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Velhos e enrugados

Summary:

Passado um ano, Taejoon busca por Youngwoo e eles se encontram em Malibu. Youngwoo está com Joseph, mas Taejoon lhe faz uma proposta que não pode recusar.

Notes:

Work Text:

A ficha ainda não tinha caído para Youngwoo de que Taejoon tinha ligado pessoalmente para seu telefone, em um dia útil qualquer, e pedido para que fosse até a Califórnia, já naquele fim de semana, com passagem comprada e tudo.

Havia se passado um ano.

Um ano de angústia, sem notícias. Um ano de altos e baixos, no qual os altos só eram marcados por momentos em que Joseph entrava com sua pena e amor ludibriado para tentar resgatá-lo do fundo do poço em que tinha se afogado desde que perdeu Taejoon.

A rotina estava em dia, o trabalho, as contas... Tinha um romance declarado, cotidiano e brando. Tudo que pensara um dia poder fazê-lo feliz.

Mas foi com aquele telefonema, depois de um ano e incontáveis noites mal dormidas, que uma chave virou.

Não pensou duas vezes antes de amontoar umas mudas de roupa em uma mochila, mandar uma mensagem rápida para Joseph ao fim de seu expediente e, de lá, partir para a rodoviária.

Faltavam só três dias para a viagem de avião, mas já tinha o endereço do destino em um condomínio de casas, localizado em uma área nobre de Malibu, então não quis esperar.

Às cinco horas da manhã tocara a campainha de uma moderna mansão, às cinco e quatro queimara a ponta dos dedos na bituca de seu cigarro, às cinco e quinze fora recebido por uma profissional à porta e, agora, às cinco e vinte oito, tomava um café sem açúcar à ampla sala de estar no intuito de amargar a agitação que o invadira por dentro.

Era concreto. Sabia pelos pés que batiam, pelo peito que sambava, pela barriga que resmungava em antecipação e saudade.

Taejoon estava a metros de distância.

Então, em um piscar de olhos, ele estava ao pé da escada, de roupão mal arrumado, cabelos para o alto e olhos de sono, arregalados e... vivos.

Assim, colocou-se de pé também, em prontidão e anseio.

— Youngwoo-ya…

A carcaça e a feição de Taejoon relaxaram. Estava lindo como sempre, os detalhes da maturidade a mais o envelhecendo como vinho. O coração de Youngwoo deu largada, disparou, e precisou secar as mãos nas calças jeans.

Ele se aproximou. O cheiro bom que bem conhecia invadiu suas narinas, amolecendo-o com aquele odor de homem e lar.

— Você está bem? Seu voo era sexta.

Parou à frente de Youngwoo, o corpo ainda mais imponente como não sabia dizer o porquê, já que não o via ou tinha notícias há um ano. 

— Mereço um abraço? — A voz dele desceu uns tons, até agora rouca do sono.

Youngwoo sentiu-o o hálito fresco resvalá-lo a pele, uma distante lembrança de bons tempos retornando-lhe à consciência como uma maldição… Nessa hora esquentou, ebuliu e, no instante seguinte, sua mão estalou no rosto de Taejoon.

— Por quê?! Por que lidar com tudo sozinho?! Pensei que estivesse morto! — Enxergava em vermelho, o sangue correndo ardente em suas veias após o ápice da explosão. Sentiu tanto medo, tanto luto… Tantas vezes quis encontrar Taejoon somente para despejar sobre ele todo o veneno que vinha lhe intoxicando por ter sido deixado para trás.

Ele não pareceu surpreso, testando a mandíbula com a mão enquanto seus dedos adornavam subliminarmente a bochecha dele.

— Estávamos em perigo… — Taejoon olhou de baixo para Youngwoo.

— Sim, estávamos. No plural. Por que sozinho?

— Está tudo bem.

— Está? Para quem, Taejoon?

— Estive organizando tudo para que... — Uma incerteza cruzou seus traços mais cansados do que os de um ano atrás, mas, mesmo assim, ele indicou a casa. Seus olhos caíram para o chão, a voz tão caída quanto. — Para que vivesse aqui comigo.

Youngwoo engasgou no próprio coração, seus sentimentos dando uma pirueta e digladiando-se ainda mais. Tossiu algumas vezes, ainda entalado em suas emoções, e inclinou-se para pegar na mesa de centro o resto de café. Virou o líquido.

Precisava mesmo era de um cigarro.

— Se… Se passou um ano…

— Eu sei! Eu sei… — Taejoon avançou em Youngwoo, agarrando-lhe os bíceps com as mãos frias. A aflição cruzou-o os olhos. — Só... — Ele se deteve. Repensou… E as mãos escorregaram de seus braços, sua feição tornando-se sóbria em uma fração de segundo. A máscara que tanto detestava havia sido vestida. — Aqui é grande. Tem um bar no segundo andar, piscina... Tem até uma garagem com uma área de mecânica e motocicletas. Tem um milhão de quartos que pode escolher.

Mais um soco atingiu Youngwoo na boca do estômago. Poderia vomitar a qualquer momento.

Taejoon tinha nas mãos e oferecia para si a vida que os dois sempre sonharam.

Vida de rico. Vida boa.

Uma vida que até daria para obscurecer as memórias do tempo em que eram a escória da sociedade, errados e penantes.

A casa era linda, uma verdadeira mansão. Mas tinha alguma coisa… Tinha alguma coisa que fazia tudo aquilo parecer vazio demais quando se deparava com a interrogação do que ele e Taejoon se tornaram.

Hoje tinha o medo, a mágoa, os efeitos da distância… Joseph.

