Chapter Text
Neil é um idiota.
Ele sabe que é um completo idiota enquanto olha fixamente para a ponta brilhante do cigarro e inspira um pouco da fumaça acre do mesmo, sem sentir o breve prazer da nicotina. A fumaça o lembra de sua mãe e, droga, ele não deveria lembrar dela. Pois lembrar dela é o mesmo que lembrar de todos os seus erros desde que eles se separam. Lembrar dela é o mesmo que lembrar que ela morreu.
E isso era demais para o pequeno e frágil e muito estupido Abram — como sua mãe gostava de lhe chamar quando não estavam se escondendo entre as pessoas ou o fazendo se acostumar com uma nova identidade. Mas para Neil, isso era infortúnio. Para Neil, isso era passado — ou assim ele se forçava a acreditar.
Neil sentiu seus pés pisando em um terreno arenoso e isso o fez arrepiar até os ossos. Ele ouviu a voz da sua mãe lhe amaldiçoando em todas as línguas que conhecia e puxando seus cabelos até seus olhos arderem. Ele sentiu a necessidade de gritar por perdão e implorar para ela parar, mas sua garganta estava seca para isso. Neil desviou o olhar para o céu, numa tentativa de abafar a voz da mulher mais importante de toda sua vida — não, da vida de Abram —, mas as estrelas estavam ofuscadas pelo brilho das luzes do estádio.
Ele se perguntou — não pela primeira vez — se sua mãe estaria o assistindo.
A questão fez sua garganta tremer e algo parecido com uma risada — só que mais seca — escapou de seus lábios rachados.
Mary nunca o olharia ali de cima, não, se ela estivesse o assistindo, ela estaria ao seu lado gritando em seus ouvidos como em fantasma ou mais abaixo, tentando arrasta-lo para o inferno junto com ela.
Em todo caso, Neil esperava que ela não estivesse o assistindo de nenhuma maneira. Sua mãe — seja no inferno ou como uma assombração — o espancaria ao vê-lo sentado e deprimido como estava no momento. Uma porta abriu-se, grunhindo atrás dele, espantando seus pensamentos. Neil deu um pulo rápido e apertou a alça de sua mochila e, suavizando sua expressão, olhou para trás.
Treinador Hernandez fechou a porta do vestiário e se aproximou.
— Neil, garoto, então você estava aqui. — Disse Hernandez e fez uma pausa, talvez dando oportunidade para Neil falar alguma coisa, mas sua fala não precisava de resposta, então Neil apenas acenou em reconhecimento.
Hernandez não pareceu se decepcionar e limpou a garganta.
— Não vi seus pais no jogo.
A resposta de Neil veio rápida:
— Eles não estão na cidade.
— Ainda ou outra vez?
Neil suavizou o aperto da mochila e encolheu os ombros, um gesto despreocupado. Felizmente, nenhum dos dois; pensou ele. Mas ele nunca diria isso.
Seus professores já estavam cansados de ouvir a mesma desculpa sempre que o perguntavam sobre seus pais, mas era uma mentira tão fácil e clichê de ser usada. Isso explicava o motivo de ninguém jamais ter visto os Josten's pela cidade, e o porquê Neil era um pouco reservado. Afinal, ele era só um pobre garoto traumatizado pelos péssimos pais, o que, de certa forma, não estava errado.
Assim era mais fácil para ele, as pessoas o olhavam como um coitado e lhe ajudavam de bom grado, uma dessas pessoas era o treinador Hernandez, que permitia frequentemente que Neil dormisse no vestiário ao invés de manda-lo para casa.
Não que ele não tivesse um lugar para morar. Era mais porque sua situação de vida era ilegal. Millport era uma cidadezinha moribunda, isto é, havia dezenas de casas a venda e que nunca seriam compradas. No último verão, ele havia se apropriado de uma dessas casas em um bairro calmo povoado principalmente por idosos. Seus vizinhos raramente deixavam o conforto de seus sofás e sabonetes diários, mas cada vez que entrava e saia se arriscava a ser descoberto.
Sendo assim, ele decidiu confiar na empatia do velho treinador que nunca notificou as autoridades ou o diretor da escola.
