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Supernova

Summary:

Seja enquanto sinto a areia das praias da Califórnia entre meus dedos, ou sentindo a sola do meu tênis vermelho batendo contra o concreto das ruas de Seul, seu rosto nunca deixou minha mente. Os ponteiros do relógio continuam girando, mas sinto que nunca supero de fato meu passado. Assim como você parecia não ter sido capaz de o fazer na época em que nos conhecemos.

[ GOT7 | Markjin com referências a Jinson, Yugbam e 2Jae | Inspirada na música Supernova do Ansel Elgort ]

Notes:

Fanfic originalmente postada no dia 09/05/2020 no Spirit, ainda disponível no perfil: https://www.spiritfanfiction.com/perfil/neli
Revisada para postar aqui!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Eu te conheci em um verão escaldante na Califórnia. Você me disse que o conheceu em um inverno gelado na Geórgia. Apesar de todas as minhas tentativas de desvendar seu olhar, tentar encontrar a brecha necessária para o fazer olhar para mim, e apenas para mim, era clara a forma como seus olhos, perdidos nas ondas do mar, só enxergavam as lembranças do citado inverno no outro estado estadunidense.

Nem o sol sob nossas cabeças, nem o suor escorrendo pelos nossos corpos ou o som das ondas quebrando contra a areia. Nada era capaz de esquentar seu coração congelado, que parecia caído ao chão de uma vazia e solitária sala. Seu corpo se entregava ao meu, sua voz era perfeitamente ouvida gemendo contra os lençóis enquanto meu corpo ia contra o seu. Mas em nenhum momento você chamou meu nome. Em nenhum momento seus olhos se fixaram nos meus e realmente os viram .

Mas, ao mesmo tempo em que meu próprio coração era esmagado, assim como as ondas quebrando contra a areia, me tornei incapaz de me afastar. Eu queria mais do que você poderia me dar, sabia que não poderia pedir, e ainda assim me coloquei à disposição dos seus desejos. Eu menti. Menti que nossa amizade colorida era tudo que desejava ter, que nosso encontro casual em um dia qualquer em uma praia qualquer não havia me afetado. Que eu não era o romântico sonhador que sou e que poderia facilmente lidar com um relacionamento carnal.

Menti até não conseguir mentir mais. Ou, menti até que seu olhar fosse capaz de notar minhas palavras vazias, palavras ditas por um mentiroso terrível como eu. Porque, mesmo que minha expressão deixasse claro o vazio de minhas alegações, seu olhar estava tão distante que não conseguia notar.

No dia em que se deu conta das cicatrizes que estava desenhando no meu coração você pareceu tomar uma decisão. Uma decisão fácil demais e que iria me deixar uma cicatriz ainda mais difícil de cicatrizar. Meu silêncio parece ter parecido a você uma aceitação fácil quanto a sua despedida, mas a verdade é que eu sabia que não tinha o direito de pedir para que ficasse.

Minha personalidade calada sempre pareceu distante a muitos, e apenas aqueles realmente próximos a mim sabiam o quão protetor e apegado sou as pessoas que me são caras. Mas você não prestou atenção ou permitiu que eu me aproximasse o bastante para notar essas minhas características.

Então, no dia em que você me disse que já era hora de voltar para a Geórgia, e deixar a Califórnia para trás de uma vez por todas, nem a supernova de desespero no meu olhar foi capaz de te alcançar. Você nada notou e eu nada disse, Park Jinyoung, mesmo que meu desejo fosse gritar que os poucos meses que passamos juntos tinham um significado imenso para mim.

Me calei, engoli meus sentimentos e o deixei partir. Seu adeus foi feito com um sorriso singelo, sorriso ao qual me encantou desde a primeira vez em que nossos olhares se cruzaram pelas areias da praia e você notou que eu era capaz de compreender seu coreano, mesmo sendo claramente um estadunidense.

 


 

— Hyung, você está prestando atenção? — Pisquei algumas vezes me sentindo perdido ao sentir a mão do mais novo em meu ombro, finalmente erguendo meu olhar para o seu rosto aborrecido. Sua expressão me dizia que já fazia algum tempo que ele tentava me dizer algo, mas minha mente estava tão distante que era óbvio que não havia escutado uma só sentença de sua fala.

— Me desculpa Jae, eu não estou muito legal hoje. Acho melhor deixarmos pra terminar isso outro dia, que tal? — Me sinto mal ao pedir isso ao Choi, sabendo o quão importante para ele é terminar esse projeto o quanto antes. Choi Youngjae é sem sombra de dúvidas a pessoa mais apaixonada pela música que já conheci, e isso foi exatamente o que fez com que me interessasse por ele ao pisar na universidade de Seul, há dois anos.

Apesar de ser dois anos mais velho, devido a minha entrada tardia na universidade, acabamos entrando no mesmo ano para a instituição. Nossa amizade não foi planejada, nem mesmo era esperada já que fazemos dois cursos diferentes (ele música e eu cinema), mas ao vê-lo cantar durante a cerimônia de abertura no evento de calouros dos cursos de artes foi impossível não prestar atenção no garoto de sorriso alegre.

Mais tarde, depois de acabar esbarrando no garoto que também descobri ser bastante distraído, fiquei cativado ao descobrir que dividimos a paixão e o vício pelos mesmos tipos de jogos e filmes. Conversar com Youngjae sempre foi fácil, mesmo ambos sendo pessoas tímidas e retraídas na maior parte do tempo, então me senti feliz por ter feito um amigo tão rápido depois de me mudar para Seul, tendo ficado longos cinco anos longe do país.

Junto a ele também pude conhecer seu namorado, um homem de aparência séria inicialmente, mas que logo se mostrou um adulto com alma de adolescente bobamente apaixonado. Lim Jaebeom também era próximo a dois garotos mais novos, Kim Yugyeom e Kunpimook Bhuwakul, ao qual chamamos sempre de Bambam.

Graças a isso pude me adaptar mais rápido do que esperava a minha nova vida na Coreia do Sul, algo que me amedrontava após ter voltado para o país estrangeiro, desta vez sozinho já que meus pais a anos haviam sido transferidos de volta para os Estados Unidos.

Me mudar havia sido um ponto de virada assustador na minha vida, mas há tempos eu desejava me afastar das praias da Califórnia. Tendo passado boa parte da minha adolescência na Coreia, e tendo vivido lembranças das quais gostaria de me afastar no país estadunidense, voltar me soou como uma boa escolha. E minha amizade com os três coreanos e o tailandês me provou que havia feito a escolha certa.

