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Dragões, Lobos e Lattes

Summary:

Jacaerys é o dono do mais novo café de King’s Landing, que está crescendo mais rápido do que ele e sua única barista, Aly, conseguem acompanhar. Quando Aly sugere que ele contrate o melhor amigo dela, que acabou de se mudar para a cidade, Jace aceita sem pensar duas vezes.

Da noite para o dia, Cregan deixou de ser o herdeiro de um conglomerado madeireiro para se tornar um pai solteiro que mal consegue pagar as contas. Agora, ele está trabalhando em um café, embora não saiba como fazer nem um latte. Só não conte isso para o gatinho do chefe dele. 🤫

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Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

꧁ O Deleite do Reino ꧂

“Um pouco mais para a direita?”

꧁ O Deleite do Reino ꧂

“Assim?”

“Sim! Obrigado, Aly.”

Depois de apertar todos os parafusos mais uma vez, Alysanne pulou da escada em dois grandes passos e se juntou a Jace na calçada. Ela limpou o suor da testa e parou, com as mãos na cintura, para admirar seu trabalho.

A placa de madeira se encaixou perfeitamente acima da porta de entrada. Antes, a única pista sobre o nome da loja eram as letras que Rhaena havia pintado cuidadosamente no painel de vidro. Agora, não havia como confundir o elogiado café dos irmãos Velaryon.

“Eles não poderiam ter mandado alguém para instalar?” Aly perguntou.

Jace torceu o nariz. “O serviço era extra e muito caro. Se bem que, suponho que agora eu deva te pagar por isso.”

“Eu vou deixar passar desta vez,” Aly rejeitou com um aceno. Ela tinha chegado para começar seu turno da manhã quando encontrou Jace na ponta dos pés em cima da escada, lutando para levantar a placa. “Você pode pagar uma pizza pra mim hoje à noite, se faz tanta questão.”

Eles abriram a loja juntos, arrumando as mesas e aquecendo as máquinas fazendo um café expresso para cada um. Em alguns meses, aquela havia se tornado uma rotina confortável.

No entanto, quando o dia se aproximava do meio-dia, a loja encheu. Jace se juntou a Aly atrás do balcão, mas mesmo juntos, eles mal conseguiam acompanhar o ritmo dos pedidos.

Isso já estava acontecendo há algumas semanas, e só piorava. Ou melhorava? A notícia sobre a pequena cafeteria estava se espalhando, à medida que mais e mais pessoas paravam para tomar um café bom e barato antes do trabalho ou da escola. Era tudo que Jace havia sonhado, mas estava ficando um pouco fora de controle.

"Acho que está na hora de contratar mais alguém pra ajudar", anunciou Jace no final da tarde, da ponta do balcão onde estava sentado com seu computador, uma dúzia de planilhas diferentes abertas na tela.

“Você acha?” Aly revirou os olhos. Durante todo o mês, ela tinha lhe dito exatamente isso, mas Jace insistiu em esperar para ver se os clientes continuariam vindo.

Ele assentiu, ignorando o sarcasmo. “Vou pedir pra Rhaena fazer um panfleto e anunciar a vaga no Instagram, devemos conseguir algumas entrevistas na próxima semana.”

Aly mordeu o lábio em pensamento. Os únicos clientes na loja estavam terminando suas bebidas em uma mesa no canto, então ela se apoiou no balcão ao lado de Jace. “Posso pedir um favor?”

“Claro.”

“Eu tenho esse amigo, ele é novo na cidade e está com dificuldade de encontrar um emprego estável. Ele é um cara legal, e está disponível em tempo integral.”

“Você quer que eu contrate ele?”

“Pelo menos converse com ele, se puder.” Aly perguntou: “Antes de publicar a vaga. Eu juro que ele vale a pena.”

Jace respirou fundo. Não foi isso que ele aprendeu a fazer na faculdade, mas Aly tinha sido uma grande ajuda desde o primeiro dia, quando ele a contratou como sua primeira funcionária. Se ela confiava nesse cara, ele poderia dar uma chance.

“Ok. Diga a ele para vir amanhã.”

- ☕︎ -

 

Cregan endireitou os ombros, ajeitou o cabelo e o colarinho e entrou na loja.

Era um lugar aconchegante. Muitos tons diferentes de madeira, combinando com paredes verdes escuras e plantas decorativas. Um jazz suave tocava ao fundo e o ar cheirava a café, baunilha e... algo como nozes.

Ele ficou parado na porta, sem saber o que fazer. 

Depois de um momento, um jovem pareceu notá-lo. Ele se levantou da mesa onde estava sentado, ao lado de uma garota deslumbrante com pele escura e cachos prateados, curtos e selvagens.

O menino também era deslumbrante. Traços fortes, mas delicados, e com os mais lindos olhos castanhos. “Você deve ser Cregan”, ele cumprimentou, oferecendo a mão. “Eu sou Jacaerys Velaryon, mas pode me chamar de Jace.”

“Cregan Stark.” Ele apertou a mão de Jace.

O sobrenome era familiar para Jace, mas ele não conseguia se lembrar de onde o conhecia. De qualquer forma, era provavelmente uma coincidência.

“Pode sentar ali,” ele apontou para uma mesa nos fundos. "Eu volto logo."

Cregan finalmente viu Aly e acenou para ela.

“Então,” Jace disse, voltando com seu notebook na mão. “Você tem alguma experiência em cafés, lanchonetes, restaurantes?”

“Sim?” Cregan respondeu. “Eu trabalhava no escritório do meu pai. Quer dizer, no escritório da empresa em que ele também trabalhava.” Ele coçou o pescoço.

“Ah, tipo, na cafeteria?”

“Isso.”

"Ótimo! Então você sabe mexer numa máquina de expresso.” Jace ficou aliviado. 

— Claro — mentiu Cregan. Ele pediu café para seu pai na cafeteria do térreo algumas vezes, quando tinha treze anos. E ele fazia seu café no filtro todas as manhãs. O quão diferente isso poderia ser?

“Alysanne disse que você está disponível para qualquer dia da semana?” Jace continuou: “É claro que insistimos que você tire pelo menos dois dias de folga, mas podemos decidir isso considerando os dias de Aly e quando a loja fica menos movimentada.”

Cregan estava com dificuldade de acompanhar Jace, e muito nervoso com a possibilidade de ser reprovado na entrevista. Ele se forçou a respirar.

“Não posso trabalhar na segunda quarta-feira do mês”, respondeu ele. “Pelo menos não de manhã.”