Hernandez estendeu a mão. E Neil revirou os olhos antes de jogar o resto do cigarro no chão e pisar, em seguida ele se voltou para o homem e abriu um sorriso falso.
— Melhor, treinador? — Perguntou com humildade.
Hernandez bufou e fez uma careta para o que restou do cigarro e o olhou.
— Pensei que eles fariam uma exceção hoje à noite —, disse ele.
Neil deu de ombros novamente.
— Ninguém sabia que seria o último jogo e eles também não se importam o suficiente — replicou Neil, fitando a quadra.
A derrota de Millport esta noite os eliminou do campeonato estadual ha duas partidas antes das finais.
Tão perto, e tão longe.
A temporada acabou exatamente assim.
Se pensasse um pouco nisso, Neil iria ficar chateado. Ele queria ter conseguido chegar as finais, jogar um pouco mais...
Foi melhor assim, no entanto. Neil teve sorte de durar um ano completo sozinho ali. Ele teve sorte de poder fazer tudo o que mais queria no mundo antes de morrer. Sim. Neil entendia que sua morte era uma questão de tempo, ele não duraria tanto sozinho, por isso que ele havia reservado o último ano para fazer idiotices e ver quanto tempo duraria sua liberdade falsa.
Neil Josten conversou com algumas pessoas sem ter nenhum motivo por trás, sem tentar estuda-las ou pegar alguma coisa delas. Ele jogou e estudou coisas inúteis. Ele pintou a parte de trás do seu cabelo de verde e o deixou crescer. Ele furou a orelha e fez dois piercing. Porra. Ele fez uma tatuagem. Ele comprou algumas roupas novas, claro, ele as devolveu um dia depois por causa da culpa e a voz fantasma de sua mãe, as pelo menos ele tentou. Ele conheceu algumas outras coisas que se tornaram um novo vicio junto ao Exy, apesar de Exy continuar em primeiro lugar em seus vícios. Neil não tinha amigos, ele ainda não conseguia manter uma conversa inútil por muito tempo e era difícil demais abaixar suas barreiras para ter um amigo, mas era incrível a possibilidade de poder ter um algum dia. O ano teve coisas ruins e boas, mas Neil não se arrependia, ele quase podia sentir um pouco de alivio por Mary estar morta, ela nunca teria o deixado fazer nenhuma dessas coisas.
Olhando para quadra, Neil viu algumas pessoas a desmontando, tirando as paredes de acrílico e rolando o piso modular sobre o chão duro. Quando terminassem, seria novamente um campo de futebol; não sobraria nada de Exy até o outono. Neil sentia-se mal vendo aquilo acontecer, mas não conseguia desviar o olhar.
Exy era um esporte modificado: uma evolução do lacrosse, jogado em uma quadra de futebol com a violência do hóquei no gelo. Neil amava cada parte desse jogo, da velocidade até sua agressividade. Esta era a única lembrança de sua infância que jamais tivera sido capaz de esquecer.
— Se eles estiverem interessados para me atender mais tarde, eu direi a eles sobre o placar. —, disse ele, porque Hernandez continuava o olhando. — Eles não perderam nada demais.
Hernandez maneou a cabeça, aceitando aquilo. Neil sorriu pequeno por isso, Hernandez não o pressionava tanto quanto outros professores e isso o deixava um pouco mais confortável perto dele.
— De todo jeito, não vá ainda. —, disse Hernandez. — Tem alguém aqui que veio te ver.
Por um segundo Neil franziu a testa. Ele se lembrava perfeitamente dos seus companheiros indo embora para alguma festa da derrota ou algo assim, e além deles, ninguém queria falar ou ver ele. No outro segundo, ele repetiu a última fala de Hernandez e seu coração disparou. Para alguém que passou metade de sua vida fugindo do passado, estas eram palavras de um pesadelo. Neil voltou a apertar a alça da mochila e estava pronto para começar a correr quando o som de sapatos vindo de atrás o advertiu de ser tarde demais para escapar. Neil virou-se para ver um grande estranho parado na entrada do vestiário.
