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Jabuticaba

Summary:

Após finalizar as gravações de uma novela que marcou altos índices de audiência, Kauê Park, nome artístico de Chanyeol, resolve que aquela é a hora de tirar as férias dos holofotes que tanto adiou. Coincidindo com sua decisão, uma carta da avó materna o faz decidir que o primeiro destino de suas férias será no refúgio dos avós, na parte serrana da cidade. No entanto, Kauê não esperava reencontrar Bernardo Byun, Baekhyun para os íntimos, o filho adotivo de seus avós que foi o primeiro amigo que fez em um país que pouco conhecia e também o garoto que beijou após um acordo de que entre eles só rolaria aquele beijo e nada mais. Agora, Bernardo é um advogado criminalista de renome e um homem bonito demais que deixa Kauê balançado e determinado a fazer do início de suas férias um intensivão de como trazer imprevisibilidade a vida de um advogado habituado ao previsível.

Notes:

Essa história era para ser um presente de aniversário que eu me presentearia, mas não consegui escrever o primeiro capítulo em tempo hábil. Porém, decidi guardar a publicação dela para o chanbaek day e cá estou!

Uma super curiosidade sobre Jabuticaba: esse plot me veio por conta da novela “Vai na fé”, que acompanhei religiosamente no tempo de exibição e foi uma novela que me deixou viciada mesmo eu não sendo religiosa e nem nada do tipo. Para quem teve contato com essa novela, de cara vai pegar certas referências a ela, como, por exemplo: o Refúgio da Lua, que me inspirei em Lumiar, a profissão do Baekhyun e os personagens da Clara e do Nélio, que me inspirei um bocado na Dora e no Fábio e, claro, o lance de não poder usar celulares no refúgio. A inspiração acaba aí, de resto fui moldando de acordo com minhas ideias.

Essa história não está concluída ainda, mas terá 3 ou 4 capítulos que vou ir postando conforme for escrevendo, ok?

E aqui deixo meu super agradecimento a ipjmell, do projeto MarsGrapphics, que fez um trabalho maravilhoso na betagem desse capítulo! Também agradeço muitíssimo a Jay, que me deu muito apoio e incentivo para eu dar luz a esse plot!

Espero que tenham uma boa leitura ^^

Chapter 1: Refúgio da Lua

Chapter Text

Refúgio da lua 

 

Kauê estava exausto, mas bem orgulhoso e satisfeito com seu desempenho e com o de todos os colegas de elenco. Tinha acabado de gravar a última cena da novela das nove que conquistou o coração dos brasileiros. A novela, que girava em torno de intrigas, vingança e romances intensos, marcava altos índices de audiência, ainda mais agora que os últimos capítulos estavam indo ao ar; o que fazia com que as pessoas se reunissem em bares ou em família para que acompanhassem as últimas emoções dos personagens que aprenderam a amar e a odiar ao decorrer da trama.

Para Kauê, era bem engraçado ver toda a repercussão que a novela estava tendo através das redes sociais. Se divertia com os memes e com os comentários mais quentes a respeito de seu personagem, que estava dando o que falar entre os telespectadores e internautas. Nessa novela, Kauê deu vida a seu primeiro vilão após uma extensa lista de mocinhos sofredores. De início, teve aqueles que duvidaram que ele conseguiria entregar um vilão detestável, já seus fãs se empolgaram com a expectativa de vê-lo interpretando um personagem bem diferente do que ele estava habituado. Para a surpresa dos mais descrentes, Kauê deu um show de atuação e fez o Brasil o odiar, mas também amá-lo, já que ele era o tipo de vilão carismático, sarcástico e cheio dos bordões que caiu na boca do povo.

Ele se dedicou e estudou muito para o papel, ao ponto de se sentir pesado após gravar algumas cenas. Sempre se desculpava com as atrizes que contracenava após filmar alguma cena onde tinha que ser grosseiro ou abusivo com elas, tal comportamento era bastante admirado pelas colegas de elenco, mesmo sendo algo natural vindo dele. Detestava destratar as mulheres e as crianças com quem trabalhava, mesmo que fosse apenas atuação. Era conhecido por ser um artista bem simpático, educado e travesso – sua travessura despertava quando resolvia dar dicas enigmáticas para os fãs sobre seus futuros trabalhos. Alguns ficavam irritados com suas dicas vagas, mas era engraçado ver as reações e isso o impulsionava a seguir por esse caminho até ser xingado, o que o divertia ainda mais. 

Às vezes, Kauê até acompanhava alguns capítulos da novela e reagia a certas cenas com comentários engraçados no twitter, pois gostava de estar em contato com os telespectadores. Porém, nem tudo era um mar de rosas. Também se deparava com comentários de haters. Em sua maioria, eram comentários amargurados demais para ele dar atenção, mas outros eram bem pesados e preconceituosos, o que já o levou a processar diversas pessoas ao longo da carreira. 

Mesmo sendo um ator com anos de carreira, sempre visou o próprio aprimoramento e teve oportunidades de ouro para aprender muita coisa com os atores e atrizes que mais admirava. Estudou artes cênicas e começou sua carreira no teatro, era muito grato por tudo que aprendeu nessa época e por todas as portas que se abriram para ele, amava sua profissão, tanto que se dividia entre a tv e produções direcionadas a serviços de streamings. Dificilmente parava, pois gostava de se manter em movimento e em constante aprendizado. Em contrapartida, não lhe sobrava tempo para se dedicar a relacionamentos, por exemplo, o último que teve foi há um ano, com uma mulher que tinha os cabelos trançados, olhos grandes, sorriso largo e lábios carnudos. O namoro não durou muito por conta da vida corrida de Kauê, que voava do Rio de Janeiro para São Paulo e de São Paulo de volta para o Rio, já que as gravações da novela eram focadas nas duas cidades. Era uma rotina insana que o fez dedicar um tempo mínimo ao namoro, que, sem uma chama forte queimando, se apagou como uma vela ao primeiro sopro de vento forte.

Tal relacionamento fracassado se deu após ser apresentado à ex, uma amiga do ator, que já fez par romântico. Foi nessa época que fez seu primeiro papel como homossexual. Felizmente, seu personagem teve uma boa recepção do público. Por ter uma aparência jovem graças a sua herança genética, interpretou um adolescente se descobrindo gay e recebeu muito carinho do público, principalmente de mães de meninos homossexuais; o que o tocou bastante, mesmo que ele não tenha tido tal acolhimento vindo da própria mãe.

