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Como de costume a lanchonete estava o mais completo caos, funcionários gritando números de pedidos que não paravam de chegar, os clientes se amontoando nas mesas e conversando em voz alta, as garçonetes e garçons correndo de um lado para outro com os lanches, por vezes derrubando alguma bebida ou algum prato. No meio de tudo isso estava Yeonjun fritando hambúrgueres e montando eles, o garoto sentia o estômago embrulhar com o cheiro constante da carne gordurosa, o aroma forte de queimado que subia da chapa após fritar o que parecia ser o milionésimo hambúrguer. Essa mistura de cheiros desagradáveis estavam impregnados em si, nas suas roupas, em sua pele e Yeonjun não via a hora de ir embora dali. Fazia pelo menos 5 anos que trabalhava naquele lugar, uma lanchonete pequena e escondida entre tantas outras que havia na cidade e que não tinha nada de diferente a oferecer, mesmo assim conseguia ter um punhado de clientes fiéis que frequentavam religiosamente em especial durante os fins de semana que era quando as coisas ficavam mais caóticas. Era óbvio que Yeonjun não pretendia ficar trabalhando ali para sempre, ele só precisava juntar um pouco mais de dinheiro, um pouco mais de coragem e um pouco mais de ambição.
O suor escorria por todo seu corpo na cozinha mal ventilada que ficava no mesmo local onde também ficava a área dos clientes, para que eles pudessem ver como tudo era feito, como tudo era limpo e higienizado, mas a questão é que não era e ninguém ligava pra isso. Qualquer um que comesse naquele lugar por mais de uma vez na semana não estava exatamente preocupado com a própria saúde ou se quem estava fritando seus hambúrgueres usava luvas ou se eles se quer estavam na validade. Naquela noite Yeonjun sonhava com o momento em que o sino preso a porta pararia de soar anunciando a chegada de mais algum grupo barulhento de adolescentes que pediriam por mais lanches gordurosos, mas então lá estava ele soando novamente e fazendo com que o garoto imediatamente rolasse os olhos. Porém, quando levantou a cabeça para fuzilar com o olhar quem quer que fosse entrando naquela maldita lanchonete, Yeonjun não teve a visão que esperava. Não se tratava de um grupo de adolescentes e sim de apenas um garoto que mais parecia um gatinho assustado. Seus olhos estavam arregalados, marejados de lágrimas, os ombros encolhidos e olhava de um lado para outro como se procurasse por alguém ou alguma coisa. A imagem do menino desconhecido despertou algo em Yeonjun, um sentimento que nunca havia sentido antes por ninguém, uma necessidade de correr até aquele garoto e protegê-lo, mas do quê? O lugar estava realmente lotado e não havia mais mesas disponíveis o que só pareceu aumentar o desespero do garoto que então olhou para frente e encontrou Yeonjun o encarando. Um calafrio percorreu seu corpo e logo tratou de desviar o olhar, encarou o chão e pôde ver os all star do menino caminhando até o balcão.
— Oi... — Uma voz baixa e trêmula disse e Yeonjun logo levantou a cabeça encarando o garoto que agora podia ver o quanto era extremamente lindo.
A verdade era que Yeonjun não era um atendente, ele apenas cozinhava, mas iria abrir uma exceção pois não admitiria qualquer outro atendendo aquele garoto parado a sua frente.
— Olá, boa noite. O que deseja pedir? — Falou de forma um pouco desajeitada afinal não sabia lidar com clientes, ainda mais um cliente como aquele.
O garoto ponderou por longos minutos, tornou a olhar de um lado para outro, passou as mãos pelo rosto. Seus lábios tremiam levemente indicando que estava prestes a chorar o que o levou a morder o lábio inferior para impedir isso. Toda sua linguagem corporal deixava claro o desconforto que estava sentindo. As mãos inquietas brincavam com os botões na blusa de flanela grande demais que estava vestindo e constantemente se ajeitava no banco em frente ao balcão onde se sentou.
— Eu quero... uma água... É, uma água, por favor. — Ele disse enquanto afirmava sua fala balançando a cabeça levemente.
— É pra já! — Respondeu Yeonjun antes de ir até a geladeira onde ficavam as bebidas e pegar uma garrafa de água. Vendo o estado em que se encontrava o menino, fez questão de abrir a garrafa para ele e colocar o canudo ali dentro antes de empurrar a bebida em sua direção.
— Obrigado... — Ouviu a voz fraca falar novamente e em seguida um sorriso igualmente fraco.
Yeonjun pretendia ficar ali por perto, disfarçando e observando aquele menino, pensando numa forma de descobrir seu nome, o que houve com ele e porque estava sozinho naquele inferno de lugar tão tarde da noite, contudo, mais um pedido foi feito o obrigando a se retirar e ir fritar mais hambúrgueres rançosos e fora da validade. Os fritou e preparou o mais rápido que pôde, pouco se importando se estaria mal frito ou gelado por dentro. Não conseguia ver potencial o suficiente no paladar daquelas pessoas para que pudessem notar esses detalhes. Sinalizou que os lanches estavam prontos e retornou para perto do menino que agora chorava copiosamente enquanto abraçava o próprio corpo. Suas lágrimas pingavam sobre o balcão como se houvesse uma pequena nuvem carregada sobre ele. Yeonjun queria abraçá-lo e perguntar o que estava acontecendo, mas obviamente não podia fazer isso então tentou agir da forma o mais normal possível, lutando contra aquele instinto inexplicável. Se aproximou de onde estava o garoto e começou a disfarçar limpando o balcão, podia ouvir os soluços que vinham de seu choro o que lhe partia o coração.
