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he likes a boy

Summary:

Tsukishima era o melhor amigo de Yamaguchi e ele não escondia nada do garoto loiro de óculos, exceto duas coisas. A primeira era que ele era um garoto trans e a segunda era que ele era perdidamente apaixonado por Tsukishima. Mas num espaço muito curto de tempo, essas duas coisas vem a tona e agora ele tem que decidir como lidar com isso.

Notes:

eu tentei deixar isso aqui menor, mas simplesmente não consegui
um agradecimento pro @/bmoony no tiktok que fez um video sobre o yamaguchi trans e me deu a luz pra escrever isso aqui durante a madrugada INTEIRA. beijos queride.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Yamaguchi Tadashi sempre foi comunicativo, divertido, espontâneo e muito amigável com todos. Tsukishima Kei sempre foi reservado, antipático, introvertido e nem um pouco receptivo. Mesmo com todas as diferenças, os dois acabaram criando uma amizade forte e muito bonita. Foi no primeiro ano do ensino médio, quando eles foram colocados para fazer um trabalho juntos; Yamaguchi ainda se lembrava das borboletas no estômago quando a professora disse que os dois iriam fazer dupla.

Todo mundo tinha um crush no loirinho de óculos que jogava vôlei, mas ninguém tinha coragem de chegar perto ou se confessar. Tsukishima nunca dava abertura, nem por menor que fosse. Por isso Yamaguchi se sentiu feliz e ansioso, porque era um jeito de ficar próximo de sua paixonite. Ele não achava que a amizade duraria, ele só pensava em aproveitar aquelas semanas em que eles fariam o trabalho, mas, para sua surpresa, Tsukishima não o ignorou depois de entregarem o trabalho. Eles continuaram conversando, se comprimentando, lanchando juntos, desabrochando uma amizade.

A cada dia, o coração de Yamaguchi palpitava um pouquinho mais. Ele se sentia eufórico sempre que estava perto de Kei, mesmo que a companhia já fosse algo comum e corriqueiro. Ele estava apaixonado pelo melhor amigo e, por mais que os dois fossem confidentes e que Tsukishima já tivesse contado para si que era (completamente) gay, Tadashi não conseguia imaginar um cenário onde ele poderia dizer algo sobre o que sentia. Mesmo que eles fossem melhores amigos, conversassem sobre tudo, guardassem os segredos um do outro e estivessem sempre lado a lado, havia um segredo que Tadashi ainda não havia contado e esse era o que mais castigava sua mente.

— Yamaguchi. — o garoto foi retirado de dentro da própria cabeça ao ouvir a voz lhe chamando. Ele olhou para cima e encontrou Tsukishima olhando-o por trás dos óculos, estava com o uniforme de treino do time e a bolsa do lado do corpo — A gente vai começar, segura pra mim?

A bolsa foi estendida em sua direção e ele concordou com a cabeça vendo o loiro se afastar logo depois. Era dia de treino e Yamaguchi não queria voltar para casa sozinho, então ele ficou ali sentado no banco observando tudo e ajudando quando era preciso. Quando se conheceram, Tsukishima tentou o convencer a jogar no time; eles trocavam passes no intervalo, brincavam na casa de Tsukki, mas não era nada sério, Yamaguchi não tinha a menor intenção de entrar para o time de vôlei, por mais que gostasse de todos. Uma parte dele sentia que Kei ainda não tinha desistido da história de convencê-lo, mas ele, honestamente, não ligava, podia passar um tempo a mais com o loiro quando acompanhava os treinos e os jogos.

Yamaguchi assistiu os garotos correrem pela quadra, pularem para pegar os levantamentos, se irritarem uns com os outros, serem repreendidos pelo técnico e todas as coisas que ele já estava acostumado havia pelo menos um ano. Não existia nada de novo, talvez a ausência de Daichi, Suga e Asahi agora que eles haviam se formado, ou então Ennoshita como o capitão e que ele e Tsukishima não eram mais novatos do primeiro ano, eram veteranos do segundo; para além disso, tudo estava exatamente como sempre esteve. Tsukki corria pela quadra, analisava as jogadas dos seus “oponentes”, calculava cada movimento em quadra para que seu bloqueio fosse bem sucedido. 

