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A neve cobria cada cantinho do Vale do Orvalho, escondendo o belo verde da grama e preenchendo o vazio que as folhas caídas das árvores deixaram. O natal, ou melhor, o Festival da Estrela Invernal, estava cada vez mais próximo! Todos estavam animados, preparando, confeccionando ou comprando presentes para o tão esperado amigo secreto da cidade.
Todos, exceto Sebastian. Ah, não havia espaço no coração do moreno para animação naquele momento. Tudo que Sebastian sentia era um absoluto ódio pelo prefeito da Vila Pelicanos.
Quem diabos entrega os nomes do amigo secreto faltando uma maldita semana para a troca de presentes?
Era assim desde sempre. E Sebastian sempre odiou. O prefeito Lewis dava a desculpa que assim não havia como eles (Haley) simplesmente encomendarem alguma coisa cara da cidade e entregar sem mais nem menos. De acordo com o velhote, assim todos teriam que trabalhar com o que tinham e se esforçar para presentear seu amigo secreto. Besteira, na opinião do moreno. Ele sempre dava algo genérico independente de quem tirasse, era tão simples burlar aquilo, só dar algo que todos gostam.
Isso foi aplicável por todos seus anos na Vila Pelicanos. Até agora.
Sebastian encarava o nome na carta com a mão no rosto, já começando a ter mil e um pensamentos.
“Emma”
Era claro que ele quem havia tirado a loira. Óbvio. O destino — ou talvez simplesmente o prefeito — gostava de brincar com sua cara. Sebastian tirou a única pessoa a qual não conseguiria dar uma baboseira qualquer (além de sua mãe, mas mães são mães, não conta).
No início do ano, Emma mudou-se para o Vale do Orvalho, assumindo a velha e abandonada Fazenda Canyon Moon. A cidade era pequena, literalmente todos se conheciam e a chegada de alguém novo era quase um evento, uma notícia. No início, Sebastian não se importou muito com isso. Era apenas uma pessoa a mais para ele evitar na cidade ou para acha-lo esquisito (Alex não sabia ser discreto).
Até que ele a conheceu. Cachos dourados caíam pouco abaixo de seus ombros, um sorriso gentil estampava seu rosto levemente sardento, grandes olhos verdes como esmeraldas o olhavam com curiosidade.
Certo. Ela era bonita, mas isso não queria dizer muita coisa. Haley também era e o tratava como um contagioso.
Sebastian desviou o olhar, voltando a encarar o lago das montanhas e focando sua atenção no cigarro entre seus dedos. O sol estava começando a se pôr, deixando um rastro alaranjado com toques de rosa no céu azul. Alguns minutos depois, ele ouviu um pigarro atrás de si.
— Boa tarde Sebastian! Como está, meu rapaz? — Era Linus, um senhor que morava numa barraca nas redondezas de sua casa. Sebastian gostava dele, muitos julgavam Linus e o chamavam de selvagem, mendigo e coisas piores. Para o moreno, o homem não era nada mais que alguém muito corajoso de viver da maneira que bem queria sem se importar com a opinião alheia. — Já conheceu a nova fazendeira da cidade? Venha, querida, venha!
Alguns metros atrás dele, a garota negava baixinho e protestava, mas Linus a empurrou delicadamente e agora ela estava em frente a Sebastian.
— Essa é Emma! E Emma, este é Sebastian, filho de Robin! — O homem os apresentou com um sorriso. Sebastian não sabia dizer o porquê Emma parecia tão acanhada quando minutos atrás estava sorrindo tão graciosamente. — Você sabia que ela está aqui há cerca de duas semanas e a velha fazenda já está com outra cara? Parece até mágica!
— Não precisa exagerar, Linus… — Sua voz era suave, doce, até. Combinava com sua aparência. Céus, o que Sebastian estava pensando?!
— Não seja modesta, minha jovem! Se continuar indo pelo caminho atual, não vejo nada além de prosperidade para a velha Canyon Moon. Vou deixar vocês se apresentarem corretamente! Creio que se darão muito bem.
O senhor se afastou, simples assim, deixando os dois num silêncio beirando ao constrangedor. Sebastian bufou e jogou o resto do cigarro no chão, apagando-o com a sola do sapato. Ele detestava normas sociais, não falar com a garota agora seria considerado uma falta de educação e blá blá blá.
— De todos os lugares nos quais poderia morar, por que escolheu a Vila Pelicanos? — A indagação soou um pouco indelicada, Sebastian se praguejou por isso.