A camiseta sem mangas que o homem usava exibia tatuagens tribais de chamas. Uma mão enfiada no bolso do jeans. A outra segurava um arquivo grosseiro. Sua postura era casual, mas o olhar em seus olhos castanhos era firme. Neil não o reconheceu, significava que aquele cara não era morador local. E isso o fez praguejar internamente. Millport tinha menos de novecentos habitantes. Um lugarzinho onde todos sabiam sobre a vida de todos. Aquela sensação inculta tonou as coisas desconfortáveis para Neil e todos os seus segredos no começo, no entanto, ele se acostumou depois de dois messes e esperava usar a mentalidade da pequena cidade como um escudo. Fofocas sobre um forasteiro deveriam ter chegado a seus ouvidos antes que esse estranho o encontrasse.
A maldita Millport havia falhado com ele e agora ele estava a colocando na lista das cidades pequenas que ele odiava.
— Não te conheço. —, acusou Neil sem nenhum calor na voz.
— Ele é de uma universidade –, informou Hernandez. — Ele veio assistir você jogar esta noite.
Neil estreitou os olhos, já odiando toda a situação estranha.
— Ninguém faz recrutamento em Millport, ninguém sabe onde fica. — Ele disse, ainda num tom acusatório, sem perceber ele deu um passo intimidante para frente do homem tatuado.
— Há uma coisa chamada mapa —, informou o estranho. — Você já deve ter ouvido falar.
Neil assentiu.
— Sim. Mas não muda o fato que é uma cidadezinha esquecida por Deus. O que me leva acreditar que, ou você está desesperado ou... — ele não terminou, mas o estranho pareceu curioso, levantando uma sobrancelha.
— Ou?
— Ou você é um idiota desesperado. —, respondeu Neil, pensando em outra resposta para continuação.
Hernandez olhou para Neil com advertência e se aproximou mais, se colocando no meio dos dois.
— Ele está aqui porque eu enviei o seu histórico. Ele publicou uma nota dizendo que precisava de um atacante de baixa estatura para seu time, achei que valeria a pena tentar. Não contei porque não sabia se algo poderia dar errado, eu não queria tirar suas esperanças.
Ah. Bondoso Hernandez, Neil não tinha esperanças de quase nada e essa era uma das ultimas coisas que o deixaria decepcionado.
Neil fitou Hernandez.
— Deveria ter me dito.
— Tentei entrar em contato com seus pais quando ele pediu uma conversa com eles hoje à noite, mas seus pais não retornaram minhas mensagens. Você disse que iria tentar trazê-los.
Neil revirou os olhos, desviando o olhar de volta para a quadra.
— Já era esperado eles não virem —, murmurou ele, tentando parecer o mais patético possível.
Não era difícil.
— Não posso esperar por eles —, disse o estranho, se aproximando mais para ficar ao lado de Hernandez. — É estúpido estar aqui no final da temporada, eu sei, mas eu tive alguns problemas técnicos com o meu último recruta. O treinador Hernandez disse que você ainda não escolheu uma universidade para o outono. Tudo se encaixa perfeitamente, não é? Preciso de um atacante, e você precisa de uma equipe. Tudo o que você tem que fazer é assinar a linha pontilhada e você será meu por cinco anos.
Mesmo com toda sua nova prática adquirida no último ano para conversar com pessoas e não travar com algumas falas, levou duas tentativas para Neil encontrar sua voz.
— Você não tá falando sério.
— Muito sério, e muito fora de tempo –, afirmou o homem.
E Neil decidiu que não gostava dele. Antes dele conseguir abrir a boca para falar, o estranho jogou seu arquivo onde Neil estava sentado. O nome de Neil estava rabiscado na frente em marcador preto. Neil pensou em abrir a pasta, mas por qual objetivo? O garoto que este treinador havia pesquisado com tanta cautela não era real e não existia de verdade legalmente e talvez não existiria por muito tempo. Em cinco semanas Neil se graduaria e em seis ele estaria bem longe dali, sendo outra pessoa ou não — Neil ainda estava tentando se decidir. Ele havia gostado muito de Neil Josten, e não sabia se queria deixa-lo morrer como seus outros nomes.
Neil deveria ter se acostumado a isso. Havia passado os últimos oito anos fugindo, criando mentiras após mentiras e deixado uma trilha entrelaçada atrás dele. Vinte e dois nomes estavam entre ele e a verdade, e ele sabia o que aconteceria se alguém finalmente juntasse os pontos desta trilha.