Sendo uma novela de uma emissora que prezava manter o público mais conservador, é claro que houve múltiplos cortes nas cenas que tinham troca de carinhos e beijos entre ele e o ator que fez seu par romântico. Na época, Kauê se irritou bastante com isso. Não gostou nadinha da censura, até porque ele só soube dos cortes após os capítulos irem ao ar. No tempo de exibição da novela, chegou a ser repreendido pelo diretor da obra por postar algumas indiretas na rede social que mais fazia uso. Mesmo sob ameaça de ser jogado na geladeira, não apagou nenhum dos seus tweets, era um ator afrontoso e assumidamente bissexual que sempre se fazia ouvir e dava voz a comunidade LGBTQIA+, pois entendia a relevância que sua voz tinha no meio artístico.

Por ser o último dia de gravação, o elenco o chamou para ir a um restaurante de comida japonesa para comemorar o encerramento da novela, mas, educadamente, recusou o convite. Estava cansado demais para acompanhá-los e nenhum pouco disposto a beber. Tinha sido entrevistado pela manhã e filmado durante a tarde e à noite, a única coisa que lhe era atraente naquela hora da noite era um banho quente e sua cama. Estava um caco! Se sentia emocionalmente e fisicamente exausto, tinha dado tudo de si em sua última cena e esperava muito que o público gostasse do desfecho de seu personagem. 

Com as forças restantes, seguiu para o próprio carro e rumou para a casa, um apartamento espaçoso no último andar de um condomínio de luxo muito bem localizado. Morava sozinho e sempre sentia a solidão o abraçar assim que colocava os pés no apartamento e ninguém vinha o recepcionar. Era um sentimento frequente, mas passageiro — no entanto, o gerava incômodo. Já tinha pensado em arrumar um bichinho de estimação, mas a falta de tempo tornava essa ideia inviável. 

Tempo… precisava tanto tirar um tempo para ele. Um tempo para viver fora das telas e para se reconectar com o Chanyeol Park.

Ele se recorda de ouvir o nome “Kauê” na tv, quando era adolescente, e achar a sonoridade bonita. Se lembra também de buscar a origem do nome e gostar ainda mais dele, tanto que o adotou para si. Como pessoa pública, vestia a pele de Kauê Park, mas quando estava em casa sozinho, ouvindo a própria respiração e o som do ar condicionado ligado, era apenas o Chanyeol, alguém necessitado de férias. Fazia tempos que emendava um trabalho no outro, até Hiro, seu agente, se assustava. Já caiu doente diversas vezes por excesso de trabalho e, no dia seguinte, logo estava de volta a ativa, o que fazia Hiro quase arrancar os cabelos. Admitia ser viciado em trabalho, porém, sabia que seu corpo e mente exigiam um descanso. Mesmo amando o que fazia, precisava de uma folga de todo aquele mundo.

Por ser um ator bastante conhecido, dificilmente passava despercebido por conta de seus 1,92 de altura e por sempre estar em evidência. Era uma missão quase impossível ter privacidade. Já perdeu as contas de quantos rumores falsos com seu nome já circularam na mídia, inclusive ganhou fama de namorador mesmo sem ter tempo para namorar. Só o fotografavam ao lado de mulheres e homens, que eram seus amigos, e noticiavam que eram pessoas que ele estava pegando. Aquilo já o chateou tantas vezes e sempre o fez vir a público explicar que estava só saindo com amigos e que, muitos deles, até casados eram. Sempre pedia para os fãs não acreditarem em tudo que liam sobre ele na internet.

Kauê suspirou ao lembrar que o último rumor que inventaram sobre ele foi que estava saindo com uma colega de elenco que, na verdade, estava em um relacionamento secreto com outra mulher.

— Preciso de férias — disparou enquanto olhava para o teto branco.

Mesmo se sentindo exausto, estava sem sono. Havia tomado banho, comido pão com atum, escovado os dentes e feito sua skin care noturna no modo automático antes de ir se deitar.

Sentia falta dos amigos e de uma vida menos agitada. Mesmo amando a profissão e seus fãs, também sentia falta do anonimato. Queria viajar para algum lugar onde só seria mais um na multidão. Precisava desesperadamente voltar a experimentar isso! Nem se lembrava da última viagem que fez na qual se deixou ser o Chanyeol Park e nada mais. 

— Quem sabe se eu viajar para algum país europeu — falou consigo mesmo. Gostava de pensar em voz alta, ao menos sua voz preenchia aquele apartamento vazio.

Era um homem espaçoso e gostava de ter um apartamento grande só para ele, mas se sentia solitário. Sentia saudades do calor e da presença humana. Tinha amigos não famosos também e, vez ou outra, os encontrava, mas eles tinham suas vidas ocupadas e a maioria já eram pais e mães. Filhos para ele não era uma opção, ao menos não de momento, talvez um dia, com a pessoa certa.

Olhou para o relógio de cabeceira e viu que já passava das duas da madrugada. Ainda sem sono, pegou o celular e pesquisou vlogs de brasileiros em outros países. Assistiu vários vídeos desse tipo antes de se cansar e ir pesquisar passagens aéreas. Não decidiu o lugar que passaria suas férias, mas estava determinado a fazer um tour pela Europa. 

Após ter um objetivo traçado, seus olhos pesaram e ele rapidamente pegou no sono. 

•••

Pela manhã, acordou com o celular tocando. Chiou e tateou a cama, às cegas, até pegar o celular e, com os olhos semi abertos, atendeu a ligação. Do outro lado da linha, Hiro falava a respeito de uma proposta para um novo papel em uma série, o que fez uma careta crescer nos lábios de Kauê.

— Dessa vez irei recusar — sussurrou com o timbre ainda rouco pelo sono. — Decidi tirar férias. 

Seu agente ficou em silêncio por uns três segundos antes de soltar um sonoro “Como é?!”, que fez Kauê sorrir e se ajeitar na cama até ficar sentado com as costas bem rentes à cabeceira. Nessa altura, seus olhos já estavam bem abertos, mas ainda sentia sono.

— Não sei se ouvi bem, você quer tirar férias? 

— Sinto que preciso. Quero passar um tempo sem ser reconhecido na rua. 

— Nossa! Estou surpreso, mas também aliviado de vê-lo dando uma pausa nessa rotina maluca que você estava levando. Não é de hoje que acho que você devia tirar umas férias, mas você não me dava ouvidos. 

— Achei que ficaria decepcionado. A proposta que recebi é boa, mas realmente não quero me envolver em outro trabalho agora.

 — Você receberá outras propostas boas, isso sem dúvidas! 

Kauê riu. 

