Chapter Text
Haviam poucas coisas que conseguiam tirar a cabeça de Donghyuck do lugar.
Ele era um prodígio, de fato. Ex-capitão do time de quadribol da Sonserina, basicamente uma estrela no Clube de Duelos, sempre com tempo para ajudar os alunos mais novos da Sonserina em Poções, lider o grupo de estudos para História da Magia e professor particular de seus amigos em Transfiguração. Ele era um bom aluno nas outras matérias, nem sempre o melhor, mas estava certo de que conseguiria se sair bem nos N.I.E.M.s. em todas elas.
Ele era bom em tudo, e quando não era naturalmente bom, ele estudava para ser. As aulas de Defesa nunca foram um problema, ele tinha facilidade em Feitiços e era rápido por conta do quadribol, ou seja, ele conseguia se virar muito bem nas aulas do professor Potter. Porém, havia um único feitiço que ele não conseguia lançar com precisão.
O fato de estar quase na metade do sétimo ano e não conseguir conjurar um mísero patrono corpóreo era motivo o suficiente para Donghyuck sentir que estava falhando na escola.
E não foi por falta de tentativa. Donghyuck era dedicado, teimoso, obcecado por suas notas, e havia revirado a biblioteca atrás de instruções mais detalhadas sobre como conjurar um patrono. Mas nenhum livro conseguiu lhe fazer passar do escudo de fumaça prateada.
Era frustrante, de fato. Ele conseguia se sair bem em todas as outras matérias, mas não conseguia conjurar uma mísera sombra de seu patrono.
Ele havia pedido ajuda ao professor Potter após uma das aulas de DCAT, mas o homem apenas sorriu e lhe disse para ter paciência.
— O feitiço do patrono pode ser difícil até mesmo para o mais talentoso dos bruxos. Não seja duro consigo mesmo, senhor Lee.
Palavras doces, mas nada úteis.
Ele até mesmo ousou pedir ajuda ao professor Malfoy, que sorriu para si e perguntou sobre a redação de meio metro que ele havia pedido para a próxima semana. Uma vez sem resposta, o professor de Poções mandou-o se dedicar ao que realmente importava.
Outro conselho inútil.
Sem mais alternativas, Donghyuck cedeu aos conselhos de seus amigos.
E às quatro da tarde de uma terça-feira, ele parou de frente para a sala de monitoria de DCAT.
A pergunta que não queria calar era, se ele estava com tanta dificuldade, por que não foi direto para o reforço?
E, parado no meio de uma multidão com gravatas das quatro casas, estava sua resposta; o aluno responsável pela monitoria. Seu cabelo escuro estava repartido de lado, arrancando suspiros dos alunos mais novos quando ele, periodicamente, passava a mão por ele, jogando-o para trás e sorrindo charmosamente, mesmo que nem percebesse, para quem lhe chamava. Os olhos pretos eram grandes e brilhavam por trás de uma armação tosca, igual ao que o professor Potter usava, quando alguém finalmente conseguiu fazer o que tanto tinha dificuldade. Naquele momento, ele sorria para uma garotinha que havia acabado de desarmar um colega mais velho, dando-lhe os parabéns.
Mark Lee era outro prodígio e o maior protegido do professor Potter. Um bastardo grifinório bonito demais para seu próprio bem, capitão do time de quadribol da Grifinória, monitor-chefe e ex-namorado de Lee Donghyuck.
A humilhação de pisar naquela sala, sabendo que estaria dependendo de Mark para algo que estava desesperado para conseguir fazer, era algo que Donghyuck não desejava nem mesmo para seu pior inimigo. Os olhares de amigos e conhecidos diziam muito, e quase fez o sonserino deixar de lado sua determinação e esquecer a obsessão por seu patrono.
Mas ao pensar no sorriso presunçoso que receberia de Jaemin quando chegasse de mãos vazias no dormitório, como se soubesse que o senso de autopreservação, ou covardia, de Donghyuck fosse gritar mais alto do que sua competitividade acadêmica, o Lee de gravata verde caminhou confiantemente até o pequeno grupo, aguardando que Mark percebesse sua presença ali sem precisar se humilhar ainda mais.
— Certo, você foi muito bem, Vrammout, só precisa ter mais confiança na hora de lançar. Spencer, você precisa trabalhar seu escudo, se quiser um direcionamento, pode falar com o Jeno, ele está para aquele lado, ajudando sua turma com os prováveis feitiços que o professor Potter vai pedir no exame do seu ano. — dando ordens e conselhos amigáveis, ele se virou para seguir para o outro lado da sala, congelando no lugar quando viu um certo sonserino atrás de si, as mãos paradas ao lado do corpo, sem varinha a vista e uma expressão adoravelmente constrangida no rosto.
Olhando para o outro lado da sala, Mark encontrou o olhar divertido de Renjun em sua direção, assim como os gestos obscenos que Jisung e Chenle faziam um para o outro, como se fosse um casal bastante meloso, rindo de sua própria encenação patética.
— Posso ajudar?
Donghyuck mordeu o lábio inferior, as bochechas corando e seus olhos fugindo para o chão de pedra da sala. Mark sentiu uma pontada no peito ao vê-lo tão genuinamente adorável, engolindo quaisquer comentários que fosse fazer o outro Lee sair correndo dali.
Limpando a garganta, Donghyuck sorriu sem graça.
— Eu queria ajuda com um feitiço… — se Mark não conhecesse o ex-namorado como conhecia, ele acharia ser uma desculpa esfarrapada para que eles conversassem ou algo assim, mas Donghyuck era orgulhoso demais para isso. Orgulhoso até mesmo para pedir ajuda em algo que Mark sabia não ser um obstáculo para ele, o sonserino era inteligente e muito bom em Feitiços e DCAT, não fazia sentido que ele precisasse pedir ajudar. — Só me direciona para quem preciso ir, ok? Isso já é muito frustrante.
Mark sorriu, cruzando os braços e inclinando a cabeça para o lado, fitando Donghyuck por um tempinho antes de rir pelo nariz. As orelhas do sonserino estavam tão vermelhas quanto as gravatas da grifinória.
— No que você precisa de ajuda?
— Patrono.
Oh.
Isso seria interessante.
— Não me olhe assim, eu sei que você tem uma legião de professores amadores, é só me mandar pra um deles, ok? Então, qual deles? Renjun? Jeno? Ou você deu essa para o Lele? Sei que ele é especialmente bom em DCAT, quase tanto quanto você, mas não sei se ele é tão experiente para ensinar um patrono e…
— Normalmente, sou eu quem ensina sobre os patronos. — interrompendo a tagarelice de Hyuck, Mark soltou suavemente, erguendo as sobrancelhas como se sentisse muito por aquilo e esperando a reação do outro.
Parando de falar, Donghyuck encarou o grifinório com o olhar arregalado, seu pomo de adão descendo e sumindo ao que ele claramente repensava todas as escolhas de sua vida que o levou até aquele momento. Encarando o ex-namorado ao que pedia, indireto e diretamente, para lhe ensinar um dos feitiços mais lindos já conhecidos.
Donghyuck se xingou mentalmente pela súbita curiosidade sobre qual poderia ser a forma do patrono de Mark, e pela esperança masoquista de poder ver o seu ao lado do dele.
Céus, era um desejo tão infantil.
— Ah…
— Se você tiver algum problema com isso, posso te indicar para o Jeno, se preferir. Ele é mais voltado para duelos, mas consegue conjurar um patrono e, bem, ele sabe ensinar. Pode te ajudar se quiser.
Olhando para o outro lado da sala, em que Jeno ajudava um garoto do sexto ano com os feitiços não verbais, Donghyuck balançou a cabeça negativamente. Jeno era realmente bom em duelos, e Hyuck sabia muito bem disso, eles se enfrentavam quase em todos os encontros do Clube, mas naquele momento, ele precisava do melhor, alguém que conseguisse produzir um patrono e fosse reconhecido por isso. E mesmo que queimasse suas entranhas precisar de ajuda de Mark, ele estava disposto a engolir o orgulho por isso.
— Tudo bem, se você é o melhor… quando podemos começar? — sua voz saiu firme e isso não pareceu surpreender o grifinório. Mark olhou ao redor, franzindo a testa para a sala cheia e realizando um tempus não-verbal.
— Você sabe me dizer o problema? — ele já tinha uma suspeita, mas perguntou apenas para confirmar.
— É a execução. Não consigo passar de uma fumaça que definitivamente não me ajudaria em nada contra um dementador ou sequer me seria útil para mandar recados. — confessou baixo, sentindo-se muito pequeno diante do suspiro do outro, como se estivesse considerando-o um idiota por não conseguir evocar uma simples memória feliz.
Após alguns segundos em silêncio, Mark tocou seu cotovelo, os olhos suaves e a boca vermelha, como se estivesse sendo mordida há poucos segundos.
— Você está livre depois do jantar?
— Uh?
— Eu vou te ajudar, mas não sei como uma sala cheia e barulhenta como essa pode te ajudar agora. — com um movimento rápido, sem palavras , Mark fez aparecer um pedaço de pergaminho entre eles, sussurrando algo que fora imediatamente transferido para o papel. Ele o pegou, puxando a mão de Donghyuck e fechando os dedos do sonserino sobre o bilhete. — Vou estar esperando, tudo bem? Por favor, coma bem e não me deixe esperando. Você sabe que eu não tolero mais do que dez minutos.
Ainda um pouco inebriado pelo calor das mãos de Mark ao redor de seu pulso e acima de sua mão, Donghyuck apenas assentiu, sentindo a pressão dos dedos do mais velho aumentarem sobre onde estavam antes dele se afastar. O frio que nem mesmo existia antes voltara a assolar as pontas dos dedos de Hyuck.
Qual o propósito de ter o corpo tão quente?
Deixando a sala de reforço, Donghyuck se apoiou em uma coluna, quase tropeçando. Estava no quinto andar do castelo, poucas pessoas passavam pelo lado que o sonserino havia pegado, portanto, ele não se conteve, soltando o botão perto do pescoço que prendia a capa no lugar e escorregando pro chão de pedra.
Ele se arrependia tanto de ter terminado.
(...)
O término com Mark havia sido difícil para ambos os lados. Veja bem, eles se conheciam desde os quatro anos de idade e estavam juntos desde o terceiro ano em Hogwarts. Tinham encontros na casa de chá de Madame Puddifoot, eram constantemente provocados por seus grupos de amigos sobre o quão clichê era um sonserino e um grifinório namorarem, e é claro, flertavam abertamente quando se enfrentavam no quadribol. Era um namoro que todos sabiam que acontecia e todos sabiam da intensidade.
Mark havia ousado se sentar com as cobras em alguns almoços, assim como Hyuck se permitia almoçar ao lado dos leões. Novamente, um namoro público demais. Mas eles não se importam, suas famílias também não, pelo contrário. A coruja de ambas as famílias quase sempre faziam duas paradas quando entregavam as cartas, uma parada em cada mesa das extremidades do Grande Salão, mesmo após o término.
Os pais de Donghyuck tentavam não insistir em saber o motivo, mas metade da escola ainda sussurrava teorias pelos corredores.