Assinar com uma equipe universitária significava mais do que ficar parado. Significava entrar em foco. A prisão não deteria seu pai por muito tempo, e apesar de Neil estar tentando aproveitar antes de sua morte inevitável pelas mãos do seu progenitor, ele não queria uma revanche contra ele tão cedo.
Com isso em mente, Neil jogou a pasta no chão, e olhou para o estranho.
— Vá embora.
O homem não pareceu abalado enquanto levantada o rosto para se voltar a Neil, o olhando como se Neil fosse uma criança birrenta. O estranho pegou o arquivo aos pés de Neil antes de voltar a falar.
— Sei que é um pouco inesperado, mas eu realmente preciso de uma resposta, ainda está noite. O Comitê vem me perseguindo desde que Janie foi interditada.
O estômago de Neil gelou com aquele nome. Ele estalou o olhar da pasta para o rosto do treinador e o odiou um pouco mais.
— Raposas —, disse ele com um pouco de calor. — Universidade de Palmetto.
O homem — que Neil agora sabia que deveria ser o treinador David Wymack – parecia surpreso pela rapidez com que o garoto juntara tudo. Neil quis rir. É claro que as Raposas o queriam, elas se encaixavam na lacuna desesperados e idiotas, junto ao treinador estupido parado na sua frente.
— Suponho que você viu a notícia.
Problemas técnicos, Wymack havia dito.
Era uma maneira sutil de dizer que seu último recruta, Janie Smalls, tentara suicídio. Sua melhor amiga encontrou-a sangrando na banheira e a levou para um hospital a tempo. Neil tinha ouvido que a garota estava sendo monitorada em um hospital psiquiátrico. "Típico de uma Raposa", o apresentador do noticiário deixou escapar, e ele não estava exagerando.
As Raposas de Palmetto State era uma talentosa equipe de rejeitados e drogados, porque Wymack recrutava somente atletas de lares problemáticos. Sua decisão de transformar o time das Raposas em uma espécie de casa de reabilitação era boa, em teoria, mas isso significava que seus jogadores eram isolacionistas e não conseguiam se unir o suficiente para ganhar um jogo. Eles eram conhecidos na NCAA¹, tanto pelo seu tamanho minúsculo quanto a falta de classificação nos últimos três anos consecutivos.
Eles tinham feito muito melhor no ano passado, graças à perseverança de sua capitã e à força de sua nova linha de defesa, mas eles ainda eram considerados uma piada para os críticos. Até Mesmo o CRE, Comitê Regulador de Exy, estava perdendo a paciência com seus péssimos resultados.
Então, o ex-campeão nacional, Kevin Day, juntou-se à equipe. Foi a melhor coisa que poderia acontecer às Raposas, e isso significava que Neil nunca poderia aceitar a oferta de Wymack. Neil não via Kevin há quase oito anos, e nunca estaria pronto para revê-lo novamente, além disso, ele poderia ser estupido, mas ele não erra tão estupido. Algumas portas deveriam permanecer fechadas; a curta vida de Neil dependia disso.
— Você é idiota e não deveria estar aqui — disse Neil, ajeitando a mochila e se preparando para ir embora.
— Mas estou — replicou Wymack. — Precisa de uma caneta?
Neil renhiu, frustrado.
— Não. Preciso que me deixe em paz —, respondeu Neil. — Não irei jogar para você.
— Eu ouvi mal?
Se sentindo um pouco sufocado com a raiva aquecendo seu corpo, Neil avançou um pouco.
— Para que você me quer, hein? — perguntou ele — Você tem um contrato com Kevin Day.
— E Kevin quer que você assine, qual a questão aqui?
Neil cansou daquilo. Era mais inútil do que as conversas que ele tentou ter com uma líder de torcida a uns meses. Ele não ficaria mais para ouvir Wymack. Neil girou os calcanhares e correu pelas escadas que levavam para o vestiário. O metal ressoando sob seu sapato fez barulho, não alto o suficiente para abafar o chamado surpreendente de Hernandez. Neil não olhou para trás, para ver se estavam o seguindo. Tudo o que ele sabia, tudo o que importava, estava ficando o mais longe possível dali.
