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Escrever era algo que Sam gostava. Fazer linhas e mais linhas, parágrafos, páginas, livros de palavras era muito reconfortante. Gostava de como isso acalmava sua ansiedade, criando ansiedade em mais pessoas. Sam não era muito desconhecido, ele já tinha uma quantidade de fãs muito grande, e isso o deixava feliz, saber que as pessoas gostavam do que escrevia o deixava feliz.
Certo dia qualquer, Sam estava voltando para casa, pensando no seu próximo livro que escreveria, distraído. Ele não percebeu que, enquanto atravessava a rua, um carro em alta velocidade se aproximava, de ladrões que haviam acabado de roubar um banco. E, bem, ele percebeu tarde demais.
O baque de seu corpo batendo no carro foi alto, a dor latejante era forte, e quando sentiu seu corpo cair no chão, após voar metros de distância, o mais puro vazio se instaurou. Não ouvia nada, não sentia nada, não sabia nem sequer se ele estava vivo ou não.
De repente, um clarão o fez resmungar. Coçando os olhos, Sam acordava aos poucos, a visão embaçada, a luz do sol muito forte em seu rosto. Se sentou com dificuldade, massageando a cabeça que doía na nuca, suspirando. Então, uma espada foi apontada em sua direção, e ele soltou um grito, se afastando rapidamente.
— Parado aí. — A voz atrás do capacete disse, e ele bateu nas pernas se outra pessoa, sentindo metal em suas costas.
Que porra é essa, Sam se levantou, se afastando de todos até suas costas bater no tronco de uma árvore, a sobra grande das várias folhas fazendo ele conseguir ver melhor o que estava acontecendo. Um grupo de… Cavaleiros? Estavam parados, todos apontando suas espadas para ele. Sentado em um cavalo, um homem sem expressão encarava Sam com tanta intensidade que Sam se sentiu exposto.
Ah, Sam reconhecia aquele rosto. Cabelos curtos e negros, mandíbula definida, corpo definido, olhos afiados… Não. Não, não, não. Aquilo não era possível. Sam levantou uma mão e se beliscou, ainda encarando a cena à sua frente. Ele percebeu que estava muito bem acordado.
— Alto lá! — Um dos cavaleiros disse, se aproximando com a espada apontada para ele, em direção a sua garganta.
— Uh… Oi? — Olhou confuso para todos, sentindo as mãos suando enquanto o homem no cavalo descia do mesmo e se aproximava.
— E quem é você? — Levantando o nariz, ele olhou Sam de cima, embora tivessem quase a mesma altura, Sam se sentiu muito pequeno.
— S-Sou Sam... Um simples camponês... — Sua voz saiu falha, e Sam se xingou internamente por isso.
— Por um acaso, você sabe quem sou eu? — Uma de suas sobrancelhas se levantou, os braços sendo cruzados no peito.
"Oh, céus, que músculos", Sam pensou, se perdendo por alguns minutos nos músculos marcados na roupa.
— O rei Mark...? — Arriscou, voltando a olhar o rosto dele.
— Exatamente. Por que, então, você queria me roubar? — Mark se aproximou, e Sam percebeu os centímetros que o outro era maior.
Se continuasse encarando em linha reta, poderia dar de cara com o pescoço do outro, e embora parecesse tentador, o rei poderia o decapitar.
— B-Bem, eu... — Levantando o olhar, Sam viu de perto os olhos castanho escuro, quase negros, de Mark.
Sam se xingou muito, muito mesmo, por tê-lo criado. Mark era, no passado, linhas de um personagem do que Sam acreditava ser o homem perfeito. Agora, ele queria se bater. Pois Mark era realmente o homem mais perfeito que já viu em toda a sua vida, e isso fazia Sam se sentir intimidado, com vergonha, até.
Não conseguiu esconder a vermelhidão que subiu em seu rosto ao ver o rei de tão perto. Lindo, Mark era lindo.