— Com licença... Você está bem? Desculpa perguntar assim, tá tudo bem se não quiser falar comigo... — Falou de forma cuidadosa enquanto via o garoto levantar o rosto todo molhado de lágrimas, os olhos vermelhos e em seus lábios um biquinho. Yeonjun sentiu o coração disparar.
— Não estou... — Ele respondeu em meio a um soluço.
— Como se chama, pode me dizer? Meu nome é Yeonjun.
— Beomgyu...
— Prazer Beomgyu. — Respondeu sorrindo genuinamente para ele. — Por que você não bebe um pouquinho da sua água? Pra se acalmar.
A expressão de Beomgyu que já não era muito boa pareceu ficar pior e o garoto se encolheu mais. Por alguns momentos Yeonjun se desesperou pensando no que havia dito de errado.
— Me desculpa, mas eu... Eu não tenho dinheiro pra pagar essa água... — As lágrimas agora escorriam por seu rosto de forma ainda mais rápida e abundante.
— Não tem problema, não se preocupa com isso. Você pode tomar, ok? É por conta da casa... — Yeonjun piscou para Beomgyu enquanto sorria e ficou feliz que conseguiu lhe arrancar um sorriso mesmo que pequeno.
— Obrigado... — Ele falou ainda sorrindo antes de pegar a garrafa e começar a beber a água gelada.
Yeonjun tentou ao máximo não o encarar fixamente, mas era extremamente difícil desviar o olhar de Beomgyu, ele era hipnotizante. Seus olhos castanhos eram profundos, como os de alguém que já passou por muitas coisas mesmo aparentando ser tão novo, seu cabelo curto e escuro tinha vários fios irregulares e rebeldes, mas isso combinava perfeitamente com a estrutura de seu rosto e com todas as coisas que o compunha. Enquanto o encarava por alguns minutos Yeonjun sentia que nem estava mais no caos da lanchonete e sim em algum lugar calmo e sereno, onde havia apenas os dois, no entanto, não demorou para a realidade puxá-lo de volta quando um grito irrompeu pelo ambiente. Era uma adolescente, claramente alterada após beber sabe se lá quantas cervejas, berrando com o namorado que havia olhado para uma das garçonetes. Brigas como aquelas eram absolutamente comuns diariamente e sempre terminava da mesma forma, gritaria, talheres e pratos quebrados e os funcionários que de nada tinham culpa limpando tudo. Yeonjun estava farto daquilo, já havia aguentado demais durante todo o dia. Voltou a encarar o menino a sua frente que parecia ainda mais assustado com aquela confusão e em um rompante de impulsividade, pensando em como faltava apenas algumas horas para o fim de seu expediente o mais velho teve uma ideia.
— Ei — Chamou suavemente fazendo Beomgyu olhá-lo. — Você quer sair daqui? Sei que mal me conhece e eu prometo que não sou algum maluco, tá tudo bem você recusar, mas... Eu sei que não está bem e eu não aguento mais ficar aqui, posso te fazer companhia. O que acha?
Para surpresa de Yeonjun os olhos de Beomgyu se acenderam ao receber aquele convite e um sorriso maior apareceu em seu rosto fazendo com que o garoto atrás do balcão sentisse como se seu peito fosse explodir com a sensação que lhe tomou e que nem ao menos conseguia explicar.
— Me espere aqui, okay? Eu só vou me trocar — Yeonjun disse antes de disparar em direção ao vestiário deixando Beomgyu sozinho em meio ao caos que acontecia.
Yeonjun queria ser o mais rápido possível, no entanto, não se atreveria a sair dali acompanhado com aquele cheiro horrendo de gordura impregnado em todo seu corpo. Tirou toda sua roupa, as guardando dentro de um saco no fundo da mochila e então tomou banho esfregando com vitalidade o sabonete em sua pele até que não restasse qualquer pista de que ele havia passado as últimas 8 horas trabalhando em uma cozinha abafada e fedorenta. Quando terminou, se vestiu e colocou seu boné virado para trás pois não tinha tempo suficiente para arrumar o cabelo de forma decente. Escovou os dentes e pela primeira vez em muito tempo usou o perfume que deixava guardado em seu armário. Yeonjun não se lembrava qual foi a última vez que se preocupou tanto com sua aparência quanto naquela noite.
Trabalhar de forma incessante as vezes tinha suas vantagens, apesar de não ser muitas, mas naquele momento o fato do chefe de Yeonjun adorá-lo e permitir que ele saísse algumas horas mais cedo quando fosse necessário iria fazer toda diferença. Retornou ao balcão onde estava Beomgyu que parecia perdido em pensamentos e com o rosto ainda molhado de lágrimas. A confusão que havia se iniciado prosseguia agora já com vários pratos quebrados e muita bagunça, realmente a hora certa de meter o pé dali.
— Vamos lá? — Yeonjun falou e viu Beomgyu assentir vagarosamente. Ele se levantou da cadeira e então os dois garotos caminharam em direção a saída do local.
Enquanto saíam Yeonjun podia sentir o olhar dos outros funcionários sobre ele, muito provavelmente o julgando por estar indo embora no momento mais crítico, mas ele realmente não ligava pra isso. Agora do lado de fora respirou bem fundo o ar "fresco" que de fresco de verdade não tinha nada, já que era a cidade cheia de poluição, porém, era bem mais fresco que o ar dentro da lanchonete. Por alguns minutos eles caminharam em silêncio. Yeonjun não sabia o que se passava na cabeça de Beomgyu, mas queria desesperadamente saber. Pensava de que forma poderia perguntá-lo o que houve, o que o levou até a lanchonete aquela noite, mas queria fazer isso sem parecer intrometido ou indelicado.
