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— Você tem certeza, Tetsu? — Hana perguntou mais uma vez — A ideia foi sua.
— Eu sei, mas... acho que ele vai ficar mais confortável se eu não for. — Tetsurou deu um risinho triste, que fez Hana comprimir os lábios.
— Eu acho que você está enganado. — A garota disse bem baixinho, se recriminando porque uma parte dela sentia uma pontinha de alívio.
Se Tetsurou não estivesse lá, quem sabe Yusuke se desse oportunidade de olhar na direção dela por um momento que fosse. Havia sido assim desde quando eram crianças, muito antes de sonharem em se mudar para uma cidade tão grande. Mas, ainda que tanto tenha acontecido no percurso, algumas coisas nunca mudaram.
— Você ao menos colocou o seu presente na caixa? — Zen se intrometeu.
Hana observou enquanto ele lhe dirigia uma rápida olhadela desinteressada, mudando o foco para Tetsurou logo em seguida, esperando a resposta. É claro, estava equivocada em seu pensamento anterior. Porque ainda que Tetsurou não fosse àquela pequena confraternização, a atenção de Yusuke seria toda de Zen, de qualquer maneira.
— Eu coloquei, sim — Tetsurou confirmou, acenando com a cabeça — É apenas uma lembrancinha.
— Certo, então... — Hana disse depois de um suspiro — Eu preciso ir. Se mudar de ideia, apareça, de qualquer forma.
Tetsurou sorriu genuinamente dessa vez, e se despediu da colega. Zen jogou o cabelo ruivo para trás e revirou os olhos, deixando-se aconchegar na namoradeira da varanda dos fundos.
— Ela jura que tem chance — Zen disse, impaciente, e Tetsurou negou com a cabeça — É o aniversário do Yuu-chan, você tem certeza que não quer ir? Mesmo depois de ter dado a ideia de fazer uma festinha?
A pergunta de Zen era a mesma de Hana, mas para ele, Tetsu não conseguia mentir.
— Eu quero ir, claro que quero. — Um suspiro pesaroso deixou os lábios bonitos do Seki. — Mas... as coisas ainda não estão completamente bem entre nós, eu acho.
— Achei que já tinham feito as pazes. — Zen cruzou as pernas, e colocou um dos braços no encosto do estofado, onde Tetsurou se sentou também. — Já não estão vivendo com seus pais, o tempo passou. Achei que tinham colocado uma pedra no que aconteceu.
— Não acho que seja assim tão fácil. — Ali, pertinho um do outro, Tetsu se sentiu à vontade para conversar; apertando os dedinhos uns nos outros, ele continuou. — A gente fez as pazes, e eu te agradeço por ajudar.
— Não foi de propósito — Zen disse, num tom jocoso.
— Isso não importa. — Tetsurou riu, e balançou a cabeça. — Foi por sua causa que tudo isso foi possível. Mas não é só porque ele me desculpou, que tudo vai voltar a ser como antes.
— E você quer que volte a ser exatamente como antes?
— Isso... Isso também não importa. — Tetsurou corou um tantinho, o que fez seu rosto parecer ainda mais bonito na percepção de Zen. — Ele ainda tem me evitado um pouco, eu sinto. Quero que ele aproveite o dia dele, e acho que só vou atrapalhar se estiver lá.
Zen ficou encarando Tetsurou, estudando cada palavra e um suspiro longo deixou seus lábios bem desenhados.
Ele devia ser apenas o filho do senhorio, dono do pequeno e pomposo prédio onde Tetsurou passou a morar quando decidiu ingressar na faculdade. No entanto, reencontrar Yusuke como seu vizinho de porta causou um caos e tanto; confusão na qual Zen se intrometeu desde o começo, gerando uma aproximação atípica, mas inevitável. Ele mediou, sem intenção, uma porção de discussões e decisões; sem nenhum filtro, obrigou os dois a colocar em pratos limpos as mágoas nutridas desde a infância. O interesse do Sakuiya naqueles dois rapazes era muito mais individual do que abnegado, a bem da verdade, mas as coisas se desenrolaram daquela forma, apesar disso.
Entretanto, ainda que alguns assuntos tivessem sido deixados para trás, Tetsurou ainda sentia Yusuke distante. A relação deles havia se quebrado, afinal, e esperar que as coisas voltariam a ser como antes talvez fosse demais.