— Okay… só vou aceitar porque você realmente tá com uma cara péssima, Mark hyung. Mas não me deixe esperando muito tempo! — Acenei positivamente para sua imposição, sabendo que realmente já deveríamos ter finalizado nosso projeto conjunto. Há meses eu havia prometido que ajudaria o mais novo a criar alguns vídeos para seus covers musicais e a semanas tentamos montar o planejamento de gravação, agora que havíamos conseguido permissão da universidade para usar suas instalações.

— Não vou. Até porque, sei que você tá uma pilha com isso e provavelmente enlouquecendo o Beom de tanto falar nesse assunto. Se eu demorar mais alguns dias, é bem capaz que ele apareça na minha porta implorando para que eu filme tudo no mesmo dia. — Sorrio ao pensar na possibilidade, satisfeito em conseguir tirar uma risada sua com a fala.

Organizo os papéis que havia espalhado sobre a mesa da biblioteca em uma única pilha, a jogando de qualquer forma dentro da mochila. Torcia para ter disposição de organizar tudo melhor mais tarde, mas sabia que provavelmente apenas voltaria para casa e me jogaria na cama após comer um lamen da loja de conveniência.

— Ele não faria isso depois de ver sua cara. Sério hyung, sei que você gosta de jogar pra relaxar, mas não acha que está exagerando demais e deixando de dormir? — Ignoro o olhar suspeito que recebo, sabendo que ele desconfia que não são os jogos que tiram meu sono. Continuo a andar para fora do ambiente, com o mais novo ainda ao meu lado quando alcançamos o corredor que nos levará para o lado de fora do prédio. — Ou não são os jogos que estão tirando seu sono?

— Eu apenas tive um pesadelo depois de passar muitas horas jogando um jogo de terror e acabei não conseguindo voltar a dormir. Só isso. – Minha resposta saí simples, mas sei que não o convenço com ela. Apesar dos anos terem passado, ainda sou um péssimo mentiroso, e isso fica claro na maneira como evito seu olhar enquanto falo.

— Ahã, sei que sim. Justamente você, o cara mais viciado em filmes de terror que conheço, e que nunca teve problemas com isso. – Sua voz sarcástica me faz bufar mal-humorado, deixando meu olhar correr pelas diversas pessoas sentadas ou andando pelo gramado do campus assim que alcançamos o lado de fora. – Isso me cheira a outra coisa. Cheira a noites mal dormidas por pensamentos no passado. Mais especificamente: arrependimentos.

Ignoro sua fala ao continuar a andar, dessa vez um pouco mais rápido para ficar um passo à frente do mais novo, para que assim ele não consiga ver minha expressão. A verdade é que ele havia acertado em cheio e nós dois sabemos disso. Já faz alguns dias que eu ando mais distraído que o normal, pensativo e até um tanto mal-humorado com algo. Youngjae sempre foi atento o bastante para notar minhas mudanças de humor, e teimoso o suficiente para descobrir os motivos por trás delas.

Isso havia ajudado para nossa amizade se tornar ainda mais próxima rapidamente, já que costumo ser alguém distante e fechado com aqueles que não possuem grande intimidade comigo. Até hoje me surpreendo com o quão rápido me apeguei a ele, mesmo que não sejam raras às vezes em que o moreno acaba me tirando do sério.

— Aquela mensagem ainda tá te incomodando, não é? Você deveria responder logo, hyung. Fingir que isso não te afeta não vai mudar os fatos. – Finjo não o ouvir bufar frustrado próximo a mim, assim como tento ignorar suas palavras. Mas a verdade é que elas me atingem em cheio, assim como tudo relacionado a esse assunto.

Já faz uma semana desde que recebi uma mensagem de um número que a três anos havia deletado da minha agenda e, achei que também tivesse apagado, da minha vida. A mensagem era simples e minha memória já não lembraria mais dos dígitos que compõem o número, mas me lembrava bem das iniciais colocadas nela. Jamais conseguiria esquecer.

 

“Hey, sei que já faz algum tempo, hyung. Mas estou de volta a Califórnia, e bem… eu realmente queria te ver de novo. Me responda assim que puder, hum?

Ass.: P.J.”

Perdi a conta de quantas vezes havia lido e relido as mesmas palavras, dispostas em tão poucas linhas. A primeira vez que o fiz estava no quarto de Jaebeom, sentado no chão em meio a várias embalagens de comidas gordurosas e doces; após horas na frente do vídeo game discutindo com Youngjae sobre vitórias, derrotas e revanches, enquanto o namorado do Choi nos olhava com tédio em boa parte do tempo e continuava a brincar com seus cinco gatos.

Meu choque foi claro assim que olhei para a tela do celular e é claro que os dois iriam notar minha expressão de descrença, assim como minhas mãos trêmulas. O Lim é sensível o bastante para não insistir quando alguém não quer contar algo, mas o mais novo é teimoso e ansioso demais para ver seu melhor amigo nervoso com algo e não saber do que se trata.

Naquele dia contei parte da história que vivi com um jovem coreano que conheci em uma das praias da Califórnia. Como me encantei com ele assim que vi seu sorriso, como prometi a mim mesmo que não deixaria meu coração ser despedaçado enquanto o ajudava a transbordar seus desejos carnais enquanto seu coração ainda estava ferido por outro alguém.

Contei como o amei em silêncio durante oito meses, como fui covarde e dependente demais para fazer algo sobre meus próprios sentimentos. Sobre como, mesmo sabendo que meu coração desejava mais, me tornei incapaz de me afastar toda vez que via seu sorriso e as rugas de felicidade que se formavam em torno dos olhos dele quando o ouvia rir. Sobre como nossa amizade parecia o fazer bem, mesmo que eu fosse tolo demais para notar que estava sendo egoísta comigo mesmo e com ele ao me manter próximo enquanto mentia para nós dois.

Por último, contei sobre como, à medida que o coreano parecia mais presente em cada momento, menos reflexivo quanto ao seu próprio passado e cicatrizes, ele aos poucos começou a notar meus desejos. Meus olhares, meus toques contidos, meus sorrisos ansiosos. Sobre como ele sorriu triste quando finalmente me confrontou sobre o assunto, se desculpando por nunca ter notado e por não ser capaz de retribuir meus sentimentos.

