Work Text:
Erwin Smith era um professor tão admirável quanto sua capacidade incrível de fazer com que os alunos se interessassem por sua matéria.
Ele ensinava inglês para um grupo de adolescentes que tinha em mente apenas o que eles gostariam de fazer no dia e qual seria o jogo mais divertido que seria lançado naquele mês. Os alunos o adoravam também, tratando-o como um herói, um capitão que eles gostariam de seguir.
Não eram apenas adolescentes que o admiravam, tendo em vista seu histórico exemplar e controle de classe admirável. Ele já havia escrito alguns artigos sobre educação positiva, participado de palestras motivacionais para jovens adultos e também era ótimo nos esportes.
O sorriso brilhante, a personalidade gentil e a inteligência extraordinária eram apenas algumas das poucas coisas que o marcavam como pessoa.
— Você é casado, professor? — Eren perguntou, com um sorriso malandro no rosto. — Minha mãe perguntou.
— Eu não acho que essa informação seja útil para você ou para sua mãe, Yeager. — respondeu, gentil. Os alunos começaram a rir enquanto Armin tentava confortar o rapaz.
Na verdade, era o único problema que o homem não conseguia resolver. Ele sempre era composto e tinha as respostas que os adolescentes com que ele trabalhava desejavam, mas, sua vida amorosa estava fora dos limites.
Não era porque ele não sentia-se confortável em comentá-la ou porque ele não queria. O ponto era que sua vida amorosa era vergonhosa demais para que ele pudesse compartilhá-la com facilidade.
Essa era a única história em que Erwin Smith não era tão admirável.
O ensino médio havia sido uma experiência comum para ele, já que sua popularidade era suficiente para mantê-lo longe de problemas. No dia em que ganhou o prêmio em uma competição de matemática em seu segundo ano, entretanto, as coisas foram um pouco diferentes. Seu pai estava com um grande sorriso enquanto tentava achar um bom ângulo para tirar a melhor foto.
— Erwin, você deveria sorrir! — o homem mais velho disse.
— Esse cara não sabe sorrir de verdade. — Nile, o melhor amigo do rapaz, disse enquanto batia em seu ombro com força. — Ele sempre tem uma expressão diplomática!
— Eu acho que é o jeito dele. — Marie falou, com um sorriso gentil.
— Você não precisa defendê-lo sempre! Ele só tem um sorriso estúpido mesmo. — o rapaz disse, enquanto puxava os dois lados do rosto do amigo para que se formasse um sorriso forçado.
— Pai, você já tirou quantas fotos? — Erwin perguntou, não se desvencilhando do contato de Nile. O homem mais velho já tinha tirado tantas fotos que provavelmente não haveria memória suficiente para mantê-las.
— Eu só tirei algumas… — ele começou a discursar sobre algo que seu filho não prestou atenção já que algo chamou sua atenção. No meio da multidão de pais e outros competidores, ele conseguiu perceber que havia um aluno mais novo fugindo de um grupo de alunos.
Erwin tinha um péssimo problema desde aquela época, que era…
— Ei! Onde você vai, cara?! — Nile perguntou, depois do amigo sair correndo sem falar nada para o grupo. — Ah, esse cara…
— Eu deveria chamar algum professor? — Marie perguntou, um pouco hesitante. Seu amigo assentiu com a cabeça e ela correu até a sala de professores enquanto Nile ia atrás do loiro que havia acabado de fugir, deixando um homem mais velho perdido sozinho.
— Crianças…? — ele segurava a câmera com uma expressão confusa.
Os formandos conseguiram chegar no pequeno beco da escola pouco depois do grupo, encontrando os garotos batendo em outro que parecia resistir com truques baratos e rápidos.
Ao mesmo tempo que ele não parecia precisar de ajuda, suas atitudes pareciam irritar ainda mais os mais velhos, que estavam em maior número. Erwin puxou um dos garotos pelo ombro, que tornou a xingá-lo antes de perceber com quem ele estava falando.
— Veter…
— Shh. — ele sorriu diplomaticamente e empurrou o garoto para Nile enquanto se aproximava dos outros. Assim que conseguiu entrar no círculo, ele ficou na frente do garoto que estava apanhando e cruzou os braços.
— Veterano! Você! — alguns pareciam genuinamente surpresos enquanto outros estavam realmente irritados com a interrupção.
— Veterano, não se preocupe. Nós precisamos ensinar uma lição para esse desgraçado, não se incomode. — um deles disse, fazendo com que Erwin se virasse para encarar a vítima de seus ataques. O rapaz era pequeno e estava usando o uniforme de um aluno do primeiro ano, que agora, tinha vários rasgos e estava sujo.