"Ah." Jace não conseguiu conter sua curiosidade, embora soubesse que seria rude perguntar. "Por que?"

“Minha irmã tem um estande na feira de Flea Bottom. Ela é fotógrafa de estúdio”, disse Cregan. “Então ela não pode cuidar do meu filho nesses dias.”

Cregan soube então que aquela tinha sido a decisão certa. O rosto de Jace suavizou-se imediatamente, iluminando-se com empatia e um pouco de pena. 

Ele tinha achado Cregan muito bonito, alto e largo e, no geral, o tipo de homem que o intimidava. Mas agora Jace sabia que esse homem, com certeza não muito mais velho que ele, era pai solteiro de uma criança. Ele se perguntou se o menino teria os olhos cinzentos e o cabelo loiro escuro do pai.

"Bem." Ele interrompeu seus próprios pensamentos. “As quartas-feiras costumam ser tranquilas, então você pode pegar folga na quarta toda semana.”

“Por mim está ótimo”, respondeu Cregan com um sorriso muito bonito. 

“Você consegue vir amanhã no mesmo horário, para seu primeiro turno?” Jace perguntou. “Vamos ver se você se encaixa na equipe e então podemos discutir os detalhes do contrato.”

“Seria um prazer.”

Quando os dois se levantaram e Cregan segurou sua mão novamente, Jace achou por um momento que ele iria beijar sua mão, que nem antigamente. Mas ele apenas apertou.

“Vejo você amanhã, Jace.”

"Vejo você amanhã." Jace disse suavemente, enquanto o homem desaparecia pela porta.

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Felizmente para Cregan, o dia seguinte proporcionou ao seu chefe muitas distrações.

Quando ele chegou, por volta das 9 da manhã, Jace estava conversando com um grupo de quatro loiros, todos estranhamente parecidos e muito barulhentos.

A única garota era a mais quieta, rindo de forma fofa dos meninos, que Cregan presumiu serem seus irmãos. Ela usava um moletom com estampa de borboletas e os maiores (e únicos) brincos de aranha que ele já tinha visto. 

Um dos outros, o homem de cabelos compridos, olhou na direção de Cregan, e ele pulou de choque ao perceber que ele só tinha um olho de verdade. Dentro de sua órbita esquerda, uma pedra azul brilhava.

“Cregan!” Jace chamou ele. “Venha conhecer meus primos.”

“Seus tios”, disse o mais baixo, que foi ignorado. Seu cabelo prateado era um ninho embaraçado, e ele olhava para Cregan com uma expressão muito hostil.

Esse é o Aegon,” Jace disse. “E esse são Helaena, Daeron e Aemond.”

Helaena e Daeron foram os únicos a responder o “oi” de Cregan.

Cregan sabia sobre os Targaryen, é claro. Old Money , mais velho do que ele podia imaginar, uma das poucas famílias sobreviventes de Valíria antes da Perdição. Não eram mais tão poderosos quanto antes, agora que Westeros não tinha nobreza. Mas ainda podres de rico.

Ele também sabia que Jacaerys era um deles, embora não parecesse. O homem também era um Velaryon, uma família menos sofisticada, mas possivelmente mais influente.

Antes, Cregan não se deixaria abalar por nada disso. A linhagem dele era igualmente antiga e poderosa. Mas agora, ele se sentia nervoso de estar cercado daquelas pessoas loiras platinadas, assustadoramente lindas e vestidas de grife.

Ele repetiu para si mesmo que não havia como eles o reconhecerem.

Durante toda a manhã, Jace ficou ocupado com as provocações de Aegon e as histórias de Helaena. Isso deixou Aly com bastante tempo e espaço para descobrir o que Cregan sabia fazer para ajudar.

“Oh, deuses.” Ela disse pela quinquagésima vez, quando Cregan tentou cortar um pedaço de bolo de limão, fazendo ele se despedaçar até virar farofa. 

Eventualmente, ela o deixou de castigo no caixa. Ele sabia, pelo menos, anotar os pedidos dos clientes, colocá-los no sistema e gritá-los para Aly. E fazia muito bem para a sua autoestima ver que metade das mulheres, e boa parte dos homens, sorriam ao vê-lo, flertando discretamente ou descaradamente.

Uma hora, quando Aly tirou uma pausa para fumar, ele parou em frente à máquina de expresso, determinado a descobrir como fazer uma simples xícara de café. Ele não conseguia. Não tinha nenhum botão para “café”. Na verdade, não havia nenhuma palavra nos botões, nem tela interativa nem nada. Então ele desistiu.

Aemond e Aegon foram embora antes da hora do almoço, mas Helaena e Daeron ficaram. Eles pediram uma torrada de salmão defumado e ovo para cada um. 

Jace parecia gostar bastante da companhia deles. Ele falava mexendo muito as mãos e dando pequenos pulos de excitação. Sua risada era muito fofa.

Cregan teve que admitir que estava um pouco chateado por não ter falado muito com ele naquele dia.

Às três horas, Jace o dispensou. Aly disse a ele que o turno tinha ido muito bem, então ele pegou o número de Cregan para eles trocarem mensagens sobre o contrato.

“Ah, aliás, qual é o seu tamanho?” Jace perguntou.

"O quê?"

“Para o avental? Se eu encomendar agora, deve chegar até segunda-feira”, esclareceu. Cregan passou o tamanho da camisa que vestia.

“Bem-vindo ao time!” Aly deu um abraço de urso em Cregan, e um tapinha em suas costas.

Depois, em casa, Jace abriu o contato que o homem havia digitado em seu telefone. O nome do contato: Cregan, o cara fofo :)

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No final da semana seguinte, Cregan parecia menos fofo a cada minuto.

Ele era um desastre. Constantemente trocando pedidos, e ele definitivamente não sabia como usar a máquina de café expresso. 

Jace havia perdido a conta de quantas xícaras e pratos quebrados ele teria que substituir. Cregan parecia não ter noção do seu tamanho, constantemente derrubando coisas e esbarrando nas pessoas.

A cada dois pedidos, Jace ou Aly tinham que intervir e explicar pra ele exatamente como fazer a bebida. “Sim, um Americano é só uma dose de café expresso e água quente. Não, isso não é a mesma coisa que um café normal.”

Na maior parte do tempo, Jace sentia que sua carga de trabalho havia piorado, agora que eles tinham que ficar de babá do novo barista.

Na sexta-feira, dia de folga de Aly, estavam apenas ele e Cregan atrás do balcão. A essa altura, ele já conseguia fazer os pedidos sozinho. Jace presumiu que ele estava sem prática, ou talvez muito nervoso antes.