— Eu também acho que você está enganado. — Apesar de não ir com a cara de Hana, era a segunda vez que Zen concordava com ela em menos de vinte minutos. — Acho que ele adoraria te ver lá, e faria aquela carinha emburrada assim que entregasse o presente pra ele em mãos.
Zen franziu o cenho, como se para imitar Yusuke contrariado, e Tetsurou riu dele.
— Você pode me dizer se ele gostar do presente? — Tetsurou pediu, encabulado. — Não é nada demais, mas eu...
— Não vou dizer — Zen virou a cabeça para o lado oposto, fazendo drama — Você quer deixar aquela mocinha colocar as garras dela no Yuu, dando as costas assim...
— Não diga isso, pobrezinha. — Tetsurou engoliu uma risada. — E você vai estar lá, não é? Por que está tão preocupado?
Zen empinou o queixo, ainda olhando para o outro lado, onde seu quintal dos fundos tinha uma árvore de cerejeira. Tetsurou tinha certeza que alguma coisa estava acontecendo entre Yusuke e Zen, do mesmo jeito que alguma coisa também estava acontecendo entre Zen e Tetsurou. O que era esse algo, porém, era difícil de definir, e Tetsurou tinha certeza de que Yusuke preferiria atear fogo em si mesmo a confirmar qualquer provocação em voz alta.
Seus olhos dourados se prenderam à árvore também. Sentia falta do jardim de casa, e de Mirai, mas apenas disso. Podia ver a irmã mais nova de tempos em tempos, e descobrir que a casa de Zen tinha tantas plantas e flores foi um conforto; principalmente pelo fato de ser sempre bem vindo ali.
Aquele estranho com traços de raposa havia mudado muitas coisas na vida de Tetsurou, mesmo sem querer — como ele mesmo fazia questão de frisar. Mas nada novo se compararia ao que ele trouxe de volta.
— Você deve tomar conta do Yuu-chan — Tetsu resmungou, baixinho, também com o olhar preso nas flores de cerejeira —, porque ele é precioso, Zen.
Dessa vez, o Sakuiya deixou de lado a falsa birra e encarou o perfil de Tetsurou. Os dedos ainda se apertavam sobre o colo, o olhar dourado perdido em algum ponto na luz do entardecer que fazia o jardim reluzir.
— Vocês são — Zen corrigiu, e Tetsu crispou os lábios; sabia que viria um protesto depois disso. — Vocês dois são preciosos pra mim.
As palavras eram doces, e Tetsurou sentiu cada sílaba desse modo, ainda que o tom de Zen estivesse carregado de uma possessividade latente. Mas ele não se importava; achava até aquela parte em Zen excentricamente atraente.
— Yusuke... ele — Tetsurou ignorou as últimas palavras, voltando ao foco da mensagem que queria passar. — Ele é muito leal e honesto. O coração dele é brilhante e sensível, e eu devia ter cuidado melhor dele quando tive a chance. — Tetsurou baixou os olhos, encarando os próprios dedos. — Eu devia ter dito em voz alta tudo que eu pensava naquela época. Devia ter lutado pela nossa relação como ele fazia. Mas eu não posso voltar ao passado.
O Seki puxou o ar e piscou rapidamente, querendo evitar chorar.
— Mas Yuu-chan gosta de você, eu sei que gosta.
— Ele me mataria agora mesmo, se pudesse. — Zen riu, e Tetsu o acompanhou.
— É você quem está enganado. Cuide dele direitinho... porque você nunca vai achar outra pessoa como ele. Eu sei disso, porque eu também nunca encontrei.
🌊
Yusuke não estava esperando ouvir aquela conversa.
Ele tinha ido até a casa de Zen para tirar satisfações; ele, Tetsurou e Hana andavam muito esquisitos naquela semana, e Yusuke se sentia constantemente de fora de alguma coisa, mas não sabia o que era. Detestava que não fossem diretos, e odiava ainda mais pensar que eles poderiam estar escondendo algum segredo dele.
No entanto, ao chegar na residência do Sakuiya, as vozes no jardim de trás chamaram sua atenção. Quando ouviu o próprio nome, estacou na lateral da casa; o coração acelerou, porque ele conhecia aquela voz, mas foram as palavras que o pegaram desprevenido.
"Você deve tomar conta do Yuu-chan".