Ele não conseguiu ver seus olhos, pois o cabelo preto e longo do rapaz cobria seus olhos, entretanto, ele sentia que o rapaz exalava uma aura estranha e mortal. Naquela situação, ele parecia um fantasma cheio de ressentimentos por aqueles outros garotos, era um pouco assustador.
— O que ele fez para vocês? A violência nunca é uma opção válida.
— Ele roubou! — um deles disse, quase pulando em cima de seus amigos para bater mais no rapaz.
— Roubou o quê?
— Meu almoço! — a resposta fez com que se criasse um ponto de interrogação na cabeça de Erwin e de Nile. Que diabos?
— E como ele fez isso…?
— Bem, eu joguei fora, então…
— Você jogou fora e ele pegou. Isso não é exatamente roubo, garoto. — Nile disse, segurando um dos garotos.
— B-Bem, eu…
— Ele sempre faz isso! Nós só queremos nos vingar, não é algo ruim!
— Cara, shh! — um dos garotos puxou o amigo, tentando impedi-lo de piorar a situação do grupo. A voz de Marie foi ouvida e chamou atenção de todos para ela, que perceberam que ela arrastava um professor pelo braço. — Merda!
— Vamos logo! — o rapaz que Nile segurava se soltou dele e saiu correndo, sendo seguido pelo grupo e pelo professor que a amiga de Erwin havia acabado de trazer, gritando para que eles parassem.
— Que merda! Esse garoto era fortinho! — o rapaz disse, massageando sua mão que havia sido torcida pouco tempo antes. Marie também se aproximou, pegando sua palma para massageá-la, com preocupação.
— E você, está bem agora? — perguntou, abaixando-se para falar com o garoto que sobrou, com um sorriso gentil e tom baixo.
— …aia…
— Hm?
— Saia! — o garoto se levantou de repente, empurrando Erwin que precisou se apoiar suas mãos no chão para não cair. Na verdade, o tom autoritário havia o surpreendido mais do que a atitude física.
— Ei! O quê é isso? Ele acabou te ajudar! — Nile gritou, irritado. O Smith queria falar para o amigo que não era nada demais, mas antes que ele pudesse falar qualquer coisa, o rapaz de cabelos negros aumentou um pouco seu tom.
— Eu pedi ajuda? Eu estava bem sozinho. Isso não era problema de vocês! — bradou, irritado. — Você acha que é um cavalheiro ou a merda de um herói? Se metendo na situação de outras pessoas! Acha que porque é loiro e tem olhos azuis, é o príncipe de alguma historinha?!
— Ow! — Nile tentou dar um passo, mas Erwin ergueu sua palma, impedindo-o e Marie olhou para a situação com uma expressão confusa, observando o amigo.
A expressão dele era estranha.
— O quê foi?! — o rapaz de cabelos negros encarava o Smith com raiva, mas não obtia nenhuma resposta além do sorriso esquisito que ele tinha em seu rosto, coisa que, parecia ser um pouco desconcertante.
— Você tem olhos bonitos! — o rapaz disse, de repente, fazendo com que a expressão de todos mudasse imediatamente. A surpresa era palpável e era possível ouvir algum tipo de pássaro à distância.
PAFT!
Erwin voltou para casa com uma grande mancha vermelha em seu rosto naquele dia, mas, ele não parecia estar triste ou furioso com isso, coisa que deixava seus amigos e seu pai muito confusos.
Antes de ir embora, claro, ele perguntou o nome daquele rapaz para seu professor padrinho, que o respondeu enquanto segurava o colarinho um dos garotos que havia acabado de pegar.
— Ah, é Levi. Ele é um garoto problemático fora da escola, mas respeita as aulas e tem boas notas. — disse, observando o rapaz se afastar. — Não acho que seja necessário castigá-lo por seu mau temperamento.
No início, foi por pura curiosidade e interesse em conhecer uma pessoa que não o tratava como um ser perfeito e que nunca cometeria nenhum erro. Na verdade, era engraçado pensar nos exemplos que o garoto usou para descrevê-lo e seus olhos — que eram assustadoramente atraentes — faziam com que ele quisesse conhecer mais sobre aquele rapaz.
Ele costumava usar os uniformes rasgados, mas eles nunca estavam sujos, coisa que era muito admirável considerando que os outros garotos sempre tentavam sujá-lo.
Erwin se aproximou dele algumas vezes, tentando começar algum tipo de amizade, entregando garrafas de água para ele ou iniciando a tentativa de uma conversa. Claro, a maioria das vezes essa abordagem falhava, porque Levi era cabeça dura e não parecia querer conversar com o Smith.
Claro, quando ele demonstrava que estava desconfortável, Erwin tinha a certeza de deixá-lo em paz e sumir de sua vista. Entretanto, às vezes, ele parecia não se importar com a presença do veterano e respondia suas perguntas com respostas curtas, o que era um grande avanço!
