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Desde o momento em que o vinho foi inventado, o demônio Crowley rapidamente adquiriu o hábito de se embriagar em proporções apocalípticas sempre que qualquer pequena inconveniência se apresentasse. Mesmo tendo acompanhado de perto a criação de diversas outras bebidas, algumas mais fortes, algumas mais saborosas, Crowley sempre preferiu o vinho.
A primeira vez em que Crowley experimentou o vinho ocorreu algumas décadas antes de sua participação na situação entre Deus e Jó. Tendo conhecido alguns dos descendentes de Noé, o primeiro agricultor de vinhas e o primeiro a experimentar a bebida e se embriagar, a curiosidade de Crowley sobre a bebida se manifestou assim que ouvira falar de suas propriedades, e logo que a oportunidade se apresentou, ele bebeu.
Se alguém perguntasse a ele sobre a sensação de beber vinho pela primeira vez, ele não se lembraria. Porém, se alguém perguntasse a ele a sensação de testemunhar o anjo Aziraphale bebendo vinho pela primeira vez, com certeza a resposta seria diferente. Eles estavam juntos nessa ocasião, alguns dias após a ressurreição de Cristo. Aziraphale andava em um estado de contentamento tão grande que nem mesmo hesitou em beber do copo que Crowley lhe oferecera enquanto eles dividiam a sombra de uma árvore. A expressão de puro encantamento no rosto de Aziraphale ao experimentar o vinho nunca saiu da mente de Crowley, mesmo depois de milênios.
Dessa vez, no entanto, Crowley bebia sozinho em uma mesa empoeirada do pub The Dirty Donkey. Poucos lugares no Soho de 1967 ainda ofereciam a experiência de beber desacompanhado sem a sensação de parecer muito patético, e esse era um deles. Era um pub grande, com dois andares conectados por uma escada em caracol. Se por um acaso alguém estivesse disposto a uma noite de bebedeira mais animada, o primeiro andar era o lugar ideal, onde a jukebox se encontrava propositalmente ao lado do bar tocando todos os melhores rocks da década (quase sempre The Beatles) para que os mais jovens pudessem dançar. Crowley se encontrava no segundo andar.
O segundo andar do pub era mais frequentado durante o dia por aqueles que, por exemplo, quisessem um lugar sossegado para comer durante a pausa do almoço. Com poucas mesas e uma iluminação mais dispersa, durante a noite o espaço apresentava a ambientação perfeita para uma reunião informal, um encontro clandestino entre membros de organizações pouco organizadas ou, no caso de Crowley, beber emburrado duas garrafas inteiras de vinho antes da meia noite.
Não que ele gostasse de beber sozinho. Na verdade, era muito mais confortável para ele beber nos fundos da livraria do anjo, longe dos humanos e qualquer outro demônio que por acaso estivesse procurando por ele, nunca por algum bom motivo. Beber com Aziraphale, no entanto, não era uma opção no momento. Na verdade, apesar de que ele nunca admitiria, Aziraphale era o motivo dele estar bebendo tão persistentemente, virando copo atrás de copo em uma mesa tão escondida encostada na parede que ele estava praticamente virando parte da decoração.
Faziam semanas desde que eles haviam se visto pela última vez, quando o anjo havia lhe entregado a garrafa térmica para que Crowley não se colocasse em perigo, e as palavras de Aziraphale ainda permaneciam grudadas na mente de Crowley. “Rápido demais, que merda ele quis dizer?” Crowley murmurava sozinho entre um gole e outro. No fundo, ele sabia que não era pela velocidade do Bentley que Aziraphale recusara a carona, mas isso só o deixava mais deprimido.
“Ele poderia só ter dito não, sabia?” Ele disse ao familiar ajudante que viera limpar as mesas desocupadas, “mas é óbvio que ele prefere ser completamente ridículo, falando de jantar no Ritz antes de desaparecer. Droga de anjo” ele disse com a fala arrastada, chutando em frustração uma das estantes do espaço, conseguindo ao mesmo tempo derrubar alguns livros e machucar o pé. “Merda”.