— Onde planeja passar as férias?

Foi a vez de Hiro rir. 

— Em alguma parte da Europa, eu acho. Ainda não me decidi, mas já iniciei meu descanso. Saiba que você também terá férias. Quero que aproveite sua família e se esqueça de mim. 

Hiro Takamura é agente de Kauê desde o começo da carreira na televisão. Kauê tem um carinho muito grande pelo mais velho, o vê como um tio legal, já que em sua família a única parte legal se dá pelos avós maternos.

Kauê possui dupla nacionalidade, é filho de um coreano conservador com uma brasileira igualmente conservadora e religiosa. Ele nasceu na Coreia do Sul e o coreano é sua língua materna, mas também aprendeu português e sabe falar fluentemente, sem sotaque, já que foi ensinado pela mãe desde novo. Sempre teve facilidade de aprender línguas, o que o fez se interessar no aprendizado de japonês e espanhol e, assim, se tornou poliglota.

Por conta de muitas desavenças familiares, de várias tentativas de podagem dos pais e de múltiplas tentativas de o converter para uma religião que ele respeitava, mas não queria seguir, Kauê, aos dezessete anos, decidiu ir morar com os avós maternos no Brasil. Foi penoso tentar convencer os pais, mas a mãe acabou cedendo e o emancipando. A matriarca da família confiou que os pais dariam a Kauê uma boa criação e não o deixariam se “desencaminhar na vida”. 

Resultado: os avós o deixaram voar livremente e morar com eles foi a melhor escolha que Kauê fez na vida.

Kauê não voltou para a Coreia, pois, um ano após ter se mudado para o Brasil, a fofoca de que foi visto beijando um garoto chegou aos ouvidos da parte mais conservadora da família e isso o fez querer distância de familiares que o diziam que ele estava possuído. Cortou relações com grande parte da família, principalmente com os pais, que queriam levá-lo para um acampamento que prometia “curá-lo”. A melhor coisa que fez foi se manter no Brasil e realizar o sonho de cursar artes cênicas. Era muito grato aos avôs por deixá-lo morar com eles até se tornar independente.

Lembrar dos avós o fez sorrir. Sentia saudades deles e fazia bastante tempo que não os visitava por conta da falta de tempo.

— Será difícil esquecer de você, garoto, mas tentarei. Por quanto tempo planeja ficar fora? 

— Pretendo ficar um bom tempo longe. Trabalhei insanamente nesses últimos anos e posso me dar ao luxo de sumir por um tempinho até ficar agoniado e querer voltar — soltou uma risada indigesta. — Já dei vida a muitos personagens, agora quero ter mais tempo de viver como o Chanyeol e deixar o Kauê descansando. 

— Tá certo! Então, aproveite suas férias. Te garanto que aproveitarei as minhas. Qualquer coisa, me ligue. 

— E a parte que falei sobre me esquecer por um tempo, hm?

— Não tem como te esquecer por dois motivos: sou seu agente e seu rosto está em toda parte. 

Kauê riu e foi acompanhado pela risada de fumante de Hiro, que encerrou a ligação falando um “até breve, garoto”.  Kauê não era mais um garoto. Já estava com trinta e três anos, mas não recriminava Hiro de o chamar daquela forma, até gostava.

Suspirou e sorriu para o nada. Se sentia mais leve após aquela ligação e pronto para passar mais um tempo preguiçando na cama se não fosse pelo interfone tocando. 

Resmungou baixinho enquanto saiu do conforto da cama e cruzou a casa até alcançar o interfone na cozinha. Já estava pronto para recusar a subida de qualquer visita surpresa ou falar que pegaria qualquer que fosse a encomenda que tivesse chegado para ele mais tarde. Porém, ao ouvir que chegou uma carta da avó, pediu para o porteiro colocá-la no elevador que ele a buscaria.

Desde que se mudou para aquele prédio, há três anos, comunicou a todos os porteiros que lhe avisasse assim que chegasse alguma coisa de Clara, sua avó materna. Clara ainda usava cartas escritas a mão como seu principal meio de comunicação, pois detestava celulares ou a ideia de criar redes sociais. Quando queria falar com ela, Kauê ligava para o celular do avô, que gostava de celular, mas não o usava com tanta frequência. Em suma, os avós gostavam da conexão humana e de levar uma vida tranquila longe da agitação da cidade, tanto que residiam na região serrana em um lugar chamado Refúgio da Lua, onde as pessoas se hospedavam buscando se conectarem consigo mesmas ou umas com as outras. Por lá era estritamente proibido o uso de celulares, só em caso de emergências. 

Ansioso, Kauê correu para o quarto e vestiu uma regata antes de ir para a porta e a destrancar. A deixou entreaberta e correu até o elevador para esperar a carta subir até seu andar. Em poucos segundos, o elevador chegou em seu andar e Kauê pegou o envelope verde com um sorriso enorme.

Verde-escuro ou verde natureza, como sua avó gostava de chamar, era a cor favorita de Clara e ela sempre o enviava cartas em um envelope verde. Sequer esperou entrar no apartamento para abrir o envelope e desvendar o que estava escrito. 

 

“Olá, meu querido, tudo bem?

Estou escrevendo porque estou com saudades de lhe dedicar algumas palavras. Sei que anda trabalhando muito e isso está me preocupando. Você ao menos está se alimentando bem? Não está fazendo nenhuma dieta maluca, certo? Espero que não. Você é um homem grande e precisa se alimentar bem, ainda mais tendo uma rotina tão corrida. 

E, ah, gostaria de dizer que estou acompanhando os capítulos finais da novela! E, caramba! Como o seu personagem é perverso! Me assusto com o olhar em seu rosto em algumas cenas, é tão frio… como meu doce Chanyeol consegue dar vida a alguém tão maldoso?! Meu neto é mesmo um ator primoroso! Até cheguei a me gabar do seu desempenho na novela para uma amiga de longa data. Foi divertido vê-la desejando mal ao seu personagem quando assistimos o capítulo da sexta-feira passada juntas. Como se sente sendo tão odiado? Deve ser algo novo, né? Estou torcendo tanto para ver você sendo devidamente reconhecido por esse papel! Para ser sincera, quero ver você levando um troféu nos Melhores do ano!

Eu e seu avô estamos bem e as coisas no refúgio também estão. Quero tanto te ver, meu neto! Estou com saudades até de fazer seus pratos favoritos, sabia? Me pergunto quando você vai me dar o prazer da sua visita… você sabe que o refúgio sempre está com as portas abertas.

