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É incrível como a percepção de tempo é diferente para cada pessoa e para cada momento.
Uma aula entediante de 50 minutos pode parecer durar 2 horas, assim como uma reunião maçante de 2 horas pode parecer se arrastar por 5 horas a fio. E essas 5 horas podem parecer dias e dias.
Um filme de 1 hora e 30 minutos, com a sua pessoa preferida, acaba virando somente 30 minutos, e, ainda assim, são os 30 minutos mais rápidos de todos.
Aquele momento específico que você se inclina para beijar alguém — seu melhor amigo da vida toda — se encurta e se estende, como um elástico quando é puxado, e depois largado. Pode acabar sendo milésimos de segundos, que duram o piscar de um olho, ou minutos inteiros, grande o suficiente que você consegue ver sua vida passando pelos seus olhos, detalhadamente, como um último suspiro da sua existência. Talvez, se você esticar os braços o suficiente, consegue até mesmo tocar e segurar cada um desses momentos, tentando não deixá-los ir, porque se eles forem, você entende que acabou. Fim. Morte.
Minho consegue ver cada um deles enquanto todos os seus sentidos entram em sinapse, enquanto pânico e satisfação tomam conta dele. Ele quer isso, talvez ele queira isso há muito tempo, talvez anos. Mas ele sente medo. Porque o tempo está se esticando e se encolhendo tão rapidamente que parece que tudo está acontecendo ao mesmo tempo.
Ele consegue ver quando ele e Jisung estavam no parquinho que tinha no condomínio onde moravam até os 15 anos. Minho tinha 10 anos, Jisung, 8. Jisung pegava impulso com as pernas e com o tronco, sentado no balanço, os cabelos acompanhando o movimento do corpo, e Minho estava no chão, brincando com a terra — algo como medo de altura; Minho nunca suportou, desde criança, por mais que a altura fosse apenas duas vezes o seu tamanho.
Minho puxava alguns ramos de grama com os dedos, sujando-os, colocando a terra arenosa num potinho vermelho, enquanto Jisung ria e gritava pela adrenalina toda vez que balançava. O som era bom, Minho sentia como se estivesse em casa sempre que ouvia Jisung gargalhar dessa forma, e, sem perceber, ele sorria junto.
Mas aconteceu muito rápido.
Num momento, Jisung estava lá no alto, gritando para que Minho o olhasse; no outro, Jisung estava no chão.
Foi um dos momentos que o tempo pareceu esticar e encurtar, tudo junto.
Jisung estava no chão, um bico nos lábios. Estava prestes a chorar. Seu joelho estava machucado, arranhado, sangrando. Minho não soube o que fazer. Seus olhos estavam arregalados porque o sorriso de Jisung tinha morrido tão subitamente, como se tudo tivesse sido apenas imaginação de Minho, nem mesmo o eco da gargalhada dele tinha sobrevivido na cabeça de Minho.
Ele piscou uma, duas, três vezes, lentamente. E o tempo passava muito rapidamente, mas parecia que ele estava encarando a testa franzida de Jisung há horas, tentando sair desse loop de ver seu melhor amigo com dor.
Quando Jisung olhou-o, os olhos molhados e vermelhos, o corpo de Minho se moveu sozinho. Se levantou, limpando as mãos sujas em suas calças também sujas, e correu na direção de Jisung. A cada passo, ele conseguia perceber que Jisung estava mais e mais perto de chorar.
Quando Minho se ajoelhou na frente dele, Jisung deixou que as lágrimas caíssem, molhando o rosto vermelho e suado. Não tinha um pingo de remorso ou vergonha. Sabia que não precisava bancar o forte na frente do melhor amigo.
“Minho,” ele soluçou, as mãos indo até o machucado, tampando-o, “tá doendo.”
“Eu sei, Sung,” Minho falou, colocando uma mão no ombro do amigo, preocupado, o coração acelerado e o estômago em um nó. Jisung abraçou-o, porque Minho estava ali, e Minho era um alicerce para o mais novo, e Minho se limitou a ouvi-lo chorar e a fazer carinho no cabelo bagunçado e emaranhado do amigo.
Suas mães chegaram pouco tempo depois; elas estavam por perto, sempre de olho neles. Jisung em momento algum soltou o braço de Minho.
Quando já em casa, Minho se recusou a deixar o lado de Jisung, e Jisung se grudou ao amigo como se soltá-lo fosse muito pior e doloroso do que o joelho machucado dele.