Algumas envolviam traição, ou que a rivalidade entre as casas havia gritado mais alto pela primeira vez, ou que o amor simplesmente havia se esvaído. Nenhuma delas estava certa, mas Donghyuck nunca confessaria em voz alta que havia terminado um namoro de anos por estar estressado demais para lidar com outra pessoa, mesmo que fosse Mark. O tão compreensivo e amoroso, Mark Lee.
Houve um desgaste no quinto ano, em que o sonserino estava empenhado em conseguir mais N.O.M.s. do que sua cabeça suportava. Mark tentava ajudá-lo a não surtar e eles acabavam passando por altos e baixos lado a lado, o que era muito bom, mas muito exaustivo. Hyuck estava sensível, surtava com uma nota abaixo de E e quase chorava quando não recebia um O nos trabalhos, com um medo irracional de receber um T nos tão temidos N.O.M.s.
Ele não tinha tempo para encontros, e Mark entendia isso, acompanhando-o para a biblioteca quase todas as noites, até mesmo nos dias de Hogsmeade, e sempre acordando o mais novo quando ele cochilava em cima de um punhado de pergaminhos. Mark nunca saiu de seu lado, ele também era estudioso, mas tinha métodos menos ortodoxos do que Donghyuck e não tinha qualquer necessidade de validação acadêmica em seu sangue.
E ver o namorado ao seu lado, dia e noite, almoço e jantar, aos choros e aos risos, quase sem receber nada em troca, fazia o coração de Donghyuck se quebrar. Mark era um namorado perfeito, mas Hyuck não estava sabendo cuidar dele da mesma forma, não estava nem mesmo lhe dando a devida atenção.
Ele só percebeu o quão negligente estava sendo quando viu Mark sentar-se à sua frente na biblioteca, quase não tocando-o por cima da mesa e com os pés afastados dos dele. Levou alguns minutos para que ele notasse o frio, a falta de contato com o namorado, erguendo os olhos dos livros para se deparar com um Mark claramente indisposto. Era uma gripe, um resfriado forte que normalmente não derrubaria o garoto de ouro da Grifinória, mas devido à alimentação precária ao ficar constantemente ao lado de Donghyuck, a imunidade de Mark caiu e sua saúde também.
Donghyuck nunca se sentiu tão cruel e egoísta em sua vida.
Para fechar a situação terrível com chave de ouro, ele terminou com Mark. O mais velho ainda na cama da Ala Hospitalar e lhe encarou com enormes olhos de cachorrinho abandonado, perguntando o que havia acontecido e afirmando que nada daquilo era culpa de Hyuck. Mark escolhia comer rápido para acompanhá-lo, Mark quem pulava o lanche da tarde, Mark quem havia escolhido evitar o Sol e se esconder na biblioteca. Foram todas as escolhas de Mark, Hyuck não teve culpa.
Isso não o convenceu, no entanto.
E mesmo oficialmente terminados, Donghyuck ainda passava pela ala hospitalar para dar uma olhadinha no outro. Foram apenas dois dias, dois dias em que Hyuck se certificou de que Mark estivesse bem e com boas companhias. Era cruel o fato de que ele só passou a devolver a atenção que o grifinório lhe dera quando ele mesmo decidiu terminar.
Isso foi no final do quinto ano. No sexto ano, as coisas esfriaram, o clima era sempre pesado, eles não conseguiam ficar no mesmo ambiente por muito tempo. Donghyuck não conseguia encarar o ex-namorado sem se sentir culpado. Usando a boa e velha rivalidade entre as casas, não foi difícil sumir da vista de Mark, mesmo nas aulas em que eles faziam dupla.
Mark ter percebido que Hyuck queria espaço poderia ter ajudado, uma vez que ele parecia evitar estar no caminho do outro.
Maldito grifinório que, mesmo com coração partido, continuava cuidando de seu amado.
Bom, de que adiantou tantos meses evitando os mesmos corredores?
Donghyuck jantava uma pequena porção de torta frango, seu estômago se contorcia de nervosismo com a ideia de passar pelo menos uma hora preso na mesma sala sozinho com o ex-namorado. Ele não podia nem mesmo tentar enganar a si mesmo, dizendo que já tinha o superado. Mark fora o grande amor de sua vida, a pessoa com quem Hyuck se imaginava envelhecendo ao lado, com quem imaginava construir uma família, mesmo que ele não fosse tão adepto da ideia no início.
Seus amigos também não lhe deixavam esquecer, especialmente Jaemin, e até Jisung vinha lhe provocando sobre isso. O maldito nem sequer percebia seu próprio relacionamento complicado com um certo lufano, mas estava ali, sentado em frente a ele, com o maldito texugo ao seu lado, rindo dele.
— Correu, correu dele e agora tá se jogando nos braços dele, que esperto da sua parte, hyung. — riu Chenle, seu ombro quase colado com o de Jisung, enquanto dividiam uma torta de melaço. Pombinhos alheios demais para perceberem que estavam apaixonados.
— Se eu não soubesse o quanto você está sério em aprender a conjurar um patrono, eu diria que você é uma cobra ardilosa, usando o ponto fraco do tão gentil Mark para conseguir um encontro com ele.
— Não é a merda de um encontro, porra, meu deus.
— Vocês dois vão ficar sozinhos na Sala Precisa por pelo menos uma hora depois do jantar, aprendendo um dos feitiços mais bonitos que se tem e… ele sabe aquele truque de trancar a sala. — Jaemin foi listando, seu sorriso aumentando cada vez mais ao que Hyuck grunhiu de desespero.
— Você sabe a forma do patrono dele?
— E se vocês tiverem o mesmo patrono?! Meu deus, isso seria tão romântico… — Chenle suspirou, perdendo o olhar atento que um sonserino lançava a ele. Ridículos.
Jaemin engasgou com a torta de galinha, olhando para Donghyuck com os olhos arregalados, preocupados, mas certamente lotados de diversão.
— Se o seu patrono for o mesmo que o dele, você tá fudido, Donghyuck. Eu vou acabar com você.
— Me diga algo que eu não sei. — ironizou, revirando os olhos e empurrando o prato parcialmente vazio. Ele nem mesmo conseguia se enganar, a possibilidade de ter o mesmo patrono que Mark era algo que lhe assombrava desde os sonhos até os pesadelos. Ele estaria tão ferrado se isso acontecesse.
— Me pergunto como isso funciona… o Hyuck precisa saber o patrono do Mark ou o do Mark pode se transformar no do Hyuck? — a pergunta realmente interessante de Jisung fez o grupinho se silenciar por alguns instantes. Chenle se escorou ainda mais no sonserino de seu ano, a bochecha direita apoiada no ombro do Park enquanto sua mão se movia para mais perto da do outro, olhando para a mesa sem foco nos olhos, pensando no assunto. Jaemin apenas suspirou, cruzando os braços e fitando o mesmo ponto sem foco que Lele.
— Acho que depende, talvez, se o Hyuck realmente ver a forma do Mark, ele possa conjurar um igual. Mas pode ser que ele consiga conjurar um diferente sem ver o do Mark, aí, talvez o do Mark mude…
— Vocês têm muita fé nessa situação hipotética e completamente ridícula.
— Bom, pode ser que o patrono do Mark não mude, mas é quase certo de que o seu vai ser igual ao dele, ou pelo menos ser relacionado com o dele, tipo gato e rato, ou algo assim. — terminando de jantar, Jisung também deixou os pratos e talheres de lado. Donghyuck odiou ver seus amigos se preparando para sair do Grande Salão, pois significava que sua segunda dose de humilhação estava cada vez mais próxima. — Você ama ele, pode ser que não seja recíproco, aí… bom, vai ser uma situação terrível, mas não vamos pensar nisso, sim? Pensamentos positivos, hyung!
— Obrigado pela parte que me toca, ser humilhado, rejeitado e frustrado definitivamente estavam nos meus planos para essa noite.
— Bom, de nada, sempre que precisar.
Chenle riu baixinho. Jaemin também, mas empurrou uma clandestina barrinha de chocolate para os bolsos do Lee, se desculpando silenciosamente e saindo quando o fluxo de alunos indo para fora do Grande Salão começou a ser mais frequente.
(...)
Andando em círculos em frente a grotesca tapeçaria de um troll dançando balé, Donghyuck nunca esteve mais convencido de que havia feito uma péssima escolha. Ele ainda não sabia o que tinha em mente quando decidiu que aprender a porcaria de um feitiço era mais valioso do que sua dignidade. Ele nem mesmo estaria se envolvendo com o Departamento de Aurores depois da escola, estaria vivendo pacificamente no boticário de sua família, mais especificamente, trancado no laboratório dos fundos, rodeado de caldeirões borbulhantes e com quase nenhuma chance de encarar um dementador.
Ele não precisava. Mas ele queria.
Até mesmo bruxos adultos e competentes tinham dificuldade de conjurar um patrono corpóreo, não era esperado que ele, com seus dezessete anos, conseguisse tal feito. Mas não era impossível. Porra, o grupo de monitoria liderado por Mark era conhecido pela bagunça de patronos circulando pela sala. Por que ele não conseguiria conjurar um?
Só precisava das instruções certas, do incentivo certo, das palavras certas.
Respirando fundo, ele parou de frente para a parede vazia.
Mostre-me Mark.
Ele não se assustou quando houve um sopro de magia correndo ao seu redor, já acostumado devido aos anos que passou esgueirando-se para fora das masmorras atrás de seu namorado, que também fugia da cova de leões. Novamente, isso não daria certo. Afinal, era só uma aula particular com um ex-namorado no mesmo lugar que eles usavam para beijar um ao outro loucamente enquanto sussurravam promessas de um futuro juntos.
E se ele saísse correndo? Não poderia ser pior, poderia?
Bom, antes que realmente desse um passo para trás, uma porta já estava a sua frente.
— Não sei porque tive esperança de que você fosse conseguir chegar no horário. — com um tempus não-verbal, Mark lhe mostrou a hora. Hyuck estava treze minutos atrasado. Oh, começamos bem.
O grifinório claramente sabia no que estava se metendo, sentado no meio de uma sala de aula semelhante ao que ele usava para auxiliar os colegas, com apenas algumas mudanças ali e aqui. O chão de pedra estava decorado com um tapete felpudo branco pérola no centro, algumas almofadas enormes e pufes também estavam espalhadas pela sala, deixando-a confortável e muito mais acolhedora do que deveria. Mark estava em cima do tapete, sentado, quase deitado, sobre um pufe e uma almofada, um livro pesado de poções estava sob seu colo, como se ele soubesse que iria precisar de distração para o previsível atraso de Donghyuck.
Ele não parecia afetado quanto a isso, no entanto. Os sapatos estavam deixados ao lado do tapete e a capa longe de seus olhos, seus óculos de leitura estavam quase sobre a ponta de seu nariz, pela posição desleixada. Ele parecia bastante confortável ali, e isso de alguma forma fez o peito de Donghyuck se apertar dolorosamente.
— Acabei enrolando no jantar, Lele precisou de ajuda na redação de poções. — Mark franziu a testa, talvez cogitando desacreditar da mentira, ou apenas relembrando da dor de precisar entregar rolos de pergaminho para o professor Malfoy. Ele era mais exigente do que a maioria do corpo docente.
— Por que você não entra pro grupo de monitoria? Ocuparia menos do seu tempo não precisar ajudar individualmente no meio do dia. — levitando um pufe e uma almofada para perto de onde ele estava, Mark acenou para o outro se sentar. Donghyuck não questionou, tirando os sapatos e deixando tanto a capa quanto a bolsa do lado de fora do tapete, praticamente se arrastando para o pufe macio.