Certa vez, ele aceitou a garrafa de água depois de uma aula de educação física, coisa que fez com que o Smith sentisse que os dois estavam finalmente começando a ser amigos.
O cabelo de Levi também era longo demais, coisa que fazia com que não fosse possível observar seus olhos ou saber o que ele estava sentindo. Erwin apenas sabia como ele era porque no dia em que o “salvou”, o rapaz ficou com tanta raiva que sua franja escorregou para o lado.
Então, um dia, quando as duas turmas estavam tendo educação física no mesmo período, Erwin se aproximou dele — com sua confiança falsa — e ergueu um prendedor de cabelo de morango que havia pego emprestado de Marie.
— O seu cabelo parece estar incomodando. — disse, com seu sorriso diplomático.
— E onde que isso é problema seu? — o rapaz perguntou, em um tom irritado.
— Bem, um veterano não pode cuidar de seu calouro? Parece que seu cabelo incomoda quando você corre. — o loiro perguntou, não muito confiante de que sua resposta iria funcionar. Levi, entretanto, pareceu aceitá-la, relutantemente.
— Tanto faz. — murmurou, pegando o prendedor da mão do mais alto. Na verdade, ele tentou prender o próprio cabelo por algum tempo, antes de não conseguir levantar seus braços alto o suficiente e sentir-se injustiçado. — Tsc…
— Você precisa de ajuda? — Erwin perguntou, arriscando um pouco.
— Hm… — ele murmurou, entregando o prendedor para seu veterano. Graças ao costume de amarrar o cabelo de Marie, foi fácil para ele erguer um simples rabo de cavalo com os longos cabelos pretos do outro rapaz. Entretanto, no momento em que ele tocou nos fios do outro, uma expressão surpresa surgiu em seu rosto. — Por que você está demorando tanto?
— Ah, não…É que… — ele terminou de apertar o penteado e acariciou o cabelo do outro com cuidado, um pouco encantado com a textura. — É macio…
— Ah?! — a nuca de Levi ficou vermelha quase que imediatamente, junto de seu rosto, aproximando-se da cor do morango que enfeitava o prendedor. Ele se afastou de Erwin rapidamente e virou-se para encará-lo.
E mais uma vez, os olhos brilhantes e raivosos puderam ser vistos pelo mais alto, que perdeu-se em sua escuridão por alguns segundos.
— Você realmente tem olhos encantadores… — disse, sem pensar muito. Levi piscou algumas vezes antes de correr para longe, olhando para trás uma única vez, mostrando seu dedo do meio ao mais alto.
— Você é um idiota! — gritou.
O relacionamento dos dois progrediu normalmente depois disso, entretanto, a expressão de Levi não saiu da cabeça de Erwin tão facilmente. Por algum motivo, o rapaz continuava pensando que ela era muito fofa e que, mesmo que o outro estivesse o xingando no momento, ela era estranhamente reconfortante.
Claro, graças a esses pensamentos, o Smith teve um sonho esquisito naquela semana, onde ele beijava Levi atrás da escola, fazendo com que ele precisasse evitar o outro por alguns dias.
— Você ‘tá esquisito. — o rapaz disse, quando finalmente conseguiu prender o Smith em um canto.
— Eu? — perguntou, tentando não encarar os olhos do outro, que agora, ele deixava à mostra graças ao rabo de cavalo que ele costumava usar todos os dias, porque, segundo ele, fazia-o sentir-se mais limpo. O problema era que, o coração confuso de Erwin não poderia aguentar aquele olhar, principalmente por causa de sua consciência culpada.
— Não, é o idiota do Nile. — disse, sarcástico. — É claro que é você, imbecil!
— Eu não fiz nada de diferente…
— Você costumava me seguir como um cachorrinho, por que agora você volta para trás quando me vê no corredor? — Levi perguntou, fazendo com que Erwin finalmente olhasse para ele, confuso.
— Eu pensei que você não gostava que eu ficasse seguindo você…
— Bem, agora eu já me acostumei. — o menor murmurou, um pouco sem graça. Novamente, aquela expressão que ele fazia era um problema para Erwin, que sentia seu coração acelerar.
Graças a essa atitude, o Smith precisou parar de evitar Levi e sentiu que, mesmo que seus sentimentos não fossem tão puros quanto uma curiosidade ou vontade de fazer mais um amigo, ele ainda queria estar do lado do outro e aproveitar cada momento junto dele.
Aos poucos, Levi começou a fazer parte do grupo de amigos dele e se tornou uma parte importante de sua vida, alguém que ele estimava e desejava mais do que qualquer outro. Claro, não demorou muito para que Marie descobrisse e acabasse contando para Nile, que estava alheio a essa situação.