— Bom, é o único lugar em que ganhei uma fazenda de herança e tal… — Retrucou com um sorrisinho atrevido. O moreno teve que pressionar os lábios para não dar uma risada. Ok, justo, ela havia ganhado aquela.
Não foi preciso muito para Sebastian se apaixonar por Emma. Gostar dela era simplesmente natural. A fazendeira é, literalmente, o tipo de pessoa que todo mundo gosta, admira e quer por perto. Ela é gentil e prestativa, mas não ao ponto de ser inconveniente ou intrometida. É doce e tímida, mas sem ser grudenta ou introvertida; na realidade, após alguns minutos de conversa ela se apresenta como uma pessoa engraçada e agitada. Ela tem uma determinação invejável, mesmo assustada sempre segue em frente não importa o obstáculo, ela consegue tudo e…
Oh, Sebastian está fazendo de novo. Não há nem como negar. Ele checa ao redor para ver se alguém notou como estava encarando a loira com uma cara de bobo apaixonado, felizmente todos estavam focados nas conversas e atividades do Festival da Estrela Invernal. Ele engole em seco e arruma seu cachecol no lugar, mal se levantou e seu coração parecia que ia sair do peito e correr pela neve. Estava na hora. Tecnicamente, já passou da hora. A maioria das pessoas já havia feito a troca de presentes.
Aproximou-se com cautela, Emma conversava tranquilamente com as crianças. Ele pigarrou para chamar a atenção, obtendo sucesso imediato, a garota finalizou a conversa e os pirralhos foram correr por aí.
— Sebby! Feliz natal e dia da estrela invernal! — Disse ela com um dos sorrisos mais bonitos do mundo no rosto.
— Para você também, Em! — Ele colocou as mãos dentro do bolso do moletom para disfarçar o nervosismo. Qualquer coisa diria que estava tremendo de frio. — Hum… podemos, você sabe… — Com um aceno de cabeça ele indicou o caminho para o centro comunitário. A garota entendeu o recado e eles começaram a se afastar da área mais movimentada, subindo os curtos degraus que levavam até a área da fonte em frente a grande estrutura.
Não era um caminho longo, mas era o suficiente para Emma começar a tagarelar sobre a ceia e o festival. Sebastian adorava ouvi-la falar por horas a fio, infelizmente hoje ele quem teria que falar.
— Emma — interrompeu-a com educação, ela o olhou curiosa. Sebastian decidiu ir direto ao ponto. — Tirei você no amigo secreto…
— Oh! — Ela pareceu animada. — Ouvi dizer que você é bom com presentes.
— Pff, eu sempre dou algo que todo mundo gosta. Pra não passar vergonha. Bom, eu te trouxe duas coisas. — Ele retirou uma caixa pequena e retangular do bolso do moletom, com um lacinho fofo e desajeitado. — N-na verdade isso é só uma desculpa caso você rejeite a outra coisa, pra não ficar sem presente…
Sebastian engoliu em seco, talvez ele estivesse à beira de um ataque cardíaco. O olhar curioso da fazendeira era fofo, mas desconcertante.
Não que ele fosse fazer aquilo às cegas, nem morto. Ele teve uma semana inteira de conversas com Sam, seu melhor amigo, reafirmando que existia a possibilidade de seus sentimentos serem recíprocos. Era difícil de acreditar, porém no final ele não teria como saber sem se arriscar.
— Não é bem um preseeente, é mais uma ideia. Você pode recusar, é claro! Mas eu pensei que seria legal se- tipo, hmm, você e eu… — Ele bufou, soprando a franja da frente dos olhos. — Sairmos. Num…
— Encontro?
— É. Algo assim. Sei lá. Você não precisa aceitar! Sei que você é legal demais até para rejeitar, mas tá tudo bem, não é nada demais! Tecnicamente nem um presente isso é; ainda. É que você é tão… E-eu só pensei que seria uma boa ideia, mas de boa se você não quer-
Emma riu. Sebastian encontrava-se como as roupas do Papai Noel: completamente rubras. Ela riu. Aquilo foi uma péssima ideia, ele queria se jogar no rio mais próximo.
— Seb — foi interrompido pela voz calma chamando-o. Emma segurou sua mão carinhosamente e deu mais um de seus sorrisos perfeitos. — É uma ótima ideia. Eu adoraria sair com você.