Ele precisava se esconder. Precisava sumir por uma semana e esperar que Wymack entendesse o obvio e desistisse dele. Ele ainda tinha cinco semanas como Neil Josten antes de se decidir se abandonaria ou não o nome, e não deixaria o maldito treinador das Raposas e o fantasma de Kevin Day estragar seus planos.
Neil não foi rápido o suficiente. Estava na metade do vestiário quando percebeu que não estava sozinho. Alguém esperava por ele, na sala dos atletas, entre ele e a porta da frente.
Uma raquete amarela brilhante refletiu sob a luz quando o estranho desferiu o golpe, e Neil estava rápido demais para conseguir parar. O bastão acertou seu estomago com força suficiente para esmagar seus pulmões contra sua coluna. Ele não se recordava de ter caído, mas, subitamente, estava de joelhos com as mãos espalmadas no chão, ineficazes, enquanto tentava respirar.
Neil ficou tentado a não controlar seu primeiro suspiro e vomitar no chão para alguém limpar, e para ajudar na tentação, seu corpo estava se recusando a cooperar.
O zumbido em seu ouvido era a voz furiosa de Wymack, soando a quilômetros de distância.
— Mas que merda, Minyard. É por isso que nós não temos nada que preste.
— Ah, Treinador —, alguém disse sobre a cabeça de Neil. — Se ele fosse bonzinho, não seria útil para nós, não é?
— Ele não vai ser útil se você arrebentá-lo.
— Você preferia que eu o deixasse ir? É só colocar um band-aid e ele vai ficar novinho em folha.
A cabeça girando, então entrou em foco nítido assim que o ar atingia os pulmões torturados de Neil. Ele inalou o ar tão bruscamente que engasgou toda a tosse que ameaçava sair. Ele envolveu um braço em torno de seu corpo e inclinou-se para dar um olhar feroz em seu agressor. Wymack já dissera o nome do cara, mas Neil não precisava disso. Ele tinha visto esse rosto em muitos recortes de jornais para não reconhecê-lo de vista.
Andrew Minyard não aparecia muito em público, loiro, 1,56 de altura, mas agora Neil o conhecia bem. Andrew era o goleiro novato das Raposas, o investimento mais arriscado. A maioria das Raposas era autodestrutiva, enquanto Andrew parecia mais interessado em danos colaterais. Neil o investigou por curiosidade e achou coisas muito interessantes sobre o garoto, embora ele não fosse tão profundo na sua investigação, ele sabia o básico para colocar Andrew Minyard na sua caixinha de pessoas perigosas que ele não iria querer esbarrar na rua. As únicas coisas que Neil achou mais relevante no garoto, era a sua recusa na oferta da Universidade de Edgar Allen. Kevin e Riko fizeram uma festa de boas-vindas para recebê-lo na equipe, no entanto Andrew recusou e se juntou às Raposas — isso o fez ser mais interessante para Neil, ele queria ter visto a cara de Kevin e Riko com a recusa. O anão loiro nunca explicara essa escolha — Neil suspeitava que ele nunca explicava nada para ninguém — , embora todos supusessem que fosse pela disposição de Wymack a contratar outros membros da família — O irmão gêmeo de Andrew e seu primo, Nicholas Hemmick, se juntaram ao time no mesmo ano. A outra coisa interessante, era que Andrew também fora o responsável pela recente transferência de Kevin Day.
Kevin jogou para os Corvos de Edgar Allen até que quebrou sua mão dominante em um acidente de esqui, dezembro passado. Uma lesão como está lhe custou o contrato com a faculdade, porém deveria ter se recuperado onde teria o apoio de sua ex-equipe. Em vez disso, mudou-se para Palmetto, para ser o treinador assistente e informal de Wymack. Três semanas atrás, ele havia oficialmente assinado para jogar na próxima temporada. A única coisa que uma equipe sombria como as Raposas poderia oferecer a Kevin era o goleiro que um dia o desprezou.
Andrew sorriu para Neil e bateu continência com dois dedos, em saudação.
— Mais sorte da próxima vez.
— Vá se foder — xingou Neil, e fitou o que o loiro tinha mão com uma careta de reconhecimento —. De onde você roubou a raquete?
— Peguei emprestada. — Andrew corrigiu animadamente e atirou a raquete para Neil. — Aqui está.