Na verdade, era meio fofo. Como quando Joffrey entrou na loja na hora do almoço e pediu um Frappuccino de caramelo. Seu irmão ainda não tinha aceitado que simplesmente não gostava nada de café, sempre pedindo novas bebidas que ele com certeza declararia “muito amargas”.

“O que vai num Frappuccino?” Cregan perguntou.

“Duas partes de gelo picado pra uma parte de leite, duas colheres de açúcar. Para ele, pode colocar duas doses de caramelo.” Jace respondeu sem pensar.

A bebida saiu com uma aparência muito boa. Cregan até decorou as laterais do copo com um pouco de calda de caramelo. 

Joffrey adorou. Na verdade, Jace nunca o viu elogiar uma bebida antes, mas o garoto tomou um gole e sorriu: “Isso é que é um Frappuccino de verdade. Sem daquela coisa amarga que Jace coloca nele.”

"Não é amargo?"

“Nada. Só geladinho, doce e delicioso! Eu gostei do seu novo cara. Cregan, né? Continue assim.”

Joffrey saiu cantarolando alegremente. Sem pagar, é claro.

Jace se virou para Cregan, rindo um pouco: "Você colocou café naquilo?"

"Café?" O homem perguntou surpreso. “Você não disse nada sobre café.”

A risadinha de Jace se transformou em uma gargalhada.

”Não ri de mim” disse Cregan, fingindo um tom de ofendido, mas com um sorriso largo. “Eu não conheço essas bebidas chiques do sul.” 

“Ah, me desculpe, esqueci que você era apenas um viking malvadão do norte,” Jace zombou de volta, ficando rosa de tanto rir.

O bom humor de Jace acabou, porém, quando um cliente veio reclamar que seu cappuccino tinha gosto de “água de mijo”.

Ele ficou chocado. Eles nunca haviam recebido uma reclamação como essa antes. Às vezes, os clientes achavam o café muito forte, como Joffrey, mas nunca fraco. Ele disse a Cregan para fazer outro, e a mulher tomou um gole só para dizer “a mesma coisa”.

Um homem mais velho, sentado em uma mesa próxima, ouviu a comoção e acrescentou: “o meu também está com um gosto muito ruim”.

Jace pediu licença e experimentou a nova bebida da mulher. Realmente tinha um gosto horrível, nenhum sinal do café além de um gosto amargo e queimado.

“Cregan, você está trocado o pó de café para cada bebida?” Ele perguntou.

"Claro. Estou fazendo tudo o que você me disse.”

"Me mostra."

Cregan pegou uma xícara nova e moeu uma porção de grãos de café. Depois virou-se para a máquina e tirou o filtro, despejando nele o novo pó de café. Sem jogar fora o pó velho e usado. Simplesmente jogando mais por cima dele. Pressionando o pó e colocando o filtro de volta para começar a preparar o café.

Jace ficou sem palavras.

Na verdade, ele tinha quatro palavras: “Que porra é essa”.

- ☕︎ -

 

“Aly, não tem como esse cara ter experiência nisso. Ele é um desastre.”

Aly ficou em silêncio do outro lado. 

“Alôoo! Você está me ouvindo? Cregan mentiu para mim, tenho certeza disso.

“Olha”, disse Aly. “Ele precisa muito disso. Você está certo, ele provavelmente não tem nenhuma experiência de trabalho, mas está aprendendo! E ele tem um filho pequeno, Jace, você precisa dar uma chance pra ele.”

“Eu não consigo acreditar nisso.” Jace beliscou a ponta do nariz. “Eu não estou no mercado de fazer caridade, Aly. Este homem mentiu na minha cara. E eu dei pra ele umas cinquenta chances! Ele continua um peso morto e a loja não consegue arcar com isso!”

Ele respirou fundo. “Liguei para avisar que vou demitir ele.”

“Por favor, Jace, só mais uma semana,” ela implorou. "Faça isso por mim."

"Não. Não, Aly. Isso tudo começou porque eu queria te fazer um favor”, ele se controlava para não gritar. “Não pense que eu não percebi que você estava cobrindo pra ele a semana toda. Vejo você amanhã."

“Jac-” Ele desligou na cara dela.

Entrando no café, ele se preparou para a conversa. Eram quase seis horas, então se Jace conseguisse dispensar Cregan rapidamente e começar a limpar, ele poderia fechar a loja às sete e ter tempo de ir ao cinema com as gêmeas.

Cregan estava terminando um pedido. Ele sorriu quando viu Jace e acenou: "Sara!" Sara?

Atrás de Jace, uma mulher alta e ruiva entrava na loja, de mãos dadas com um garotinho adorável. Ele estava mordendo nervosamente a manga da jaqueta, seus olhos cinzentos espiando através de uma cortina de cabelo castanho claro. Olhos cinzentos, como os da mulher ao lado dele. Como Cregan.

O menino correu até ele, agarrando-se ao quadril de Cregan, que bagunçou carinhosamente os cabelos do garoto.

“Jace, esta é minha irmã, Sara, e meu filho Rickon. Diga oi, Rickon.”

"Oi." O garoto disse, quase inaudível.

“Ele tem quatro anos.” Cregan declarou com orgulho.

Por mais zangado que Jace estivesse com seu pai, o pequeno Rickon não tinha culpa nisso. Ele se ajoelhou ao lado do garoto, “Prazer em conhecê-lo, Rickon Stark. Você tem olhos bonitos."

"Obrigado." Ele murmurou de volta.

Jace apertou a mão de Sara também. Ela devia ser alguns anos mais velha que eles, com trinta e poucos anos. Mesmo em pleno outono, ela se vestia como se fosse verão, com saia longa florida e regata. Benefícios de ser do norte, Jace imaginou. Ele se perguntou como Cregan se vestia fora do horário de trabalho.

Ele guiou os convidados até uma mesa, oferecendo o cardápio a Sara e a Rickon, alguns lápis de cor e papéis que ele havia guardado para quando seus irmãos mais novos visitassem.

Visenya, Viserys e Aegon nunca ficavam quietos, mas Rickon ficou, concentrando-se em seu desenho. Quando começou a tomar forma, Jace viu que era um dragão.

“Você fez isso de propósito.” Ele disse a Cregan, de volta ao balcão.

O homem olhou para Jace como se ele fosse louco. “Sara estava fazendo compras com ele aqui perto e queria passar aqui para Rickon ver onde eu trabalho.”

Jace não acreditou nele. Ele cruzou os braços.