“Vamos passar remédio, filho,” a mãe de Jisung falou, mostrando o frasco de algo que deveria servir para acalmá-lo, mas só o deixou mais agitado. Ele negou com a cabeça, desesperado, e continuou negando todas as vezes que a mãe tentava se aproximar, ou repetia a importância de limpar e cuidar da ferida.
“Sung,” Minho chamou, segurando a mão de Jisung, apertando-a, soando terno e sábio, como se fosse muitos anos mais velhos, e não somente dois. Jisung encarou-o como se Minho e somente Minho soubesse de todas as verdades desconhecidas do mundo, como se ele fosse muitos anos mais velho, e não somente dois. “A gente tem que limpar o machucado.”
Jisung encarou-o, os olhos grandes e brilhosos e molhados e tão Jisung. Ele concordou, sem hesitação. Minho sorriu. Ele sorriu de volta.
A mãe de Jisung deixou o frasco do remédio com Minho, junto com uma gaze. Jisung sentou na tampa fechada do vaso sanitário, e Minho se agachou entre as pernas do amigo, a gaze e o remédio na mão.
“Juro que vai ser rápido, você nem vai sentir,” ele confortou e Jisung somente concordou, acreditando em cada palavra proferida por Minho. Cada uma delas.
Com todo cuidado e leveza que Minho dedicava somente ao gato preto que às vezes aparecia pelo condomínio e a Jisung, ele passou o remédio. Foi rápido, como ele prometeu, mas ele teve certeza que todos os arranhões e machucados estavam encharcados pelo o remédio. Jisung tinha as mãos fechadas em punhos, os lábios em um bico e os olhos apertados, se negando a encarar o que Minho estava fazendo.
Quando ele se levantou, Jisung abriu o olho e só então encarou o machucado, olhando-o como se ele já fosse algo de anos atrás, apenas uma memória que ele estava pronto para esquecer em alguns minutos. Mesmo assim, Minho deixou um beijo no topo da cabeça dele, porque ele foi muito bom e corajoso. Como um prêmio. Jisung amava ser reconhecido e Minho amava reconhecê-lo.
Quando saíram do banheiro, a mãe de Jisung esperava-os com picolés. Um de chocolate com granulado para Jisung, e um de limão para Minho — seus favoritos.
Nesse dia, Minho aprendeu que era a pessoa de Jisung. Aquela pessoa que ele iria quando estivesse em apuros, ou feliz. Aquela pessoa que ele confiava em cada e qualquer palavra que saísse da boca e, apesar de ser uma responsabilidade enorme, era algo que Minho tinha grande orgulho.
Ser a pessoa de Jisung.
Quantas outras pessoas podiam falar isso? Zero, Minho sabia. E ele adorava isso. Era algo que ele vestia como um prêmio, levantava o queixo e o nariz para que todos pudessem ver, se vangloriando disso.
O tempo pareceu se esticar e se encurtar quando ele percebeu, porque parecia uma revelação grande, mas ele ainda não entendia muito sobre o que ela significava. Ele só sabia que era.
E a percepção de tempo é algo engraçado, porque quando eram mais velhos e Minho foi conversar sobre esse momento com Jisung, o mais novo falou que era apenas um borrão em sua memória. Um lapso. Algo linear, enquanto Minho conseguia ver com detalhes todas as cenas desse momento, porque foi um desses momentos onde o tempo para e acelera, e isso só acontece quando algo importante se desenrola.
Algo importante, que pode mudar o curso de suas vidas.
Tipo se inclinar para beijar o seu melhor amigo de anos, seu melhor amigo de vida.
…
A mãe de Minho sempre falou para ele como ele era corajoso, bravo. Nunca teve medo do escuro, ou de insetos, palhaços, ou qualquer uma dessas coisas que as crianças costumam ter medo. Desde pequeno, Minho era conhecido por ser valente, o casca-grossa.
Quando ele cresceu, percebeu que era verdade.
Não tem muitas coisas que deixam Minho verdadeiramente assustado. Somente duas. Somente duas fraquezas que mancham esse exterior duro dele.
Altura e Jisung.
Minho não consegue ficar numa sacada do segundo andar sem sentir um medo irracional e se sentir tonto e enjoado. É bizarro, parece que todos os medos que ele não tem se juntaram em intensidade e se fixaram nesse único.
Jisung, no entanto, é um pouco mais sutil e mascarado. Porque ele é a pessoa de Jisung, e Jisung é a sua pessoa.
Jisung é uma vertente inteira e completa na vida de Minho. Não existe Minho sem Jisung, e não existe Jisung sem Minho. E isso conforta-o e assusta-o da mesma forma, com a mesma intensidade.
Um dia, antes de ir embora, o pai de Minho falou que as nossas fraquezas são justamente aquilo que a gente mais domina, ou o que tem de mais positivo na gente.
