Work Text:
Se você perguntasse a ele, Mark diria que sua vida é como um caso não resolvido. Nos primeiros anos, você tenta se sair bem, mas em dado momento, não havia mais pistas, então o caso era arquivado, esquecido. Anos depois, algo aconteceria, que faria esse caso voltasse a tona e ser, finalmente, encerrado.
Na verdade, esqueça o encerramento do caso. A vida de Mark é como um caso arquivado. Tentou muito, então, foi deixado de lado, em qualquer sentido de sua vida. Sua família, sua profissão, seus relacionamentos. Por isso ele sempre tentou se mostrar forte, de valor, que merecia estar naquele lugar.
Foi por sua tormenta interna que ele afastou Sam quando este começou a avançar. Mark piscou repetidamente, tentando não chorar na frente do outro homem, e esse se afastou, o olhando com preocupação no olhar. Sam era gentil, muito gentil, e isso fazia a cabeça de Mark girar. Por que ele era tão gentil com ele?
— Mark? Tem algo errado? — Sam levantou as mãos, preocupado, olhando para Mark com tanta dor que Mark sentiu seu peito afundar.
— Sim, quer dizer, não, quer dizer-... — Mark prendeu a respiração, se afastando mais.
Depois de muito insistir, Mark decidiu dar uma chance a Sam. Mesmo quebrado, Sam o tratava como se fosse a pedra mais preciosa do mundo, e isso certamente amoleceu seu coração. Agora, estavam na casa de Sam, iriam assistir algum filme depois de jantar fora, mas Sam tentou beijá-lo, e Mark queria, mas não podia.
— É difícil… — Mark soltou o ar, abraçando as pernas, sentado no sofá.
— Ah… — Sam murmurou, desanimado — Passei dos limites? Sinto muito, eu-...
— Não! — Mark balançou a cabeça rapidamente — Não é você, Sam… É aquele clichê, “Não é você, sou eu”. Mas é que… — Mark arriscou olhar Sam, que o olhava com atenção.
— É que…? — Sam incentivou, se aproximando calmamente, mas com medo de o tocar e o afastar.
— Você não sabe, mas eu… — Lembranças do passado tomaram conta de sua mente, o medo aumentando — Eu sou… eu…
— Mark, você pode falar qualquer coisa comigo, eu vou estar aqui para te apoiar, não te julgar, muito menos te xingar. Eu gosto de você. — A declaração sincera de Sam fez o coração de Mark esquentar.
— Eu sou trans — Desviando o olhar, Mark ganha a coragem que precisa — Não sei como você iria reagir a isso porquê-... Foi por causa disso que me fechei a relacionamentos. — Escondendo o rosto nas pernas, Mark tenta evitar o choro que vinha se acumulando — Dói muito gostar de alguém e essa pessoa começar a te tratar mal por você ser quem você é.
O silêncio se instaurou no ambiente, e a cada segundo que passava, Mark sentia seu desespero aumentar. Levantando o olhar levemente, viu por cima do braço Sam ainda o encarando, com a boca levemente aberta e o olhar de surpresa. Quando Sam se movimentou novamente, Mark se afastou, o medo tomando cada célula de seu corpo.
— Sabe, você- Você pode só esquecer que me conheceu! — Mark disse antes que Sam tivesse a chance — Você me bloqueia de todos os lugares, e eu não vou para onde você normalmente fica! Só, por favor, não me machuque…
— Te machucar? Você acha que eu tocaria em você desse jeito? — Mark rapidamente negou com a cabeça, fazendo Sam levantar uma sobrancelha — Então como assim machucar?
— Acredite se quiser, machucar os sentimentos de uma pessoa, dependendo da situação, pode ser pior que dor física. — Mark murmurou, se levantando em um pulo — Eu vou embora.
— Espera, Mark! — Sam levantou também, parando em frente ao policial, o seguindo.
Quando Mark iria abrir a porta, Sam o girou e prendeu entre a porta e seu corpo. Mark soltou um grito assustado, olhando Sam com os olhos arregalados. Sam levantou a mão lentamente, a fazendo descansar na lateral do rosto do policial. Mark tremeu com o toque quente, respirando com dificuldade.
— Eu não vou te machucar, de qualquer forma. — Sam fez um carinho na bochecha de Mark com o polegar — Eu apenas fiquei… Surpreso. Não conheço muitas pessoas trans.
— … “Muitas”...? — Mark franziu as sobrancelhas, confuso.