Cregan continuou, “Olha, eu sei que você está decepcionado comigo-”

“Boa noite, senhores!” Eles foram interrompidos por Baela, que irrompeu pela porta com Rhaena logo atrás. 

“Ei, Bae, Rhae,” ele as cumprimentou. “Acho que não vou ao cinema hoje.”

"Tudo bem." Disse Rhaena, e exatamente ao mesmo tempo Baela se inclinou para perguntar, apontando para a mesa de Sara e Rickon, “quem é aquela?”

“Minha família”, disse Cregan, o que não respondia nada da pergunta.

Jace o apresentou aos primos e então Cregan apresentou as meninas a Rickon e Sara.

“Esse é um dragão magnífico que você tem aí!” Baela disse ao menino. “Acha que consegue fazer ela voar?”

“Eu não sei fazer isso.” Rickon franziu a testa.

"Ah, vai aprender rapidinho." Ela se sentou ao lado do garoto, puxando Rhaena junto.

Jace tentou voltar à conversa entre ele e Cregan, mas seu coração estava pesado como uma pedra. Rickon era um menino tão doce, Cregan tinha jogado a carta perfeita. 

“Eu sei que você mentiu sobre ter experiência de trabalho.” Cregan não contestou. “Você não está qualificado para este trabalho e não escuta a mim e Aly quando tentamos te ensinar.”

O grandalhão parecia um cachorro chutado da mudança. Merecido.

“Última chance." Jace decidiu. “Vou te dar uma última chance de provar que não errei em te contratar.”

Cregan olhou para cima, os olhos brilhando. "Obrigado! Muito obrigado, vou fazer o meu melhor.”

“É melhor mesmo,” Jace respondeu, e eles continuaram se olhando por alguns instantes.

Um avião de papel atingiu a cabeça de Cregan e ele ouviu Rickon e Sara rirem.

"Desculpa!" Baela gritou: “Estou estudando para uma prova. De aerodinâmica."

"Aerodinâmica?" Cregan perguntou.

“Ela está cursando física,” Jace explicou. “Ela também está mentindo, porque não está fazendo Dinâmica neste semestre.”

“Não esqueça de contar pra ele que estou tirando minha licença de piloto! Tenho que praticar bastante antes de tentar pilotar um avião de verdade.” Baela jogou outro avião em direção ao balcão. Rickon estava gargalhando e batendo palmas.

Cregan correu até ele e pegou o garoto nos braços, fazendo cócegas em sua barriga. “Seu moleque danado, rindo do seu pai!” Rickon riu ainda mais alto.

“Precisamos ir, é hora do jantar para ele”, disse o pai. "Tudo bem, chefe?"

Jace assentiu. Rickon se despediu de Baela e Rhaena, tímido.

Cregan voltou-se para Jace novamente, com o avental torto e o cabelo tão bagunçado que Jace teve que lutar contra a vontade de estender a mão para consertá-lo. “Obrigado, sério”, disse ele. “Isso significa muito para nós.”

Deuses, Jace estava fodido.

- ☕︎ -

 

“Olha o que acabou de chegar!” Jace anunciou, uma caixa grande em suas mãos. Ele apoiou ela no balcão.

“As novas amostras de bolo?” Aly perguntou, tentando espiar dentro da caixa enquanto Jace a abria.

“Sim, senhora!”

Cregan continuava afastado, perto das máquinas de café expresso. Ele estava estranhamente quieto naquela manhã, Aly tinha notado, mas Jace o chamou pra mais perto e ele obedeceu.

“Ok, então, Desmond nos mandou dez sabores e podemos escolher três,” continuou Jace. “Este é... noz-pecã e canela.”

Ele segurou uma fatia na frente do rosto de Aly e ela deu uma mordida com um “hum” de satisfação. Então, sem pensar, ele faz o mesmo para Cregan. O homem hesitou por um segundo antes de se inclinar e pegar o pedaço de sua mão com a boca. Seus dentes rasparam levemente nos dedos de Jace.

Cregan sorriu e deu um joinha com a mão.

“Huh...” Jace gaguejou enquanto pegava o próximo bolo. “Este é cenoura com gotas de chocolate.”

Desta vez, Aly pegou sua própria fatia da caixa, mas Cregan se inclinou mais perto de Jace e esperou, com a boca aberta.

Ele podia sentir seu rosto ficando vermelho, mas ofereceu o bolo novamente.

Desse ângulo, Jace podia ver que a quente luz do dia refletia nos olhos cinzentos de Cregan de uma maneira muito bonita. Ele desviou o olhar antes que ficasse estranho.

Cregan engoliu o pedaço e disse: “O de pecã é melhor. Combina com a estação.”

Jace concordou, embora ele ainda não tenha experimentado nenhum. Ele ofereceu outra fatia, esquecendo completamente de ler em voz alta o sabor ou oferecê-lo a Aly. Cregan aceitou esse também, desta vez mordendo mais perto da mão de Jace.

Eles passaram por cada amostra de bolo desse jeito, Cregan fazendo pequenos comentários entre um e outro.

No último bolo, de maçã ou algo do tipo, ele primeiro deu uma pequena mordida, mas agarrou a mão de Jace quando ele tentou se afastar. Cregan fez um som de satisfação.

"Este é o melhor", disse ele, antes de morder outro pedaço, e mais outro. Quando o bolo tinha sumido, Cregan lambeu a cobertura que tinha ficado nos dedos de Jace.

Ele pulou para trás, tirando a mão de perto de Cregan. Seu rosto e pescoço estavam totalmente vermelhos.

Uma risadinha fez Jace notar Aly, encostada no balcão, olhando para eles. Ele mandou um olhar feio para ela.

Sabitha estava ao seu lado, também rindo. Ela provavelmente estava no fundo da loja, no depósito, quando Jace chegou.

A garota estava com o cabelo ruivo preso na trança longa de sempre, com jeans rasgados e uma jaqueta xadrez completando o look de “farmgirl lésbica”. Jace tinha tido muita sorte de encontrar o negócio de sua família, que vendia os melhores grãos de café da cidade. Além disso, Sabitha era muito simpática, tendo rapidamente se tornado uma amiga íntima. Especialmente para Aly.

Cregan parecia orgulhoso de ter envergonhado Jace em público. Isso quase o fez voltar a odiar o nortenho ridículo.

“Voltem ao trabalho, todos vocês!” Ele exigiu e tirou a caixa do balcão antes que Aly pudesse pegar outra fatia de bolo. “E sem mais bolo.”

Mais tarde, depois que Sab e Cregan tinham ido embora, Aly o encurralou. “Então,” ela começou. “Aquilo não foi muito profissional.”