Ele pulava para atacar, sacava de forma segura e confiante, bebia água para recuperar o fôlego, secava o suor da testa, se irritava com Hinata e quase congelava Kageyama com os olhares. Seus movimentos tinham se tornado mais afiados principalmente depois do nacional no ano passado, os músculos também cresceram apropriadamente para um adolescente, Yamaguchi tinha quase certeza que ele havia crescido um pouquinho em altura também e…

— Oi, Yamaguchi! — o menino sardento se assustou ao ouvir a voz alta ao seu lado, se agarrando na bolsa de Tsukki que ele ainda segurava — Acho bom você limpar essa baba.

Hinata estava o olhando muito de perto e com um sorriso brincalhão no rosto.

— O que? Eu não… — Yamaguchi passou a mão na boca só por precaução — Eu não estou babando!

— Aham, acho que até o Ukai-sensei deve estar percebendo. — o outro garoto sentiu seu rosto pegar fogo diante das palavras do ruivo.

— O que você está fazendo aqui? Não devia estar na quadra?

— Vai ter uma rodada de passes e eu e Tanaka-san vamos ficar de fora por enquanto, quando terminar, é a nossa vez. — Yamaguchi olhou para a quadra e viu os garotos dispostos dos dois lados da rede.

Kageyama e Nishinoya estavam levantando a bola enquanto os outros cortavam. Quando ele olhou para ver onde Tsukishima estava, teve a leve impressão de que o garoto desviou o olhar e ajeitou os óculos.

— Fala sério! — ele se assustou de novo com o tom de voz de Hinata, como podia uma pessoa tão pequena falar tão alto? — Será que você pode ser um pouco mais discreto?

— Você está me pedindo para ser discreto? — Yamaguchi olhou para o ruivo com a testa franzida.

— Para você ver a sua situação. — ele mostrou a língua e foi prontamente retrucado com o mesmo gesto pelo ruivo — Sorte sua que Tanaka-san e Noya-san não estão sabendo desse seu interesse pela Yachi.

— O que? — ele sentiu seu tom de voz sair um pouco esganiçado e suas mãos apertarem a bolsa que segurava.

— É! Você não está sendo discreto, desde a hora que o treino começou. — Hinata parecia ter plena segurança do que estava falando e isso deixou Yamaguchi mais confuso ainda.

— Você é burro? — Hinata inflou as bochechas e cruzou os braços.

— Eu não! Mas você com certeza é.

— Seu estúpido, eu não gosto da Yachi. — os dois se encaravam e estavam subindo o tom de voz um pouco a cada segundo.

— Então o que você tanto olha pra ela? 

— Eu não estou olhando pra ela, estou olhando pro Tsukishima, seu imbecil! — ao mesmo tempo que as palavras saíram de sua boca, Yamaguchi levou as mãos ao rosto como se tivesse dito um palavrão na frente de um professor. Ele assistiu quase que em câmera lenta Hinata arregalar os olhos. 

— Você gosta do… — Yamaguchi não deixou que ele terminasse a frase.

A boca de Hinata foi tampada com força pelas mãos de Yamaguchi, que olhou desesperado ao redor vendo que algumas pessoas os encaravam provavelmente pela gritaria, incluindo Tsukki. Ele se desesperou no banco e correu com Hinata até a despensa onde guardavam o equipamento tentando, em vão, fazer com que todos parassem de olhar para os dois. Quando chegaram lá, Hinata expulsou suas mãos de seu rosto.

— … Não estou respirando! Você quer me matar? — perguntou ofegante, olhando feio para Tadashi.

— Você que quer me matar gritando sobre coisas que você não deveria. — ele começou a sussurrar por algum motivo que ele não sabia qual era e Hinata fez o mesmo.

— A culpa não é minha se você soltou a bomba de dizer que gosta do Tsukishima. 

— Psiu! — Tadashi tampou sua boca de novo e olhou ao redor como se alguém fosse ouvi-los ali, Hinata mordeu sua mão — Ai! Qual o seu problema?

— Você tem problema, você gosta do Tsukishima. — Hinata apontou para o seu rosto.

— Quer parar de falar sobre isso? — o moreno suspirou e a voz de Hinata não foi ouvida por poucos segundos.