Com muito amor, 
Clara”

 

Kauê releu aquela carta três vezes e em todas sentiu o carinho da avó lhe embalar o peito. Já sabia exatamente onde iniciaria suas férias.

•••

Bernardo adorava dirigir com as janelas abertas para deixar o vento fresco cantar em seus ouvidos e agitar seus cabelos enquanto uma boa música embalava o carro. Dirigir era algo relaxante para ele, ainda mais quando não tinha pressa. Gostava tanto de estar ao volante que fazer viagens longas não era problema, principalmente quando seu destino era o refúgio dos pais. Sempre que podia ia para o Refúgio da Lua. Era o lugar onde conseguia colocar as ideias no lugar, matar a saudade dos pais e refletir sobre seus próximos passos. Porém, fazia um ano que não tinha tempo de visitá-los por conta da demanda de seu trabalho como advogado criminalista. Tinha uma vida agitada e era alguém muito requisitado em seu meio. Levava uma rotina cheia de angústias que alternava entre dias repletos de tensão, estresse, ansiedade e autocobranças exacerbadas e dias de grande alívio e gratidão por conseguir fazer justiça. 

Ainda sentia a leveza repousando em seu peito por conseguir provar a inocência de um jovem rapaz negro periférico, que foi preso por um crime que não cometeu. O jovem havia sido acusado pelo assassinato de um motoboy em um posto de gasolina após ser reconhecido por meio de uma fotografia que estava no sistema da Polícia Civil do Rio, mesmo que ele não tivesse passagem pela polícia. O músico foi abordado pela polícia em meio a uma roda de samba no dia seguinte ao crime e acabou sendo preso temporariamente. Bernardo logo foi contatado pelo pai do músico e deu início a investigação. Após ouvir testemunhas, encontrou uma filmagem, da câmera de segurança de um bar próximo a roda de samba que o músico estava, que gravou o rapaz na roda na mesma hora que o crime ocorreu. Teve que convencer o dono do bar a liberar a filmagem, já que o homem não queria ter envolvimento nenhum com assuntos da polícia, uma vez que aquela região era comandada pela milícia e o homem temia ser taxado de X9

Após muita persuasão, jogo de cintura e a promessa de anonimato, Bernardo conseguiu convencer o dono do bar a permitir que tivesse acesso às filmagens para usá-la como prova. Por conta da extensa pesquisa que fez, descobriu que havia algumas câmeras próximas ao posto de gasolina que ocorreu o assalto, a maioria sem funcionamento. Porém, felizmente, justamente a câmera da loja de sapatos, que ficava bem próxima ao posto, estava em pleno funcionamento e conseguiu registrar o que fez toda a diferença no caso e conseguiu fazer com que Bernardo inocentasse o músico e deixasse o verdadeiro criminoso na mira da polícia.

Casos como esse, infelizmente, eram frequentes por conta do racismo estrutural, do autoritarismo policial e de estereótipos baseados unicamente na cor da pele. Bernardo bem sabia que dezenas de pessoas pretas e pobres, muitas vezes sem passagem alguma pela polícia, tal como o músico, são reconhecidas diariamente por delitos, que muitas vezes sequer cometeram, por conta de um reconhecimento fotográfico que não constitui uma prova segura, muito menos confiável, no processo penal. O advogado se sentia enjoado com a constância que casos semelhantes iam parar em suas mãos ou nas mãos de colegas de profissão. 

O músico foi o seu último cliente antes do início do seu ano sabático. Precisava voltar a se reconectar com ele mesmo, coisa que sua rotina não permitia. Estava vivendo para trabalhar e nem tempo para manter amizades tinha, quem dirá algo a mais. Todos os colegas de outras áreas que teve, eventualmente, se distanciaram, pois Bernardo nunca tinha tempo para nada. O tempo que tinha era usado para analisar casos ou para dormir em cima de pilhas de papel. Não era uma vida saudável, ele bem sabia. 

Fazia meses que estava vivendo a base de delivery só para investir mais tempo no trabalho. Tinha se tornado um homem solitário que tinha amizades somente no trabalho e todos seus amigos eram tão ocupados quanto ele. A única pessoa de seu convívio que ainda não foi consumida pela rotina árdua de um advogado criminalista era seu estagiário, Kai. Uma doçura de rapaz que sempre chegava ao escritório pontualmente e era bem dedicado. Quando anunciou que tiraria um ano sabático, Kai foi o primeiro a perguntar se poderia manter contato. E é claro que Bernardo permitiu, mas deixou claro que ficaria incomunicável pelas próximas duas semanas, já que seu primeiro destino seria o refúgio dos pais, onde os celulares não eram bem-vindos. Admitia que a pior parte de ir para o refúgio era ter que abrir mão do celular, mas por eles valia o sacrifício. 

Clara e Nélio, esses eram os nomes de seus pais adotivos. Foram eles que o acolheram, ainda bebê, o criaram, educaram e o deram amor e carinho incondicionais que o fizeram se tornar o homem que é hoje. Já sua mãe de sangue, Hana Byun, era brasileira com ascendência coreana que se tornou mãe solo cedo demais e não teve condições para cuidar de um bebê, ao menos foi isso que ela relatou na carta que deixou na cesta junto a Bernardo. Nela, a jovem implorou que cuidassem de seu filho e que gostaria que mantivesse o nome “Baekhyun”, já o sobrenome ficaria ao cargo do filho decidir adotar ou não.

Bernardo manteve o nome que a mãe lhe deu e também manteve o sobrenome dela, mas usava um nome ocidental para facilitar no trabalho.

Por anos, tudo que Bernardo soube da mãe foi o que a carta lhe dizia. As informações que tinha era que: Hana era uma jovem de vinte e dois anos que o abandonou por não ter condições financeiras nem psicológicas de o manter, mas ela jamais teve coragem de abortar, pois queria que ele nascesse e fosse criado por pessoas que o amariam e que lhe dariam uma boa condição de vida. A carta também dizia que Hana se hospedou algumas vezes no refúgio dos pais adotivos de Bernardo quando era criança. Na verdade, foram os pais dela que se hospedaram e foi ali que o apego dela com o refúgio começou. Na carta, Hana relatou que se encantou com o Refúgio da Lua e com a forma gentil e carinhosa com que foi tratada por Clara e Nélio e que ela gostaria de ter pais como eles, tanto que, na cabeça dela, eles seriam os únicos que poderiam criar seu bebê. Hana também confidenciou que tinha se envolvido com as drogas e que temia o que poderia acontecer com seu bebê, caso o mantivesse por perto. 