“Eu concordo.”

Ela deu a ele um empurrão brincalhão. “Você sabe o que quero dizer. Vocês claramente gostam um do outro.”

“Ele gosta de zombar de mim.”

“Isso é só o jeito dele. Olha,” Aly levantou as duas mãos. “Só estou dizendo que você  poderia dar uma chance. Não atire no mensageiro.”

"Eu vou demitir o mensageiro", ele murmurou, mas as palavras dela continuaram ressoando em seu ouvido por muito mais tempo do que deveriam.

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Cregan estava indo muito bem desde o ultimato de Jace. Apenas duas xícaras tinham sido quebradas, e os clientes pareciam gostar dele. O homem tinha jeito com as pessoas, um charme natural que beirava o flerte.

Foi por isso que, apesar da insistência de Aly, Jace decidiu que nada daquilo significava nada. Nem quando ele pegava Cregan olhando para ele quando Jace estava distraído, ou quando ele o cumprimentava com “Bom dia, lindeza”.

O turno da noite era de Cregan, então eles ficaram sozinhos depois que todos os clientes foram embora. Cregan percebeu que Jace estava para baixo e tentou animá-lo com histórias de Rickon. Quando não funcionou, ele ficou em silêncio.

Jace não aguentava mais. "Posso te fazer uma pergunta?"

"Sim claro." Cregan ficou surpreso.

Jace mordeu o lábio. Ele tentou se convencer de que o pior que poderia acontecer com ele seria ser rejeitado, que Cregan dissesse que Jace estava ficando doido enxergando todos esses sinais. Mas isso não era bem verdade. Se Cregan lhe dissesse que era verdade, que gostava dele, e então a decisão sobre o que fazer seria passaria a ser de Jace ...

"O que é?" Cregan insistiu.

Jace deixou escapar a primeira coisa que lhe veio à mente. “Por que você se mudou para o Sul?” 

"Ah." Cregan realmente esperava que ninguém fizesse essa pergunta. Ele ainda não tinha inventado uma história. Mas Jace era legal, parecia confiável. “Problemas familiares, principalmente.”

“Disso eu entendo,” Jace riu. “Pais divorciados?”

“Não… Minha mãe morreu quando eu era pequeno, meu pai quando eu tinha quatorze anos.”

O sorriso de Jace desapareceu imediatamente. “Deuses, sinto muito.”

"Tudo bem." Cregan disse, e ele estava sendo honesto. Já fazia muito tempo, mas ainda era bom falar sobre isso, em vez de manter os sentimentos reprimidos. “Meu pai era dono de uma empresa madeireira, sabe, então eu herdei ela quando ele faleceu.”

"Espere!" Uma memória que estava cutucando o cérebro de Jace por um tempo finalmente ressurgiu. “Você é um daqueles Stark! Eu sabia que seu nome era familiar.”

Cregan se encolheu. "Sim."

"Então por que você está aqui?" Jace não estava mais apenas curioso, ele sentia que algo estava errado. “O que aconteceu, Cregan?”

“O testamento do meu pai dizia que eu teria que me formar na faculdade antes de poder assumir a empresa. Mas…"

“O Rickon.”

Cregan assentiu. “Eu conheci a mãe dele no primeiro ano, e ela ficou grávida nem dois meses depois.”

"Onde está ela agora?" Jace perguntou.

"Morta." Puta merda . “O parto foi difícil, ela perdeu muito sangue. E quando achamos que ela conseguiria resistir, ela pegou uma infecção.” 

Os olhos de Cregan estavam desfocados e ele olhava diretamente para a xícara que estava lavando.

“Sinto muito por perguntar, você não precisava me contar nada disso,” Jace tentou dizer a ele.

"Não, tá tudo bem. Eu quero falar. Faz bem." Ele respondeu. “Foi difícil continuar a faculdade depois disso, ainda mais que Rickon era tão pequeno, mas eu realmente tentei. Muito, muito mesmo.”

Ele sentiu uma mão hesitante tocar seu ombro. Os olhos castanhos e calorosos de Jace encontraram os dele e ele moveu a cabeça em um gesto encorajador.

“Cheguei até a ir na cerimônia de formatura e eles me deram um daqueles tubos de diploma, que não servem pra nada”, continuou Cregan. “Então eles me expulsaram.”

"O que?"

"Sim. Disseram que eu tinha plagiado minha tese de conclusão de curso. Eu não fiz isso, eu prometo que não fiz.” Ele franziu os olhos em um esforço para não deixar cair uma lágrima. “Não importa, eles me tiraram meu diploma, e meu lugar no conselho da empresa. Meu tio é o presidente agora. Ele bloqueou todas as minhas contas e me disse para sair da frente dele ou...”

Jace demorou um pouco para processar tudo aquilo. “Foi ele quem fez com que você fosse expulso.”

"Sim. Tenho certeza disso.”

O rosto de Jace mudou de choque para determinação. “Eu posso te ajudar com isso. A advogada da minha mãe é muito boa, podemos conseguir seu diploma…”

A mão de Cregan caiu sobre a dele e o calou. “Não tem necessidade disso agora, Jace. Estou feliz aqui. E Rickon está seguro.”

“Você não pode deixar seu tio ficar impune!” Jace exclamou.

“Ele não vai. Mas ainda não estou pronto para enfrentá-lo. Preciso ter certeza de que Rickon e Sara serão cuidados e protegidos quando eu fizer isso.”

"Eu posso fazer isso também!" Jace jurou.

“Tenho certeza que sim, mas essa luta é minha.”

“Pelo menos me diga que vai aceitar minha ajuda quando for precisar. Não tem motivo para você não aceitar.”

"Claro." Cregan abriu um sorrisinho malandro. “Por que não deixar meu chefe malvado e mal-humorado me ajudar com meus problemas, sem pedir nada em troca?”

Jace bufou: “Estou falando sério.”

"Eu também." 

Jace levantou as mãos dos dois à altura do rosto e entrelaçou seus dedos mindinhos. “Esse pode ser nosso pequeno pacto, então.”

"Feito." O sorriso de Cregan fez o rosto de Jace ficar vermelho e quente, mas ele sustentou o olhar e sorriu também.

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À medida que o outono se ia, e com o Dia dos Sete se aproximando, era hora de colocar algumas decorações ao redor da loja.

Luke foi o primeiro a fazer essa sugestão. Ainda que ele fosse co-proprietário do café, junto do irmão, o último ano da universidade mantinha Luke ocupado demais para aparecer por lá com frequência.