— Que boa piada, Ma! — ele disse, entre risadas, que foram aos poucos parando no momento em que ele percebeu a expressão tímida de seu amigo. — N-Não é uma piada?
— Você é muito sem noção, Nile. — a moça disse, suspirando.
— M-Mas, cara! Você não namorou Marie naquela época? Como isso…
— Bem, pessoas bissexuais existem, cara.
— Oh…
— E agora? O quê você vai fazer? Nós iremos nos formar daqui dois meses.
— Eu ainda não sei…Mas, quero contá-lo sobre meus sentimentos. — disse, com um sorriso. Claro, que, mesmo apesar do choque inicial de Nile, ambos seus amigos o ajudaram a planejar como ele faria isso e decidiram que, para não atrapalhar as provas de Levi, ele teria que fazer sua declaração depois dessa época.
O problema é que vários imprevistos começaram acontecer, fazendo com que a data tivesse que continuar a ser adiada por mais tempo. No dia de sua formatura, em meio a neve e a muitas famílias animadas, Erwin decidiu que deveria tomar a iniciativa, independente de qualquer problema que pudesse ocorrer.
E, quando a cerimônia finalmente acabou, ele correu atrás de Levi, que havia ido para a escola apenas para vê-lo se formar e sorriu para o rapaz, que estava com uma pequena presilha que Marie havia o presenteado tirando sua franja do rosto.
— Você não está com frio? — Erwin perguntou, tirando sua jaqueta e colocando sobre os ombros do rapaz, que usava roupas leves. Ele sabia da situação financeira complicada do outro, mas também sabia que era um assunto que ele não deveria tocar nunca se não quisesse começar uma briga, mas, isso não impedia que ele cuidasse dele indiretamente.
— Você disse que precisava conversar? — direto ao ponto, como sempre.
— Levi… — o formando respirou fundo antes de se virar para ficar na frente do outro e encará-lo com olhos brilhantes e esperançosos. — Eu…Eu gosto de você!
Silêncio.
Por alguns minutos, tudo que os dois podiam ouvir era o barulho de algumas famílias conversando na frente da escola e sentir os incômodos flocos de neve caírem sobre seus corpos.
Na verdade, o mais congelante para Erwin foi a expressão que ele viu sua paixão fazer ao ouvir essas palavras. Para se declarar, o rapaz queria ter a certeza de que Levi também gostava dele para não deixá-lo desconfortável e por isso, fez muitos testes, que sempre faziam-o pensar que o sentimento era mútuo.
Entretanto, naquele momento, o olhar frio e sem sentimentos da pessoa a sua frente fazia com que ele sentisse um estranho nervosismo que ele nunca havia experienciado antes. Levi não parecia o mesmo de sempre e, por algum motivo, Erwin sentiu que havia feito uma bobagem ao se declarar.
— Eu não posso retribuir seus sentimentos.
E, depois disso, ele teve certeza que foi um erro.
O professor se esparramou em sua mesa, sentindo-se mal por lembrar dessas coisas apenas porque um de seus alunos perguntou sobre sua vida amorosa. Na verdade, ele não era tão infantil, mas, por algum motivo, quando se tratava de Levi Ackerman — o homem que ele já amou e continua amando com todo seu ser — ele conseguia ser realmente patético.
O dia da formatura foi o último em que ele viu Levi antes de descobrir sobre a doença terminal da mãe do outro e sobre como ele precisou se mudar para a casa de seu tio em outro país. Depois que recebeu essas informações, ele finalmente compreendeu porque havia levado um fora e se arrependeu de não ir atrás do outro antes para descobrir sobre isso antes que ele se mudasse.
Ele estava ocupado demais chorando em seu quarto.
Claro, esse poderia ser o fim de sua história patética de amor juvenil, se, por acaso, ele não descobrisse que iria trabalhar na mesma escola que o Ackerman lecionava como professor de ciências.
O reencontro dos dois foi tão chocante que Erwin quase desmaiou. Não era de seu feitio fazer algo tão vergonhoso, entretanto, quando se tratava de Levi, ele não era mais o capitão impiedoso e admirável e sim, um simples golden retriever idiota.
— Vocês se conhecem? — outro docente de ciências, que apresentou os dois, Zoe Hange, perguntou, com curiosidade.
— S…
— Não. — Levi respondeu, puxando-a para que eles continuassem andando. — Os alunos estão esperando, vamos logo.
— E-Ei! Eu quero falar com o professor bonitão! — protestou, enquanto ambos deixavam um Erwin confuso para trás.
De qualquer forma, essa era sua situação atual. Ele estava trabalhando com seu antigo amor de escola, que havia lhe dado um fora e, para piorar, ele ainda estava apaixonado por ele.