Aos dezoito anos, Bernardo decidiu procurar pela mãe e acabou por descobrir que fazia cinco anos que Hana tinha falecido por conta de uma overdose. Isso foi um baque para ele, um baque que o incentivou a saber mais do passado da mãe que perdeu sem conhecer e, quanto mais descobriu sobre ela e sobre sua origem, mais se revoltou. Descobriu que a mãe foi expulsa de casa logo após os pais acharem drogas, que Hana afirmou serem do namorado, na mochila dela. Daí em diante ela teve que se virar sozinha, pois os pais não acreditaram que as drogas não eram dela e não queriam uma “drogada” morando na casa deles.

Bernardo nunca quis saber da família da mãe biológica por conta disso, muito menos do pai, que descobriu que foi o real responsável por influenciar Hana a ir para o mundo das drogas. Assim que soube parte da própria história, Bernardo se viu ainda mais convicto em usar o sobrenome de Hana e de manter o nome que ela o deu. Seus pais adotivos o chamavam de Baekhyun e pessoas que o conheciam desde novo também e, para ele, bastava. 

O interesse por cursar direito se deu em meio a sua investigação pessoal pela mãe biológica e por conta de toda a revolta pelo fim trágico que Hana teve. Bernardo não pôde fazer nada por Hana, mas jurou, diante do túmulo dela, que dedicaria a vida fazendo justiça, na legalidade, por todos que precisassem que ele a fizesse.

Marisa Monte cantando “Vilarejo” o trouxe de volta ao carro e o fez esboçar um sorriso de canto. Essa era a música favorita de Clara que, coincidentemente, começou a tocar assim que passou pela placa de “Seja bem-vindo ao Refúgio da Lua”.

Agora podia dizer que estava em casa. Afinal, ali foi o local onde foi criado e onde descobriu e aprendeu muito sobre si. Nem mesmo seu próprio apartamento se equiparava àquele refúgio, até sua alma parecia estar repousando melhor no corpo; a sensação de pertencimento era imensurável.

Em poucos quilômetros, chegou a estrada de terra batida que terminava no amplo terreno do Refúgio da Lua. Uma vez lá, estacionou o carro e saiu do veículo em um pulo. Ficou aliviado de esticar as pernas após ficar tanto tempo sentado em uma mesma posição. Em seguida, seus olhos vagaram até pousarem na dupla que tanto sentiu falta. Não hesitou em correr até eles.

— Você veio mesmo, meu querido! — Clara exclamou assim que teve a chance de abraçar o filho. 

Imediatamente o nariz de Bernardo foi invadido pelo cheiro familiar de erva-cidreira, o cheiro que ele associava à mãe por ela viver manuseando essa erva; ela amava chá de erva-cidreira. 

Clara era uma mulher pequena, com cabelos cheios e grisalhos e olhos grandes e redondos que pareciam carregar toda a doçura do mundo. Sentiu tanta falta daquela mulher e do abraço acolhedor dela. Mesmo sendo um homem de altura mediana, ainda era mais alto que a mãe. Gostava dessa diferença de altura, pois permitia que ele a embalasse em seus braços.

Após abraçar Clara, foi envolvido pelo abraço de Nélio, que era forte e gentil ao mesmo tempo. O cheiro de pinheiros que se desgrudou das roupas do pai fez Bernardo se sentir ainda mais em casa. A união dos cheiros familiares trazia de volta várias memórias afetivas que, para o advogado, eram preciosas.

— É bom vê-lo por aqui e não enfurnado no escritório com os olhos fundos e as olheiras não sendo disfarçadas pelos óculos. 

— Pai! — Bernardo protestou, mas sabia que o pai estava certo. A última vez que o viu foi há mais de nove meses. Nélio foi até seu escritório lhe fazer uma visita surpresa e ficou em sua casa por três dias. Adorou cada segundo da companhia do pai em seu apartamento, até mesmo das reclamações do seu velho sentiu falta. 

— Falei alguma mentira? — Nélio desafiou com um sorriso de canto antes de seus dentes brancos e bem alinhados surgirem e fazerem um contraste bonito com a pele escura. Nélio também já tinha seus cabelos grisalhos, mas estava muito bem conservado para a idade, assim como Clara. 

— Ter um filho e um neto tão dedicados ao trabalho dá nisso, mas garanto que essas olheiras vão sumir nessas semanas que você ficar por aqui. Dormir sem preocupações faz maravilhas com qualquer um. — Clara voltou a abraçar o filho, dessa vez lateralmente. Estava com saudades de tê-lo tão pertinho. — Nélio, meu amor, tire as malas do carro do Baekhyun. Ele está cansado e quero o chamegar um pouco.

Bernardo abriu um sorriso ao ouvir a confissão da mãe e por ela tê-lo chamado pelo nome que há tempos não ouvia ninguém chamar.

Nélio, obedientemente, atendeu o pedido da mulher. Pediu a chave do carro do filho, pois queria tirar o carro da passagem e o estacionar aos fundos da casa, já que chegariam novos hóspedes naquele dia.

O Refúgio da Lua era um lugar com um total de dez quartos para alugar. Havia café da manhã incluso, atividades organizadas por Clara e passeio a cavalo, caso quisessem, e, claro, muito contato com a natureza. 

— Estão recebendo muitos hóspedes? — Bernardo deu voz a curiosidade assim que o pai deu as costas.

— Não estamos no período das férias, então as coisas estão bem mais tranquilas do que o usual. Porém, além de você, vamos receber um casal e Chanyeol.

— Chanyeol está vindo pra cá? — seu coração deu um salto no peito e seus olhos arregalaram. Olhou para a mãe com uma surpresa mal disfarçada e Clara assentiu com um sorrisinho discreto despontando dos lábios. 

Então havia chegado o dia que reencontraria Chanyeol.

Conheceu Chanyeol naquele mesmo lugar. Para ser mais preciso, o conheceu quando tinha dezoito anos, meses após a descoberta sobre a mãe biológica. Chanyeol se mudou definitivamente para o refúgio dos avós, visto que o lugar era um casarão rústico que Clara e Nélio residiam e disponibilizavam aluguéis de quartos. Em uma visão geral, o refúgio era um negócio bem família que oferecia uma estadia igualmente familiar.

Soube pelos pais que Chanyeol decidiu morar com eles no Brasil por não aguentar continuar morando com os pais conservadores. Sempre soube que a filha de sangue dos pais não era fácil de lidar e o marido dela menos ainda, os dois eram duas bombas relógios, palavra dos pais, que não desejava conhecer. Nélio e Clara se lamentavam pela filha ser assim, mas de nada podiam fazer. No entanto, pelo neto podiam, tanto que abriram as portas do refúgio para ele morar.