Afinal, ninguém nunca mexe em time que está ganhando.
Num jogo de futebol, se a zaga e a defesa estão funcionando, porque você vai mexer nos jogadores ou trocar a tática? É irreal. Se nenhuma bola passa pelo zagueiro, ele não vai ser a pessoa que você vai tirar de campo. Obviamente, a atenção vai para onde pode melhorar; se o ataque não sai do meio de campo, aí está o problema. Mudar o jogador, a formação ou a estratégia em cima dessa questão.
Minho entende isso, é um grande fã de esportes. Ele tem um bom olho para isso também.
Mas, se porventura a zaga se confundir, ou errar, ou jogadores mais habilidosos do time adversário aparecerem, qualquer crack nessa linha defensiva pode ser a ruína do jogo todo.
Um crack na confiança.
E se tirar a zaga do jogo, então o que mais o time tem? Se a zaga é o ponto forte do time, sem ela, o que resta dos outros jogadores?
E se tirarem Jisung de Minho, quem ele é?
Se inclinar para beijar Jisung for a escolha errada, for o crack nessa linha defensiva de Minho, nessa coisa que ele é tão bom, será que o campeonato todo será perdido? Será que é o suficiente para estragar também todo o restante?
Jisung é a maior fraqueza de Minho, simplesmente por ser a coisa mais importante da vida dele. Sua maior vulnerabilidade. Minho não existe fora de Jisung.
Talvez seja codependência. Talvez crescer juntos e ter mães que foram amigas muito tempo antes de seus nascimentos faça isso. Talvez eles somente sejam as pessoas um do outro. Talvez não deva ter nenhum crack na linha de amizade deles, não importa o que aconteça. Talvez esse seja o fim de tudo, onde finalmente o ponto forte de Minho vai passar a virar somente a fraqueza dele. Algo para ele ter vergonha e perder noites de sono pensando sobre.
Minho tem certeza que se colocaria no topo da mais alta montanha se apenas Jisung pedisse. Medos à parte. Porque é isso que Jisung é pra ele. Por mais que Minho tenha esse medo enorme e desesperado de altura, Jisung supera tudo isso. Se fosse necessário, Minho faria-o sem hesitar. Mas tudo bem, porque Jisung conhece o amigo e jamais pediria algo do tipo. Mas Minho sabe, bem no fundo, que Jisung é o seu maior medo e a sua maior braveza.
Só depende do ponto de vista. Perspectiva. Assim como o tempo é questão de perspectiva, Jisung também é. Minho pode estufar o peito e se orgulhar e ficar arrogante, ou murchar, se contorcer e se fazer pequeno, virando o maior medroso de todos.
A mãe dele sempre fala que é um dos meninos mais corajosos que ela já conhecera, o mais valente. Agora, no entanto, Minho se sente o ser mais covarde de todos, medroso, tremendo e pequeno. Frágil. Quebradiço.
A segundos de fazer algo que pode mudar tudo. A segundos de talvez estragar a melhor coisa que ele já teve. A segundos de beijar Jisung. Seu melhor amigo. Seu amigo de vida, de anos. Sua pessoa. E também o cara por quem ele é apaixonado, por anos. Provavelmente, desde o momento que ele entendeu o que era amor.
Minho é muito corajoso, sim, ele assume isso. Mas, quando confrontado com o seu maior medo, qualquer um pode hesitar ou vacilar, qualquer um tem o direito de falhar, ou de fazer besteira.
E a percepção de tempo é algo muito engraçado, porque, para Minho, parece que fazem horas desde que ele olhou para os lábios de Jisung, sempre tão brilhantes e vermelhos e ali, mas tudo está tão devagar, que ele na verdade não sabe se mal se passou um segundo, porque seu coração está acelerado e seus pensamentos agitados, e ele não sabe se tudo está apenas dentro da cabeça dele, ou se essa sensação de antítese é real.
O tempo se estica, se alonga, e depois se encolhe e se encurta. E isso mexe com a cabeça de Minho. Porque seu coração tá acelerado em medo e bravura, porque ele é terrivelmente medroso e corajoso, porque ele quer tanto isso, mas ele tem tanto receio.
Porque Jisung também está se inclinando, com os olhos fechados, lentamente. Jisung, a sua pessoa.
Mas pode ser uma falha na linha defensiva de Minho, ou simplesmente Jisung é um jogador mais habilidoso e talentoso do que Minho, que conseguiu passar pela zaga e está tentando chutar a gol.