— Neil — gritou Hernandez, pegando Neil pelo braço para ajudá-lo. — Por Deus, você está bem?
Neil revirou os olhos e se afastou do homem, se agachando para pegar a raquete e fitar Wymack. Como se entendesse o olhar de Neil, o homem justificou.
— Andrew é um pouco mal-humorado — e então se aproximou e ficou entre Neil e Andrew.
— Mal-humorado? Tem certeza que não quer dizer idiota? — Neil provocou sem pensar.
Andrew jogou a cabeça para o lado, um sorriso maníaco se expandiu na sua face.
— Oh. o gatinho assustado tem garras, treinador.
— Andrew... — Wymack começou.
Andrew entendeu o aviso e levantou as mãos em rendição, se fastando para a parede e se encostando ali.
Wymack o observou ir, antes de olhar para Neil.
— Ele quebrou alguma coisa?
Mesmo sabendo que iria dizer que estava bem, Neil pressionou as mãos cuidadosamente em suas costelas e respirou, sentindo a forma como seus músculos gritavam em protesto. Ele tinha fraturado ossos o suficiente, no passado, para saber que teve sorte desta vez.
— Estou bem, David. Estarei melhor se me deixar ir.
— Não terminamos —, interveio Wymack.
— Terminamos sim. — Disse Neil dando um passo a frente.
— Treinador Wymack —, começou Hernandez.
Ambos foram parados, Wymack colocou a mão no peito de Neil para ele não andar e interrompeu Hernandez.
— Nos dê um segundinho? — pediu sem olhar para Hernandez.
Neil viu seu treinador olhar de Wymack para ele, depois suspirar e soltar:
— Vou estar lá fora.
— Irei gritar quando estiver sendo morto. — disse Neil quando Hernandez passou por ele.
Hernandez deu o segundo olhar de advertência para ele e resmungou um "se comporte" antes de sair e fechar a porta.
Tchau fuga, Neil pensou amargamente. Seu olhar vagou da porta para Andrew que assistia com o sorriso psicopata. Ele decidiu que o sorriso de Andrew era horrível até para ele e desviou a atenção para Wymack.
— Vai a merda. Não vou assinar.
Wymack levantou a sobrancelha para ele. Surpreso com o novo linguajar de Neil.
— Parece que teremos um problema de comportamento, treinador. — Andrew pontou divertido de onde estava.
O homem lhe lançou um olhar e isso só fez o loiro sorrir mais, Wymack suspirou e focou em Neil, abrindo a boca.
— Não. — Neil disse antes de algum som sair de homem.
— Você nem ouviu a minha oferta —, tentou Wymack. — Paguei três passagens aéreas só para vê-lo. O mínimo que você poderia fazer é me dar cinco minutos, não acha?
— Não. Eu não lembro de ter pedido e... — Neil parou, dando um passo para traz — Você disse três passagens?
A pressão de Neil baixou tão rapidamente que o mundo se inclinou.
— Você o trouxe aqui. — ele murmurou, querendo que tudo aquilo fosse um pesadelo.
Wymack o olhou fixamente.
— É um problema?
Neil não podia contar a verdade, então disse:
— Não sou bom o suficiente para jogar ao lado de um campeão. — tentou soar humilde.
— Isso é verdade, mas é irrelevante — disse uma nova voz, e Neil parou de respirar.
Porra. Porra. Porra.
Ele sabia que era melhor não se virar, mas já estava fazendo.
Deveria ter adivinhado no momento em que viu Andrew, mas ele não queria pensar nessa hipótese. Não havia razão para um goleiro encontrar um atacante em potencial. Andrew só estava lá porque Kevin Day nunca saia sozinho.
Kevin estava sentado no espaço de lazer, ao longo da parede dos fundos. Ele empurrou a TV de lado, dando-se mais espaço na mesinha e cobriu o seu redor com papéis.
Neil se arrependeu por não ter tido sua seção com suas cartas naquela manhã. Sabia que provavelmente não evitaria nada do que estava acontecendo, porque ele ainda não lia as cartas de Tarot muito bem. Mas isso pelo menos teria deixado mais preparado para coisas ruins.
