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Português brasileiro
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Published:
2024-06-05
Words:
12,052
Chapters:
1/1
Comments:
2
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34
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5
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373

interlúdio

Summary:

Após o fim do caso da Escola Nostradamus, Elizabeth e Thiago se veem desolados, sem saberem como devem continuar depois de tudo o que viram. Assim, precisam juntos descobrirem como retornarem à realidade de suas vidas normais, ao mesmo tempo em que lidam com o amadurecimento de sua amizade.

Notes:

Isso aqui surgiu pq eu acho o período entre o final de iniciação e o começo de osnf mto saboroso e com mto potencial a ser explorado e eu n ia me contentar se não escrevesse isso aqui. Eu misturei coisas da história do RPG e das HQs. Tbm tem mta coisa que eu não lembro da história, então se alguma coisa estiver fora dos conformes, paciência.

Enfim, por agora, era isso o que eu tinha pra dizer. Boa leitura.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Elizabeth acorda sem saber direito onde se encontra. Com a cabeça doendo por causa da ressaca — advinda da garrafa de whisky inteira que tomara sozinha na noite anterior —, seus sentidos pareciam voltar lentamente. Se dando conta de que estava em sua cama, ela começa a tatear seu criado mudo, em busca de seu celular; afinal, não tinha a menor ideia se eram 9 da manhã ou 9 da noite, então precisava se situar em qual horário havia acordado. Porém, sentiu sua mão repousar sobre algum tipo de objeto metálico. Olhou para o lado e viu três itens: um óculos surrado, um cantil e um relógio de bolso.

Como um estalo, a realidade caiu sobre si como um tijolo. Lembrou-se de tudo que havia acontecido nos últimos dias, revivendo as cenas de seus colegas de equipe sendo mortos na sua frente, como se ainda estivesse presa naquele momento. Culpa foi o primeiro sentimento que invadiu seu corpo, e não teve outra reação a não ser começar a chorar copiosamente. Ela lutava contra as lágrimas, pois sentia que não tinha o direito de sofrer, considerando todos os erros que havia cometido durante a missão e que levaram ao seu desfecho. Entretanto, também mal conseguia acreditar que ainda estava viva. Sentia algo catártico percorrer por si ao constatar essa realidade; quase como se a qualquer momento iria perceber que morreu e sua alma só decidiu se manter assombrando os vivos. Mas aquilo era real; estava viva e era inquietante sentir o peso de sua própria existência

Forçou-se a engolir o choro para começar o seu dia: eram por volta das 8 horas da manhã, como constava na tela de seu celular. Deu um longo suspiro e levantou da cama, indo até a cozinha. Andando pelos cômodos, viu que seu apartamento ainda guardava resquícios da passagem de seus antigos companheiros por lá: a toalha usada por Daniel, as embalagens de lasanha que dividiram juntos, entre outras coisas perdidas na bagunça que ela não teve coragem de arrumar. Pelo menos, não por enquanto.
Fez seu chá, recompôs-se e resolveu se arrumar, pois, mesmo com o fim da missão, ainda havia trabalho a fazer. Juntou todos os itens relevantes em sua maleta e, antes de sair de casa, pegou o relógio de Thiago para levar consigo.

A primeira das pendências que precisava resolver era a do carro de Gonzales Medina, que ainda estava parado na frente da Escola Nostradamus. Chegando no local, ele ainda se encontrava lá, intocado, por sorte. Ela ainda possuía a chave do veículo, então conseguiu acessá-lo com facilidade e, dentro, viu as posses do falecido policial. A primeira coisa que chamou sua atenção foi a foto de Gonzales e sua ex-esposa; ou seja lá qual era o status de relacionamento que mantinham. Resolveu devolver os pertences para ela, ainda que a relação entre os dois estivesse conturbada, já que era a única pessoa relacionada ao Medina de que tinha conhecimento. Assim, procurou algum documento que possuísse o endereço de Gonzales — facilmente encontrado no porta-luvas — e resolveu dirigir até lá com o carro do policial.

Chegando no lugar marcado nos documentos que encontrara, avistou um pequeno sobrado vermelho, com um caminhão de mudança parado na frente. O portão estava aberto e uma mulher estava mais adiante dentro da garagem, arrumando algumas caixas. Parando o carro e indo até lá, começou a se preparar mentalmente para aquela tarefa. Não tinha o menor talento conversando com pessoas e agora teria que dar uma notícia delicada para alguém que sequer conhecia. “Isso é trabalho pro Thiago...” Pensou, quase involuntariamente, lembrando-se em seguida da condição em que o amigo estava. Deu, então, mais um suspiro profundo e foi terminar o serviço.

— Bom dia, aqui é a casa do Gonzales Medina? — Perguntou à mulher de cabelos castanhos curtos, a qual assumia que fosse a esposa de Gonzales.

Um tanto sem paciência, por causa da menção do nome do “marido”, ela responde:

— Sim, é aqui. Quem é você mesmo?

— Meu nome é Elizabeth Webber, sou da polícia — Ela mostra seu distintivo à moça que, ao vê-lo, pareceu um pouco apreensiva — Gostaria de saber qual é o seu nome.

— Doroteia.

— Podemos conversar a sós?

Assim, Doroteia convida Liz para entrar na casa, receosa sobre o que a policial teria a dizer. Dentro do ambiente, era notável que a mulher estava em processo de tirar de lá seus pertences, mas ainda se mantinham boa parte dos móveis que eram de posse do Gonzales. De outro cômodo, escutou latidos e sons de patinhas arranhando uma porta; Doroteia explicou que era apenas Bolinho, o salsichinha, que ela tinha fechado no quarto enquanto o portão estava aberto. Aquela cena soava melancólica para Elizabeth: todos aqueles elementos dispostos no ambiente, o cachorro, até a própria moça que aparentava não nutrir bons sentimentos pelo ex-marido naquele momento, pareciam esperar pela volta do policial.

Ela indica para Liz um sofá e as duas se sentam.

— Doroteia, isso não é algo fácil de se dizer, mas… eu vim até aqui para dar a notícia de que Gonzales acabou falecendo durante seu último caso… Eu sinto muito.

Um silêncio pesado pairou no ar, enquanto a viúva tentava processar a informação. Sem conseguir encontrar palavras para dizer, apenas desatou a chorar baixinho. Liz preferiu deixá-la se expressar, esperando um momento em que pudesse continuar o diálogo.

— Como? O que aconteceu com ele? — Indagou ela, desacreditada.

Imaginando que a mulher poderia fazer esse tipo de pergunta, já havia deixado uma história mais palatável preparada para contar a ela:

— Foi pego desprevenido por um dos criminosos envolvidos em sua última investigação. Não posso dar mais detalhes — Ou pelo menos, não queria dar. — O carro dele, junto com seus pertences, está ali do outro lado da rua. Trouxe para cá pois você era a única pessoa relacionada de que tínhamos conhecimento.

Não houve resposta por parte de Doroteia, que apenas abaixou a cabeça e voltou ao seu estado de silêncio. Liz se manteve igualmente quieta, desejando saber lidar melhor com pessoas e situações delicadas como essa. Embora tivesse tais dificuldades, a dor do luto era algo que lhe causava empatia, considerando que esse lhe era um sentimento muito familiar.

— Desculpa, eu gostaria de ficar um pouco sozinha nesse momento — Disse Doroteia — Obrigada por vir informar.

Elizabeth entendeu a deixa e foi se levantando e indo em direção à saída. Em outras circunstâncias, teria apenas ido, sem dizer mais nada, mas algo dentro de si a fazia sentir que deveria oferecer mais ajuda à moça. Assim, interrompeu Doroteia antes de ela fechar o portão:

— Eu sei que não é da minha conta, mas… se precisar de alguma ajuda ou tiver algum problema, pode ligar para esse número aqui — E entregou um pequeno cartão com o seu número de telefone anotado.

A mulher nada disse e apenas assentiu com a cabeça. Liz seguiu seu caminho, pedindo um Uber para o próximo lugar que tinha planejado ir naquele dia: o hospital.

Apesar da passagem na casa de Doroteia ter sido necessária, serviu também para postergar o inevitável. Não é que Liz não quisesse visitar Thiago, — muito pelo contrário, ela estava desesperada para saber como o homem estava — só não tinha certeza se estava preparada para encarar o que quer que veria quando entrasse na sala em que seu colega de equipe estava internado. Uma parte de si insistia que não se deixasse apegar, que aquilo não tinha nada a ver consigo, mas sabia que não poderia dar ouvidos a isso. As coisas já não eram mais as mesmas.

Com esses pensamentos ficando cada vez mais fortes, a medida que se aproximava do hospital, sua ansiedade começou a disparar. Ficava cada vez mais real a possibilidade de que Thiago poderia nunca mais acordar, que ela poderia ter falhado com ele também; ou pior, que ele iria embora desse mundo igual à sua mãe: sozinho. Ela segurou firme o relógio de bolso na mão e foi o mais rápido possível para o quarto indicado pela equipe médica.

Lá estava Thiago Fritz, seu último companheiro de equipe restante. Imediatamente ao abrir a porta, Elizabeth não conseguiu conter a onda de emoções que sentiu ao ver Thiago com o corpo todo enfaixado e conectado a diversas máquinas, que estavam mantendo sua frágil vida estável. Seu primeiro impulso foi ir até o lado da cama e segurar a mão do colega, na esperança de que o toque tivesse algum efeito e o fizesse acordar, mas não houve reação. Lágrimas começam a fluir e, quase involuntariamente, a mulher começou a proferir as únicas palavras que conseguia pensar naquele momento: “Me desculpa, me desculpa.”