Não me surpreendi ao ver a expressão frustrada de Youngjae quando mencionei que nem mesmo questionei quando um belo dia o garoto pelo qual me apaixonei apareceu a minha porta, apenas para avisar que iria embora. Sabia que o mais novo queria me dizer que eu deveria ter feito algo a respeito, ao menos dito alguma coisa. Sabia porque eu mesmo achava isso, porque jamais iria esquecer como o outro apenas suspirou com o meu silêncio e então se foi. Se foi como se nunca tivesse passado pela minha vida.

Fui grato pelo abraço que recebi de Jaebeom depois dos segundos de silêncio que se instalou no ambiente, assim como o que recebi de Youngjae quando este pareceu desistir de se sentir frustrado ou irritado com minha história. O assunto não voltou a ser pauta desde então, mas era clara a forma como o estudante de música parecia sempre atento para notar se eu havia ou não respondido a tal mensagem.

Parte de mim desejava o fazer, mas a verdade é que meu medo do que ela poderia significar é maior do que minha curiosidade. Ao me mudar novamente para Seul, achei que iria colocar definitivamente uma pedra sobre meus sentimentos mal resolvidos, e de certa forma foi o que fiz.

Conquistei novas amizades, me dediquei aos estudos sobre algo que amo, mudei meus ares e alguns dos meus costumes. Há tempos não visitava uma praia, mas sempre tirava algum tempo para acampar com Yugyeom ou ir a restaurantes de bairro com Bambam. Duas coisas que não costumava fazer quando morava no outro país, coisas que me ajudaram a estabelecer outra vida e outras lembranças.

Poderia dizer com confiança que estava feliz e satisfeito com meus dias, mesmo que meus amigos sempre questionassem porque sempre parecia desinteressado e quase irritadiço com qualquer coisa relacionada a minha vida amorosa. Eu não havia me apaixonado novamente depois que vi a porta do meu antigo apartamento se fechar, e a verdade é que a ideia de o fazer me aterrorizava. Sempre que pensava a respeito um rosto específico me vinha a mente e novamente eu me pegava tentando o esquecer.

Jamais fui uma pessoa muito direta ou corajosa quando se trata dessa parte específica da minha vida, então não me surpreendi por me pegar adiando e tentando ignorar meus pensamentos nos últimos dias quanto a isso. Mesmo que isso não funcionasse como gostaria, já que estava muito mais distraído e distante do que jamais estive.

— Não tem porque responder. Eu nem mesmo estou nos Estados Unidos. E, seja como for, ele foi embora, Jae. Por que raios iria querer voltar pra minha vida agora? – Minha pergunta saí um tanto irritada, mesmo que não seja minha intenção, o respondendo mesmo que longos segundos já tenham se passado.

Já havíamos chegado do lado de fora do campus da universidade, seguindo a mesma direção até o ponto de ônibus onde iríamos nos separar até o dia seguinte. O Choi voltaria para o seu pequeno apartamento, enquanto eu seguiria para o loft que ganhei dos meus pais assim que me mudei. Local que logo me rendeu o apelido de “mauricinho metido” por parte dos meus amigos mais novos, mesmo que eles adorem usar o local como bem entendem.

— Talvez porque ele, assim como você, tem assuntos não resolvidos e quer deixar de ter arrependimentos quanto ao passado. – Me surpreendo um pouco ao vê-lo se apressar para se colocar a minha frente, apontando um dedo para o meu peitoral enquanto me olha com os olhos franzidos em seriedade. – É bem óbvio que a história de vocês terminou em uma baita vírgula, hyung. Vocês não resolveram nada do que sentiam, apenas deixaram o outro ir. Se ele está atrás de você então não acha que deveria ao menos ouvir o porquê?

Fico em silêncio ao ouvir sua pergunta, sentindo as palavras reverberarem por minha mente. Por sorte não preciso encontrar as palavras para o responder, já que a poucos metros vejo seu ônibus se aproximar. O Choi também percebe, já que saí de sua pose acusadora e solta um suspiro ao voltar a me olhar, dessa vez me dando um sorriso singelo.

— Apenas pense sobre isso, hum? Mesmo que nada entre vocês volte a ser como era ou comece novamente seria bom se desfazer de vez dessas amarras. Você merece ser feliz, Mark hyung, e sinto que não vai conseguir se apaixonar de novo enquanto não resolver o que quer que tenha ficado mal resolvido entre vocês. – Não consigo ter nenhuma reação quando sinto seu abraço rápido, ao qual sempre recebo quando nos despedimos ao final do dia, o vendo logo andar apressado em direção ao ônibus que estava prestes a sair.

Permaneço sozinho com meus pensamentos por mais alguns minutos, ainda parado no mesmo lugar, até ver meu próprio ônibus se aproximar. Apenas aceno ao motorista já conhecido ao entrar, indo para o fundo do transporte e me sentando de qualquer jeito na poltrona. Puxo meu celular para fora do bolso na calça jeans que uso, abrindo o chat que havia me habituado a olhar tantas vezes por dia novamente e lendo as mesmas palavras, de novo e de novo.

As palavras de Youngjae voltam novamente a minha mente e suspiro ao me perguntar se deveria me entregar a um momento de impulso. Meu olhar corre pela janela por um momento até que finalmente volto a olhar para o celular. Bem, como o Choi sempre diz: viver é um jogo de aventura e nós podemos escolher se seremos os protagonistas da nossa vida ou apenas espectadores. Talvez fosse o momento de correr algum risco como um protagonista corajoso.

 


 

Meus pés voltam a me levar de um lado para o outro no mesmo pedaço de terra batida enquanto meus olhos permanecem perdidos ao olhar para o chão. Há vários minutos eu havia perdido a conta de quantas vezes andei de um lado para o outro enquanto bato o celular contra minha palma de maneira nervosa, me sentindo ansioso demais para permanecer sentado no banco de maneira do parque onde estou.

Volto a me questionar se não teria sido melhor ter aceitado a proposta do Choi de me acompanhar, mesmo sabendo que seria infinitamente constrangedor o ter por perto quando finalmente quem espero chegar. Sabia que sua proposta havia sido sincera ao me ver a sua porta, nervoso e assustado ao atropelar as palavras enquanto tentava contar que não apenas havia respondido à mensagem, mas que também havia recebido logo em seguida uma ligação do mesmo número.