Voltando ao presente, Neil analisou Kevin. Ele assistira a todo esse espetáculo e, a julgar pela expressão fria em seu rosto, não se impressionou com a reação de Neil.
Passaram-se anos desde que Neil esteve no mesmo recinto que Kevin, anos desde que eles viram o pai de Neil esquartejar um homem gritando em cem pedaços. Neil conhecia o rosto de Kevin bem mais que o seu próprio, consequência de ver Kevin crescer na mídia a mil, ou mais, milhas de distância.
Tudo em Neil era diferente.
Tudo em Kevin era o mesmo, de seus cabelos escuros e olhos verdes ao número "dois" tatuado em sua bochecha esquerda. Neil olhou aquele número e quis vomitar. Kevin tinha esse número naquela época também, porém era muito jovem para fazê-la de forma permanente. Em vez disso, ele e seu irmão adotivo, Riko Moriyama, escreveram os números "um" e "dois" em seus rostos com marcadores, e redesenhavam sempre que começava a desaparecer.
Neil não entendeu, até então, mas Kevin e Riko apontavam para as estrelas. Eles seriam famosos, ambos prometeram a ele. Eles estavam certos. Tinham equipes profissionais e jogavam para os Corvos. No ano passado, ambos foram introduzidos na seleção nacional, à equipe dos EUA. Eles eram campeões, e Neil era uma confusão de mentiras, um beco sem saída.
Neil sabia que Kevin não podia reconhecê-lo. Fazia muito tempo; Ambos tinham crescido em um mundinho à parte. Neil tinha disfarçado ainda mais sua aparência com tintura para cabelo em tons escuro e lentes de contatos castanhos, e mesmo tendo feito alguns contrates radicais, como piercings e pintar o cabelo de azul na parte de traz, ele não achava que seria reconhecível. Ao contrário, ele esperava que todos que conheciam o seu nome verdadeiro, não o achasse estupido o suficiente para se destacar em uma multidão, esperava que quem o procurasse, estivesse o procurando entre pessoas sem graça e que não pareciam sociáveis. Claro, ele não era o exemplo de sociável, mas era sim simpático e passou o ano todo andando entre grupos sociais diferentes, só para experimentar o que sua mãe nunca o deixou experimentar
No entanto, se estivesse certo, por que Kevin Day estaria aqui procurando por ele? Nenhuma equipe da Primeira Divisão se rebaixaria a tanto, nem mesmo as Raposas.
O histórico de Neil dizia que ele só estivera jogando Exy por um ano. Ele tinha sido bastante cuidadoso ao fingir não ter experiência, e até mesmo carregara vários livros de treinamento durante o outono passado. Era fácil fingir, a princípio, já que não segurava em uma raquete há oito anos. O fato de estar jogando em uma posição diferente da qual tinha jogado na liga infantil pouco ajudou, uma vez que tivera de reaprender a jogar de uma nova perspectiva. Ele tinha uma invejável e inevitável aprendizagem, mas ainda lutava para não brilhar. Será que tinha se descuidado? Tinha sido óbvio demais que havia uma experiência passada da qual não havia mencionado? Como havia conseguido chamar a atenção de Kevin, apesar de suas melhores tentativas de manter-se nas sombras? Se fora fácil para Kevin, que tipo de holofote estaria mostrando para os capangas de seu pai?
Se sentindo entrar em pânico ele decidiu quebrar o silêncio.
— Eu não quero jogar com você.
— Por que estava indo embora? — Perguntou Kevin ignorando Neil.
— Eu já respondi isso. Agora você pode ir embora?
Kevin revirou os olhos.
— Estamos esperando você assinar o contrato. Pare de desperdiçar nosso tempo.
— Vá embora então —, respondeu Neil. — Há mil atacantes que iriam saltitar com a chance de jogar com vocês. Por que não incomodam eles?
— Nós olhamos seus arquivos —, respondeu Wymack. — Escolhemos você.
— Tem certeza que não é porque gostam de desafios? Normalmente quando lhe dizem 'não' é não.
Pelo canto do olho, Neil percebeu Andrew ficar ereto na parede. Sem se importar, ele continuou.
— Não irei jogar com você, Day.
— Ah, você vai –, disse Kevin.
Neil revirou olhos. Kevin continuava sendo teimoso e mandão.