— Não tenho tanta disposição para ensinar poções para os mais novos de outras casas, e outra, História da Magia já ocupa muito do meu tempo e é só uma matéria teórica.
— O grupo continua grande? — Donghyuck piscou, tentando lembrar se houve uma mudança significativa nos últimos dois anos. Negando com a cabeça.
— Temos poucos de nível N.I.E.M.s., mais dos N.O.M.s., como sempre. — Mark soltou um barulhinho compreensivo, de fato, muito familiarizado com aquela dinâmica. — Muitos nascidos-trouxas se inscreveram nesse semestre, no entanto. De todos os anos. Acho que o professor Potter convenceu eles de que saber a história do mundo bruxo era mais importante do que parecia, teve até um grupinho de sangue-puro querendo entrar, mas desistiram quando entramos no tópico de como os nascidos-trouxas estão sustentando a comunidade bruxa, principalmente aqui na Grã-Bretanha. Eles já queriam ter saído depois das aulas sobre a hipocrisia dos segregacionistas, mas depois de praticamente prever a extinção deles, eles saíram correndo. — Hyuck não parecia nenhum pouco sentido por isso.
— Ah, a temporada de caças a bruxas, sim? Calma, deixa eu ver se ainda lembro dos pontos chaves… — deixando o livro de poções sobre o tapete, Mark se sentou mais adequadamente, a testa franzida. Hyuck segurou a vontade de rir, já imaginando o que viria a seguir. — Começa falando sobre a Inquisição e sobre como a aristocracia bruxa sangue purista influenciou na caçada de mestiços e nascidos trouxas, mas que acabou atirando para o próprio pé, uma vez que os trouxas passaram a caçar os sangue-puros.
Dessa vez, Donghyuck sorriu de ponta a ponta, assentindo.
— Poderíamos estender o assunto até em como isso criou um ambiente bastante sugestivo para o sentimento e a ideologia anti-trouxas, como Grindelwald conseguiu espaço por conta disso, como ele, depois de ser preso e ser considerado um criminoso, ainda assim conseguiu apoio de quase toda a comunidade bruxa antes de Dumbledore trabalhar em sua queda, a volta de Voldemort, sangue-purismo voltando a todo vapor, e… bom, acaba aí. Ter um salvador mestiço e uma nascida-trouxa fazendo barulho no ministério ajuda um pouco. Shacklebolt tá fazendo um ótimo trabalho, mesmo que ele não vá continuar como ministro por muito tempo, acho que ele entrega a cadeira para a Granger daqui alguns anos. — ele franziu a testa por alguns segundos, alheio ao olhar pesado sobre si. — Bom, ter Potter e os Weasley como apoiadores certamente vai ajudar ela a convencer os indecisos, mas não quero entrar no buraco de minhoca que é a falta de educação política da comunidade bruxa geral desse país e como Hogwarts só piora isso com um péssimo professor de História da Magia. Ah, sinceramente, como ainda deixam o Binns dar aulas? Isso é frustrante!
— Acho que é pelo comodismo, mas pode ser que a professora McGonagall mude isso com os anos, se houver alguém disponível e adequado para o cargo.
— Até lá, teremos mais dezenas de gerações bruxas ignorantes politicamente. — resmungou, o rosto praticamente afundado contra o pufe macio. — O que mais me irrita é o fato de que os nascidos-trouxas serem os mais prejudicados nessa história, os que nascem no mundo bruxo estão sempre na frente e consequentemente, sabem mais onde enfiar o nariz e não duvido que logo logo outro líder maluco suba no poder. Inferno!
Achando a revolta do outro razoável, e até mesmo adorável, Mark sorriu fraco.
— Acho que o ideal seria uma educação antes mesmo de Hogwarts. É injusto pensar que os bruxos que nascem na comunidade já conhecem e podem lidar com sua magia desde cedo, com ajuda dos pais ou até mesmo com professores particulares, enquanto os nascidos-trouxas são ignorados até serem convocados para Hogwarts. Onze anos de desvantagem, muito longe de ser justo.
— Exatamente! Meu Deus, qual a dificuldade dos adultos de verem o que é óbvio?!
Donghyuck claramente estava muito envolvido na conversa, só percebendo isso quando praticamente gritou a última frase. Ele sempre era fisgado por seu fascínio com a história e a política dos bruxos, mas ele definitivamente não queria estar no meio de seu estupor ao lado de Mark, maldito Mark, que lhe encarava com toda a atenção do mundo, mesmo odiando estudar o assunto.
Céus, Mark fugiu de História da Magia assim que lhe foi dada a chance, ele só conseguiu um O na matéria depois de passar meses sendo o aluno cobaia de Donghyuck. Por que diabos ele estava ali, ouvindo-o falar sobre algo que definitivamente não lhe interessava?! Por que ele sempre era tão, tão…?!
— Eu acho que, pode me corrigir se eu estiver a falar bobagem — começou o grifinório, desviando os olhos para não precisar encarar os de Donghyuck, subitamente muito consciente do que eles faziam naquele momento. — o governo atual é mais voltado para reconstruir e cuidar dos danos causados durante as duas guerras contra Voldemort. Talvez, com Granger no poder e seu ideal igualitário tanto entre os bruxos quanto entre as criaturas, mude algo. Ela ser nascida-trouxa vai ser muito importante para a inovação, quem sabe a educação bruxa melhore, pois ela sabe muito bem qual o sentimento de passar anos na ignorância. E construir uma educação desde os primeiros anos de vida é quase como cortar o mal pela raíz.
O sonserino piscou uma, duas, três vezes. O coração disparando dentro de sua caixa toráxica.
Mark parou de falar e ficou constrangido com o olhar arregalado do mais novo sobre si, coçando a nuca e sorrindo sem graça.
— Falei alguma bobagem? Desculpe, faz tempo que não toco nesse assunto, os meninos não são muito fãs disso e o Renjun odeia conversar sobre isso perto do Jeno, então acabamos evitando para não brigarmos. Acho que a última vez que falei tanto sobre política foi no debate sobre licantropia no quinto ano e… — vendo para que caminho estava seguindo, Mark se calou abruptamente.
Oh.
Aquele dia havia sido… marcante.
Eles ainda namoravam quando houve uma enorme briga no Clube de Debates, ambos estavam no lado que defendia o investimento em políticas públicas para os lobisomens, enquanto o outro lado deveria ser o grupo conservador, que era contra qualquer interação entre bruxos e lobisomens. Na época, os debates não eram mediados pelos professores, e esse aconteceu de forma pacífica até um aluno fazer um comentário grosseiro e muito nojento sobre o assunto e resultar em Edward Lupin partindo para cima do outro garoto. E aquilo foi um estopim para uma enorme confusão, hormônios à flor da pele e vários alunos bons em duelo não resultou em outra coisa além de uma mini guerra no salão de debates.
Donghyuck não se envolveu na briga, mantendo um escudo forte ao seu redor, mas Mark estava no meio da confusão e acabou saindo com um hematoma feio abaixo dos olhos e com cortes no lábio e sobrancelhas. Esse foi o dia em que Donghyuck invadiu a torre da Grifinória pela primeira vez, indo para a cama do namorado e passando a noite ao lado dele. Foi a noite em que eles falaram sobre tudo que poderia acontecer a eles em futuros diferentes, foi o dia em que eles falaram sobre noivado, mesmo com apenas quinze anos. Foi o dia em que prometeram estar juntos em todas as possibilidades.
Lembrar disso não era a melhor forma de continuar com a conversa fiada, e ambos, presos em seus próprios pensamentos, deixaram o silêncio desconfortável tomar a sala, a tensão que havia se enfraquecido com o tempo voltou em toda sua glória. Donghyuck nem mesmo queria encarar Mark depois de relembrar tudo aquilo.
— Bom, vamos trabalhar?
Oh, certo, eles não estavam ali para conversar.
De pé, ainda sobre o tapete, Mark fez os pufes se afastarem levemente para os lados, o suficiente para que eles não tropeçassem durante a aula, mas perto o bastante para que pudessem desabar em cima de um quando estivessem cansados demais.
— Me mostre o que você tem, vamos ver de onde podemos partir. — tomando a postura de pseudo-professor, Mark acenou para Donghyuck começar, nada além da seriedade em seus olhos, coisa que ele sempre fazia ao ensinar para os mais jovens.
Respirando fundo mais uma vez, Donghyuck ergueu a varinha, girando-a da forma correta e pronunciando o feitiço no latim perfeito. No entanto, apesar de fazer a parte externa de forma perfeita, apenas uma fumaça prateada foi lançada para fora de sua varinha. O brilho era até que forte, o que fazia a situação ser ainda mais patética aos seus olhos.
— Importa se eu perguntar sobre o que você estava pensando? — a voz de Mark era delicada, suave para a pergunta íntima e controlada o suficiente para não fazer Donghyuck se encolher e chorar por seu fracasso.
— Normalmente eu tento pensar em coisas felizes, como quando recebi o resultado dos N.O.M.s.… ou quando ganhei a Taça de Quadribol como capitão no ano passado, já até tentei pensar no futuro. Li em algum lugar sobre a esperança também ser uma ferramenta útil, mas não consegui sair disso.
— Certo… posso recomendar algo?
— Estou aqui para isso, vá em frente.
— Você está focando muito no óbvio e não na sensação que você sentia no momento. — pontuou sério. Dizer que ele estava escolhendo lembranças fracas não era o ideal, mas Mark sabia lidar com Donghyuck. — O patrono normalmente está quase sempre ligado ao sentimento de felicidade e, não, não vou dizer o contrário, mas tudo depende do que felicidade significa para você. Muitas das vezes confundimos felicidade com alívio. — ele olhou nos olhos do sonserino, engolindo em seco e escolhendo as palavras certas para o que diria a seguir. — Foi felicidade ou alívio que você sentiu quando recebeu uma carta com dez Os?
Hyuck ficou em silêncio, Mark prosseguiu.
— Alívio é um sentimento forte, sim, mas nada em comparação à felicidade e esperança. O que realmente importa é o peso da lembrança ou da imagem que você tem em mente. Pode ser uma lembrança única, que realmente seja o momento mais feliz da vida de alguém, ou pode ser uma coletânea de momentos que, juntos, pesam o suficiente para fazer você conseguir conjurar um patrono sem sequer piscar. — e como se precisasse provar o que dizia, ele girou a varinha, sussurrando o encantamento e iluminando o lugar com a força de seu brilho prateado.
Apesar do movimento quase tímido e da pronúncia desleixada até, uma ave surgiu da ponta da varinha de Mark. Donghyuck precisou apertar os olhos para conseguir distinguir qual era, a princípio, achou ser um gavião, mas quando a ave abriu as asas, estas largas e amplas e sua forma se tornou mais nítida, ele suspirou em fascínio. Era uma águia.
O animal era maior do que ele esperava de uma ave, ela planou ao redor deles por alguns segundos, rápida e de olhos astutos. Com um assobio de Mark, ela se dirigiu a eles, pousando sobre o braço do grifinório e encarando Donghyuck com intimidadores olhos prateados. Aquele ser nem mesmo era real, mas tinha uma assombrosa aura territorial. Seus olhos pareciam perfurar a alma do sonserino, julgando-a sem misericórdia.