Desde que havia se mudado, uma porção de coisas havia acontecido. O reencontro com Tetsurou foi um susto e, após aquele evento, Yusuke ameaçou sair do apartamento só para não ter que lidar com ele. No entanto, sentiu que fazer isso seria o mesmo que jogar todo o trabalho de sua mãe, Akane, no lixo quando ela se esforçou tanto para dar a ele algum conforto ao sair de Ise. Ela tinha pensado em quase tudo, estava animada com a mudança, mesmo depois de chorar com a despedida. E por mais que Akane tivesse todo tipo de reserva em relação aos Seki, Yusuke não conseguiria, simplesmente, jogar tudo fora só por ter encontrado Tetsurou entrando pela porta ao lado — não receberia de volta o dinheiro do depósito dos primeiros três meses de moradia, afinal.
O próprio Tetsurou também pensou em sair de lá. Mais de uma vez, havia comentado sobre a possibilidade de encontrar outro lugar, mas para isso precisaria recorrer à família. Embora pudesse cogitar a possibilidade pelo bem de Yusuke, havia hesitado por tempo suficiente para Zen se intrometer, e aqueles primeiros três meses foram o suficiente para virar os dois do avesso.
Desde que se resolveram, entretanto, Yusuke vinha fazendo seu melhor para ceder ao mesmo tempo em que se protegia; seguir o que seu coração ansiava e, ao mesmo tempo, o que ele temia.
Mas estar perto de Tetsurou agora era muito diferente. Existia algo incomum que o impedia de olhar para aqueles olhos dourados por muito tempo. Sua mente o traía e vagava vulgarmente por aí, imaginando intercursos dos quais não se orgulhava. O toque, o cheiro, a voz, o olhar... cada pedacinho conhecido do Seki havia se transformado de novo; mas quando se foi o ressentimento, não voltou ao que era antes de tudo.
Aquilo era novo, e Yusuke estava com medo.
Por isso, ouvir aquela voz melancólica dizendo tais palavras o fizeram recuar. Ele achava que Tetsurou poderia estar ressentido também; quem sabe indiferente. Em sua mente, criava respostas para qualquer uma das situações, fingindo não se importar com isso. De todas as opções, contudo, não esperava por essa.
Não esperava que ele estivesse falando coisas tão emotivas pelas suas costas.
Uma parte de Yusuke, de maneira teimosa, remoeu uma das palavras usadas por Tetsurou. Sensível. Com um muxoxo audível, pisando duro pelo caminho de volta, Yusuke disse a si mesmo que ele não era sensível coisa nenhuma. Ele fazia artes marciais desde muito novo, estava seguindo uma carreira nesse ramo, era agressivo e tinha o pavio curto. Não havia nada de sensível nele, nem precisava de uma babá.
Tetsurou é que era sensível. Ele era frágil, amável e, algumas vezes, Yusuke o achava excessivamente ingênuo. Mesmo depois de tantos anos afastados e com aquela mágoa sobre a qual ele decidiu colocar uma pedra, Yusuke sempre reconheceu essas características no outro rapaz.
Mas então, outra palavra se projetou em sua memória. Brilhante. Como Tetsurou se atrevia a chamar qualquer outra pessoa de brilhante quando tinha aquele sorriso? Como ele poderia dizer isso de alguém que não ele próprio, quando parecia feito do próprio sol?
Yusuke apertou as mãos em punho. Sua mente estava indo longe demais outra vez, e ele não conseguia fazer parar. Não depois de ter ouvido aquela conversa, aquelas palavras, aquela voz.
Tetsurou estava equivocado, no fim das contas. Porque em seus devaneios ditados, havia dito que Yusuke era honesto, mas ele não conseguia ser cem por cento sincero sobre aquilo.
🌊
— Mas que demora! — Yusuke resmungou alto, cruzando os braços com dificuldade, mas Zen não deu a mínima.
Ele continuou observando cada prateleira de doces, demorando a escolher de propósito, Yusuke tinha certeza.
— Eu vou voltar sem você — ameaçou.
— Eu te ponho no olho da rua. — Zen devolveu, despreocupado, e pegou um mochi cor-de-rosa logo em seguida. — Não sei que pressa é essa, você não tem nenhum compromisso hoje.
— Como você sabe?
— Como eu não saberia, gato? — Zen deu um sorrisinho sacana, e Yuu apenas revirou os olhos, porque aquela pergunta era retórica.
