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Campo de Morangos: Único.
― Com licença, Senhora Moon! Cheguei com a última entrega de frutas da semana. ― Minho disse entrando na cozinha pela porta dos fundos, deixando as sacolas de frutas daquela semana em cima do grande balcão de preparo.
― Você separou as melhores, filho? — a líder da cozinha real perguntou sorrindo, enquanto inspecionava os itens das sacolas.
― Sim, senhora. ― o jovem sorriu. ― Como diz o meu pai: “para o rei e rainha, sempre o melhor”.
― Separou os morangos mais vermelhos? Os que você trouxe na segunda-feira não estavam tão vermelhos e o príncipe Changbin gosta deles bem vermelhinhos.
― Os que eu trouxe hoje estão bem melhores! Os de segunda-feira ainda não estavam tão bons, mas eu tive que trazer mesmo assim porque são uma das frutas que mais pedem aqui.
― Ótimo, meu querido. Espere um pouco, vou buscar as moedas do seu pagamento. ― A senhora deixou a sacola na grande mesa de madeira e saiu rapidamente para fora da cozinha.
Enquanto esperava a volta da líder da cozinha, Minho ficou ali olhando aquela quantidade absurda de panelas penduradas, além dos variados tipos de pratos e copos, de todos os formatos e materiais. De onde ele estava, até conseguia ver o armário com pratos, talheres e copos de ouro, que provavelmente valiam mais que um mês inteiro de produção de morangos de sua família. Minho até se perguntou mentalmente se alguma vez a realeza os usaram, e em qual ocasião teria acontecido, mas talvez nem precisavam, afinal, era a residência real do rei e rainha de Sunir.
― Olá, bom dia. ― uma voz diferente da que esperava soou vindo da porta da cozinha e Minho se assustou. Virando o rosto, o jovem beta engoliu em seco ao ver quem tinha o cumprimentado. ― Olá Minho, como está?
― B-bem, meu príncipe. ― Minho fez uma reverência ao ver Changbin. ― E vossa majestade, como está nessa manhã?
― Ah, não precisa me chamar de majestade. ― O jovem ômega falou, indo pegar um copo de água. ― Eu estou bem. — Passando pelo balcão, ele espiou as sacolas, com um sorriso travesso nos lábios. ― Hmm, você trouxe meus morangos?
― Sim, meu príncipe! Vermelhos do jeito que o senhor gosta. — Disse Minho, sorrindo timidamente.
― Eu adoro as frutas que você e sua família trazem pro castelo, não há nenhum outro fornecedor que tenha as frutas mais doces. ― Changbin falou e deu um gole na água. Minho precisou mudar o foco para não ser pego hipnotizado pelo movimento do pomo de adão do príncipe. ― Tem muito trabalho para hoje?
― Sim, meu príncipe.
― Você quer alguma ajuda? ― Changbin surpreendeu Minho com a pergunta e mostrou um sorriso tão bonito que ele teve que piscar algumas vezes para não fazer papel de bobo e não responder a pergunta.
― Não precisa, meu príncipe. Consigo realizar tudo sozinho.
― Aqui, filho. Todo o dinheiro pelas três entregas da semana. ― A líder da cozinha voltou e entregou a sacolinha com moedas ao beta, que a recebeu com uma pequena reverência. ― E você, Changbin, o que está fazendo aqui embaixo? Vá logo se arrumar porque você precisa começar a conferir os preparativos do seu casamento! ― a senhora disse, com um tom de voz preocupado. Changbin suspirou, perdendo o sorriso e rolando os olhos.
― Eu sei, Madame Moon, eu vou ver isso depois. Vim dar uma volta antes das tarefas oficiais, beber uma água… ― Ele olhou novamente para Minho. ― Certeza que não quer ajuda, Minho?
― Não, meu príncipe, obrigado. Obrigada também pelas compras, Madame! ― nervoso com a palavra “casamento”, o beta saiu apressado pela porta que tinha entrado antes.
Já do lado de fora, Minho não resistiu de escutar o restante da conversa.
― Você deveria estar preocupado com o seu casamento e não em ficar conversando com camponês, Changbin.
― A senhora falou como meu pai agora. ― o ômega suspirou, e Minho sentiu um pequeno aperto no peito. ― Guarde minhas frutas, irei comer mais tarde.
Respirando fundo, o jovem arrumou as moedas na sua bolsa e saiu pelo corredor externo do castelo, onde uma pequena horta era mantida pela cozinha, em direção à saída de funcionários do castelo. Admirando as pequenas leguminosas que cresciam, Minho refletiu sobre como ele realmente era apenas um camponês do reino, que nunca teria — nem sequer deveria receber — a atenção de um dos membros da realeza. Poderia até se considerar sortudo por pensar que o príncipe Changbin sabia seu nome.
Nascer no reino de Sunir não foi algo ruim. Longe disso. Lee Minho nasceu de um casal de betas e consequentemente também nasceu beta, e o jovem não tinha nenhum problema com seu status. Minho foi criado com muito amor e carinho, onde seus pais eram fornecedores de frutas e verduras para lojas e casas da cidade. Enquanto crescia, ele ia ajudando nas tarefas domésticas, nas colheitas e limpeza dos produtos, que seus pais levavam para a venda. Até que, aos dezoito anos, começou a ir com os pais levar e vender os produtos na feira e nas casas da elite.
Mas algo que Minho nunca iria esquecer foi a primeira vez em que pisou no castelo. Tinha pouco mais que dezenove anos, e seus pais não podiam fazer a entrega porque um dos envios para uma das feiras teve problema e eles não queriam atrasar o envio semanal de produtos da realeza. Ele lembra como foi um pouco assustador entrar em um lugar tão grande – mesmo que tenha sido apenas a cozinha. Mas o que ele nunca iria esquecer foi o sorriso de quem o recepcionou: Seo Changbin, o príncipe ômega do reino de Sunir.
O jovem tinha cabelos cabelos pretos com cachos rebeldes, que ornava o rosto redondo de bochechas rosadas, e uma risada escandalosa, que de princípio assustou Minho, mas que o deixou hipnotizado com a simpatia. O jovem estava passando na cozinha e, ao ver as caixas de morangos, sorriu para beta como se tivesse recebido o melhor presente de todos. E talvez aquele sorriso tenha sido o presente perfeito para Lee Minho.
Seo Changbin era o segundo príncipe da linha de sucessão. Seu irmão mais velho era Chan, um alfa exemplar para o reino de Sunir, o orgulho da família real. Mas Changbin, por ter nascido ômega, era esperado ser sempre calmo, que falasse baixo, que não fosse “forte demais” e que fosse sempre carinhoso e afetuoso. E ele era. Todas as pessoas que Minho conheceu enquanto fazia entregas no castelo, ou escutando como fofoca nos corredores da cozinha, diziam o quão carismático, educado e animado o príncipe era, assim como ele também não falava baixo, e como seu porte físico não “encaixava” no status dele – Minho até escutou um comentário maldoso em que “o príncipe Chan merecia ter nascido no corpo do irmão mais novo”.
Conhecer Changbin foi um evento na vida de Minho. A felicidade contagiosa do ômega de ter recebido simples morangos, somado à educação de perguntar seu nome, e as risadas de comentar o quanto ele amava aquelas frutinhas vermelhas conquistou o jovem beta tão rapidamente que ele só se deu conta que estava na frente de um príncipe quando o rei apareceu e chamou atenção pela cena que via, brigando com Changbin para não se dirigir tão informalmente aos súditos. Somente ali, quando Changbin abaixou o rosto de vergonha pela bronca que recebia do rei, que Minho notou a fina coroa de metal escuro que se disfarçava entre os cabelos rebeldes do jovem, com pequenos topázios incrustados. E aquela foi a primeira experiência na vida de Minho da grande separação que havia entre ele e Changbin.
Com o passar dos anos, Minho via Changbin apenas ocasionalmente durante suas entregas, ou em eventos em que a família real estava presente, bem distante, mas algo dentro de si havia mudado, porque Minho tinha visto um lado que nunca imaginara de alguém tão importante. Somado com sua experiência pessoal e aos comentários sobre sua personalidade, Minho começou a admirar Changbin além do seu papel de realeza, mas como pessoa. Mas o pensamento de admiração sempre vinha acompanhado do quão distantes e diferentes eles eram. Changbin era seu sonho irreal, uma paixão platônica apenas, e ele nunca sequer teria uma chance.
Ainda mais porque agora Changbin agora estava prometido a um alfa chamado Lee Felix, filho de um grande conselheiro do reino, e eles se casariam em poucos meses.
Alguns dias depois…
― Você viu que a data do casamento do príncipe já foi divulgada? ― Seungmin perguntou e Minho só resmungou. Os amigos andavam entre a plantação de morangos da família Lee enquanto checavam as folhas dos pés recém-plantados. ― Minho, eu estou falando com você.
― Eu sei. ― Minho suspirou. ― Eu só não quero conversar, Seungmin.
― Você ta bem? ― o alfa se aproximou do amigo, oferecendo uma mão reconfortante no ombro do beta. ― Você quer que eu te deixe sozinho? Amanhã eu volto.
― Você não vai vir amanhã. Você vai sair com o Hyunjin. ― Minho disse, soltando uma pequena folha e fechando os olhos, em meio a um suspiro. ― Mas sim... Eu estou bem, eu só... É errado continuar alimentando minha paixão pelo príncipe?
― Assim… ― Seungmin colocou a mão no queixo, pensando um pouco antes de falar. ― Eu não sei o que te chamou atenção nele, mas eu não acho errado.
― Tudo me chamou atenção nele! ― Minho se virou para o amigo e colocou as mãos no rosto, cobrindo os olhos. ― Outro dia eu encontrei ele nas minhas entregas no castelo e meu coração ficou todo bobo, ele até me ofereceu ajuda! Ele me tratou bem, ele também fala alto, e é engraçado porque todos querem que ele fale baixo e seja comportado por ele ser ômega… ― Minho fala rápido, seu peito parecia que ia explodir com tanta coisa que precisava falar sobre Changbin. ― Tem também o fato dele ser educado e se dar bem com todo mundo, e todo fofo, e isso me deixa tão mais tão apaixonado porque... Porque ele é perfeito.
Seungmin mirou o amigo e fez um rápido carinho nos cabelos dele.
― Mas ele está noivo.
― Eu sei… ― Minho choramingou, levantando o olhar para o amigo. ― Ele e Felix fazem um casal tão bonito, você já viu? O Felix parece ser um alfa legal também. Inclusive, pelo que eu ouvi de alguns empregados, quando os dois estavam no período de cortejo eles viviam saindo em encontros, passeando no jardim à luz da lua, trocando presentes feitos a mão... Eu... Ah, Seungmin, porque a vida não pode ser boa com todos?
― Porque aí não seria a vida ― o alfa murmurou, dando uma risada leve. ― Olha, Minho, eu sou seu amigo desde pequeno, e eu sinceramente não acho ruim você ser apaixonado porque paixão faz parte da vida, inclusive as paixões platônicas. Só não crie nenhum tipo de laço emocional, porque... Eles vão casar, você querendo ou não.
― Eu sei, eu sei… Eu só penso nessas coisas, não penso em interromper nada. ― disse Minho, balançando as mãos. ― Eles merecem toda a felicidade do mundo, eles são perfeitos juntos e…
― E você queria estar com eles.
― E eu queria estar com e- Não! ― gritou e Seungmin começou a rir. ― Seungmin, cala a boca! – Minho deu um tapa no ombro do amigo, sentindo as orelhas ficarem quentes de vergonha.
― Desculpa, foi sem querer. ― Ainda com um sorriso no rosto, Seungmin perguntou: ― Você tem muitas entregas hoje?
― Meu pai quem vai fazer. ― Respondeu, agradecendo mentalmente a mudança de assunto. ― E você e Hyunjin, como estão?
― Bem, acho que ele vai me pedir em casamento nos próximos dias. Ele não consegue esconder nada. ― Seungmin riu, sentindo as bochechas corarem. Eles voltaram a andar entre os corredores dos morangos, Minho escutando o amigo falar enquanto trabalhava. ― Mas para me pedir em casamento ele precisa de uma incrível caça, e eu quero um lindo cervo na minha porta como pedido de casamento. Ele sabe disso, por isso ele ainda não pediu.
― Porque não está na época dos cervos aparecerem na floresta, não é? Eles só aparecem na segunda semana do mês. ― Minho perguntou. Virou o rosto e viu o amigo concordar com a cabeça. ― Por que você não o pede em casamento então? Não foi ele que disse uma vez que gostaria de receber presentes feitos à mão em vez de uma caçada?
― Porque eu que comecei o cortejo, então ele quem deve fazer o pedido de casamento ― disse Seungmin, lembrando bem das palavras da sua mãe.
― Cortejar deve ser algo bom, não é?
― É muito bom, é muito divertido. ― Seungmin contou, lembrando dos dias de cortejo com um sorriso apaixonado no rosto. ― Você receber presentes, fazer os presentes à mão para dar a alguém que você gosta, fazer um ninho para a primeira vez que dormirem juntos, trocarem panos ou peles de animais que caçaram... Um bom cortejo significa uma boa união futura.
― Você e Hyunjin então terão uma união maravilhosa. – disse Minho, virando o rosto e sorrindo para o amigo. Seungmin balançou a cabeça, agradecendo.
― Eu espero, Minho, eu realmente espero... Somos dois alfas, alguns ainda veem como errado, o próprio rei não valida nossa união. ― o alfa disse, o tom de voz ficando triste. ― Mas eu espero que, quando o alfa Chan virar rei, mude de ideia e deixe claro que todos podem se casar independente do seu status.
― O príncipe Chan ainda não casou, isso não seria algo ruim?
― Se ele fosse ômega ou beta sim, mas ele é alfa, ele pode até assumir um relacionamento sem estar casado. ― respondeu Seungmin. ― O príncipe Changbin vai casar logo provavelmente porque ele é ômega.
―Será? ― Minho parou e encarou o amigo, o olhar com dúvidas. ― Eu acho que ele também quer, Minnie.
― Ele pode até querer, o cortejo pode ter dado certo, mas eles estão correndo com o casamento. Ele e o Felix estão juntos há apenas dois anos, ainda é cedo pra casar. ― o jovem alfa deu de ombros. ― É o que eu acho.
― Eu acho que eles querem…
“Eles parecem bem apaixonados”, Minho quase completou, a frase ficando presa na garganta. A frase lembrou Minho do dia em que foi anunciado que Changbin estava sendo cortejado por Felix. Nos primeiros dias o povo de Sunir achavou que era um romance arranjado, considerando que o jovem alfa era filho de Lee Eunwoo, conselheiro financeiro do rei, mas com o tempo se espalharam pela cidade dizendo que eles eram amigos desde a infância, convivendo desde pequenos. Com essa informação, e depois conhecendo Changbin pessoalmente, o beta criou uma grande curiosidade sobre o cortejo entre eles dois, o que Felix tinha dado a Changbin, quais eram as comidas que eles trocavam, os presentes… Imaginou que tinha sido perfeito porque, para Minho, os dois eram perfeitos.
[...]
― Chan, você viu seu irmão? A professora de bordado não o viu hoje pelo cast… ― Seo Bogum, o rei de Sunir e patriarca da família Seo, perguntou entrando no quarto de Chan, o príncipe alfa, não encontrando apenas o filho mais velho. Changbin, sorrindo enquanto segurava as duas mãos de Chan no meio do ar e prestes a socar a cara do irmão, escutou a voz do pai e perdeu o equilíbrio, caindo para o lado. Ainda sem perceber a presença do seu pai, Chan riu e aproveitou a chance, ficando por cima. O rei suspirou e engrossou a voz. ― Chan, saia de cima do seu irmão agora. Ele é um ômega.