Quando sentiu que já não haviam mais lágrimas para chorar, se sentou na poltrona ao lado da cama em que o homem estava. Ficou observando-o respirar lentamente, ouvindo o bipe repetitivo que as máquinas faziam. Tomou mais uma vez o relógio em mãos, dessa vez abrindo-o para ver o que tinha dentro. Nele, encontrou uma foto do que parecia ser Thiago na adolescência e um homem muito similar a ele, o qual Liz assumiu que fosse seu pai. Olhando para a foto, ela começou a se lembrar do que Thiago havia dito sobre a morte do pai; sobre conhecer as perdas tão bem quanto ela. Ali, reconheceu-o como um igual: alguém que dividia com ela o mesmo sentimento de luto e que havia enfrentado o horror da Escola Nostradamus consigo. Ele era a única coisa que lhe restava e o único que poderia entendê-la.

— Eu preciso de você. — Disse, quase como um sussurro.

Bipe. Bipe. Bipe. Era tudo que era possível de se escutar naquele momento.

Precisando esfriar a cabeça, colocou o relógio de bolso no criado mudo ao lado da cama, abriu sua maleta e tirou de lá alguns papéis, indo para outra pendência que precisava resolver: os relatórios da missão e as fichas dos ocultistas envolvidos ainda tinham que ser preenchidos. Assim, dedicou-se a essa tarefa por horas, escrevendo tudo que conseguia lembrar do caso, apesar do desconforto que essas memórias lhe causavam. Ficou tanto tempo imersa em seus documentos, que mal viu as horas passarem e o cansaço chegar, adormecendo ali mesmo naquela poltrona.

Tão naturalmente quanto o sono, vieram os pesadelos. Liz se viu mais uma vez no bunker da Escola Nostradamus, mas dessa vez presa, sem conseguir se mexer. Na sua frente, estavam Daniel, Alex e Thiago, enrolados pelos longos cabelos da Degolificada. Os três tinham as cavidades oculares vazias, mas pareciam olhar fixamente para Liz, junto com o monstro. Nenhum deles fazia um movimento sequer, apenas encaravam profundamente a cientista forense, que se sentia cada vez mais inquieta com a cena, aterrorizada por aquele vazio.

Suando frio, ela voltou à realidade, demorando um pouco para se situar e confirmar onde estava. Ela tinha saído do bunker e estava viva. Thiago estava vivo. Ela precisava ter certeza disso.

Olhando em seu celular, viu que eram 2 horas da manhã, tendo dormido por 4 horas no total. Tentou voltar a pegar no sono, mas sem sucesso. Diante disso, seu primeiro instinto foi de procurar algo para se embriagar, só que aquele não era o momento. Enquanto seu colega estivesse naquele estado, não deixaria o lado dele para se afogar no álcool; esperaria até ter certeza de que ele estivesse bem para fazer isso. Quem sabe não poderiam fazer isso juntos, não é mesmo?

E assim se seguiram os três dias subsequentes, com Elizabeth deixando o quarto de hospital ocasionalmente para tomar um banho e comer alguma coisa. Durante esse tempo, continuou trabalhando nos relatórios para a Ordem, se ocupando dos documentos para ocupar a cabeça. A única coisa que conseguia pensar (para além dos horrores) era em como queria voltar logo ao trabalho e voltar a sentir o senso de normalidade de sua rotina. Talvez a impessoalidade do necrotério e a grande carga de trabalho a fizessem se sentir mais calma; ao menos era isso que esperava.

No decorrer desse ínterim, seu sono foi escasso e totalmente picotado, tendo dormido por no máximo quatro horas diretas. Ia, ao longo do dia, tirando pequenas sonecas para compensar o cansaço, e foi em uma destas em que foi acordada com um leve tilintar de sons metálicos. Abrindo os olhos e olhando para frente, perguntou-se se ainda estava sonhando. Thiago estava acordado e sorrindo, olhando para o relógio em suas mãos.

— Foi mal, minha querida, não queria te acordar, não. — Disse ele, com uma voz fraca.

Aquela fora a primeira vez que chorara de felicidade em toda a sua vida. Não conseguia colocar em palavras o quanto tinha desejado aquela cena. Ela escondia o rosto nas mãos, visivelmente sem graça, mas também não conseguia deixar de rir, diante das primeiras reações de Thiago ao acordar do coma. Era uma sensação muito bem vinda e que há muito ela não sentia, essa de felicidade.

— Calma aí, calma aí. Eu to bem. Tô acordado, não tô?

— Sim, você tá — seu riso leve começou a tomar mais corpo — Você tá! — Quando deu por si, estava quase gargalhando, tamanha a alegria.

Contagiado, ele também riu junto com Elizabeth, se assustando com a dor que esse simples ato lhe causava. Vendo essa reação, a Webber rapidamente retomou a compostura e suas preocupações.

— Como você tá, meu querido?

— Meio fudido, mas tô inteiro — Ele deu um suspiro — Tô vivo, né.

— Pois é, estamos vivos.

Ficaram um pouco em silêncio, refletindo sobre o que a mera presença dos dois naquela sala significava. Não só para as pessoas que ainda estão vivas e foram salvas pelos seus atos, mas para aquelas que perderam ao longo da jornada.

— Me fala uma coisa, que dia é hoje?

— Dia cinco de março. Você ficou quatro dias apagado.

— E você ficou aqui nesse quarto todo esse tempo? — Ele de fato parecia surpreso.

— É claro, eu precisava saber se você ia ficar vivo… Não suportaria perder você também — Ela se forçou a ser honesta.

Thiago verteu seu olhar para o relógio e voltou a brincar com as correntes, fazendo ressoar o leve tilintar do metal mais uma vez.

— Guardei o relógio pra você, depois de você ter desmaiado lá no bunker.

— Valeu — Disse, ainda sem tirar os olhos do objeto — Sabe, Liz… enquanto eu fiquei esse tempo apagado, eu sonhei com o meu pai. Ele era ator e, bem, você deve conhecer o nome Arnaldo Fritz — Ela assentiu, surpresa — Depois que ele morreu, eu assistia seus filmes às vezes. Acho que por isso eu acabei sonhando que ele vinha me salvar da morte e… Sei lá onde eu quero chegar com isso, mas… agora que eu fui salvo, eu não sei mais como continuar ou o que eu devo fazer.

Os dois trocaram olhares, completamente melancólicos.

— É, eu também não… eu não consigo mais seguir meu dia normalmente depois de tudo que eu vi. Eu já não tenho mais certeza nas coisas que eu acreditava que eram reais e que nunca mudariam

— Pois é. A vida não vai ser mais a mesma…

Tentando impedir que o diálogo retornasse ao silêncio lúgubre, Liz tentou quebrar o gelo.

— Antes de pensar em como continuar, você precisa pensar em como levantar dessa cama primeiro. Tu ainda precisa melhorar.

— Hah, tem razão — Ele dá uma leve tossida — E não é que a gente tá vivo?

— É até difícil de acreditar nisso.

Thiago, então, volta a pegar no sono, precisando de muito descanso para se recuperar de seus ferimentos. Mais tranquila, Elizabeth se senta na poltrona e fica alguns minutos refletindo, agradecida por aquela conversa.

A estadia de Thiago no hospital ainda durou por mais outros 5 dias, os quais passaram com muito mais facilidade para Elizabeth, agora que podia conversar com o homem e cada segundo não era decisivo. Nesse período, aproveitaram para conhecer mais um ao outro, a fim de afastar os pensamentos negativos, enquanto ocasionalmente tomavam o suco de maçã oferecido pelo hospital. Descobriram que dividiam uma paixão por whisky, mas discordavam fortemente sobre chá: ela amava, ele odiava. Cores favoritas? Ela gostava de azul; ele, de amarelo. Também discordaram sobre filmes, no que ela adorava comédias românticas genéricas e ele os filmes de ação escrachados. Nisso, entraram em profundas e sérias discussões, tal como qual era o melhor filme da franquia Velozes e Furiosos e qual foi o melhor filme da Sandra Bullock. Tais debates, infelizmente, chegaram a nenhuma conclusão.

Após isso, tentaram investir nos jogos de cartas. Thiago se ofereceu para ensinar Elizabeth a jogar truco, mas acabou frustrado, pois a amiga começou a ficar tão boa no jogo que raramente perdia uma partida. Em seguida Liz arrumou um baralho de Uno para jogarem. Em menos de três partidas, ela já estava quase ameaçando o Fritz de morte.

— Pô, Thiagão, você tá roubando, né? Tá achando que eu não tô vendo?!

— Eu não, oxe. Tô jogando na maior honestidade aqui.

— Ah, é? Então levanta esse cobertor aí, pra ver se não tem nenhuma carta

— Eu vou chamar a enfermeira e te denunciar…

Para além das discussões propositalmente fúteis e as discordâncias benignas, acabaram por se acostumar com a presença um do outro. O jeito de Thiago com as palavras surpreendia Liz, e a capacidade de argumentação da mulher era uma das poucas a conseguir contrapor a lábia do Fritz. Ao final daqueles dias, ambos já podiam se considerar bons amigos, sustentando longas conversas um com o outro sem sentirem o tempo passar.

Contudo, após a alta, pairava uma sensação de estranheza, e as palavras de Thiago do dia em que acordara voltaram a fazer sentido. Como continuariam depois dali? Manteriam contato? Seguiriam suas vidas sem interferir na do outro, até que fossem chamados para mais uma missão da Ordem? Nenhum dos dois conseguia formular um bom plano.