- Meus pais me expulsaram de casa. – Beomgyu disse como se estivesse lendo os pensamentos de Yeonjun.
Alguns segundos se passaram até que ele tivesse coragem de responder algo tão complicado como aquilo.
- Eu sinto muito... Quer me contar os motivos pra eles terem feito isso? – Falou em um tom cheio de cautela.
Novamente o silêncio se instaurou enquanto caminhavam na calçada. Era tarde e não havia muitas pessoas na rua, mas muitos carros ainda passavam de um lado para outro na avenida que cortava a cidade. Em contraste com o dia quente, a noite estava fresca e por vezes era possível sentir até um vento gelado que causava calafrios.
- Quero..., mas a gente pode ir pra algum lugar? Eu não queria ficar assim na rua, tenho medo... – Respondeu Beomgyu abraçando o próprio corpo.
- Claro que podemos, eu não moro longe. Se importa se formos pra lá?
A resposta veio em forma de um aceno com a cabeça e Yeonjun sorriu fraco. Nem conseguia imaginar a sensação de ser expulso de casa pelos próprios pais e não era para menos que Beomgyu estivesse tão mal e assustado, isso também explicava sua enorme vontade de o acolher. Como se soubesse desde o início que ele passava por algo tão difícil. Yeonjun se sentia aliviado por Beomgyu estar lhe dando aquele voto de confiança, afinal, ainda era um completo desconhecido e ficava mais aliviado ainda de pensar que havia sido ele a estar em seu caminho aquela noite e não alguém que seria capaz de fazê-lo mal.
Em menos de dez minutos os dois chegaram até o prédio onde Yeonjun morava. Definitivamente não era dos melhores e olhando de longe mais parecia um prédio abandonado, mas ao menos ficava em uma rua tranquila. Ambos permaneceram calados até chegarem ao apartamento que ficava no sexto andar, o último. O local era pequeno, mas Yeonjun tinha orgulho do ambiente confortável que havia conseguido criar ali e gostava dele exatamente da forma que era.
- Bem-vindo, fique à vontade. – Falou com um sorriso no rosto após destrancar a porta e deixar que Beomgyu entrasse primeiro.
- Obrigado... Seu apartamento é lindo... – Ele disse com um leve sorriso enquanto olhava em volta.
A primeira coisa que chamava atenção ao olhar para o interior do apartamento era a grande janela ao fundo, em sua sacada havia diversas plantas muito bem cuidadas. No centro da sala se encontrava um bem muito precioso para Yeonjun, seu sofá extremamente confortável que comprou em um brecho e que havia sido praticamente de graça. Apesar de ter um rasgo aqui e outro ali em seu estofado, realmente não era nada demais e o conforto compensava por qualquer mínimo defeito. Logo a frente de seu móvel preferido estava a televisão pequena, que mais servia de enfeite já que não tinha muito tempo para assistir. Atrás do sofá a apenas alguns poucos metros estava a cozinha.
- Não há de quê. Você gostou mesmo? Eu adoro ele, mesmo sendo tão pequeno. – Yeonjun respondeu enquanto trancava a porta por onde entraram.
- Gostei mesmo, é aconchegante aqui...
- A intenção é essa mesmo... que seja aconchegante. – Respondeu com um sorriso orgulhoso no rosto agora se aproximando de Beomgyu. – Você quer tomar algo ou comer? Tenho água, café, chá... E bom, pra comer tem lasanha congelada... – Falou em meio a um sorriso sem graça.
Beomgyu sorriu com a gentileza de Yeonjun.
- Eu aceito um chá, se não for incomodar... – Disse timidamente.
- É pra já! Pode se sentar, ok? Sinta-se em casa. – Yeonjun falou enquanto ia em direção a cozinha.
O garoto se sentou no estofado e imediatamente foi abraçado pelo seu conforto, mas não era apenas isso que o estava fazendo se sentir abraçado naquele momento. Era principalmente a hospitalidade de Yeonjun e sua gentileza, afinal de contas, ele não precisava estar fazendo tudo aquilo por um desconhecido. Mas desde o momento em que entrou na lanchonete e foi atendido por ele, Beomgyu se sentiu menos perdido, menos angustiado. Conseguia sentir um calor vindo de Yeonjun, que nunca havia sentido em ninguém. Ao mesmo tempo que isso lhe trazia conforto, mas também trazia uma ansiedade, pois em algum momento teria que ir embora e não fazia ideia para onde.
- Prontinho, mas toma cuidado pois tá bem quente... – A voz de Yeonjun despertou Beomgyu de seu emaranhado de pensamentos e então sorriu fraco enquanto pegava a caneca de cerâmica de onde saía um fio de fumaça do líquido quente que havia dentro.
- Obrigado...
- Eu acabei nem perguntando qual sabor você queria, me desculpa por isso, mas espero que goste de camomila. – Ele disse agora sentado na outra ponta do sofá e com as pernas cruzadas.
- Eu gosto sim, não precisa se desculpar... Obrigado por... por tudo isso. – Beomgyu falou sem jeito e deu um pequeno gole do chá que estava realmente muito quente.
Um sorriso surgiu de imediato no rosto de Yeonjun e ele nem ao menos sabia explicar o motivo, mas estava lá e fez com que Beomgyu acabasse sorrindo também.
- Não há de que... Eu fiquei muito preocupado no momento que te vi entrando na lanchonete. Você parecia muito assustado...