De alguma forma, ela combinava com Mark. Como uma guardiã imponente e vigilante, pronta para proteger o Lee com suas garras.
— Quer tocar? Não é exatamente corpóreo, mas ela gosta do gesto. — mais uma vez provando o que dizia, Mark passou a outra mão pela cabeça da águia, sorrindo quando ela se inclinou ao toque. A mão dele particularmente não tocava em nada, mas havia um toque gelado no gesto, uma sensação gelada que estranhamente lhe esquentava os dedos. Ele inclinou o braço na direção de Donghyuck, incentivando-o a tocar na ave.
Com receio ele imitou o gesto do mais velho, passando a mão pela estranha cabeça prateada que praticamente não existia sob seus dedos. A sensação gelada e quente ao mesmo tempo lhe surpreendeu, assim como o olhar vaidoso que recebeu da ave.
Mark a lançou no ar segundos depois, vendo-a sumir gradativamente.
— Tente mais uma vez, lembrando do que falei sobre o peso do que você pensa. Pode ser uma lembrança importante, mas também pode ser algo que envolva esperança, algo que esquente seu peito ao lembrar, algo que te deixe motivado para se levantar todos os dias da cama.
Algo que fosse importante. Algo que lhe envolvesse de esperança. Algo que esquentasse seu peito. Algo que lhe motivasse.
A voz de Mark voltou a soar, encorajadora, ao fundo. E mesmo sabendo que iria sair dali com um buraco no lugar de seu coração, Donghyuck se permitiu pensar naquilo que ele tentou desesperadamente evitar. Mas não havia como fugir naquele momento, não quando a pessoa que preenchia seu peito estava logo ali do lado.
Dolorosamente, ele lembrou de seu namoro. Dos dias de Sol, dos dias de Lua, dos dias juntos sob inúmeras circunstâncias. Na borda do Lago, no pátio, na biblioteca, nas refeições, nas escapadas para o dormitório do outro… ele lembrou até mesmo da risada alta e contagiante de Mark no Natal que passaram juntos no terceiro ano.
Com pesar, Donghyuck viu seu escudo prateado ondular, algo se movimentou no meio da fumaça, mas assim como a enxurrada de lembranças vieram, a dor de que eram apenas memórias de um passado fez com que o encantamento não durasse muito, sumindo antes mesmo do animal levantar a cabeça.
Mark se agitou ao fundo, afirmando ter visto a cabeça de um cachorro, mas Donghyuck não conseguiu acompanhá-lo na empolgação, o peito apertando mais uma vez.
— Você pegou o jeito! É só continuar pensando no que pensou, desenvolver um pouco mais e manter. Prometo que fica mais fácil quando você conjura pela primeira vez, a segurança de que já fez uma vez te ajuda ainda mais. — ele acenou para Hyuck tentar mais uma vez, sorrindo abertamente de onde estava, os olhos brilhando de orgulho.
Donghyuck precisou respirar fundo mais uma vez, empurrando toda a melancolia para o fundo de sua mente, deixando a dor da saudade de lado e engolindo o nó que se formava em sua garganta, apertando sua varinha com mais força do que o normal para que as lágrimas não viessem a tona.
Por Merlim, por que relembrar de um namoro que ele mesmo escolheu terminar era tão doloroso? Não era possível que Mark fosse tão influente em sua vida, não ao ponto de impedir que Donghyuck conseguisse realizar um maldito feitiço!
— Foque no que você pensou na primeira vez, Hae, pense nisso, deixe sua mente se aprofundar nisso.
Hae.
Sem que pudesse conter, a mente de Donghyuck foi invadida por uma lembrança de quando eles tinham por volta dos cinco anos. Eles eram apenas crianças, foi na mesma época que sua mãe havia se casado com o pai de Jeno e os dois haviam se mudado para a casa de Hyuck. Ele se lembrava vividamente da expressão fechada de Mark para o menino mais novo, para o menino que vivia atrás de Hyuck, chamando-o pelos cantos, com vergonha demais para andar sozinho na nova casa. Jeno era adorável, até mesmo Mark podia admitir, mas o garoto mais velho demorou a gostar do menino, o ciúmes infantil lhe cegando por algumas semanas.
Foi quando Mark passou a chamar Donghyuck de Haechan. Ele odiava ter que dividir Donghyuck, então passou a chamá-lo de Hae, Haechan, seu Haechan.
Engolindo a vontade de chorar, Donghyuck praticamente sussurrou o encantamento.
— Expecto Patronum.
A força mágica que era necessária para manter o feitiço poderia ser a parte mais difícil do processo, Hyuck já sentia estar mordiscando as bordas de seu núcleo mágico. Treinar um feitiço erroneamente era sempre mais cansativo, havia muito desperdício de energia no caminho, uma vez que ainda não era claro como direcionar a magia.
Mas mesmo se concentrando na parte mágica da coisa, a parte psicológica era ainda mais cansativa. Talvez em campo, ele conseguisse conjurar um patrono, ele não teria tempo o suficiente para sentir o peito doer de saudades, mas estando ali, ao lado de Mark, seria quase impossível conseguir conjurar algo.
Houveram patas dessa vez, quatro delas, pequenas e delicadas, junto de pernas finas e curtas. A cabeça voltou a surgir, arredondada e alongada, as orelhas fofinhas tomavam uma forma mais distinta dessa vez, as pontinhas se mexendo adoravelmente ao que o animal tentava encarar o bruxo que lhe conjurou. A maior parte do corpo dele estava envolta na bagunça de fumaça e brilho prateado, mas Donghyuck podia ver que não era um animal grande. A última coisa que viu foram um par de olhos pretos e dóceis lhe encarando, até o patrono sumir.
Pelo menos não era uma águia.
— Uma corsa? — ele ouviu Mark sussurrar do outro lado, um misto de confusão e admiração em sua voz. — Você definitivamente pegou o jeito, para quem não conseguia sair de um escudo, ver a silhueta do patrono já é mais do que meio caminho andado. Mais uma tentativa?
Donghyuck não estava mentalmente estável para seguir com aquela reunião. E de qualquer forma, a dor lacerante em seu peito certamente iria lhe impedir de avançar mais naquela noite. Era quase impossível pensar em memórias felizes sem que elas tivessem qualquer relação com Mark, ele sempre estava nelas, seja no fundo ou simplesmente sendo o protagonista delas ao lado de Hyuck. Como conjurar algo sabendo que tudo o que sentia não passava de saudade?
— E-eu… acho que vou parar por aqui.
— Oh? Sério? Essa tentativa foi muito boa e… — o grifinório se interrompeu, seus olhos captando a melancolia no rosto de Hyuck com uma facilidade absurda. Os lábios do sonserino estavam torcidos para dentro, suas sobrancelhas tinham uma delicada curva em direção a ponte do nariz, e com isso, Mark engoliu todas as insistências prontas, sorrindo fracamente, mas de forma compreensiva. — Tudo bem, acho que podemos encerrar por hoje.
Donghyuck se sentia uma bagunça emocional ambulante. A vergonha de estar ali só não era pior do que sua incapacidade de extrair lembranças sem que lhe machucasse pela saudade que o consumia sempre que olhava para o antigo namorado. A dor era quase sufocante.
— Eu… Obrigado, Mark.
— Não se preocupe, não precisa agradecer. — ele coçou a nuca, mordendo o lábio e falando, mansamente. — Se você quiser, podemos nos encontrar aqui amanhã de novo.
Donghyuck não parecia confiante de falar mais do que uma frase inteira, Mark não o forçou.
— Olha, mesmo que seja nossa única reunião, saiba que você se saiu bem, Hyuck. — Mark deixou escapar um suspiro suave, vendo a tempestade nos olhos do outro. Com pesar, ele suspeitava do motivo, sentindo o peito apertar dolorosamente pela que seria a enésima vez naquele dia. — O professor Potter já nos disse o quão complexo é o feitiço do patrono, poucos conseguem, e você ter visto parte de seu patrono corpóreo já é um grande passo, ok? Não se cobre tanto, você é muito inteligente e competente, precisar de um tempinho a mais em um feitiço não te faz menos competente. De verdade, tá? Você é muito talentoso, Hyuck.
O olhar de Mark irradiava compreensão e carinho, como se ele entendesse toda a dor que Donghyuck estava passando naquele momento. E talvez ele realmente pudesse entender, pois mesmo separados, eles conheciam um ao outro como a palma de suas mãos. Mark sabia quando Donghyuck estava mal, Donghyuck sabia quando Mark estava tentando lhe confortar. As palavras eram doces, mas o que realmente lhe entregava eram seus olhos grandes e cheios de carinho.
Donghyuck precisava desesperadamente de um abraço. E ainda que doesse, ele sabia que não podia esperar ou pedir isso ao ex-namorado.
Assim que se despediram, educadamente e sem qualquer adição ou lembrança do quão confortáveis estiveram durante a conversa fiada sobre política bruxa que tiveram no início da aula, Donghyuck saiu correndo para as masmorras. Demorou alguns bons minutos até ele chegar no último andar do castelo, e mais alguns até ele entrar na sala comunal e por fim, parar na porta de seu dormitório.
Já era por volta das onze horas, seus colegas já deviam estar dormindo, mas Hyuck sabia que um deles estava acordado, lhe esperando.
Com os olhos úmidos e um nó lhe sufocando a garganta, ele engatinhou sobre a cama de Jaemin, se enfiando nos braços do amigo e sendo consolado ao que seu peito soltava e expulsava tudo o que foi se acumulando durante anos.
(...)
— Tenho quase certeza de que não era uma corsa.
— Mas o Mark não disse que era?
— E ele, por acaso, é um especialista em cervídeos?
Olhando para a mesa da biblioteca infestada de cópias de páginas de livros com desenhos e quaisquer textos que Donghyuck considerasse útil, Jaemin cogitou retrucar com a mesma pergunta, mas manteve-se quieto.
Desde o dia em que Donghyuck foi capaz de visualizar partes de seu patrono, algumas embaçadas outras mais nítidas, descobrir qual era o animal em questão havia se tornado a nova obsessão do sonserino. Ele era, de fato, um garoto de momentos. E naquele momento, ele estava debruçado sobre uma lista lotada de coisas que Jaemin não fazia ideia do significado.
— Não pode ser um cervo?
— Cervos são maiores e tem galhadas. — foi sua resposta carregada de desdém. Jaemin bufou, pegando uma pilha de cópias pela mesa.
— E um veado-campeiro?
— Galhadas.
— E um cervo-de-Eld?
— Galhadas.
— Salazar, que inferno. — passando pelas folhas rapidamente, Jaemin tirou todas que as imagens mostravam as malditas galhadas ou quaisquer chifres ramificados. — Novamente, por que não pode ser uma corsa?
Donghyuck bufou, esfregando a testa e encarando o amigo com impaciência.
— Uma corsa pode passar de um metro, o que eu vi não passaria nem da minha cintura, muito baixo e sem galhadas.
Jaemin levantou uma sobrancelha.
— Sabe, um primo distante estuda na Castelo-Bruxo na América do Sul, ele já me contou histórias maravilhosas sobre um animalzinho chamado capivara.