De início, Bernardo ficou ansioso e pensando que, talvez, a presença de Chanyeol ali fizesse os pais o deixarem de lado ou que Chanyeol poderia ser maldoso com ele — mesmo os pais o assegurando que Chanyeol era totalmente diferente dos pais e que já sabia tudo que devia sobre ele, uma vez que fizeram questão de contar — entre outras bobagens resultantes da própria insegurança. Contudo, assim que Chanyeol chegou, se viu cativado pelo sorriso cheio de dentes e pelo par de orelhas de abano, que achou uma graça.

De cara simpatizou com o rapaz, que era um jovem falante que fez questão de o deixar confortável em sua companhia. Foi fácil engatar em uma conversa com Chanyeol e mais fácil ainda se ver entretido com ele. Chanyeol o surpreendeu ao falar um português tão claro e com poucas falhas, sequer parecia ser a segunda língua dele. Naquele dia, passaram a tarde inteira conversando até que, em um rompante de coragem, pediu, brincando, para Chanyeol o ensinar coreano. Para a sua surpresa, o garoto aceitou.

Por conta das aulas de coreano básico, eles se aproximaram e rapidamente se tornaram amigos. Às vezes tinha uma palavra, frase ou expressão em português que Chanyeol não sabia e Bernardo calmamente explicava, inclusive teve que ensiná-lo várias expressões e gírias regionais, o que foi bem divertido. Estar na companhia de Chanyeol era leve e aquilo era algo novo para alguém habituado a ser chamado de “bicho do mato” por não se mostrar disposto a fazer amizade com qualquer um. Porém, Chanyeol com sua gentileza, paciência e senso de humor aguçado conseguiu conquistá-lo de um jeitinho tão espontâneo que até Bernardo se espantou.

À medida que o tempo foi passando, o peito de Bernardo foi se enchendo de sentimentos confusos que o faziam engolir em seco toda vez que pensava demais a respeito. Junto a esses sentimentos também veio a constatação de que tinha se apegado a Chanyeol. Não queria ter se apegado tanto, até porque Chanyeol tinha lhe dito que, no ano seguinte, ia cursar artes cênicas na zona sul da cidade e arrumaria um apartamento por lá para ficar mais prático para ele, ou seja: em breve eles perderiam todo aquele contato próximo, pois a vida adulta e a acadêmica iriam os atolar de responsabilidades.

Bernardo também tinha planos de cursar direito no próximo ano. Já estava estudando para isso, aliás. Graças à boa condição financeira dos pais, iria cursar em uma faculdade privada, assim como Chanyeol.

Contudo, apesar de já terem suas vidas planejadas, nada impediu que Bernardo grudasse em Chanyeol ao ponto de se pegar incomodado com o próprio grude. Temendo estar passando uma imagem irritante, se afastou do garoto por alguns dias. No entanto, Chanyeol notou o afastamento e quis saber se tinha feito algo errado, o que Bernardo prontamente negou e explicou a razão, o que fez Chanyeol rir em um primeiro momento, o que deixou Bernardo constrangido, mas logo admitiu adorar a companhia de Bernardo e que não era para ele se afastar.

Bernardo ficou acanhado com a revelação, mas aliviado de saber que não o incomodava. Esse também foi o dia que Chanyeol o perguntou se poderia o chamar de Baekhyun e, bem, Bernardo permitiu.

Com o passar dos meses, as coisas foram ficando difíceis para Bernardo, ou melhor dizendo, para Baekhyun. Se sentia atraído por Chanyeol, mas não tinha coragem de admitir em voz alta. De início, se censurou por isso, mas o sentimento era mais forte que ele. Bernardo adorava ter Chanyeol como amigo, mas se pegava fantasiando coisas impróprias com ele ao ponto de ter sonhos quentes com o rapaz.

Como um bom masoquista, guardou tudo para si e não se afastou de Chanyeol, mesmo que o coração berrasse as ânsias que ele tentava a todo custo calar. 

Um ano se passou e Baekhyun seguiu com aquele sentimento escondido no peito, até o dia que ele explodiu. 

Clara e Nélio resolveram comemorar a entrada de Chanyeol na faculdade e a independência do neto, que alugou um apartamento e já tinha feito quase toda a mudança para o novo imóvel. Só faltavam umas caixas com roupas e livros, que Chanyeol levaria com ele no carro que ganhou de presente dos avós.

Dias antes, Baekhyun, Clara e Nélio foram ao apartamento de Chanyeol, pois o rapaz queria a aprovação deles. Baekhyun não conseguiu se animar, já que tudo naquele apartamento era um lembrete que não teria mais Chanyeol por perto e aquilo o deixava com um gosto amargo na boca. Sabia que estava sendo egoísta, mas não conseguia evitar. Contudo, conseguiu dar a desculpa que estava com dor de cabeça para justificar seu silêncio. Não queria que sua falta de entusiasmo magoasse o amigo.

Nélio organizou um churrasco para todos os hóspedes do refúgio em comemoração. O churrasco foi um sucesso, os hóspedes comeram até se sentirem saciados o suficiente para se recolherem, tal como Clara e Nélio, o que fez Baekhyun e Chanyeol ficarem sozinhos em frente a fogueira, que manteve os corpos deles aquecidos naquela madrugada fria.

Outro jeito de se aquecerem foi por meio do vinho. Nesse dia Baekhyun exagerou na bebida e ficou alegrinho demais. Estava triste, frustrado e com raiva de si por estar sendo egoísta e só conseguindo pensar que não teria mais a companhia de Chanyeol. Em meio a um impulso embriagado, sentou ao lado de Chanyeol, se espremeu contra o braço dele e deitou a cabeça no ombro do amigo ao ponto de cutucar o pescoço dele com a ponta do nariz. Por estar bêbado, Baekhyun também estava desinibido e não hesitou em inalar o cheiro do pescoço de Chanyeol, o que eriçou os pelos do rapaz. 

Por sua vez, Chanyeol limpou a garganta e se agitou em resposta, mas não afastou o amigo.

Até hoje Baekhyun não se lembrava da maioria das coisas que disse, só da parte que falou que os olhos de Chanyeol pareciam jabuticabas e que ficavam lindos sendo iluminados pelas chamas da fogueira. Se recorda da risadinha rouca que Chanyeol deu, logo após Bernardo apagou. Se lembra, vagamente, de ter sido carregado no colo, tal como uma noiva, e de ter dado risada contra o pescoço de Chanyeol após balbuciar algo antes de sucumbir ao sono de vez.

