por mais tempo.
— Seria? Achei que você estava me curando.
— Já disse que não sou um milagreiro. Mas vou tentar ser seu médico por hoje. Vamos.
Liam ainda não sabe, mas por trás da imagem charmosa e inabalável de Bert, ele está mergulhando na mesma profundidade.
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— É quase do outro lado do país — diz Liam. Sua voz trêmula falha em disfarçar o peso da compreensão. Seu quarto agora parece sufocante e seu peito começa a apertar, expelindo junto com o ar quaisquer chances de sonhos para o futuro. — Você já foi aceito em outras três, não estava considerando outro lugar?
Outro lugar mais perto? É difícil acreditar; impossível, na verdade.
— Sim, sim, estou pesando todos os prós e contras todo esse tempo, mas… eu sempre tive a resposta. Essa continuava sendo a carta que eu mais estava esperando.
O sol já se põe, escurecendo o cômodo, mas o rapaz a quem Liam tanto ama irradia luz com sobrancelhas arqueadas e pupilas cheias. Mas dessa vez, aquele brilho o atinge como uma brincadeira de mal gosto e lhe traz um gosto amargo na boca.
— Liam, a distância não vai ser um problema. Nós vamos dar um jeito.
— Você não pode estar falando sério.
— Eu garanto — Bert se aproxima e tenta imprimir confiança segurando suas mãos. — Eu prometo.
Liam não consegue retribuir o gesto na mesma intensidade.
— Você sabe que eu não tenho como viajar para visitá-lo e não pode ficar mais perto.
— Você sabia minhas escolhas, por que está preocupado agora? Eu virei, sempre que eu puder eu virei para cá.
— É Medicina, Bert! Isso não é um plano de quatro anos de graduação! Não está pensando com clareza se acha que isso vai funcionar.
— É a única coisa em que eu ando pensando e, acredite ou não, você está nos meus planos, mesmo que você não ande fazendo ou considerando nenhum. Você também é maior que esta cidadezinha, Liam. Você não quer ficar aqui para sempre, então não fique!
Liam fecha os olhos, ciente de que estão coloridos de inveja novamente. Como queria que suas lágrimas fossem feitas apenas de uma tristeza salgada, não de um veneno amargo! Ele se afasta e encontra a cômoda, então se agarra ao móvel por trás em busca de apoio.
— Me desculpa. Eu torço por você. Você conseguiu o que queria e eu estou muito feliz por você. Mas você sempre consegue. Pode ter o melhor de tudo em qualquer lugar do mundo como se sempre caísse aos seus pés, e escolheu o mais longe de mim. Eu vejo que está sendo honesto, isso é o mais difícil. Eu vejo que é realmente o melhor para você.
— Não se preocupe — ele responde. Se é um conselho ou um clamor, não dá para saber. — Vamos pensar melhor, planejar, há algum tempo. Eu fico, se for o melhor para nós. Eu fico por aqui.
— Não, não é justo. Eu não vou destruir isso para você. Eu não vou te prender, não vou ser o culpado por isso. Você já pensou e pesou tudo, não é o que disse? Não pode se conformar à segunda opção por minha causa.
— Está me confundindo. Por que parece que você está desistindo?
Liam não responde; está concentrado em se conter e ficar de pé enquanto tudo desaba. Não pode negar que o mesmo conflito está estampado no rosto do seu amado.
— Você não confia em mim, Liam? Não há ninguém no mundo como você. Não tem como eu te esquecer quando estiver longe.
— Eu sou só um pintor de uma cidadezinha.
Bert se irrita. Com sobrancelhas franzidas, ele encara a fundo os olhos azuis e parece ter uma revelação.
— Não é sobre a distância, certo? Você às vezes me olha assim, como se eu já estivesse longe, como se eu fosse inalcançável, mesmo ao seu lado. Eu nunca deixei de estar aqui e sempre houve uma barreira entre nós, uma que eu não queria ver. Então você sempre sentiu que eu era melhor e que eu me dava melhor sem esforço? Eu que te faço duvidar do seu talento, da sua arte… Consegue mesmo se sentir feliz pelo que eu conquistei?
— Não duvide disso! — Liam implora, engolindo um soluço. Então admite com vergonha e pesar: — Eu só queria não estar tão atrás. Não somos compatíveis, não percebe? Você vai começar uma vida nova e você vai muito longe. Meu caminho não é tão claro, não há espaço para mim.
— Mas eu te amo.