- Eu estava mesmo... Eu moro... Morava... Há mais ou menos meia hora de onde fica a lanchonete e eu saí de casa correndo depois da briga com meus pais... Eu saí correndo porque eu não tinha ideia do que fazer, não tenho pra quem ligar e aí eu cansei de correr... E quando eu parei caiu um pouco a ficha de que eu estava no meio da rua, sozinho e durante a noite então eu vi a lanchonete e só entrei... – Beomgyu contou, suas mãos estavam trêmulas só de lembrar da briga com os pais então agarrou a caneca com ambas as mãos.
- Eu sinto muito... Ninguém deveria ter que passar por isso... – Yeonjun falou enquanto o olhava fixamente e sentia o coração apertar com seu relato.
- Você tem razão... Não deveria mesmo, mas eu imaginava que alguma hora aconteceria. Meus pais são muito religiosos, gostam das coisas de uma certa maneira e eu não compartilho da mesma fé que eles e além de tudo... Eu sou trans... – Após contar encarou Yeonjun com hesitação, esperando por alguma reação que indicasse que ele desaprovava ou aprovava aquilo, mas ele continuava com a mesma expressão compreensiva e balançava a cabeça positivamente de forma leve, como quem quis “vá em frente”. Engoliu em seco, sentindo os ombros relaxarem e deu mais um gole no chá antes de continuar – Eles descobriram hoje... Eu recebi uma encomenda, era uma bandeira da comunidade trans e a minha mãe abriu o pacote sem eu saber. Ela esperou meu pai chegar em casa e eles me confrontaram... Eu tentei negar, mas não deu... Principalmente pela forma que me visto eles com certeza já desconfiavam.
Yeonjun bebeu o último gole de seu chá e colocou a caneca no chão ao lado do sofá. Se aproximou um pouco mais de Beomgyu e então tocou delicadamente em seu braço, fazendo um carinho suave no local com o polegar.
- É um absurdo que tenham feito isso com você... Não consigo entender os pais que agem dessa forma com os filhos, por algo que não faz mal a ninguém... Colocando você em uma situação tão vulnerável. – Sentia um bolo na garganta enquanto falava aquelas coisas. Queria chorar de raiva, mas também queria ir atrás dos pais dele e falar poucas e boas.
Beomgyu sentia as lágrimas escorrendo por seu rosto novamente. Era um misto de sentimentos, a tristeza por seus pais lhe rejeitarem, por não ter mais um lar e ao mesmo tempo o fato de estar recebendo acolhimento de onde menos esperava, de alguém que conhecia a apenas algumas horas e estava lhe tratando melhor do que a maioria dos que já havia passado por sua vida durante anos.
- Eu posso te abraçar? – Yeonjun perguntou ao ver que ele chorava e assim que recebeu seu consentimento, pegou a caneca agora vazia em suas mãos e colocou junto da outra ao lado do sofá. Se aproximou um pouco mais de Beomgyu, desfez as pernas cruzadas e então lhe envolveu com ambos os braços, o apertando contra si.
Naquele momento Beomgyu se permitiu chorar enquanto seus braços envolviam a cintura de Yeonjun, retribuindo seu abraço e praticamente derretendo de conforto no dele. Conforme os minutos foram passando o abraço foi se tornando ainda mais confortável ao passo que se encaixavam mais um ao outro. Beomgyu agora estava sentado entre as pernas de Yeonjun, com a cabeça deitada em seu ombro enquanto era abraçado por um de seus braços e a mão livre acariciava seus fios. Uma chuva fraca começou a cair do lado de fora e era possível ouvir o som das árvores farfalhando com o vento que agora estava mais forte, mas ali dentro do apartamento havia apenas calor e conforto.
- Você pode ficar aqui comigo... – Yeonjun quebrou o silêncio que havia perdurado por longos minutos e sua fala surpreendeu tanto Beomgyu que ele acabou desfazendo o abraço para poder encará-lo.
- Você quer dizer... Está noite?
- Não... Eu quis dizer, o tempo que você precisar. – Ele respondeu categoricamente.
Ainda atônito Beomgyu encarou o outro por alguns minutos, sem dizer nada e esperando que a qualquer momento ele fosse começar a rir e dizer “óbvio que é só por uma noite”, mas não foi isso que aconteceu e sua surpresa só aumentou.
- Mas... – Começou sem saber exatamente o que diria a seguir. – Você tem certeza disso...? Digo, e se eu fosse um maluco que quisesse te fazer mal?
Yeonjun acabou deixando escapar uma risada ao ouvir o comentário do garoto.
- E você é um maluco que quer me fazer mal? Porque você não parece nem um pouco com um... E se quisesse me fazer mal, já teria feito.
- Eu não sou, mas... Eu poderia ser... – Beomgyu disse ainda encarando Yeonjun sem nem ao menos piscar.
- Não poderia, eu vi você contar sua história. Eu sei que é verdade e eu sei que precisa de ajuda nesse momento, não vou deixar você ficar por aí.
Um leve beicinho se formou nos lábios de Beomgyu, as lágrimas voltando a deslizar por seu rosto que ainda estava molhado da sessão de choro anterior. Vê-lo chorar daquela forma partia o coração de Yeonjun, mas também lhe dava ainda mais certeza do que estava fazendo. Esticou as mãos e cuidadosamente secou as lágrimas do rostinho macio com os polegares antes de voltar a falar.
- Eu vou pegar roupas pra você dormir mais confortável e cobertas, ok? Juro que esse sofá aqui é o melhor do mundo pra dormir. – Falou sorrindo e então se levantou. Antes de seguir para seu quarto Yeonjun deixou um beijinho no topo da cabeça de Beomgyu que sorriu enquanto seu rosto esquentava.