No dia seguinte, acordou de ressaca e morrendo de vergonha do pouco que se lembrava. Chanyeol fez algumas gracinhas bobas sobre o quão fraco Baekhyun era para beber e ficou o provocando ao longo do almoço, mas nada que o incomodasse de verdade. Contudo, ao ficarem sozinhos durante a lavagem da louça suja, Baekhyun, mesmo envergonhado, quis saber o que falou para ele na noite passada, já que não se lembrava.

Nisso, Chanyeol começou a lavar uma panela e manteve a atenção nela enquanto contava a Baekhyun que ele ficou choramingando e falando que não queria que ele fosse embora e coisas do tipo. Porém, o jeito apressado com que Chanyeol falou e a forma que ele pareceu ansioso fez Baekhyun ficar desconfiado, tanto que o pressionou a contar o que estava deixando de fora.

Baekhyun observou as orelhas de Chanyeol enrubescendo e ele respirando fundo antes de largar a panela que limpava, abrir a torneira e limpar as mãos com sabão para em seguida se virar completamente para si.

Baekhyun engoliu em seco e meio que se arrependeu de o ter pressionado, mas já era tarde. 

Após umedecer os lábios, Chanyeol se inclinou em direção a Baekhyun, que já estava com o coração acelerado, e sussurrou no ouvido dele que ele tinha falado o quanto ele era bonito e pedido, diversas vezes, para lhe beijar.

Assim que Chanyeol se afastou, Baekhyun quis se enterrar vivo. Não imaginava que tinha chegado a esse ponto e pediu, meio gaguejado, que Chanyeol esquecesse daquilo e admitiu estar muito envergonhado de fazê-lo passar por aquilo e que nada semelhante voltaria a acontecer, mas Chanyeol o interrompeu e pediu para que ele parasse em um tom tão sério que Baekhyun se calou.

Chanyeol respirando fundo uma segunda vez e desembuchou: 

“Não o beijei ontem porque não achei certo beijá-lo com você tão alcoolizado, mas, caramba! Fiquei com tanta vontade de te beijar, mas também tão chateado por você esperar ficar tão bêbado para me pedir isso! Eu realmente não queria falar sobre isso, mas você é tão irritantemente insistente até quando está sóbrio.”

Baekhyun não soube o que dizer, travou com os lábios partidos e o coração espancando o peito.

Por conta do choque e do silêncio do amigo, Chanyeol ficou constrangido e decidiu voltar a lavar a panela, mas Baekhyun não permitiu. Antes que pensasse demais, reuniu toda sua coragem, pegou Chanyeol pela mão e falou que queria levá-lo a um lugar e que era para ele não o questionar. 

Chanyeol não entendeu nada, mas permitiu ser arrastado por Baekhyun até os dois se encontraram atrás da jabuticabeira, aos fundos do casarão. Uma vez lá, Baekhyun, com as bochechas e orelhas coradas, perguntou se Chanyeol ainda queria beijá-lo e, se a resposta fosse sim, para o beijar ali mesmo.

Chanyeol sorriu, meio por achar graça da situação e meio por estar desacreditado de estar ouvindo aquela proposta. Porém, não titubeou em levar as mãos até às bochechas quentes de Baekhyun e acariciá-las com os dedões. Observou o amigo suspirar e umedecer os lábios rosados em um reflexo do nervosismo. Achou fofo em um primeiro momento antes de se ver atraído pelos lábios bem desenhados. 

Logo, o sorriso de Chanyeol deu lugar ao desejo, que Baekhyun viu reluzir nas íris escuras antes dele se inclinar em sua direção e colar os lábios nos dele. Assim que os lábios se tocaram, ambos estremeceram e não se contiveram em se beijarem com uma intensidade que não previram.

Sentir os lábios cheios, a língua quente explorando sua boca e as mãos grandes apertando sua cintura fez Baekhyun se sentir tão eletrizado e tão desejado que se derreteu. Nutria sentimentos por Chanyeol e sabia que teria que lidar com isso em silêncio depois, mas, naquele momento, não se importou.

O que eles não sabiam é que, mesmo escondidos, foram flagrados por um funcionário do refúgio. Muito menos que o beijo deles chegaria aos ouvidos dos pais de Chanyeol e tornaria a relação do garoto com os pais ainda mais complicada. Por não saberem dos olhos bisbilhoteiros, seguiram se beijando até os lábios incharem e marcas avermelhadas se formarem no pescoço de Baekhyun, que arfou e engoliu gemidos rendidos para não entregar o quanto gostou de ter a pele sugada. Mesmo embriagado com a boca de Chanyeol em sua pele, conseguiu parar com tudo e declarar que aquela seria uma memória e tanto para Chanyeol conservar. 

Chanyeol riu contra a bochecha de Baekhyun e fez os lábios deles se encontrarem mais uma vez em um beijo calmo que se findou com selinhos, até que ele perguntou se eles ficariam bem depois daquilo. Baekhyun, meio desnorteado e afetado pelo beijo calmo, falou que sim, afinal, eles eram só amigos satisfazendo a carência um do outro. Aquela foi a única vez que se beijaram e ambos se convenceram que entre eles só existiria a amizade e aquele momento. Foi um acordo mútuo e ridículo que fez o coração de Baekhyun doer.

Depois que Chanyeol se mudou, mantiveram contato por um tempo até Baekhyun ingressar na faculdade e se dedicar inteiramente aos estudos. Queria esquecer o que sentia por Chanyeol e estudar ajudava a manter a mente ocupada. Entretanto, aos poucos, foi parando de responder às mensagens de Chanyeol e ele as suas. Foi algo natural, visto que ambos viviam com muita coisa na cabeça.

Após um tempo de faculdade, Baekhyun conseguiu um trabalho e decidiu se mudar para mais perto do emprego e, consequentemente, para perto da faculdade, o que o fez sair do refúgio. Seus pais podiam ter dinheiro, mas ele queria independência e sair da aba deles o fez ter maior liberdade e maior controle da própria vida.

A partir daí, Baekhyun e Chanyeol tiveram muito azar das visitas ocasionais que faziam a Clara e Nélio nunca coincidirem, bem… até agora.

— Ele vem! Aquele biruta me avisou de última hora, mas fiquei tão feliz! Enfim, terei meus dois meninos em casa! Você tem visto a novela das nove? 