Ainda assim, sempre que ele visitava, ele sempre tinha algo a criticar.

Nesse dia, ele chegou de mãos dadas com Rhaena, ambos usando os suéteres mais feios já vistos. As duas renas mal-desenhadas e tortas juntavam seus chifres para formar um coração, que se parecia mais com um fígado.

E, no entanto, Luke declarou firmemente que a decoração atual do café “não dava” e exigiu que Jace comprasse algumas bugigangas que tivessem a vibe do Dia dos Sete.

“Como seria essa ‘vibe’?” Cregan perguntou.

“Vocês não têm Dia dos Sete no Norte?” No momento em que disse isso, Jace percebeu que era uma pergunta muito idiota.

“Não... não seguimos a Fé dos Sete, pelo menos não em Winterfell. Mas nós celebramos o Solstício de Inverno no mesmo dia, sabe, o retorno do sol, a chegada de um novo ano e tudo mais.”

“Ah.” Jace reagiu, “claro. Bem, o Dia dos Sete é muito parecido, em teoria. O círculo da vida, o inverno dando lugar à primavera. O Velha se torna a Donzela novamente, e o Ferreiro refaz do Guerreiro ferido, um Pai.”

Jace parou antes que tagarelasse ainda mais, embora Cregan não parecesse entediado. Ele estava ouvindo atentamente.

“Desculpe, eu não queria pregar para você.”

“Eu não me importo, eu gosto de ouvir você falar.” Cregan se tranquilizou. “- sobre isso”, acrescentou.

Jace corou. Graças aos deuses, Aly estava muito longe para ouvir isso, servindo os clientes enquanto eles conversavam.

“De qualquer forma, não acho que devemos ter decorações muito religiosas. Alguns flocos de neve, algumas luzes, talvez uma árvore?”

Cregan se animou com isso. "Espere", disse ele, antes de se levantar e ir para a parte de trás, deixando um Jace confuso sozinho no balcão. Ele viu o homem pegar o telefone e enviar uma mensagem para alguém.

Ele voltou com aquele sorriso galante que sempre fazia Jace se sentir engraçado por dentro.

"Eu sabia que me lembrava de ver essas coisas de ‘Dia dos Sete’ na casa da minha irmã", explicou ele. “Ela disse que podemos pegar emprestado! Elas são de um projeto antigo, mas ainda está tudo em boas condições. Pode ser um bom começo.”

Quem era Jace para negar coisas de graça?

Aly garantiu que poderia cuidar da loja e receber Sabitha quando ela chegasse com a entrega semanal. Então, Cregan os levou em seu carro até o apartamento dele e da Sara. Jace se sentiu um pouco estranho ao pensar na situação, mas decidiu ignorar.

Cregan também, não ajudava. Assim que abriu a porta, ele declarou: “Mi casa es su casa”.

Quando eles passaram pela sala de estar, duas pessoas os cumprimentaram. Sara estava assistindo a um filme, deitada no sofá com... Baela?

Baela não parecia surpresa ao ver Jace. Vendo sua expressão chocada, ela só lhe deu um sorriso e segurou mais forte na cintura da mulher mais velha.

Sara enrolava os dedos nos cachos de Baela, focada no filme. Elas estavam muito fofas.

Jace engoliu um comentário e deixou Cregan guiá-lo ainda mais para dentro da casa.

Ele o avisou para fazer silêncio, porque Rickon estava dormindo.

Eles descobriram, no entanto, que a árvore de Dia dos Sete que Sara tinha em seu armazenamento era enorme, facilmente mais alta do que Jace, mesmo que ainda estivesse na caixa.

Pior, todo o resto das coisas estavam empilhadas nela. Enquanto Cregan procurava um extensor de cabo para tomadas, Jace tentou alcançar a caixa de ferramentas que estava em cima da caixa da árvore.

Ele conseguiu pegar em uma alça, mas colocou muito peso na caixa, e ela tombou. Jace gritou.

“Jace!” Baela gritou de volta, da sala de estar. Ela e Sara vieram correndo.

Mas Cregan conseguiu segurar Jace pela cintura, então ele não caiu.

Assim que ele se recuperou, Jace se afastou do homem. Mesmo assim, o quarto era muito pequeno e seus corpos estavam muito próximos. O coração de Jace batia tão rápido que ele provavelmente ainda ia morrer.

“Obrigado,” ele murmurou.

“Sem problema, chefe,” Cregan sorriu.

Sara verificou se Jace tinha se machucado, mas ele estava bem. As garotas ajudaram, e juntos os quatro conseguiram colocar todos os itens no carro.

Rickon não acordou em nenhum momento. Jace ficou com inveja, queria ter um sono tão pesado.

O caminho de volta foi um pouco menos estranho. Cregan perguntou a Jace se ele celebraria o Dia dos Sete com a família, e ele começou uma descrição animada das tradições loucas de sua família enquanto Cregan o observava pelo canto do olho.

De volta ao café, eles ficaram surpresos ao encontrá-lo vazio. Aly não estava atrás do balcão.

“Vou pegar alguns ganchos de parede para montar as luzes,” anunciou Jace.

Ele abriu a porta da sala de armazenamento. Aly estava apoiada contra as prateleiras, segurada por uma mulher, Sabitha, enquanto eles se beijavam. Forte.

“Ei!” Aly gritou pra ele. Ele fechou a porta e cobriu os olhos com as mãos, grunhindo.

Cregan veio ver o porquê da comoção.

“Aff, o que deu nas lésbicas hoje?” Jace reclamou: “Ainda falta meio ano pro mês do orgulho, segurem esse fogo.”

- ☕︎ -

 

Rickon tinha acabado de aceitar vestir seu pijama e se sentar para que Cregan o contasse uma história antes de dormir, quando a campainha tocou. Sara estava em casa e Cregan não esperava visitas.

Ele abriu a porta para dar de cara com Jace, quase irreconhecível.

Seu cabelo não estava finalizado em lindos cachos, mas armado e bagunçado. Estava claro que ele tinha chorado feio. Não da maneira fofa que seus olhos lacrimejavam ao assistir a um filme triste, mas do tipo que envolve ranho e tosse úmida.

“Cregan.” Jace suspirou. 

Então, ele olhou para baixo e percebeu Rickon, que havia se escondido atrás de seu pai e estava espiando.

“Eu não... eu não deveria ter vindo. Desculpe. Não é nada demais."

Cregan agarrou seu braço antes que Jace pudesse se virar. "Pare."