Yusuke tinha rotinas muito bem estabelecidas, e Zen aprendeu sobre seus horários muito fácil. Por isso, estava sempre se metendo em seus assuntos, aparecendo do nada em falsas coincidências, ou até mesmo pedindo ajuda para tarefas fúteis, como agora. Zen não precisava de Yusuke para escolher guloseimas, mas lá estava ele, segurando duas sacolas, e esperando-o para ir embora.
— Acabou? — Yusuke perguntou quando Zen pegou outro mochi, verde pastel dessa vez.
Zen olhou o relógio de pulso antes de responder.
— Sim. Vamos, amor.
Yusuke fechou a cara, as orelhas se pintaram de um vermelho vivo, e ele não conseguiu evitar olhar ao redor, para se certificar de que não tinha ninguém por perto.
— Não me chame assim em público — ralhou, mas aquilo só fez o sorriso de Zen se alargar.
— Tudo bem, Yuu-chan. — Se aproximou, para sussurrar pertinho do ouvido dele: — Eu espero até estarmos a sós.
Dessa vez o rosto inteiro de Yusuke esquentou, mas ele não teve tempo de responder, porque Zen se afastou para pagar pelos doces. Saíram da loja poucos minutos depois, e o caminho até o apartamento foi mais tranquilo do que Yusuke esperava. Se Zen estava seguindo-o até em casa, devia estar querendo alguma coisa, mas depois da provocação anterior, decidiu não questionar nada, por enquanto.
Eles seguiram até o segundo andar do prédio, e Zen segurou as bolsas para que Yusuke abrisse a porta. Quando empurrou a esquadria, seus pés paralisaram ao perceber outras pessoas na casa; por um milésimo de segundo, achou que estavam invadindo, e que teria que se proteger, mas ao notar os colegas sorrindo diante dele, suas engrenagens mentais começaram a trabalhar.
Havia um cartaz pintado no fundo da sala, desejando-lhe felicidades. Hana segurava um bolo confeitado azul e branco, Nikko estava sentado em um dos estofados menores, de olho em Yuno, este que tinha um chapéu de festa preso na cabeça. Hikaru e Ha-onna estavam próximas à mesa, onde havia mais comida, e Izagaki encarava as reações de espanto de Yusuke perto da entrada para o corredor.
— O que-
— Surpresa! — Hana e Yuno gritaram, e os outros disseram de forma mais suave.
Mas com gritos ou sem, aquele grupo reunido já era estranho o suficiente para surpreender Yusuke. Hana era sua amiga de infância, e se mudou pouco tempo depois dele para estudar. Ter mais um rosto conhecido além de Tetsurou naquela cidade foi bom e, principalmente depois que as coisas se resolveram entre eles, era quase como voltar no tempo.
Yuno praticava kendô na mesma academia de Yusuke, e havia se afeiçoado a ele por algum motivo. O irmão mais velho, Nikko, parecia ter suas reservas quanto a isso, mas não impedia o garoto de perseguir Yusuke sempre que lhe dava vontade. Hikaru e Ha-onna eram as vizinhas de baixo, também inquilinas de Zen, e Izagaki era o amigo presunçoso que o Sakuiya arrastava para quase todo canto.
Todos estavam ali juntos para comemorar seu aniversário. Yusuke tinha esquecido disso. Vinha andando tão ocupado, cheio de coisas na cabeça, que deixaria a data passar em branco, com certeza. Mas agora, haviam pessoas além de Akane e Tetsurou para lembrá-lo daquela data.
Tetsurou. O olhar de Yusuke correu pela sala mais uma vez, enquanto os amigos se aproximavam dele para comemorar. Onde ele estava?
Quando o olhar escuro de Yusuke encontrou o verde vibrante de Zen, ele achou que tinha sido lido da cabeça aos pés. Até esperou por uma resposta, ainda que a pergunta nunca tenha deixado seus lábios, mas Zen se juntou à comemoração e o assunto ficou de lado por um tempo.
— Nossos presentes! — Yuno berrou, animado, mostrando uma caixa grande e decorada, com embrulhos transbordando dela.
Aquilo, de fato, distraiu Yusuke. Ele pegou os presentes um a um, com cuidado e agradeceu cordialmente. Yuno — e, por consequência, Nikko — havia lhe presenteado com uma nova shinai — a espada para a prática do kendô —; Yusuke percebeu a silhueta minúscula de um gatinho entalhado no bambu. Hikaru deu-lhe um chaveiro de cachorrinho. Ha-onna, um colar com uma presa de um tigre dente de sabre; um amuleto, segundo ela. Hana deu a ele uma corda trançada para prender o cabelo, delicada e muito bonita. Izagaki não lhe deu nada.