— Ele não sabe, né? — Yamaguchi negou com a cabeça — Você vai contar?

— Não! — ele gritou — Não, isso seria uma péssima ideia.

— Por que? Ele claramente não gosta de garotas. — ele bufou e coçou os olhos não acreditando que estava realmente conversando sobre aquilo com Hinata.

— Esse não é o problema, eu não… — ele se deteve, sentindo o peito apertar um pouquinho.

— Acha que ele não ia gostar de você? — ele assentiu fracamente — Mas vocês não se desgrudam!

— Uma coisa não tem nada haver com a outra! Não somos igual você e o Kageyama. — foi a vez de Hinata ficar com as bochechas coradas — Tsukki gosta de garotos, mas…

Yamaguchi respirou fundo e acariciou o peito onde seu coração começava a bater muito forte. Ele sentiu o binder sob os dedos e a garganta fechou com a realidade que martelava em sua mente.

— Não sei se ele ia gostar do tipo de garoto que eu sou. — sua voz saiu fraca e ele jurou que Hinata não tinha ouvido nada porque o mesmo ficou quieto por um tempo considerado muito longo para alguém como ele, então Tadashi voltou os olhos para Shoyo e se assustou com a cara de quem estava juntando pecinhas de um quebra cabeças. Ele quase podia ver o cérebro de Hinata girando a manivela — Eu sou trans, Hinata.

— Eu sei!

— Não sabe não, você estava tentando adivinhar sobre o que eu estava falando. — Hinata murmurou algo e cruzou os braços.

— Você que decidiu ser enigmático do nada e eu estava tentando ser legal e não fazer nenhuma pergunta besta. — Yamaguchi riu.

— Deve ser difícil para você. — Hinata subiu em cima do moreno para tentar socar a sua cabeça, mas Yamaguchi foi mais rápido em defender.

— Vai se foder! — os dois ficaram em mais uns segundos de silêncio — Ele não sabe? — Yamaguchi negou — Você devia contar, Tsukishima tem cara de quem vai atacar a jugular de alguém a qualquer momento, mas ele é completamente diferente quando está com você. E, quem sabe, vocês até não dão uns beijinhos depois.

Yamaguchi olhou horrorizado pela audácia do ruivo e quis muito socar a cara de Hinata quando o mesmo fez biquinho com os lábios e simulou uns beijos.

— Sai daqui, nojento. — ele empurrou o garoto pela testa, sentindo seu rosto esquentar muito ao ver a imagem se formando em sua cabeça.

O fato era que Tadashi não sabia como responder aquilo, porque, em partes, era verdade. Tsukishima era diferente consigo. Ele não se importava em ser chamado de Tsukki, desde que fosse Tadashi a chamá-lo assim, não ligava para contato físico, em dividir o lanche, compartilhar anotações, caminhar por longos minutos; desde que fosse com Tadashi. Mas isso era diferente, eles estavam falando de sentimentos! O que Tsukishima e ele tinham era amizade e só, correto? Eles eram melhores amigos, e melhores amigos tem esse tipo de intimidade.

— De qualquer forma, eu vou rezar pela sua alma hoje. — foi o que Hinata disse, depois de desistir da história do beijo. Yamaguchi revirou os olhos e se preparou para responder, mas foi interrompido pelo som alto da porta da despensa sendo aberta.

Os dois garotos olharam para o barulho vendo a figura alta de Tsukishima os encarando. Nenhum dos três disse nada, o olhar afiado do Kei recaiu sobre os dois que permaneceram em silêncio.

— É sua vez no rodízio, Hinata. — ele disse de forma monótona e Hinata pareceu esquecer todo o contexto, saindo em disparada para a quadra. Só restaram Yamaguchi e Tsukishima ali, se olhando de uma forma estranha e incomum. Parecia que Tsukki queria perguntar algo, mas estava escolhendo as palavras e o moreno estava começando a ficar com medo de que ele tivesse ouvido algo — O que vocês estavam fazendo?

— Nada. — ele respondeu rápido, sentindo as bochechas arderem.

Depois de poucos segundos, o loiro acenou com a cabeça e se virou, voltando para a quadra. Yamaguchi o acompanhou e voltou ao banco, pegando a bolsa que havia sido jogada no chão na hora do desespero e a abraçando contra o corpo. Tsukishima não falou consigo na volta para casa.