“Por favor, sem quebrar os móveis, Senhor Crowley.” pediu o jovem David, recolhendo os livros e os empilhando na mesa de Crowley enquanto ele reposicionava a pequena estante. “Como foi a “missão” que o senhor estava organizando da última vez?”
“Eu cancelei. Consegui o que eu queria…mais ou menos” Crowley murmurou esfregando o pé, se sentindo de repente muito mais infeliz do que quinze segundos atrás. “Porque vocês têm livros aqui? É a coisa mais estúpida que eu já vi” ele diz pegando um dos livros mais grossos da mesa, desistindo rapidamente de tentar ler alguma coisa. Muitas palavras, mesmo se ele estivesse sóbrio.
“Algumas pessoas gostam de ler enquanto esperam umas pelas outras durante o almoço. Inicialmente a gente deixava alguns jornais, mas o senhor Collins discutiu com o jornaleiro num jogo de cartas e ele não vem mais aqui.” explicou David, pegando a cópia de Grandes Esperanças das mãos de Crowley e colocando de volta na estante. “Eu imagino que o senhor não seja uma dessas pessoas.” ele disse com um sorriso.
“Jura? Como você adivinhou?” Crowley respondeu, frisando bem o tom irônico quando se lembrou de que o jovem não podia perceber o revirar de olhos por trás dos óculos. Ele nunca entendeu muito a graça em livros, apesar de ter se acostumado a estar cercado por eles ao longo dos anos. Pensar nisso fazia Crowley querer beber mais.
“É um gosto adquirido. Tenta esse, tem muitas imagens” David disse com um sorriso, pegando um dos livros da pilha e entregando a ele. Crowley olhou rapidamente a capa antes de largar na mesa com um barulho seco. “Flores. Hilário. Por acaso não tinha um desses sobre unicórnios?” ele respondeu irritado, tomando outro gole antes de resmungar alguma coisa sobre unicórnios afogados.
“Na verdade esse livro é meu. O senhor Collins não tinha muitos, então deixei alguns meus aqui” revelou David, recolocando os livros na estante. “O senhor ficaria surpreso com a quantidade de mensagens secretas que um punhado de flores podem passar se você souber como decifrá-las”
“Decifrar flores? São plantas, elas não falam” Crowley respondeu confuso. “Elas falam?”
“Não” respondeu David, rindo. “por acaso o senhor sabe alguma coisa sobre Floriografia?” e quando Crowley balançou a cabeça, o ajudante continuou. “A linguagem das flores, era muito popular na época da Rainha Vitória. As pessoas criaram códigos utilizando flores, cada flor expressando um sentimento diferente. Desse jeito, enviar um buquê de flores à alguém poderia ser uma declaração, um rompimento, um pedido de desculpas… e só as pessoas que conheciam os códigos saberiam”
Crowley pegou novamente o livro, a curiosidade falava mais alto. Como sempre. “Hum, parece espionagem.” ele disse, folheando o livro. Páginas e páginas de ilustrações de flores e descrições dos possíveis significados. “Como se aprende isso? Como as pessoas sabiam as mensagens?”
“Elas liam” David respondeu com um sorriso. “Existem muitos livros que servem de guia para decifrar os significados, esse é um. Você pode ficar com esse se quiser, eu memorizei a maioria das coisas aí anos atrás” ele disse, finalizando a organização da estante, que agora contava com um livro a menos.
Crowley franziu as sobrancelhas intrigado. “Por que você memorizou centenas de flores e mensagens?”
David encolheu os ombros. “Eu ajudo meu tio na floricultura dele desde pequeno. Vendo flores desde antes de aprender a ler. Essas coisas ficam na cabeça”. O ajudante olhou curioso para Crowley, que ainda folheava o livro. “A floricultura do meu tio fica no final da rua. Se você estiver interessado em alguma mensagem específica, eu te ajudo a montar um buquê”
Crowley apenas fez que sim com a cabeça, ainda com o livro de floriografia nas mãos. Bem ao fundo da sua cabeça, no meio de muitos pensamentos misturados pelo álcool, uma ideia estava começando a surgir.