Em seu quarto Yeonjun foi até a pequena cômoda onde guardava suas roupas e pegou uma blusa bem larga, uma de suas calças de moletom mais confortáveis e duas cobertas já que com a chuva a noite havia esfriado consideravelmente. Na sala Beomgyu aguardava pacientemente, verificando seu celular que foi a única coisa que levou consigo após sair de casa, para ver se seus pais haviam tentado entrar em contato, mas não havia qualquer sinal deles e aquilo fez seu coração quebrar um pouco mais.
- Aqui está! Roupas quentinhas pra você dormir e... – A fala de Yeonjun morreu antes de sair por seus lábios ao ver que Beomgyu estava chorando de novo e dessa vez parecia mais intenso já que todo seu corpo tremia e ele soluçava enquanto olhava para a tela do celular que estava molhada com as gotas de lágrimas que caíam de seus olhos. – Ei... O que houve? Seus pais disseram alguma coisa? – Perguntou cheio de preocupação e sentando-se no sofá novamente ao lado do garoto.
Beomgyu lentamente negou com a cabeça e Yeonjun imediatamente entendeu.
- É por isso que está chorando, não é?
Logo após sua pergunta veio o aceno positivo com a cabeça. Novamente a raiva retornou e Yeonjun queria ir até a casa dos pais de Beomgyu e falar o quanto eles não prestavam, nem como pais e nem como seres humanos e que independente do deus que eles acreditavam, qualquer entidade que se preze teria vergonha de ter pessoas tão terríveis como fiéis. Mas não poderia deixar aquela raiva dominá-lo, não naquele momento. Deixou as roupas e as cobertas do outro lado do sofá e abraçou Beomgyu, o apertou contra o próprio corpo com ainda mais firmeza do que havia feito anteriormente e o garoto prontamente se deixou ser abraçado, encolheu o corpo como se estivesse em um casulo e as lágrimas continuavam a sair de forma incessante.
- Você tá seguro aqui, ok? Você tá seguro... – Yeonjun sussurrou para confortá-lo. Seus dedos percorriam os cabelos macios do garoto em seu abraço.
- Eu... Eu não quero dormir sozinho... – Ouviu Beomgyu dizer com a voz trêmula e ainda em meio a soluços.
- Vamos dormir juntos então, tá bom? Eu não ofereci, pois não queria te deixar desconfortável. – Explicou e se afastou um pouco para poder olhá-lo. – Eu trouxe roupas quentinhas e confortáveis pra você trocar. – Falou com um leve sorriso e delicadamente tirou alguns fios de cabelo que haviam grudado na testa de Beomgyu. – O banheiro fica logo ali. – Apontou para a porta que ficava ao lado a de seu quarto. – Eu vou te esperar aqui e depois vamos nos deitar, ok?
Novamente a resposta veio em forma de um aceno com a cabeça. Yeonjun lhe entregou as roupas e Beomgyu as pegou antes de se dirigir ao banheiro. Ao chegar até lá a primeira coisa que fez após trancar a porta foi se olhar no espelho. Já fazia alguns meses que sua aparência não era das melhores, mas agora estava absurdamente pior. O rosto inchado de tanto chorar, os olhos profundos e avermelhados, as olheiras marcadas e uma expressão que deixava transparecer toda tristeza e angústia que sentia naquele momento, pensando em como seus pais não estavam nem aí se ele estava bem ou não, em como não haviam se arrependido de tudo que fizeram, das atrocidades que falaram. Balançou a cabeça tentando se livrar daqueles pensamentos, ficar remoendo não adiantaria nada.
Começou a tirar a roupa que vestia sem se atrever a encarar seu reflexo e ao pegar a blusa que Yeonjun havia lhe dado, um sorriso ameaçou aparecer em seu rosto percebendo o quanto era larga e o tecido tão macio. Vestiu a peça de roupa que de tão longa atingiu seus joelhos, em seguida vestiu a calça de moletom suspirando satisfeito com o aconchego daquelas roupas. A verdade era que tudo ali exalava aconchego e conforto. O apartamento, os móveis, a luz quente e até mesmo o chão de tacos, mas principalmente a presença de Yeonjun. Ele seria capaz de trazer conforto até para os lugares mais desconfortáveis, Beomgyu não tinha a menor dúvida disso.
Enquanto esperava por Beomgyu, Yeonjun se apressou até seu quarto para se trocar também. Sua cama apesar de ser de casal não era muito espaçosa, o que implicaria que ele e Beomgyu teriam que ficar bem próximos um do outro para caberem ali. Esse pensamento fez seu coração acelerar um tanto e um sorriso apareceu em seu rosto. De forma alguma via aquele momento tão vulnerável do garoto como uma oportunidade de se envolver com ele, mas era um fato que se sentia extremamente bem estando em sua presença e sabia também que ele queria estar próximo então daria todo carinho e afeto que Beomgyu merecia. Seu sorriso aumentou ainda mais quando ele apareceu na porta do quarto vestido com suas roupas. Eram claramente muito mais largas que seu corpo, o que só o deixava ainda mais adorável.
- Você ficou ótimo... – Disse sorrindo para ele que retribuiu com um sorriso tímido. – Me desculpa eu acabei não te esperando na sala, resolvi aproveitar pra me trocar também e ajeitar tudo por aqui.
- Tá tudo bem. Eu não vou incomodar dormindo com você? Vou ocupar seu espaço... – Beomgyu falou sentindo os ombros se encolherem um pouco.
- De forma alguma. Você não incomoda, ok? Qualquer jeito que achar que tá incomodando, saiba que você não está. Eu que te convidei a ficar afinal, lembre-se disso. – Yeonjun piscou para ele enquanto sorria. – Eu vou apagar as luzes da casa e verificar se as janelas estão trancadas, já venho.