O cabelo curto que ele usava agora combinava ainda mais com sua aparência e fazia com que ele parecesse muito mais maduro, mais até que o próprio Erwin, que era um ano mais velho. Ele também permanecia atraente e com um olhar assassino interessante.
Era frustrante.
Agora, os alunos estavam ainda mais curiosos sobre a vida amorosa de seu professor, já que, esse era o único assunto que ele evitava como o inferno. Claro, adolescentes costumam perder interesse rápido e não eram todos que queriam incomodá-lo, fazendo com que houvesse apenas um grupo…
— Professor, você não gosta de ninguém? — Eren perguntou, curioso. Ele era um rapaz alto, logo, ele podia manter seu tom baixo pois Erwin poderia escutá-lo mesmo se não estivessem próximos.
— Eren, não seja tão inconveniente. — Armin, o amigo do garoto, repreendeu, ajeitando seus óculos enquanto dava passos largos para alcançá-los. — Mas professor, você gosta?
— Garotos… — Mikasa, a garota que usava apenas roupas pretas e não costumava falar, deixando que as correntes de sua saia entregassem sua presença, chamou, sem graça.
— O professor não se importa! — Jean, o outro rapaz que era pouco mais alto que Eren e usava uma jaqueta do time da escola, interviu. — Se ele estivesse incomodado, teria nos expulsado faz tempo.
— Bem, não quero me colocar em problemas com a direção da escola. — Erwin respondeu, fazendo com que o grupo parasse de andar imediatamente. Quando o homem virou para ver seus alunos, ele soltou uma risada fraca e balançou a cabeça. — Estou brincando.
— Não brinque dessa maneira, ‘fessor! — Eren disse, aproximando-se dele mais uma vez.
— Quase que meu coração saiu pela boca. — Armin falou, quase em um murmúrio.
— De qualquer forma, professor, você… — o rapaz de cabelos pretos continuou seu assunto, porém, Erwin parou de ouvi-lo assim que viu uma silhueta saindo de uma das salas, com as mãos nos bolsos e um olhar vago. Claro que o coração dele acelerou e seus olhos brilharam, já que era impossível evitá-lo. — Prof…
— Sh! — Armin beliscou o amigo e o fez ficar quieto no momento em que percebeu a mudança de seu professor. Ele sabia que tanto ele quanto Jean tinham alguns problemas em ler o ambiente, entretanto, pela primeira vez, o rapaz percebeu que eles não poderiam estragar de maneira alguma.
O garoto observou o olhar de Erwin e o seguiu até encontrar o professor de ciências, que estava limpando o bebedouro antes de puxar sua garrafa de água para enchê-la. Ele nunca havia visto esses dois conversando, mas, por algum motivo, aquele ar era esquisito.
— Ei, Armin, o quê… — Eren murmurou no ouvido do mais baixo, que virou a cabeça dele para o professor que estava ao lado, fazendo-o seguir seu olhar como o loiro havia feito a pouco. Ele suprimiu um suspiro de surpresa que chamou a atenção do homem mais baixo do outro lado do corredor.
O comportamento normal de Levi seria chamar atenção dos alunos por estarem no meio do corredor impedindo a passagem dos outros e depois bateria na cabeça de algum deles — sendo Eren ou Jean, normalmente — para que eles aprendessem a lição, logo, os mais altos do grupo cobriram suas cabeças como uma tentativa de defesa.
— Ah, desculp…! — Jean sequer conseguiu terminar sua frase, pois a expressão do professor mudou drasticamente antes dele virar para o lado contrário e sair rapidamente, sem sequer encher sua garrafinha. O grupo de estudantes demorou alguns segundos para raciocinar o que havia acabado de acontecer, acordando ao ouvir um longo suspiro chateado vindo do professor que estava ao lado deles.
— Espera! O que foi isso?! — Jean perguntou, virando-se para o homem.
— Eu também queria saber. — Erwin respondeu, perdido em seus próprios pensamentos. Claro que, na presença de alunos, o professor nunca deixaria escapar um pensamento tão pessoal quanto esse, mas novamente, se tratando de Levi, o loiro não tinha tanto controle sobre si.
E talvez, esse pequeno erro tenha sido a causa dos problemas que se sucederam depois desse dia.
Erwin sabia que crianças têm uma grande tendência à fantasia, além de acreditar fielmente em seus ideais pessoas e lutar por aquilo que eles desejam, mas, ainda que ele soubesse desse fato, ele não esperava que seus alunos se juntassem para fazer algo para um professor.
Ainda mais, ele não fazia ideia de que um simples comentário e suspiro seriam suficientes para que aquele grupo entendesse um pouco de seus sentimentos. Eles não tinham conhecimento da história e muito menos quais eram as intenções de ambos os professores, mas ainda sim, decidiram que tomariam alguma atitude.