— Você não manda em mim.
Ao lado de Neil, Wymack deu de ombros.
— Talvez você não tenha notado, mas não vamos sair daqui até que diga sim. Kevin disse que temos que ter você, e ele tem razão.
— Deveríamos ter jogado fora a carta do seu treinador no momento em que abrimos —, disse Kevin. — Seu arquivo é deplorável, e eu não quero alguém com sua inexperiência em nosso time. Isso vai contra tudo o que estamos tentando fazer com as Raposas este ano. Felizmente, para você, o seu treinador nos enviou suas estatísticas. Ele nos enviou uma gravação para assistir você jogando. Você joga como se tivesse tudo a perder.
Neil ignorou tudo o que Kevin disse, exceto "Alguém com a sua Inexperiência". Kevin não o reconheceu. Se Kevin realmente se lembrasse dele, saberia que o arquivo era uma farsa. Saberia sobre a equipe da liga infantil na qual Neil participara. Se lembraria da discussão interrompida pelo assassinato daquele homem.
Neil não estava esperando o alivio que sentiu ao ouvir essas palavras.
— Então a gente se entende. Me deixe em paz e pare de desperdiçar o meu tempo e o seu. — diz Neil calmamente.
— Não. — Kevin voltou a falar — Você não está entendo, esse é o único tipo de atacante que vale a pena.
Neil o observou, procurando seu verdadeiro nome naquele rosto. Aparentemente, Exy ainda era a única coisa que Kevin pensava claramente. Bom, isso, Neil poderia lidar.
— Não é uma boa ideia, Day. — aconselhou Neil, sendo totalmente honesto.
— Anotado e descartado —, disse Wymack. — Algo mais, ou vai começar a assinar essa coisa?
Neil suspirou alto e longamente e então pensou em suas opções.
A ideia era tentadora. Kevin não se lembrava dele e possivelmente nunca se lembraria se Neil soubesse o que fazer. Ele não precisava interagir com Kevin fora de quadra, não era obrigado a isso. Ele acreditava que Kevin também não iria querer interações que Exy não estivesse envolvido. Depois do último ano, Neil conseguia lidar com pessoas com mais facilidade e, de novo, ele não precisava interagir com ninguém fora da quadra.
No entanto, as Raposas constantemente tinham a atenção do público, elas saiam em sites de fofocas e na Tv muitas vezes. E agora que Kevin estava no time, a atenção era redobrada. Isso seria um empecilho. Neil ganharia muita atenção e facilitaria seu reconhecimento para os capangas do seu pai. Assinar aquele contrato era assinar sua sentença de morte.
Neil olhou para o rosto de Kevin e depois para o dois tatuado na bochecha. Seu estômago revirando novamente. Seus olhos se fecharam e ele já sentia a náusea da ansiedade e do arrependimento.
Neil não sabia se estava preparado para enterrar o nome Neil Josten e partir para uma nova vida e cidade. Ele não sabia se estava pronto para desistir de Exy novamente...
Exy, a primeira coisa que o fez se sentir real em anos de fuga.
O contrato de Wymack era a permissão para continuar jogando, e uma chance de fingir ser normal um pouco mais de tempo. E Neil Josten era um nome que tinha validade garantida por cinco semana, contudo, por ele ser um idiota viciado em Exy, Neil Josten seria seu nome até ele ser descoberto e morto.
Seus olhos se abriram e ele olhou para Kevin, o mesmo havia se levantado e o olhava com uma carranca enquanto mantinha seus braços cruzados.
— E então? — perguntou Wymack.
A voz de sua mãe gritando em seu ouvido e puxando o seu cabelo fazia seus instintos de sobrevivência guerreavam contra sua necessidade, transformando-se em um pânico quase que debilitante.
"Abram não seja idiota. Não estrague tudo que eu fiz por você! Abram! Abram me ouça!" — Ela gritava.
Olhando para as palmas das mãos, Neil as fechou.
— Não sou mais Abram —, murmurou baixo para só ele conseguir ouvir essa afirmação. Talvez ele pudesse acreditar mais também.
Respirando fundo e levantando a cabeça, ele olhou para Wymack.
— Me dê a droga de uma caneta antes que eu me arrependa dessa decisão ridícula.