— Foram algumas pessoas que acabei perdendo contato com o tempo. Mas isso não vem ao caso. O que importa é que você é você, eu… — O rosto de Sam ficou vermelho — … Me apaixonei por você, por sua personalidade — O rosto de Sam parecia um tomate.
Mark também corou violentamente, abrindo a boca em surpresa. De todos os cenários que se passaram em sua mente, nenhum deles era parecido com aquele. Um sorriso começou a surgir nos lábios de Mark, mal conseguindo conter a felicidade que estava sentindo.
Esquecendo de todos os seus medos, todas as suas inseguranças, Mark avançou. Seus lábios bateram contra os de Sam, este que soltou um som surpreso, mas logo retribuiu. Sam segurou o rosto de Mark com uma mão, e a outra ele segurou sua cintura, colando seus corpos, e Mark segurou os ombros de Sam, abraçando seu pescoço em seguida.
Sam decidiu aprofundar o beijo, demonstrando todo o que sentia por Mark, que recebia de bom grado, pela primeira vez, se sentindo genuinamente amado. Quando Mark percebeu que estava ficando sem fôlego, ele se afastou relutante, bufando para recuperar o ar, e Sam respirava fundo também, os olhos entreabertos encarando Mark.
— Nunca imaginei que nosso primeiro beijo fosse assim… — Sam disse sem fôlego, sorrindo grande — Mas não estou reclamando. Se eu pudesse te beijar todo dia para ver o que eu sinto, eu beijaria.
Mark soltou uma risada, sem acreditar no que acabou de ouvir. Mark afastou seu corpo de Sam, deslizando as mãos pelo peitoral do outro, se surpreendendo com o quão musculoso era, e enfiando o rosto na curva de seu pescoço, soltando o hálito quente contra a pele, que viu se arrepiar imediatamente.
— Você é tão bom para mim… — Mark sussurrou, deixando um selar curto na pele do outro, este que tremeu.
— Só tento o meu melhor… Você sabe, tratar o meu príncipe da melhor forma possível. — Sam abraçou a cintura de Mark, o puxando para o sofá.
— Que tal assistirmos o filme? — Mark sugeriu, mais animado.
— Acho uma ótima ideia. — Sam respondeu, se afastando para sentar no sofá.
Ambos se sentaram no sofá, Mark ainda receoso, mas sua hesitação sumiu ao passo que foi puxado pela cintura e sendo abraçado por Sam, que estava meio deitado no sofá. Mark apoiou sua cabeça no peito do outro, se aconchegando para assistirem ao filme juntos.
Horas mais tarde, Mark estava quase dormindo no peito de Sam, este que começou lentamente a se movimentar, e Mark percebeu que o filme havia se encerrado. Levantando lentamente e atordoado, ele se sentou no sofá, coçando os olhos e bocejando, virando o rosto para onde Sam estava.
Os olhos azuis olhavam Mark com intensidade, e Mark percebeu também, um carinho genuíno, que ele poderia jurar que Sam direcionava a coisas que ele amava, mas Mark poderia apenas estar com muito sono, então ele descartou completamente essa possibilidade. Assim que se pôs de pé, o sono se esvaiu, e um gemido frustrado saiu de seus lábios.
— Tudo bem? — Sam perguntou, se aproximando.
— Sim, só perdi o sono… — Mark resmungou, se espreguiçando.
— Não seja por isso. — Sam segura o pulso de Mark e o puxa para seu quarto.
Ambos se deitam na cama de casal, se aconchegando um ao lado um do outro, braços ao redor um do outro, cabeça de Sam apoiada na de Mark. Eles ficaram em silêncio, esperando o sono vir para poderem dormir. Minutos se passaram e Mark ainda estava com os olhos muito bem abertos, ele lentamente se virou para Sam, que também ainda estava acordado.
— Que tal a gente conversar enquanto espera pra gente dormir? — Mark sussurrou, desviando o olhar.
— Hmm… Claro. Quer me contar alguma coisa? — Sam o apertou nos braços, o incentivando a falar e demonstrando que estaria ali em qualquer momento.
— É… Desculpa, por mais cedo. — Mark se enfiou ainda mais nos cobertores, a voz saindo abafada e baixa — É só… Traumas do passado.
— Quer me falar sobre? Se não, tudo bem, eu entendo. — Sam começou a fazer um cafuné na cabeça de Mark, tentando mostrar que estava ali por ele.