“Eu quero enviar uma mensagem. Para uma pessoa. Uma mensagem de flores", anunciou Crowley ao entrar na floricultura, sem nem mesmo um bom dia. Durante o dia, no meio das flores e folhagens, suas roupas escuras e modernas se destacavam ainda mais, fazendo com que o casal que observava algumas orquídeas o olhasse receosos. Crowley não lhes deu atenção e caminhou direto ao caixa onde David organizava algumas notas fiscais.
“Senhor Crowley! Não achei que o veria por aqui.” respondeu o ajudante, dando a volta no balcão e se dirigindo ao homem que entrava pelos fundos com um saco de terra e um olhar confuso. “Está tudo bem, tio, eu ajudo ele” disse o jovem, limpando as mãos no avental e virando-se para Crowley. “ Bom dia, senhor Crowley. De que tipo de mensagem o senhor está falando?”
Crowley percebeu nesse momento que havia uma parte de seu plano que ele havia desconsiderado. Como ele iria explicar para um humano que ainda nem se barbeava seis mil anos de coisas que ele gostaria de dizer e não tinha coragem? Tirando um momento para firmar os óculos escuros em seu rosto, Crowley respirou fundo antes de continuar. “Eu quero mandar flores para uma pessoa que eu conheço há muito tempo. Ele é…” Crowley hesitou antes de prosseguir. “É um amigo. E as coisas estão estranhas recentemente e eu queria tentar melhorar. Seu livro falava sobre algumas flores de desculpas ou coisas assim.” ele disse, enfiando as mãos nos bolsos, olhando ao redor com um falso interesse. “Certo” David acenou com a cabeça, tirando do bolso um bloco de anotações e um lápis, acenando para Crowley com a cabeça. “Vem comigo”.
Tentando não esbarrar nos sacos de terra espalhados pela pequena loja, Crowley seguiu o jovem para uma porta lateral, que saía em um beco paralelo à rua principal. David atravessou o beco e abriu um portão de uma pequena área cercada por placas altas de ferro. Lá dentro, David seguiu para uma estufa que ficava bem no meio da área aberta e abriu com sua chave. “Meu tio construiu, a loja precisava de um espaço reserva” explicou o jovem.
O lugar era impressionante, apesar do pouco espaço. As paredes da estufa eram de vidro, o que permitia que a luz do sol inundasse o ambiente, e todas elas estavam repletas de flores. Algumas penduradas em ganchos nas partes mais altas, outras em pequenos potes em estantes ou em espaços reservados no chão. Todo o espaço era ocupado por flores e plantas de todas as cores, o que fazia Crowley se lembrar do primeiro jardim e do gosto de maçãs, e o deixava com uma sensação nostálgica bem irritante. “Maneiro” foi o que ele disse.
“Você disse que quer flores de desculpas. O que você fez?” perguntou David, virando-se para Crowley com o lápis na mão. Tecnicamente, não era uma informação muito relevante para a escolha das flores, mas ele não podia evitar a própria curiosidade.
“Nada!” respondeu Crowley, na defensiva. “Pelo menos, nada que eu me lembre. Olha, eu quero alguma coisa que diga as coisas melosas que ele tem que saber sem eu ter que dizer. Dá pra ser ou não?”
“Tá legal! Não precisa descontar no ajudante ", respondeu David, erguendo as mãos em um gesto de rendição. “Cliente difícil, caramba”. David bateu o lápis no bloco de notas por alguns segundos antes de ter uma ideia melhor. “Aqui, toma” ele disse, entregando o bloco de notas e o lápis para Crowley, que aceitou com um olhar confuso. “Você não precisa me contar a história, claramente tem muita coisa rolando aí, mas eu preciso saber o que você quer dizer pra te ajudar. Eu te disse no pub, as flores não tem um significado aleatório, elas traduzem sentimentos. Eu preciso que você escreva os sentimentos que você quer que as flores traduzam”
Crowley permaneceu imóvel por alguns segundos, refletindo sobre como essa ideia parecia muito melhor na noite anterior depois de duas garrafas de vinho. “Você não tá tirando uma com a minha cara, né?” ele perguntou, meio desconfiado.