— Ah, finalmente livre! — Exclamou Thiago, fechando os olhos para apreciar melhor a leve brisa e luz do sol que batiam em seu rosto. Os dias internados tinham visivelmente afetado seu corpo: estava um pouco mais magro e sua pele possuía um tom mais pálido; então, luz do sol e ar puro eram, de fato, bem vindos. — Agora tenho que dar um jeito de voltar pra casa.

— Pode deixar que eu te levo — Ofereceu Liz, apontando para onde estava estacionado o seu Corsa.

A viagem até o endereço de Thiago fora um tanto silenciosa, com apenas o som do rádio tocando alguma música pop do momento, a qual nenhum dos dois conseguiam se lembrar do nome. Refletindo sobre aqueles dias, ambos estavam receosos sobre como agir dali para frente; se deveriam manter contato ou se isso seria passar dos limites. Não por falta de intimidade, mas pela estranheza da situação: se conheciam havia pouco mais de uma semana e pela maior parte desse tempo foram apenas colegas de equipe. Valeria a pena estender suas relações para além dos ofícios da Ordem, ou valeria a pena se fechar e manter apenas os laços de trabalho? Esse era o dilema que perpassava a mente dos dois agentes. Assim, chegando na frente do prédio de Thiago, tiveram dificuldade de encontrar palavras para expressar o que queriam dizer naquele momento.

— Eh… Obrigado… por esses dias, por ter me feito companhia. Agradeço de coração — Disse o homem, abrindo a porta do carro.

— Não precisa me agradecer, era o mínimo que eu poderia fazer e… Ei, se cuida viu? Seu pulmão se fudeu muito nessa brincadeira aí, pode parar de fumar.

— Não prometo nada…

— E não esquece de tomar os remédios e passar as pomadas.

— Pode deixar, se eu não tratar esse negócio aqui — Falou apontando para sua orelha enfaixada — a cicatriz vai ficar muito feia.

— Acho que a cicatriz vai ficar feia de qualquer jeito, na verdade.

— Não custa sonhar…

Os dois riram de leve e ficaram em silêncio por alguns segundos, já indicando o final do diálogo. Deram um rápido abraço e se despediram.

— Se precisar de qualquer coisa, você tem meu número, pode me ligar — Relembrou Liz.

— Igualmente pra você, minha querida.

Com isso, Liz deu partida no carro e dirigiu em direção ao seu prédio. No caminho, parou em uma loja de conveniência para comprar outra garrafa de whisky. Chegando em casa, a primeira coisa que fez foi abri-la.

— Uma semana sem beber já é demais.

Nisso, continuou se embriagando até pegar no sono.

Já Thiago, entrou em sua casa pela primeira vez depois de dias internado, sentindo até uma certa estranheza de estar de volta naquele ambiente. Ignorou as diversas bitucas de cigarro espalhadas pela casa, segurando a vontade de ascender um cigarro e foi se sentar na cama, cansado da subida até o seu andar. De fato, não teria como ignorar o conselho de Liz (pelo menos, não nesses primeiros dias). Precisando de mais recuperação, caiu no sono.

————

A semana seguinte consistiu em, basicamente, readaptação à rotina por parte de ambos. Thiago tentava aos poucos, seguindo máximo que o seu corpo permitia, arrumar seu apartamento; ao mesmo tempo que se esforçava para fazer algum tipo de serviço para o jornal em que trabalhava. Acabado, tentou começar fazendo pesquisa de novas matérias para investigar, mas havia uma pulga atrás da orelha agora: duvidava se as informações que via eram verídicas, ou se poderiam estar permeadas pelo paranormal. Seus sentidos e informações não mais significavam segurança de algo e a possibilidade de o paranormal estar a sua espreita o atormentava. Suas pesquisas começaram a ficar confusas e inconstantes, sempre procurando por esse elemento inexplicável.

Na mesma linha, Elizabeth voltara para seu emprego regular. Se antes já poderia ser considerada uma workaholic, agora, com o psicológico ainda mais afetado, estava ainda mais focada no trabalho. Durante o dia, tratava de se ocupar o máximo possível dos afazeres do serviço e da análise dos corpos. Porém, toda essa dedicação não ressoou em aumento de produtividade, pois algo a incomodava. Uma crescente desconfiança surgia dentro de si sempre que recebia um novo corpo para investigar: será que estava julgando certo, ou aquela morte era fruto do paranormal?

Tudo que havia estudado a vida toda estava em cheque; não podia mais confiar naquilo a que se dedicara de corpo e alma, o seu conhecimento. Ela, agora, via a realidade de outra forma, duvidando de tudo. Não conseguia mais bater o martelo sobre muitos casos mundanos, pois sempre pairava a pergunta “será que é isso mesmo?”. Tão rapidamente quanto a desconfiança, veio o desespero trazido pela quebra da realidade. Nem mesmo aquilo que tinha sido sua única razão de viver lhe trazia segurança ou normalidade. Como seguiria dali para frente?

Em poucos dias, tanto ela quanto Thiago se viram em um estado de obsessão. A única coisa que conseguiam pensar era sobre o paranormal. Teria ele tomado a vida de seus pais? Quanto de suas vidas teria sido afetado por ele? Até onde esse terror se estendia? Esses pensamentos não desapareciam, não importa o que fizessem. Passaram a ver seus trabalhos e até vida pessoal por essa ótica, sem conseguirem separar o que era mundano do que era pertencente ao outro lado. Na mesma medida, os pesadelos pioraram e as horas de sono decaíram, apenas intensificando a sensação de paranoia e perseguição. Thiago, que ainda precisava de muito descanso, mal conseguia sair do estado de alerta; e Liz não sabia o quanto mais seu fígado iria aguentar a frequente bebedeira. Mesmo com o álcool, dormia por no máximo três horas por noite, já ficando visivelmente afetada.

— Elizabeth, está tudo bem com você? Tá com cara de quem viu um defunto — Disse Gustavo, o colega de trabalho de Liz, tentando fazer uma piadinha para quebrar o gelo. Vendo a expressão de profundo desprezo da mulher, tentou mudar o rumo do assunto — Calma aí, não queria te estressar… Quer um café? — Ofereceu um gole de sua caneca.

— Você sabe que eu detesto esse negócio — Respondeu de forma seca. Vendo a reação de seu colega, percebeu que havia sido desnecessariamente grossa. — Ah, Guto, desculpa… É que nessas férias que eu tirei esses dias aconteceu um monte de merda.

— Tenso… mas o que aconteceu? Não quer colocar isso pra fora?

Elizabeth olhou com uma certa pena para Guto, como se ele sequer pudesse entender o que ela havia passado, sendo que nem ela mesma entendia por completo. Ela nutria certo apreço pelo colega: ambos tinham muita sintonia no trabalho, mas aquilo estava para muito além do alcance do homem.

— Não, tá tranquilo. Eu só preciso esfriar a cabeça um pouco, sei lá, espairecer.

— Olha lá, hein. Às vezes, segurar e não desabafar só piora tudo.

Voltou a fazer seu trabalho sem dar muita atenção às palavras de Guto naquela hora, sem saber que estas voltariam aos seus pensamentos quando o sol se pusesse e ela voltasse a descontar os problemas no álcool. Na madrugada daquele dia, Liz, já muito bêbada, pensava sobre o que Guto havia dito e sabia justamente quem seria a pessoa ideal para conversar. Apenas Thiago poderia entender o que ela estava passando, mas ligar para o amigo não era uma tarefa tão fácil quanto parecia. Fazer isso era como se dar por vencida aos pensamentos ruins, e ela era uma péssima perdedora. Além disso, seu orgulho falava mais alto: deveria estar focando no trabalho e não em fazer amigos; estava acima da necessidade mundana de interagir com pessoas, não era isso que a movia.

Contudo, o turbilhão de emoções dentro de si apenas se intensificava. Mesmo embriagada, ela parecia ainda ver o corpo dilacerado de Daniel e a criatura formada pelos restos mortais das adolescentes sequestradas; ainda escutava os gritos excruciantes da Degolificada e o som do tiro que tirou a vida de Alex. Tudo aquilo era muito para aguentar. Sua respiração ficou ofegante e suor frio começou a escorrer de suas têmporas; olhou para suas mãos e viu que elas estavam trêmulas, percebendo também que sua visão estava turva. “Isso já passou. Isso já passou. Isso já passou.” Tentava repetir incessantemente para si mesma, sem sucesso.

Assim, no desespero, sacou seu celular e ligou para Thiago, o qual também não conseguia dormir, apesar de não estar tendo uma crise de pânico. Sentado em seu sofá, assistindo o filme "Eric Tufão: A Explosão Ensurdecedora", ouviu seu celular vibrar. Olhando para a tela, surpreendeu-se com quem o ligava, atendendo sem pestanejar.

— Liz…? — Perguntou, com uma voz rouca.

Não houve resposta, só se ouvia um chiado e sons muito baixos de respiração.

— Alô? Ta aí?

Ela havia desligado a ligação. Thiago achou muito esquisito, pois (de acordo com o pouco que conhecia da amiga) não parecia algo de seu feitio. Voltou, então, a pensar sobre a amiga e se preocupou com ela. Deveria ligar para ela no dia seguinte?

Do outro lado da linha, Elizabeth já se acalmava de sua crise. A ligação, mesmo que não tivesse dito nada nela, havia ajudado a afastar seus temores.