― E qual o problema? ― Se assustando com a voz repentina, Chan perguntou, saindo de cima do irmão. Changbin se encolheu, ainda respirando ofegante da brincadeira de luta. – Eu estava mostrando o golpe novo que aprendi hoje na aula de taekwondo.
― O problema é que ele deveria agora estar aprendendo a bordar e não lutando com você, como alfas fazem. ― O rei disse, cruzando os braços e os olhando de cima. Changbin abaixou a cabeça entre os braços apoiados no joelho, escondendo o olhar triste do julgamento do pai. ― Vamos Changbin, levante-se e vá para o seu quarto se limpar, e vá direto para a aula. Você fede. Ômegas não fedem.
― Pai, isso é desnecessário. ― Chan disse em um tom de voz mais alto, se levantando e ficando mais próximo da altura do olhar do pai, que fechou ainda mais a expressão. ― Changbin e eu lutamos desde que ele tinha seis anos.
― Ele é um ômega e precisa saber o lugar dele. Ele não é mais uma criança! ― Gritou o rei. ― Levante-se agora, Changbin!
― Pai, ele vai ficar aqui. – Chan disse, entrando no meio da visão do pai com Changbin. O mais novo sentiu o coração apertar no peito.
― Fica quieto, Chan. ― Changbin falou enquanto levantava, se apoiando no ombro de Chan. O jovem alfa olhou para trás, em choque com a voz do irmão tão baixa e condescendente. ― Estou indo, pai.
― Ótimo. Não se atrase para sua aula. ― Seo Bogum disse e fechou a porta, deixando os dois jovens calados.
Chan foi o primeiro a quebrar o silêncio entre os dois.
― Você não precisa ir, Changbin. Meu Deus, você já tem vinte e três anos. ― Chan disse ao irmão, colocando a mão no ombro dele. Changbin estremeceu um pouco. ― Por que você ainda abaixa a cabeça quando o papai fala com você?
― Porque ele é nosso pai?! Porque ele é o rei?! ― Changbin bufou. ― Ele não precisa de muito motivo para falar comigo assim, já tem o fato de eu ser ômega e ainda não ser “o ômega ideal”. – Ele bateu as roupas e limpou o suor do rosto. – Se eu não seguir o que ele fala é capaz dele querer me bater.
― A mamãe nunca deixaria.
Changbin quis rir, mas se segurou.
― A mamãe nem sai do quarto, Chan. Ela me ignora também. ― O jovem ômega disse, o coração se apertando no peito pela segunda vez. Ele não queria se deixar abater, mas não era fácil. ― Irmão, eu amo muito você, mas você sabe que somos diferentes aqui. Você é o alfa, o mais velho, tem status importante. Eu sou o ômega e o mais novo. Você vai ser rei e eu não.
― Irmão… – Chan desviou o olhar, envergonhado de pensar que a situação fosse tão simples que ele pudesse se resolver com uma conversa simples.
― A única coisa boa na minha vida tem sido o Felix, e você sabe disso. ― Changbin falou e sorriu rapidamente lembrando do loiro. ― Tudo com ele é mais tolerável, eu posso ser quem eu sou, e nós vamos casar. Eu quero muito que o tempo passe mais rápido, sei que vou ser bem mais feliz longe desse castelo depois do casamento.
Chan sorriu, mesmo de coração apertado com a certeza da ida de Changbin para outro lugar após o casamento. Ele sabia o quanto Felix era uma pessoa boa e fazia seu irmão feliz. Mas não poderia deixar passar um detalhe.
― E aquele camponês?
― Que camponês? Não sei do que você está falando... ― Changbin olhou nervosamente para Chan, suas bochechas corando. Chan riu ladino. Então o mais novo decidiu se vingar. ― E aquele músico da loja de joias, o Jisung, uh? E o noivo dele?
― Os dois sabem o que eu sinto por eles, o seu camponês não. ― Chan rebateu rapidamente, ainda sorrindo. Changbin, vendo que havia perdido a batalha, virou de costas, andando até a porta. ― Changbin!
― Não quero mais falar com você. ― o jovem ômega disse, abrindo a porta. ― E você iria perder a luta se o papai não tivesse aberto a porta.
― Claro que não.
― Claro que sim. ― Changbin falou para o irmão, um rápido sorriso no rosto. ― Eu sou muito mais forte que você.
Apesar do sorriso que deu, Changbin saiu do quarto do irmão e seguiu pelo pequeno corredor que conectava os dois quartos com passos rápidos, o coração pesado dentro do peito e as lágrimas ameaçando caírem. O ômega passou direto pela antessala do quarto e foi para seu banheiro, com o objetivo de tomar um banho e deixar que a água lavasse sua alma e escondesse seu choro.
Changbin não foi planejado. Seus pais não queriam mais um filho depois de Chan, que era um belo alfa, então não havia razão deles quererem outro bebê. O mais novo foi criado com pouca liberdade, sempre tendo que observar o irmão mais velho tendo atividades mais interessantes do que ele, como taekwondo, hipismo e luta com espadas. Ele queria estar participando de tudo como Chan, mas não podia.
Muitas vezes, o problema não era nem seu status. Changbin sempre foi naturalmente forte, com voz grossa e de olhar firme, e as pessoas pareciam respeitá-lo com um ômega forte, ou seja, independente do seu status. Mas seu pai não achava isso certo. Seo Bogum era um homem exigente com ambos os filhos, mas parecia ser mais rude com Changbin, sempre o corrigindo, mandando ele ficar quieto, ser mais delicado, submisso e discreto, pois achava que isso facilitaria no arranjo de um casamento ou no futuro do ômega. A mãe nunca foi presente, sendo o rei a referência principal na educação dos filhos.
Se sentindo um pouco melhor depois do banho, Changbin se vestia quando escutou batidas na porta que conectava seu quarto com a antessala dos seus aposentos.
― Pode abrir ― o ômega respondeu e uma das empregadas abriu a porta devagar.
― Príncipe Changbin, o senhor Felix está na sala principal. ― A empregada disse e Changbin não pode deixar de sorrir. Seu raio-de-sol chegara. ― Quer que eu mande a cozinha preparar petiscos?
― Você sabe quais são os meus favoritos. ― ele disse e a moça sorriu, assentindo com a cabeça.
― Eu sei. ― Ela disse. ― Irei providenciar. Gostaria de vê-lo na biblioteca?
― Por favor.
Assentindo novamente, a empregada saiu do quarto e fechou a porta.
Ainda com o sorriso bobo nos lábios, o jovem ômega terminou de se arrumar para encontrar com Felix. Mesmo sabendo que seu pai iria ficar muito chateado por ele faltar mais uma aula de costura, e provavelmente mais uma briga iria estourar mais tarde, Changbin sabia que o rei não poderia fazer alguma coisa. O rei sabia que os encontros semanais entre o casal era fundamental para o processo de cortejo, principalmente com a cerimônia de casamento cada vez mais próxima. Com isso em mente, Changbin respirou fundo e até planejou o que falaria quando o pai o chamasse até o escritório para mais uma de suas reclamações.
O ômega saiu do quarto e desceu as escadas principais, parando rapidamente apenas para avisar uma das serviçais no salão principal que ele já iria entrar na biblioteca e estaria esperando o lanche.
Entrando no ambiente escuro, Changbin avistou Felix sentado na namoradeira vermelha logo abaixo de um grande vitral no meio da biblioteca, um pequeno livro escuro nas mãos cheias de aneis de seu amado, a luz colorida vinda da janela como uma aura mágica que iluminava seu pequeno raio-de-sol. Changbin não pode evitar de abrir um grande sorriso, seu coração derretendo de amor.
― Lix! ― o ômega praticamente gritou no ambiente vazio e Felix virou o rosto, levantando-se. Changbin correu para abraçá-lo. ― Amor, eu achava que você não viria hoje.
― Esqueci de avisar que viria, terminei uma reunião com meu pai e decidi vir vê-lo. ― O alfa sorriu, deixando Changbin ainda mais derretido por seu noivo. ― Eu acho que poderemos resolver mais algumas coisas do casamento, não é?
― Sim! Changbin puxou o alfa para sentar de volta na namoradeira. ― E também sobre o Minho.
― Lee Minho? ― Felix sorriu, contagiando Changbin. ― O que tem ele? Você viu ele essa semana?
― Vi sim! ― o ômega disse, o tom de voz animado. Felix riu. ― Ele veio fazer entregas e... Ah Felix, será que não podemos tentar?
― Eu já disse que topo conversar com ele e cortejá-lo, você que tem receio de tentar. ― O jovem loiro deu de ombros, descontraído. ― Não quero te pressionar, claro, mas se fizermos isso, podemos até casar com ele também.
― Não, não. Talvez seja pouco tempo entre cortejarmos ele e o casamento. ― Changbin murmurou, mordendo os lábios, pensativo. ― Poderíamos segurar o casamento...
― Antes de envolver o casamento, temos que pensar como vamos nos aproximar dele, a conversa que teremos e explicar porque estamos querendo cortejá-lo.
― Não vai ser óbvio? ― O ômega encarou o noivo com as sobrancelhas arqueadas. Felix não resistiu e deu uma risada, segurando o rosto do amado com suas mãos delicadas. ― Não?
― Não, Binnie, não vai ser óbvio. ― O alfa fez um rápido carinho nas bochechas do ômega. ― Eu acho que o Minho não faz nem noção dos nossos olhares, até porque não temos tanta proximidade. As poucas situações que o vemos é quando você o vê na cozinha fazendo entregas, e eu quando o vejo na rua andando.
― Então temos que nos aproximar dele. – Changbin colocou a mão no queixo, pensativo. Felix deu um sorriso, seu noivo era muito expressivo e isso era uma das razões por ele ter se apaixonado pelo ômega.
― Sim. ― Felix respondeu. ― E para isso precisamos de um plano.
― O que você acha de um cortejo simples? ― Changbin perguntou animado.
O cortejo simples se resumia a pequenos presentes, considerados simples, onde alfas e betas querem deixar claro à pessoa cortejada – outros betas e ômegas – que ela é querida e que tem a oportunidade de receber um cortejo formal, caso ela queira.
― Cortejo simples será. ― Felix disse, assentindo com a cabeça. Changbin sorriu aberto e puxou o alfa para um beijo curto, segurando o rosto do jovem alfa com as duas mãos. Surpreso com o ato, o alfa deu uma risada alta ainda com os lábios do parceiro encostados no seu, abraçando-o em seguida. Com os braços de Felix em sua cintura, Changbin suspirou e sorriu.
― Por isso que eu te amo, seu alfa inteligente.
Dias depois…
― As empregadas do palácio pediram para que você fosse levar as frutas hoje. ― a senhora Lee anunciou ao entrar na estufa, enquanto o beta separava alguns morangos. O jovem beta suspirou nervoso.
― Eu fico me perguntando para quê tantas frutas. ― Minho resmungou e a mais velha riu. Ele a encarou. ― É sério, mãe. Três vezes na semana?
― Essa é a primeira vez que vejo você reclamando de ir lá. Por que isso agora? – Ela sentou ao lado do filho, observando as mãos pequenas do filho limpando cuidadosamente os pequenos frutos vermelhos. Era incrível como as mãos de Minho não endureceram com o passar do tempo, apesar de tantas horas trabalhando manualmente com colheitas.
― Porque eu estou cansado. ― Desconversou, desviando o olhar da mãe e voltando para os morangos. ― Tenho muita coisa para fazer durante o dia, e ainda ter que ir lá três vezes na semana é demais.
― São três vezes na semana e não três vezes ao dia. ― A senhora Lee disse sorrindo, faznendo um carinho nos cabelos escuros do filho. ― Do que você está fugindo?
― Do príncipe ― Minho falou rapidamente, decidindo se abrir com a mãe, talvez aquilo ajudasse a se livrar do peso que sentia dentro de si. O jovem fez bico e pegou um dos morangos, colocando-o na frente do rosto. ― Ele é tão lindo igual esse moranguinho, tenho vontade de pegar ele e morder.
― Minho… ― A senhora deu uma risada. ― Filho, você tem algo para me contar?
― Eu acho que sou apaixonado pelo príncipe ― Minho mordeu o morango, dando de ombros. ― Mas não se preocupe, é uma paixão de adolescente.
― Você já é adulto, Lee Minho.
― Ai, eu sei… É uma paixão idiota. ― O beta falou e limpou a boca. ― Eu sei que nunca vai acontecer nada, porque ele é um príncipe e porque ele vai casar… Ele vai casar, mamãe… Casar com o Felix, o Lee Felix! O! Lee! Felix! – Minho colocou a mão no rosto, sentindo um frio na barriga, só de pensar no casal que eles faziam.
― Sim, o Lee Felix. ― A senhora Lee não perdia o sorriso do rosto. Era bonito ver o filho tendo sentimentos tão reais e sinceros por alguém.
― Lee Felix, mamãe… ― Minho choramingou ― Ele vai casar com o alfa mais lindo do reino.
― Ué… Eu lembro que você achava que Hyunjin era o mais lindo.
― Ele era antes do Seungmin me ameaçar se eu continuasse elogiando ele. ― Minho falou e a senhora Lee soltou uma gargalhada. ― Mas tudo bem, isso vai passar, mamãe.
― Você acha? ― Ela fez mais um carinho nos cabelos de Minho. Ele a encarou, com um sorriso apático no rosto.
― Eu tenho certeza. ― O jovem limpou as mãos na roupa e se levantou da cadeira. ― A senhora pode terminar de separar as frutas? Eu vou terminar de me arrumar e levar logo agora antes do almoço. Vai ser bom porque só tem as empregadas lá nesse horário, e vai ser melhor do que encontrar um dos príncipes ou até mesmo o rei.
― Claro, filho. ― Pegando um dos aventais na mesa, a senhora Lee pensou alto. ― Falando na família real, nunca mais vi a rainha.
― Também não ― Minho respondeu, distraído contando as caixas de madeira no chão. ― Será que ela morreu?
A senhora Lee arregalou os olhos, mirando o filho assustada pelo comentário.
― Que horror, meu filho! ― o jovem virou o rosto para sua mãe, sem entender o tom de voz. ― Espero que não.
― Desculpa, falei sem pensar. ― Minho balançou a cabeça, esperando tirar a família real da cabeça enquanto trabalhava, em especial o caçula da família.
Minho entrou na casa para trocar de roupa e preparar seu carrinho de entregas. Fazia alguns dias que ele estava fugindo das entregas porque colocou em sua cabeça que iria esquecer o príncipe Changbin e seu alfa Felix. Ele tinha decidido isso porque, segundo suas próprias palavras, era um beta firme e que não iria se entregar às tentações...
Mas infelizmente, ele não poderia escolher quais entregas teria que fazer e lá estava ele, virando a esquina da rua que dava acesso à entrada dos funcionários do castelo, torcendo para que Changbin estivesse passeando no castelo e decidisse ir à cozinha nos próximos minutos…
― Bom dia, senhora. ― Minho disse da porta. A empregada, reconhecendo a voz do jovem beta, sorriu. ― Trouxe as caixas de frutas.