“Prometo que não. Você não precisa nem me dar o contexto. Eu consigo ter uma noção do arranjo se eu souber o que você quer dizer com ele. Você consegue.” disse David, dando um tapinha no ombro de Crowley antes de contornar o ruivo e seguir para a porta. “ Eu vou dar um pulinho na loja, meu tio sozinho não é muito bom com os clientes. Sem pressa.”
E então, Crowley estava sozinho na estufa, encarando um bloco de notas e se perguntando o que é que ele estava fazendo ali. Que tipo de sentimentos um demônio poderia ter? Por algum motivo, em algum lugar no fundo da sua mente, escolher as flores certas parecia uma questão muito mais importante do que ele inicialmente pretendia que fosse. De repente um buquê de flores de desculpas não parecia suficiente.
Ainda decidindo se não deveria deixar aquela ideia pra lá e voltar para uma outra noitada no pub, Crowley começou a caminhar pela estufa, observando as plantas. Ele se lembrava claramente da primeira vez que havia caminhado sob um jardim, 6000 anos atrás. Caminhar através da pequena estufa era como estar de volta ao Primeiro Jardim, observando as cores, sentindo os cheiros como se estivesse no Éden mais uma vez.
Enquanto caminhava, Crowley parou diante de um conjunto de plantas estranhamente familiares que se agrupavam no chão ao pé de uma janela. Não eram flores, eram plantas grandes cuja altura chegava quase em sua cintura e suas folhas possuíam recortes que ele tinha certeza de ter visto antes. Curioso, ele se abaixou para olhar mais de perto, levantando os óculos escuros sobre a cabeça. Ao tocar uma das plantas, a pigmentação das folhas recortadas pareceu brilhar um verde mais intenso, o que fez Crowley imediatamente se lembrar das trepadeiras que ele costumava se rastejar sobre em seu tempo no Éden.
Aziraphale também estava naquele mesmo jardim, milênios antes. Crowley se lembrava de ter passado dias observando o anjo até que a oportunidade da tentação surgisse. Ele também tinha visto ao longe o momento em que os primeiros humanos deixaram o jardim, carregando com eles o que ele logo depois descobriu ser uma espada flamejante angelical. Mesmo depois de tanto tempo, Aziraphale ainda era o mesmo anjo que ele encontrara naquele jardim, mas Crowley não tinha certeza se ele era o mesmo demônio.
Ainda agachado, ele olhou de volta para o bloco de notas. Tem muitas coisas que ele gostaria de dizer. Ele ainda se sentia culpado pela briga em 1862, não pelo motivo, mas ele havia dito coisas das quais se arrependia. Depois da situação com o truque de mágica em 1941 ele achou que as coisas haviam voltado ao normal, mas quando Aziraphale lhe entregou a garrafa de água benta, a culpa havia se instalado de volta. Ele havia se acostumado com a presença do anjo, outros oitenta anos sem contato era a última coisa que ele queria.
Ele nem mesmo conseguia definir exatamente o que estava errado, mas Aziraphale não havia aceitado a carona. Eles tinham um tipo de roteiro, Crowley aparecia, fazia qualquer coisa para o anjo ficar agradecido e eles saíam para comer. Mas dessa vez o anjo o havia procurado e ido embora logo depois e Crowley não sabia o que pensar. Ele sabia que Aziraphale não estava falando da velocidade do Bentley naquela noite, mas ele não sabia como desacelerar. Ele olhou o bloco de notas de novo. Talvez não fosse uma ideia tão ruim. Ele podia manter a distância, se fosse isso que o anjo queria, mas ele não podia simplesmente cortar o contato. Aziraphale precisava saber que Crowley estava disposto a continuar no roteiro, que a decisão no final era do anjo.