Jisung é corajoso também, de um jeito diferente, ousado. Ele não se prende ao que ele já conhece, gosta de desbravar, conhecer coisas novas, e Minho não. Minho gosta do estável, gosta do que ele já conhece, já sabe como funciona.
Jisung tem muitos medos, diferente de Minho. Insetos, escuro, tempestade, palhaço, mar, areia movediça… São tantos, mas ele nunca hesita em encará-los quando pode. Diferente de Minho, que tem poucos, mas evita os dois que tem como se eles fossem fatais. Como se pensar neles fosse o suficiente para destruí-lo.
Minho é corajoso, mas quando confrontado com o seu maior medo, ele não sabe o que fazer. Porque ele não tem costume de encarar medos, ele não conhece a adrenalina, o desespero, a incerteza. Jisung, por outro lado, é expert nisso. Ele vem fazendo isso a vida toda. Porque ele gosta de coisas novas, de se aventurar, de experimentar.
Talvez, para ele, beijar Minho não seja algo tão grande e digno de parar a rotação do mundo e explodir todos os seres vivos que habitam na Terra. Talvez seja somente algo novo que ele queira desbravar.
Essa diferença entre eles é uma das coisas que mais assusta Minho.
Jisung é corajoso porque ele tem muitos medos, mas ele enfrenta todos, com os braços abertos, sempre pedindo por mais. Minho é corajoso, porque ele não teme nada, a não ser aquelas duas coisas que o assombram.
Jisung gosta da sua espontaneidade, enquanto Minho precisa de todas as linhas e regras claras e declaradas. Previsível. Porque se der errado, ele sabe como consertar de antemão, sem precisar se desesperar. Ele gosta de planejar; Jisung vai com o flow, o que acontecer, aconteceu.
Então, se o flow diz para se inclinar e beijar Minho, certeza que isso não significa nada. É apenas o embalo, o ritmo. É o que o momento pede.
Minho não planejou se inclinar para beijar Jisung. Na verdade, ele se planejou para isso nunca acontecer. Mas um crack na linha defensiva dele aconteceu em algum momento, e Jisung passou pela sua proteção. E como Minho não encara medos, ele não sabe o que fazer. Não sabe como consertar isso.
Porque Jisung pode ser livre e espontâneo, mas Minho é somente um covarde mascarado pela sua falsa braveza.
…
Para Minho, a percepção do tempo é uma coisa engraçada.
Ele consegue lembrar, com clareza, de quando tinha dezesseis anos e descobriu que era gay. Um daqueles momentos onde o tempo estica, arrasta, encurta e acelera. Tudo ao mesmo tempo.
Minho não é de ter muitos medos, mas naquele momento, ele sentiu pânico. Um tipo de medo diferente. Um frio na barriga, uns pensamentos inacabáveis e obstinados.
“Como vão reagir?” Mesmo que nunca tenha ligado muito para a opinião dos outros. Era o exterior duro e casca grossa dele.
“O que será que vai mudar na minha vida?” Mesmo que ele soubesse que isso não era uma realização drástica. Na verdade, era estranho ele ter demorado tanto para perceber, mesmo com todos os sinais indicando a verdade. Então, como poderia algo significante mudar na vida dele, se ele não sentia que essa era uma revelação significante?
“O que será que vai mudar na minha relação com Jisung?” E pronto. Aí estava ele.
O maior problema, e a maior preocupação de todas.
Jisung. Jisung. Jisung.
Como sempre, a maior vertente e complexidade da vida de Minho.
Só de pensar em contar para o amigo, o estômago de Minho gelava, se contorcia e pedia arrego, medroso.
“E se Jisung perguntar como eu descobri isso e eu tiver que explicar que foi ele quem me fez perceber?”
E esse foi um daqueles momentos em que o tempo correu de forma engraçada, porque isso só acontecia quando algo importante se desdobrava e isso, certamente, era algo tremendo.
“Sung,” Minho sussurrou, apenas alguns dias depois. Estavam fazendo uma noite de filmes, como faziam toda sexta-feira. Jisung estava deitado ao lado de Minho, uma perna entrelaçada com a do mais velho e a cabeça encaixada no pescoço dele.
“Hm?” Sussurrou de volta, sem tirar os olhos do filme. Era o favorito dele. Minho sempre deixava o controle nas mãos do mais novo, porque, de verdade, Minho pouco se importava com o que estava passando, a felicidade de Jisung era muito mais importante, e os filmes raramente eram ruins. Ou talvez somente fosse o efeito Jisung.
Minho pegou o controle remoto e deu pause, fazendo Jisung resmungar baixo e virar o rosto para encará-lo.