― Obrigada, Minho! – Indicando a mesa central da cozinha para o jovem apoiar as caixas, ela chamou o beta com a mão. ― Ainda bem que você chegou mais cedo hoje! A realeza terá um jantar importante no final da semana, e a cozinha inteira terá que fazer várias sobremesas… Talvez você terá que vir mais dias essa semana.
― Se for preciso, estarei aqui. ― ele sorriu nervoso, pegando uma das caixas e levantando até a mesa. Pelo visto seus planos de continuar evitando o palácio não dariam certo. Ainda faltavam algumas caixas, então Minho voltou para a área externa da cozinha, andando até seu carrinho.
― Eu ajudo você. ― Minho quase deixou as caixas caírem quando ouviu uma voz grossa próximo a ele. ― Com licença.
O beta apoiou a caixa de volta no transporte e arregalou os olhos ao ver Felix, o alfa sorriu segurando uma caixa e entrando de volta no castelo. Ainda paralisado, ele viu o jovem voltando para perto dele, apontando para as outras duas que faltavam.
― Aquelas outras também? — O sorriso do jovem alfa era hipnotizante. Minho piscou os olhos rapidamente.
― S-sim.
― Ok. ― Sorrindo, o alfa se aproximou novamente para pegar as outras duas caixas. Minho percebeu que estava parado segurando apenas uma caixa, enquanto o outro segurava duas, então correu para acompanhá-lo até dentro da cozinha. ― Você carrega essas caixas todos os dias?
O jovem beta abriu a boca para responder, mas a senhora na cozinha, conferindo as compras, colocou as mãos na cabeça.
― Ah, precisamos de mais vinhos! Minho, eu já volto com seu pagamento! ― Com a expressão nervosa, a senhora saiu da cozinha em direção à sala de jantar, o som de seus passos rápidos sumindo para dentro do castelo.
― Tudo bem, senhora… ― o jovem beta disse baixinho, mesmo sabendo que ela não escutaria. Seu estômago estava congelado pela presença do outro com ele naquele espaço.
― Você não me respondeu, Minho. ― Felix deixou a última caixa na mesa, o som dando um pequeno susto em Minho. ― Você carrega essas caixas todos os dias?
― Sim. — Ele respondeu. ― Sim, alfa, eu carrego sim.
― Um “sim” seria o bastante, querido. ― Felix sorriu e Minho sentiu uma puxada em seu peito. As sardas tão famosas se iluminaram no olhar do beta, que se viu hipnotizado pela segunda vez no dia. ― Changbin fala muito de você, sabia?
― Changbin? O príncipe Changbin? – Minho abriu os olhos, as sobrancelhas subindo na testa. Aquilo não fazia sentido para ele.
― Sim, o Changbin. ― Continuou Felix, ainda com o sorriso no rosto. ― Ele diz que você é uma pessoa muito bonita e que você colhe os melhores morangos só para ele.
― Ah sim. ― O jovem beta sorriu tímido. ― O príncipe merece sempre o melhor.
Dando pequenos passos lentos, Felix foi se aproximando de Minho. O beta se sentiu enraizado no lugar.
― E se ele não fosse príncipe, ele também não iria merecer os melhores morangos?
― Iria merecer sempre ― Minho soltou sem pensar muito, e Felix soltou um pequeno riso. Minho percebeu o que falou e tossiu nervosamente. ― E-eu preciso ir, alfa, eu pego meu pagamento outro dia.
― Espere. ― Felix tirou algo de dentro do casaco e entregou ao beta, as pequenas mãos cheias de anéis segurando as mãos simples do outro. ― Para você.
―Eu não p-
― Minho! ― a empregada voltou correndo com uma sacolinha em uma mão e uma garrafa de vinho ornada na outra. Minho rapidamente colocou o pacotinho que recebeu de Felix no bolso da calça e disfarçou sua postura nervosa. ― Aqui seu dinheiro da semana. Mais tarde vou passar na sua casa e vejo com seu pai sobre o que você trará para nós nos próximos dias, ok? Muito obrigada, querido.
― Obrigado. ― ele acenou com a cabeça para a senhora, pegou a sacolinha e olhou para Felix, dando um pequeno aceno para ele também. ― Até mais, alfa.
― Até mais, querido. ― Felix disse baixo, um sorriso nos lábios, e o beta saiu correndo para fora do palácio ― Senhora Moon, você pode me dizer quais os dias Minho vem entregar?
― Ele não tem dias fixos, mas é quase sempre as terças, quintas e sábados. – A senhora respondeu.
― Obrigado, senhora Moon. ― o jovem acenou com a cabeça e sorriu. ― Precisa de alguma ajuda?
― Claro que não, senhor Felix. ― A senhora sorriu, balançando as mãos relaxadas. ― Você é um rapaz sério, não precisa estar na cozinha me ajudando.
― Eu faço questão, Senhora Moon. As caixas estão pesadas, vou colocar as frutas na dispensa para a senhora. Só me diga onde guardar, ok?
Sorrindo orgulhosa, a líder da cozinha acenou com a cabeça, agradecendo o gesto do jovem alfa. Indicando com a mão para onde o jovem deveria andar, ela comentou.
― O senhor e o príncipe Changbin realmente foram feitos um para o outro.
Já do lado de fora do palácio, Minho se viu andando no automático rapidamente até estar em uma rua vazia, se apoiando na parede, tentando acalmar sua respiração. O beta buscou no bolso o pacotinho de Felix, que era uma pequena sacolinha de veludo azul, decorado com uma fita rosa. Nervoso, o beta abriu e viu um pequeno broxe de borboleta, delicado com pequenas pedras brilhantes, junto com um papel enrolado. Minho abriu o papel e leu.
“Receba nosso cortejo simples.”
― Nosso? ― Minho arregalou os olhos. ― Nosso quem? Cortejo de quem? O que ele quis dizer?
[...]
― Você não está entendendo, Seungmin. ― Minho balançou o papel no rosto do amigo, o tom de voz um pouco mais alto que o normal. ― Olha isso aqui!
― Estou olhando e ficando tonto do quanto você está balançando o papel. ― o alfa bufou, sem entender a agitação do amigo. ― Pode me explicar?
― Na verdade eu que gostaria de uma explicação. ― o beta sentou ao lado do amigo no banco, os dois na frente da casa de Seungmin. Balançando as pernas, ele não aguentou ficar sentado cinco segundos e se levantou novamente. ― O Felix me deu isso.
― Felix? Felix Felix? O Lee Felix ? ― Seungmin perguntou e Minho assentiu, as mãos na cintura também sem acreditar. ― Minho... Ele é o noivo do príncipe Changbin.
― Sim! ― Minho deu o papel ao amigo e colocou as mãos no rosto. ― Dá uma lida.
― “Receba nosso cortejo simples” ― Seungmin leu em voz alta e franziu o cenho. ― “Nosso”... Minho…
― E ele só me entregou isso, Seungmin. Você acredita? ― O beta disse, se sentando novamente ao lado do amigo. Seu peito palpitava de nervoso, aquilo era meio surreal demais para o jovem beta. ― Eu não sei... Eu... Pode ser uma brincadeira, né? Vai saber, pode ser um costume de alfas.
― Eu não acho que ele faria uma brincadeira assim. ― Seungmin disse, encarando o amigo com o olhar sério. ― Minho, eu acho que você pode estar começando a ser cortejado.
― Mas eles são noivos e os dois são... Os dois são importantes demais para o reino! ― Minho quase gritou, as mãos se fechando com o tecido da camiseta. ― O que eles iriam querer comigo?
― Você só vai saber quando vocês puderem conversar. ― Seungmin olhou nos olhos do beta, preocupado. ― Você precisa falar com eles, e eles precisam se explicar, não é uma coisa normal assim dar um presente de cortejo simples quando está prestes a casar com outra pessoa.
― Semana que vem eu tenho entregas a fazer no castelo. ― Minho falou. ― Eu vou falar com um deles, mais provavelmente será o príncipe. – Depois de alguns segundos, Minho perdeu o olhar à sua frente e falou em tom nervoso. – Seungmin, eu vou falar com o príncipe.
― Sim.
― E se for uma brincadeira? – O estômago de Minho afundou. Ele se sentia tonto.
― Minho, você lembra das fofocas que rodaram pelo reino quando Felix começou a cortejar o príncipe? – Seungmin devolveu o recado ao amigo, que o encarou nos olhos.
― Sim, lembro de algumas. ― Minho respondeu confuso. ― Por que? O que isso tem a ver?
― Uma delas era que o Felix tinha dado um broche como primeiro presente de cortejo para o príncipe Changbin. ― O alfa sorriu, Minho apertou o broche na mão, que ainda envelopado na sacolinha azul. ― E se ele te deu um broche…
Minho se levantou, os olhos arregalados e as mãos na cabeça.
― Não me faça sonhar, Seungmin! Não me faça sonhar!
― E dizem que o segundo presente foi um casaco de lã tricotado pelo próprio Felix… – Seungmin falou cantando, atraindo o olhar de Minho.
― Seungmin… ― o beta choramingou, fechando os olhos, fazendo o alfa rir.
Uma semana depois…
Minho não conseguiu. Minho fugiu.
Ele não foi fazer as entregas depois que recebeu o presente de Felix. Ele não conseguia, sua cabeça não conseguia conceber a ideia de um possível cortejo, então ele convenceu seu pai a fazer as entregas seguintes. Mas no fundo, ele sabia que não poderia fugir. No fundo, Minho sabia que, uma hora ou outra, teria que falar com Felix e Changbin. Mesmo que doesse caso fosse um cortejo de brincadeira, ele precisava da verdade – que só viria com uma conversa.
Em certo dia, um dos empregados do castelo foi à casa de Minho avisar que o próprio príncipe Changbin queria frutas frescas e que o próprio Lee Minho deveria levar. Depois de muito ponderar, Minho respirou fundo e foi até a estufa, escolhendo, entre outras frutas, os melhores morangos, pois sabia que a conversa que tanto precisava era iminente. Ele arrumou tudo em sua grande cesta, se vestiu com roupas limpas, e saiu de casa confiante.
― Bom dia, Senhora Moon. ― Minho disse da porta, a empregada sorriu. ― Trouxe o que foi pedido.
― Bom dia, Minho querido! Não vi você semana passada, aconteceu alguma coisa? ― Como de costume, Senhora Moon indicou a mesa para Minho apoiar a sacola na mesa. ― Seu pai que veio fazer as entregas.
― Sim, eu não estava me sentindo bem. ― Minho disse a meia-verdade, o sorriso desconfortável. Talvez a senhora não precisasse saber o motivo real do seu “mal estar”.
― Espero que esteja melhor agora, querido. ― Sorrindo, ela tirou o pano que cobria as frutas da cesta. ― Lindos morangos! Príncipe Changbin vai adorar, irei fazer uma torta para ele.
Minho sorriu nervosamente. Olhando ao seu redor, o jovem se sentia ansioso pela presença de Changbin.
― Ah sim! O príncipe Changbin pediu para que você fosse à biblioteca. Ele quer conversar com você. Eu acho que ele quer pedir para que os morangos sejam apenas dele. ― A senhora soltou uma risadinha. ― Seoji levará você.
Engolindo em seco, Minho apenas assentiu e seguiu a outra empregada para fora da cozinha, fazendo um caminho que até então era um mistério para ele. A cozinha dava para um corredor grande que conectava ao salão de jantar, que se conectava ao salão principal através de um grande arco. O beta olhou abismado para o grande salão e as escadarias centrais, que levavam ao segundo andar do castelo. Tudo era muito bonito, o chão de mármore impecável, as flâmulas da família Seo penduradas em todas as paredes. Atravessando o salão, os dois seguiram até um corredor cheio de quadros com retratos da família, paisagens e outras obras-de-arte. A empregada bateu em uma porta à esquerda e a abriu, apontando para que Minho entrasse.
Ao entrar, Minho se impressionou novamente. Haviam fileiras recheadas de livros de todas as cores e tamanhos, mas o foco principal do recinto era uma pequena namoradeira, com um grande vitral colorido acima, que dava uma luz natural impressionante. Vendo que estava sentado no pequeno sofá, Minho respirou nervosamente.
― Minho! ― O príncipe, que estava sentado com um livro em mãos, fechou-o e sorriu ao ver o convidado. ― Como é bom ver você!
Ainda sem coragem de olhar o príncipe, Minho fez uma reverência formal, abaixando o tronco até a metade.
― Majestade.
Changbin riu, surpreso com a formalidade repentina.
― Você ficou sem vir durante a semana passada, fiquei preocupado. ― O ômega se levantou da namoradeira sorrindo. ― Venha, aproxime-se.
― Gostaria de saber para qual motivo fui chamado, majestade. ― Caminhando lentamente e com o estômago congelado, Minho disse. Ele queria acabar logo com aquela ansiedade que o consumira na semana anterior, e nada melhor do que ir direto ao assunto.
― Ah claro, que cabeça a minha! ― o ômega riu alto. Minho não quis admitir, mas queria sorrir junto com Changbin. Ele adorava ver o ômega rindo descontraído. ― Eu queria conversar com você.
― Comigo? ― Minho perguntou, o tom de voz trêmulo. ― É sobre as frutas? Tem algo errado com a qualidade delas, meu príncipe?
― Não é sobre as frutas. ― Changbin disse, ainda sorrindo. ― Queria falar sobre o broche que Felix deu a você.
― O broche?
― Sim, você gostou? ― Changbin virou a cabeça para o lado, sorrindo fofo. Minho sentiu seu coração derreter, mas ele precisava ser firme. O ômega começou a andar, gesticulando com as mãos enquanto falava animado, enquanto Minho estava fincado no chão, com as mãos ao lado do corpo. ― Eu escolhi ele junto com o Felix, pensamos que seria ótimo p-
― Príncipe. – Minho falou baixo, não querendo ser muito rude ao tentar interromper a fala do ômega.
― Porque você sabe, é algo muit-
― Príncipe.
― Muito importante para nós dois porque foi o nosso primeiro presente e eu a-
― Changbin, por favor. ― O beta o chamou pelo seu nome apenas, finalmente chamando a atenção do ômega, que parou de andar e sorriu, meio confuso. ― O que isso significa de verdade?
― Como assim?
― O broche, príncipe. O bilhete dizia que era um cortejo simples. ― Minho apertou as próprias mãos, que estavam geladas de nervoso. ― O que significa?
― Que queremos cortejar você. ― Changbin disse, abrindo ainda mais o sorriso, os olhos virando meia-luas. Minho sentiu a respiração cortando. Aquele sorriso era golpe baixo. ― Não ficou óbvio?
Minho piscou rapidamente algumas vezes. Ele precisava focar na pergunta que o consumia terrivelmente.
― Mas… por que eu?
Changbin virou o rosto, um pouco confuso, mas ainda com o sorriso preso no rosto.
― Por que não você? ― Rebateu. ― Minho, serei sincero com você, assim como sou com muitas coisas na minha vida, ou poucas, dependendo do ponto de vista. ― Changbin deu de ombros e Minho quis rir da pequena revelação. ― Eu estou olhando para você há meses. Não só eu, como também o Felix. Pensamos em tentar nos aproximar, mas sempre que tentávamos, algo externo acontecia e perdíamos a coragem, principalmente eu. ― Changbin suspirou, colocando a mão no coração. ― Mas agora decidimos tentar pra valer! Queremos conversar com você e perguntar se você nos permite te cortejar, e se você também quer isso.
Minho só percebeu que tinha parado de respirar quando deu a primeira respiração depois de longos segundos. As mãos tremiam levemente ao lado do corpo, então ele decidiu colocá-las no bolso. A verdade era doce na boca, saber que Changbin e Felix tinha intenções bonitas era muito bom, mas ele precisava manter os pés no chão.