Bernardo sorriu sem graça. Ainda estava se recuperando do baque de saber que iria rever Chanyeol, já que a menção do nome dele invocou memórias. Mas sim, ele via a novela uma vez ou outra, quando tinha tempo. Porém, tinha um azar assustador de resolver assistir justo os capítulos que Chanyeol tinha cenas quentes ou beijos intensos com a atriz que dava vida a megera da trama. Vergonhosamente, desligava a tv quando essas cenas começavam. Era uma completa imaturidade de sua parte e reconhecia isso. Estava há anos sem ver Chanyeol pessoalmente, caramba! Sentir ciúmes de alguém que nunca foi seu era tão patético e constrangedor, mas Chanyeol não facilitava sendo um cara atraente na pele de um vilão detestável. 

De início, não admitia que era ciúmes. Falava para si que era só um incomodozinho, só uma irritação boba, só um ranger de dentes, só uma vontadezinha de xingar Chanyeol por ser tão… gostoso?! Era uma droga o fato de Chanyeol ter envelhecido tão bem e ser tão bom ator e ter tanta química com as atrizes e atores com quem contracenava. 

Apesar do ciúme idiota que tinha de Chanyeol atuando com seus pares românticos, nada o impediu de arrumar seus próprios parceiros. Já teve alguns poucos namorados, mas nada durou mais do que cinco meses. Em algum momento da relação, se via tendo que escolher entre o trabalho e o relacionamento incerto. Ele sempre escolheu o trabalho. Às vezes até se questionava se passaria o resto da vida fazendo essa mesma escolha em todo relacionamento que arranjasse e aquilo o frustrava na mesma proporção que lhe dava medo. Era ótimo ter alguém para beber um vinho de madrugada, se aconchegar e o fazer bagunçar os lençóis, mas o seu trabalho tinha uma demanda muito alta. Era um advogado muito requisitado e aquilo limitava bastante seu tempo de lazer, o que decepcionava seus parceiros em algum momento. No fim, se envolvia com alguém já sabendo que aquilo seria algo temporário, o que era triste, mas procurava não pensar muito sobre.

E aí entrava Chanyeol, que parecia estar em toda parte. Vez ou outra tirava uns trinta minutos para dar uma olhada nas redes sociais e sites de notícia, que tinham compromisso com a verdade, para se inteirar das notícias do mundo, já que detestava os noticiários carniceiros da tv. E, todas às vezes, se deparava com pelo menos uma notícia ou alguma nova foto de Chanyeol.  

Podia ter se afastado de Chanyeol organicamente, mas de Kauê Park ele não conseguia escapar.

— Às vezes, mas não sou de acompanhar. Costumo levar meu trabalho para casa, o que me faz virar madrugadas estudando casos ou dormindo com a televisão ligada. — Não era mentira. Já acordou no meio da noite inúmeras vezes por conta do barulho ou da claridade da tv ligada. Tinha o hábito de dormir no sofá, mas isso era culpa dele mesmo, já que comprou um sofá confortável demais.

— Podemos ver o último capítulo da novela todos juntos. Será divertido! — Clara comentou, entusiasmada, antes de piscar os cílios lentamente e levar o dedo indicador até a ponta do nariz bonitinho do filho e dá uma batidinha de leve ao notar a tensão dele. — Não tem o que temer. Assim que Chanyeol chegar, será como se vocês não tivessem se separado.

Bernardo sorriu pequeno, pois gostava do positivismo da mãe e de como ela fazia tudo parecer tão fácil.

Clara sabia. Ela sempre soube que ele tinha uma quedinha por Chanyeol e, secretamente, torcia por eles. A mãe era muito boa em notar quando as pessoas estavam apaixonadas e, no passado, ela viu todos os sinais de paixão nele e torceu para que Chanyeol também os visse. Porém, na visão dela, aquele não foi o momento certo para eles. 

Clara sabia do beijo embaixo da jabuticabeira, sabia quem espalhou a fofoca até chegar a quem não devia (e ela demitiu o sujeito) e Baekhyun cogitava que ela ainda tinha esperança que houvesse alguma chance deles ficarem juntos.

Achava adorável o lado romântico da mãe e o tocava o jeito que ela achava bonita todas as formas de amor. Na visão dela, o amor era algo tão belo de ser cultivado no peito, ainda mais quando era correspondido.

“Gêneros, raças e crenças se tornam só um detalhe diante das primeiras linhas de uma história de amor”, ela lhe disse no mesmo dia que comentou que achava muito carinhoso o olhar que ele direcionava a Chanyeol quando o neto estava distraído e que reconhecia esse olhar, pois era assim que Nélio a olhava. 

— Estamos há tanto tempo sem nos falar e não somos mais aqueles garotos, mas será bom revê-lo — desconversou casualmente. Não queria que a mãe conduzisse a conversa para o caminho que os olhos brilhantes dela o diziam que ela levaria, caso não a parasse. Não foi para o refúgio atrás de romance, mas sim para desacelerar, matar a saudade dos pais e ter o sossego que não tinha em sua vida há tempos. Tudo estava nos eixos e sob controle e assim permaneceria. — Agora eu realmente preciso ir ao banheiro. — Não precisava, mas queria espaço.

Clara assentiu e pediu para que ele fosse em algum dos banheiros do primeiro andar, pois o segundo andar estava passando por arrumação.

Bernardo assentiu e caminhou para dentro do casarão. Mas, antes que avançasse pela casa, teve o caminho bloqueado por uma jovem com uma cascata de cabelos negros lisos e rosto de traços delicados e bem harmoniosos.

Bernardo arqueou uma sobrancelha interrogativa e ela abriu um sorriso educado.

— Desculpe, mas só posso lhe dar passagem se você me der seu celular. Sei que é o filho da minha patroa, mas as regras por aqui se aplicam a todos.

Bernardo sentiu a nuca esquentar. Quase esqueceu da regra primordial do refúgio: nada de celulares.

Relutantemente, enfiou a mão no bolso da calça antes de estender o aparelho para a mulher, que sorriu satisfeita e lhe deu passagem.

— Seja bem-vindo ao Refúgio da Lua. Espero que sua estadia por aqui seja confortável. Me chamo Vivian e estarei à sua disposição no que precisar.

— Obrigado, Vivian. Por hora, estou bem. Só te peço para cuidar bem do meu celular — avisou com resquícios de bom humor na voz, o que fez Vivian sorrir com mais confiança.

— Ele está em boas mãos, não se preocupe — disse antes de pedir licença e se retirar.

Bernardo suspirou e sentiu o vazio no bolso da calça. Estava oficialmente offline e precisando urgentemente se ocupar para o rumo de seus pensamentos não irem para a jabuticabeira.