Nem ao menos me importei com o fato de ver Jaebeom sem camisa e obviamente envergonhado e animado por baixo da calça jeans justa que usava, ao que sou colocado para dentro do apartamento do meu melhor amigo, nervoso demais para tentar me focar em qualquer outra coisa que não fosse Youngjae tentando me acalmar e me fazer explicar com calma o que havia acontecido.

Apenas respiro fundo antes de contar, já com mais calma, que havia respondido à mensagem de Jinyoung apenas com um “ Desculpe, mas já não moro mais na Califórnia” e logo depois sentir meu celular vibrar ao receber uma ligação. Lembro de ver as expressões de ambos os namorados se tornarem surpresas e curiosas ao que me escutam dizer que, assim que atendi a chamada, meio em pânico pôr a estar recendo, ouvi claramente um “ Apenas me diga onde está e eu estou indo, hyung”

Nem eu mesmo sei como fui capaz de responder o mais novo, primeiramente com descrença e então surpreso demais ao ouvir sua risada do outro lado da chamada.

— Você não mudou nada, hyung. Continua sendo um cara extremamente tímido, hum? – Sua voz animada fez com que eu sentisse minhas bochechas quentes de vergonha, me mantendo em silêncio ao não conseguir pensar em nada para responder. – Sei que não deveria, mas quando você não respondeu minha mensagem achei que poderia ter mudado de número. Por isso acabei procurando sua irmã. Ela me disse que você voltou pra Coreia do Sul e eu fiquei realmente chocado!

— É tão estranho assim eu ter me mudado? – Minha voz saí em apenas um fio, ainda sentindo meu rosto quente e a vergonha sendo transmitida com facilidade pelo meu tom de voz. Algo que apenas piora quando o escuto novamente rir do outro lado.

— Não é isso, mas eu mandei a mensagem justamente porque também estava prestes a me mudar dos Estados Unidos e queria te ver uma última vez. E adivinha? Faz dois dias que voltei pra Seul. A mesma cidade onde sua irmã me disse que você está vivendo. – Meu punho se fecha sobre minha coxa assim que minha mente processa a informação que recebo, meus olhos arregalados e perdidos no banco a minha frente.

— Você está… em Seul? – Demoro longos segundos para questionar, um pouco assustado com a ideia de ter ouvido errado, enquanto apenas escuto sua respiração do outro lado. De alguma forma, você parecia estar me dando o tempo necessário para compreender o que havia escutado.

— Sim, eu estou. Dessa vez pra ficar. Viver no exterior foi uma boa experiência, mas eu sentia falta de casa. Assim como.... – Sua voz pairou no ar por alguns segundos, parecendo pela primeira vez incerto sobre o que iria dizer. – de você. Eu também senti sua falta, hyung. Acho que não disse tudo que deveria quando parti.

Não consigo pensar em nada para responder a sua confissão, principalmente porque não consigo fazer minha mente a processar rápido o bastante, por isso permaneço em silêncio. Sua voz continua a soar em minha cabeça, mas as palavras encontram dificuldade para se serem compreendidas, algo que me fez piscar repetidas vezes.

— Eu sei que isso é bem repentino, mas sua amizade foi importante pra mim em um momento complicado da minha vida. Eu fui embora deixando muitas coisas entre nós mal resolvidas e sinto que te deixei para trás com muitas cicatrizes. Por isso… bem, pensei que poderíamos ao menos conversar sobre. – Consigo notar um tom de incerteza em sua voz, mesmo que tente parecer tranquilo ao falar. Isso acaba me fazendo suspirar ao notar que mesmo com esses três anos algumas coisas não haviam mudado. E ainda me lembro bem demais de cada detalhe sobre você.

— Eu acho que… é uma boa ideia. Nós podemos nos encontrar, se é isso que você quer. – Apoio minha cabeça no encosto do banco olhando para o teto do ônibus, sentindo que aos poucos consigo me acalmar um pouco, mesmo que meu coração ainda esteja batendo rápido demais.

— Não quero que seja algo que apenas eu queria, Mark. Você não tem que ser tão submisso as minhas vontades. – Sua voz um tanto irritada me surpreende, fazendo meu coração ficar apertado, agora realmente temeroso do que ele pode ter entendido. Não apenas das minhas palavras de agora, mas também do passado.

— Eu quero te ver. Quero saber o que você tem para me dizer. Além disso… — Aperto o telefone com força antes de conseguir pensar em algo para falar, minha voz mais séria e baixa assim que consigo o responder. — nós somos amigos, certo? Não tem porque eu não aceitar o ver, Jinny.

Não me lembro ao certo como a ligação acabou sendo finalizada, mas tenho a impressão de ter o ouvido murmurar a palavra “amigo” em um tom estranho depois que eu mesmo a disse. Ouvir sua voz me deixou agitado demais para conseguir apenas voltar para a casa, por isso acabei descendo no ponto seguinte e pegando um táxi para o primeiro lugar no qual consegui pensar.

Bem mais tarde naquela noite me desculpei diversas vezes por atrapalhar meus amigos, mas me senti melhor ao receber uma risada alta e vários carinhos em meu cabelo por parte do Choi, que continuava me dizendo de novo e de novo que estava tudo bem. E a expressão serena de Jaebeom me transmitia a mesma mensagem, então me permiti voltar para minha própria casa sem tanto remorso quanto a isso, mesmo que não tenha conseguido dormir nada ao ficar pensando na ligação que recebi.

No dia seguinte recebi uma nova mensagem, a qual dessa vez não demorei a responder, e então nosso encontro estava marcado para o final de semana. Os dias pareceram se arrastar até que o sábado chegasse, enquanto eu tentava em vão ignorar os rompantes de animação de Youngjae e os olhares preocupados de amigo super protetor de Jaebeom.

Até mesmo Yugyeom e Bambam notaram que havia algo de diferente, motivo pelo qual me fez fugir de ambos de forma obstinada, já que me recusava a explicar porque parecia tão ansioso o tempo todo nos últimos dias. Assim que a manhã de sábado chegou nem mesmo reclamei por levantar logo cedo, principalmente após perder longos minutos em frente ao guarda-roupa tentando escolher uma roupa.

Nunca me importei muito com as peças que uso, mas não mais do que de repente todas as camisetas largas e calças jeans rasgadas que possuo pareciam simples demais. Pela primeira vez me arrependi de não seguir o conselho das minhas duas irmãs mais velhas, que sempre me criticavam por não prestar mais atenção as roupas que uso.