[...]

Fazia dois dias que Tsukishima estava estranho e Yamaguchi estava a ponto de bater com a cabeça na parede. Quer dizer, ele não havia mudado tanto assim, basicamente ele estava agindo da forma que sempre agiu, só que dessa vez com Yamaguchi e não só com os outros. Pela primeira vez o garoto de sardas percebia como era ser tratado pelo jeito presunçoso de Tsukishima e ele estava odiando com todas as forças. Ele queria voltar a conversar com o loiro do jeito que era antes, queria estar próximo, estudar depois da aula, dividir o lanche, até implicar com o apelido Tsukki estava implicando. Era demais.

Yamaguchi não conseguia parar de pensar que ele havia ouvido a conversa que teve com Hinata na despensa da quadra e, se fosse mesmo verdade, aquilo era o pior cenário de todos, porque queria dizer que Tsukishima sabia de seus sentimentos, e agora estava o tratando daquele jeito desdenhoso. Ele pedia aos céus para que não fosse isso, que fosse estresse com o time, ansiedade com a semana de provas, qualquer coisa! Menos que Tsukishima estivesse o evitando por ter descoberto seus sentimentos. Ele não aguentaria uma rejeição daquele tamanho.

— Ele não ouviu a gente. — foi o que Hinata disse enquanto estavam lanchando. Tsukishima disse que ia ficar na biblioteca estudando e queria fazer isso sozinho, então o moreno se sentou sozinho em uma mesa, mas logo teve a presença do ruivinho hiperativo que, pelo que ele mesmo disse, havia tirado a paciência de Kageyama pouco antes do almoço e agora estava sozinho também.

— Como você sabe disso? — Yamaguchi deu uma mordida no oniguiri que comia, sem vontade nenhuma pelo incômodo que estava presente no seu estômago o dia inteiro. A ansiedade estava o consumindo por inteiro.

— Kageyama disse que ele só saiu da quadra quando o rodízio acabou. — o moreno bufou e sustentou a cabeça em uma das mãos, soltando o pequeno bolinho de arroz que ele já não tinha vontade de comer — Você está se preocupando demais com isso.

— Olha quem fala! Você teve dor de barriga quando Kageyama quase descobriu que você sonhou com ele naquela vez e vocês já tinham se beijado. — ele viu Hinata ficar vermelho.

— Isso é diferente! Kageyama olhava para mim como se fosse me matar!

— Não mudou muita coisa. — ele murmurou e sentiu a tampa da garrafinha de leite que Hinata bebia ser jogada em seu rosto.

O resto do intervalo passou de uma forma tão lenta que Yamaguchi sentia que o relógio havia parado e tudo ao seu redor estava estagnado, menos o incômodo que se concentrou em sua barriga. Ele se despediu de Hinata e cruzou o refeitório em direção a sua sala, havia dois lances de escada a serem subidos e, quando estava quase terminando o segundo, ele sentiu. Era uma dor característica no baixo ventre, acompanhada da sensação quente que escorreu do corpo de Yamaguchi, o garoto arregalou os olhos e apertou o passo em direção a sala de aula, precisava pegar a mochila.

Ele esbarrou em algumas pessoas, mas conseguiu chegar. Seus olhos verdes não registraram nada ao seu redor, apenas focados em sua mochila que foi prontamente agarrada pelos dedos longos. Yamaguchi correu para o banheiro antes que algum professor chegasse na sala e se trancou na primeira cabine, ele se sentou no sanitário vendo a mancha vermelha concretizar a sua hipótese. O garoto vasculhou toda a mochila, tirou todo o material, olhou em cada bolso, mas quando não achou o que queria, seu coração disparou.

— Não não não não não. — ele murmurava enquanto olhava em todos os cantinhos.

Não era possível ter esquecido de colocar na mochila, certo? Ele sempre foi cuidadoso em ter esse tipo de coisa na mochila para não passar aperto ou alguma situação constrangedora. Não era possível que ele tivesse se esquecido! Mas conforme ele não encontrava, foi achando que era possível sim; Yamaguchi olhou em todos os lugares, mas não encontrou, não estava ali. Ele suspirou fundo pensando no que iria fazer. “Papel”, ele pensou. Papel higiênico seguraria as coisas até que ele conseguisse um absorvente.