Beomgyu foi deixado sozinho no cômodo junto com o misto de sentimentos e de pensamentos que dominavam seu corpo e mente. Era difícil acreditar que pudesse haver no mundo alguém como Yeonjun. Será que estava sonhando? Será que havia sofrido um acidente após sair de casa e estava em coma num hospital enquanto sonhava com um menino lindo e gentil que lhe dava abrigo, carinho, roupas quentes pra dormir? Quanto mais pensava, mais longe iam suas suposições, mas sabia que todas elas estavam erradas. Yeonjun era real e aquilo tudo era real. Desde os piores aspectos daquela noite, até os melhores. Um trovão soou alto do lado de fora assustando Beomgyu e o fazendo despertar do labirinto de pensamentos que havia se metido.
- A chuva está aumentando a qualquer momento deve faltar luz. – Yeonjun falou ao retornar para o quarto apenas alguns segundos depois.
- Está mesmo... – Respondeu distraidamente olhando pela janela que havia no quarto.
- Você tem medo de escuro? Eu posso deixar a luminária acesa caso se sinta mais confortável.
- Eu prefiro... – Beomgyu disse sem jeito e viu o outro sorrir e assentir.
Yeonjun caminhou até uma luminária que ficava na mesma parede que estava encostada a cama, mas bem no canto do quarto e a ligou. A luz era quente e suave assim como a luz de todos os cômodos da casa. Apagou a luz do teto e voltou até Beomgyu, o tocando no ombro e indo junto com ele até a cama. Puxou as cobertas para que pudessem se deitar e assim que o fizeram o espaço que restou entre os dois era mínimo. Beomgyu sentia um frio na barriga que não sabia se era constrangimento, ansiedade ou alguma das milhares de coisas que o outro lhe fazia sentir ao mesmo tempo, mas era fato que se sentia um tanto envergonhado pois nunca havia dividido a cama com alguém, ainda mais com outro homem. Yeonjun por sua vez não estava com vergonha, mas sim nervoso. Sua vontade era de abraçar Beomgyu e que eles dormissem assim agarradinhos, mas não queria fazer isso sem ter certeza de que ele queria também então apenas ficou ali deitado, olhando para o teto e olhando de soslaio para o garoto ao seu lado.
- Posso te pedir uma coisa? – A voz de Beomgyu preencheu o cômodo.
- Claro. – Disse enquanto se ajeitava na cama, deitando-se de lado para poder olhá-lo.
- Você pode me contar algo sobre você? Eu falei tanto de mim e dos meus problemas, mas... Não sei nada sobre você e eu gostaria de saber... – Respondeu ainda deitado de barriga para cima e olhando para cima, mas ao terminar de falar se virou para encarar Yeonjun, se deparando com um leve sorriso em seu rosto.
Ele não conseguia se lembrar a última vez que havia se aberto sobre sua vida para alguém, mas aquela parecia uma ótima oportunidade. Confiava em Beomgyu mesmo o conhecendo a menos de vinte e quatro horas então respirou fundo e começou.
- Eu também não tenho uma boa relação com meus pais. Eu saí de casa assim que terminei os estudos e eles não me apoiaram nem um pouco nisso. A convivência com eles era muito difícil porque queriam muito que eu escolhesse uma carreira, um rumo e eu não sabia qual rumo seguir e era impossível refletir sobre quando eles ficavam no meu ouvido e me pressionando constantemente. Não dá pra pensar sobre futuro quando você tá sempre frustrado e se sentindo um fracasso, né... Então cansado disso eu saí de casa não muitos dias depois da minha formatura, levando só minhas roupas numa mochila e vim morar aqui na cidade com um amigo que havia conhecido na internet. Foi maluquice, eu sei, mas na época eu estava realmente desesperado e essa era a única alternativa. Meus pais me ligavam constantemente e no começo eu atendia, ouvia eles berrarem comigo e tentava conversar, mas depois de um tempo eu parei de atender as ligações. Eles me ameaçavam dizendo que iam ligar pra polícia, o que era ridículo porque eu já era maior de idade. Eventualmente, eles viram que não tinha jeito e desistiram... Eu fiquei bem mal de ver que tinham largado mão de mim, ao mesmo tempo também notei que eles nunca se arrependeram de nada apesar de verem que as atitudes deles me levaram a fazer o que fiz e se eu voltasse pra casa ia ser tudo igual ou pior então aos poucos eu só me senti ainda mais certo do que estava fazendo apesar das dificuldades que passei. – Yeonjun não percebeu, mas uma lágrima escapou por seus olhos e Beomgyu prontamente levou as mãos ao seu rosto para secá-las com os polegares enquanto dava fim a pequena distância que existia entre eles.
- Você foi muito corajoso e seus pais foram muito babacas. – Foi tudo que conseguiu dizer após ouvi-lo. – Obrigado por ter me contado...
- Obrigado por ter perguntado... Fazia tempo que não conversava com alguém sobre isso, acho que estava precisando. – Respondeu com sinceridade. Ainda havia um bolo em sua garganta, fazia meses que não se permitia chorar, mas não seria aquela noite em que se entregaria a o que lhe afligia constantemente. Contudo, saber que Beomgyu provavelmente estaria ali quando acontecesse era um enorme incentivo.
- Você pode se abrir comigo sempre que quiser, eu vou cuidar de você também... – Dito isso Beomgyu se aproximou ainda mais e abraçou sua cintura com carinho. Não demorou até que sentisse um dos braços de Yeonjun lhe abraçando de volta enquanto um sorriso pintava seu rosto.
- Eu sei que vai... – Disse ele antes de subitamente bocejar.