Depois de um tempo dentro desse um ano, seja lá o que Taejoon tivesse feito, percebeu que deixou de correr perigo e, assim, permitiu-se viver, da maneira que pôde, sem receios. Com Joseph, experienciou um período pacato, ordinário. Aprendeu coisas básicas como a necessidade de expressar seus sentimentos, revelando-os para o outro, já que ninguém poderia lê-lo por dentro, principalmente se sua boca dizia o contrário.

Tem um milhão de quartos que pode escolher.

A mente de Youngwoo estava tão confusa… Estava sentido com Taejoon, de fato. Ele havia se colocado em risco, não havia lhe dado opção de ajudar, além de ter-lhe feito fantasiar com tantas besteiras… Tantas besteiras que temeu todo tipo de desfecho para ele. A sua morte, o seu envolvimento em um relacionamento com amor, ter, enfim, cansado de toda complexidade que eram.

Sofreu. Sofreu e afundou tão verdadeiramente que poderia nunca mais perdoá-lo.

Entretanto, doía em suas entranhas ignorar o pulo que seu coração deu quando o viu descer as escadas às pressas, com os cabelos em pé e cara de sono; o cheiro familiar, que lhe era excitante e tão igualmente como casa, fazendo-lhe provar na ponta da língua o gosto de segurança e aconchego; e a vontade de tocá-lo que lhe pinicava os membros, tão forte e alucinada que poderia transportá-los de volta ao abraço do último reencontro deles, no hospital.

Até aqui, fingiu estar no controle, como se Taejoon não tivesse opção dentro do tufão que fora a história dos dois, uma vez que temia com o pouco que lhe restava de vontade de viver que ele partisse como partiu. Era ele quem o puxava de volta, quem o segurava perto, quem lhe conheceu no escuro e lhe levantou mesmo assim, com discursos de que necessitava de si, dando-lhe sentido à vida.

No fundo, no fundo, tinha consciência de que era o dependente naquela relação.

Não mostrava. Sempre fez de tudo para não mostrar. Mas, na realidade, projetava que estaria junto de Taejoon até que fossem velhos e enrugados. 

Por isso, após tamanha proposta, ponderava sobre como seria dividir um teto com ele, poder vê-lo em dias corriqueiros e quem sabe, nessa convivência, começarem a aceitar que, mais do que família ou amigos, eram amantes. Dividiriam o mesmo quarto e a mesma cama como um verdadeiro casal.

Sentia tanta falta de…

— Não vai me responder? — Taejoon buscou-lhe os olhos, apoiando-se em seu ombro para despertá-lo.

Youngwoo ofegou pesado, puxado para o real. Um frio subiu pela sua barriga e enrubesceu ainda mais seu rosto.

— Desculpa, é… Eu… Quer que eu… — Pigarreou. — Quer que eu more com você e… — Era só fazer como Joseph lhe ensinou. — Escolha outro quarto?

Não podia mais vê-lo. O chão, a xícara de café em cima da mesa de centro, o teto, pareciam mais pertinentes enquanto borbulhava por dentro como um adolescente.

— Quer dividir o quarto comigo?!

A surpresa transparente rodopiou ao ouvido de Youngwoo, o timbre quase um sussurro, então a presença de Taejoon sobrepujou-o pela proximidade quebrada.

Passou a senti-lo o calor do corpo.

O embrulho no estômago intensificou, suas orelhas já pelando como ferro ao fogo.

Tomou coragem para olhá-lo nos olhos e encontrou-os lânguidos, repletos de expectativa e excitação.

— Se me convida para morar contigo, seria outra a sua pretensão?

— Quero que fique à vontade… — A mão de Taejoon subiu arrastada pelo seu braço, o toque firme fazendo os pelos de Youngwoo se eriçarem.

Ele lhe fazia sentir dessa forma de algum jeito. O quanto sentia saudade daquele homem?

— Não tem ninguém? — perguntou, direto, ludibriado pelo carinho experiente. Seu tom acompanhou o dele, o corpo amolecendo conforme os dedos longos alcançaram sua nuca, embrenhando-se nos fios de seus cabelos.

— É claro que não… — O hálito dele tocou seus lábios como um beijo, a testa ancorando-se à sua. — Isso aqui é para você… — Uma fresta de seus olhos se abriu, mirando a sua. — Isso aqui é para… nós.

— Taejoon-ah… — Quis recuar, mas foi impedido pelas duas mãos grandes envoltas em suas orelhas. — O que mudou agora?

— Está resolvido.

— Como?

— Não importa. Estou pronto para… te fazer meu, caso queira. Apenas…

Calou Taejoon com um beijo. Contra o que estava querendo lutar? Tê-lo era o que queria, o que sempre quis. Hoje, depois de tantos anos de busca, sabia que era o que faltava.

Confirmou pelo peito que se preencheu de satisfação e pelo ventre que serpenteou assim que sua língua abriu passagem pelos lábios boquiabertos dele e foi recebido de bom grado, com a mesma fome de 20 anos atrás.

Ele apertou em punho seus cabelos, afogando-se em sua boca, e, tirando-o o ar, Youngwoo o envolveu o tronco e as costas como árvore, prendendo-o ali, junto a ele, profundo e seguro como raiz.

Taejoon buscou por oxigênio, a feição extasiada, inflamada de paixão, a centímetros de seu rosto aquecido.

— Isso é um sim? — murmurou ele, perdido entre seus olhos e sua boca, transpirando pelos poros um anseio palpável.

Involuntariamente, os lábios de Youngwoo se espalharam de ponta a ponta em um sorriso puro como o de uma criança, a covinha, graciosa, mostrando-se funda em uma de suas bochechas.

Como Joseph o havia ensinado: merecia ser feliz.

— Sim.

Seu coração abarrotou-se de uma alegria há muito tempo não vivida.