― Não nos conhecemos, príncipe. – Minho falou, o tom de voz baixo.
― Você pode me chamar pelo nome, estamos sozinhos.
― Não nos conhecemos… Changbin. ― O beta repetiu. ― Por que você, um príncipe, quer me cortejar, um plebeu simples, sem muita coisa a oferecer? Isso não faz sentido, eu não sou incrível ou “fora da curva” para que esse cortejo seja validado de uma forma boa. As pessoas vão ver como algo estúpido.
Changbin suspirou.
― Honestamente falando, eu nunca liguei para o que as pessoas vão pensar, e não vai ser agora que vou fazer isso. ― Changbin disse sério, encarando os belos olhos castanhos de Minho. ― Eu me orgulho muito de ser como sou, de não abaixar a minha cabeça mesmo que fiquem fazendo piadas ou querendo ditar como eu devo agir por ser ômega. Então isso não de “o que as pessoas vão achar ou como vão ver”, não me faz nem cócegas, quem dirá me irritar. ― Minho apenas ficou encarando o ômega, o olhar admirado pelo tom corajoso do outro. ― Eu realmente gosto de você. O Felix também. Nós dois queremos conhecê-lo cada vez mais. E você quem decide se aceita o cortejo.
Minho se sentia atordoado pela quantidade de informações.
― Eu só... Eu só não sei. ― Minho suspirou, abaixando o rosto. Changbin assentiu com a cabeça, compreensivo. ― É um pouco confuso tudo o que está acontecendo. Sendo muito honesto, nada faz sentido na minha cabeça.
― Eu e Felix vamos começar com um cortejo simples, que tal? Caso você não se sinta confortável ou não queira, iremos parar antes de iniciar o cortejo sério e oficial. ― Changbin se aproximou de Minho, o olhar cheio de afeto. ― Posso? ― Apontou para as mãos do beta, escondida nos bolsos. Minho assentiu, as expondo e deixando que o ômega as segurasse. O toque era suave, o coração de Minho se acalmou um pouco. ― Eu gosto de você, Felix gosta de você, e queremos mostrar isso, queremos conhecer mais de você além das aparências.
― É isso que não encaixa, Changbin. – Minho riu, incrédulo, abaixando o rosto novamente. – Como vocês gostam de mim, sendo que não me conhecem? Pouco conversamos, pouco trocamos palavras quando venho trazer frutas…
Sentindo as palmas das mãos do beta, Changbin não pode deixar de sorrir com a fala do outro. Seu coração palpitava nervoso no peito.
― Eu não sei explicar… Desde o nosso primeiro encontro, só em olhar você, ouvir sua voz, quando vejo você sorrir… Tudo isso me deixa muito feliz. ― O ômega disse, o tom de voz quase cantado como se fosse uma doce canção nos lábios. ― Eu sinto algo por você, e Felix também sente o mesmo… É como se de alguma maneira você nos completasse. – Ele segurou o rosto de Minho carinhosamente, trazendo o olhar do beta para si. – Mesmo que não sejamos tão próximos, eu sinto isso e eu quero tentar, se você quiser também.
As borboletas no estômago do beta se agitaram.
― Cortejo simples? ― Minho mordeu o lábio. O jovem ômega na sua frente sorriu.
― Até você aceitar nossos sentimentos, sim. Então poderemos passar para o cortejo oficial, anunciando a todos que estamos te cortejando. ― Changbin soltou o rosto de Minho e voltou a segurar a outra mão dele. ― Conversaremos com a sua família, faremos tudo certinho.
― Tudo bem então. Cortejo simples.
― Certo então! ― Changbin soltou as mãos do beta e foi até a mesinha pegando uma caixinha, Minho só notando ela naquele momento. ― Para você.
― Eu n-
― Ta tudo bem. É outro presente e eu espero que você goste. Eu e Felix escolhemos juntos. ― O ômega sorriu afetuoso, entregando a pequena caixa de madeira polida nas mãos de Minho. ― Felix queria estar aqui e participar da nossa conversa, mas ele teve reuniões para participar hoje.
― Tudo bem. ― Minho sentiu as bochechas corarem, e abriu a caixinha. Era uma pulseira feita de fitas entrelaçadas. ― Que linda!
― Felix fez para você. ― Changbin disse sorrindo. ― Ele me deu uma também no nosso cortejo, acho linda. Eu já não uso muito por causa das regras de príncipe e de como me portar, mas guardo ela com muito carinho.
― Ela é muito bonita, agradeça a ele por mim. ― Minho sorriu pequeno, sentindo o coração apertar. A peça era delicada com as mãos de Felix, ele pensou. ― Eu preciso ir, príncipe.
― Changbin. – O ômega falou. Minho piscou rapidamente, confuso. Changbin riu. ― Me chame assim quando estivermos sozinhos.
― Tudo bem… Changbin.
Minho saiu devagar da sala, sorrindo escondido, segurando a caixinha em uma das mãos. A outra, colocou no peito tentando de alguma maneira controlar seu coração e sentindo como ele batia tão rápido. E para piorar, Minho sentiu pela primeira vez o cheiro de Changbin.
Ele cheirava como sua fruta favorita.
Morangos.
Duas semanas depois.
Minho estava vivendo o que ele nunca poderia imaginar. Todos os dias ele se encontrava com pelo menos um dos dois, de acordo com a agenda que Changbin ou Felix tinha. O jovem beta recebia muitos presentes, alguns até feitos à mão pelo casal, enquanto conversavam o quanto podiam no curto tempo que tinham – considerando que ainda não era um cortejo oficial.
Minho descobriu que Felix gostava de cozinhar e pintar quadros nas horas vagas. Descobriu que Changbin adorava lutar e que também era muito bom na escrita, sempre que podendo incluindo poemas e pequenos textos nos presentes do cortejo – quando Minho ganhou seu primeiro poema, chorou como um bebê nas pernas de Seungmin.
Ele também descobriu que Felix tinha uma boa relação com seus pais e que eles já sabiam do cortejo simples, apoiando o possível relacionamento. Já do lado de Changbin isso não iria acontecer tão cedo. Minho ouviu o ômega reclamar algumas vezes do quão controlador seu pai era e que ele não sabia como iria falar do cortejo, mas que ele daria um jeito.
Minho estava com medo de que seu cortejo poderia afetar ainda mais a relação de Changbin com o rei, mas ele também não queria iria se meter – nem saberia como – porque ele estava vivendo o que ele queria. O jovem estava sendo cortejado pelas duas pessoas que ele admirava e tinha sentimento reais e bonito, e ele não estragaria tudo que estava vivendo por uma birra do rei. Ele confiava que Changbin conseguiria bater de frente com o pai, porque ele era forte o bastante para isso, assim como confiava em Felix e na força que ele dava para o ômega.
Nessas duas semanas o beta havia ganhado tantos presentes que até se questionou se o casal não estava o confundido com um ômega. Durante um dos encontros, dessa vez nos campos de morangos da família de Minho, após receber mais um presente, ele franziu o cenho, encarando o chão.
― O que foi? ― Felix perguntou, observando a linguagem corporal do beta. ― Você ficou calado.
― Não gostou das flores? ― Changbin perguntou, preocupado.
― Gostei, é só que... Essa semana vocês já me deram ursos de pelúcia, colares e alguns anéis… ― o beta disse, encarando seus pretendentes. ― É muito presente para um cortejo simples. Não é mais comum que ômegas ganhem muito assim?
― Estamos cortejando você como nos cortejamos. ― Felix disse, sorrindo. Acariciou as mãos de Minho, que ainda segurava o buquê de lírios. ― Se algum presente te incomoda você pode dizer, ok? Não pense que vamos tratar você como pessoas comuns, ou que nos importamos como dizem que devemos tratar os betas.
― Hoje foi flores, amanhã será outro presente. ― Changbin sorriu. ― Cortejo não segue uma regra, podemos dar qualquer presente a você e quantos queremos. As pessoas que insistem em dizer que betas deveriam ganhar poucos, mas isso não nos impede de dar quantos presentes quisermos a você, você merece muitos deles.
― Então você ganhou esses presentes do Felix também? ― Minho encarou o ômega, internamente curioso para saber se o que tinha escutado de boatos era verdade.
― Na verdade alguns sim. Ganhei outros tipos de presente que você só vai ganhar no cortejo oficial, é claro. ― Changbin se aproximou do beta, colocando a mão junto com a de Felix. ― Se você quiser, é claro.
― Eu tenho pensado muito sobre isso. ― Disse Minho, sendo sincero. ― Conhecer vocês está sendo algo muito incrível, e eu não posso mentir e dizer que não imaginava que seria bom. Eu sempre quis ter um pé no chão, é claro, eu não queria sonhar muito com isso porque na minha cabeça parecia algo inimaginável.
―Você me perguntou algumas semanas atrás o motivo de eu e Felix querermos te cortejar. É porque gostamos de você. ― Changbin tocou na bochecha do beta, fazendo um carinho. ― Acho que posso falar que é um amor à primeira vista. Mesmo que eu ame muito o Felix, olhar você faz meu coração bater mais rápido e me faz ficar bobo vendo você sorrir, desde que eu te vi eu acho que me apaixonei.
― O mesmo pode ter acontecido comigo, sabe? ― Felix também se aproximou e tocou na outra bochecha do beta. Minho sentia seu estômago cheio de borboletas agitadas, emocionado pelos toques físicos dos dois. ― Quando Changbin começou a falar de você, eu pensei se deveria sentir ciúme ou inveja, porque era o meu ômega elogiando um beta que eu nem conhecia, até que ele me mostrou você... Foi como se explodisse algo no meu peito e tudo se realizou. E cá entre nós, eu comecei a ir ver mais o Changbin pela manhã para ver se conseguia observar você entregando as frutas.
― Isso explica porque você aparecia na cozinha. ― Minho apontou e Felix riu. ― Eu não entendia porque você estava lá, você nem mora lá! Mas sempre pensei que fosse porque você estava cortejando o príncipe, então nem dei muita bola.
Os três riram juntos.
― Faremos o pedido de cortejo oficial nas próximas semanas. ― Felix disse e Minho assentiu, se sentindo mais leve e feliz pelo momento. ― Você tem todo o direito de negar, a sua decisão é a que vale.
― Gostamos de você e queremos demonstrar ainda mais, mas você quem decide isso. ― Changbin se inclinou e beijou a testa do beta. ― Vejo você amanhã quando for entregar as frutas, ok? Não esqueça meus morangos!
― Você já não quer levar hoje? ― Minho perguntou, um sorriso ladino nos lábios. ― Me poupa trabalho.
― Não, porque eu quero te ver amanhã. – Changbin devolveu o sorriso.
― Mas eu não quero ir lá amanhã ― O beta fez bico, franzindo o cenho.
― Mas você vai. ― Changbin cruzou os braços. ― Quero você amanhã lá com os meus morangos.
― Iiih… Ele está falando como príncipe agora. ― Sorrindo com o diálogo dos dois, Felix beijou a testa de Minho. ― Ele tem disso às vezes, quando ele é contrariado age assim e cruza os braços. Um milagre ele não ter soltado um “mas eu estou mandando”.
Minho não resistiu e soltou uma risada.
― Você é um ômega mimado, Changbin?
― Não sou mimado! ― O ômega bateu o pé, fazendo o alfa do trio rir ― Lix!
― Ele tem disso às vezes. ― O alfa repetiu e Minho continuou rindo, quebrando a pose de Changbin, que também soltou um sorrisinho.
O casal se despediu do beta e saíram, indo para o carro que estava na estrada de terra. Minho foi para o outro lado, caminhando para casa e se surpreendeu ao ver Seungmin na frente de casa conversando com Hyunjin. Não era comum Hyunjin ir até sua casa, seja acompanhando o namorado ou não.
― Dois alfas na casa de um beta? ― Minho brincou, chamando a atenção dos amigos. ― Os vizinhos vão fazer fofoca sobre mim.
― Você, um pobre beta. ― Seungmin disse rindo. ― Ganhou flores?
― Sim. ― Minho corou, encarando o buquê de flores brancas na mão. ― Você estava certo, ser cortejado é muito bom e divertido, mesmo que eu esteja apenas recebendo presentes e não devolvendo nenhum.
― Você está sendo cortejado, Minho? ― Hyunjin perguntou.
― Sim! Achei que o Seungmin tinha te contado. ― olhou para o amigo alfa, que deu de ombros.
― Não contei porque você não me disse se eu poderia ou não. Eu não iria espalhar as coisas assim, você é meu melhor amigo. ― Seungmin disse e Minho sorriu, apertando o braço do amigo amigavelmente. ― Hyunjin pode ser meu noivo, mas eu respeito nossa amizade.
― Eu acho o namoro de vo- O que?! ― Minho arregalou os olhos, Seungmin riu com Hyunjin ― Noivo?!
― Eu disse que ele iria me pedir em casamento, não disse? – Seungmin disse, sorrindo convencido. Hyunjin rolou os olhos.
― Você caçou um cervo? ― Minho perguntou a Hyunjin.
― Sim, e deixei bem na porta dele. Quando os pais dele viram pela manhã, eu fui chamado para conversar e já pedi o Seungmin em casamento. ― Hyunjin contou, abraçando o outro alfa com um dos braços. O rosto de Seungmin esquentou, deixando as bochechas vermelhas. ― Iremos casar depois do casamento do príncipe.
― Ah… ― O sorriso de Minho se apagou um pouco, pensando nas informações que tinha sobre o casamento. ― É melhor mesmo, espera passar toda a festividade do casamento dele né?
― Sim.
― Você ficou triste… ― Seungmin comentou, tocando levemente o braço do amigo. ― É por causa da menção ao casamento?
Minho assentiu, olhando novamente para as flores.
― Eles vão casar e estão me cortejando, como isso vai funcionar no fim? ― Suspirou.
― Espera ai. O príncipe e do filho do conselheiro real estão te cortejando? ― Hyunjin perguntou chocado, e bateu no braço de Seungmin. ― E você não me contou porque?
Minho riu quando Seungmin começou a choramingar pedidos de desculpa ao noivo. Mas algo se fixou na cabeça do beta, Changbin e Felix iriam casar, e o que aconteceria com ele? Eles iriam continuar o cortejo depois de casados? Ou ele teria que casar com eles também? Isso seria rápido demais, mais rápido do que ele imaginou. Não que ele não quisesse casar, mas só de pensar que fosse algo tão iminente o deixou preocupado.
Três dias depois.
Era mais um dia de entrega e Minho foi chamado para a biblioteca do castelo depois de deixar as frutas na cozinha. Changbin e Felix já o esperavam, o beta entrando no recinto tímido com toda a atenção nele.
― Esperamos não atrapalhar o resto do seu trabalho. ― Changbin disse quando Minho sentou no sofá. ― Mas queríamos te ver hoje.
― Está tudo bem, não tenho mais entregas hoje. ― Minho disse e sorriu para Felix, sentado na pequena mesa de café na sua frente. ― O que você faz sentado na mesa?
― Queria ficar de frente para vocês dois. ― O alfa disse, com a luz do vitral iluminando suas sardas e sorriso. ― E eu queria te dar o presente de hoje.
― Mais um? Três dias atrás eu recebi flores. – O beta falou baixinho, não querendo parecer ingrato pela atenção, mas preocupado com a quantidade de mimos que recebia.
― E? ― O alfa rebateu, fazendo Changbin rir. ― Esse fui eu quem fiz.