“Rickon, querido, vá para o seu quarto enquanto o papai ajuda o tio Jace, ok?” Ele pediu ao filho.

O menino assentiu e voltou para o apartamento.

“Jace.” Cregan disse suavemente, quase movendo a mão para o rosto do homem antes de mudar de ideais e a apoiar no ombro. "Vai ficar tudo bem. Você pode me contar qualquer coisa."

Ele tentou falar, mas as lágrimas voltaram imediatamente, bloqueando sua visão e sua garganta. O peito de Cregan estava bem ali, na frente dele, e Jace não resistiu e caiu sobre ele. Ele enterrou o rosto na camisola macia. 

“Shhh,” Cregan disse, acariciando seu cabelo desajeitadamente. Gentilmente, ele guiou Jace pela porta. “Entre, vou fazer um chá de camomila para você, é bom pra se acalmar.”

“Eu não preciso me acalmar!” Jace retrucou. Cregan não tinha notado o papel em suas mãos antes, mas agora o viu, quando Jace o agitou furiosamente.

“Tenho todos os motivos do mundo para estar bravo agora! Você não tem ideia do que eu acabei de descobrir, Cregan, eles mentiram para mim. A minha. Vida. Toda."

Ele sentou Jace no sofá e pegou o envelope que ele oferecia. Era de algum tipo de empresa chamada DNAandMe . “Teste de DNA? Você vai ter que explicar, Jace. Eu realmente não tenho ideia do que está acontecendo.”

“Eu disse a você que meus pais tiveram a mim e aos meus irmãos por um doador de esperma, certo?” Jace começou, muito alto. Se Sara ainda estivesse acordada, com certeza estava ouvindo tudo. “Bem, sempre disseram que ele era anônimo, e eu realmente não me importava em encontrá-lo, mas tive uma intuição maluca... E eu estava certo! Eu estava certo, porra!”

Ele desabou novamente.

Cregan pensou em centenas de maneiras diferentes de responder, de tentar acalmá-lo ou pedir pra contar o resto da história, mas decidiu ficar quieto. Um bebê saudável, só com o apoio silencioso dos pais, aprenderá a regular as próprias emoções. Ele tinha lido algo assim em um livro sobre maternidade, algum dia desses.

Ele pegou a mão de Jace para desenhar pequenos círculos com o polegar. O menino fungou.

“Tinha esse amigo da família,” Jace finalmente continuou. “Eu chamava ele de tio Harwin, ele sempre esteve lá desde o primeiro momento que eu me lembro. Tipo, de verdade, sempre lá. Mas daí ele morreu, há sete anos.”

Jace apertou sua mão com um soluço, como se estivesse sentindo dor.

“Eu- eu realmente não sei dizer o que foi que me fez perceber isso só agora, mas pedi à irmã dele para fazer o teste comigo. Era ele." Ele choramingou. “Era ele o tempo todo, Cregan.”

“Seu pai biológico?” Ele perguntou, só para finalmente dizer algo.

"Sim." Agora Jace estava quase sussurrando. “Eu realmente não achei que isso importasse. Eu tenho um pai e amava ele, mas... Se meu pai estava planejando nos abandonar de qualquer forma, ele poderia ter me deixado ter isso. Me deixado saber disso.”

O desabafo parecia ter acabado. Jace parou de chorar e afundou no sofá com um suspiro exausto. Cregan sentou-se ao lado dele e puxou-o contra o peito. Qualquer constrangimento parecia muito sem importância agora.

"Que merda." Foi o que Cregan conseguiu dizer. “Você tem toda razão, e sinto muito que eles tenham escondido isso de você.”

Qualquer outra resposta seriam palavras vazias. Cregan não entendia esse sentimento, seu pai sempre tinha sido muito honesto e aberto com ele, e quando ele partiu, não foi por escolha própria.

Mas ele entendia a perda. O luto. Quer ele percebesse ou não, Jace estava de luto por um homem que havia morrido anos atrás.

Então Cregan apenas o segurou. Sentindo-se mais corajoso, ele colocou as duas mãos no rosto de Jace para olhar em seus olhos cor de café. A luta havia desaparecido deles, Jace estava olhando para Cregan como se ele estivesse indefeso, vulnerável e pudesse ir a qualquer lugar se fosse guiado.

Cregan pensou em beijá-lo na boca, mas não seria certo. 

Ele se contentou com um longo beijo na testa, acariciando a pele atrás das orelhas de Jace com as pontas dos dedos. Jace se derreteu.

Eles ficaram assim, emaranhados um no outro, por minutos, ou talvez horas. 

Em algum momento, Rickon foi procurar o pai, segurando a mão de sua tia. 

Sara não fez nenhuma pergunta sobre Jace, e simplesmente se ofereceu para colocar o filho de Cregan na cama em seu lugar. Ele aceitou. 

Jace lutou para manter os olhos abertos enquanto Cregan o carregava para sua própria cama. Foi meio assustador. Mas ele confiava no amigo, então deixou-se colocar debaixo das cobertas. 

Com um último beijo na testa de Jace, Cregan foi dormir no sofá.

- ☕︎ -

 

Ele sabia que Jace acordava cedo, então, para ter certeza de que o café da manhã estaria pronto para ele, Cregan acordou às 6 da manhã. Seis horas da manhã de um domingo. 

Deuses, ele estava fodido.

Jace acabou acordando bem depois das nove. Cregan ligou para Aly para ter certeza de que ela conseguiria abrir a loja sozinha, depois fez panquecas para Rickon e pediu a Sara que o levasse ao parque.

Agora eram só ele e Jace, sentados à mesa com café e alguns biscoitos entre eles. Jace parecia muito melhor, embora com os olhos um pouco vermelhos. 

“Eca, que café é esse?” Ele exclamou depois de tomar um gole.

“Ãn… O do supermercado.”

“Você ainda não pegou um pacote do café da Sabitha pra você?”

"Eu posso fazer isso?" Cregan perguntou.

Jace riu. "Claro que pode! Não posso deixar você continuar bebendo esse café ruim que nem um plebeu.” Mas ele tomou outro gole da caneca, sorrindo por detrás dela.

Cregan imitou seu sorriso. Ele estendeu o braço por cima da mesa para cobrir a mão de Jace com a sua. E observou aquele lindo rubor cobrir o rosto do homem. “Eu gosto muito de você, Jacaerys. Mais do que como um amigo.”

Jace engasgou com a bebida. Cregan se levantou em um segundo para ajudá-lo, mas Jace o deteve levantando a mão.

“Estou bem-” Cof. "É só-" Cof. “Não estava esperando por isso.”

