Chapter Text
-não trouxe guarda chuva?
Me viro e vejo meu chefe, ele era muito gentil, educado e sempre mantinha a calma, nunca o vi se quer erguer a voz. Sua aparência combinava com seu jeito, cabelos castanhos curtos crespos, pele morena e olhos negros, ele estava na casa dos 50.
-ele quebrou ontem.
-quebrou? Como?
-sim, eu acabei escorregando.
-você se machucou?
Ele fala num tom preocupado, enquanto procura por alguma lesão com o olhar.
-não, o guarda chuva amorteceu a queda.
Ele solta uma respiração aliviado e uma risada.
-que bom, mas tome mais cuidado.
Ele fala sorrindo para mim, aceno com a cabeça e desvio o olhar para a porta de vidro que dá visão para a chuva caindo lá fora, a chuva já está fraca.
-eu tomarei, é melhor aproveitar que a chuva está mais fraca. Foi bom trabalhar com você.
-digo o mesmo, senhorita, e tente não escorregar mais.
Ele fala rindo enquanto eu saio, eu coloco minha bolsa embaixo do moletom para não molhar, puxo meu capuz para cobrir melhor meu rosto e começo uma corrida parando em todo lugar coberto que encontro. Quando estava à alguns quarteirões de casa paro num ponto de ônibus coberto onde geralmente pego só para ir no trabalho por conta de não ter nenhum na hora de ir embora, me sento no banco para descansar um pouco, eu olho em volta e não tem ninguém pelo horário, está um total silêncio tirando o barulho da chuva, algo muito calmante para mim, geralmente tudo é tão barulhento, então momentos como esse são reguivorantes. Fico admirando e relaxando até a chuva parar, até ouvir um barulho baixo e acabar me assustando dando um pequeno salto e um chiado
-tem alguém aí!?
Falo me levantando e movendo minhas orelhas debaixo do capuz para tentar captar melhor os sons ao meu redor, ouço outro vindo de trás do ponto parecia com papelão arrastando.
-que?...
Seguro minha bolsa contra meu peito com mais força e dou a volta para olhar atrás, de primeira só coloco minha cabeça e deixando meu corpo em posição caso precise correr, mas só tinha uma caixa grande de papelão toda ensopada lá.
-não era nada.
Sussurro, soltando a respiração que nem sabia que tinha prendido e ralaxo. Por que tem uma caixa aqui? Aleatório. Me viro para ir embora e ouço outro som vindo da caixa.
-hum!? Tem um bixo ali dentro?
Vou em direção a caixa devagar, dou uma cutucada com o pé e ouço algo se mexer dentro.
-oque eu faço? Para isso estar aqui foi porque alguém não quis, pode ser tanto filhotinhos fofinhos igual sweet quanto ratazanas ou uma gararaca.
Sussurro olhando fixamente para caixa toda molhada e provavelmente cheia de água dentro, começo a imaginar filhotinhos lutando para não se afogarem no escuro e sem saber como sair.
-ok, espero que sejam filhotinhos e se não for eu vou simplesmente sair correndo.
Falo me agachando e esticando uma mão enquanto seguro minha bolsa com a outra, eu abro lentamente preparada para sair correndo mas tudo que tem são alguns gatos e também tem gatinhos, sweet acharia uma fofura, sem corridas por enquanto.
-ainda bem que não era uma gararaca.
Falo relaxando é examinando eles, que são bem estranho por sinal afinal não me lembro de ter gatos vermelhos muito menos verde,rosa ou azul e sem falar que eles estavam cheios de cicatrizes.
-porque caralhos isso está verde? Rosa? Tem até azul! E sem falar em todas essas cicatrizes, que tipo de maltratos vocês passavam em? Tem um até sem um braço!
Falo meio alto pelo choque ouvindo algo parecido com um resmungo enquanto observava cada um melhor, um filhote me chama a atenção, ele tem uma cicatriz debaixo do olho bem parecida com a minha só que do lado esquerdo, estico minhas mãos e pego ele enquanto alguns gatos miam em protesto.
_NÃOO!