No outro dia, ao acordar, se lembrou do que havia feito na noite passada: “Caralho, que merda! Que vergonha da porra!” era o que pensava. Sabia que Thiago provavelmente havia ficado confuso com uma ligação sua inesperada às 3:45 da manhã, mas se fingiria de sonsa até segunda ordem. Infelizmente, seu grande plano foi por água abaixo quando viu uma singela notificação na tela de seu celular:

Thiago: 8:02: Bom dia liz. Td certo aí? Fiquei preocupado com a ligação

Sem saída, resolveu se “explicar.”

Elizabeth 8:48: Oi, bom dia. Te liguei sem querer de madrugada. Me desculpa.

Thiago: 9:05: Tranquilo 👍

Ufa, ele não tinha desconfiado de sua resposta. Estava tudo bem. Não havia agido de forma esquisita e seu orgulho ainda estava intacto… até que a noite se aproximou novamente. Acordando num salto de mais um pesadelo em que as figuras dos mortos a observavam com as cavidades oculares vazias perfurando sua alma, não pensou duas vezes: ligou para Thiago mais uma vez. E, de novo, o homem também estava acordado, mas dessa vez fumando um cigarro (mesmo contra a indicação médica).

— Oi… — Disse ela, baixinho.

— Boa noite… Hoje foi sem querer também?

— Não provoca, ou eu desligo do nada de novo.

— Tá bom, calma aí… Enfim, tá tudo bem?

— Sendo honesta, não.

— Idem.

— Ah, eu… — Ela deu um longo suspiro — Eu só queria conversar, sei lá, acho que porque você é o único que eu tenho pra conversar e é o único que talvez entenda o que eu quero dizer.

— Já até sei onde isso vai dar. Como eu disse aquele dia, eu realmente não sei como continuar depois de tudo isso.

— Pois é, eu não sei explicar isso, mas parece que toda a realidade caiu pra mim. Tudo que eu olho, começo a duvidar se não tem envolvimento do paranormal. O dia todo, é a única coisa que eu penso. Parece que estou presa no bunker ainda, aquelas memórias não saem da minha cabeça — Ao desabafar tudo isso, ela se sentiu ao menos um pouquinho mais leve.

— Tô na mesma. Tudo que eu tento fazer já não tem mais sentido. Não consigo conversar mais tão bem com as pessoas, porque tô sempre desconfiado ou fico pensando em tudo que existe por aí e elas nem sabem.

— Exatamente. Como caralhos a Ordem espera que a gente siga normalmente nos nossos empregos ou que a gente consiga sequer derrotar essas coisas?! Um caso daquele e nós ficamos assim, imagina algo de tamanho maior, que com certeza existe por aí?!

— Honestamente, eu não sei… Nessas horas, acho que o Veríssimo diria alguma coisa tipo “nosso motivo de seguir em frente é a certeza de que podemos contar uns com os outros” — Disse ele, fazendo sua melhor imitação da voz do líder da Ordem.

Elizabeth, sem nem mesmo perceber, soltou uma risada genuína.

— Haha, ele diria alguma breguice assim mesmo… Olha, muito obrigada por conversar comigo. Eu ando tendo umas crises de ansiedade ou sei lá o que é isso, e tirar essas coisas do peito ajudou bastante. Agora, vou parar de te encher o saco e te deixar dormir.

— Ah, minha querida, você sabe muito bem que, com ligação ou sem, é a insônia que estaria me enchendo o saco. — Ela deu outra risada, e ele secretamente sentia um leve orgulho de conseguir arrancar isso dela — Mas falando sério, acho que agora é nós por nós. Se quiser se encontrar qualquer dia num bar pra tomar alguma coisa, só pra jogar conversa fora, eu topo demais.

E foi assim que passaram a sair juntos quando tinham tempo. Nas noites em que se encontravam, iam para um barzinho qualquer e ficavam até o horário de fechamento do bar, batendo papo e às vezes jogando sinuca. Thiago estava certo: eram realmente eles por eles, e o convívio mais próximo com um outro que entendia seus sentimentos fez as coisas levemente se estabilizarem. Com isso, puderam voltar a levarem suas vidas profissionais de forma mais segura; a desconfiança ainda continuava, mas pelo menos sabiam que não estavam enfrentando aquilo sozinhos. Passaram dar valor aos momentos de descontração, aproveitando para retomar as discussões amigáveis que tinham no hospital.

— Mas me fala uma coisa, Liz — Disse Thiago, enquanto Elizabeth mirava com seu taco de sinuca na bola branca, visando encaçapar a bola 12 na caçapa do canto direito — Tu torce pra qual time?

A pergunta soou tão inesperada e (em sua perspectiva) ridícula, que até perdeu a concentração em sua tacada, errando por pouco a caçapa.

— Pfff. Sério isso?

— É, ué. Não curte um fut?

— Eu não. Pra falar a verdade, não lembro quando foi a última vez em que assisti a um jogo; acho que nunca nem sentei pra ver algum, sendo honesta. — Retrucou, fingindo ofensa.

— Ah, mano, tá zoando?! Você vai ter que ver um jogo comigo, então!

— Mas nem fudendo.

— Vai sim, pô. O Trikas vai jogar contra o Santos amanhã, a gente vai vir aqui no bar pra assistir!

— O que caralhos é um “Trikas”?

— O São Paulo, tricolor paulista. Vou trazer até camiseta pra você torcer!

— Mas nem morta! — A discussão foi cortada no meio pela vibração do celular de Elizabeth — Pera aí, tem alguém me ligando.

Ao olhar na tela, viu que era um número que não tinha salvo chamando. Ficou tentada a apenas desligar e continuar o papo, mas optou por atender mesmo assim. Vai que é importante, não é?

— Alô?

— Alô? Falo com a Elizabeth?

— Eu mesma. Quem gostaria?

— É a Doroteia, sabe, ex-mulher do Gonzales Medina.

Ouvindo essas palavras, Liz retomou a seriedade, deixando Thiago, que só tinha noção da conversa pelas expressões da amiga, um pouco inquieto.

— Oi, pode falar, aconteceu algo?

— Então, é meio difícil falar isso — A mulher da um suspiro, do outro lado da linha — Mas, desde que você me deu a notícia do falecimento do meu ex-marido, tem sido um pouco difícil pra mim lidar com tudo que me lembre dele e… ah, eu sinto que não consigo mais cuidar do cachorrinho dele, o Bolinho. Liguei pra perguntar se você, sei lá, num aceitaria pegar ele pra você, ou se saberia de alguém que quer.

Elizabeth travou naquele momento, sem saber como reagir. “Não faça essa burrada. Não adote esse cachorro” Repetia dentro de sua cabeça.

— Eu vou acabar doando ele pra alguém, caso você não queira. — Continuou Doroteia — Só que como você me deu seu número outro dia, achei que valeria a pena ligar. Só por tentar.

O não já estava na ponta da língua, então porquê não conseguiu dizê-lo? Porquê já estava dirigindo para casa com Thiago no banco do passageiro segurando um salsichinha no colo? Porquê já pensava que poderia usar as coisas de seu antigo cachorro, Luke, que não haviam sido jogadas fora, para cuidar do novo bichinho?

Entrando no seu apartamento, viu Thiago colocar o cachorro no chão “Vai lá, Bolinho, é sua nova casa” Disse ele ao animalzinho. Naquela hora, a ficha caiu: havia acabado de adotar um animal.

— Caralho, que merda eu fiz, Thiago?! Porquê eu aceitei pegar esse bicho?!

— Se você não tivesse pegado, eu teria. Essa porra é culpa nossa — Ali, Liz percebeu que Thiago mantinha uma expressão melancólica e a voz carregada. — Era o mínimo que a gente podia fazer.

Os dois ficaram observando Bolinho correr pelo apartamento, cheirando tudo e fazendo festa com seus brinquedos (os quais foram doados por Doroteia, que deu junto com o cachorro todos os itens de cuidado do pet que Gonzales mantinha). Se sentiam fracos, impotentes.

— Não salvamos o Gonzales e nem o Bolinho direito. Ok, era o mínimo que a gente poderia fazer, mas ainda foi errado da nossa parte ter adotado ele. E se eu morrer na próxima missão da Ordem?! Como vai ficar o bichinho, que já perdeu um dono e vai perder outro de novo?! Que merda! Que desgraça!

— Não é certeza que você vai morrer, mas era certeza de que a Doroteia ia ficar sofrendo olhando pro Bolinho e ele não ia estar sendo bem tratado por ela, enquanto ela estivesse assim; e isso eu não ia deixar acontecer. Se você não quiser o cachorro, tudo bem. Eu levo pro meu apartamento!

— Você nem tem espaço lá! Eu pelo menos ainda tenho as coisas do Luke pra cuidar do Bolinho.

— Então, beleza! Eu só preciso ter certeza de que ele tá sendo bem tratado. Essa merda toda é culpa minha… — Thiago afundou os rostos nas mãos.

— Você sabe muito bem que, se tem algum culpado, somos nós dois. Sem essa de se culpar sozinho por tudo — Reiterou a mulher, visivelmente abalada.

— É, mas nesse caso sou eu que fiz merda. Eu que fiquei botando pilha no Gonzales no meio da missão e no fim deu naquilo; se eu tivesse levado aquela merda mais a sério e só mandado ele ir pra casa, talvez ele ainda estivesse lá, brincando com o Bolinho!

— Calma aí, porra, você não tinha controle nenhum sobre isso. O Gonzales desceu no bunker com a gente por causa do trabalho dele, você tentou a todo momento mandar ele ir embora.