Apesar disso, me senti mais calmo ao vestir uma camiseta preta simples, uma calça com vários rasgos pelas coxas e joelhos e uma jaqueta jeans escura, assim como meus tênis vermelho. Era um visual simples, mas Bambam sempre dizia que eu ficava “um gato”, então achei que seria apropriado. Mesmo que logo em seguida tenha visto minhas bochechas vermelhas no reflexo do espelho, me questionando porque raios seria bom estar bonito para esse encontro.

Chegar ao parque foi a parte fácil, local já bem conhecido da minha parte já que costumo vir sempre com Youngjae para passearmos com sua cachorrinha Coco, mas notar que havia o feito com trinta minutos de antecedência me frustrou. Isso porque a ansiedade transbordava por cada poro meu, então obviamente os ponteiros do relógio giravam muito mais devagar.

Por isso, me permiti apenas continuar a andar de um lado para o outro, até que ouvi novamente a mesma risada que vinha assombrando minha mente há dias. E ao me virar, um tanto assustado e um tanto temeroso, não tive palavras para responder ao sorriso animado que vi.

— Você realmente não mudou nada, hyung. – Me senti ficar sem fôlego ao ouvir sua voz, dessa vez sem estar a escutando por um aparelho celular, mas sim a apenas alguns passos de distância. – Na verdade, isso é uma mentira. Você ficou muito mais bonito nesses anos.

Pisco algumas vezes ao ouvir tal frase, logo sentindo minhas bochechas se tornaram completamente vermelhas, me fazendo ficar ainda mais envergonhado ao ouvir sua risada novamente voltar a soar.

— Obrigado… você também… está. – E é a mais absoluta verdade. Nada teria me preparado para o quão belo ele ficou em apenas três anos, muito mais do que já era quando nos conhecemos. Seus ombros estão mais largos, seu corpo mais forte deixando claro que havia criado o hábito de frequentar a academia.

É fácil notar suas coxas ainda mais grossas por baixo da calça jeans escura e justa que usa, assim como o peitoral definido sob a camisa social branca, mesmo que ela pareça meio solta em torno do seu corpo. As mangas dobradas me permitem ver seus braços, algo que me faz suspirar de forma automática, e obviamente ficar ainda mais envergonhado ao ver uma de suas sobrancelhas se erguer ao que uma expressão presunçosa lhe toma a face.

— Vejo que você realmente gostou do que viu. Isso é bom. – Travo meu corpo no mesmo lugar ao vê-lo dar mais alguns passos em minha direção, parando a não mais do que trinta centímetros do meu corpo e ainda sorrindo de forma animada ao voltar a falar. – Porque eu também estou muito feliz com o que vejo.

 


 

Já faz alguns minutos que estamos andando lado a lado pelas trilhas do parque, apenas o som das pessoas em torno preenchendo o espaço entre nós. Ainda posso sentir meu rosto um pouco quente pela timidez, mesmo que sua postura pareça relaxada enquanto anda ao meu lado, seu olhar parecendo correr por cada detalhe do ambiente de maneira nostálgica.

— Faz tanto tempo que não venho a esse parque… minha mãe costumava me trazer sempre quando era pequeno, fazíamos piqueniques sempre que ela tinha uma folga do trabalho. – Me torno mais atento ao ouvir suas palavras, curioso por ouvir algo que não sabia sobre o seu passado. Mesmo nos meses em que vivemos praticamente grudados quando ainda vivíamos em solo estadunidense, eu ouvia muito pouco sobre sua infância.

— Isso parece realmente… legal. Eu venho pra cá quase toda semana, geralmente com um amigo meu. – Me sinto um pouco mais calmo ao responder, deixando que o assunto flua conforme a sua vontade. Apenas suspiro baixinho ao sentir seu olhar de volta ao meu, nossos olhos ao se encontrar fazendo meu coração perder uma batida. – Ele gosta de trazer a cachorrinha dele pra passar.

— Você deve gostar desses momentos, sempre foi apaixonado por cães. – Não consigo evitar deixar certa surpresa transparecer em minha expressão ao ouvir tal frase, realmente surpreso por notar que ele ainda se lembra de tal detalhe. Isso parece o chatear de alguma forma, já que franze a sobrancelha em sinal de reprovação. – O que foi? Você achou que esqueci tudo sobre você, hyung?

Me permito ficar em silêncio após a pergunta, desviando meu olhar do seu. Vejo um banco a alguns metros de onde estamos, então continuo a andar de maneira tranquila até chegar próximo a ele. Me sento um pouco perdido em pensamentos, apoiando minhas mãos sobre a madeira em torno das minhas pernas, e fico a olhar para o chão por um momento.

— Não achei que você tivesse esquecido, só… não tivesse prestado atenção o suficiente na época. – Meu tom de voz é mais calmo do que esperava, minha sinceridade transparecendo nas palavras. O sinto se sentar ao meu lado, com alguns poucos centímetros de espaço entre nós, mas que surpreendentemente não faz com que eu me sinta ansioso. Apenas… reflexivo.

— Eu prestava atenção em você, Markie. – Sorrio de leve ao ouvir o apelido ao qual ele costumava usar para me chamar já nas últimas semanas em que convivemos, época em que estávamos mais próximos e íntimos. Mas isso também traz certa tristeza ao meu olhar, algo que parece ser notado. – Na época eu não consegui notar que seu cuidado era mais apaixonado do que amigável. Mas isso não significa que eu não prestasse atenção em você, afinal eu realmente te valorizava como um amigo precioso. Eu apenas...

Suspiro ao ver como as palavras parecem lhe escapar, não me sentindo mais tão mal ao ouvir sobre nossa amizade . Com uma resignação que não esperava encontrar volto a erguer meu olhar, me sentindo mais em paz agora que finalmente o escuto diretamente. Sem mais fugas, sem mais teorias, apenas uma conversa franca sobre nossos sentimentos e desencontros.

— Você apenas amava outra pessoa. Eu sei disso, Jinny. Eu sempre soube, por isso nunca quis dizer nada quanto ao que sentia. – Fico grato por sentir minha voz calma ao falar, notando que agora que estou de frente para o Park finalmente sinto uma barreira se desfazer em meu peito e me permitir ser sincero enfim. – Você estava em busca de um amigo, não um novo amor. Seu coração estava partido e eu não tinha direito algum de pedir nada a você. Por isso, não se sinta culpado com o que houve.