_SOLTE LUFFY!
_DEVOLVA ELE!
_LUFFY!
_AAHHH! LUFFY-SAMA!
Eu olhei confusa enquanto vários gatos ou estavam me encarando como se fosse me atacar a qualquer momento ou pulavam tentando alcançar o aparentemente 'Luffy'. Eu olho para o gato em minha mãos e percebo que tem um chapéu de palha pendurado por um fio em seu pescoço.
-um chapéu? Estranho, mas ok.
Eu aproximo ele para dar um olhada melhor na cicatriz e passo meu polegar em cima para sentir a textura, Luffy inclinou a cabeça, enquanto os outros gatos ficam gritando e pulando.
_hã, que foi?
_LUFFY, NÃO SE PREOUCUPE NÓS VAMOS TE SALVAR.
_LUFFY, SEU IDIOTA, PORQUE SÓ VOCÊ CHAMA A ATENÇÃO DAS BONITAS?!
Depois de dar uma boa olhada solto uma risada enquanto olhava para os gatos, oque os fizeram ficar confusos.
- então você se chama Luffy, não é um nome muito comum.
Enquanto falava todos os gatos pareciam em choque, até poderia ouvir seus cérebros entrando em curto-circuito.
-aliás, como você conseguiu isso em? Sabe eu tenho uma parecida só que fica do lado direito.
Falo o colocando de volta na caixa e puxando minha franja deixando meu olho e cicatriz a mostra. Todos os gatos me encarando em silêncio por longos segundos.
-eu sei, eu sei. Sou bonita, mas também não precisa ficar encarando como se eu fosse desaparecer a qualquer momento.
Falei e soltei a franja enquanto me levanto, não gosto que me encarem assim nem mesmo gatos, e me viro para ir embora.
-boa sorte em sair daí e arrumar um lugar pra dormir.
_ESPERA!
Eles gritam todos ao mesmo tempo fazendo meus ouvidos zumbirem, levo uma mão a uma orelha e olho devolta a caixa.
-não gritem!
_desculpa.
Alguns murmuram desculpa com orelhas baixas, enquanto outros nem olham na minha cara.
-oque querem?
_ajuda?
Fala um com a orelha em pé.
-e porque eu deveria? Eu não tenho espaço, nem dinheiro pra fica comprando sache pra ninguém não. E eu só não ignorei vocês por que não tá chovendo mais.
Falo me agachando de frente pra caixa bufando.
_porque você nós deve.
Falou uma gata alaranjada me fazendo a encarar assim como o resto dos gatos.
_deve?
-devo nada.
_deve sim! Ou você acha que você poderia pegar o Luffy sem mais nem menos? você tem que pagar se quer carregar ele!
_tem?
-hãnn! eu não vou pagar um gato de rua qualquer por carregar por alguns segundos seu amigo! E também oque você faria com dinheiro se gatos não podem comprar nada?
Ela pareceu pensar por um momento e abaixou a cabeça derrotada enquanto eu sorria vitoriosa
_e quem disse que você vai pagar com dinheiro?
Droga! Esses gatos são mais inteligentes do que eu imaginei ou talvez seja apenas essa gata.
-e como exatamente eu pagaria se não com dinheiro?
_abrigo oras, afinal não podemos usar dinheiro.
-NEM A PAU! Vivemos num estado capitalista onde dinheiro é tudo! Desde de coisas mais do cotidiano até o mercado negro na venda de escravos e também... ESPERA! PORQUE EU ESTOU DISCUTINDO COM UM GATO SOBRE UMA DIVIDA QUE EU NÃO TENHO?!
-CALA A BOCA PORRA! SÃO QUASE 2 DA MANHÃ VAGABUNDA.
Olho pra cima e vejo um cara de pijama na varanda de um prédio tacando um vaso com um cacto direto na direção da caixa, ajo rapidamente colocando minhas costas e braços na frente enquanto protego minha cabeça com minha mão e fecho os olhos. O vaso acerta minha minha cabeça enquanto o cacto acerta meu ombro, sinto dor e sangue escorrendo da minha mão, cabeça e ombro.