Quando Yusuke puxou a garrafa de bebida de arroz fermentada, ele revirou os olhos. Sabia que havia sido Zen, embora tenha cansado de avisá-lo que ele não bebia.
— Eu já te disse...
— Eu escolhi essa especialmente pra você, não reclame antes de experimentar. — Zen insistiu — Não se preocupe. Se você não gostar, eu venho aqui e acabo com ela.
Claro, aquilo era muito conveniente! Envolto na garrafa, havia um tecido de seda muito suave e, quando observou mais atentamente, Yusuke percebeu que não era apenas um adorno. Ao desatar o nó simples, percebeu que era um roupão azul, com bordados caprichosos em dourado.
— Pedi um especialmente pra você. — Zen disse baixinho, sorriu e piscou na direção de Yusuke. — Achei que você tinha gostado do meu, daquela vez.
Yusuke estava pegando fogo, dos pés à cabeça. Nas primeiras semanas depois de sua mudança, havia se deparado com Zen perambulando pelo seu andar com um roupão de seda vermelho. E apenas isso. E, apesar de achar tudo aquilo uma pouca vergonha, Yusuke demorou tempo demais para tirar os olhos dele de uma vez.
— Eu vou usar de pano de chão — Yusuke cuspiu em voz baixa, mas tudo que Zen fez foi dar risada.
— Eu mesmo posso fazer sua roupa parar no chão, se quiser. — O sussurro levou um arrepio insano pelo corpo de Yusuke, mas o resto dos convidados, alheios àquelas provocações, cobraram atenção de volta.
Só restava um presente na caixa, e Yusuke alcançou-o com cuidado. O recipiente de vidro tinha uma pintura delicada de um dragão azul, serpenteando toda a superfície cilíndrica. Dentro, a cera vegetal da vela continha pétalas de miosótis, e pequenas conchas marinhas. Junto da vela aromática, havia um pequeno bilhete.
"Essência de água-marinha. O cheiro do Yuu-chan. Feliz aniversário".
O coração de Yusuke parou por um momento, então correu uma maratona. Não havia assinatura, mas não precisava, porque ele sabia que Tetsurou era o dono daquele presente. O cheiro suave da vela e aquelas singelas palavras trouxeram uma onda alta e forte de nostalgia, mas novamente, o sentimento era diferente.
Tetsurou, antes do afastamento, vivia pendurado em seu pescoço sempre que possível. Ele dizia aquelas palavras de forma inocente — o cheiro do Yuu-chan —, e Yusuke as recebia da mesma maneira. Mas pensar nisso agora, em Tetsurou sentindo seu cheiro, tentando reproduzir aquele aroma, causava um outro tipo de reação em seu corpo e mente.
Depois de algum tempo, com Yusuke ainda um tanto distraído, decidiram cantar parabéns e partir o bolo. Os amigos se despediram calorosamente, mas Zen ainda permaneceu ali por mais um tempo — principalmente porque achava que Hana tentaria a sorte se ele não estivesse por perto.
— Você gostou dos seus presentes? — Zen perguntou, e procurou um abridor para abrir a garrafa da bebida que ele mesmo levou.
— Você não tem vergonha! — Yusuke reclamou, organizando tudo na sala.
Colocou a nova shinai no canto da parede; o chaveiro, o colar e a fita de cabelo, deixou numa caixinha na estante. O roupão foi cuidadosamente dobrado e deixado sobre o encosto do sofá, onde Zen se sentou, confortavelmente. A bebida em sua mão foi desaparecendo aos poucos, em curtos goles.
— Tetsurou — Zen disse, e aquela única palavra roubou toda a atenção de Yusuke — O presente dele. Você gostou?
Yusuke não entendeu o motivo da pergunta, mas franziu as sobrancelhas mesmo assim.
— Pra que quer saber?
— Acho que ele vai ficar curioso.
— Se ele estivesse interessado em saber, ele não deveria estar aqui?
A pergunta veio ferina, e as palavras que tinha ouvido no dia anterior rodopiaram em sua mente. "Você deve cuidar do Yuu-chan", se repetindo como uma reza. De novo, e de novo, e de novo.
Zen sorriu, e a bebida em seu corpo chegou ao fim.
— Você vai chorar? Se quiser eu ligo pra ele, tenho certeza de que ele vem correndo.