Se agredir um colega com magia acidental causada por raiva não fosse passível de expulsão, Jaemin certamente já estaria sendo arremessado por um dos vitrais da da biblioteca castelo abaixo. E com mais um bufar impaciente, exasperado e completamente desesperado, Donghyuck deixou os óculos de leitura na mesa, esfregando os olhos e parecendo subitamente muito pequeno em suas vestes.
— Já pesquisei sobre elas. São roedores e podem ter até sessenta centímetros de altura, mas novamente, o que eu vi era mais baixo, com a cabeça mais alongada e com um focinho certamente mais fino do que a cabeça achatada das capivaras. — quase sem energia, os braços parecendo gelatinas ao manusear a varinha, Hyuck convocou um pedaço de pergaminho de uma pilha descartada, mostrando a pequena coletânea de pesquisa sobre capivaras. — Pensei em um cervo-de-topete, mas sinceramente, os caninos são marcantes demais, e não vi isso no dia.
— E um muntíaco-de-crina?
— Esse parece um bode, certamente estamos mais perto de uma capivara do que de um bode. E de novo, os chifres.
— E o cervo-de-timor?
— Cabeça pequena demais para as orelhas grandes demais. As orelhas que vi eram quase arredondadas, como as de um urso.
Jaemin suspirou, decidindo abandonar a pilha de papéis que tinha em mãos.
— Certo, esquece essa pilha. — com as mãos na cintura, Jaemin fitou a bagunça por cima, tentando achar alguma pista no meio de tanta informação inútil e barulhenta. Capivara, América do Sul, pequeno, orelhas arredondadas, sem chifres ramificados… — E o pudu?
Pela primeira vez no dia, o olhar que Donghyuck lançou a Jaemin não estava envolto de qualquer raiva ou descrença, pelo contrário, os olhos do Lee pareciam brilhar em esperança. Era quase fofa a forma como o rostinho dele se iluminava apenas com um nome não familiar.
— Pudu?
— P-U-D-U. — soletrou Nana calmamente, passando os olhos pelo pergaminho e sorrindo. — É um cervídeo sul-americano, uma das menores espécies do mundo. Eles não têm chifres, são pequenos e têm essa aparência meio... delicada. Não é exatamente como a capivara, mas talvez se encaixe na descrição do que você viu…?
A expressão de Donghyuck mudou gradualmente de cansada para interessada. Ele pegou o pergaminho de pesquisa novamente, começando a examiná-lo com mais atenção, os olhos se encontrando com os olhos do animalzinho no papel.
— Pudu... — murmurou para si mesmo, lendo sobre a criatura. — Eles são bem pequenos mesmo. E não têm chifres. Mas... será que é isso?
Jaemin esperou, observando Donghyuck franzir a testa umas cinco vezes, encolher os lábios em um beicinho por pelo menos umas sete vezes ao ler algo que certamente não lhe agradava, até tudo sumir e seu rosto ser iluminado por uma risada verdadeiramente genuína.
— V-você não vai acreditar na lista de predadores do pudu! — agora gargalhando, Hyuck até mesmo limpava algumas lágrimas teimosas, tentando parar de rir, mas não conseguindo.
Jaemin não perdeu tempo, pegando o pergaminho de volta e indo para a sessão de predadores. Ele sentiu o ar escapar de seus pulmões quando viu um nome no meio de tantos, entendendo a crise de riso, ou apenas mais uma crise, de Donghyuck.
Águias.
(...)
Com a chegada do final de dezembro, a escola se transformou em uma mistura de expectativa e agitação pré-Natal. Enquanto os alunos mais jovens estavam animados para explorar o castelo coberto de neve, os mais velhos se encontravam em um dilema nenhum pouco agradável. Muitos estavam divididos entre a decisão de permanecer no castelo e gastar mais algumas horas na biblioteca, ou voltar para casa e desfrutar de duas semanas de descanso com a família.
Para alguns, as férias representavam uma oportunidade de ouro para se desconectar da rotina escolar e recarregar as energias ao lado dos pais antes do trágico período dos N.O.M.s. e N.I.E.M.s., já que dificilmente voltariam para casa durante a Páscoa, que era próxima do período de provas. Para outros, no entanto, havia uma pressão adicional para aproveitar o tempo livre de maneira produtiva, colocar as matérias e redações em dia era o principal motivo da pequena lotação na biblioteca nos últimos dias e, provavelmente, continuaria a ser até o final do feriado.
Bom, podia ser assim para muitos, mas ainda havia aqueles alunos mais… obcecados.
— Você não vai ficar aqui, Lee Donghyuck.
— E quem você acha que é para me impedir? — Jaemin até mesmo poderia se ofender com o olhar desdenhoso que recebeu, mas sabia muito bem como Donghyuck agia quando queria ganhar uma briga cansando ou irritando a outra parte. Isso não funcionaria hoje.
— Eu sou seu melhor amigo e vou ser a pessoa que vai te expulsar desse castelo no Natal.
Donghyuck fez um barulhinho com a língua, rindo pelo nariz, não dando muita atenção para o outro.
— Quer saber? Se você não me ouvir, eu vou apelar para sua família. — a ameaça foi recebida com mais um sonzinho sarcástico.
— Até você escrever uma carta, mandar, meus pais receberem, responderem, se é que vão responder , e você receber sua resposta, já terei dado meu nome para a Diretora McGonagall e estarei muito bem abrigado no dormitório do Jisung. — narrou como se fosse, de fato, um plano. Mas Jaemin estava determinado demais para entregar essa vitória de graça para Donghyuck.
— Eu vou apelar pro Jeno.
Apesar da ameaça séria, Donghyuck engasgou com a batata assada que mordia, rindo quase alto o bastante para chamar a atenção de todo o Grande Salão. Jaemin bufou.
— Você?! Ir falar com ele?! — riu alto, segurando a própria barriga e limpando o cantinho dos olhos depois de bons segundos constrangendo todos da mesa sonserina. — Você não tem nem coragem de pisar nas monitorias que eles dão aula, quem dirá ir falar com eles no meio do jantar!
— Você vai pra casa no Natal?
— Eu já disse que não, Nana. — respondeu, ainda ofegante e soltando algumas risadas perdidas.
Sem pensar muito, Jaemin se levantou, deixando sua sopa de cogumelos pela metade e fitando Donghyuck seriamente. O Lee parou de rir na hora, arregalando os olhos quando o outro passou uma das pernas para o outro lado do banco sem dizer mais nada. Ele até revirou os olhos, achando que Nana estava emburrado com a briga, mas quando o viu encarando um ponto muito específico na mesa da lufa-lufa, do outro lado do salão, ele soube que havia perdido aquela briga do pior jeito possível.
Determinado e ignorando todos os protestos de Donghyuck, Jaemin saiu da mesa da Sonserina, atraindo alguns olhares curiosos que foram prontamente ignorados ao que ele atravessava o Grande Salão, passando pela mesa da Corvinal e parando na ponta da mesa da Lufa-lufa, mais especificamente, parando logo atrás de Lee Jeno. Como se não fosse o bastante, Mark estava ali também, assim como Renjun.
Os três encararam o sonserino com as sobrancelhas levantadas e Jaemin não os culpou por isso. Desde o término do século, ele escolheu dar apoio para o seu amigo de casa, assim como Jisung, se afastar dos outros foi uma consequência amarga. Mas mesmo que doesse, Jaemin tinha suas lealdades muito bem estabelecidas, ainda que recebesse olhares impacientes de seus ex-namorados. Oh, Salazar, ele não devia ter vindo atrás de Jeno.
— Ou você e o Donghyuck estão com planos para voltar, ou vai chover pedra essa noite. — muito bem humorado, Renjun empurrou o ombro de Mark com o seu, mergulhando um pedaço de torrada na sopa de cogumelos que jantava e ignorando propositalmente o sonserino de pé.
Mark não ousou abrir a boca, o que deixou apenas Jeno na posição de mediador. O que não era bom, mas poderia ser pior.
— Podemos ajudar?
— Você pode, na verdade. — começou, um pouco sem graça, precisando se conter para não sair correndo ao ouvir um risinho debochado do corvino com muitas mágoas contra si. Jeno apenas arqueou as sobrancelhas em dúvida, mas não mais que isso, sem sorrisos e sem meias luas. — Você vai pra casa no Natal?
— Hm? Por que você quer saber? Logo você?
Ouch, doeu.
Renjun riu soprado, murmurando algo ácido para si mesmo enquanto Mark se engasgava com o frango assado que comia, tossindo e tentando sobreviver sozinho. Uma vez que a nuvem tempestuosa estava ao redor daqueles três, era impossível tentar tirá-los daquele transe sentimental. Como sempre acontecia quando eles estavam no mesmo ambiente.
— Jeno, eu só preciso saber se você vai ou não, por favor! — insistiu mais desesperado do que gostaria. Renjun não escondeu o riso dessa vez, Mark parecia quase mais desesperado do que Jaemin por estar no meio deles. Sentindo as orelhas esquentarem pelos burburinhos que estava causando por estar em pé no meio do Salão, Jaemin passou a perna pelo banco, sentando-se ao lado de Jeno e o encarando com os olhos suplicantes. — Você precisa levar o Donghyuck pra casa, pelas barbas de Merlim, eu mesmo jogaria ele no meu malão se fosse possível, mas aquele idiota não vai me ouvir!
— Calma, ele não pretende ir pra casa?
— Não! — sussurrou exasperado.
Jeno finalmente pareceu lhe dar atenção, finalmente se virando para Jaemin, a testa franzida e os olhos semicerrados.
— A mãe dele vai mandar uma legião de berradores se ele não ir para a festa de Natal da família, meu pai também não vai gostar, eles tinham combinado que o Hyuck iria visitar um professor depois do ano novo… — compreendendo a revolta de Jaemin, Jeno se virou para a mesa dos sonserinos, a testa franzida ao que ele encarava o meio-irmão em uma conversa silenciosa. Jeno bufou, voltando a se sentar reto na mesa. — Ele não pode simplesmente não ir para casa no Natal.
— Exatamente! Ele quer ficar para estudar, sendo que ele não precisa!
— Ainda é sobre aquela coisa do patrono? — mais pacífico, uma vez que o assunto era Donghyuck, Renjun ousou perguntar. Jaemin mandou um olhar sério para Mark, que deu de ombros, nenhum pouco arrependido de compartilhar algo que não era sobre ele para outra pessoa.
— Sinceramente, não sei se é só isso. Ele ficou obcecado em executar e descobrir qual era o animal, mas depois disso, parece que caiu a ficha de que ele gastou muito tempo nisso, agora ele quer compensar e… — se interrompeu, arrependendo-se instantaneamente por falar demais. Jeno bufou, Renjun fez um barulhinho com a língua, nenhum pouco surpreso. A pessoa que certamente não deveria estar ciente de certas coisas estava em silêncio, os olhos presos do outro lado do Salão.
— Ele ainda vai me encontrar hoje a noite?
Novamente, sem conter a língua, Jaemin soltou.
— Honestamente, ele não perderia isso por nada.
Mark encarou o Na, piscando atordoado e claramente surpreso com aquela confissão que certamente não deveria ter vindo da maldita boca de Jaemin.