— Professor, não se preocupe! Nós iremos te ajudar! — Eren disse, enquanto Jean assentiu com a cabeça. Armin e Mikasa não pareciam impedi-los como faziam normalmente, ao mesmo tempo que estavam mais compostos que os outros dois.
— O que vocês…
Não houve uma explicação, mas Erwin sabia que havia algo errado com aquelas crianças, principalmente quando ele percebeu que Eren estava tentando ficar depois da aula mesmo que não houvesse necessidade.
Geralmente esse garoto fazia de tudo para sair da escola o mais cedo possível, logo, era um pouco estranho que ele estivesse fazendo esse esforço extra.
— Você precisa me falar alguma coisa, Eren?
— Sabe, professor, eu estive conversando com o professor Levi… — ao ouvir esse nome, o mais alto sentiu algo coçar em seu coração mas preferiu fingir que não havia sido afetado, coisa que deve ter funcionado já que Eren pareceu querer continuar o testando. — Eu acho que ele é um cara muito legal! Mesmo que ele me bata e grite comigo, ou me faça de empregado, ele é bem decente. Tipo, acho que se ele tivesse alguém para amar, acho que ele seria super dedicado!
Certo, com certeza havia algo errado com aquelas crianças.
Não foi apenas o comentário super direto de Eren ou seus assovios inconvenientes quando Erwin e Levi estavam no mesmo corredor, mas sim, um trato implícito que o grupo de adolescentes tinha entre si. Afinal, não era normal que às três da tarde Jean perguntasse se podia ajudar o professor de ciências e tomasse o caminho mais longo, o qual Erwin passava para observar o jardim da escola.
Também não era comum que Armin pedisse conselhos para Erwin sobre como escrever bilhetes carinhosos em inglês — afinal, não tinha razão para que um adolescente escrevesse “Tome um café da manhã reforçado!” — ou muito menos que Mikasa pedisse para que Erwin a ajudasse a procurar por seu jaleco de laboratório nos dias que eles tinham aula.
Havia claramente algo acontecendo e Erwin, apesar de sempre surpreender-se ao ver Levi, não deixou tal fator escapar de seus olhos. Certo dia, ele segurou Armin mais tempo antes de entregar-lhe o bilhete de exemplo.
— Você sabe, por que sinto que vocês estão aprontando?
— Não faço ideia, professor. Eu acho que está tudo normal!
— O problema é esse. O normal de vocês é aprontar algo, mas eu não estou vendo nada realmente grande ultimamente.
— Hmmm… — Armin mordeu os lábios e desviou o olhar, coisa que confirmou as suspeitas de Erwin. Afinal, o que havia na cabeça dessas crianças?
— Você sabe que não vou brigar com você, me diga, o que vocês estão tentando fazer?
— Professor… — o pequeno nerd pareceu ter um pouco de remorso por um momento, coisa que o fez sentar novamente. — Você gosta do professor Levi?
— O-O quê?! — a reação o entregou, apesar de saber que ele provavelmente teria que responder uma pergunta do tipo ao confrontar o garoto. Claro, ele tentou voltar sua pose depois disso, mas falhou, já que Armin apenas suspirou.
— É por isso, prof! Nós queríamos ajudar, já que o professor Levi é um pouco… — ele pareceu hesitante em terminar sua frase. — Difícil de lidar. Eu sei que estamos passando um pouco da linha, mas professor, é importante que exista romance na vida de vocês também! Por que um aluno pode se apaixonar, mas um professor tem que se manter em controle? É injusto!
Erwin sentiu uma vontade imensa de rir do discurso de seu aluno, mas felizmente, ele ainda tinha noção de que tal atitude poderia afetá-lo negativamente. De onde aquele garoto tirou que professores não podem se apaixonar? É certo que eles precisam manter a discrição, mas não era impossível de acontecer.
De qualquer forma, ao fim de tal argumentação, o professor de inglês balançou a cabeça com um sorriso e fez um cafuné na cabeça do menor.
— Eu entendo qual é a intenção de vocês, mas não posso permitir que isso continue. Apesar de estar feliz, não é legal que vocês atrapalhem seu outro professor, então fale para os outros pararem com isso. — disse, sincero. Os olhos de Armin brilharam, mas ele entendeu que aquilo era apenas mais uma repreensão gentil do mais velho.
— Professor, você acha que expor nossos sentimentos é algo tolo? — o jovem perguntou, como se estivesse tentando uma última coisa antes de desistir de seu sonho infantil. Erwin ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse refletindo sobre a pergunta dentro de sua própria realidade, o que de fato, estava fazendo.