E a percepção de tempo é algo muito engraçada, porque o tempo parou e acelerou, e o coração de Minho também, e seus pensamentos que estavam silenciosos de preocupação, de repente gritavam dentro de sua cabeça. Com medo. Pedindo para ele parar e não seguir em frente.
Mas Minho tinha a casca de corajoso para vestir, porque a mãe dele dizia com orgulho como ele era um dos meninos mais valentes que ela já conhecera, por mais que não enfrentasse muitos medos, simplesmente pela ausência deles.
Jisung era sua maior vulnerabilidade. Jisung merecia saber dessa parte da vida do melhor amigo; que as razões e motivos para descoberta de Minho fossem para a puta que pariu. Era uma parte que, apesar do medo, Minho queria compartilhar.
Minho deixou os olhos se prenderem na tela da televisão, encarando o filme pausado com cautela e evitando olhar Jisung. Minho era apenas alguém que vestia sua braveza para cobrir sua covardia.
“Eu acho que sou gay,” ele soltou abafado, a respiração acelerada e as mãos suando como se ele estivesse correndo uma maratona, e não deitado, assistindo filme com o melhor amigo e, certamente, o motivo pelo qual tinha percebido sua sexualidade.
Jisung não falou nada por alguns minutos, mas Minho conseguia sentir o olhar dele em sua pele. Queimava e fazia cócegas. Minho se sentia nu, despido e vulnerável. Por isso ele não enfrentava seus medos.
Esperar pela reação de Jisung talvez tenha sido um dos momentos mais aterrorizantes da vida de Minho: será que Jisung iria se levantar, brigar com Minho e ir embora? Será que isso mudaria algo entre eles? Será que o amigo ficaria com nojo e se afastaria? E era exatamente em momentos como esse que Minho percebia a grandeza de seu pavor em relação ao melhor amigo.
Depois de um tempo de silêncio com o corpo suado, mas sabendo que seu rosto não mostrava nenhum indício de seu medo, Minho estranhou. Jisung nunca era quieto, principalmente em momentos que importavam. Até uma risada fraca soar. Não era irônica, desapontada, surpresa. Era somente isso. Uma risada.
“Minho,” Jisung chamou, procurando a mão de Minho que estava escondida embaixo do travesseiro e entrelaçando os dedos. Minho não olhou-o. Jisung conhecia-o bem o suficiente para ver através da farsa que ele era mestre em criar, por mais que seu rosto não traísse-o. “Min, olha pra mim.”
Minho piscou algumas vezes, os dedos da mão livre se coçando em nervosismo — mas por que, está aí um questionamento cujo Minho não sabia a resposta. Lentamente, como um daqueles momentos que o tempo se arrasta e se arrasta, e tudo parece se mover devagar, na menor velocidade possível, Minho se virou para olhar Jisung.
Minho sempre teve sorte.
Ganhara vários sorteios na escola, nas redes sociais, sempre tinha um guarda-chuva escondido e esquecido na bolsa quando ia chover, ou sempre que ele faltava uma aula, o professor tinha faltado também.
As coisas simplesmente pareciam se alinhar em prol dele.
Como por exemplo, a mãe dele e a mãe de Jisung serem amigas muito antes deles sequer sonharem em nascer. Como, por exemplo, eles serem destinados a se conhecerem, a serem amigos.
Se Minho se deixasse sonhar, ele até mesmo acharia que tinha sorte por ter se apaixonado por Jisung. Fosse recíproco ou não. Apesar de parecer destinado a se apaixonar por ele.
Porque Jisung era a pessoa de Minho. Ele sabia disso há anos, já.
E isso se confirmava sempre. Com o tempo se esticando ou se encurtando, ou rolando normalmente.
“Eu sei, Min,” Jisung falou quando seus olhos se conectaram. O lábio dele estava curvado para cima, apenas a sombra e o resquício de um sorriso. Minho sentia o sorriso dele em seu corpo, na forma que todo o ser de Minho borbulhava por vê-lo assim. Tão de perto e tão sincero.
Minho sorriu, espelhando o sorriso agora aberto e tão bonito de Jisung, e apertou os dedos que estavam entrelaçados. Ele exalou, e parecia que o mundo finalmente tinha voltado a girar na sua velocidade normal.
“Posso te falar algo?” Jisung perguntou quando viu Minho pegando o controle remoto para retomar o filme.
“Sempre,” Minho encarou-o, sério. Como se ele tivesse todas as respostas do mundo, anos mais velho, e não somente dois.
“Eu acho que eu também.”
…
Minho não consegue sentir os dedos onde eles descansam nas costas do sofá. Talvez pela posição desconfortável, talvez pelo nervosismo.