— E-Eu... — Sam tentou novamente falar, mas não conseguia, apenas encantado com a aparência do rei.
— O gato comeu a sua língua? — Mark descruza os braços, virando para seus homens — Tragam ele conosco, verei o que fazer mais tarde.
Então, Sam foi arrastado para o palácio. Não era muito agradável, na verdade. Os cavaleiros o seguravam em ambos os braços e o puxava pela estrada de terra, felizmente, não estavam muito longe do palácio, então chegaram rápido no local. O ruim é que assim que chegaram, Sam foi levado até as masmorras e jogado na primeira cela que encontraram.
Ele não queria acreditar que aquilo era real. Era apenas um sonho, é claro! Quem diria que ele sonharia com Mark, não é mesmo? Aquele mesmo Mark que é a personificação da perfeição, aquele mesmo Mark que Sam desejou existir, aquele Mark que Sam faria de tudo para ter.
Andando de um lado para o outro, Sam tentava não surtar. Ele desejou tanto, tanto que alguém como Mark existisse, que esse alguém cuidasse dele, assim como ele cuidaria desse alguém, ele seria completamente desse alguém, faria de tudo por ele. E agora, ele apenas pensava em como. Como eu fui encontrar Mark em pessoa?! era o que ele pensava, quase chorando.
Para encontrar o próprio Mark, ele deveria ter feito algum tipo de magia para entrar em seu próprio livro – aquele que ele fez questão de fazer da vida dos protagonistas e secundários uma merda. Mas isso não fazia sentido! Entrar em um livro?! Você só pode estar de brincadeira!
— Você pode parar quieto um segundo? — A voz grave de Mark diz, e como um comando, Sam para imediatamente, encarando a parede — Por que tentou me roubar?
— Eu… — A realidade começou a cair nos ombros de Sam, fazendo sua boca tremer — … Não lembro…
— Como assim “Não lembro”? A pancada foi muito forte em sua cabeça? — Sam viu pelo canto Mark se apoiar nas grades, a voz fria causando arrepios em sua espinha.
Sam sentiu suas pernas fraquejarem, se deixando cair de joelhos, sentado em suas pernas. Sua visão ficou turva com as lágrimas, observando as mãos, elas ainda pareciam suas, é claro, ele criou um personagem parecido com ele, o egoísmo, o ódio de si mesmo. Esse personagem era insignificante. Em dado momento, ele tenta roubar o rei, causando em sua morte. Embora muitos percebessem, apenas ele sabia o real motivo disso. Sam se odiava, mais do que tudo.
Não achava que desejar tanto a morte fosse, realmente, vir. Mas não podia fazer nada além de puxar seu cabelo e soluçar. Estava tão absorto em sua tristeza que perdeu os sentidos de todo o resto, e quando uma mão tocou seu ombro, ele pulou e se afastou, batendo as costas e a cabeça na parede com força. Gemendo de dor, Sam massageou a cabeça, secando as lágrimas com a outra mão.
— Parece que algo te aflige, o que aconteceu? É por não se lembrar de nada além de seu nome? — Mark estava parado em sua frente, abaixado, perto novamente.
— Sim, eu… Quem, exatamente, sou eu? — Embora tivesse dito para convencer o rei, era um questionamento muito genuíno.
— Eu também não sei. — Mark disse cauteloso, se aproximando calmamente — Mas… Você pode criar um novo você. Um você de verdade.
— Você… — Sam abriu um sorriso pequeno — Está tratando muito bem alguém que tentou te roubar.
— Não posso julgar alguém incapaz de se defender. Eu sou um rei, não um monstro, por favor. — Mark riu, se sentando de frente para Sam, no chão.
Sam abaixou a cabeça novamente, sentindo seu coração martelando em seu peito. Ele era realmente perfeito, tudo o que Sam mais queria, alguém que ele poderia confiar, se abrir, amar. Uma mão colocou uma mecha de cabelo loiro escuro atrás de sua orelha, e levantando o olhar, percebeu que o rei o encarava sem interrupção, seus olhos pareciam brilhar levemente de encanto.