― E eu posso atestar, está lindo. ― Changbin disse baixinho, Minho sorriu confuso.
― Para a mais bela flor do nosso jardim. ― Felix pegou o envelope ao seu lado e entregou ao beta, que já sentia as orelhas quentes de timidez.
― Flor? ― Minho perguntou confuso abrindo o envelope ― Felix…
― Começamos a sentir seu cheiro nos últimos dias, acho que você começou a se sentir confortável conosco e então seu cheiro veio. ― Changbin disse, batendo palmas bem baixinho, mas sem conseguir esconder sua animação. ― Você cheira a flor, eu não consigo especificar qual, mas Felix disse que são lírios.
― Sim... ― O beta olhou para o papel de dentro do envelope. Era um desenho de vários lírios, o cheiro da tinta ainda presente no papel. ― Você pintou isso?
― Ontem de manhã ― Felix disse, o sorriso no rosto. ― Você gostou?
― Sim, muito! ― Minho sorriu e olhou para o alfa, emocionado com o presente. ― É lindo... E é a primeira vez que alguém sente meu cheiro sem eu dizer nada… Muitos não sentem por eu ser beta, mas… – Ele pegou o desenho e segurou no peito, o sorriso congelado no rosto. – É lindo, Felix, muito obrigado.
― De nada ― O alfa sorriu, fazendo um carinho rápido no joelho do beta.
― Ele fez um para você também? ― Minho perguntou a Changbin.
― Sim, uma cesta de morangos. ― O ômega contou, fazendo Minho rir. ― Eu acho que combinou um pouquinho.
― Combinou muito. ― O alfa falou, orgulhoso do presente.
― É engraçado como vocês me cortejam como se cortejaram. ― Minho comentou. ― E eu não acho estranho ou ruim… Na verdade eu gosto muito disso, me faz sentir como se fossemos mais próximos.
― E não somos? ― Changbin sorriu, apoiando uma das mãos na perna de Minho.
― Ainda não muito… ― O beta falou baixinho. ― Eu quero saber uma coisa, eu não sei se vocês vão responder mas... Como vocês decidiram casar? Por que?
― Não foi somente porque queríamos. ― Changbin respondeu. ― Eu sou príncipe e ainda um príncipe ômega. Tem muita coisa em relação ao reino que eu carrego como responsabilidade e aparências. O que as pessoas vão achar, mesmo que eu não ligue, em alguns momentos eu não posso agir como eu quero… Faço isso boa parte do tempo, mas em alguns momentos não tem como.
― Estamos com o casamento marcado porque queremos, mas também por outros dois motivos: o primeiro é que Changbin como príncipe precisa casar para não ser mal falado, e também porque, ele se casando, o pai dele não tem mais muito poder sobre ele. ― Felix explicou. ― A ideia é morarmos em uma das casas que minha família possui e não mais aqui. Esperamos casar depois do Chan assumir o trono.
― Mas o casamento de vocês não está marcado para os próximos meses? ― O beta perguntou. Ainda não era certo quando o mais velho iria assumir o trono, apenas se estimava que aconteceria a médio-longo prazo.
― Vamos continuar empurrando mais pra frente para que possamos cortejar você com calma. ― Changbin disse. ― Queremos cortejar você e aproveitar isso. Se você nos aceitar, quem sabe depois do cortejo, também pode nos aceitar como noivos.
Minho engoliu em seco. A expectativa de um casamento com duas pessoas que ele tanto admirava era incrível, mas ele não podia se deixar sonhar demais.
― Changbin. ― Felix repreendeu, talvez sentindo a apreensão de Minho. ― Não vamos jogar as coisas assim pra ele, temos que ir com calma.
― Eu estou indo com calma. ― O ômega sorriu e olhou para Minho ― Vamos esperar você, não vamos nos casar agora.
― Isso não vai ser ruim para o reino? – Minho falou preocupado.
― Não, o foco vai ser no Chan se tornar rei nos próximos meses. Meu casamento vai ficar de lado ― Changbin respondeu. ― E quando o Chan for rei as coisas vão melhorar, muita coisa vai mudar.
― Seu irmão é uma boa escolha para ser rei, principalmente para as pessoas que querem ter relacionamentos não-tradicionais. ― Minho comentou. ― Ainda tem gente cabeça-dura que não aceitam alfas com alfas ou ômegas com ômegas.
― Sim, eu tenho muito orgulho do Chan. Ele é apaixonado por um casal de alfas, por que você acha que ele é aberto sobre esse assunto? ― Changbin riu quando Minho arregalou os olhos. ― Eu acho que você já deve ter ouvido falar deles, Han Jisung e Yang Jeongin.
― Jisung, o dono da loja de joias e que toca violão? ― Minho piscou rapidamente, chocado. ― E Jeongin da loja de flores?
― O relacionamento deles não é falado? ― Felix perguntou confuso.
― Não… Digo, eu nunca ouvi falar. ― O beta respondeu. ― Não é comum que alfas falem abertamente sobre isso, só com pessoas próximas. Meu melhor amigo é alfa e ele está noivo de outro alfa, mas nem todos sabem, só a família e amigos próximos. Eles querem casar depois que você e Changbin casarem.
― É uma pena, vai demorar. ― Changbin disse, Felix balançou a cabeça, rindo da cara de pau do ômega. ― Mas é por uma boa causa, prometo. E melhor ainda, eles vão casar depois do Chan ser rei, isso vai ser ótimo para eles.
Minho assentiu, pensando nos amigos com muito carinho. Ele sabia que Seungmin entenderia a situação.
― Como é sua relação com seu irmão? ― Minho perguntou. ― É a primeira vez que fala dele.
― Chan é o melhor alfa de todos. Ele é uma pessoa incrível e eu o amo muito, crescemos um pouco separados em alguns pontos por eu ser ômega e ele alfa, mas ele nunca me tratou diferente ou tentou me colocar em uma “caixinha”. ― Changbin disse, sorrindo ao lembrar do irmão. ― Ele sempre me deixou ser como eu queria ser, ele me protege, ele é o melhor.
― Eu sempre admirei você, sabia? ― Minho disse para o ômega, o peito inflando de bons sentimentos. ― Você não é igual aos outros ômegas que seguem aquela cartilha de como agir e falar, você sempre foi mais espontâneo, forte e com um riso alto. Isso me deixa completamente admirado porque eu nunca vi alguém assim, alguém que não abaixasse a cabeça quando os outros falavam. Você é um ômega diferente e eu acho que isso me fez ficar apaixonado por você. ― Mordeu o lábio e olhou para Felix. ― E ver você sempre do lado do Changbin… Não como um alfa que chama atenção ou repreende ele, me chamou muito a atenção, principalmente a maneira que você sempre o tratou como igual e não como uma “florzinha” que não pode ser tocada... Eu não sei como, mas também me apaixonei por você e pelo pouco que te vi ao lado do Changbin.
― Esse é o momento onde eu pergunto se você aceita o cortejo oficial? ― Felix perguntou, o sorriso preso nos lábios depois da fala de Minho.
― Eu acho que sim. ― Os três riram.
― Então você aceita o nosso cortejo oficial, Lee Minho? ― O alfa perguntou, segurando a mão do beta à sua frente.
― Aceito. ― Minho falou confiante, assentindo com a cabeça ― Eu aceito ser cortejado.
Depois de finalmente decidirem sobre o cortejo oficial, Felix foi para casa se preparar para no dia seguinte ir com Changbin até a casa dos pais de Minho pedir a benção deles para o cortejo. Eles queriam fazer tudo como manda a tradição de cortejo oficial. Enquanto Felix tinha que se preparar apenas para o dia seguinte, Changbin estava se preparando para falar com seu pai.
Chan pediu para ir com ele na reunião privada e se propôs a ajudar o irmão nas palavras, mas Changbin não queria seu irmão metido nisso. A presença e defesa de Chan soaria como “todo ômega precisa de um alfa para se defender”, e isso seria o exato oposto que Changbin precisava.
― Você pediu uma reunião privada. ― Sentado em sua grande cadeira no escritório oficial, o rei Bogum disse encarando Changbin. Seu tom de voz era duro. ― E agora está parado em minha frente calado. Primeiro que você nem deveria estar aqui, ômegas n-
― Eu vim apenas avisar que Felix e eu estamos cortejando uma pessoa. Quero deixar claro que, como um casal, concordamos com o atrasad do nosso casamento por mais alguns meses por causa do cortejo que estamos fazendo. ― Changbin disse sério, com o rosto bem erguido olhando para o pai. ― Esperamos nos casar depois da coroação do meu irmão.
O mais velho franziu o cenho.
― Que loucura é essa? Desde quando você acha que decide alguma coisa, Seo Changbin? ― O alfa bateu as mãos na mesa ficando de pé, o som estrondando pela sala. Changbin engoliu em seco e fechou as mãos ao lado do corpo para não demonstrar medo. ― Você é um ômega , o príncipe ômega . Você precisa casar antes da coroação. Se eu deixei Felix te cortejar foi com o propósito desse casamento acontecer o mais cedo possível, você precisa casar antes.
― A decisão do casamento não vale ao senhor, quem decide isso sou eu e meu noivo. ― Changbin respondeu firmemente. ― Decidimos atrasar o casamento e assim o faremos.
― Seu alfa vai trocar você, não é? Essa outra pessoa, deve ser outro ômega que vai dar a ele o que você não dá. ― Bogum sorriu maliciosamente, tentando quebrar a postura do filho. ― Vai dar a delicadeza, a voz mansa, a suavidade de um ômega ideal, e não isso . ― Apontou para o filho. ― Isso que você faz não é o que um ômega deve ser. Essa pessoa que ele escolheu para cortejar deve ser quem ele realmente quer e ele está te enganando, querendo apenas o status de se casar com a realeza. ― Seo Bogum riu, balançando a cabeça incrédulo. ― Eu sabia que você iria ser tratado como um lixo já que você não se dá a porra do respeito.
Changbin sentia as mãos tremendo de nervoso. Ele podia sentir as lágrimas lutando para sair, mas ele não daria esse prazer ao seu pai.
― Eu não me dou o respeito? Eu ? ― Changbin riu, segurando a vontade de chorar. ― O que seria não se dar o respeito, senhor meu rei? Seria ser um ômega sério e firme na sua palavra? Seria ser um ômega que age como sempre quis agir? Isso é não se dar o respeito? Respeito para o senhor é abaixar a cabeça quando um alfa fala?
― Se dar o respeito é ser um ômega de verdade, coisa que você não é desde que nasceu ― O alfa praticamente cuspiu as palavras e Changbin sentiu como um soco no rosto, mas não permitiu que sua postura se abalasse. ― Maldita hora que você nasceu.
― Eu não pedi pra nascer. Quem engravidou minha mãe foi você , então a culpa é sua . ― Changbin se aproximou da mesa, a passos firmes. ― Os seus genes ruins me fizeram vir um ômega. Você não conseguiu outro alfa, papai, você teve um ômega, e você vai morrer sendo pai de um ômega. Eu posso ser tudo diferente do que você sempre quis que eu fosse, mas eu tenho muito orgulho de ser um ômega. Eu não sou delicado, eu não tenho a voz mansa, eu não sou quieto, mas isso não me impede de nada, isso só me faz ser quem eu sou. Sou uma pessoa boa, uma pessoa firme e forte, meu status não me dita como pessoa.
Bogum riu de escárnio.
― Você só fala besteira, você deveria se envergonhar de estar servindo de isca pro seu alfa. Você vai ser o segundo no seu próprio casamento, Changbin.
― Não que você precise saber, mas quem escolheu cortejar uma nova pessoa fui eu, e esse alguém é um beta. ― Changbin sorriu, e o alfa perdeu o sorriso do rosto. ― Felix quis também e por isso vamos continuar. Mas não que isso tudo importe pra você, eu já falei até demais. Vim avisar sobre o cortejo, essa pessoa terá acesso ao palácio quando eu quiser, e eu poderei avisar formalmente a todos que estamos o cortejando.
― Nem por cima do meu cadáver. ― Disse Bogum, o olhar duro mirando o fundo da alma de Changbin. O mais novo cerrou o olhar, desafiando-o.
― Não precisa ser por cima, papai. Pode ser depois de jogá-lo em uma vala. ― Changbin rebateu e o alfa abriu a boca surpreso. ― Por que está chocado? Não é assim que você me trata? Pois eu vou tratar do mesmo jeito. Eu cansei de não ser tratado com respeito. Eu sou seu filho, eu deveria ter o mínimo de cuidado e atenção, o mínimo abraço, carinho ou palavras bonitas ou quem sabe um “você é um bom filho”, mas eu nunca recebi isso e sei que nunca vou receber. Porque eu sou um ômega que não abaixa a cabeça nem para o senhor, meu rei.
― Changbin, você tem coisas a seguir como príncipe, você n-
― Eu sei que tenho, e eu estou seguindo, porque eu respeito esse reino. Eu vou me casar, mas não vai ser agora. ― Disse Changbin firmemente. ― Mas nada disseram sobre um cortejo, ninguém disse que eu não posso amar outra pessoa e deixar ela se juntar a mim e meu noivo, então eu não estou indo contra nenhuma regra.
― Eu não permito que o cortejo seja dito publicamente.
― O senhor não pode mandar nisso. Isso não é uma escolha sua. ― Rebateu.
O rei suspirou fundo.
― Quem é? Se for alguém importante podemos ver, eu posso pensar com calma.
― Ele é importante, mas não como o senhor quer que seja. ― O ômega disse, dando de ombros. ― Era só isso, meu rei. Essa reunião não precisa de alongar mais.
Novamente o rei bateu na mesa, exigindo a atenção do filho.
― Changbin, você não vai manchar a minha honra assim!
― O que sua honra tem a ver comigo, pai? ― O mais novo riu. ― Eu não tenho nada a ver, você é você, eu sou eu. E sinceramente? Estou cansado de querer te agradar e não receber uma migalha de carinho de volta. O que você disse hoje cortou tudo que eu ainda pensava em tentar amarrar. ― Changbin respirou fundo, relaxando a postura. ― Maldita hora que eu nasci, não é? Maldita hora que eu nasci ômega, na verdade, porque não te incomoda eu ser seu filho Changbin. O que te incomoda é eu ser ômega. Mas o senhor vai morrer sendo meu pai e eu vou continuar sendo um ômega.
Changbin fez um curto cumprimento e se virou para ir embora.
― Seo Changbin! ― O rei gritou. ― Se você sair agora, eu não respondo pelos meus atos!
Changbin se virou, o rosto sério.
― Se o senhor fizer algo contra mim, ao meu noivo ou ao meu futuro companheiro, saiba que você não vai perder só um filho, mas também perderá o outro. ― Olhou para o pai, que abriu os olhos espantado. ― Porque meu irmão nunca vai me deixar de lado, assim como eu nunca irei deixá-lo. Não porque eu sou um ômega e ele um alfa, Bogum, mas sim porque somos irmãos e nós sempre estaremos juntos. Pense bem, você quer perder o seu futuro rei? Isso vai ser um grande choque no reino.
Sem se importar com o que seu pai faria, Changbin abriu a porta e saiu do escritório, o corpo rígido pela tensão que sentia. O ômega saiu correndo para o quarto de Chan, que, assim que viu o irmão, soltou a toalha que secava seus cabelos e abraçou o mais novo.
― Ei querido, calma. ― Chan o embalou nos braços, sentindo a respiração entrecortada de Changbin em seu pescoço. ― Calma, tá tudo bem, estou com você.