— Hm, não. — respondeu, por fim. — Acredito que existem bons e péssimos momentos, talvez, se você realmente se importar com a pessoa, independente de ser mútuo ou não, falar sobre o que você sente é necessário.
— Bem…Professor, eu entendo sua preocupação e vou falar para os outros, mas não consigo entender porque você não quer ter mais chances de encontrar a pessoa que você gosta, então…Você realmente gosta do professor Levi?
— Hm… — o homem pareceu refletir por um momento, não como se estivesse considerando se deveria mentir para seu aluno ou esconder um fato por questão de aparências, mas sim, como se houvesse algo que ele mesmo quisesse entender antes de expressar seus sentimentos em voz alta. — Sim. Eu gosto dele, Armin.
[•]
Graças a bagunça que seus alunos causaram, Erwin se sentiu obrigado a tomar alguma atitude e enfrentar Levi para explicar o que eram aquelas mensagens distorcidas.
— Professor Ackerman, podemos conversar? — ele perguntou, no único dia em que o outro homem não conseguiu fugir. Levi não demonstrava nenhuma reação, assim como fazia quando eles eram adolescentes, o que agora, por algum motivo, foi um tipo de maldição para o loiro.
— Claro. Por que não fazemos isso aqui?
— Ah, bem… — ele olhou em volta, observando os professores e alunos que passeavam pela sala. Levi pareceu notar a mesma coisa e suspirou, levantando e indo até a porta.
— Dez minutos. — foi tudo que Erwin precisou para sorrir abertamente antes de ir atrás do outro homem com rapidez, quase como um patinho filhote. Era uma cena ainda mais chamativa graças à diferença de altura, o que fez com que alguns adolescentes, que observavam de longe, se cutucassem.
— Oh meu Deus, nosso plano funcionou! — Eren disse, animado.
— Eu sabia que o professor Smith iria conseguir, ele é incrível. — Jean constatou, um pouco orgulhoso. Armin observou a cena um pouco incerto sobre a funcionalidade das ideias que aquele grupo tinha tomado.
Afinal, o loiro tinha quase certeza de que os sentimentos daqueles dois professores não haviam sido “desenvolvidos” graças a alguns bilhetinhos e comentários infantis de um grupo de alunos, já que, pela maneira que Erwin falou sobre seus sentimentos, havia muita história escondida por trás dos panos.
Quando os dois homens chegaram atrás da escola, Levi se virou para encarar o outro que de repente sentiu um nervosismo estranho, como se ele tivesse voltado a ser um jovem imaturo.
— Eu queria falar sobre o comportamento dos nossos alunos…Eles interpretaram uma atitude minha de forma errônea e por isso começaram a incomodá-lo.
— Você quer dizer os bilhetes e aquelas desculpas estúpidas para que nós pudéssemos nos encontrar? Eu já resolvi. — disse, cruzando os braços. Erwin ficou um pouco surpreso com a atitude do outro.
— Você resolveu?
— Eu conversei com eles e perguntei porque eles estavam agindo daquela maneira, o que me rendeu uma confissão sobre como eles queriam que eu experimentasse um sentimento diferente do meu “mau humor desagradável”.
— Foi isso que eles falaram para você? — Erwin não pode evitar de sorrir com a maneira que o outro narrou sua história. Na verdade, fazia muito sentido que as crianças agirem daquela maneira por intenções pessoais, já que, apesar da sinceridade quanto a preocupação com sentimentos de seus professores, era mais crível que houvesse um benefício para o grupo.
— Aquele garoto, Eren, realmente precisa de disciplina, eu não sei o que eles estão assistindo para pensar dessa maneira.
— Acredito que eles não consideraram que, mesmo em um relacionamento, você não iria mudar seu jeito de agir.
— É claro que não. Que tipo de bobagem é essa? Porque o amor me mudaria quando… — ele parou de falar de repente, o que fez com que Erwin, que estava inicialmente surpreso, sorrisse ao perceber a falha do outro homem.
— Professor Ackerman…Não. Levi, por que você está fingindo que não nos conhecemos?
— Não sei sobre o que você está falando.
— Nunca levei sua rejeição a sério, principalmente depois que soube sobre tudo que tinha acontecido na época. — o loiro disse, sincero. — Na verdade, eu sinto muito por colocá-lo em uma situação difícil, hoje eu entendo o quão imaturo fui ao fazer aquela declaração.
— Apenas idiotas ficam presos ao passado, você deveria parar de pensar sobre isso. — Levi disse, virando-se de costas para Erwin. — Seus dez minutos estão quase no fim.
— Levi, eu ainda gosto de você. — foi dito no momento em que um vento frio passou pelos dois homens. — Não vou mais fugir disso e espero que você não fuja também.