Aquele abraço tão gostoso somado ao barulho relaxante da chuva caindo do lado de fora fizeram o cansaço do dia inteiro de trabalho dar as caras e agora Yeonjun sentia as pálpebras pesadas, mas ele resistia pois queria passar mais algum tempo encarando Beomgyu daquela proximidade. Ele era tão lindo. De qualquer distância, mas de pertinho daquela forma era de tirar o fôlego.
- Você precisa descansar agora... Fecha os olhos. – Beomgyu sussurrou e seus dedos foram até os fios macios de Yeonjun para dar início a um cafuné delicado.
Sua resposta foi um resmungo sonolento, os olhos não foram mais capaz de se manterem abertos com aquele carinho tão gostoso em seus cabelos e em poucos minutos o garoto se encontrava profundamente adormecido. Beomgyu admirou Yeonjun dormindo tão serenamente até chegar ao limite de sua exaustão.
A chuva e a ventania perduraram por toda noite enquanto os dois meninos dormiam na cama que apesar de não ser muito espaçosa agora tinha espaço de sobra, pois estavam completamente abraçados um ao outro, praticamente se fundindo por baixo das cobertas macias. Após os movimentos preguiçosos durante o sono, Yeonjun acabou deitado de barriga para cima enquanto Beomgyu continuava abraçado a seu corpo e com a cabeça deitada em seu peito.
Foram os primeiros feixes de luz do dia que acordaram Yeonjun. Como de costume ele havia esquecido de fechar as cortinhas da janela, de tantas manhãs seguidas passando por aquilo agora já nem se estressava mais de ser acordado daquela forma. Mas ao olhar o relógio preso a uma das paredes, pôde ver que era apenas sete horas da manhã e não queria obrigar Beomgyu acordar tão cedo por sua causa após tudo que havia passado. Apesar de relutante em sair do aconchego de seu abraço, se desvencilhou de seus braços com toda delicadeza e se levantou da cama. Espreguiçou o corpo e passou as mãos pelo rosto tirando os fios de cabelo que haviam grudado em sua pele enquanto dormia. Caminhou rapidamente até a janela e fechou as cortinas podendo observar que já não chovia mais, mas o céu continuava carregado de nuvens escuras e o vento seguia forte. Deu uma última olhada no garoto adormecido na cama, os fios castanhos espalhados pelo travesseiro, o rostinho amassado, o braço estendido sobre o local onde antes estava deitado. Yeonjun sorriu e se retirou do cômodo antes que acabasse desistindo e voltando para cama. Como morava sozinho, Yeonjun não se preocupava com tanta frequência em fazer compras e a sua geladeira praticamente vazia era uma prova viva disso. Mas agora não estava mais sozinho e definitivamente não faria Beomgyu comer lasanha congelada no café da manhã como ele mesmo fazia muitas vezes por falta de alternativa. Queria que ele se alimentasse bem, portanto, se arrumou, vestiu suas galochas e pegou o guarda-chuva antes de sair de casa para ir ao mercado. Não sabia até quando ele dormiria e por isso deixou um bilhete preso na geladeira avisando onde havia ido.
Beomgyu foi acordado pelo som estrondoso de um trovão do lado de fora. Se pôs sentado na cama rapidamente sentindo o coração disparado e o fato de Yeonjun não estar deitado ao seu lado lhe desesperou um pouco mais. Respirou fundo enquanto abraçava as próprias pernas e criava coragem para se levantar. Apesar do susto e da preocupação de estar ali sozinho, a verdade era que a cama estava extremamente quentinha e confortável. O relógio na parede indicava que era onze horas da manhã, havia dormido demais. Deitou-se novamente apenas para se espreguiçar antes de finalmente sair da cama. Assim que se aproximou da porta pôde sentir o cheiro de café fresco o que lhe arrancou um sorriso. Yeonjun estava na cozinha que assim como todo o resto do apartamento era um cômodo pequeno, mesmo assim o garoto havia conseguido abrir espaço para uma mesa com duas cadeiras. A mesa retrátil estava guardada fazia meses e nunca havia aparecido uma oportunidade para usá-la afinal de contas não recebia visitas.
- Bom dia flor do dia. – Falou sorrindo ao ver Beomgyu se aproximando.
- Bom dia... Eu dormi demais, me desculpa. – O ouviu dizer e parecia realmente envergonhado por ter acordado aquela hora.
- Mas não precisa se desculpar por isso, você precisava mesmo descansar e foi bom pois deu tempo de eu ir comprar comida decente pro café da manhã. – Disse Yeonjun enquanto terminava de colocar os talheres na mesa. – Vem se sentar.
Beomgyu deu uma boa olhada em volta antes de caminhar até a mesa. Ainda não havia estado naquele cômodo da casa e se impressionou ao notar o quanto era tudo limpo e arrumado. Sendo bem sincero não era como esperava que fosse a cozinha de um homem morando sozinho. O cheirinho gostoso de café e de ovos mexidos fizeram seu estômago roncar, nem lembrava a última vez que havia comido então se sentou a mesa e pouco depois Yeonjun se juntou a ele.
- Você foi ao mercado só por minha causa? – Beomgyu perguntou o encarando.
- Mas é claro, não ia te obrigar a comer lasanha congelada no café da manhã logo no seu primeiro dia aqui. Quem sabe no final do mês quando não tiver mais dinheiro pra fazer compras... – Yeonjun brincou enquanto sorria e arrancou uma leve risada do garoto.
- Obrigado... Eu vou arrumar um emprego também, eu prometo. Não vou deixar você pagando tudo sozinho...
- Não precisa se preocupar com isso agora, ok? Você gosta de café? – Perguntou e viu Beomgyu assentir então serviu café em sua caneca.