Ele tem noção do que está fazendo, cada parte do seu corpo parece estranhamente viva e ciente de si própria, ainda assim, ele não consegue senti-los corretamente.
Ele quer falar, mas Jisung agora está perto. Se inclinando, os olhos encarando a boca de Minho enquanto a ponta da língua umedece o lábio inferior, se preparando para beijá-lo.
Minho quer falar, mas como ele poderia se ele nem ao menos sente sua garganta?
Minho quer falar, mas tudo está acontecendo tão rapidamente e lentamente ao mesmo tempo que nem mesmo parece que ele está ali.
E esse é um daqueles momentos que o filme da vida dele passa e repassa por dentro da cabeça dele, reprisando os momentos mais importantes de seus anos vividos.
Todos eles têm e são sobre Jisung, até certo ponto.
…
Minho nasceu em um dia ensolarado, com poucas nuvens no céu, mas o calor não era insuportável, apenas o suficiente para aquecer os corações das pessoas. Sua mãe dizia que era um presságio. Um bom.
Minho seria alguém quente, o suficiente para aquecer os corações das pessoas.
Normalmente, sua mãe não errava. Ela era correta e certeira em suas predições. No entanto, todo mundo falha.
Minho não nasceu quente, ou alguém capaz de aquecer os corações das pessoas. Minho era… distante. Frio. O completo oposto. Alguém que, segundo os ditados de sua mãe, nasceria no pico do inverno, numa tempestade. Mas era um bom presságio, então ele veio com sorte, e com poucos medos.
Em um dia, quando a previsão do tempo falhou em avisar o povo sobre a chance forte de temporal, Jisung foi até a casa de Minho. Eles eram praticamente vizinhos, mas suas famílias prezavam pela segurança, e, por mais que Minho e Jisung fossem carne e unha, o mais novo sempre ficava insano no meio de temporais.
“Parece que vai chover,” Jisung falou, sentado na beira da cama e encarando a janela. Minho seguiu o olhar do amigo, vendo o céu em um tom de cinza escuro, e, por mais que fosse duas horas da tarde, parecia a caída da noite.
“Você quer que eu te leve em casa?” Minho sentou ao lado de Jisung, observando o rosto contorcido de ansiedade do amigo. Ele roía o interior das bochechas e as sobrancelhas estavam tão franzidas a ponto de virarem uma só.
Mas Jisung era ótimo em enfrentar seus medos.
“Não,” foi firme, tirando o olho da janela e voltando a encarar a televisão que mostrava a tela de pause do jogo que jogavam há poucos minutos.
Minho sorriu, e eles voltaram a jogar.
Jisung era péssimo no jogo — um jogo qualquer de corrida de carro —, e Minho sempre ria às custas da falta de habilidade do amigo. Jisung batia os pés no chão, reclamando e resmungando, mas sempre torcia e gritava junto de Minho quando o mais velho fazia algo muito irado.
A tempestade foi esquecida temporariamente, até que começou a chover.
Forte.
Os pingos caíam alto e pesados na janela de vidro, ecoando pelo quarto todo. Jisung se aproximou sutilmente, mas Minho estava sempre tão sincronizado e atento ao amigo, que percebeu na hora. Também sutilmente, Minho se aproximou ainda mais, até que seus braços encostassem um no outro.
Jisung tinha agora quatorze anos. Estava na época de vencer seus medos, mas alguns ainda eram piores que outros. E, sinceramente, estava chovendo tanto que até Minho estava levemente assustado.
‘Sung,” Minho chamou, focando no jogo enquanto tentava pensar no que fazer, “liga o ventilador?”
Barulho, talvez ajudasse. Ele não sentia o menor calor, mas o velho ventilador de teto seria o suficiente para abafar um pouco os sons da pesada tempestade que começava a cair.
Obediente, Jisung o fez, rapidamente. O quanto antes, ele estava ao lado de Minho de novo, como se nunca tivesse saído. Como se ele pertencesse ali, igual dois pedaços de algo que não se pode separar.
O barulho forte do ventilador ajudou por apenas alguns minutos, porque logo a chuva estava ainda mais forte e mais pesada e trovões e raios tinham se unido à canção lá fora.
De repente, a energia caiu.
Ainda era de dia, mas estava tão escuro na rua que os olhos de Minho precisaram de alguns segundos até conseguirem se acostumar à fraca escuridão.
E tudo se resumiu a Jisung quando o mais novo agarrou a manga da blusa de Minho.
“Minho,” ele chamou, a voz baixa e preocupada, e a mente de Minho conjurou perfeitamente o olhar ansioso dele, contorcido e arregalado, assustado.