― Seja rei, por favor, seja rei. – Changbin sentia seu peito apertado, as lágrimas tentando lavar a alma tão machucada.
― Eu vou. Eu vou ser rei, e você vai estar ao meu lado. ― Chan segurou o rosto do irmão, enxugando as lágrimas com o polegar. ― Meu segundo no comando.
― Você vai ter um ômega como segundo comando? ― Changbin fungou, o olhar embaçado tentando mirar no rosto empático do mais velho. ― Não pode.
― Pode sim, eu que vou fazer as regras. ― Chan beijou a testa do ômega, dando um segundo abraço forte nele. ― Se foque agora no seu cortejo, não ligue para o papai. Ele não pode nem vai fazer nada, você sabe disso. Ele fala e fala, mas ele não faz porque ele tem medo.
― Ele amaldiçoou o dia que eu nasci, Chan.
― E eu amaldiçoo o dia que ele nasceu.
― Chan! ― Changbin disse sério. O irmão soltou uma leve risada.
― Você quer dormir comigo hoje igual fazíamos antigamente? ― Chan puxou o irmão para o irmão, indo buscar no armário roupas confortáveis para os dois.
― Sim. ― Changbin limpou o rosto, acalentado pelo carinho do irmão. ― Eu fico com o lado esquerdo.
― Por que?
― Porque eu gosto.
― Mas é a minha cama! ― Chan disse, colocando as mãos na cintura, e Changbin riu. ― Quando você estiver com seus noivos, eu espero que um deles goste de dormir do lado esquerdo e você perca seu lugar.
― O Minho vai dormir no meio ― Changbin disse rindo.
― Como você sabe?
― Eu só sei.
Um mês depois.
Quando o príncipe foi até a casa de Minho oficializar o cortejo, a reação de seus pais foi bem positiva, apesar da expressão séria que eles tiveram com Changbin e Felix. Eles se preocuparam bastante porque Minho era filho único e os dois outros rapazes estavam de casamento marcado, e isso poderia não ser bem visto pelas pessoas do reino, mas Felix explicou tudo detalhadamente sobre eles e como eles iriam conduzir o cortejo e depois o casamento. Os pais de Minho permitiram o cortejo e deram a benção para fosse oficializado, e para Minho aquilo era o suficiente, mas não. Changbin era um príncipe, então aquela informação teria que ser passada a todo o povo de Sunir.
Ver as pessoas falando sobre o cortejo deixou Minho um pouco apreensivo, não pela situação em si, mas em relação a como as pessoas poderiam vê-lo. Mas, por incrível que pareça, elas estavam sendo muito positivas, Changbin era adorado pelo reino e Felix era considerado um homem sério e de responsabilidade, então as pessoas verem o casal cortejando alguém algo positivo e bonito de se ver. Mas para além disso, o foco das pessoas estava mais na coroação de Chan, que viria nos próximos cinco meses.
Desde que iniciaram o cortejo oficial, Minho estava percebendo algumas mudanças no jeito de Changbin em relação ao pai. O jovem beta preferia não tocar no assunto porque sabia que o assunto mexia muito com o ômega, e, como Felix disse que estava tudo bem, ele preferiu ignorar por um tempo. Mas depois de muito observar – e de se preocupar, Minho perguntou a Felix se algo tinha acontecido.
― A conversa que Changbin teve com o pai foi algo muito íntimo e, cá entre nós, ele não gosta de lembrar. ― Felix disse, os dois estavam sentados no chão do campo de morangos, fazendo um pequeno lanche numa tarde de sol. ― Nem eu sei o que foi falado, o único que sabe sobre tudo é Chan.
― Mas você sabe como ele se sente? ― Minho sentia o coração apertado só de pensar em como Changbin poderia estar se sentindo, sem querer dividir o fardo com seus companheiros.
― Ele está bem, ele só me disse que falou coisas que precisava falar e que se sente mais leve. ― Felix pegou na mão do beta. ― Eles nunca vão ter uma relação boa, não porque Changbin não quer, mas porque o rei vê ômegas de um jeito antiquado e ele sempre quis que o filho fosse daquela forma.
― Mas ele não é como os outros ômegas, ele é perfeito do jeito que é. ― Minho suspirou, fazendo carinho nas mãos delicadas do alfa.
― Sim, mas infelizmente o pai dele não o vê da forma que nós o vemos. ― Felix suspirou e levou a mão do beta até a boca, deixando um beijo carinhoso nas costas da mão. ― Você gostou do seu presente de hoje?
― Você me trouxe carne, como eu poderia não gostar? ― Minho riu, tímido. ― Esse lado de cortejo oficial é um pouco demais.
― O cortejo simples é onde te damos presentes simples. O cortejo oficial é onde te damos presentes e coisas que vão demonstrar se seremos ou não bons companheiros, se iremos te suprir em diferentes situações… ― O alfa explicou. ― E eu ainda quero te dar a pele de um animal.
― Você também deu ao Changbin? – Minho perguntou curioso.
― Sim ― Felix sorriu, lembrando do presente para o ômega. ― Isso te incomoda? O fato de estarmos te dando as mesmas coisas ou agindo da mesma maneira que fizemos quando estávamos nos cortejando?
― Não! Eu já disse, eu não me importo ou me incomodo, na verdade eu gosto porque me sinto como parte da relação de vocês ― Ele apertou a mão do alfa carinhosamente. ― O que te fez se apaixonar pelo Changbin?
― Tudo. ― O alfa riu, contagiando o beta com seu sorriso tão leve. ― A voz, o jeito, o físico, os cabelos, o sorriso, tudo.
― É sério, Felix! ― Minho deu um tapinha no braço de Felix. ― Teve algo que fez você parar e dizer “é ele”?
― Você teve algum momento assim conosco? ― Felix cerrou os olhos, curioso pela resposta do companheiro.
― Responde você primeiro ― O beta sorriu.
― Acho que foi quando nos conhecemos, desde pequenos. ― Ainda com o sorriso preso no rosto, o alfa começou a brincar com os dedos da mão de Minho. ― Éramos adolescentes e um dia ele chegou da aula de etiqueta. Meu pai estava em reunião com o rei e eu fui com ele, e o Binnie chegou todo triste. Eu o chamei para conversar, e ele me disse que ninguém nunca iria amá-lo, porque ele não era um ômega como os outros.
― Eu odeio isso. ― Minho suspirou, se sentindo triste. ― Ele é um ômega incrível, eu não entendo o porquê das pessoas quererem ditar como os outros devem ser.
― Ninguém nunca vai entender. ― Felix disse. ― Então, nesse dia ele estava muito triste e eu fiquei olhando para o rosto dele e tudo que passava na minha cabeça era o quão perfeito ele era, o quanto eu poderia ser um alfa forte e bom pra ele. Para fazê-lo feliz e ajudá-lo a mostrar ao mundo o quão maravilhoso ele é, mas eu não faria isso como um alfa que mandaria nele, mas como um alfa que estaria ao lado dele para tudo. Foi ali, naquele momento, aos quinze anos, que eu disse a mim mesmo “é ele”. E realmente é ele.
― Vocês são tão lindos ― Minho sorriu, feliz de ver como o sentimento de Felix era real. ― É tão perfeito o relacionamento que vocês construíram, o quanto vocês são amigos além de tudo.
― Depois dele, eu olhei pra você, você entrando na cozinha do palácio com aquela cesta de morangos só para o Changbin, o sorriso pequeno e o olhar no chão, e foi quando você disse “Bom dia, senhor Felix”, que meu coração bateu desenfreado. ― O alfa disse rindo, Minho encostou a testa no ombro do alfa para escutar a história, se sentindo um bobo apaixonado. ― Changbin já falava muito de você, era sempre “Lix, tem um camponês que traz frutas toda a semana aqui, e ele é lindo! A voz dele é linda, o sorriso dele, tudo nele é lindo, como pode?!”, e eu pensava “eu deveria ficar com ciúmes!”. Mas quando eu te vi, eu só pensei “ele realmente é lindo”.
― Vocês se apaixonaram pela minha beleza? ― Minho beijou o ombro do alfa, rindo baixinho. ― E se eu fosse uma pessoa péssima?
― Você? Uma pessoa péssima? Não, nunca. ― Felix sorriu. ― Agora, eu quero a sua resposta. Quando você pensou “são eles”?
― Ai, ta bom. ― O beta riu. ― Então, primeiro foi com Changbin. Quando eu o conheci, já fiquei perdidinho. Ele me tratou tão bem, ele foi tão legal comigo, e eu já fiquei apaixonado, mas eu deixei isso de lado porque eu tinha dezenove anos e ele era nada menos do que um príncipe, então minhas chances era nulas.
― Foi paixão à primeira vista?
― Sim. Já com você, demorou um pouco. Eu comecei a pensar mais em você depois do cortejo simples, não vou mentir. ― Minho disse, as bochechas corando. Felix sorriu. ― Quando você me deu aquele colar, lembra? Você me olhou nos olhos e disse que aquele colar iria te fazer ficar mais próximo de mim, então eu pensei “é ele também”.
Minho saiu do apoio de Felix e olhou nos olhos de Felix, que pôs uma das mãos no rosto do beta, o sorriso iluminando o ambiente.
― Espero que eu e Changbin possamos fazer você feliz.
― Vocês já estão fazendo.
Quando Felix disse que o cortejo oficial era para mostrar que eles poderiam suprir as necessidades de Minho, ele não estava brincando. Presentes como carnes, bolos, pães, pele de animais, flores raras, lenços de pano, toalhas bordadas à mão, cadernos, livros, perfumes, e joias enchiam sua casa, seus pais tendo mais comida do que eles poderiam imaginar.
Mas o beta estava achando um pouco estranho só o casal lhe dar presentes, então ele decidiu conversar com Seungmin, que já tinha entrado na fase de noivado com Hyunjin, sendo assim ele poderia lhe ajudar em algumas coisas.
― Ok, então você finalmente está na parte divertida do cortejo! ― Seungmin agarrou a mão de Minho, levando-o até a loja de flores. ― É bom começar com flores. Mesmo que você saiba do que eles gostam, flores é sempre algo maravilhoso.
― Quantas vezes você deu flores ao Hyunjin? ― Minho perguntou sorrindo.
― Inúmeras! ― O alfa riu. ― Mas o Jinnie ama flores, então eu gostava de receber presentes e agradecer ele com flores. Outras vezes eu dava doces ou fazia pulseiras com fitinhas. Ele nunca usou, mas ele guarda todas elas em uma caixinha.
― Eu pensei em fazer um colar com algumas fitas, mas eu parei para pensar e talvez não fique tão bonito quanto eu quero.
― Presente de cortejo não precisa ser bonito, Minho. Só precisa ser feito com amor, só isso. ― Seungmin disse ao beta. ― Também não precisa ser grande ou parecer algo caro, precisa ter amor, porque ele significa que aquela pessoa merece o que você fez com tanto cuidado e carinho, sendo bonito ou não.
― Suas pulseiras ficaram horrorosas, não é? – Minho riu de lado.
― Sim, péssimas, horríveis. ― Seungmin gargalhou, acompanhado por Minho. ― O Hyunjin guarda porque me ama, mas nem uma criança usaria aquilo.
Os dois jovens chegaram na floricultura, sinalizando suas entradas com o sino da porta.
― Bom dia. ― O jovem no balcão recepcionou os amigos. Minho fez um breve aceno. ― Fiquem à vontade para conhecer e escolher as flores, qualquer coisa podem me chamar.
― Sim, claro! ― Seungmin sorriu, acenando para outro. ― Obrigado, Jeongin.
― Esse é o Jeongin? ― Minho sussurrou, lembrando da conversa onde Changbin falou sobre seu irmão Chan e seus pretendentes.
― Sim. ― O alfa respondeu, em seu tom de voz normal. ― Descobri esses dias que ele é noivo do Jisung da loja de joias, o Hyunjin que me disse. Os dois estão planejando casar no ano que vem.
― Você sabe que ele é alfa e provavelmente ele está nos ouvindo, não é? ― Minho fez uma cara constrangida, tentando não criar climão.
― Sim, eu sou alfa também. E acredito que ele não vai ser um idiota de vir tirar satisfação por falarmos dele. ― Seungmin rebateu, olhando rapidamente para o balcão. ― Até porque eu não estou falando mal, mas eu acho que é muito importante os alfas começarem a assumir seus relacionamentos com outros alfas. Isso chama atenção do rei e pode fazer com que ele abra sua mente, até porque não sabemos quando o príncipe Chan vai ser coroado de verdade.
― Changbin disse que será entre os próximos meses. – Minho disse, enquanto admirava alguns pequenos buquês de flores amarelas. O amigo deu de ombros.
― Mas não há uma data precisa. E é isso que precisamos, de uma data. ― O jovem alfa suspirou, observando as flores rosadas. ― É difícil não ter o apoio de todos. O próprio rei Bogum deveria estar do nosso lado, de mente aberta, mas a cada semana que passa ele prefere ignorar nossos problemas. Eu duvido que, se o príncipe Chan estivesse apaixonado por um alfa, ele não iria mudar as regras pra ver o filho dele feliz.
― Não sei não… ― Minho virou o rosto quando ouviu a risada de Jeongin, o alfa por trás do balcão dando uma rápida piscadela. ― Vamos escolher as flores logo.
Seungmin ajudou o amigo a escolher dois buquês de flores, ambas de rosas vermelhas que, apesar de clichê, Minho achou elas tão bonitas que ele sabia o quão Changbin e Felix iriam gostar. Enquanto esperava o atendente embalar as flores, o amigo alfa teve que ir embora ao perceber que estava atrasado para se encontrar com Hyunjin, então Minho teve que ficar ali sozinho esperando Jeongin terminar as fitas dos buquês.
― O príncipe, uh? ― O alfa sorriu ladino, sem levantar o olhar para Minho.
― O príncipe e futuro rei, uh? ― Minho rebateu e o alfa riu alto. ― Muito prazer, Jeongin.
― Muito prazer, Minho. ― O jovem de cabelos ruivos disse, acenando com a cabeça. ― Eu ouvi falar um pouco sobre você, não muito porque não tenho encontrado Chan com tanta frequência.
― Como você sabia que eu sabia?― O jovem beta perguntou e o alfa sorriu.
― Changbin contou ao Chan, que contou ao Jisung, e aí ele me contou. ― Jeongin falou enquanto terminava a decoração do primeiro buquê. ― Ele ainda não te conhece pessoalmente, mas só de você fazer o Changbin feliz, ele tem muito carinho por você.
― Por que vocês não assumem o relacionamento?
― Não é fácil. ― O jovem disse, em meio a um suspiro. ― Chan é futuro rei, por regra ele precisa de um ômega para dar herdeiros ao povo e toda essa palhaçada… Mas eu e Jisung somos alfas, então não seria tão fácil assim vir a público e assumir.
― E depois que ele se tornar rei as coisas não vão ser mais difíceis? ― Minho ponderou.
― Chan disse que vai ser mais fácil, estamos contando com isso. ― Jeongin terminou de pôr as fitas nos dois buquês e os mostrou a Minho, que sorriu aberto. Ele já conseguia imaginar os sorrisos do seu alfa e ômega ao receberem o presente. ― Aqui estão, você quer que eu entregue?
― Você pode fazer isso?
― Sim, e vai ser mais romântico assim inclusive. ― O alfa sorriu, assentindo com a cabeça.
― Então eu quero a entrega, por favor. ― Pediu e deixou o dinheiro no balcão. ― Obrigado pelos buquês, Jeongin.