Yamaguchi enrolou uma quantidade de papel higiênico na mão e colocou no fundo da cueca. Ele se vestiu e tentou organizar os pensamentos. Okay, agora ele precisava falar com alguém. Hinata? Bom, ele não conseguia imaginar Hinata sendo discreto o suficiente diante da situação e ele não tinha certeza se o garoto conseguiria verbalizar a palavra “absorvente” sem explodir as próprias bochechas de tanta vergonha. Talvez…

— Yamaguchi? — Tsukishima.

A voz de Tsukishima congelou o corpo de Yamaguchi dentro da cabine, ele ficou completamente parado para saber se não tinha ouvido errado.

— Yamaguchi, você está bem? Eu vi você correndo com a mochila. — definitivamente era Tsukishima — Quer ir na enfermaria? Posso chamar um professor para ajudar.

— Não! — sua voz saiu alta no banheiro vazio, ecoando pelas paredes — Eu estou bem.

— Tem certeza?

— Tenho, é só que… — o garoto mexeu as mãos nervosamente, apertando os lábios entre os dentes. O que ele deveria fazer? Apenas mandar o outro ir embora? Mas o que ele faria depois?

Yamaguchi precisava de ajuda e Tsukishima estava ali, ele tinha outra escolha? Havia outra alternativa? Tadashi achava que não, então ele abriu a porta e puxou o loiro para dentro da cabine antes que perdesse seus segundos de coragem.

— O que…

— Você consegue arrumar um absorvente? — ele despejou, apertando as mãos para que elas não tremessem.

— Absor… O que? — Tsukishima o olhou confuso e Yamaguchi quis muito enfiar a cabeça no vaso.

— Absorvente. Eu esqueci de colocar na mochila. Por favor Tsukki, é uma emergência.

Tadashi estava quase implorando. Ele sentiu o olhar do outro queimar em seu rosto durante alguns segundos, eles ficaram se encarando, o rosto de Tsukishima ficando rosa conforme o tempo passava e Tadashi estava quase achando que ele tinha ficado definitivamente congelado quando viu o garoto virar as costas e sair, deixando o moreno sozinho. Yamaguchi não sabia se ele tinha ido embora ou não, mas ele esperou antes de entrar em pânico, afinal, era Tsukishima, eles eram melhores amigos. Não havia nada com o que se preocupar, certo? Tsukishima tinha aquela fama de ser mal encarado, mas com Yamaguchi era diferente. Ao menos, foi o que Hinata disse. Tadashi se sentou sobre a tampa do sanitário sentindo um flash de cólica o atingir, ele procurou na mochila e achou um último comprimido para dor. Pelo menos isso, ele pensou. O garoto com sardas colocou o remédio na língua e o engoliu, sem água. 

Yamaguchi não sabia dizer ao certo quanto tempo havia se passado, a dor tinha tirado um pouco da sua percepção nas coisas, mas, depois de um tempo, ele ouviu passos pesados dentro do ambiente antes de uma batida tímida na porta. Ele abriu e um Tsukishima ofegante e vermelho entrou na cabine.

— Desculpa a demora, a sala da Yachi fica no outro prédio. — ele colocou três pacotes brancos e plastificados na mão de Yamaguchi — Eu não sei se isso é o suficiente, mas foi o que ela me deu.

— Você foi até a Yachi para pedir? — Tsukki coçou a nuca e desviou o olhar, Tadashi percebeu que o rubor em suas bochechas não era só da corrida.

— Ela foi a única que passou pela minha cabeça. 

Tadashi sorriu mesmo que o outro garoto não pudesse ver. Tsukishima saiu deixando que Yamaguchi tivesse sua privacidade e o moreno se virou como pode, guardando os dois absorventes restantes na mochila e ajeitando a roupa no corpo antes de sair da cabine um pouco mais em paz com a situação. Ele foi até a pia e lavou as mãos, Tsukishima ainda estava no banheiro esperando que ele terminasse. Os corredores estavam vazios e Yamaguchi se desesperou em provavelmente levar uma advertência caso não estivesse na sala o mais rápido possível.