Ele estava sentado em uma das mesas repletas de potes de plantas terminando de escrever quando David voltou, carregando um saco de terra. “Se sentindo em casa?” David brincou, colocando o saco perto da porta e limpando as mãos no avental. Crowley na verdade estava sim se sentindo em casa, pela primeira vez em muito tempo, mas David não precisava saber disso. “Você consegue fazer alguma coisa com isso?” perguntou ele, entregando o bloco de notas. David leu rapidamente as anotações de Crowley e acenou com a cabeça. “É, eu consigo pensar em um arranjo legal para isso. Quando você quer pegar?”
“Pegar? Ah não, eu não posso. Já imaginou se alguém me vê saindo de uma floricultura com um buquê? Não, não, eu tenho uma reputação agora.” disse Crowley fazendo uma cara feia. “Preciso que você entregue, sigilo absoluto.”
“Nós não fazemos entregas, senhor Crowley. Eu não tenho nem carteira de motorista ", respondeu David.
“A entrega é nessa rua mesmo, você não vai precisar de carro. Eu pago extra pela inconveniência, não esquenta.” disse Crowley, pegando o bloco de notas de volta das mãos do ajudante e escrevendo o endereço antes de devolver. David olhou para o endereço e depois de volta para Crowley com um olhar surpreso. “Sério?”
“Nem uma palavra, moleque. Eu estou confiando em você, não faça eu me arrepender disso.” respondeu Crowley, com o mesmo ar de seriedade com que organizara o quase assalto a igreja.
“Claro, senhor Crowley. Eu te aviso quando estiver tudo pronto para o senhor dar uma olhada antes da entrega. Eu posso ajudar com mais alguma coisa?” perguntou David, guardando o bloco de notas no bolso do avental.
“Acho que sim, na verdade.” respondeu Crowley, descendo da mesa e indo até a janela. “O que são essas daqui?” ele perguntou apontando para o grupo de plantas que ele estava observando antes, o verde brilhante das folhas rasgadas ainda presente.
“Ah, essas são ótimas. O nome dessa espécie é Monstera, são trepadeiras. Elas são muito famosas por causa desse formato das folhas, mas não são muito práticas porque crescem demais, então você precisa de um espaço grande para elas, ou vai parecer que elas transformaram a casa numa floresta. O nome comum delas é Costela de Adão.”, respondeu David. Crowley fez força para segurar uma risada.
“Eu quero uma dessas, quanto é?” perguntou Crowley, tirando a carteira do bolso. David o olhou hesitante. “Você já teve alguma planta antes?” perguntou o ajudante. Crowley o olhou confuso. “Não. Mas não pode ser tão difícil.” respondeu o demônio.
David olhou entre Crowley e as Monsteras, pensativo. “Eu tenho uma ideia. Essas maiores precisam de um pouco mais de trabalho, você precisa construir um suporte para elas crescerem em pé e elas ficam bem pesadas, provavelmente não é uma boa ideia para alguém que nunca teve uma planta antes.” disse o ajudante, se abaixando para pegar um pote menor entre as folhagem. Era uma pequena planta, com o mesmo padrão de folhas, mas decididamente menor. “Tecnicamente essa não é uma Monstera, é da mesma família, mas essa não é uma trepadeira e é mais fácil de cuidar. Tem até o mesmo tipo de folhagem rasgada. Se chama Mini Costela de Adão, por motivos óbvios.” ele disse, entregando o pote a Crowley.
Crowley olhou a planta com cuidado, virando o pote. "Quanto?" ele perguntou, observando os detalhes dos rasgos nas folhas. Quando ele as tocou levemente, ele teve a mesma impressão de que a folhagem ficara mais vibrante.
"Pode considerar um presente. Vou fazer uma lista do que você precisa saber, se você não matar a coitadinha eu já fico feliz." respondeu David com um sorriso. "Engraçado, elas são conhecidas por darem sorte. Talvez a mensagem do seu buquê seja bem recebida no final das contas."
Crowley fez um som vagamente afirmativo, ainda observando a planta em suas mãos. Ele conseguia imaginar essa planta com um nome legal, tipo Lilith.