— Você diz isso, mas é óbvio que isso vem o magoando por todo esse tempo. – Sua expressão se torna dolorosa, algo que me espanta, enquanto sua voz parece mais culpada do que eu esperava. – Não vou negar que na época eu realmente amava outra pessoa. Eu já fui um jovem inexperiente, um garoto assustado depois de ter sido expulso de casa pelos pais quando descobriram que namorava o amigo chinês, que conheceu durante as férias de família que passamos em outro país, e ao qual mantive contato dizendo que queria aprender mais de outro idioma e cultura.

“Esse mesmo garoto assustado que fui mudou para os Estados Unidos com o namorado sem nem saber falar o idioma local, tão apaixonado e desamparado pela própria família que apenas se colocou na aventura mais incerta de sua vida. Eu vivi por anos em um relacionamento maravilhoso, mas que também me custou muito. Eu fui tolo, orgulhoso e achei que deveria viver muito mais, mesmo que amasse meu namorado de todo coração.

“Por isso eu fugi, deixei nosso relacionamento se deteriorar e me obstinei a viver outra vida, em outro lugar. Mas, quando eu te conheci, quando finalmente senti que estava vivendo uma vida de descobertas, isso me assustou, Markie. Eu fiquei apavorado com o quão bem eu comecei a me sentir com você, com como aos poucos você fez com que mais do que apenas as lembranças do passado e do que vivi com o Jackie ocupassem minha mente.

“E quando notei que você estava apaixonado por mim, aquilo me deixou ainda mais em pânico. Porque eu sabia que estava me apaixonando por você, mas isso não era justo. Não era justo pra você estar com alguém tão quebrado, não era justo com Jackie, a quem eu havia deixado para trás sem explicação, e não era justo comigo que estava tão perdido e incerto. Por isso eu fui embora.”

Meus olhos permaneceram fixos em seu rosto, em sua expressão dolorida, mesmo que seus lábios tenham parado de se mover. Minha mente não conseguia pensar em nada para dizer e acabei por notar que meu corpo exigia que eu voltasse a respirar novamente, algo que aparentemente havia deixado de fazer enquanto o ouvia falar.

— Por que você voltou então? – Levo longos segundos para questionar, surpreso comigo mesmo por minha voz não conter qualquer mágoa ou dor. Apenas aceitação e uma certa paz por entender um pouco mais sobre ele. Também curiosidade e uma necessidade por saber mais.

— Eu voltei pra Geórgia depois de deixar a Califórnia. Foi lá onde o conheci e também era lá onde eu morava com meu namorado, depois que saí de Seul. – Sua resposta leva algum tempo para ser dada depois da minha pergunta, mas não me surpreendo realmente com a informação que ele escolhe me dar assim que volta a falar. Mesmo que meu coração sinta uma pontada de dor ao ouvi-la.

“Eu devia isso a ele. Explicações e uma chance de ouvir o que ele ainda tinha a dizer. Ao contrário do que você pode ter pensado, nós não voltamos a nos relacionar romanticamente, mesmo que eu seja eternamente grato por ele ser compreensivo ao ponto de nunca ter me culpado por nada e até mesmo ter decidido me manter como seu amigo.

“Nós nos tornamos próximos, mesmo que seguindo vidas separadas. – Seu olhar, que antes estava perdido em suas mãos cruzadas sobre suas próprias pernas, de repente se ergue até meu rosto, dessa vez parecendo mais calmo quanto as suas palavras. – Foi ele quem disse que eu deveria te procurar.

“Depois que voltei pra casa tentei voltar a minha antiga vida, agora solteiro, mas com um ótimo amigo. Fiquei feliz em ver que o Jackie conseguiu seguir em frente, até mesmo se apaixonando novamente. Ele sempre foi uma pessoa incrível e merece toda a felicidade do mundo. Mas não sentia que conseguiria fazer o mesmo, então apenas me foquei em outras áreas da minha vida. Com o tempo nós acabamos conversando sobre o tempo em que desapareci, e bem… ele disse que sentia que o fato de eu não conseguir seguir em frente, romanticamente falando, não era por causa dele, mas sim por sua causa. Por causa dos meus sentimentos em relação a você .”

Sinto meu coração acelerar com cada frase sua, meu rosto voltando a um tom avermelhado sem que eu consiga fazer algo para impedir. Parte de mim me diz para não criar qualquer expectativa, mesmo que minha outra parte tenha conseguido notar diversas pistas e trechos em seu discurso, desde o início, que dão a entender certos sentimentos. Sentimentos que eu desejo ouvir, mas que ao mesmo tempo nego que possam existir para não deixar que meu coração quebre com falsas esperanças.

— Demorou um pouco para que eu conseguisse aceitar algumas coisas. E bem, a Geórgia já não era o meu lar. – Consigo notar claramente a forma como sua mão parece tremer quando é erguida, vindo em direção a minha que ainda estava apoiada sobre o banco. Não nego seu toque suave sobre as costas da minha mão, mesmo que também não me mova para o retribuir.

“Eu voltei pra Califórnia te procurando porque queria saber o que poderia acontecer. Se o que vivemos poderia nos trazer algo, ou se você já tinha me esquecido e seguido em frente. Sua irmã pareceu bem infeliz quando me viu, mas quando a ouvi dizer que você tinha voltado para a Coreia foi como um sinal pra mim. Já fazia um longo tempo que meu coração desejava voltar pra cá, e saber que você estava aqui… eu não sei, era como se as peças estivessem me dizendo que eu deveria voltar e te encontrar.”

Mordo meu lábio totalmente incerto sobre o que fazer ou dizer, notando pela primeira vez que havia o escutado durante todo o tempo, mas pouco falado. Seu olhar aos poucos se torna incerto, sua mão se afastando da minha como se estivesse entendendo meu silêncio como uma negação, ou até mesmo mágoa, algo que decididamente não está de acordo com o que sinto. Por isso, me apresso em segurar seus dedos, os entrelaçando aos meus e a colocando sobre o meu colo, enquanto respiro fundo.