— Mas não fiz direito. A única coisa que o coitado do Gonzales absorveu foi a chuva de elogios que eu descarreguei nele; deve ter achado que ia conseguir resolver aquele b.o. por conta própria… Certa tava você, é melhor não ficar de gracinha com os outros.

Liz começou a levantar a voz, num misto de irritação, tristeza e culpa diante da confissão do Fritz. Nunca tinha lhe passado pela cabeça a possibilidade de Gonzales ter sido morto por influência de Thiago e queria fazer questão que seu amigo soubesse disso, mesmo que por palavras duras.

— E eu não poderia estar mais errada! Se não fosse você jogando a conversa pros outros, a gente estaria até hoje tentando fazer a mãe do Gabriel dar informações sobre ele e eu teria sido presa por invasão e roubo de informações na Construtora Opspor. Se dependesse de mim e do Daniel, dois tapados e amargurados, a Degolificada ainda ia estar naquele bunker!

Ele nada respondeu, apenas continuou olhando para o salsichinha. Ela tomou um pouco de ar para se acalmar e, suavizando seu tom de voz, voltou a falar.

— Ah, sei lá, a gente fez o que podia, com nossos erros e acertos, nesse caso, mas eu também não consigo afastar essa culpa… a vida toda, depois que minha mãe morreu, eu sempre levei pra mim mesma que deveria ser perfeita, extraordinária. Falhar tanto assim com essa missão quebrou todo esse meu objetivo de vida. Parece que eu estou sempre tentando juntar os cacos de alguma coisa, e eu fico me perguntando o por quê de ainda continuar tentando ajeitar tudo e continuar…

— Você não quer morrer, não é? Nenhum de nós quer. — Encarou profundamente os olhos de Liz, que retribuiu na mesma intensidade, ficando em silêncio por alguns segundos.

— Eu não quero morrer, Thiago. Eu não quero que você morra, ou que qualquer um a minha volta morra. Uns meses atrás, se uma completa estranha tivesse me oferecido um cachorro por não conseguir lidar com o luto, eu teria rido na cara dela. Mas olha o que eu fiz hoje: adotei essa porra de cachorro não só porque me senti culpada, mas também porque me doeu ver ela sofrer, porque fiquei triste de pensar num cachorro sem dono. Eu nunca liguei pra nada e nem ninguém além da minha carreira, mas depois de toda essa merda que a gente passou, parece que a vida de pessoas que eu nem conheço é tão importante quanto a minha própria, e isso é porque eu fiz amizade com você! Eu tenho medo de morrer, mas tenho mais medo ainda de ver quem eu gosto morrendo. Eu não suportaria perder outra pessoa de novo!

Thiago olhou para o chão, sem conseguir encará-la. Entendeu os argumentos de Liz e de onde estavam vindo, considerando que ele também não suportaria perder mais alguém que amava, depois da morte de seu pai. Pensando em expor isso, calou-se, sem encontrar palavras para falar sobre esse tópico delicado. Ela ainda mantinha uma expressão de desespero, como se estivesse cuspindo palavras que nem mesmo sabia que estavam guardadas na sua consciência.

— Eu não quero morrer, Thiago. Eu não quero que você morra, ou que o Bolinho fique sem dono — Terminou seu discurso, limpando as lágrimas que apontavam dos cantos de seus olhos.

— E a gente não vai; pelo menos, não tão cedo. A gente tá junto nessa. — Reiterou, abraçando de lado a amiga.

— Então, não diga que você sozinho matou o Gonzales. Do mesmo jeito que a gente tá junto pra se proteger, a gente também tá junto pra assumir as responsabilidades do que quer que venha por aí.

— É, tem razão… é nós por nós.

— E o Bolinho entra nessa também. A gente tem que cuidar dele juntos, então você trate de vir visitar ele com frequência!

Thiago apenas assentiu, sorrindo de canto de boca.

— E pode parar de fumar!

— Só se você parar de beber.

— … Combinado.

Nesse meio tempo, Bolinho já havia explorado todos os cômodos e demonstrava intenções de fazer xixi no pé do sofá de Liz.

— Não, bichinho, não faz isso, não! — Disse a mulher, indo até o cachorro e tirando-o de perto do sofá. — Ah, é melhor eu arrumar as coisas dele logo.

Ela e Thiago começaram a colocar no lugar o tapetinho higiênico, os potes de água e comida, e todas as outras coisas para que o cachorrinho estivesse bem alocado. Após isso, perceberam que já estava tarde e Thiago tomou o rumo de sua casa, ainda pensativo sobre a conversa que tiveram.

As palavras de Liz acabaram por surtir efeito, definindo o rumo da amizade dos dois pelos dias que se seguiram. Agora, ao invés de se encontrarem sempre no mesmo bar, passaram a frequentar as residências um do outro (principalmente a de Elizabeth, por conta de Bolinho). Os dois se esforçavam para cumprirem suas promessas de cortarem seus vícios, apesar das dificuldades; a convivência um com outro ajudava nesse sentido. A presença de outra pessoa em seus espaços pessoais era sentida em coisas sutis: Thiago, toda vez que Liz ia ao seu apartamento, arrumava minimamente a bagunça que, em condições normais, não se daria ao trabalho de organizar; e Elizabeth, por sua vez, já começava a ficar com um leve ciúme do quanto Bolinho parecia gostar mais de Thiago do que de si.

Era mais uma noite comum, e Thiago esperava na porta do apartamento de Elizabeth, depois que ambos já haviam saído do serviço. Tal cena já havia ficado tão costumeira, que foi genuinamente pego de surpresa quando a porta se abriu e viu que sua amiga apresentava uma mudança de visual.

— Cortou a franja?

— Tirei pra lavar.

— Ficou gata, hein — Suas palavras refletiam não só suas intenções de aumentar a autoestima de Liz, mas também o quanto secretamente achava a mulher muito bonita.

— Você acha? Cortei no banheiro hoje de manhã.

Nisso, Thiago foi entrando no apartamento, sendo recepcionado calorosamente pelo salsichinha. Ele se abaixou para fazer carinho e abraçou o cachorro, recebendo várias lambidas no rosto no processo.

— Cara, comigo ele não faz essa festa toda — Reclamou Elizabeth.

— Nós viramos brothers no momento em que eu trouxe ele pra cá no meu colo

— É, você já é a mamãe dele — Caçoou a mulher, passando a mão na cabeça de Bolinho.

— Calma aí, não é pra tanto. — Ambos riram da piada, encaminhando para mudarem de assunto — Mas e aí? Porque da mudança de visual?

— Acho que cortar a franja é um dos sintomas de surto feminino, talvez por isso. E você, não vai cortar o cabelo, meu querido? Você já tá cabeludo!

Nesse momento, Thiago botou reparo em sua aparência, algo que estava evitando desde que saíra do hospital. Sua barba havia crescido consideravelmente e seu cabelo, que agora não se prestava mais a arrumá-lo religiosamente, havia crescido e estava até um pouco desgrenhado.

— Ah, nem quis pensar muito sobre isso depois de ficar todo fudido. Tô só o pó, perdi meu charme — Contou de forma descontraída, mas de fato carregava essas inseguranças.

— Claro que não, mano. Só precisa dar um trato na aparência!

Liz queria elogiá-lo e dizer o que realmente pensava, mas não conseguiu encontrar palavras em meio à vergonha. Thiago ponderou o que a amiga havia dito e decidiu tomar como elogio.

— Tava pensando em fazer o equivalente masculino de sintoma de surto e raspar a cabeça… Só que ainda tá meio difícil pra raspar por causa das feridas aqui — Ele apontou para seu tórax — Dói muito ficar erguendo e mexendo o braço. E tô liso pra pagar um barbeiro.

— Quer que eu te ajude? — Disse Liz, um pouco tímida.

— Vai me doar uns trocados pra pagar o barbeiro?

— Não, seu bobo — Deu uma leve risada — Tava falando de raspar sua cabeça mesmo.

— Jura? Eu ia só esperar até melhorar, pra poder fazer sozinho.

— Do jeito que tá o negócio aí, não dá pra saber quando você vai tá bem o suficiente — Ela deu uma leve cutucada na costela do amigo, fazendo-o se contorcer — É só me dar a maquininha e eu te deixo calvo.

— Beleza, então. Amanhã, lá em casa?

— Fechado.

— Ok! Agora bora pro sofá, que hoje a gente vai ver jogo! — Falou em tom animado, pegando Bolinho no colo e indo sentar com ele.

Ela ainda se perguntava por que havia concordado com aquilo.

No dia seguinte, era Liz quem aguardava por Thiago na frente da porta do apartamento. Era uma quinta-feira e ela havia vindo logo após terminar seu expediente, ainda trajando seu jaleco branco e a blusa de gola alta verde-fosca que levava por baixo.

— Boa noite, minha querida, entra aí — Disse o Fritz, recepcionando-a

— E aí, Thiagão? Bora raspar esse cabelo?

— Opa, pra já!

Assim, ela foi tirando o jaleco, deixando em um canto separado, e foi atrás do amigo para a sala, onde teriam mais espaço para tratar dos assuntos capilares do Fritz. O ambiente era relativamente pequeno e pouco mobiliado: havia um sofá marrom de dois lugares e uma pequena televisão em cima de um rack, sem outras decorações. Colocaram uma cadeira no meio do cômodo e Liz já estava pronta para começar o trabalho.

— Vendo agora, até que você não fica tão ruim cabeludo.

— Me engana que eu gosto… Raspa esse negócio logo, antes que eu me arrependa.