Yusuke soltou um muxoxo impaciente e se sentou também. Uma parte sua até queria que Zen ligasse; desejava que Tetsurou atravessasse o corredor e batesse na sua porta, explicando o motivo de não ter aparecido no seu aniversário. Queria saber o que ele quis dizer com aquela conversa na última tarde, a razão por trás daquela nota melancólica.
— Sabe, Yuu-chan. — Zen suspirou; o tom a seguir parecia um tanto cansado. — Você devia ser um pouquinho mais sincero, sabia?
— E o que isso quer dizer? — O outro devolveu, na defensiva. — Tá me chamando de mentiroso?
— Ah, de forma alguma. — Zen tirou, suavemente, os fios de cabelo escuros do ombro de Yusuke, acariciando a área devagarinho. — Só acho que você não é tão corajoso o tempo todo, do jeito que você é quando está lutando kendô.
— Agora está me chamando de covarde...
— Estou? — A pergunta cínica fez o sangue de Yusuke esquentar, mas Zen não pretendia continuar ali e iniciar uma discussão. — Eu queria ficar mais tempo, amo sua carinha brava assim — Zen avisou —, mas preciso ir. Por favor, não chore aqui sozinho.
— Vai se foder. — Yusuke reclamou, mas se levantou junto com o outro homem e o acompanhou a passos lentos até a porta.
— Até amanhã — Zen disse, descontraidamente, e se aproximou de Yusuke, roubando-lhe um beijo no canto da boca que surpreendeu-o menos do que costumava fazer no começo. — Vê se não apronta. Feliz aniversário.
Yusuke não se deu ao trabalho de responder, e esperou que ele se afastasse um pouco pelo corredor antes de fechar a esquadria — não sem antes encarar a madeira clara da porta do apartamento de Tetsurou.
As palavras de Zen se juntaram às de Seki e jogaram Yusuke numa espiral perigosa. Por que Tetsurou não apareceu? Por que Zen estava lhe dizendo aquelas coisas agora? Para que Yusuke precisava de coragem?
Ele se sentou no próprio sofá, e encarou a vela de presente sobre a mesinha de centro. Agarrou-a com cuidado, aproximou o recipiente do nariz e inspirou devagar. Será que Tetsurou estava pensando em se afastar de novo? Será que iria embora por algum motivo? Será que Yusuke tinha feito alguma coisa dessa vez?
Não! Ele não faria isso, não perderia seu tempo pensando nesse tipo de coisa. Já tinham feito as pazes, o que mais podia fazer? O que mais Tetsurou queria?
O que mais Yusuke queria?
A garrafa com a bebida que Zen trouxera ganhou sua visão. Yusuke não gostava de beber, não gostava do cheiro, nem do sabor, nem da sensação ou possibilidade de estar bêbado. Ainda assim, ele pegou o copo de vidro que Zen estava usando antes e derramou um pouco da bebida ali. Cheirou antes de molhar os lábios, mas o sabor era muito suave. Não se parecia com a bebida forte de odor pungente que seu antigo padrasto costumava beber.
Droga! Zen sabia escolher.
Ele arriscou um gole maior, e as notas mais doces explodiram em seu paladar, agradavelmente. Que bebida era aquela? Não tinha nome. A garrafa era lisa e clara, e a cor âmbar do líquido era a única pista que tinha. Mais um golinho só; era bom.
Yusuke levantou do sofá, caminhou pela sala inquieto, buscou uma caixa de fósforos e acendeu a vela. Sentou-se novamente, concentrado no aroma, pensativo. Era gostoso. Era aquele cheiro que Tetsurou sentia quando chegava perto dele?
Colocou um pouco mais da bebida no copo. Yusuke se aconchegou no sofá, de pernas abertas, o olhar preso na chama sutil. E se Tetsurou realmente estivesse pensando em deixá-lo de novo? E se ele tivesse mudado de ideia sobre continuar no apartamento? E se ele estivesse indo estudar em outro lugar? Será que ele planejava partir sem nem se despedir?
Um gosto amargo tomou seu paladar, lembrando-se da infância e de como se sentiu sozinho quando Tetsurou se afastou. Talvez por isso, por esse amargor, tenha decidido engolir a bebida doce com um pouco mais de pressa. A vista anuviou e as bochechas pinicaram, repentinamente. Má ideia, mas era tarde para se arrepender.