— Eu me encantei pelo seu sorriso desde a primeira vez que te vi, Jinny. Ser seu amigo foi o bastante pra mim durante um tempo, porque eu realmente queria manter aquele sorriso que eu tanto adorava vivo, independente do que meu coração sentia. Mas, quanto mais eu te via perdido em lembranças do passado, mais eu queria que você olhasse pra mim e só pra mim. – Respiro fundo notando que estava falando mais rápido do que gostaria, ansioso demais para transmitir o que sinto.

“Quando você disse que estava indo embora eu não disse nada porque sabia que não tinha nenhum direito de te pedir pra ficar. De pedir para que me desse uma chance de te fazer me amar. Mas, mesmo mudando de país, de vida, tentando ao máximo deixar tudo pra trás, eu nunca consegui olhar pra outra pessoa novamente. Porque sempre que pensava em me apaixonar seu rosto me vinha a mente e eu desejava te ver.”

Percebo que estou um tanto sem ar ao terminar de falar, apertando seus dedos entre os meus com um pouco de força devido ao nervosismo. Ainda assim, me sinto aliviado ao ver o seu sorriso, notando que nossos rostos estão mais próximos depois que me inclinei em sua direção durante o meu discurso.

Sinto sua respiração bater levemente contra o meu rosto, me fazendo ficar envergonhado pela minha ação e então voltar a deixar minha postura ereta, me afastando. Isso faz com que me recrimine internamente logo em seguida, já que assim que me afasto dele fico receoso que dar a impressão errada ao fazer. Mas me sinto melhor ao voltar a ouvir sua risada suave, sua mão livre vindo ao encontro do meu rosto, me permitindo sentir seu polegar passar de forma suave em minha bochecha.

— Eu realmente gosto muito de você, Markie. E quero que você possa me conhecer completamente dessa vez, sem amarras no passado, sem sentimentos confusos e com um coração totalmente aberto para te receber. – Me torno mais envergonhado ao saber que provavelmente minhas mãos estão suando em nervosismo e animação pelas palavras que escuto, uma delas ainda segurando firmemente uma das suas. – O que acha de começarmos de novo? Dessa vez do jeito certo.

Mordo meu lábio tentando impedir um sorriso de vir à tona, sentindo meu coração bater tão forte dentro do meu corpo que tenho a mais absoluta certeza que todos naquele parque são capazes de escutar cada batida. Apesar do êxtase de felicidade que me toma ao escutar suas palavras, também sou inundado por uma série de outros sentimentos, minhas inseguranças e medos ainda lutando por espaço.

— Você… não vai embora dessa vez, certo? – Minha pergunta saí em um fio de voz, sem intenção de soar como uma acusação ou cobrança, apenas não sendo capaz de calar meu lado pessimista. Lado esse que acaba sendo sufocado pela beleza do sorriso que vejo surgir no seu rosto, me fazendo perder o ar novamente.

— Eu não vou a lugar nenhum, hyung.

 


 

Volto a respirar fundo pelo que deve ser a centésima vez em apenas uma hora, tentando ao máximo controlar meus impulsos de irritação para não ser grosseiro com alguém. Já faz cerca de cinco horas que estou ouvindo uma dezena de estudantes em torno de mim, todos discutindo e correndo de um lado para o outro para organizar os últimos detalhes da última apresentação feita pelos formandos da prestigiada universidade de Seul.

Essa é sempre uma apresentação esperada por todo o campus, já que nela todos os estudantes dos cursos de artes se dedicam em um grande evento final, que marca sua despedida da vida universitária. Esse, em especial, se tornou ainda mais relevante por ter a presença do ilustríssimo formando, e com seu segundo EP recém lançado como cantor solo, Choi Youngjae, meu melhor amigo que agora andava pelos corredores da universidade recendo tantos gritinhos de animação femininos que comecei a evitar o acompanhar para o refeitório do local.

Esse mesmo indivíduo é quem está causando os problemas para todos os responsáveis da organização do evento, sendo eu um deles, já que precisou mudar o horário de sua apresentação graças a um evento de última hora em sua agenda. Eu poderia apostar que ele havia discutido de forma quase irresponsável com o manager da sua empresa por isso, mas pelo visto de nada adiantou. Seu momento do dia precisou ser adiado em três horas, e junto a isso toda a programação do dia também precisou ser revista de última hora.

Apesar de todo o estresse decorrido disso não posso dizer que estou irritado com o mais novo, especialmente ao ver Jaebeom com uma expressão extremamente preocupada enquanto o Lim, como formando de anos anteriores do curso de música, está presente como voluntário para nos ajudar a reorganizar todo o cronograma. É clara a forma como o Lim, mais do que qualquer outro ali, está insatisfeito com a forma como a empresa parece sugar cada mínima fração de energia do Choi, e eu sei muito bem disso por ver de perto o quanto ele sente falta de passar mais tempo com o namorado.

Apesar disso, fico feliz em ver que mesmo com as novas dificuldades os dois nunca antes estiveram mais apaixonados e ligados um ao outro. Já faz cerca de um ano desde que decidiram morar juntos, decisão que me foi reportada apenas uma semana depois em que o mais novo já estava totalmente instalado na casa do mais velho. Admito que nem ao menos notei a diferença, já que fazia meses em que não o via no próprio apartamento.

Os ver apaixonados e a cada dia mais unidos me deixa feliz, assim como ver meus outros dois amigos mais jovens, Yugyeom e Bambam, também se aventurando em um relacionamento que me parece extremamente confuso, mas que parece funcionar bem para os dois. Nossas reuniões se tornaram mais caseiras do que nunca, já que agora éramos um grupo de amigos onde só existem casais.

Isso porque eu mesmo fui capaz de iniciar meu próprio relacionamento amoroso, apenas algumas semanas depois do fatídico encontro no parque. Jinyoung manteve sua promessa de permanecer por perto, tanto que já não consigo mais me lembrar de como é não o ter em minha vida. Ainda sorrio ao lembrar das expressões dos meus amigos ao finalmente conhecê-lo, Youngjae parecendo dividido entre tentar ser o melhor amigo turrão e aborrecido por conhecer quem partiu meu coração ou o curioso simpático que naturalmente é.

Ao final me senti aliviado por vê-los se darem tão bem. Jaebeom e Jinyoung em especial não levaram muito tempo para se tornaram grandes amigos, quase como se sempre tivessem sido próximos. Algo me diz que seus desinteresses nas longas horas de jogos que Youngjae e eu sempre nos envolvíamos sobre o chão da sala ou quarto do Lim os ajudou bastante a se aproximar.