Os dois caminharam lado a lado até a sala de aula. Nenhum deles disse nada e, quando chegaram, Tsukki foi conversar com o professor sobre o atraso dos dois. Ninguém levou uma advertência.

[...]

Tsukishima e Yamaguchi estavam sentados no chão do quarto do moreno jogando videogame. Naquele mesmo dia, depois que as aulas acabaram, eles andaram juntos até a casa do garoto de sardas (não haveria treino naquele dia) e Yamaguchi perguntou se Tsukki queria ficar. O loiro aceitou e eles tiraram os sapatos para se sentarem na frente da televisão com o controle do videogame em mãos. De início, o moreno estava nervoso. Desde que aquela situação na quadra com Hinata aconteceu, Tsukki não ficou para lanchar ou jogar videogames, mas conforme eles discutiam e se cutucavam entre as partidas, ele percebeu que nada havia mudado. Tsukki continuava o mesmo. Yamaguchi já tinha trocado as roupas sujas por peças limpas, ele estava confortável e seguro, seus pais não estavam em casa e seu melhor amigo estava sentado ao seu lado olhando fixamente para o jogo de corrida, seus ombros se encostando levemente conforme se batiam para tentar atrapalhar um ao outro.

Em determinado momento, sentado com as pernas cruzadas no chão coberto pelo carpete, Yamaguchi sentiu mais uma onda de cólicas passar pelo seu corpo e ele não pôde evitar uma careta e um suspiro de desconforto. 

— Você está bem? — a voz do loiro se fez presente e só nesse momento ele percebeu que Tsukki o olhava meio preocupado.

— Sim, só… dói de vez em quando. — o loiro concordou, eles voltaram a olhar para frente ainda focados na partida.

— Existe algum remédio que ajuda? — a voz de Tsukishima estava diferente, talvez um tom mais cuidadoso estivesse sendo usado, mas Tadashi não tinha certeza.

— Eu já tomei, só preciso esperar fazer efeito. — o moreno viu pelo canto de olho que Tsukki concordou com a cabeça.

Eles continuaram jogando em silêncio. Talvez três minutos tenham se passado e a partida se encerou com Yamaguchi vencendo (novamente).

— Eu… — a voz do Kei apareceu depois de alguns segundos, meio receosa e tímida. Ele não olhava para Tadashi, tinha os olhos fixos no controle em suas mãos — Desculpa se eu não deixei você confortável o suficiente para me contar.

A sentença pegou Yamaguchi desprevenido. Ele olhou para o garoto ao seu lado e viu que ele mordia o canto da boca; seus olhos estavam se mexendo rápidos, exatamente da forma que ele ficava em quadra quando estava analisando algo, ou quando fazia uma prova de matemática.

— Você é meu amigo, eu deveria… Deveria ter deixado claro que entre nós era um ambiente seguro.

— Não! Não foi nada do tipo, é que… — Yamaguchi deixou o controle de lado, virando seu corpo para o loiro — Eu não contei a muitas pessoas. Só você e o Hinata sabem. Acho que eu não me sentia completamente seguro para contar então apenas esperei o momento certo, ou a época certa.

Tsukishima concordou com a cabeça e voltou os olhos cor de mel para si, eles pareciam meio vacilantes quando encararam Yamaguchi. — Hinata.

— É, eu acabei contando pra ele naquele dia na despensa. Ele agiu do jeito mais Hinata possível, mas a reação dele me deixou mais à vontade para falar. Acho que foi até por isso que eu consegui te pedir ajuda hoje. — Yamaguchi viu o loiro morder o canto da boca e apertar o controle entre as mãos, seus olhos saíram do rosto com sardas. Havia algo de estranho que dava a sensação de que Tsukki estava incomodado.

— Isso é bom, não seria legal se a pessoa que você gosta fosse babaca com você nesse sentido.

— É. — Yamaguchi concordou enquanto olhava para baixo, antes do seu cérebro perceber o que havia ouvido — Espera, o que?

— Só estou dizendo que fico feliz que Hinata não tenha sido escroto. Ele não é lá muito inteligente. — Tsukishima claramente estava se forçando a não olhar para Tadashi, este que piscava os olhos lentamente tentando processar.

— Do que você está falando? — ele disse, buscando os olhos do outro garoto que ainda não o olhava — Eu não gosto do Hinata.