― Obrigado pela conversa, Minho.
― Changbin diz que Chan não mente e que ele pode confiar no irmão de olhos fechados. Não que você não confie no Chan… Mas acho que vale a pena confiar no nosso futuro rei, eu tenho certeza que depois da coroação ele vai fazer de tudo por você e Jisung.
― Eu sei disso. Eu e Jisung confiamos nele. Obrigado.
Minho saiu da loja de flores com um sorriso no rosto. Se tudo desse certo como as coisas pareciam que iam dar, em breve eles teriam um rei bom e justo, e seus amigos poderiam casar e não serem julgados. E principalmente, ele poderia ser feliz com Changbin e Felix sem se preocupar.
Duas semanas depois.
Depois do primeiro presente, Minho não parou. Ele levou a sério o que Seungmin falou, e não importava se o que ele estava fazendo sairia feio ou torto, Changbin e Felix iriam aceitar e gostar dos presentes.
E eles aceitaram tudo!
Minho deu alguns colares de fitas, uns ficaram ótimos, outros nem tanto… Pelo menos ele acertou nos bordados de lenços – Changbin usava sempre que precisava andar de terno pelo reino, o lenço com um pequeno morango bordado na ponta. Felix também usava o seu e o detalhe escolhido para o alfa era um pequeno ramo de eucalipto – Minho havia descoberto nos últimos dias que Felix cheirava a eucalipto e que ele dificilmente deixava seu cheiro muito exposto por achar que outras pessoas poderiam se incomodar.
O beta também fez alguns doces e ele tentou fazer um assado de panela, mas ele falhou nisso e mesmo assim Felix tentou comer. Foi um momento engraçado, porque Changbin disse que o adorava, mas que não comeria aquilo nem morto – e honestamente? Minho não se sentiu ofendido, ele também não comeria aquilo. Por fim ele começou a escrever pequenas frases e esses eram os melhores presentes para o casal, Minho dizia palavras doces sempre, mas quando ele escrevia pareciam ainda mais bonitas e elas poderiam ser eternizadas para sempre naqueles pedaços de papel.
Não era muito comum betas caçarem, mas Minho tentou para provar sua força e demonstrar que também poderia suprir o que fosse aos seus dois futuros companheiros. O jovem beta conseguiu caçar um cervo com a ajuda de Seungmin, o beta fazendo todo o trabalho pesado, o alfa ajudando-o a montar a armadilha. Changbin ficou morto de preocupação, mas ele e Felix adoraram a caçada, e então finalmente Minho estava se sentindo igualado ao casal. Não que isso fosse necessário ou um tipo de pensamento dele, mas ele sentia que precisava se provar, e demonstrar seu carinho ao casal através de seus presentes.
Era normal que ômegas e alfas tivessem seu momento para fazer ninhos, mais comumente o primeiro grupo, mas poucos sabiam que betas também faziam ninhos, e foi uma surpresa para Changbin e Felix quando Minho tocou no assunto.
― Você faz ninhos? ― Changbin perguntou surpreso. O trio estava mais uma vez no campo de morangos da família de Minho, sentados em uma toalha de piquenique, degustando alguns dos pequenos frutos vermelhos. ― Sério?
― Sim, eu faço. ― Minho sorriu. ― Não é como os ômegas fazem, eu faço algumas vezes no mês, quando eu quero ficar mais quieto ou quando eu estou muito feliz. Aninhar é muito bom.
― Isso é ótimo! ― Felix sorriu e pegou na mão do beta. ― Você tem um dia em especial?
― Isso depende também, é mais como eu me sinto… Mas eu quero muito nos próximos dias fazer um ninho.
― Você precisa de ajuda? ― Changbin perguntou, curioso pelo hábito. ― Ou você é do tipo que prefere fazer tudo sozinho?
― Changbin é territorial, ele demora horas pra me deixar entrar no ninho dele porque de alguma maneira ele pegou raiva do meu cheiro. ― Felix disse, rolando os olhos, e Minho o encarou confuso ― O que foi?
― Vocês entram um no ninho do outro? ― O beta perguntou confuso. ― Vocês não deveriam esperar para fazer isso depois de casados?
― Meu bem, eu conheço o Binnie desde criança! Você acha que o primeiro beijo dele foi com quem? ― Felix perguntou rindo, Changbin sentindo as bochechas esquentarem enquanto também sorria.
― Meu primeiro beijo, minha primeira vez, meu primeiro namorado e meu futuro marido… ― Changbin suspirou, segurando uma das mãos de Felix delicadamente. ― Eu acho que deveríamos terminar para que eu teste uma coisa, Lix.
― Você fala umas besteiras às vezes. ― O alfa encarou o jovem ômega seriamente.
― Se ele terminar com você, eu fico com você! ― Minho disse rapidamente e se segurou para não rir da cara de Changbin. ― O que? Você vai deixar esse alfa livre? Binnie, você não sabe o quão está difícil achar um alfa assim.
― Vocês dois não sabem brincar. ― O ômega fez bico. ― Não quero mais falar disso.
― Mas é sério que vocês foram os primeiros de cada um? ― Minho perguntou e o casal assentiu, trocando sorrisos. ― Uau.
― Não chegamos a perguntar isso porque é muito pessoal… Mas agora que estamos tocando nesse assunto… ― Changbin se aproximou de Minho no banco. ― Você já teve algum tipo de relacionamento, Minho?
― Tive alguns beijos… ― O beta respondeu, meio tímido. ― Vocês sabem que não é comum alfas assumirem betas, então eu nunca fui cortejado, mas já beijei algumas vezes. Seungmin foi um deles.
― Você beijou seu melhor amigo? ― Felix perguntou, levantando as sobrancelhas, surpreso com a informação.
― Por que a surpresa? Você beijou o seu! ― O beta apontou para Changbin, que abriu um grande sorriso.
― Ele não é meu melhor amigo. ― Felix rebateu.
― O melhor amigo dele se chama Mark. ― Changbin disse rindo. ― Você não o conhece ainda. Acho que só vai conhecê-lo na coroação do Chan, mas ele é o melhor amigo do Lix.
― E o seu melhor amigo é seu irmão, não é? ― O beta perguntou, dando uma mordida em um morango, e Changbin assentiu.
― Você beijou o Seungmin e vocês são amigos. ― Felix murmurou baixinho, colocando a mão no queixo, pensativo. ― Uau, que mundo é esse.
― Foi apenas um beijinho, éramos adolescentes. ― Minho disse e Felix fez bico. ― Oh meu Deus, o Lix ta fazendo biquinho, Changbin!
― Ele quer que você beije ele. ― Changbin disse casualmente e Minho virou a cabeça, piscando rapidamente, confuso. ― O que foi?
― Eu… Eu posso?
― Claro, meu bem, você pode nos beijar. ― Changbin sorriu, segurando a mão de Minho, entrelaçando os dedos. ― Nós até agora não tentamos porque estávamos esperando você tomar iniciativa. Mas se você quiser, você pode beijá-lo.
Se sentindo nervoso, mas muito feliz com a informação, Minho se inclinou e selou os lábios de Felix em um beijinho casto e simples. Felix sorriu ladino quando o beta se afastou um pouco. O alfa levou as mãos ao rosto do beta e segurou puxando-o para mais perto e beijando-o dessa vez com os lábios abertos, permitindo que o beta conhecesse sua boca. Changbin observou com um sorriso e ficou de joelhos ao lado de Minho, segurando seu pescoço suavemente, enquanto deixava pequenos beijos em seu pescoço. Quando o beta parou de beijar Felix, ele apenas virou e puxou o rosto de Changbin para um beijo.
Sentados no campo de morangos, os três iniciaram uma nova parte do cortejo: os toques e beijos.
Dois meses depois…
Com os dias passando mais rápido do que imaginava, Minho percebeu tudo que estava mudando em sua vida, lembrando desde o primeiro presente de cortejo simples até o fato de poder beijar, abraçar e tocar Changbin e Felix da maneira que ele quisesse. O cortejo ainda estava acontecendo já que eles nunca estipularam uma data para finalizar, então eles não se preocupavam com isso, mesmo que algumas pessoas estivessem começando a comentar sobre a demora para Changbin e Felix casarem.
Minho não se apegava a isso. Agora ele tinha total noção de que mesmo se eles casassem, eles não iriam deixá-lo, que ele fazia parte dos dois agora e que eles teriam um futuro juntos.
Os meses estavam passando para o cortejo, mas também estavam passando em relação à coroação de Chan. Minho via e sentia como Changbin estava estressado, o ômega iria vê-lo sempre com o rosto cansado e muitas vezes só o abraçava e o beijava antes de ir embora. Felix dizia que as coisas estavam um pouco ruins no palácio em relação aos irmãos e ao pai. Pensando no bem estar de seu ômega, Minho arrumou todo o seu quarto e avisou os pais que traria Changbin e Felix para o seu ninho, e como seus pais não falaram nada em relação a isso, então Minho tomou como um sinal positivo.
Antes de levar os dois ao seu ninho, Minho pediu algumas roupas e tecidos do casal. Os dois entregaram sem qualquer comentário, eles haviam conversado sobre ninhos e Minho falou que um dia gostaria de ter o cheiro dos dois em seu ninho, por isso eles não se opuseram em dar o que o beta pediu. Dois dias depois de pedir os itens, Minho chamou os dois para sua casa, que por coincidência ou não, seus pais foram visitar uma tia na cidade ao lado.
― Você está sozinho? ― Changbin perguntou, entrando a casa do beta. ― Deveria ter me avisado, eu mandaria guardas para ficar aqui.
― O que eles iriam fazer? ― Minho perguntou, franzindo o cenho.
― Te proteger.
― Do que, Binnie? ― O beta riu, achando fofo a preocupação do seu companheiro. ― Eu moro em um terreno onde tem vários campos de frutas, a única coisa que pode me atacar é um bicho.
― Eles te protegeriam de um bicho.
― Não discuta com ele, querido. ― Felix disse a Minho, dando um beijinho rápido na bochecha do beta. ― Changbin quando coloca uma coisa na cabeça não tem quem tire, é capaz de irmos embora e ele realmente mande os guardas.
Changbin cruzou os braços e rolou os olhos, olhando para os dois à sua frente.
― Eu vou mandar mesmo.
― Não foi para mostrar que eu estou sozinho que trouxe vocês aqui. ― Minho disse, segurando as mãos de Changbin e Felix com delicadeza. ― Eu os chamei aqui hoje porque queria convidar vocês para o meu ninho.
― O que? ― Felix piscou rapidamente, confuso
― Eu sei que tem coisas acontecendo, e que vocês dois estão estressados, então eu pensei que seria algo legal passar um tempo no ninho. ― O beta sorriu timidamente. ― O que vocês acham disso?
― Eu… Obrigado, querido. ― Felix sorriu, fazendo um carinho na bochecha do seu beta. ― Isso é uma honra.
― Eu vou adorar. ― Changbin sorriu, apertando a mão que Minho segurava.
Assentindo com a cabeça, Minho levou os dois até seu quarto. O ambiente estava à meia-luz, os cheiros dos três se misturavam no ar. O beta, sem jeito, puxou Changbin para a cama. O ômega subiu devagar, com um sorriso preso no rosto, e deitou no meio de panos sentindo o cheiro de lírio que vinha das roupas do beta. Felix também foi puxando por Minho e deitou ao lado de Changbin, o beta arrumando alguns travesseiros e deitando com os dois em silêncio por um tempo.
― Sinto nossos cheiros. ― Felix disse de olhos fechados, o sorriso preso no rosto. ― É estranho, mas bom, reconfortante.
― Você fez um ótimo ninho, meu bem. ― Changbin disse e Minho sorriu sem graça, escondendo o rosto no peito de Felix. ― Cheio de panos e com o nosso cheiro.
― Você é um bom beta. ― O alfa falou, deixando sua mão passear nos fios castanhos de Minho.
― Parem os dois. ― O jovem beta resmungou, sentindo as orelhas esquentarem rapidamente. ― Eu vou me esconder.
― Mas você já está se escondendo. ― Felix riu.
― Vocês realmente gostaram? ― perguntou.
― Sim, querido… Eu me sinto até mais calmo. ― Changbin respondeu, dando um suspiro tranquilo. ― Está uma loucura lá no palácio em relação à coroação, que talvez seja ainda mais adiada, e Chan está surtando com isso porque mexe com vários planejamentos dele. Então eu fico preocupado… Mas agora eu não quero pensar nisso.
― Você precisa relaxar, Binnie… ― Minho levantou a cabeça para olhar o ômega, esticou o braço para acariciar o rosto do ômega. ― Você pode dormir se quiser.
― Será melhor se você ficar no meio. ― Felix puxou o beta e, passando por cima do corpo dele, o colocou no meio dele e de Changbin ― Agora sim.
― Mais calmo? ― Minho virou o rosto para o ômega e beijou seu queixo afetuosamente. Changbin assentiu, abrindo os olhos devagar e mirando o amado.
― Com você por perto, eu sempre fico. ― Segurando o rosto do beta, o beijou.
Cerrando os olhos, Minho se aprofundou nos lábios de Changbin, sentindo o gosto de morango na língua. Sentiu os lábios de Felix em seu pescoço e se deixou levar por aquela boa sensação de conforto. O beta ficou de olhos fechados enquanto Changbin se afastava e beijava todo o seu rosto e depois seu pescoço.
― Você pode dizer para parar e iremos parar. ― Felix disse baixinho na altura do pescoço do beta. Ele apenas assentiu. ― Os beijos podem ser apenas beijos, mas caso eles ultrapassem os seus limites, apenas diga.
― Continuem ― Minho disse abrindo os olhos e olhando nos olhos de Changbin. ― Vocês vão ser a minha primeira vez.
― Minho… ― Changbin suspirou, fazendo um carinho na bochecha do beta. ― Querido, podemos esperar.
― Eu não quero esperar. ― Minho sorriu, tocando na mão de Changbin em seu rosto. ― Eu convidei vocês para o meu ninho, eu quero que vocês relaxem e eu também quero relaxar. Eu quero relaxar da maneira que vocês quiserem.
― Diga “pare” e iremos parar. ― Felix disse, o tom de voz cuidadoso. ― Não minta e não esconda, seu conforto é nossa prioridade.
― Eu sei, Felix. ― Minho fechou os olhos novamente, assentindo com a cabeça. ― Está tudo bem.
Minho deixou que o casal tirasse suas roupas, que também tiveram suas roupas retiradas pelo beta, em toques leves e cuidadosos. Um lado seu estava morrendo de vergonha, mas outro lado estava feliz e querendo tanto aquilo… Ele queria estar ligado com eles através daqueles toques mais íntimos, a ideia veio do nada, mas ela foi muito bem-vinda.
O beta sentiu os beijos pelo seu corpo, que se arrepiava com os toques, era como se estivesse sendo adorado. Changbin e Felix não paravam de beijá-lo e de dizer que ele era perfeito, lindo, maravilhoso, um beta bom para eles. As mãos que passeavam pelo seu corpo, sentindo cada canto, os pequenos apertões, os narizes cheirando sua pele... Um completo momento cheio de toques de carinho e amor.
Sim, Minho estava sentindo amor. Eram meses de cortejo apenas, eles não estavam juntos há anos, mas ele sentia aquilo profundamente. Ele sentia muito o amor dos dois, tanto por eles mesmos como para consigo, ele conseguia sentir e era quase palpável.