Também já estava para fazer um ano desde que meu namorado havia me avisado, com uma expressão deverás preocupada, que seu ex namorado e atual melhor amigo estava interessado em se mudar para Seul, cidade a qual segundo o Park ele sempre teve interesse em viver. Admito que a notícia me soou extremamente mal e todos os meus pensamentos negativos e inseguranças transbordaram com toda a força.

Porém, não fui capaz de manter meus medos ao que finalmente conheci o chinês de sorriso fácil e personalidade brilhante. Tanto porque ele realmente parecia explodir de felicidade ao me conhecer, dizendo diversas vezes que estava feliz por saber que Jinyoung estava bem, amando e sendo bem cuidado por quem ama, quanto por ver logo atrás dele uma menininha linda de não mais do que dois anos, que soube em seguida ser sua filha.

Descobri com surpresa que não apenas o Wang era casado com uma coreana de sorriso tímido, que me cumprimentou educadamente em seguida, como também tinha uma filha adorável chamada Aimee. Ainda me lembro da forma como Jinyoung permaneceu a alguns passos de distância, claramente rindo da minha surpresa e me fazendo corar ao notar que fui tolo por ainda temer algo em relação aos seus sentimentos e os do chinês.

A convivência entre todos fluiu fácil depois disso, me fazendo aceitar que o homem de fato sempre seria alguém importante para o coreano, mas que eles já não possuíam sentimentos românticos um pelo outro. Os meses seguintes apenas ajudaram para que todos aqueles importantes na minha vida, e agora na de Jinyoung, pudessem se conhecer e se aproximar, algo que me deixou realmente feliz.

Felicidade que me voltou a mente ao que espio pelas cortinas que seriam abertas quando Youngjae finalmente subisse ao palco, podendo ver logo na primeira fileira Jackson e sua família, Yugyeom e Bambam parecendo ansiosos pelo show, mesmo já tendo visto o agora azulado Choi cantando diversas vezes. Meu momento de distração faz com que minha surpresa seja maior ao sentir dois braços contornarem minha cintura, um rosto apoiado em meu ombro em seguida. Apesar do susto, não demoro a reconhecer a presença, já que é a mesma que sinto todos os dias quando sinto o mesmo abraço enquanto estou cozinhando o jantar em nosso pequeno apartamento, e sou surpreendido com um beijo em minha nuca.

— Momo me pediu para te avisar que Youngjae já chegou e está no camarim improvisado se arrumando. Mas também me sinto na obrigação de avisar que vi o Jaebeom hyung entrar na sala logo depois, então acho que essa “arrumação” vai levar alguns minutos a mais. – Rio de leve ao ouvir seu aviso, sabendo que ele tem razão quanto a suas suspeitas. Choi e Lim sozinhos em um mesmo ambiente sempre acaba em atrasos.

— Ele conseguiu chegar antes do horário prometido, então acho que posso permitir esse pequeno favor aos dois. – Me viro dentro dos braços do Park passando os meus próprios em torno dos seus ombros, sorrindo mais largo ao encontrar sua expressão relaxada e seu sorriso singelo. – Beom me disse que já faz uns dias que eles não se veem direito por causa do comeback. Uns minutinhos não vão fazer mal.

— Você é um diretor bonzinho demais, hyung. Não é à toa que seus amigos sempre conseguem favores fáceis de você. – Ignoro sua falsa expressão de repreensão, sabendo que ele estava apenas sendo implicante. Por isso, apenas me inclino em direção ao seu rosto, lhe roubando um selinho suave que o faz piscar surpreso e rir em seguida. – Ora, eu achei que você fosse o tímido que não gosta de demonstrações de carinho em público.

— Eu não estou vendo ninguém aqui. – Assim que lhe dou minha resposta implicante sou traído pelas minhas próprias palavras, já que escuto um pequeno grupo de pessoas vir em nossa direção, me fazendo dar um passo para trás sentindo minhas bochechas esquentarem.

Ignoro a risada do Park, me focando na visão de um Choi já aparatado com seu microfone e parecendo completamente pronto para cantar, sendo seguido por seu pseudo companheiro de quarto, que todos sabiam ser seu namorado de longa data, Momo e mais alguns dos formandos que estavam ajudando no evento.

— Desculpa o atraso, hyung! Juro que tentei escapar, mas eles são uns cães farejadores! – Apenas ando em direção ao mais novo, negando com a cabeça para sinalizar que não estou bravo, segurando seu rosto assim que estou próximo o bastante e então sorrindo.

— Boa sorte, Jae. Apenas entre lá e encante a todos, como sempre faz. – Rio de leve ao ver como o mais novo parece ficar surpreso com minha ação, mas logo se recuperando e dando um largo sorriso em minha direção.

— Pode deixar! – O solto assim que escuto sua resposta, me afastando junto a Jaebeom, que deixou um beijo na bochecha do mais novo antes de ele se afastar, e de Jinyoung, nos posicionando fora do campo de visão da plateia para quando as cortinas abrirem. Apenas assistimos enquanto Momo parece checar novamente os últimos detalhes, antes de por fim também deixar o palco.

As cortinas se abrem assim que os primeiros acordes da música começam, enquanto escutamos os gritos empolgados das centenas de alunos, familiares e estranhos que estavam ansiosos para ver o cantor. Youngjae logo entra em seu modo artista, cantando com todo coração e encantando a plateia como só ele é capaz de fazer, me fazendo espiar a expressão de Jaebeom e sorrir ao ver o quão bobo e orgulhoso ele parece em assistir o mais novo.

— Você está feliz? – Levo um tempo para notar que a pergunta havia sido dirigida a mim, me virando para o homem que está segurando minha mão e me olhando em expectativa para minha resposta. Apenas sorrio mais largo para o Park antes de apertar um pouco mais sua mão na minha, me inclinando novamente para lhe roubar um beijo, sorrindo ainda mais brilhante quando me afasto e finalmente o respondo.

— Sou uma supernova de felicidade, amor.

Notes:

A quem leu até aqui meu mais sincero obrigada. Se quiser, e sentir que deve, pode deixar suas impressões, críticas e comentários aleatórios. Isso me fará feliz ❤

Se tiverem interesse estou sempre surtando e acabando por comentar sobre Got7 no twitter também, se quiserem me seguir é @Elorichan

No mais: espero que tenham gostado e até breve~