Aquelas palavras são lançadas como um copo de água que deveria ser servido com cortesia e acaba jogado na cara para magoar, cheias de frustração e respingadas por raiva.
— E você? — Bert continua. — É tão fácil assim abrir mão de nós, falar em outras possibilidades? Não podemos saber até tentar, lembra?
Eu te amo. Eu deixaria tudo para trás por você, até o papai. Mas você merece mais do que esperar pelas minhas incertezas e carregar meus fracassos.
— Nós tentamos. Agora está claro que o fim é inevitável. Deixa eu buscar meu futuro também, ter que viver ansiando pelo seu retorno. Por favor, não volte mais. Por favor, deixe esse ser o fim.
Bert acena com a cabeça, seu rosto contorcido e os olhos cheios de lágrimas que Liam nunca antes tinha visto. Ele arrasta os pés até a porta como se sua força vital tivesse sido drenada. É dilacerador, só não mais do que as palavras que ele sussurra docemente antes de sair.
— Não esqueça que eu acredito em você mais do que acredita em si mesmo.
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A galeria parece ter visitantes por todos os lados. Mesmo se dirigindo ao setor administrativo, eles cruzam com pessoas em todos os corredores. Entretanto, o dono do local parece determinado a lutar por um momento de privacidade, mesmo durante seu evento, e leva o outro homem até seu escritório. De uma simplicidade elegante, a sala não é espaçosa, mas apresenta uma janela ampla que dispensa iluminação artificial naquele horário do dia. Liam se dirige à ela na esperança de criar uma distância segura entre eles, e percebe que Bert se mantém próximo da porta, talvez com a mesma intenção.
— Olha você, todo importante. Não é uma bela coincidência nos encontrarmos de novo através de uma amiga?
— Sim. Ouvi falar ontem mesmo que você estava de volta.
— Pode dizer que foi Josephine. Pensei tê-la visto ao longe quando estava indo à casa de férias dos meus pais. Mas foi Selena que me informou que viria a uma exposição aqui. Sei que não deveria ter voltado, mas não tinha como deixar passar isso.
— Não fale assim, não foi um exílio. É bem-vindo aqui, como qualquer outro.
Qualquer outro. Não é bem o que gostaria de ter dito. Bert está falante como de costume, e ele permanece sucinto como nas situações em que não se sente confortável.
— Isso aqui é incrível. Parabéns. É muito bom ver o que você construiu, Liam. Você está feliz?
— Sim, tenho uma vida boa, mesmo que não haja muitas pessoas com quem partilhá-la.
— Eu sinto muito pelo seu pai.
— Sim, meu pai… ele não viu nada disso acontecer.
Não só ele. Os pêsames são oferecidos com uma ternura que o lembram a ausência de Bert em momentos como aquele. Liam se volta para a janela, onde há movimentos que ele não registra em meio às suas reflexões.
— E você, como vai?
— Me chamou até aqui só para saber como estou?
— Sim. A conversa estava muito conturbada lá fora e já faz muito tempo. Deve ter muito a dizer.
— Eu me formei. Consegui um bom emprego, rápido, e já estou bem estabelecido, ganho bem. Não foi um processo fácil, mas foi mais curto que para a maioria, como você previu.
Pela primeira vez, ele se apressa e resume as palavras. Mas o que chama a atenção é a nota de sarcasmo no final, acusando o artista de interesses rasos.
— Não foi por isso que perguntei.
— Então por que foi?
Sempre impaciente.
— Porque é bom vê-lo de novo. Porque também quero saber se está feliz.
— Você uma vez disse que é sempre o melhor de tudo que cai aos meus pés. Eu estou bem, estou feliz. Mesmo assim, você errou nessa teoria.
— Não entendo.
— O amor ainda não me foi servido em uma bandeja. Eu esperei, depois eu procurei. Eu mudei, eu tentei.
— Se apaixonar?
— Seguir em frente.
Como ele consegue ser tão direto? Seus sentimentos estão sempre em uma vitrine, enquanto os de Liam são um labirinto sem saída. Um pássaro pousa em uma árvore próxima, como os que eles observavam quando eram jovens. Liam retorna ao seu convidado com um sorriso esperto.
— Não significa que eu estava errado. Talvez as coisas ainda cheguem fácil para você, mas só uma vez. E ainda depende de você agarrar a chance ou não.
Bert riu.
— Que injusto ela ter passado quando eu era um garoto idiota.