Um som do lado de fora chamou atenção de Yusuke. Impulsivamente, ele se colocou de pé, mas tudo girou por um momento. Merda, a bebida era mais forte do que estava pensando. Ainda assim, o barulho continuou — chaves tilintando sem parar. Yusuke deu um passo de cada vez e abriu a porta com pressa, cambaleou para o lado, então avançou ao notar que estava certo.
Tetsurou estava bem ali, com as chaves na mão enquanto ele tentava encaixar no buraco da fechadura. Ele olhou para Yusuke, surpreso, e deu um pequeno sorriso.
— Yuu-chan. Feliz aniversá-
O susto fez as chaves caírem no chão. Tetsurou juntou as duas mãos diante do corpo quando ouviu o barulho das palmas de Yusuke baterem contra sua porta. Estava encurralado entre seus braços, e o olhar escuro esquadrinhou cada parte de seu rosto.
— Yuu-
— Por que você não veio? — A pergunta veio baixa, um tantinho magoada, e os olhos dourados de Tetsurou se abriram ainda mais ao notar. — Onde você estava?
— Eu... Me desculpa — pediu; Yusuke estava tão pertinho que ele sentiu necessidade de se empurrar mais contra a porta. — Eu estava...
— Você vai embora? — A pergunta veio num tom quebrado incaracterístico, o que surpreendeu Tetsurou ainda mais. — Você vai me deixar de novo?
Tetsu negou com a cabeça, a respiração falhou e suas mãos seguiram no automático até os ombros de Yusuke. Tarde demais, ele se lembrou de que o outro não gostava disso; ele fugia dos seus toques e aproximações, e provavelmente faria isso de novo. Estava prestes a se afastar, ele mesmo, quando percebeu o corpo de Yusuke ceder em sua direção, como se desejasse que Tetsurou continuasse a tocá-lo.
O que aconteceu? Tetsurou perguntou-se. Naturalmente, Yusuke ficaria possesso com tudo aquilo, demonstraria sua insatisfação através da raiva e ponto. Mas não agora; agora ele estava triste, agora ele estava vulnerável.
E por mais que sua mente tivesse criado diversos alarmes, Tetsurou deixou que seus braços envolvessem o pescoço de Yusuke, puxando-o para baixo num abraço. Não queria que ele ficasse triste, nem bravo, nem magoado.
Só queria que Yusuke aproveitasse um pouquinho de felicidade.
— Eu não vou embora — Tetsurou disse perto do ouvido de Yusuke — quem disse isso?
— Você não apareceu... e você ficou dizendo... coisas estranhas.
— Que coisas? — Tetsurou franziu as sobrancelhas, curioso, mas Yusuke não respondeu.
Ao invés disso, ele afundou o rosto no pescoço de Tetsurou e inspirou tão profundamente, que um arrepio correu o Seki dos pés à cabeça. Yusuke arrastou o nariz pela tez macia, e seus olhos nublados encontraram a pinta charmosa que ele tinha bem ali. Ele correu os lábios sobre ela, e então subiu até a orelha.
— Por que me deu uma vela com o meu cheiro, se o seu é tão melhor?
O ar escapou dos pulmões de Tetsurou com pressa, e suas pernas amoleceram. Ele estava acostumado com flertes; Zen, aliás, estava sempre alimentando aquela parte, trocando todo tipo de estímulo, dos mais suaves aos mais descarados.
Mas não estava acostumado a receber esse tipo de elogio de Yusuke. Por um momento, achou que estava em outro sonho sujo; achou que aquilo não era real. No entanto, o peso do outro homem prensando-o contra a porta era vívido demais para que aquilo fosse apenas um devaneio ou fantasia.
— Yuu-chan...
Dessa vez, ele sentiu o arrepio no corpo de Yusuke. Foi a minha voz que fez isso, Tetsurou concluiu, e aquilo fez uma onda de euforia se espalhar pelo seu corpo inteiro. Yusuke estava reagindo a ele também.
Um som fez Tetsurou abrir os olhos que ele sequer percebeu ter fechado. Eram passos pesados, talvez nas escadas de emergência, talvez no andar de baixo, mas aquilo o fez lembrar-se de que ainda estavam no corredor. Observou a porta do apartamento que Yusuke tinha deixado aberta, e sugeriu suavemente:
— Não é melhor a gente entrar?
Tetsurou sentiu o próprio corpo resistir quando o outro consentiu e se afastou, mas se agachou para pegar as próprias chaves e seguiu com ele para dentro. Depois de fechar a porta, sentou-se com um Yusuke ainda atipicamente físico, decidido a continuar com sua cabeça deitada no ombro de Tetsurou.