Aziraphale gostava de vinho tanto quanto qualquer um, contanto que esse “qualquer um” gostasse bastante de beber vinho. Não qualquer vinho, no entanto. Depois de milênios de indulgência, o anjo havia adquirido o gosto pelos vinhos mais finos, mais suaves e antigos. Afinal de contas, ele tinha padrões.
Ditos padrões normalmente envolviam a companhia de um certo demônio, com quem havia compartilhado diversas garrafas na parte de trás de sua livraria durante longas noites de conversas, onde Aziraphale discorria sobre qualquer assunto que estivesse em sua mente e Crowley ouvia atentamente, fazendo vez ou outra algum comentário sarcástico.
Aziraphale suspirou em sua poltrona, levando mais uma vez a taça de vinho aos lábios enquanto encarava o espaço vazio no sofá. Depois de tantos anos, a ausência de Crowley era impossível passar despercebida, como o elefante que claramente não estava na sala. O anjo vinha se sentindo cada dia mais solitário e pensar em Crowley o fazia se sentir culpado.
A última vez em que vira o companheiro havia sido naquela noite, no Bentley. Depois de ouvir os rumores sobre os planos de Crowley, Aziraphale não podia deixar que o demônio se colocasse em perigo, mesmo que para impedir isso ele precisasse fazer a coisa que mais o apavorava desde a última discussão entre eles. Desde aquela briga, Aziraphale andava remoendo a ideia de que se algo acontecesse com Crowley, seria exclusivamente por sua causa e as ramificações do incidente com o truque de mágica e Furfur o deixaram ainda mais temeroso. Por esse motivo, apesar de seu desejo pela companhia do demônio, ele recusara a carona e desaparecera. Crowley já havia se arriscado muito por sua causa.
No fundo de sua mente, Aziraphale estava convencido de que estava fazendo a coisa certa, mas olhar para o sofá vazio não o deixava muito convencido. Ele só podia esperar que Crowley não estivesse chateado e que eles pudessem voltar a beber juntos em algum outro momento. Ele só podia ter fé.
Uma batida na porta o retirou de seus próprios pensamentos. Estranho. Ele com certeza havia fechado a loja na hora do almoço, e se lembrava especificamente de não tê-la reaberto. Se perguntando quem poderia ser, ele caminhou até a porta da frente. Com uma ponta de esperança Aziraphale imaginou que Crowley pudesse estar antecipando suas vontades mais uma vez, mas quando abriu a porta não havia sinal do ruivo. Estava ali apenas o jovem que trabalhava no pub do outro lado da rua. Sua expressão de desapontamento foi rapidamente substituída por um perfeito sorriso educado. “David! É muito bom ver você. Como vai o seu tio?”
“Boa tarde, senhor Fell. Ele vai bem, muito feliz com a loja. Falando na loja, me pediram para entregar isso ao senhor.” disse o ajudante, retirando de trás das costas um ramalhete de flores amarrado por um laço vermelho. As flores, Aziraphale observou, eram de tipos diferentes, organizadas cuidadosamente em um arranjo multicolorido. O anjo hesitou por alguns instantes. “Para mim? Meu caro rapaz, acho que você se confundiu.” ele disse delicadamente. Que ideia absurda seria se ele começasse a receber presentes misteriosos a essa altura de sua existência.
“Não, não, senhor Fell. Eu recebi um pedido na floricultura com seu nome e endereço. Instruções específicas para entregar diretamente ao senhor.” Tecnicamente nenhuma dessas coisas era mentira.
Aziraphale recebeu as flores, extremamente confuso. “Eu não entendo. Quem me enviou isso? Não tem nenhum cartão?” ele perguntou, examinando o buquê. O perfume das flores imediatamente fazendo alguma coisa dentro do seu peito formigar.
“Desculpa, senhor Fell. Essa entrega é anônima. Um pedido especial, o senhor me entende.” respondeu David, encolhendo os ombros.