Tadashi assistiu a testa do outro franzir e ele voltar seus olhos para si, confusos: — Não?

— Não! Ele tem o Kageyama e, além disso, ele definitivamente não é o meu tipo. — o olhar de choque no rosto de Tsukishima poderia até ser engraçado, se Yamaguchi não estivesse tão chocado quanto em descobrir que seu amigo achava que ele gostava de Hinata.

— Eu pensei que… Eu vi vocês dois na despensa aquele dia e eu ouvi um barulho de… Um barulho de beijo — a forma como Tsukishima falou a palavra “beijo” fez o estômago de Tadashi se revirar, ele claramente não gostava daquela ideia — E depois disso vocês ficaram juntos no almoço algumas vezes. Você sempre olhava pra ele nos treinos! 

— Hinata estava sendo estúpido naquele dia na despensa, agindo feito criança e imitando barulho de beijo. Eu só fiquei com ele no almoço porque você disse que queria ficar sozinho na biblioteca e eu não olhava para ele nos treinos, eu… — Yamaguchi parou por alguns segundos, ponderando suas palavras — Eu estava olhando para outra pessoa.

Tadashi abaixou os olhos fixando sua atenção nas suas unhas. Ele sentiu seu coração acelerar dentro do peito e as pernas bambearem com o nervosismo. Sua mente não estava processando as coisas muito bem, mas ele sentiu um pânico crescer dentro de si ao menor sinal de que Tsukishima pudesse estar achando que ele gostava de outra pessoa. Não existia ninguém nos pensamentos de Yamaguchi a não ser o próprio Kei e ele precisava saber disso.

— Hinata descobriu quem era, por isso eu o arrastei pra despensa e mandei ele calar a boca e não falar mais do assunto. Eu não queria que… — ele levantou os olhos, vendo que o amigo já o olhava atentamente. Seu peito falhou uma batida em receber toda aquela atenção dos olhos cor de mel — Eu não queria que a pessoa ouvisse.

Os dois se olharam por mais alguns segundos, os olhos verdes de Yamaguchi passando por todos os detalhes do rosto sério de Tsukishima. A armação preta e quadrada, os olhos cor de mel intensos e vibrantes, o nariz pequeno, os lábios vermelhos, o queixo delicado. Ele era muito lindo e Tadashi sentiu suas bochechas se esquentarem. Ele estava mesmo prestes a confessar seus sentimentos para o seu amigo, Tadashi não se importava mais em manter aquilo em segredo porque algo maior estava em jogo. Tsukishima achava que ele gostava de outra pessoa e isso era inadmissível, ele precisava saber que aquilo era mentira.

— A pessoa estava muito perto, então. — foi o que o loiro respondeu, Yamaguchi assentiu.

— Ele tem estado perto todos os dias. — suas batidas cardíacas estavam tão fortes que ele jurava que Tsukishima podia ouvir.

Seus olhos ainda não haviam se desgrudado, ele sentia seu corpo se aproximando lentamente do calor de Tsukki. As mãos dos dois garotos estavam no chão, próximas uma da outra, Yamaguchi sentiu o leve roçar do dígito de Tsukishima na ponta de seus dedos. Os olhos verdes assistiram as íris brilhantes e receosas vacilarem e olharem para baixo, em direção aos seus lábios.

— Kei. — ele chamou num sussurro, tendo o vislumbre dos olhos ansiosos voltaram para si — Você sabe de quem eu estou falando, não sabe?

— Espero que sim.

A próxima coisa que Yamaguchi sentiu foi a textura dos lábios de Tsukishima nos seus. Foi um selinho tímido e medroso, Tadashi sentiu que o loiro estava um pouco trêmulo, ou era o seu próprio corpo tremendo, ele não saberia dizer. Eles se afastaram rapidamente, olharam nos olhos um do outro mais uma vez e Yamaguchi segurou o rosto vermelho de Tsukki entre suas mãos, tomando seus lábios novamente.