- Eu me preocupo sim... Será que eu consigo emprego na mesma lanchonete que você trabalha? – O garoto comentou de forma natural e Yeonjun arregalou levemente os olhos diante daquela possibilidade.
- Nem que você conseguisse eu não ia deixar... Aquele lugar é o pior ambiente de trabalho do mundo. Vamos arrumar algo melhor pra você, que não seja numa cozinha fedida com funcionários e clientes mal-educados. – Respondeu após dar um gole em seu café.
Yeonjun sabia bem o tipo de pessoa que trabalhava na lanchonete e o tipo de pessoa que frequentava. Definitivamente não seria um ambiente saudável para o garoto, ele já havia sofrido descriminação o suficiente dos pais não precisava passar pelo mesmo em um emprego. Beomgyu por sua vez sentiu o coração esquentar percebendo o quanto Yeonjun estava sendo protetor consigo. Queria conseguir retribuir cada uma das coisas que ele estava fazendo por si e que em tão pouco tempo haviam sido muitas.
O café da manhã se estendeu por longas horas com Yeonjun e Beomgyu conversando sobre tudo enquanto comiam. Ambos compartilhavam da mesma sensação, a de que já se conheciam há anos e anos e por isso sentiam-se tão bem e confortáveis na presença um do outro. A conversa fluía facilmente enquanto riam e sorriam um com o outro. Quando deram por si estavam sentados um ao lado do outro e extremamente próximos o que os levou a trocarem toques delicados em meio a conversa. Era difícil para Yeonjun manter as mãos longe de Beomgyu, constantemente acariciava suas bochechas, seus cabelos, discretamente segurava em sua mão e brincava com seus dedos sem parar de olhá-lo nem por um segundo. Beomgyu, um pouco mais tímido para tomar tais iniciativas, apenas deixava que Yeonjun fizesse todas aquelas coisas e sentia seu coração acelerando um pouco mais a cada carinho que recebia dele.
Após terminarem de comer Beomgyu ajudou Yeonjun a arrumar a cozinha mesmo sob seus protestos de que ele não precisava fazer aquilo. Quando finalizaram ali ambos foram para o sofá confortável na sala onde continuaram conversando. Yeonjun agradeceu mentalmente por estar de folga naquele dia e no seguinte também, assim poderiam aproveitar bastante tempo juntos. Assim ele poderia passar mais longas horas admirando Beomgyu, o ouvindo falar, o escutando falar das coisas que ele gostava de forma tão entusiasmada e adorável. Estava certo de que jamais se cansaria de o observar.
Beomgyu amava como Yeonjun realmente o dava ouvidos e realmente se interessava pelas coisas que dizia, nunca havia experimentado aquela sensação antes. A atenção que recebia dele vinha junto com seu lindo sorriso e seus maneirismos que só o deixava ainda mais atraente. Como a forma que passava as mãos pelos cabelos, o jeito que mordiscava os lábios cheinhos e a forma como eles formavam um leve biquinho quando ele estava sério, o som de sua risada, a sutileza de seus toques. Apesar de ainda o achar meio louco por ter permitido que ficasse em sua casa, mas estava extremamente grato por aquilo, por ter a oportunidade de poder estar ao seu lado todos os dias.
Epílogo.
Antes de Beomgyu aparecer em sua vida Yeonjun já não se lembrava mais como era dividir bons momentos com outra pessoa, como era estar junto de alguém que não fossem os seus colegas de trabalho que constantemente o olhavam torto. Mas agora tendo Beomgyu tudo era mais fácil e mais simples. Trabalhar já não parecia mais tão torturante afinal sabia que quando chegasse em casa teria alguém o esperando, passar horas e horas dentro daquele ambiente abafado e fedido não era mais tão monótono com as constantes mensagens que recebia dele e que lhe arrancava sorrisos e risadas. As vezes Beomgyu o surpreendia aparecendo na lanchonete do nada e em dias como esse Yeonjun sentia que não havia mais nada na vida que pudesse reclamar, sentia que sua vida era perfeita. A verdade era que no começo teve receio de em algum momento Beomgyu se cansar de fazer todas aquelas coisas e se ele cansasse de forma alguma o julgaria, no entanto, apenas continuou acontecendo conforme os meses se passavam e a relação dos dois se tornava cada vez mais próxima.
Pela primeira vez Beomgyu sentia que estava vivendo de verdade, sentia que tinha uma vida própria ao invés de viver sob a ditadura de seus pais. Yeonjun o ajudou a criar coragem para voltar até a casa deles e pegar suas coisas. Foi extremamente doloroso e difícil, pois seus pais de nada se arrependiam e se não fosse pela ajuda do outro, se não fosse por estar sendo defendido por ele de forma alguma teria aguentado o peso emocional daquele momento tão terrível. Quando tudo terminou e finalmente estava em casa com Yeonjun, pôde sentir o alívio de ter colocado um ponto final naquela situação. Definitivamente não queria qualquer contato com seus pais e não iria mais se deixar controlar por eles. Alguns dias depois desse acontecimento fatídico Yeonjun lhe deu seu primeiro beijo e Beomgyu foi tomado pela mais absoluta felicidade. Sentia a pele formigando de empolgação e um frio na barriga que agora tinha certeza do sentimento que o estava causando, era amor.
Os dias foram passando e esse amor só foi crescendo de ambos os lados conforme Beomgyu e Yeonjun construíam uma vida juntos. Eles não precisavam de luxos ou de extravagâncias, precisavam somente um do outro até nos momentos mais difíceis tudo parecia ser mais simples e mais suportável com o amor tão intenso que existia entre ambos.