“Oh, mas é claro. Aqui, meu rapaz. Pelo seu trabalho extra.” disse o anjo, retirando milagrosamente uma nota de vinte libras e entregando ao jovem. “Diga ao seu tio que devo aparecer em breve na loja para uma xícara de chá, sim?”
“Vou dizer. Foi bom vê-lo, senhor Fell. Espero que encontre suas respostas, esse arranjo me deu um certo trabalho.” disse David com um sorriso conspiratório antes de acenar e seguir seu caminho rua abaixo, deixando um anjo muito perplexo na soleira da porta.
Voltando para o conforto da sua loja, observou novamente o arranjo de flores em sua mão. Era um grande buquê, com flores amarelas e rosas entrelaçadas e flores azuis ao redor. Parecia um presente extremamente caro, o que deixava Aziraphale ainda mais curioso. É claro que ele sabia quem havia enviado, ninguém mais poderia dedicar a ele um gesto tão significativo, ninguém na Terra e com certeza ninguém no Céu.
Entre os ramos e a fita, Aziraphale encontrou um pequeno papel, aparentemente digitado na máquina e recortado, que possuía apenas três linhas, cada linha com o nome de uma flor:
- Celidônias (amarelas)
- Sempre-vivas (rosas)
- Violetas (azuis)
Aziraphale franziu a testa. Sempre-vivas e Violetas eram flores populares para arranjos, mas Celidônias eram notoriamente conhecidas como plantas medicinais, dificilmente as primeira opção para um buquê. Crowley sabia que Aziraphale não faria uso das propriedades medicinais de qualquer flor, uma vez que anjos não ficavam doentes, então qualquer que fosse o motivo da escolha provavelmente não estava relacionado a esse uso particular e sim a outra característica específica. O problema era que Aziraphale tinha um conhecimento muito superficial sobre as criações inanimadas de Deus, uma vez que os humanos ocupavam o suficiente de seu tempo com coisas muito mais interessantes, como restaurantes e orquestras.
Pensativo, o anjo voltou para sua poltrona, colocando a nota com a pequena lista em cima de uma das edições de Hamlet que ele mantinha ao alcance das mãos o tempo todo e que no momento estava na mesa de centro. Aziraphale olhou para as flores e então para o livro. Ofélia mencionava Violetas em seu momento de loucura, dizendo que todas haviam murchado após a morte de Polônio. Aziraphale havia questionado Shakespeare sobre isso, semanas depois do grande sucesso da peça no Teatro Globo. Aziraphale não se lembrava exatamente da resposta, mas com certeza as Violetas possuíam uma conotação otimista a partir do que o autor deu a entender.
Aziraphale estalou os dedos e um grande vaso com água apareceu em cima da escrivaninha. Cuidadosamente, Aziraphale colocou as flores no vaso e depois de alguns segundos admirando seu novo pedaço de decoração, virou-se na direção das estantes de livros. Sua coleção sobre botânica era escassa, então não demorou muito para que o anjo achasse o que ele procurava: um grande guia de floriografia ilustrado e assinado pelo autor. Na época em que adquirira esse volume, a floriografia era um assunto muito debatido em certos círculos, especialmente os mais discretos.
Com o livro aberto sobre a mesa e a lista novamente em mãos, Aziraphale decidiu procurar pelas Violetas, observando os pequenos pontos azuis espalhados pelo vaso enquanto folheava as últimas páginas do livro até encontrar o que procurava.
Violetas: lealdade despida de modéstia, promessas.
…
Violetas Azuis: fidelidade incondicional
Imediatamente Aziraphale sentiu o rosto ruborizar. Ele sentia como se as palavras estivessem sendo sussurradas para ele enquanto ele olhava para as pequenas violetas azuis. Lealdade. Ele pensou na Bastilha, pensou na igreja durante a blitz, todas as vezes em que Crowley esteve lá quando ele precisou. Fidelidade incondicional. As palavras da noite do truque de mágica ecoavam na cabeça do anjo.
‘ Você disse pra confiar em você.’
‘E você confiou.’
Aziraphale voltou a folhear o livro, a sensação estranha no peito novamente presente enquanto ele procurava a letra S.