Com isso, Elizabeth ligou a maquininha e começou a passá-la pela cabeça de Thiago. Pouco a pouco, o couro cabeludo foi se revelando mais proeminente, oculto por apenas uma fina camada de cabelo que havia sobrado, enquanto os longos fios caíam pelo chão. Um leve arrepio percorria a espinha de Thiago, conforme a brisa começava a bater em sua nuca exposta, e a mulher atrás de si percorria os dedos por sua cabeça. Entretanto, para Liz, o que lhe chamava mais atenção naquele momento era a fina cicatriz presente na orelha esquerda do amigo, advinda da luta contra a Degolificada. De forma suave, passou os dedos em cima da marca, e Thiago estaria mentindo se dissesse que não estava aproveitando um pouquinho o momento.

— Essa ferida já melhorou? — Perguntou, preocupada.

— Já, sim. Só que eu perdi a audição desse ouvido — Ele deu um suspiro — Pelo menos eu não escuto direito o barulho chato dessa maquininha.

Ela ficou estranhamente muito quieta ao saber da condição de Thiago, tanto que o homem se perguntou se havia dito alguma coisa errada. Ver aquilo despertou em Liz pensamentos que ela estava lutando para sufocar (e estava tendo sucesso nos últimos dias), mas que inevitavelmente vieram à tona. Sabendo que não deveria ficar guardando segredos de seu amigo, resolveu mais uma vez voltar no assunto delicado que compartilhavam.

— Sabe, às vezes, eu me sinto mal de ter sido a única a sair ilesa daquele dia. Eu não fui de grande ajuda pra vocês e não saí com sequela nenhuma.

— Acho que o dano mental é sequela suficiente.

Ela riu baixinho, concordando.

— Falando sério agora, — Continuou ele — se não fosse esse seu cabeção, eu pelo menos nunca teria adivinhado quem é que estava dentro daquele corpo.

— Fico lisonjeada… — Disse, em tom irônico. — Ah, sei lá, é igual eu disse aquele dia: não quero mais perder ninguém, e ver essa cicatriz sua me deu um certo nervoso.

Eles ficaram quietos por um segundo. Liz se arrependia de ter voltado a falar disso, como se já não bastasse as diversas conversas que já tinham tido. Mas Thiago refletia se deveria se abrir e desabafar. Considerando o momento de intimidade que dividiam ali, resolveu que era propício.

— Eu fiquei pensando sobre o que a gente conversou naquela outra vez. E eu entendo você, de verdade. Principalmente depois que meu pai morreu, parece que essa solidão nunca vai passar, que eu vou ser pra sempre essa criança esperando o pai voltar pra casa.

— É, acho que eu sinto a mesma coisa em relação à minha mãe. — Ela continuou raspando os cabelos do Fritz — Se não for te incomodar, conta mais sobre o seu pai. Como ele era?

— Quer fofoca de famoso, né? — Zombou Thiago, deixando Liz meio sem jeito.

— Eu nem vejo os filmes dele direito! Só sei que ele era conhecido! — Tentou se defender.

— Tô brincando; o assunto tava ficando pesado, tive que fazer uma piadinha… Mas, ah, meu pai era muito foda. O cara viajava o mundo, estrelou em um monte de filme foda, ajudava crianças num orfanato e ainda tinha tempo pra ser pai presente.

— Nossa, realmente, tá aí alguém que de fato dá pra descrever como muito foda.

— Não é? Dizem que ele morreu num acidente de avião, mas essa desculpa não colou pra mim. Não sei explicar, só não faz sentido… Ainda mais depois que eu descobri a existência do paranormal. — Sua expressão ficou mais séria e carregada — Inclusive, foi assim que eu entrei pra Ordem: depois que ele morreu, descobri que ele era um dos fodões de lá e que lutou contra o paranormal a vida toda.

— Seu pai realmente viveu pra honrar em vida a imagem que ele tinha dentro dos filmes, hein.

Thiago deu um grande sorriso.

— É, foi mesmo.

Aproveitando que estavam falando sobre suas falecidas figuras parentais, Elizabeth começou a se lembrar de sua mãe.

— Eu entrei de forma até que parecida na Ordem. Minha mãe morreu quando eu tinha 18 anos, num acidente de carro super suspeito. O carro foi encontrado sem um arranhão na beira da estrada, com ela morta dentro, e a polícia só alegou que foi acidente e resolveu fechar as investigações. Eu não conseguia aceitar isso. Larguei tudo que pretendia fazer pra estudar ciência forense, achando que isso ia me ajudar a descobrir o que aconteceu com a minha mãe. Nessa, no necrotério, eu recebi um corpo pra analisar muito suspeito. Lembro até hoje: o nome do rapaz era Leonardo Gomes. A causa da morte e as feridas que eu vi não batiam e, com um pouco de investigação, acabei chegando na Ordem.

— Que doideira — Deu uma leve pausa, pensando sobre toda a situação e as similaridades entre ele e Liz — E como era sua mãe em vida?

— O nome dela era Lucille… Ela era perfeita, extraordinária. Me criou sozinha e nunca deixou nada faltar, foi a pessoa mais forte que eu já conheci. Nos finais de semana, ela me levava num parque e a gente tomava sorvete juntas, era meu momento favorito da semana.

Elizabeth percebeu que aquela era a primeira vez que falava sobre os momentos bons com sua mãe para alguém em muito tempo. Sentiu algo estranho, como uma nostalgia e uma profunda tristeza, como se quisesse citar mais momentos divertidos, mas não fosse capaz. Com Liz em silêncio, Thiago voltou a falar sobre seu pai.

— Eu gosto de pensar nos momentos assim, pra não ficar preso nas memórias ruins, mas sim lembrar da pessoa que o meu pai era. Acho que é por isso que eu assisto tanto os filmes dele quando não tô muito bem; sei lá, gosto de pensar nele como esse herói que ele era nos filmes… E também pra nunca me esquecer dele. Às vezes, sinto que a memória dele vai sumir pra sempre e eu não vou nem conseguir lembrar do seu rosto; isso é meu maior medo.

Ali algo clicou na mente de Liz: havia esquecido de sua mãe. Sem nem mesmo perceber, singelas lágrimas escorriam por seu rosto.

— Caralho, Thiago, você tem mesmo um jeito com as palavras…

— Eu? Eu só falo bobeira.

— Não, você não tem nem noção. Acho que acabei de perceber que vivi exatamente do jeito contrário do que você descreveu. Fiquei tão presa na morte da minha mãe, que me esqueci dos bons momentos — Ela tinha dificuldade de continuar falando, lutando para conseguir admitir para si mesma seus erros — Merda, nem no túmulo dela eu tive coragem de voltar depois da morte; já fazem dez anos! Eu fiquei esse tempo todo pensando no quanto eu estava sozinha e não tinha mais ninguém, mas abandonei o último resquício de contato humano que eu tinha… Eu abandonei minha mãe por todos esses anos.

Elizabeth lutava contra as lágrimas e se mantinha firme, quase finalizando o corte de cabelo de Thiago.

— Liz, você tinha só 18 anos quando tudo aconteceu, foi tudo muito pesado pra você.

— Eu deveria ter sido mais forte, não deveria ter fugido.

— Ainda dá tempo de fazer diferente. O que você acha de ir visitar o túmulo dela?

— Eu jurei que nunca mais voltaria lá… — Ela desligou a maquininha — Pronto, tá calvo — Disse ela, terminando o corte e tentando desviar do assunto.

Thiago se levantou e abraçou Elizabeth.

— Olha, se não quiser ir, eu entendo. Mas, se quiser, eu vou estar junto contigo lá.

Elizabeth se afundou no abraço.

— Eu sou covarde, Thiago. Dez anos depois e eu ainda não tenho coragem de ir sozinha encarar a morte da minha mãe. Sou uma pessoa horrível mesmo, eu não mereço a sua compaixão.

— E eu sinto que sou ainda pior. Então, se nós somos dois fudidos desse jeito, bem que a gente se merece em toda a nossa falta de caráter.

Liz apertou ainda mais forte o abraço, como se quisesse ficar ali, segura, para sempre. Apesar da leve dor do aperto, Thiago ficou em silêncio, também desejando que ela não o soltasse. Assim, Elizabeth levantou a cabeça, olhando profundamente para os olhos do Fritz, tentando descobrir se ele sentia o mesmo que ela naquele momento. Quase sem perceberem a atração que os impelia, uniram seus lábios em um beijo profundo, imersos em suas emoções.

Entretanto, rapidamente se separaram, confusos e envergonhados com o que tinha acabado de acontecer. Não muito depois, sem conseguir formular uma frase coerente, Liz foi embora do apartamento de Thiago, pensando no porquê de ter feito aquilo. E Thiago, da mesma forma, ficou encucado pelo resto da noite. Resolveram não conversarem sobre o assunto e deixarem quieto. Eram só amigos e se deixaram levar pelo momento, certo? Era a conclusão que ambos chegaram separadamente. Elizabeth já tinha se conformado que havia sido apenas um deslize, mas Thiago parecia preso naquele momento, como se estivesse cada vez mais criando sentimentos complexos por sua colega de equipe.

Um tempo depois, após a estranheza entre eles ter se dissipado, combinaram de irem juntos até o cemitério. Liz foi com seu Corsa até o apartamento de Thiago, onde o buscou para seguirem juntos. Era uma tarde de domingo e uma brisa fria soprava pelo ar, de modo que saíram um pouco mais agasalhados de casa (principalmente Thiago, colocando um gorro para proteger a orelha sensível). Passando pelos grandes portões de ferro do lugar e procurando a lápide certa, Liz se sentia fraca, como se fosse desabar a qualquer momento. Thiago notou seu comportamento e ofereceu o braço para ela segurar, e assim seguiram até encontrarem o túmulo de Lucille Webber.