“Shii,” Minho pegou-o pela mão e fechou a cortina, esperando que as luzes que saíam dos trovões e raios parassem de iluminar o rosto apavorado de Jisung.
Minho sentou Jisung na cama e foi procurar uma vela pelo quarto, e depois de muito procurar no escuro e não achar, ele desistiu, bufando fraco enquanto tentava decifrar o que era o choro baixo de Jisung e o que era o sons da tempestade.
“Deixa pra lá,” Jisung pediu, a voz ainda baixa e o corpo virado para Minho, de costas para a janela. Os sons da tempestade eram ensurdecedores, e até Minho sentia os pelos da nuca ficarem em pé. “Senta aqui, Min.”
Obediente, Minho foi, rapidamente.
Um presságio, sua mãe dizia. Um dos bons.
Ele nunca acreditou nisso. Porque ele ia contra todas as coisas que esse “bom presságio” dizia ser. Jisung era muito mais assim do que Minho, e ele nascera num dia de neve. Não fazia sentido.
Entretanto, agora, enquanto Jisung se agarrava na frente de sua camiseta e escondia o rosto em seu colo, Minho entendia. Porque os sons lá fora não existiam mais na cabeça de Minho, e tudo que ele sentia era a respiração acelerada de Jisung e como o corpo dele estava tremendo.
Um bom presságio. Talvez não fosse especificamente para ele. Jisung era quente, quente o suficiente para aquecer os corações das pessoas. Quente o suficiente para aquecer o coração de Minho.
Minho abraçou-o forte, tampando os ouvidos de Jisung com os braços, e sacudindo os corpos levemente. Até que ele percebeu o amigo relaxando, aos poucos, de pouquinho em pouquinho.
Um bom presságio, porque ele estava fadado a ter algo quente em sua vida. Um bom presságio porque, bom, ele estava fadado a ter Jisung em sua vida.
E isso era o suficiente para aquecer o coração de qualquer um.
Jisung ainda tremia, e Minho conseguia sentir, contra o colo vestido dele, o rosto do amigo contorcido em preocupação, mas o aperto em sua blusa diminuía cada vez mais, mesmo que os barulhos e luzes não tivessem diminuído.
Um presságio, aquele dos melhores de todos, porque, em contrapartida, ele sabia que aquecia o coração de Jisung. E talvez fosse somente o dele. Era tudo que ele poderia pedir. Na verdade, era somente o que ele queria.
…
“Você não manda em mim, Minho”, Jisung quase gritou, as sobrancelhas curvadas para baixo e transformando o rosto bonito dele em uma careta. Era uma pena, frustração não caía bem nele.
Minho estava no seu papel de melhor amigo e adulto responsável, e não iria bater o pé ou se deixar levar pela rebeldia do mais novo.
“Jisung, ouve o que você tá tentando fazer,” Minho se levantou, espelhando o amigo e aumentando o tom de voz. Sabia que Jisung estava a passos de sair do quarto dele e bater a porta, mas Minho era mais esperto que isso.
Rapidamente, se colocou na frente do amigo e tampou a saída dele. Isso só fez com que Jisung ficasse ainda mais frustrado.
Às vezes, Minho se lembrava das coisas que tinha feito aos 16 anos, a rebeldia, a sensação de saber de tudo, de que sabia melhor que seus pais. Minho se lembrava das besteiras que tinha tentado fazer, igual Jisung estava prestes a cometer.
“Ugh,” o mais novo resmungou, ficando de frente para Minho e encarando-o com o cenho franzido, “Minho, sai da frente da porta.”
“Pra quê?” Minho cruzou os braços, mudando o peso de uma perna para a outra e deixando seu peso cair no pedaço de madeira, “pra você sair daqui e ir se encontra com o cara que é 8 anos mais velho que você? Tsk, nem sonhando.”
“Não cabe a você decidir com quem eu vou sair ou não,” ele praticamente desafiava Minho, e o mais velho até mesmo conseguia sentir a ira dele que irradiava. Mas Minho não se importava. Ele estava bastante irritado também.
“Claro que cabe,” rebateu, sentindo o coração acelerar e raiva e vontade de prender Jisung nesse quarto até que ele estivesse velho o suficiente para entender como as coisas funcionavam. Ele não era idiota, e Minho sabia que ele nem queria sair com esse cara de verdade, ele só estava sendo um canalha pra testar a sua paciência. E, ah, como estava funcionando.
Além da raiva, Minho sentia algo estranho no estômago, uma frustração diferente que não provinha dela. Algo dissemelhante, novo. Só a ideia de deixar Jisung sair com esse cara fazia todos os órgãos de Minho se contorcer, e sabia que isso ia além da preocupação que deixava mostrar.