— Também sinto muito que minha chance tenha passado por mim e eu não tenha sequer tentado.
O médico não responde. Agora parece confuso com a direção da conversa, então o dono da galeria explica:
— Eu me agarrei apenas ao fantasma dela. Às mágoas, aos rancores que me acompanharam nos meus sonhos. Você ainda me persegue nos meus sonhos, como se viesse só para reacender essa angústia. Mas agora que está aqui em carne e osso, o que vejo no espelho do passado é que foi a escolha certa. Olhe para nós, há alguma dúvida?
Novamente, Bert pensa um pouco. Quando fala, sua voz é cautelosa e ponderada, mas seus passos mostram iniciativa.
— Será que algumas escolhas certas não podem ter prazo de validade? Às vezes, algo é certo naquele momento, mas e se não se aplicar à eternidade?
Uma segunda chance. Uma oportunidade de resolver o que foi cortado abruptamente, é isso que ele propõe?
— Você, aqui, nem parece real, ainda. Tantas vezes eu andei por esses salões e quis te ver, te encontrar de costas apreciando algum quadro ou num canto tentando me avistar entre os visitantes. Deve achar que estou fugindo sempre que olho para a janela… Eu só quero me virar e confirmar que você não desapareceu.
Ao olhar novamente para ele, Liam estuda seu rosto mais um pouco. A cicatriz na sobrancelha, as mechas negras um pouco mais longas do que eram. Bert se aproxima e a sala parece se comprimir, criando uma pressão inescapável entre eles. Conhece essa sensação muito bem, mas se assusta ao vê-la retornar tão rápido. O médico toca seu ombro.
— Sente isso? Se me deixar, eu mostro que nada é uma ilusão. Nem eu, nem nada que eu disse. Não somos mais crianças. Você mudou, consegue ver isso em mim também?
— Sim — o artista sussurra.
— Minha vida continuou incompleta por lá. O seu lugar continuou vazio todos esses anos, Liam. Há algo inacabado entre nós e eu não quero carregar isso para sempre. Para cada cicatriz no caminho, nós aprendemos a cuidar melhor da ferida. Eu também ganhei algumas nesse meio tempo. Agora eu sei que podemos curar essa dor, mesmo sem saber como vai acabar.
Um discurso sério e maduro. Bert sempre tinha sido esperto, mas não costumava ser centrado e muito menos, vulnerável. Agora, fala de dores profundas que Liam desconhece, ao ponto de preocupá-lo. Precisa entender e preencher as lacunas, saber se está tudo, de fato, bem.
— Não vamos saber até tentar — Liam responde, remetendo aos velhos tempos. Ao lembrar, Bert sorri com ele. — Então me mostre.
Primeiro, o médico traça uma linha nos seus cabelos claros e pousa a mão na sua clavícula. Liam toca seu braço com dedos trêmulos e em seguida sente os lábios encostando em sua bochecha levemente. Ele vira o rosto e prova daquela boca. E dói. Como uma memória muscular atrofiada, o beijo é ao mesmo tempo natural e difícil, forçando-os a não ir tão longe e ao mesmo tempo enchendo-os de prazer. Eles se separam, cientes de que basta para um recomeço e sem dúvidas de que o amor do outro ainda se encontra ali.
Fora daquela sala, Selena procura Liam antes que Josephine o faça. Ela para no corredor em frente à porta entreaberta ao ouvir duas vozes, mas não tem a intenção de ficar. Apenas observa tempo suficiente para perceber que assuntos importantes do passado estão se resolvendo. Isso significa que vai precisar distrair a velha, provavelmente também disfarçar o sorriso que surge em seu rosto. Não sabe se as coisas acabarão da melhor forma possível, mas torce e tem esperança. Será que era parte do seu destino unir os dois novamente, quando sonhou com eles naquele hospital? Não sabe até hoje o quanto acredita em predestinação, mas um forte sentimento de que estava no local certo, na hora certa, toma conta de si e ela se enche de alívio e satisfação por não tê-los perdido, por ter trazido Bert ao evento e ter proporcionado a eles uma segunda chance em uma história que jamais havia imaginado existir.
Lá dentro, os dois já respiram livremente e relaxam na presença um do outro. Por ora, pretendem voltar para a exposição como se nada tivesse acontecido e manter a distância necessária para colocar as ideias em ordem. Afinal, o pêndulo saiu de curso, mas a bússola aponta para o norte mais uma vez.