O sonserino deu um sorriso amarelo, pronto para sair correndo dali, mas Jeno foi mais rápido e o impediu de levantar colocando uma mão em sua coxa direita, negando com a cabeça quando Jaemin praticamente choramingou para ele lhe soltar, os olhos de meia-lua finalmente aparecendo. Ah, que incrível. Ele e sua língua solta eram uma vergonha para sua casa, mas ao menos isso fazia com que Jeno e Renjun lhe encarassem com algo além de mágoa, mesmo que agora eles estivessem se divertindo às custas de sua incapacidade de fechar a boca e do sofrimento de Mark.
Naquele momento, o grifinório não sabia para onde olhar, dividido entre encarar o drama daqueles três, sentindo que aquelas trocas de olhares significavam muito mais do que eles deixavam escapar, ou se ele se deixava absorver e pensar sobre o fato de que, Donghyuck, mesmo com a agenda cheia e a cabeça ainda mais perturbada, estava fazendo questão de vê-lo naquela noite. O que infernos aquilo significava? E por que Jaemin havia feito questão de deixar claro que faltar uma reunião com Mark não era uma opção para Donghyuck?
Sentindo o peso do olhar de Mark há metros de distância, Donghyuck levantou os olhos de seu jantar e se viu no meio de uma conversa silenciosa que ele claramente não estava pronto para ter. Não quando ficaria sozinho com Mark em poucos minutos.
Donghyuck hesitou por um momento, desviando o olhar e sentindo o calor subir pelas orelhas, torcendo para que seu constrangimento não fosse tão evidente.
E não foi, mas Mark conhecia Donghyuck como a palma de sua mão e poderia reconhecer o leve rubor abaixo de seus olhos há quilômetros.
(...)
Encolhido sobre um dos pufes na Sala Precisa, Donghyuck tinha o rosto praticamente escondido por seu cachecol verde com listras prateadas. Costumava fazer frio nos dias próximos ao Natal, mas ele era facilmente controlado pelos feitiços aquecedores ou pelas lareiras que eram acesas pelo castelo. Mas a maldita Sala Precisa era em um andar alto demais e longe demais de qualquer lareira quentinha, nem mesmo o feitiço de aquecimento que Hyuck lançou em si mesmo fora o suficiente, ele ainda sentia as pontas dos dedos meio rígidas pelo frio.
O fato dele estar tentando conjurar um patrono não ajudava muito. O frio caloroso da magia prateada ainda era mais frio do que quente.
Ele estava alguns minutos adiantado, sem qualquer vontade de enrolar pelos corredores como nos outros dias, ele correu para a Sala, pedindo o lugar de sempre e se jogando no pufe macio, puxando os pés para cima e praticamente se enrolando na espuma, com frio e adorando o espaço quentinho que conseguiu fazer com várias tentativas de se aquecer.
Donghyuck estava quase cochilando quando a porta foi aberta. Ele nem mesmo abriu os olhos, ouvindo o riso soprado de Mark ao fundo e se encolhendo ainda mais dentro da capa.
— Se está com tanto frio, por que não pediu cobertores para a Sala? Ou uma lareira?
Oh.
— Eu… não pensei nisso, sendo sincero. — murmurou, sentindo as bochechas ficarem subitamente muito quentes. Antes que pudesse falar mais alguma coisa constrangedora, um sussurro mágico rapidamente lhe chamou atenção, surpreendendo-o quando um tecido grosso e bem quente fora colocado por cima de si. Com os olhos arregalados e o coração praticamente lhe escapando pela boca, ele se virou para Mark, flagrando-o sorrindo em sua direção.
Ao ser pego no flagra, Mark tossiu para disfarçar, olhando para o lado e murmurando algo inaudível enquanto puxava um pufe para o lugar de sempre. Donghyuck revirou os olhos ao ver o outro casualmente vestindo apenas a camisa branca e a calça do uniforme, sem capas ou sequer a bendita gravata vermelha berrante. Maldito canadense com resistência desnecessária ao frio.
— Bom, acho que podemos fazer assim. — acompanhando Hyuck, o grifinório se sentou no pufe, puxando as pernas para cima e se sentando na posição de lótus, contendo o sorriso que quase lhe escapara ao ver o mais novo se embolar no cobertor grande. Demorou alguns segundos para Hyuck posicioná-lo adequadamente sobre os ombros, de modo que não atrapalhasse o trabalho com a varinha. — Bom, melhor?
— Hm? Ah, sim, sim, obrigado. — agradeceu quase em um piu, mas Mark não se importou.
— Você quer ajuda nos feitiços de aquecimento também?
Donghyuck fechou a cara no mesmo instante, bufando e sentindo as bochechas esquentarem mais uma vez.
— Não se trata do feitiço, o tempo tá muito frio até mesmo para eles.
— Oh, e como você vai fazer no Natal? Tenho certeza que vai ficar ainda mais frio até lá. — falando como quem não quer nada, Mark girava a varinha em pequenos círculos, conjurando algumas bolas de fogo mágico para rodeá-los por alguns momentos e evitando o olhar astuto do outro. Donghyuck fez um barulhinho com a língua, uma mistura de desdém com impaciência.
— Não sei o que aquela cobra fofoqueira foi falar para vocês, mas saiba que não vou mudar de opinião.
— Não vou falar sobre isso, Hae, eu entendo a sua decisão de ficar na escola.
Donghyuck se afundou ainda mais no cobertor, os olhos se perdendo pelo tapete perolado.
— Só… se cuida, tá bem? Sei que é bem comum a Sonserina ficar vazia no Natal, e bem, como todo o grupo pretende ir pra casa no feriado…
— T-todo o grupo? — a voz do sonserino saiu mais fina e quebradiça do que ele planejava, no fundo, ele esperava ao menos ter a companhia de Renjun no feriado, até mesmo a do ex-namorado, ele realmente não contava que todos fossem pra casa. Os olhos de Mark logo se voltaram para ele, carinhosos e calorosos, como sempre.
— Bom, o Jeno vai pra casa e vai levar o Renjun com ele, o Chenle conseguiu convencer os pais e vai levar o Jisung pra casa também. O Nana sempre vai pra casa, acho que ele pode ter um infarto se não ver a sobrinha nessa época do ano. — brincou no final, gostando de ouvir a risadinha do outro, mesmo que um pouquinho engasgada. — E eu, bem, você sabe, quero ver como estão o Johnny e o Tae, não vejo eles desde o quarto ano.
Desde o último Natal em que todas as famílias se reuniram, antes do término. Foram as palavras nas entrelinhas, e Donghyuck entendeu o recado.
— A festa vai ser lá em casa, não é?
Mark assentiu.
— Você vai?
Ele hesitou, mas acenou positivamente com a cabeça.
— E-eu sei que pode ser meio chato e inconveniente, mas o Jeno me chamou e… Hae, de verdade, me desculpe por isso, eu realmente odeio fazer nossos amigos pisar em ovos por nossa causa. Eu tentei negar, mas o Jeno sabe quanto eu sinto falta dos rapazes, não dá pra simplesmente dizer não pra ele, entende?
Donghyuck não reagiu, na verdade, ele já esperava aquela resposta. Desde que sua mãe havia começado a mencionar o Natal nas cartas, ele suspeitava que a Tradicional Festa de Natal dos Lee iria ter sua volta esse ano, a festa era grande, mas apenas com as mesmas famílias de sempre, as famílias que se uniram ao que seus filhos se uniam em Hogwarts. Não era sempre que os pais de Jisung e Renjun conseguiam vir para as duas semanas, mas a presença deles era sempre garantida na véspera e no dia de Natal, e em bons anos, eles conseguiam ficar até o Ano Novo.
Desde o término, a família de Hyuck deixou de celebrar em grande estilo e fez a cerimônia ser mais íntima, somente entre eles.
Bom, dois anos já haviam se passado, era hora de voltar com a festança.
Ele não sentia nenhum tipo de remorso por Mark ter aceitado passar o Natal com sua família, como poderia, afinal? Eles cresceram juntos, muito antes da escola, a relação de Mark com sua família veio muito antes de Mark se tornar o namorado de Donghyuck. Droga, o primo de Donghyuck era padrinho de Mark! Como ele poderia exigir que ele se afastasse da própria família?
— Não se preocupe com isso, hyung. — o termo lhe escapou sem que ele sequer notasse, deixando um rastro adocicado pela boca. Mark piscou, mas não disse nada, fitando os dedos ao redor da varinha e ouvindo o que o outro tinha a dizer. — Acho que tava mais do que na hora de… superarmos isso, sabe? E na verdade, eu quem deveria me desculpar, por ter te impedido de ver o Johnny esses anos. — coçando a garganta, ele completou. — Me desculpe por isso, sério, foi muito egoísta da minha parte.
O silêncio que se seguiu foi mais angustiante do que confortante. Mark não sabia exatamente o que sentir com aquilo, ele entendia, ele realmente entendia o que era dito sobre superarem algo que não afetava apenas eles. O término havia sido um tsunami entre eles, mas também entre seus amigos e suas famílias. Superar isso era algo maior do que eles, algo que eles precisavam fazer. Não apenas por eles, mas por pelas pessoas ao redor deles.
Mas o que estava dentro do que deveria ser superado?
Donghyuck queria superar apenas as brigas? Ou ele queria superar tudo?
Estava ele tentando iniciar uma conversa sobre encerrarem aquele capítulos entre eles de uma vez por toda?
Ele… ele tinha outra pessoa? Ele queria colocar um ponto final em sua história para poder começar de novo?
Não havia mesmo mais esperança para eles?
Engolindo todas as perguntas que Mark precisava das respostas, mas que definitivamente não estava pronto para eles, ele sorriu. Como sempre, ele apenas ignorou as rachaduras que tomavam conta de seu peito e sorriu, sorriu para Donghyuck como se ele ainda fosse o seu Sol, sorriu e deixou seus olhos se fecharem no processo, de modo que Hyuck não fosse capaz de ver a falta de brilho neles.
— Não se preocupe com isso, Hyuck, já passamos dessa fase, sim? — seu sorriso tremeu, mas ele rapidamente assumiu a posição de professor e empurrou todo o sentimentalismo pro fundo. — Vamos começar? Acho que essa pode ser a nossa última aula, você realmente pegou o jeito.
Hyuck sorriu contido, sem entender porque estava tão incomodado.
— Espero conseguir fazer isso logo, odeio perder tanto tempo em algo.
— Eu sei, vamos, nos dê a sua melhor lembrança!
E a aula começou.
Donghyuck não ficou surpreso quando finalmente conseguiu conjurar um patrono corpóreo. Era como Mark havia dito, depois de se ter uma ideia de como funcionava, de como era a forma correta de se executar o feitiço, toda a prática ficava mais fácil.
Foram necessárias quatro tentativas, e somente na quinta, um pequeno pudu trotou ao redor deles. Ele era realmente pequeno, passava pouca coisa além dos joelhos de Donghyuck, com os olhinhos escuros e muito mais gentil do que os olhos astutos da águia de Mark.
O canadense tinha um sorriso aberto quando o animalzinho parou perto deles, orgulho escorrendo de seus olhos, e vê-lo passar a mão pela forma mágica, quase gasosa, de seu Pudu, fez o peito de Hyuck esquentar de tal maneira que ele considerou usar a imagem como fundo para quando fosse conjurar outro patrono no futuro. Era lindo, era… tudo que Hyuck queria na mesma cena.
Inferno, como ele se odiava pelas escolhas feitas precipitadamente por seu eu mais jovem.