Sempre-vivas: imortalidade e permanência através das lembranças, eternidade.
“Ah, Crowley”, sussurrou Aziraphale com um sorriso, admirando as flores rosas, que se misturavam às outras no vaso. Havia uma única pessoa em toda a criação que compartilhava com Aziraphale a experiência de observar o fenômeno da mortalidade humana sem que a própria mortalidade os tocasse. No entanto, quando Crowley pedira a água benta, Aziraphale se tornou muito consciente de que talvez um dia o mundo pudesse existir sem ele ou o demônio. Aziraphale olhou mais uma vez para as flores rosas. Parece que não.
As últimas flores, as Celidôneas, eram as que mais intrigavam Aziraphale. Enquanto passava as páginas iniciais do livro, Aziraphale se questionava sobre o que essa escolha tão específica poderia significar.
Celidônias: esperança em alegrias futuras, felicidade em novos encontros.
O sentimento que aparecera no peito do anjo agora transbordava em seus olhos, fazendo com que as páginas do livro ficassem manchadas brevemente antes que Aziraphale o restaurasse em suas condições prévias. Aquele demônio. Crowley sabia dos riscos tanto quanto ele. Mesmo depois de tudo que Aziraphale havia dito, tudo que ele havia feito, Crowley havia mandado flores e confiado que ele saberia o significado.
Eles nunca conversavam de verdade, não com palavras, mas depois de milênios tendo um ao outro como companhia eles desenvolveram uma comunicação própria. As flores, isso era novo, mas era uma extensão dos vários outros gestos nos quais eles construíram uma conexão única que ultrapassava as limitações das palavras. O Acordo, as peças de teatro, os jantares, as noites de vinho naquele mesmo cômodo em que Aziraphale agora possuía um grande vaso de flores.
Aziraphale conseguia admitir agora que havia sido injusto com Crowley durante a conversa no Bentley. Crowley nunca foi mais rápido do que ele. eles sempre andaram juntos, desde a primeira tempestade no Muro. Aziraphale havia colocado Crowley mais uma vez a um braço de distância, e mais uma vez o demônio havia respeitado essa distância, recorrendo a mensagens codificadas para que Aziraphale soubesse o que ele mesmo não se permitia ouvir.
O anjo tocou suavemente as flores, conjurando inconscientemente uma benção para que elas se mantivessem frescas por um futuro próximo. De todos os gestos de Crowley, esse era um que Aziraphale queria guardar pelo máximo de tempo possível. Por um momento ele se perguntou onde colocar o vaso, pois se deixasse ali, as flores pegariam muita poeira e quase nenhum sol. Com um estalar de dedos as flores agora se encontravam no apartamento acima da livraria, perfeitamente posicionadas na mesa de cabeceira que ficava ao lado da janela. Mesmo sem o hábito de dormir, Aziraphale gostava de ler na cama e poderia olhar para elas sempre que quisesse.
Pegando seu casaco e seu chapéu, Aziraphale seguiu para a porta, apagando as luzes com um movimento das mãos. A noite já começava a cair e ele tinha uma boa noção de onde poderia encontrar seu companheiro. Com alguma sorte, nenhum dos dois beberia sozinho naquela noite.
Era quase 1h da manhã quando David encerrou seu turno no pub. Havia sido uma longa semana e ele mal podia esperar para chegar em casa e dormir durante todo o domingo. Depois de se despedir do dono do pub, o senhor Collins, o garoto foi até seu armário pegar suas coisas. Quando abriu o armário, no entanto, haviam duas coisas que ele não havia deixado lá quando chegara mais cedo: uma garrafa de vinho e um bilhete.
Ele olhou ao redor da pequena sala de pertences, mas não havia mais nenhum funcionário por ali. Depois de examinar a garrafa rapidamente, David pegou o bilhete, cujas duas linhas fizeram o jovem sorrir todo o caminho para casa.
Eu te devo uma, garoto. Um presente para você, vale algumas centenas se você souber onde vender.
A.J.Crowley
PS: a planta ainda está viva e triunfando.