Changbin o puxou, o beijou e o tocou de formas que ele nunca poderia imaginar. Felix traçou seu corpo com a ponta dos dedos, ele tocou em lugares que o fizeram gemer e ele não se importou com nenhum barulho, não quando os dois também estavam fazendo os mais belos sons para os ouvidos de Minho, e parecia que os três juntos formavam uma linda melodia.
Minho estava se entregando ao amor que sentia por aquele ômega e alfa, e ele não via a hora de viver o futuro ao lado deles.
Cinco dias depois…
Minho arrumou a cesta de frutas e tomou o conhecido caminho ao palácio. Ele ainda continuava levando as frutas porque era o seu trabalho, mas agora ele podia transitar pelo palácio – quando o rei não estivesse. Assim que ele entrou na cozinha sorrindo, esperou que a Senhora Moon estivesse lá, como todas as manhãs, mas ela não estava. O beta deixou a cesta na mesa e andou pela cozinha procurando algumas das empregadas, mas tudo estava silencioso demais naquela região. Escutando apenas uma voz abafada que vinha do salão principal, ele andou até lá e parou quando viu todos os empregados ali, Chan e Changbin nos últimos degraus da escada, o mais novo de olhar baixo para os pés.
― É com grande pesar que informamos que o Vosso Rei, Seo Bogum, faleceu durante a madrugada. ― Minho arregalou os olhos quando Chan falou, levando as mãos para a boca. ― Só vocês sabiam o que ele estava passando nas últimas semanas, o médico que estava o auxiliando o deu como morto por volta das três da madrugada devido à uma parada cardíaca.
― Pedimos que não falem nada ainda sobre esse assunto fora do palácio. Precisamos nos nos preparar para informar ao povo e conduzir o funeral como dizem os ritos. ― Changbin disse sério, levantando o rosto, mas Minho percebia nos olhos do ômega a vontade de chorar. Foi só então que ele se deu conta de que Felix também estava ali, se aproximando a passos lentos. ― Vocês estão dispensados hoje. Amanhã nos reuniremos para decidir como ficarão as divisões de trabalho e falar sobre o funeral.
― Lix… ― Minho sussurrou quando o alfa se aproximou, abraçando-o. ― O que aconteceu?
― Ele teve uma parada cardíaca. ― O alfa disse baixinho, segurando a mão de Minho. ― Ele já estava ruim pelo estresse da coroação do Chan, então tudo levou a isso.
― Como o Binnie está? ― O beta olhou para o ômega, que conversava com Chan ainda na escada.
― Até que bem… Ele vai chorar em algum momento. ― Felix disse. ― Mas temos que ser fortes por ele, a mãe dele também não está bem, então ele não vai aguentar muito tempo sendo firme.
Esperando todos saírem do salão, Minho foi abraçar Changbin, o ômega o apertando com força e chorando baixinho no seu ombro. O beta apenas ficou ali dando suporte e atenção ao ômega. Ele sabia que Changbin amava o pai, mesmo que ele não fosse alguém bom, e ele sabia que seria difícil para o ômega lidar com tudo. Mas ele e Felix estariam ali pelo ômega.
― Eu amo você. ― Changbin disse sussurrando, abraçado ao beta. ― Obrigado por estar aqui.
― Eu também amo você. ― Minho disse apertando o ômega em seus braços. Os soluços de Changbin diminuíram. ― E eu vou estar sempre com você, eu e Felix.
― Estamos com você, meu amor. ― Felix abraçou os dois, dando um beijo no topo da cabeça do ômega. ― Eu amo vocês dois.
Dois dias depois.
Com duração planejada para três dias, o velório do rei foi um grande evento de tristeza para o reino de Sunir. Em meio aos momentos que pode ir ficar ao lado de Changbin, Minho se surpreendeu ao ver a mãe de Changbin. Faziam bons anos que os súditos não viam a rainha, que ficou durante os dois dias ao lado do caixão. Ela tentou sorrir e cumprimentar as pessoas, mas na maioria das vezes ficava olhando para o nada, os olhos pesados e tristes. O beta decidiu não incomodá-la. A única pessoa de quem ele se aproximou foi Chan quando Changbin teve que receber alguns familiares ao lado de Felix.
― Você tem sido de grande apoio ao meu irmão. ― Chan disse, o tom de voz soturno. Minho sorriu pequeno. ― Fico feliz.
― Podemos ser seu apoio também. ― Minho disse e o alfa sorriu. ― Você precisa de algo?
― Que você faça o meu irmão feliz, e que você seja feliz com ele e Felix. ― Chan disse, apoiando uma mão no ombro do mais novo, e Minho assentiu. ― Eu só quero que ele seja feliz.
― Ele vai superar isso.
― Eu sei, ele vai. ― Chan sorriu, mirando o caixão do pai. ― Eu sempre fiz tudo pelo meu irmão, sabe? Às vezes ele achava que eu obedecia demais o papai, mas eu fazia o que tinha que fazer para ficar bem com ele e não deixar com que Changbin fosse afetado. Não porque meu irmão é um ômega, mas porque eu prometi a ele que iria protegê-lo desde pequeno.
― Ele te ama muito. – Minho disse.
― E eu o amo muito, e não sinto remorso pelo que fiz. ― Chan disse, o tom de voz ficando mais sério. ― A felicidade do meu irmão sempre foi o que eu sempre quis, a minha felicidade também, e a felicidade do povo, e teremos isso em breve.
― Chan… ― Minho sussurrou, os olhos se arregalando levemente.
― Para sermos felizes, às vezes é necessário ter um pouco de dor. ― Chan sorriu olhando para Minho, um tom de tristeza no olhar. ― Primeiro vem a chuva para depois vir o arco-íris, não é? Seremos felizes, finalmente seremos felizes, e meu irmão vai ser feliz.
― Você também vai ser feliz. ― Minho apertou o braço do alfa, demonstrando apoio. ― Muito feliz.
― Sim. ― Lágrimas começaram a sair dos olhos de Chan, a voz embargando com os sentimentos. ― Sim, eu vou ser.
Minho viu Changbin e Felix se aproximarem, o primeiro puxando o irmão para um abraço. O beta foi para o lado de Felix, entrelaçando suas mãos.
Se Chan tinha feito algo ou não, Minho nunca iria saber. Mas mesmo que ele soubesse, ele nunca contestaria as escolhas do alfa para tal coisa. Ele tinha inúmeros motivos, então não cabia a Minho julgá-lo se ele estava certo ou não. Ao menos agora Changbin poderia ser ele mesmo sem o pai por perto, e Chan poderia amar quem ele queria sem medo.
[...]
Quando os dias do velório passaram, Minho soube por Felix que a rainha tinha ido para a casa de uma de suas irmãs, a pedido dela mesma. Ela decidiu deixar o palácio por motivos que ninguém sabia, o povo já não a via muito, então Chan decidiu não contar ao povo. Com a morte do rei, a coroação de Chan foi apressada e, o que seria em três meses, mudou para duas semanas seguintes. Changbin estava nervoso porque ele também iria fazer parte, já que Chan queria o ômega ao seu lado em seu reinado.
Minho agora passava mais tempo no palácio do que em sua própria casa. Ele ainda entregava as frutas ajudando seus pais, mas o tempo que tinha livre ele estava com Felix e Changbin, muitas vezes trocando carinhos ou apenas conversando. As coisas estavam indo rápido demais, mas isso não o incomodava. Na verdade ele gostava dessa sensação e queria que tudo continuasse bem enquanto os dias passavam.
O beta não tocou no assunto sobre a morte do rei com Changbin e Felix. O que ele conversou com Chan ficou apenas entre eles dois e ele não queria colocar coisas na cabeça do príncipe ômega, mesmo observando que talvez Changbin também soubesse já que Chan sempre foi verdadeiro com ele, mas ele preferia ficar calado e não abrir essa ferida. Foram longos dias de luto para Changbin, e Minho e Felix tiveram que fazer muito para que ele levantasse da cama.
― Para o meu lindo lírio. ― Changbin entregou uma flor para Minho, o beta sorriu agradecendo. Os dois estavam sentados em um banco de pedra em meio ao jardim de inverno do castelo. ― Eu sei que as coisas do cortejo estão indo bem devagar, mas depois da coroação tudo vai voltar ao normal.
― Para mim está ótimo assim, querido. Você e Felix não precisam me dar presentes todos os dias. ― Afetuoso, Minho segurou o queixo do ômega e o puxou para um beijo. ― Nosso cortejo está sendo ótimo e, mesmo com as coisas acontecendo no meio disso, eu estou amando passar mais tempo com vocês.
― Felix tem uma reunião hoje, Chan vai colocar ele como conselheiro. ― Changbin abraçou o beta. ― Então você vai ser companheiro de um segundo no comando real e também de um conselheiro real.
― Uau… ― Minho disse, surpreso com a informação. ― Poderemos ter um campo de frutas?
― Poderemos fazer com que o negócio dos seus pais cresça ainda mais. ― Changbin beijou a bochecha do beta. ― Você poderia tomar conta disso, ou fazer algo que você queira.
― Eu acho que tomar conta com os meus pais vai ser bom. ― O beta disse e deitou o rosto no ombro do ômega. ― Quem diria… Se um dia me falassem que eu teria uma chance com você, que seria cortejado por você, eu iria rir, porque isso sempre foi uma paixão distante.
― Você teve uma chance comigo e com Felix, você ganhou um bônus.
― Ele fica cheio de manha quando você diz que ele é um bônus. ― Minho beijou o pescoço do ômega, escutando a risada do outro. ― Mas eu realmente tive sorte, não foi apenas você, mas também o alfa. Pedi um e recebi dois.
― Você é uma graça. ― Changbin disse, ainda rindo.
― Você quer dormir no meu ninho hoje?
― Na verdade iria convidar você e Felix para o meu… ― Changbin falou e Minho o olhou animado. ― Você quer?
― Claro que sim!
E naquela noite Minho dormiu no meio de Changbin e Felix no ninho cheiroso e confortável do ômega.
Duas semanas depois.
Minho estava de terno bem na primeira fila da igreja principal do reino. A igreja era o local principal para todos os casamentos reais e coroações. Na frente do beta, em duas cadeiras separadas, no começo do corredor central, estava Changbin bem arrumado com sua coroa prateada, e ao seu lado Chan preparado para ser abençoado pelo padre e receber a sua coroa de rei.
― Por que eu estou nervoso? Não faz sentido. ― Minho perguntou baixinho a Felix, as mãos geladas entrelaçadas com as do alfa.
― Eu também estou. ― O alfa disse, rindo baixinho. ― É comum ficarmos assim, todos em nossa volta estão nervosos.
Minho suspirou fundo, o sorriso brotando nos lábios.
― Chan vai ser um bom rei.
― Ele vai, querido. Ele e Changbin vão trazer muito para nosso reino. Nosso povo vai viver bem e poder ser o que eles quiserem. ― Felix apertou a mão do beta.
Minho sorriu quando o padre começou a falar e desejar coisas boas a Chan. Ele viu o alfa se abaixar para receber a coroa, o contraste de seus cabelos escuros com o metal dourado. Ao final das palavras do celebrante, Chan foi em direção ao irmão e, puxando ele para ficar em pé, segurou sua mão, o sorriso dos dois sendo raios de sol no meio da igreja.
O beta viu Chan olhar para um ponto em especial atrás dele e de Felix, e ele sabia que era onde estavam Jeongin e Jisung. Olhando para seu pretendente, Minho viu Changbin o olhando sorrindo e, se o beta pudesse guardar aquele momento, ele guardaria para sempre, porque aquele momento determinava que ele, Changbin e Felix seriam felizes sem se preocupar com nada e nem ninguém.
Quatro meses depois…
O reino estava começando a se organizar com o novo rei. Chan era incrível e todos estavam conseguindo ver as mudanças. Ele ainda não tinha anunciado nada com Jeongin e Jisung, mas Minho confiava que ele não iria demorar a fazer isso – Changbin dizia que ele só estava esperando o tempo passar mais um pouco.
O relacionamento de Minho com Changbin e Felix não poderia estar melhor, eles estavam praticamente morando juntos no palácio já que Minho não saia de lá e Felix também não, mas Minho estava vendo pequenas mudanças no comportamento de Changbin e Felix. Eles estavam mais falantes, sorridentes, e talvez fosse pelos questionamentos do casamento dos dois já que, após a coroação de Chan, não teria porque eles continuarem atrasando a cerimônia.
Minho não podia negar que isso o deixava um pouquinho pensativo porque, lá no fundo, ele queria casar também. E se eles fossem casar, por que não logo incluir Minho? Eles poderiam ficar noivos e então casarem nos próximos meses, isso fazia sentido na cabeça do beta.
Se vendo perdido em pensamentos, o beta resmungou e voltou sua atenção ao que fazia, que era colher morangos do seu amado, que ele fazia questão de colhê-los.
― Querido? ― Minho virou o corpo ao ouvir a voz de Felix, o alfa se aproximando dele com Changbin ao seu lado.
― O que vocês estão fazendo aqui? ― Minho perguntou, sorrindo confuso. ― Vocês deveriam estar em uma reunião, não é?
― E estávamos, acabou mais cedo. ― Changbin disse, dando um beijo na bochecha do beta. ― Viemos ver você.
― Assim do nada? ― Minho riu. ― Não nos vimos pela manhã?
― Sim, mas sentimos saudade. ― Felix sorriu, fazendo um carinho na bochecha de Minho. ― O dia está lindo hoje.
― Sim… ― Minho concordou, mas franziu o cenho, desconfiado com as expressões corporais dos dois à sua frente. ― O que aconteceu? Vocês estão estranhos.
― Decidimos algo e não sabemos como você vai reagir. ― Changbin falou e o beta colocou a cesta com morangos no chão. ― Cortejar você era uma vontade absurda dentro de mim e que passou para Felix. Queríamos ter você, queríamos fazer você nos ver da maneira que te víamos, e mal sabíamos que você já nos via com o mesmo olhar.
― Binnie… ― Minho arregalou os olhos quando Changbin e Felix se ajoelharam juntos. ― Lix…
― Passamos por longos meses de cortejo e ele só provou o quão somos perfeitos juntos. ― Felix continuou, passando o braço pela cintura do ômega ao seu lado. ― Eu e Changbin iriamos casar, mas sem você isso não pode acontecer porque você faz parte de nós. Ao invés de termos casados meses atrás, decidimos conhecer, cortejar e amar você para que você fizesse parte disso conosco.
― Minho, você aceita casar comigo? ― Changbin perguntou abrindo uma caixinha azul, um delicado anel dourado no meio da almofada que protegia a joia.
― E de bônus comigo também. ― Felix riu, os olhos se transformando em duas meia-luas.
― Você não gosta de ser chamado de bônus. ― o beta disse rindo, sentindo algumas lágrimas de felicidade se formando no canto dos olhos.
― Eu gosto, mas finjo que não.
― E então, meu bem. ― Changbin tornou a falar. ― Você nos aceita como seus noivos?
― Aceito! ― Disse Minho, sem conseguir parar de sorrir.
Felix foi o primeiro a abraçar e beijar o beta, Changbin o beijou em seguida colocando o anel em seu dedo.
No meio daquele campo de morangos – a fruta favorita do seu belo príncipe, que fez tudo aquilo começar –, Minho aceitou fazer parte daquele casal que um dia ele tanto observou e desejou de longe. De coração aberto, o beta aceitou o amor imenso que sentia por eles, e aceitou viver para sempre sendo amado por Changbin e Felix, e os amar de volta com todo o seu ser.