Não que fosse reclamar. Na verdade, ainda não tinha entendido o que estava acontecendo com ele e, embora sua mente repetisse que Yusuke ficaria bravo quando aquela nuvem de estranheza passasse, não conseguia evitar aproveitar aquela permissão.
Ele passou os braços ao redor de Yuu novamente, acolhendo o corpo grande no seu como se aquela fosse a coisa mais fácil e certa do mundo. Em silêncio, dessa vez, Tetsurou observou a sala; alguns dos presentes estavam à vista, inclusive o seu. A vela estava acesa na mesinha, e o odor suave tinha ficado agradável. Um sorriso pequeno se formou no rosto do Seki.
Então seu olhar encontrou a bebida bem ao lado. Ele se esticou só um pouquinho para alcançar a garrafa, e o cheiro doce fez sua boca salivar. Tetsurou conhecia aquela bebida, e sabia que ainda que tivesse um sabor suave, era o suficiente para derrubar Yusuke, que não tinha costume de beber. Aliás, não precisou pensar muito para concluir que aquele presente, com certeza, havia sido de Zen.
— Tetsu... — A voz de Yusuke soou baixinha, e o Seki apertou-o contra si um pouco mais — Você não vai embora...
Yusuke repetiu aquelas palavras, dessa vez menos como uma pergunta, e mais como uma confirmação.
— Eu não vou a lugar nenhum — assegurou Tetsurou, com os lábios colados na têmpora alheia — Eu nunca mais vou deixar você, eu prometo.
Yusuke se afastou apenas o suficiente para encarar Tetsurou nos olhos. Era impossível não achar adorável que um homem tão grande e forte pudesse ficar tão frágil com alguns goles de bebida. Mas aquele era Kou Yusuke; apesar da couraça, Tetsurou sempre viu nele uma alma sensível.
— Você promete.
Aquele sussurro também não foi uma pergunta. Era como se ele estivesse deixando aquelas palavras assentarem na própria mente, compreendendo elas. Acreditando nelas. Então, como para selar aquela verdade, Yusuke se inclinou para frente e deixou que seus lábios tocassem os de Tetsurou. Foi um selo comprido e suave, que apagou qualquer pensamento coerente da mente de ambos.
Havia apenas aquela textura macia desconhecida e nova, mas que carregava um gosto de familiaridade. Era aquela sensação de que algo voltou, mas estava diferente e novo. Como uma estação que se repete todos os anos, mas te surpreende, ainda assim.
E aquele beijo foi a última coisa que Yusuke fez, antes de se aconchegar nos braços de Tetsurou e cair num sono tranquilo.
🌊
Foi Zen quem acordou os dois na manhã seguinte. As batidas na porta foram insistentes, e Yusuke despertou quase imediatamente, apenas para dar de cara com Tetsurou deitado no sofá com ele. As memórias da noite anterior voltaram como uma enxurrada, e enquanto Yusuke sentia o corpo todo esquentar em constrangimento, Zen continuou batendo.
O cretino ainda teve a cara de pau de sorrir maliciosamente quando viu os dois ali dentro, como se aquele fim tivesse sido seu palpite o tempo todo.
— Aposto que eu ajudei de novo — comentou, pegando a garrafa de bebida ainda largada na mesinha, e guardando em segurança — O que seria de vocês sem mim?
Tetsurou sorriu, achando graça genuína, mas Yusuke ainda estava com vergonha. Nunca havia se mostrado tão frágil depois de adulto, muito menos diante de Tetsurou, mas não havia como voltar atrás. Mais do que isso, não achava que o outro estava com pena. Pelo contrário, a cada minuto, só conseguia se lembrar das palavras firmes que ouviu, e nas quais não conseguiu evitar confiar.
"Eu nunca mais vou deixar você".
Talvez Zen tivesse razão. Yusuke só precisava ser um pouco mais corajoso, um pouco mais honesto — como Tetsurou já acreditava que ele era. Ainda que a chama suave da vela fosse agradável e o sabor da bebida fosse doce, eles haviam lhe dado um presente muito melhor.
Com aqueles dois perambulando pelo apartamento — Zen mostrando o roupão de seda para Tetsu, que preparava o café da manhã como se a cozinha fosse dele —, Yusuke se sentiu ancorado.
Estava firme, seguro. Em casa.