Levou a mão até a do outro com hesitação, cobrindo a mão do rei com a sua, fazendo uma eletricidade percorrer ambos os corpos. Sam deitou o rosto na mão de Mark, o encarando com tanto encanto que parecia alguém olhando para o seu deus, desejando que fosse notado por ele. Por sorte, o deus de Sam o notou bem antes.
— Por que não me matou logo? — Sam sussurrou, vendo Mark se aproximar lentamente.
— Seus olhos. — Mark respondeu no mesmo tom — Foi como se eu caísse no mar azul sem escapatória, me prendendo e não me deixando fugir…
Quando sentiu a respiração bater em seu rosto, Sam foi fechando os olhos, até sentir os lábios macios do rei contra os seus. Sam foi para o paraíso naquele instante, se morresse, poderia morrer feliz. Isso o fez perceber que era tudo muito real, então segurou os ombros desesperadamente os ombros do rei, não querendo que ele fugisse, descendo as mãos pelo peitoral e descansando na cintura de Mark.
Sam soltou um suspiro satisfeito quando sentiu o beijo ser retribuído e mãos tocarem seus ombros. Depois de um tempo, eles se afastaram, se encarando, ofegantes. Sam mal podia acreditar no que acabou de acontecer, sua respiração falhava. Mark, então, ficou vermelho dos pés à cabeça e se afastou desajeitadamente, se levantando.
— Ah… Eu… — Agora era Mark quem ficou sem palavras, e Sam se levantou também, sorrindo.
— O que foi, vossa majestade? — Deitando a cabeça para o lado, Sam sorriu traiçoeiro, Mark ficando ainda mais envergonhado.
— Você… — Cobrindo a boca com o punho, Mark tossiu — Você está liberado. — Tentou soar frio, mas sua voz falhava.
— Majestade, eu não me lembro de quem sou… — O olhar de Sam ficou falsamente triste, mas convincente, e Mark o olhou preocupado — Vou ir para onde, se apenas conheço a vossa majestade?
— Bem… — Mark olhou para fora da cela, vazia — Gostaria de se tornar um cavaleiro do palácio?
— Talvez — Sam pensou, batendo o polegar levemente nos lábios — Se a vossa majestade me recompensar.
— E o que seria essa recompensa? — Mark sorriu de canto, Sam podia ver que eles pensavam a mesma coisa.
— Não sei… — Se aproximando, Sam sussurrou na orelha do rei — Talvez com alguns beijos do rei Mark…?
Mark soltou uma risada nasalada, se afastando de Sam. Sam se sentiu entristecido, mas sua mão foi logo segurada pelo outro, que o guiava para fora da cela, escada a cima, possivelmente para a área de treinamento de novos soldados.
— Vou pensar no seu caso.
Antes de saírem, Sam se aproximou e deixou um selar demorado nos lábios do rei, seguindo em frente e fingindo que nada aconteceu. Os guardas ficaram extremamente confusos ao verem o rei sair das masmorras segurando a mão do recém prisioneiro, mas nenhum deles ousou dizer alguma coisa.
E quando Sam se tornou o guarda real de Mark, ninguém se atreveu a falar nada ainda, mas todos pensavam a mesma coisa, que o rei estava dando privilégios para quem tentou o roubar. Porém, quando foi anunciado o casamento de Mark e Sam, as coisas ficaram mais claras.
Agora, se qualquer um ousasse olhar de forma fria para Sam, Mark imediatamente o mandava para o calabouço. E o mesmo acontecia se olhares indesejados fossem em direção a Mark, mas Sam era um pouco mais… Intenso. Então ninguém gostava de ser punido por ele – pois, quem foi punido por Sam, nunca mais voltou para contar história.