Ele se encontrava em um estado deplorável, para dizer o mínimo. Ervas daninhas cresciam por todo o arredor, juntamente com uma sujeira escura que manchava o nome gravado na pedra. A cena fez Elizabeth quebrar imediatamente, como se fosse a materialização de seu descaso. Ali, ela ajoelhou em frente à lápide e chorou por muito tempo, enquanto Thiago a observava um pouco ao lado. Foi ali que finalmente compreendeu: Lucille havia ido embora deste mundo, mas ainda era sua única família; precisava honrá-la. Assim, começou a limpar o túmulo, arrancando as ervas daninhas e tirando a maior parte da sujeira.

Porém, havia algo de errado. Estava ouvindo sons esquisitos, que lembravam algo que escutara dentro da Escola Nostradamus: grunhidos bizarros e gritos desesperados. Com isso, saiu de sua reflexão interior e se colocou em alerta, buscando identificar a origem dos barulhos. Por causa da sua perda de audição, Thiago não conseguia ouvir o mesmo que Liz e ficou confuso ao ver a movimentação da mulher, que disparou em direção a um outro túmulo mais distante. Ao traçar a rota do percurso de Liz e ver para onde ela ia, pôde enxergar algo que não esperava ver e que lhe trouxe um calafrio na espinha: havia um zumbi de sangue atacando um grupo de quatro jovens bem ali, perto de si. Dessa forma, seguiu a deixa da Webber e foi correndo atrás, sacando a arma que sempre carregava consigo por precaução (e por desconfiança). Preocupado com Liz, que já estava quase alcançando a cena, viu que a mulher havia feito o mesmo e já se preparava para disparar um tiro na cabeça do monstro.

Foram três grandes estouros e os grunhidos cessaram, mas os clamores de socorro e os respiros finais de três jovens presentes ali continuaram, e era terrível ouvir aqueles sons. Ambos pararam, ofegantes, em frente à cena, tentando entender o que se passava.

“Falhamos de novo” Era o que pensavam. Porém, antes que se dessem por derrotados, ouviram outro grito, que não parecia de alguém à beira da morte.

— RODOLFO, TAKA, MATTEO! NÃO, NÃO, ISSO NÃO FAZ SENTIDO! MOÇA, POR FAVOR, AJUDA ELES! — Clamou um garoto de mais ou menos vinte e poucos anos de idade, trajado com um corta-vento preto e vermelho. Ele estava pálido pelo choque e tremia violentamente.

Elizabeth tentou o que pôde, mas os corpos dos dois amigos do rapaz haviam sido dilacerados pela criatura, não deixando chance de sobrevivência. Com pesar em seu rosto, a única coisa que conseguiu dizer foi:

— Sinto muito, menino… Eles já se foram.

O garoto desatou a chorar copiosamente e, antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, Thiago foi puxado de canto por Liz. “Cuida do menino, que eu vou lidar com os corpos e conversar com o pessoal do cemitério, caso alguém tenha escutado os tiros”. Assim, o homem se aproximou do rapaz e colocou as mãos nas suas costas, afagando de leve. Esperou até que ele se acalmasse minimamente e o ajudou a levantar, levando-o para longe da cena da carnificina.

— Qual é o teu nome?

— J-Joui… Joui Jouki.

— Prazer, Joui, meu nome é Thiago. Eu e a minha colega ali vamos lidar com essa situação, não precisa mais se preocupar.

— Não me preocupar?! Como eu não vou me preocupar depois daquilo?! Meus amigos morreram! E que merda era aquela?! Isso não é real, não pode ser real! — Mesmo irritado, o tom de Joui ainda era contido, como se não quisesse desrespeitar o homem em sua frente.

— É uma espécie rara de animal que anda perturbando a região. A gente já tá estudando como controlar iss-

Sua mentira foi interrompida pelo rapaz, que não caiu na desculpa.

— É impossível que aquilo seja um animal! Eu sei muito bem o que eu vi e não se parece com nada existente na natureza! — Joui saiu de uma expressão de raiva para o desespero, olhando desolado para o agente da Ordem — Por favor, Thiago-san, eu preciso entender o que acabou de acontecer.

— Olha, garoto, o meu medo é que, se eu te der mais informações, você pode estar em muito mais perigo. Você não tem noção das consequências que teria, caso se envolvesse com isso.

— Eu não me importo com as consequências para mim, eu preciso saber, pelos meus amigos!

Thiago pensou em tentar inventar outra desculpa mais convincente, mas, naquelas condições, não haveria outro jeito: teria que explicar o que era o paranormal para o jovem. Esfregando os olhos, se preparando para aquela intrincada tarefa, organizou em sua mente uma forma que tornasse o paranormal um pouco mais compreensível.

— A realidade como a gente conhece é protegida por um véu muito fino, que pode ser afetado por pessoas com intenções ruins, por assim dizer. Quando isso acontece, surgem essas manifestações bizarras, como aquela que atacou vocês hoje. — Vendo a expressão de choque no rosto de Joui, Thiago tentou pensar em algo que o deixasse um pouco mais calmo, diante daquela notícia — Eu e a minha colega fazemos parte de uma organização que lida com essas criaturas, você pode ter certeza que a gente não vai deixar isso acontecer de novo. Existem muitos outros agentes lutando pra proteger civis como você.

Ao mencionar a Ordem, o Fritz acreditou ter visto uma chama brilhar novamente no olhar vazio de Joui.

— Eu quero fazer parte!

— Não. De jeito nenhum. — Falou em um tom firme.

— Eu preciso! Eu quero impedir que o mesmo que aconteceu comigo aconteça com outras pessoas.

— Qual é a questão aí? — Interrompeu Liz, chegando sem que os dois rapazes percebessem.

— Moça, como eu faço pra entrar na organização de vocês?

— O quê?! Thiago, que merda é essa?!

— Eu posso explicar, Liz!

— É melhor começar agora! — Ela começou a puxar o homem um pouco pra longe — Menino, espera aqui um minutinho.

Antes que Joui pudesse responder, Liz já havia se afastado com Thiago, estando visivelmente preocupada.

— Eu mandei você cuidar do moleque e agora ele já tá até sabendo sobre a Ordem?! Que merda é essa?!

— Liz, não tinha outro jeito. Ele viu tão claro quanto a luz do dia os amigos dele serem mortos por um zumbi de sangue, não tinha como eu inventar uma desculpa pra acobertar a existência do paranormal!

— Você poderia ter se recusado a explicar e dito que era informação confidencial do Setor de Crimes Inabituais!

— Isso seria um desrespeito com o garoto!

Liz esfregou as têmporas, tentando dissipar o estresse e agir de forma racional.

— Enfim, eu cerquei a cena, ensaquei os corpos com as lonas que eu tinha no meu carro e acalmei os donos do cemitério. Liguei pra Ordem vir terminar o serviço e limpar tudo. Acho melhor a gente esperar o Veríssimo e ver como ele lida com essa situação.

— Tem razão, mandou bem.

Elizabeth ignorou o elogio e voltou para onde Joui estava, apresentando-se formalmente para o rapaz.

— Eu sou colega do queridão ali e, acredita em mim, você não vai querer fazer parte dessa organização. Faça um favor a si mesmo e esqueça o que você viu e ouviu hoje, você ainda tem muito para viver!

— Como você quer que eu esqueça de tudo isso?!

— É melhor tentar do que jogar sua vida fora desse jeito.

— Eu não sou nenhuma criança indefesa! Elizabeth-san, peço que acredite em mim, isso é algo que eu preciso fazer. — Ele abaixou a cabeça, quase como numa reverência. A Webber olhou com dureza.

— Isso não cabe a mim decidir — Retrucou, crente que Veríssimo iria impedir Joui.

Ao longe, viram um homem grisalho e bem vestido se aproximando.

— Bem em tempo… — Disse Thiago apenas para si mesmo.

— Quem é aquele? — Perguntou o rapaz.

— Você vai descobrir.

Enfim, Veríssimo se aproximou do grupo.

— Boa tarde, Thiago, Elizabeth — Apenas Thiago retribuiu o cumprimento — E quem é esse junto de vocês?

— Esse é Joui — Apontou o Fritz — Ele foi o único que sobreviveu. Eu acabei explicando sobre as condições que levaram à morte dos amigos dele e… agora ele diz que quer entrar na Ordem.

— Sim, por favor! Eu posso ser de grande utilidade: sou atleta e sei me virar em situações que pedem jogo de corpo!

Veríssimo estudou a situação por um momento e ponderou suas opções, sendo o que se passava em sua mente um mistério para os outros dois agentes.

— Você precisa ter noção de onde está se metendo, primeiramente: o paranormal não é algo fácil de se lidar, e todos aqueles que se comprometem em combatê-lo, nunca mais continuam os mesmos. Eu vejo em você essa vontade de lutar e, se for de sua vontade, a Ordo Realitas tem um lugar aberto para você.

— Você ficou maluco, velho?! Ele mal deve ter 18 anos, é novo demais para se meter nisso! — Interrompeu Liz. — A gente deveria estar protegendo os civis, e não arrastando eles pro meio da merda!

Veríssimo apenas direcionou um olhar rígido, repreendendo silenciosamente a reação da agente. Esperou que ela terminasse, para então contra-argumentar em um tom calmo, mas firme.