_MEU DEUS!
_VOCÊ ESTÁ BEM?
-porra, meu moletom. VOCÊ TÁ LOUCO FILHA DA PUTA?!
Falo olhando para meu ombro percebendo que cacto está grudado na minha carne, depois olho para o cara que parecia assustado e corre pra dentro do apartamento fechando a porta.
-que patife, fez merda e fugiu sem nem presta primeiros socorros.
_EI! VOCÊ ESTÁ BEM? VOCÊ ESTÁ SANGRANDO!
_VOCÊ PRECISA DE UM MÉDICO!
-EI! EI! CALMA AÍ! Eu estou bem, ok? Não é a primeira vez que me tacam um vaso e também antes eu do que vocês, a probabilidade de vocês morrerem com isso é maior que a minha.
_ISSO NÃO É MOTIVO PRA SE ARRISCAR ASSIM! A GENTE PODERIA TER SIMPLESMENTE DESVIADO!
-NOSSA, DE NADA TAMBÉM SEUS MAL AGRADECIDOS, E EU DUVIDO MUITO QUE TODOS VOCÊS TERIAM DESVIADO A TEMPO! VOCÊS NEM SE QUER OLHARAM QUANDO ELE TACOU O VASO!
Bufo e volto a examinar o cacto e começar a tirar, ignorando as reclamações deles, depois de alguns minutos eu consegui tirar sem machucar muito minha mão, provavelmente ainda tem alguns espinhos, mas felizmente o sangramento na minha cabeça diminuiu. Olho para os gatos eles estavam me encarando claramente ansioso.
-oque foi dessa vez?
_....você está bem?
Um gato preto com o pelo encaracolado perguntou baixo, se eu tivesse uma audição humana eu não teria ouvido, mas daí eu também não estaria entendendo.
-não muito, ainda tem alguns espinhos que vai doer na hora de me trocar, mas tirando isso tá de boa.
Ele me olha com uma cara de quem não acredita muito, mas deixa passar.
_desculpa.
Dessa vez foi aquela gata laranja agiota.
-não foi nada.
Eu me levanto e me viro de costas para a caixa.
-se quiserem podem vir comigo, mas já vou deixando claro que não vou fica comprando sache pra ninguém não.
_sério?!
-sim, agora venham antes que eu mude de ideia.
Espero alguns segundos ouvindo eles tentando sair.
_uma mãozinha aqui?
Me viro e vejo alguns se empilhando para tentar sair e outros brigando, suspiro ajeito minha bolsa no ombro bom, me abaixo e pego a caixa com facilidade deixando na altura do meu estômago e começo a andar para casa.
-melhor?
_sim, aliás você é bem alta em, qual sua altura exatamente?
O gato vermelho sem um braço pergunta se apoiando numa parede da caixa.
-ah, faz alguns anos que eu medi, mas se não me engano era 2,73.
_QUE?! quanto tempo faz isso?!
-huuummmm, acho que 5 anos e meio mais ou menos.
_caramba! Oque você come pra cresce tanto?!
-eeeehh, miojo?
_QUE?! QUAL A FREQUECIA QUE VOCÊ COME ISSO?!
Um gato amarelo com sobrancelhas engraçadas falou ofendido enquanto outros gatos pareciam dividir o mesmo pensamento que ele.
-ah, quando dá vontade?
_você está brincando né?! Como você pretende se manter saudável assim?!
-minha imunidade sempre foi boa, não precisa se preocupar.
Quanto falta pra chegar em casa? Estou me sentido num interrogatório, como se eu tivesse sendo acusada de cometer um massacre. Eu acelerei o passo.
_não importa se sua imunidade é boa, sem os nutrientes certos você vai ficar doente da mesma forma!
_verdade!
Outro gato se juntou ao julgamento gratuito contra meus hábitos alimentares.
–como isso a anos e mesmo assim não fico doente.
_sorte, mas ainda precisa ter uma boa dieta--
–olha lá, minha casa e essa conversa acabou porque eu preciso pegar a chave.