— Quem está fugindo?! — Levi se virou de repente, surpreendendo-se com a proximidade do loiro, que puxou um pouco de sua franja para cima, a prendendo com uma presilha de morango que havia comprado alguns dias atrás.
— Eu queria falar com você sobre isso: Eu também já conversei com as crianças, então não pense que as coisas que irei fazer são algo que elas planejaram. — foi tudo que ele disse, sorrindo para o homem com uma expressão séria que, acima de tudo, estava tão vermelha quanto a pequena presilha em seu cabelo. — Está crescendo de novo.
E, por conhecê-lo, Erwin tinha certeza de que não era porque o outro homem estava com raiva.
[•]
Como havia prometido, o Smith cumpriu com sua palavra e começou a flertar para valer com o outro professor, utilizando de suas próprias táticas. Não era impossível que algumas flores fossem deixadas na mesa do professor de ciências — que sempre era motivo de piada e comentários em sala — ou que o professor de inglês fosse até ele no final do dia para pedir algumas dicas sobre controlar os alunos em aula.
Era óbvio que era uma desculpa, afinal, que aluno não se comportava na aula do professor Smith? Era quase que impossível para alguém lhe causar problemas. E ainda sim, Levi, apesar de sempre revirar os olhos ou suspirar diante das atitudes bobas do outro homem, o escutou e deu sua opinião quanto às situações hipotéticas que lhe aconteciam.
— Você realmente vai continuar fazendo isso?
— O quê?
— Não tenho espaço para tantas flores em casa, elas soltam muito pólen e sujam tudo. — o homem disse, um pouco irritado. Ele estava sendo sincero e Erwin percebeu que sua atitude realmente foi impensada.
— Sinto muito. Eu não sabia que você iria guardar todas.
— Eu deveria ter jogado fora?
— Não! — ele parou de andar de repente, um pouco chocado com a maneira direta do outro. — Vou parar com isso. Você quer outro tipo de presente?
— Não quero nada. — cortou, dando mais alguns passos para frente. Era um sinal para que ele parasse com aquelas bobagens e Erwin se questionou se havia ido longe demais em seu flerte.
Não era como se o Smith fosse inseguro quanto ao seu próprio valor, entretanto, quando se tratava de Levi, ele não conseguia deixar de se preocupar. Ainda que soasse estúpido, ele não queria estragar tudo e muito menos afastar o outro homem mais uma vez.
Pois mesmo depois de tantos anos, seu amor pelo outro havia florescendo de maneira que mesmo aquele inverno no qual eles se separaram soava como uma velha memória que não fazia tanto efeito. Foi apenas um desentendimento que adolescentes têm quando os hormônios estão à flor da pele, uma briga boba que já havia sido superada.
— O que você está esperando? — Levi perguntou de repente, virando-se para o homem que havia entrado em seus próprios devaneios. Erwin levantou sua cabeça, um pouco chocado. — Não foi você quem me chamou para um jantar? Eu estou faminto.
— Ah, claro! — o loiro rapidamente chegou próximo do outro, com um sorriso bobo. Antes de fazer aquilo que tinha intenção, entretanto, ele tirou um pequeno pacote de lenços do bolso do paletó para limpar suas mãos e finalmente puxar a mão do professor de ciências para entrelaçar com a sua. Levi não pareceu achar a atitude repulsiva, apesar de seu problema com germes, o que foi como um sinal de que estava tudo bem.
Afinal, mesmo para Levi — que não demonstrava sentimentos abertamente e que havia sido aquele que rejeitou os sentimentos de Erwin — estar com o Smith era algo que ele sempre desejou do fundo de seu coração. Apesar de todos os problemas que os dois enfrentaram e do tempo separados que tiveram que viver, finalmente, aquele jovem problemático estava novamente ao lado daquele que havia sido o primeiro a entendê-lo e tirá-lo da vida que havia o feito perder sua verdadeira identidade.
Porque o professor de ciências, que nunca sorria e sempre parecia irritado com algo, finalmente sorriu gentilmente ao ouvir o professor de inglês falar sobre quais eram seus planos para a noite — e o futuro — que eles iriam compartilhar juntos.
Epílogo
Eren colocou sua mão no queixo, um pouco chocado com a cena que havia acabado de presenciar, enquanto Armin estava focado em terminar seu livro.
— Ainda que nossa intenção fosse fazer o professor Ackerman se tornar um pouco mais humano, isso não é um pouco bizarro?
— O quê?
— Ele sorrindo. Parece uma montagem em tempo real.
— Concordo. — Jean respondeu, igualmente embasbacado. Armin suspirou e ignorou os amigos, enquanto Mikasa observava em silêncio.
Na verdade, eles não haviam feito nada. Aqueles homens já se amavam a muito tempo e a gótica tinha certeza disso.