— Bom, acho que acabamos. — após conseguir conjurar o patrono corpóreo, eles demoraram alguns bons minutos até Donghyuck aperfeiçoar a magia de enviar recados pelo animalzinho. Foi um processo mais rápido do que a parte inicial, não levou nem mesmo três tentativas. Depois de quase três semanas lutando consigo mesmo, passar trinta minutos domando a arte de enviar recados foi simples.
Simples até demais . Uma vez alcançando o objetivo, não haviam mais motivos para eles se encontrarem ali, sozinhos, sem curiosos bisbilhotando, sem amigos à espreita de um deslize para oficializá-los novamente, sem o mundo lhes distraindo do que estava bem ali com eles. Era final de semestre, voltando do Natal, eles teriam apenas mais alguns meses antes de se separarem pela última vez. Mark estava trilhando um bom caminho até a Academia de Aurores, ele tinha um ótimo histórico, e com o antigo Chefe da Seção dos Aurores lhe indicando, ele certamente estaria preso no treinamento e na rotina deles por alguns anos até assumir o cargo.
Assim como Donghyuck, que vinha, junto de seu padrasto, trocando cartas com um mestre de poções da Mui Extraordinária Sociedade dos Preparadores de Poções, planejando encontros e um possível mentor após a escola. Ele ainda iria trabalhar no boticário da família, mas ele queria muito mais do que ser apenas um preparador de poções mediano. E estava correndo atrás disso.
Céus, eles realmente estavam crescendo.
— Muito obrigado por me emprestar um pouco de seu tempo, hyung, mas sendo sincero, eu espero nunca mais precisar de tutoria. — a confissão no final fez Mark rir, nenhum pouco ofendido.
— Você já é muito bom trabalhando sozinho, Hae, acho que não vai encontrar outro feitiço tão complexo de aprender quanto esse.
— Que os céus te ouçam, eu realmente não quero mais gastar uma fagulha de energia com algo assim de novo. — suspirando, ele acabou bocejando no processo, piscando os olhos demoradamente ao ver que sua visão começava a ficar mais turva do que o normal. Com um tempus não verbal, como sempre fazia, de modo injustamente atraente, Mark soltou um barulhinho com a língua do outro lado.
— Passamos do toque de recolher.
— Não seria a primeira vez.
— Bom, mas hoje quem tá de ronda é a Weasley e o Zabini. — os nomes lançaram arrepios pelo corpo de Hyuck, muito acostumado com o fofoqueiro de sua casa e a garota sedenta por distribuir detenções. Principalmente com alunos de casas rivais. Weasley não lhe daria nem mesmo dois segundos antes de sair correndo lhe acusar para um professor, e ela certamente estaria rondando os andares mais inferiores, esperando qualquer sonserino desavisado.
— Seria errado eu estar torcendo para ela ter se perdido perto da cozinha?
— Lupin certamente ficaria muito feliz com isso.
— Merda, eu podia pedir pro Jeno fazer ele ir atrás da namorada… aposto que ela tá rondando as masmorras.
— Vocês ainda usam o espelho de dois sentidos?
Hyuck assentiu, embora com uma careta.
— Só em emergências, mas mesmo que eu quisesse, deixei o meu no dormitório. — grunhiu insatisfeito, rolando para fora do pufe e indo na mesma direção que o grifinório, para pegar suas coisas e marchar para a boca do leão.
Com os sapatos nos pés e a bolsa no ombro, Mark sorriu para o menor emburradinho ao seu lado.
— Vem, eu te acompanho. Deve ter algum privilégio em ser o Monitor-Chefe, sim?
Sentindo-se com quatorze anos novamente, Donghyuck acompanhou Mark pelos corredores. Seus ombros se esbarrando pelo caminho e com um silêncio confortável ao redor deles.
(...)
Donghyuck sabia que não iria conseguir fugir do Natal em família. Sua mãe não iria perdoar sua falta nem mesmo se o Ministro da Magia escrevesse uma carta à mão justificando e pedindo compreensão.
E por mais que doesse estar fazendo as malas sob o irritante olhar vitorioso de Jaemin, ele estava internamente aliviado de ter uma desculpa para voltar atrás com sua decisão. Passar o Natal sozinho na escola não era algo que ele queria, e por mais que fosse ser constrangedor encontrar seus antigos sogros na véspera de Natal, ele iria sobreviver a isso. Não era nada em comparação ao discurso que Nana havia feito no dia que descobrira sobre as cartas escritas com tinta vermelha que Hyuck vinha recebendo da mãe. Novamente, não havia como contrariar a senhora Lee.
Sentado em uma das cabines do meio do vagão, Hyuck tinha as pernas no banco em que sentava, um cobertor sobre elas e um livro apoiado nos joelhos. Confortável e muito bem aquecido. A paisagem pintada de branco do lado de fora só o fazia ansiar mais pela sua casa, seu quarto quentinho e com a privacidade que ele nem mesmo lembrava de ter desde os onze anos.
Droga, quem ele queria enganar? Ele estava morrendo de saudades de casa, de seus pais, do abraço gostoso de sua mãe, e até mesmo de conviver com Jeno. Eles se viam no castelo, mas o ar de casa era outra coisa, ele realmente sentia que tinha um irmão ali, não apenas um conhecido de outra casa.
Mas isso entraria para a lista de coisas que ele nunca confessaria em voz alta.
— Sabe, você bem que poderia tentar deixar esses livros de lado por alguns minutos. É férias, vamos descansar.
Levantando os olhos do livro que lia, Donghyuck lançou um olhar entediado para Jaemin do outro lado da cabine, o outro estava com uma pequena sacola cheia de doces, comendo-os como se fossem uma refeição e não apenas açúcar de procedência duvidosa.
— Pelo menos não são livros da escola, já é um avanço, não? — mostrou a capa para Nana, era um livro de romance trouxa. Ele já havia tentado ler alguns livros de fantasia, mas a forma como os trouxas retratavam magia sem ao menos conhecer parte dela era aterrorizante. Apenas um ou outro foram capazes de atiçar sua curiosidade, mas eram muito poucos.
— Sobre o que é?
— Ah, bom… — sem se dar conta de que definitivamente não queria entrar naquele assunto justamente com Jaemin, Donghyuck mordeu a língua por alguns segundos. — É só um romance bobo.
— Se for um romance com amigos de infância, eu juro por Merlim que vou trancar você com o Mark em uma cabine e…
Antes que ele pudesse falar qualquer atrocidade, a porta da cabine deles foi aberta com um baque, sem batidas nem nada para avisar, fazendo os dois saltarem em seus lugares. Parado na frente deles estava Jeno, que rapidamente abaixou o sorriso divertido e franziu a testa ao se deparar com a dupla com expressões obviamente culpadas, como se estivessem sido pegos no flagra. Ele fitou o irmão de cima abaixo, demorando um pouco sobre o livro nas mãos dele e então, encarando Jaemin, que tinha todo o rosto pintado de um vermelho gritante.
— Não sei se quero ou não saber, mas quando se trata de vocês, a ignorância pode ser uma benção.
Hyuck engasgou uma risada nervosa, esquecendo a vergonha e quase rindo da forma como Jaemin se retraiu de volta para sua casca, ficando ereto no canto oposto da porta, evitando o olhar de Jeno. Oh, que situação.
— O que você precisa?
— Ah, ah, ah, isso. — ele coçou a nuca com vergonha, de repente agindo como se não soubesse o que fazer. Donghyuck já sabia que nada bom iria vir depois do olhar rápido que Jeno lançou a Jaemin. — Eu vou aparatar com o Renjun, você poderia dar uma mãozinha pro Mark? Ele ainda não tem tanta confiança em longas distâncias e, sinceramente, não quero começar o Natal com alguém estrunchado.
Foi a vez de Jaemin engasgar uma risadinha. Jeno não pareceu diferente, apesar da expressão neutra, era possível ver seus olhos se curvando levemente em delicadas meias-luas. Malditos.
— Você quer que eu acompanhe meu ex-namorado para a casa dele? Sério, Lee Jeno?
Jaemin agora ria sem qualquer filtro, uma mão sobre a boca e outra na barriga. Desgraçado.
— Bom, não é exatamente pra casa dele…
Oh, pelas bolas de Merlim. Aquilo não podia ser real.
— Por que eu não posso levar o Renjun?
— Porque ele é o meu namorado.
Jaemin parou de rir. Donghyuck se odiou pela pontada de satisfação que sentiu com isso. Bem-feito.
— Neno-yah, por favor… é Natal, sabe? Quebra essa pra mim.
— Nem ferrando, eu quero ver a cara da mamãe quando você aparecer com ele. — quando Donghyuck fez menção de se levantar para pular no pescoço do outro, o trem parou com um solavanco, jogando-o de volta para o assento contra sua vontade. Jeno sorriu, piscando um dos olhos e saindo da cabine deles.
— Acha que eu posso faltar essa nossa reuniãozinha de Natal?
Olhando para o amigo desolado do outro lado, Donghyuck deu de ombros.
— Lidar com as consequências de seus atos é difícil, né?
— Disse o mestre em se arrepender das merdas que faz.
— Eu tenho experiência, posso falar sobre o assunto.
— Oh, cale a boca, vá segurar a mãozinha do seu ex-namorado e sumir com ele para sua casa, seu otário.
— Com inveja só porque meu ex ainda fala comigo sem desejar minha morte?
— Vá pro inferno!
— Te vejo lá semana que vem, amor.
Com o malão encolhido na jaqueta jeans que usava, Donghyuck se despediu adequadamente do amigo e correu para alcançar os outros na plataforma. Antes de chegar em Jeno, ele passou pela família de Chenle, recebendo abraços dos pais do lufano, e até mesmo esbarrou na família de Jaemin, que o recebeu como se ele fosse um Na de sangue e tudo. Ele demorou um pouco ali, encontrando apenas Mark perto do ponto de aparatação.
— Eles já foram?
— Uhum, disseram que não queriam perder a festa. — as bochechas do canadense estavam vermelhas, ele sabia exatamente do que Jeno estava falando.
— Não temos como fugir disso.
— Hm.
— Se minha mãe vier falar com você…
— Pode deixar, Hyuck, eu vou deixar claro que não estamos pensando em voltar. — respondeu secamente, mas ainda soando simpático como sempre.
Sem querer estender aquela conversa ainda mais, Donghyuck estendeu o braço para Mark. Com um estalo, eles estavam de frente para os portões da propriedade dos Lee. Tudo parecia calmo até então, mas não demorou muito para alguém avisar sobre a chegada deles e duas cabeças aparecerem pela porta, juntas, com sorrisos largos.
A mãe de Donghyuck e a mãe de Mark estavam lado a lado, de braços dados, sorrindo para eles.
Esse Natal seria tão agradável.
(...)
Donghyuck tinha uma forte suspeita de que algo estava acontecendo pelas suas costas.
Conversando com seu primo, Taeyong lhe confessou que a família de Mark havia chegado para o Natal quase uma semana inteira antes deles, e que ambas as matriarcas das famílias vinham passando horas em uma das salas privadas da casa, com feitiços de isolamento acústico e tudo. O pai de Jeno até tentou intervir, com medo delas estarem tramando algum plano mirabolante, mas acabou se tornando vítima de uma pegadinha engenhosa e infantil armada pela mãe de Hyuck, que o deixou com orelhas gigantes por um dia inteiro.