Era um beijo desajeitado e afoito, os dois não sabiam muito bem o que estavam fazendo, mas queriam aprender o mais rápido possível para prolongar a sensação boa que surgiu em seus corações. Yamaguchi sentia as borboletas voarem livremente pela sua barriga quando sentiu a língua de Tsukki escorregar furtivamente para dentro da sua boca, fazendo um carinho gostoso que arrancou arrepios do corpo magro. Ele abriu mais a boca aproveitando o agrado e sentiu uma das mãos de Tsukki adentrarem os seus cabelos, se embrenhando entre os fios, o trazendo para mais perto. Tadashi se aproximou mais, inclinando o corpo para frente ao sentir Kei querer se afastar, ele queria mais da maciez dos lábios do outro, o gosto de chiclete na língua, o calor de seu corpo tão perto. Os lábios deslizaram um sobre o outro, arrancando ofegos e suspiros, Yamaguchi sentiu o mundo ao seu redor parar e ele só se afastou completamente porque seus pulmões resolveram que eles precisariam de ar para continuar funcionando.

Os dois se afastaram minimamente apenas para procurar ar, mas Yamaguchi não conseguia deixar o sorriso sair de seu rosto. Ele estava radiante, feliz, com o coração cheio de algo bom que ele ainda não sabia dizer o que era, ele se sentia em combustão. Mas também estava envergonhado, então deixou sua cabeça cair até a testa estar encostada no ombro de Tsukki. O carinho em seus fios escuros continuava. O silêncio tranquilo e sereno perdurou por alguns segundos, os dois apenas aproveitando a companhia enquanto tentavam não morrer de vergonha para que pudessem olhar nos olhos novamente.

— Você não faz ideia de quanto tempo eu quero isso. — ele disse contra o ombro de Tsukki.

— Quanto tempo?

— Desde o primeiro ano, quando fizemos aquele trabalho juntos. — ele jurou que a respiração de Tsukki foi interrompida por alguns segundos e ele sentiu as pernas fraquejarem por sentir, tão de pertinho, os batimentos cardíacos fortes do outro. Ele se sentia feliz em saber que não era o único com o peito quase explodindo.

— Por que não me disse?

— Eu não achava que você ia corresponder, tive medo de que pudesse estragar a nossa amizade e também… — ele se deteve por um segundo pensando se deveria continuar, mas a mão quente de Kei se entrelaçou na sua e uma corrente de confiança escorreu pelo seu corpo — Eu tinha medo de que você não gostasse de mim, de quem eu sou.

Durante um tempo não se ouviu nada além dos corações batendo forte. Tadashi ainda sentia o calor da mão de Tsukki envolvendo a sua e o carinho que era feito em seus fios. O cheirinho do loiro era agradável ao seu olfato, trazia calmaria para o seu peito e o deixava menos ansioso, mas ele estava começando a sentir o desespero crescer conforme a quietude se prolongava dentro do quarto.

— Eu gosto de você, Tadashi. — foi Tsukki quem quebrou o silêncio, soltando a confissão baixinho no ouvido do moreno, como se fosse um segredo apenas dos dois.

Yamaguchi travou no lugar, sentindo o sorriso rasgar seu rosto de tão grande que estava: — Você gosta de mim?

— Uhum. — ele murmurou, ainda acariciando os fios escuros.

— Tipo, gosta como um… namorado?

— Você quer ser meu namorado? — Tadashi afastou o seu rosto e encarou os olhos cor de mel vendo as bochechas vermelhas em contraste com os fios loiros.

— Só se você quiser ser o meu. — Tsukki acariciou seu rosto, tirando alguns fios de sua testa e observando o rosto corado à sua frente.

— Eu quero muito ser seu namorado, Yamaguchi. — o moreno sorriu, vendo o loiro sorrir também.

— Eu também quero muito ser seu namorado, Tsukki.

Os dois sorriram cúmplices e selaram os lábios mais uma vez, agora com mais calma e jeito. As bocas dançando juntas, os lábios se acariciando enquanto os corações batiam juntos num ritmo só, um ritmo calmo e cheio de paz. Não existia medo ou dúvida rondando nenhum dos dois, eles estavam tranquilos com os próprios sentimentos. Depois das emoções eles se deitaram na cama de Tadashi e ficaram assistindo filmes a tarde toda. Tsukki fazendo carinho nos fios escuros e Yamaguchi com uma bolsa de água quente no baixo ventre para aliviar a dor.

Notes:

garotos também menstruam, sempre bom lembrar :)