— Elizabeth, os olhos com que você lê este rapaz são os mesmos que direciono à você e seu colega. Vocês são jovens e teriam idade para serem meus filhos; em nada me agrada ver vocês dois arriscando suas vidas na luta contra os ocultistas. Mas isso é algo que precisamos fazer — Ele deu um passo à frente e Liz encolheu os ombros diante da pressão que o líder da Ordem impunha. — Você sabe muito bem a situação em que a Ordem se encontra, qualquer ajuda é bem vinda; não podemos ser seletivos e recursar reforços.

— Obrigada, senhor — Joui fez uma reverência.

Liz lançava um olhar fulminante em direção a Veríssimo, não acreditando que ele estava fazendo isso. Se dando por vencida, apenas não respondeu.

— Vocês irão treinar o novo agente, para que ele possa participar de novas missões o quanto antes. Conto com vocês dois.

Thiago assentiu, mas Liz continuou em silêncio.

— Foi um prazer conhecer você, Joui. — Ele apertou a mão do rapaz com firmeza.

Com isso, se despediu e voltou para ver como andava a equipe que cuidava da limpeza do estrago feito pelo zumbi de sangue, que já havia terminado e estava pronta para ir.

Joui possuía um olhar quase infantil diante daquela cena. Apesar de todo o caos, a única coisa que conseguia pensar era: “Que descolado!”. Liz, por outro lado, parecia que ia matar alguém apenas com um olhar, de tão estressada que estava. Thiago evitava fazer contato visual, com medo de que o sermão viria para ele. Contudo, deu um profundo suspiro e esfregou o rosto, se recompondo.

— Olha, menino, eu realmente não queria estar fazendo isso, mas já que é assim, não vou ser eu a protestar. Avisar, eu avisei. Me passa seu número de celular e a gente vai entrar em contato com você o quanto antes para começar o seu treinamento.

Ele assentiu, animado, ditando seu número para a cientista forense. Ela, sem paciência, mal anotou e saiu andando. Thiago saiu apressado atrás da amiga, mas não sem antes trocar algumas palavrinhas com seu mais novo pupilo.

— Ela é meio bruta assim, mas tem um bom coração, confia em mim. A gente pede desculpa por não ter chegado mais cedo para te ajudar; espero que, com o treinamento, você consiga se defender dessas coisas. Até logo, Jojo.

Se despediram e Thiago alcançou Liz, rumando para o carro da mulher junto dela.

— E como você tá, depois disso tudo? — Perguntou Thiago, um pouco apreensivo.

— Ah, eu… Olha, me desculpa por ter sido grossa com você, acho que até exagerei com o menino também… É que foi um momento péssimo pra isso acontecer. Mas eu tô… bem, na medida do possível. Obrigada por ter vindo aqui comigo hoje.

— Não tem de quê, espero que ter visto o túmulo da sua mãe tenha te trazido alguma paz… Agora, eu tô me perguntando, como que a gente vai treinar aquele moleque?

— Eu não tenho a menor ideia… A gente pensa nisso melhor amanhã.

Thiago concordou com a cabeça.

— A gente chegou tarde demais de novo, não é? — Disse Liz, melancólica.

— É, pois é…

Seguiram em silêncio, ainda processando a situação. Ainda era muito cedo para que percebesse, mas, ou por procedência divina, ou mera ironia do destino, foi naquele dia em que Elizabeth ganhou uma nova família.

————

Na manhã seguinte, encontraram-se para discutirem como deveriam treinar seu mais novo aprendiz. Considerando suas opções (que eram escassas) decidiram por pedirem ao Veríssimo permissão para usarem os fundos do Lava-Lava do Melindro, já que lá teriam certa privacidade. Assim, ligaram para Joui e pediram para que ele fosse até o endereço da instalação da Ordem na próxima sexta-feira.

— É o seguinte, Joui, — Falou Thiago — A partir de hoje, a gente vai começar um intensivão com você, sobre tudo que você precisa saber pra ser um agente da Ordem.

— Ok, Thiago-sensei!

O homem franziu o cenho, confuso.

— Thiago-o-quê?

— Sensei! É uma forma respeitosa de se referir a um professor, lá de onde eu venho, do Japão.

— Uh… entendi.

— Você é japonês, é? — Interrompeu Liz, tentando redirecionar a conversa.

— Minha mãe é brasileira, mas meu pai é japonês. Vivi a maior parte da minha vida no Japão e vim pra cá por causa do meu trabalho de ginasta — Evitou mencionar sua antiga equipe propositalmente.

— Ah, legal — Respondeu, sem demonstrar muito interesse — Enfim, já facilita pra gente, o fato de você ser treinado em acrobacia. Acho que a gente poderia começar com o básico sobre o paranormal e como conduzir uma investigação.

— Certo, Liz-senpai! — Ao ouvir isso, ela revirou os olhos.

Nisso, começaram a ensinar tudo o que sabiam. Passaram pelas bases de como analisar informações, como evitar que civis se envolvessem e outras informações relacionadas que acharam relevantes. Em seguida, passaram para um treinamento mais prático, explicando como funcionava uma arma (sem deixá-lo disparar, já que o Lava-Lava ainda não era um lugar adequado para isso). O treinamento estava fluindo bem, surpreendendo os dois veteranos, que imaginavam algo muito mais complicado. Joui era um rapaz esperto e sagaz, e não demorava muito para absorver as explicações de seus mentores. Ao final do dia, estavam exaustos, mas haviam conseguido cobrir boa parte dos principais atributos que julgavam necessários para Joui.

Por mais dois dias, continuaram o processo, abordando diferentes tópicos gradualmente e respondendo às eventuais dúvidas do aprendiz. Passada a primeira parte de informações iniciais, conseguiram conduzir o treinamento com mais facilidade, até que sentiram que não tinham muito mais o que transmitir, na tarde do domingo.

— A gente só foi em uma missão até agora, então não é como se pudéssemos ensinar mais do que o básico — Comentou Liz.

— É, espero que isso que a gente te passou nesses últimos dias te sirva de alguma coisa. Mas, no fim, a melhor professora é a experiência mesmo. — Completou Thiago.

Joui se colocou de pé e fez uma reverência profunda.

— Eu só tenho a agradecer vocês dois por tudo o que fizeram por mim. Esse treinamento foi muito descolado! Vocês são muito descolados!

Os dois veteranos não conseguiram deixar de rir diante da cena.

— Menino, acho que não é bem assim… Ah, enfim, deixa quieto. — Disse Elizabeth, se atropelando um pouco nas palavras. — Eu tenho que te pedir desculpa por ter sido insensível com você naquele dia do cemitério. Espero, agora que você também é um agente da Ordem, que você consiga sobreviver.

— Deixa comigo! Eu não vou decepcionar você, Liz-senpai!

Aquele dia se encerrou com os três saindo para jantar juntos, a fim de comemorar a “formatura” de Joui.

— Vai uma cerveja, garoto? — Ofereceu Thiago.

— Não, obrigado. Não bebo álcool, meu corpo é um templo!

— Não sabe o que tá perdendo…

O resto da noite fluiu decentemente A energia de Joui era um tanto excessiva para os outros dois, mas ainda assim apreciavam sua companhia. Como já estavam cansados, se despediram ali do rapaz, no aguardo de quando o veriam novamente.

Algumas semanas se passaram e os dois agentes seguiram suas rotinas, se dedicando aos seus trabalhos regulares. Em meio à correria, se falaram pouco durante aquele tempo, mas decidiram se encontrarem em um café, para colocarem o papo em dia.

— Café para o senhor Veríssimo? — Brincou Thiago, oferecendo, na verdade, uma xícara de chá para a mulher em sua frente.

— Nem brinca com isso… mas e aí, Thiagão, como tá? — Antes que ele pudesse responder, a mulher apertou os olhos e pareceu estar reparando em alguma coisa no homem, que começou a achar que estava com alguma sujeira nas roupas — Espera aí… Você passou hidratante na barba, passou perfume, tirou até a cutícula! Tá achando que isso aqui é um date?

— Eu não! Tá doida?! Eu nunca pensaria nisso! — Sim, ele achava que era um date.

— Tô só te enchendo o saco… como vai a vida?

— Um porre. Não aguento mais o serviço. — Respondeu, já menos na defensiva.

— Idem. Se bem que esses dias finalmente fui reconhecida, recebi uma promoção.

Thiago genuinamente se alegrou ao ouvir aquilo.

— Parabéns, minha querida, você merece.

— Obrigada.

— Tem falado com o Joui?

— Nem tive tempo depois de ser promovida. E você?

— Troquei uma ideia algumas vezes, mas nada demais… Fico pensando às vezes no moleque. Ele parecia animado até demais com isso de participar da Ordem… acho isso perigoso.

— Eu também… Parece até que ele começou a ver isso aqui quase como uma Liga da Justiça pra fugir da cena terrível do cemitério. Às vezes, ainda fico pensando se a gente fez certo de colocar ele pra dentro da Ordem.

— Acho que só o tempo dirá…

Ouviram um “ping” simultâneo do som de notificação de seus respectivos celulares. “Torre Alfa, Avenida Faria Lima” era o que se lia em ambas. Já sabendo o que aquilo significava, trocaram olhares apreensivos.

— Vamos indo, meu querido?

— Logo atrás de você.

Notes:

Espero que tenham gostado. Parte da ideia inicial veio enquanto eu lia a HQ, pq com o Thiago cadela daquele jeito era pra eles terem dado pelo menos uns pega durante o time-skip. Escrevi meio rápido numa madrugada e foi isso que saiu, aí decidi postar então sla deixa um comentário ai se achou legal