Elas podiam negar até a morte, mas quando Mimsy acompanhou Mark até o quarto de hóspedes que ficava de frente para o de Donghyuck, ficou claro para todos que nada seria coincidência naquele feriado.
Mimsy alegou que não havia outro quarto para Mark, pois aquele quarto tinha sido dele desde criança e, portanto, ele iria continuar a usá-lo agora. Hyuck suspeitava de que a elfa doméstica tivesse marcado presença nas reuniões de suas mães, a criaturinha parecia muito satisfeita ao tecer comentários sobre como eles haviam crescido bem e em como adoraria preparar mais cestas de piquenique romântico para eles. Coisinha perversa.
Até mesmo os lugares à mesa de jantar foram estrategicamente organizados, com eles sentados lado a lado em todas as refeições, seus cotovelos se tocando e trocando pedidos tímidos por pedaços de torta.
Na tarde do segundo dia, após um almoço em que seus pais, e até alguns primos traidores, soltaram indiretas para eles, Donghyuck tirou Jeno de Renjun e puxou o irmão para seu quarto, ignorando os protestos dele e do namoradinho mimado, o forçando a se sentar em sua cama.
Jeno ficou quieto, assistindo o outro agarrar uma almofada bonita e cara e socá-la até que algumas penas estivessem escapando pela costura.
— Dois dias e você já está perdendo os cabelos?
— Argh! Por que eles fazem isso comigo?! Eu só queria um feriado tranquilo! — antes que ele pudesse explodir a almofada, Jeno a retirou gentilmente de suas mãos, sorrindo adoravelmente e guiando-o a sentar-se consigo na cama. Depois de um momento de silêncio, com os dedos de Jeno acariciando as mãos de Donghyuck, este acabou cedendo e caindo nos braços do irmão.
— Deve ser muito sufocante, né?
— Uhum. — resmungou, deixando de lado seu orgulho e abraçando a cintura de Jeno, fungando e choramingando. Ele sentia muita falta de casa, de sua família ali com ele, e especialmente de Jeno.
Suspirando, Jeno usou uma das mãos para afagar o cabelo de Hyuck.
— Hyuck, posso te perguntar uma coisa?
Um grunhido foi a resposta, com os braços de Donghyuck apertando Jeno um pouco mais. Jeno interpretou isso como um sinal positivo.
— Por que você ainda não tentou voltar com o Mark, mesmo querendo isso mais do que tudo?
Silêncio.
Jeno suspirou mais uma vez, mantendo suas mãos sobre as de Donghyuck enquanto tentava confortá-lo. Ele já esperava não ser respondido tão facilmente. Era o tipo de coisa que apenas Jaemin, ou o próprio Mark, seriam capazes de arrancar de Donghyuck.
— Eu entendo perfeitamente porque vocês terminaram, sério, sei que na época parecia ser a decisão certa. Mas o que não faz sentido pra mim é por que vocês estão tão relutantes em tentar de novo. Vocês dois são tão óbvios com o que sentem, óbvios até demais. Você ainda olha para o Mark como se fosse completamente apaixonado por ele, como se pudesse largar tudo por ele, e, porra, ele te olha como se você ainda fosse o Sol dele. É tão óbvio que chega a ser irritante. Por que vocês simplesmente não voltam? Por que não podem admitir que o que aconteceu lá atrás foi um erro e tentar consertar agora? Não é mais fácil sair dessa corda bamba e realmente tentar de novo?
Novamente, sem respostas. Mas Jeno não fazia questão delas de qualquer forma.
O jantar naquela noite foi mais silencioso do que o anterior, os mais novos estavam quietos e os adultos, apesar das tentativas, não conseguiram arrancar muito deles. Taeyong conseguiu conter eles com suas novidades no trabalho, não que ouvir sobre a Suprema Corte dos Bruxos fosse divertido, mas Johnny logo invadiu a conversa com suas aventuras em uma reserva de dragões nas Montanhas Altai.
Sem mais constrangimentos propositais, a conversa aconteceu naturalmente, um jogo de quadribol foi marcado para o dia seguinte, seguido de uma rodada de filmes após o jantar, mais alguns jogos e por fim, entraram em outro tópico proibido; Na Jaemin.
Foi a vez de Jeno e Renjun serem envergonhados em frente a toda família, e estando do outro lado, Donghyuck entendeu o porquê de fazerem isso com ele. Havia uma espécie de prazer sádico em vê-los vermelhos e desorientados, desesperados para sair correndo da mesa.
Mas Donghyuck sabia que não podia brincar com fogo, então ele apenas comeu e manteve-se quieto, com medo de ser o próximo na fila de linchamento.
— O garoto Na é realmente um rapaz excepcional.
— Lembro-me das rosas que ele me trazia quando namorava os meninos. Era tão bom ser sogra do Nana, um doce. Yoona soube educá-lo como um verdadeiro nobre. Ah, que desperdício...
Mark não conseguiu conter a risada, engasgando em um pedaço de batata assada tentando desesperadamente não chamar atenção do casal que estava sendo atacado. Donghyuck sentiu um o ar do chute que Renjun deu na canela de Mark esbarrar em sua própria, em reflexo, ele recolheu as pernas para debaixo da cadeira e manteve a cabeça baixa, mordendo o lábio para não rir.
— Não fiquem assim, rapazes. Vocês sabem que aprovamos o namoro de vocês. Vocês são adoráveis juntos.
— Mãe...!
— Oh, querido, não fique constrangido. Sabemos que vocês ainda gostam do Nana, mesmo ele não estando aqui.
— Mãe!
— Olha a hora! Mimsy! — a elfa apareceu em um estalo, ela rapidamente ajeitou a fronha cor de rosa com lacinhos e se virou com seus grandes olhos para Sooyoung, mãe de Hyuck. — Está na hora de dormir, querida, poderia acompanhar os meninos para os quartos?
— Claro, minha senhora.
— Muito obrigada, Mimsy.
Como se tivessem seis anos, as cadeiras dos quatro foram magicamente arrastadas para fora da mesa, Mimsy liderando o caminho e cantarolando algo sobre colocar os bebês para dormir, pois bichos-papões poderiam encontrá-los.
Não havia um único ser lúcido naquela casa.
Com cada um em seu quarto, Mimsy aparatou novamente. Sem surpresa alguma, Donghyuck ouviu uma das portas sendo abertas e, logo em seguida, outra porta se fechando, desta vez mais próxima de seu quarto. Renjun nem mesmo se dava ao trabalho de fingir que estava dormindo no quarto separado para ele.
Bom, como julgá-lo? Ainda era cedo, estava frio e não havia companhias em seus quartos. Ir atrás do namorado para conversar sob um cobertor quentinho era algo completamente compreensível.
Donghyuck piscou, não se deixando pensar muito e sentando-se na cama em um rompante.
Com os pés enfiados nas pantufas, ele foi até a porta, lançando um olhar cauteloso pelo corredor, assegurando-se de que não havia ninguém por perto antes de cruzar para o outro lado. Ele fitou a porta branca por alguns segundos, ponderando se estava ou não prestes a cometer uma loucura da qual se arrependeria mais tarde. Ele sabia que poderia se arrepender se algo desse errado, mas também sabia que se não fizesse nada, iria se remoer pelo que poderia ter sido.
Entre o arrependimento de fazer e o de não fazer algo, ele optou pelo que ao menos lhe traria novos traumas para serem processados.
Com a testa encostada na madeira da porta, ele ergueu o punho e bateu duas vezes, baixo o suficiente para que ninguém além deles ouvisse. E quando estava certo de que nem mesmo Mark havia os ouvido, pronto para sair dali e esquecer aquele surto de coragem no meio da noite, a porta se abriu em um clique suave. Não haviam olhos lhe fitando pela fresta da porta, ele supôs que fora um gesto automático com a varinha, mas isso não diminuiu sua ansiedade.
Oh, Merlim, o que diabos estou fazendo?
— Eu sei que é você, Hae.
Ele era tão previsível assim? Céus, ele precisava fazer alguma coisa, mudar de estratégia, mudar de vida… como surpreender alguém que lhe conhece melhor do que si mesmo?
Com passos abafados pelas pantufas, ele entrou no quarto.
Sentado no meio da cama de casal, com as costas escoradas na cabeceira e as pernas esticadas por debaixo do cobertor grosso, estava Mark. Ele vestia um pijama de inverno, assim como Hyuck, sua camisa notoriamente mais amassada e torta, como se ele tivesse acabado de colocá-la ao ouvir baterem na porta. Os óculos redondos estavam dobrados e seguros sobre a mesinha de cabeceira, ao lado da varinha e de um exemplar de Grindewald; Anos de Ascensão.
Aquela era a versão favorita de Mark para Donghyuck. Apenas ele, apenas Mark, sem gravatas coloridas, sem distintivos de autoridade, sem a atmosfera da escola, apenas Mark sob a luz amarelada do quarto, casualmente confortável no meio dos mesmos cobertores que eles usavam quando crianças. Apenas Mark.
— Posso soar confiante demais, mas achei que você viria mais cedo.
Hyuck sentiu as bochechas queimarem, mas riu pelo nariz, não conseguindo se conter ali dentro. Toda a cena era acolhedora demais para ele insistir em ficar tenso e nervoso.
— Eu sou previsível demais pra você, né?
— Um pouco, mas é difícil esconder algo de quem você conhece há quase quatorze anos. — afastando o cabelo dos olhos, Mark bateu suavemente no espaço vazio ao seu lado. — Vem, sei que você não veio aqui pra ficar de pé na porta.
— Por que não? A vista é legal daqui… — Donghyuck comentou inocentemente, arrancando um sorriso largo do outro.
— Garoto, vem logo.
Com o coração batendo loucamente em seu peito, Donghyuck obedeceu. Jogando as pantufas de qualquer jeito no chão e engatinhando até estar debaixo do cobertor grosso, quentinho e com cheiro de Mark. Ali, escondido de todos, ele suspirou relaxando, sentindo o peso do mundo sumir de suas costas. Havia muitas preocupações rondando-lhe nos últimos dias: suas notas, sua família, seu futuro, Mark, seus amigos e seus relacionamentos complicados, Mark... Mas ali, nada disso importava. Era apenas ele ao lado da pessoa que ele confiaria a vida de olhos fechados.
— Cansado? — Donghyuck resmungou afirmativamente, puxando um dos travesseiros de Mark para abraçar, roubando mais da metade do cobertor no processo, e se aconchegando ainda mais perto do corpo do outro, que irradiava calor como sempre, perto o suficiente para que o canadense pudesse pousar a mão em seu cabelo, iniciando um cafuné muito bem vindo. — Sabe, eu fiquei feliz quando soube que você viria, Hae. Eu disse que não iria tentar te convencer, mas odiava a ideia de você ficar sozinho no Natal.
— Era só não me deixar sozinho.
Mark ficou em silêncio, os dedos trabalhando ternamente pelos fios do mais novo ao que ele apenas observava seu rosto tranquilo, parcialmente escondido pelo travesseiro.
— Você só precisava pedir. Eu não te deixaria sozinho.
Sem pensar nas consequências, Donghyuck apenas grunhiu satisfeito, enroscando-se ainda mais perto do corpo quente de Mark e permitindo-se pegar no sono.