“Você não precisa responder agora. Ou nunca! Mas eu precisava dizer isso. Cregan entrou em pânico.

“Eu definitivamente não não gosto de você, mas...” Jace sempre odiou colocar isso em palavras. “Eu não sou do tipo que namora.”

“Você é do tipo de ficar uma vez só?”

“Mais do tipo 'anda de mãos dadas pelo parquinho, a última namorada que teve foi no jardim de infância'”.

"Ah." Cregan não sabia o que dizer. Ele segurou um “ mas você é tão bonito”. Essa provavelmente não seria a resposta certa.

“Além disso, eu sou seu chefe,” Jace acrescentou rapidamente.

Cregan deu uma risadinha. “Eu não acho que você seja do tipo que abusa da sua posição desse jeito. Você é diferente."

“Você está falando como se tivesse sofrido uma lavagem cerebral.” Jace provocou.

"Talvez eu tenha."

- ☕︎ -

 

Dois meses se passaram em um piscar de olhos. Cregan acordava, ia trabalhar, preparava expressos e café com leite e voltava para casa, para Rickon.

Ele não odiava a rotina. Ele só sentia falta de Jace

O homem estava ali, fisicamente, ao lado dele no balcão ou sentado em uma mesa com seu computador, todos os dias.

Tirando os dias em que ele não estava. Os dias em que ele chegava no final da manhã, com o rosto inchado. Os dias em que ele se escondia nos fundos do depósito quando via uma linda mulher loira - sua mãe - entrar na loja.

Cregan estava tentando dar espaço para ele. Eles ainda brincavam um com o outro e conversavam sobre os clientes, compartilhavam histórias sobre Rickon ou os irmãos mais novos de Jace. 

Eles simplesmente nunca mais mencionaram aquilo. O que quer que estivesse ameaçando florescer entre eles. 

Com o tempo, a nuvem escura que pairava sobre Jace começou a desaparecer. Ele riu de novo, um som bonito de que Cregan realmente tinha sentido falta. Ele saltitou, genuinamente em êxtase, quando Aly e Sabitha anunciaram que estavam namorando.

Na próxima vez que Rhaenyra apareceu no café, ele a abraçou e chorou no ombro da mãe.

Naquela noite, Jace veio até ele depois que fecharam. “Eu nunca agradeci direito.”

"Agradecer pelo que?" Cregan perguntou

“Por tudo do,” ele deu de ombros. “Por estar lá por mim naquela noite, por entender.”

“Não precisa me agradecer por isso.” Cregan o tranquilizou.

"Eu sei." 

Jace sentou no banquinho ao lado dele. “Talvez eu tenha a resposta que fiquei te devendo.”  

"Resposta?"

“Sabe, quando você disse que... gosta de mim. Talvez eu... sinta o mesmo? Jace corou.

Cregan pegou a mão de Jace e levou-a aos lábios. "Estou honrado."

Ele riu. "Retiro o que eu disse, você é um bobão!"

Cregan sorriu e baixou a mão de Jace para segurar a bochecha do menino, movendo-se lentamente, pedindo permissão silenciosamente.

Ele admirou seu rosto bonito, pequenas sardas salpicadas por toda parte, grandes olhos castanhos olhando para ele, ainda atordoados e confusos.

"Posso te beijar?" Cregan perguntou.

Jace respirou fundo. "Sim."

Cregan mudou de posição para poder se aproximar mais, puxando o rosto de Jace para encontrar o seu. Ele podia sentir a respiração do homem em seus lábios, a um segundo de tocá-los. Seu coração estava quase explodindo. "Para!"

Cregan recuou, preocupado. "O que está errado?"

“Nada. É só que, eu, eu nunca fiz isso.” Jace confessou.

"Beijar um homem?"

Ele negou com a cabeça.

"Beijar? Qualquer um?"

Jace escondeu o rosto nas mãos. “Não, quer dizer, eu já-”, ele murmurou, “beijei. Só não assim. Você sabe o que quero dizer."

“Não, Jace, eu não sei.” Cregan afastou as suas mãos, guiando Jace para olhar em seus olhos. "Por favor explique."

“Nunca foi alguém de quem eu realmente gostasse. Eu só queria acabar logo com tudo, sabe? E foi ruim. Muito ruim, sempre. Eu sou ruim nisso.” Ele desviou o olhar, olhando para qualquer coisa, menos para Cregan.

“Jace.” Cregan o interrompeu. "Está tudo bem." Ele riu. “Isso é muito fofo, na verdade.”

Jace olhou feio para ele e arrancou os pulsos das mãos de Cregan. “Não me trate como uma criança. Isso não faz de mim uma criança.”

"Não, claro que não."

“Eu não vou ficar com você se você for fazer disso uma piada, ou algum tipo de fetic-”

“Jace! Eu prometo que não vou. É só uma coisa a se aprender, como qualquer outra.” Cregan sorriu. “Tipo, eu não sabia usar a máquina de café expresso. Ou como fazer leite aerado. Se eu consegui aprender tudo isso, você vai aprender a beijar. Eu posso te ensinar."

Ele segurou o rosto de Jace novamente. " Posso?" Jace assentiu.

Cregan foi rápido dessa vez, apertando seus lábios contra os dele. Foi apenas uma carícia suave e curta, mas Jace pôde sentir sua suavidade, seu calor e um pouco da barba áspera, antes de Cregan se afastar.

"Tudo bem?"

Mais do que bem. Jace nem percebeu que havia dito isso em voz alta.

Cregan o beijou novamente. E de novo. Cada vez por um pouco mais de tempo, indo um pouco mais fundo.

Quando ele soltou Jace pela última vez, ele estava respirando com dificuldade. Demorou um pouco para entender que Cregan havia feito uma pergunta: “Você iria num encontro comigo? 

"Uh?" Jace se recompôs. “Sim, sim, claro. Mas… preciso que isso vá bem devagar.”

"Sem problema."

“Mais devagar do que você está pensando. Tipo, inconcebivelmente devagar. Tão devagar que você provavelmente vai ficar doido.”

“Só tem uma coisa que poderia me deixar doido,” ele sorriu, olhando para Jace de cima a baixo. Ele ganhou um tapa pela safadeza. 

“E eu ainda sou seu chefe,” Jace lembrou.

“E eu ainda não dou a mínima.” Cregan agarrou seu pescoço e puxou-o para outro beijo.

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Notes:

Peço perdão pelo meu português de gringa, a cada dia q passa me torno menos brasileira mas tô tentando parar 😅
Espero que tenham gostado!