— Acho que você merece saber… — Se sentando na cama, Mark olhou para Sam, que o seguiu e cruzou as pernas — Aconteceu há bastante tempo… Quando ainda estava no ensino médio.
As memórias daquele dia vieram à tona.
Mark caminhava pelos corredores, segurando livros que levaria para a biblioteca de sua escola. Era uma quinta-feira chata, e a professora de geografia havia faltado. A escola era rígida, então ele decidiu ir estudar na biblioteca, como a maioria dos alunos faria. Foi quando viu ele.
Ele era o típico garoto popular jogador de algo que Mark não se importava, mas passou a se importar ao passo que se tornaram mais próximos. Ele queria ajuda nas matérias, e Mark, mesmo não sendo muito sociável, decidiu dar o braço a torcer. Acontece que, naquele momento, eles estavam mais próximos do que deveriam.
Assim que os olhos verdes caíram sobre o corpo de Mark, ele se aproximou, sorrindo grande e quase fazendo eles serem expulsos pela barulheira. Decidiram ir para uma área isolada para conversarem o quanto quisessem e estudassem até o sinal tocar. Se sentaram no gramado, e Mark deixou de lado seus livros.
— Tudo bem? — Ele perguntou, e Mark acenou positivamente com a cabeça.
— Sim. Eu só… Queria te falar uma coisa… — Mark murmurou, segurando seu cabelo que ainda era muito grande, ele odiava.
— Claro, pode me falar, doce. — Ele esperou ansiosamente, um sorriso galanteador nos lábios.
— Eu… Eu sou um garoto… — Mark murmurou, desviando o olhar.
— Uh? Não ouvi, gracinha, pode repetir? — Se aproximando, ele segurou o queixo de Mark e o levantou para o encarar.
— Eu sou um garoto. — Mark disse em um suspiro — Um garoto trans.
Como se sua mão tivesse queimado, ele se afastou, o olhando em choque. Os olhos estavam arregalados, e Mark instantaneamente se arrependeu. Era claro que saberia o que era isso, e era claro que ele iria o olhar dessa forma, com tanto nojo que Mark poderia vomitar. Ele se levantou e deu uma desculpa que Mark não prestou atenção e foi embora.
Os próximos dias foram tortuosos, eles tinham aula na mesma sala, e ele, é claro, contou para todo mundo, o canalha que não sabe guardar nada para si mesmo. Um dia, indo beber água, Mark encontrou ele sozinho no bebedouro, e é claro que foi falar com ele.
Mark não se lembrava muito bem, seu cérebro fazendo o favor de deletar aquele momento traumático de sua vida. Mas uma coisa em específico estava enraizada em sua mente, sempre voltava a ouvir quando estava sozinho à noite em sua cama.
“Não acredito que você mentiu pra mim esse tempo todo. Eu quero você longe de mim, nunca mais olha na minha cara”
Mark não percebeu quando começou a chorar no meio da história, mas sabe que assim que terminou, Sam se aproximou mais, o abraçando apertado, deixando ele expressar suas emoções. Era algo doloroso, claro, Sam sabia como era passar por algo semelhante, embora não fosse exatamente igual.
Quando se acalmou, Mark se afastou, um sorriso pequeno nos lábios. Sam se sentiu melhor ao ver o homem à sua frente feliz, mesmo que minimamente, por saber que ele estava ali. Mark então puxou Sam para se deitarem novamente, se aconchegando um no outro novamente.
— Sabe, eu nunca achei que fosse capaz eu acabar gostando de alguém novamente. — Mark disse, baixo, como se fosse um segredo — Se continuar regando o broto, talvez ele se torne uma linda flor.
— O que quer dizer com isso? — Sam levantou uma sobrancelha, se fingindo de desentendido.
Agora, Mark sentia que o seu caso havia sido encerrado. Depois de passar anos com ele arquivado, juntando poeira e aranha, um detetive curioso o achou, achou provas que ele poderia ser encerrado. E assim, daria paz às pessoas que foram afetadas por ele, e também colocaria o criminoso atrás das grades.
Mark gostava de metáforas. Era uma boa forma de explicar o que sentia. Em outras palavras, agora ele sentia que sua situação não resolvida no passado, o relacionamento – que acabou antes mesmo de começar – estava, finalmente, virando passado. Agora, ele apenas se importava com o que Sam achava.
E Sam o achava o homem mais bonito do mundo, então Mark também achava que ele mesmo era o homem mais bonito do mundo.