Se fosse qualquer outra pessoa, um colega da escola e não um completo adulto tentando tirar vantagem de Jisung, Minho ainda se sentiria assim?
Sim.
A resposta veio rápida e certeira. Sem dúvidas.
“Minho, me deixe passar,” bateu os pés, soando petulante e como se fosse anos mais velho e mais sábio que Minho.
“Não,” sorriu de lado, o sangue fervendo e sem se mexer um centímetro, resolvendo ignorar como esse sentimento estranho subia centímetro por centímetro. Jisung quase grunhiu, apertando os olhos com força e bufando.
Jisung parou, encarou Minho nos olhos e deu de ombros. Sentou na beira da cama grande de Minho, com os lençóis bagunçados, e bateu os pés no chão ritmicamente. Minho não saiu do lugar.
“Tudo bem,” Jisung tentava mascarar a irritação dele, mas Minho conhecia-o bem o suficiente para saber que era uma farsa, “se você estava com ciúmes era só me dizer.”
E esse foi um daqueles momentos em que o tempo se perdeu nele próprio, e o coração de Minho perdeu o ritmo.
Não que Minho estivesse com ciúmes (será que, afinal, ele estava?), mas Jisung estava insano por achar que iria deixá-lo sair com alguém tão mais velho. Ainda assim, haja ousadia para falar do tipo para seu melhor amigo de anos.
Golpe baixo.
Jisung devia saber o efeito que tinha sobre Minho, ou pelo menos ter uma pequena noção.
Ele encarava o amigo com os olhos brilhando em diversão, e o tempo se perdeu e se prendeu a si mesmo mais uma vez, e Minho sentiu os braços perdendo a força e se desdobrando sozinhos, parando ao lado do corpo e batendo na madeira da porta com um alto som oco, enquanto sua boca estava entreaberta, surpreso.
Que seja.
Jisung era esperto, mas Minho sabia. Minho sabia bem demais. Ainda assim, Minho não moveria um músculo.
…
Dizer que Minho tem sentimentos por Jisung desde os dezesseis anos é algo trivial. Na verdade, Minho entende que talvez sempre tenha sentido algo pelo amigo, mas a realização nem sempre é imediata.
Às vezes, precisa de um click. Às vezes, ler os próprios sentimentos é difícil e complicado, ainda mais quando você se vê em uma situação igual a dele.
É fácil misturar as coisas, sempre foi. Onde termina a amizade e começam os sentimentos diferentes.
Mas Minho tem sorte. Porque, agora aos vinte e três anos, ele tem a chance de ainda sentir o mesmo, pela mesma pessoa. Ele continua não se importando com a reciprocidade desse sentimento, porque é Jisung.
E, de novo, eles são a pessoa um do outro.
Que seja o que tiver que ser.
Que o tempo se arraste e se acelere nele mesmo enquanto Minho se inclina para beijar o melhor amigo dele.
Pelo menos uma vez na vida, ele vai bater no peito e dizer que foi verdadeiramente corajoso. Corajoso igual Jisung é, do tipo que abre os braços e sorri e lida com os medos, e não com o falso corajoso que a mãe de Minho o fez acreditar que ele era.
É de revirar o estômago, sim! É de acelerar o coração, também! Mas é um tipo de medo diferente de estar na sacada de um apartamento no oitavo andar.
Se Minho sem querer tropeçar e cair, ele sabe que não vai sobreviver à queda. É humanamente impossível.
Porém, ele sabe que vai sobreviver se beijar Jisung. Porque o tempo só se arrasta e se acelera assim quando algo importante vai se desenrolar. E, o engraçado, é que isso sempre tem a ver com Jisung.
Jisung, Jisung e Jisung.
…
Dezenove anos. Parecia uma idade interessante. O limbo entre ser adolescente e ser adulto e achar que sabia sobre a vida e sobre si quando na verdade não sabe o que quer fazer daqui um dia. Minho estava feliz. Porque dezenove anos significava dezessete anos com Jisung.
E poucas coisas são melhores do que isso, sendo algumas delas: encarar o nascer do Sol bêbado com um Jisung igualmente bêbado ao seu lado, após horas de festa e de comemorar seu aniversário, e também a sua partida.
A noite foi um borrão para Minho, algo por conta da mistura ridícula de bebidas que tomou, mas também porque Jisung não saiu do lado dele nem um mísero segundo, e era difícil prestar atenção em outra coisa quando Jisung estava perto, dançando perto, falando perto, bebendo perto.
Agora, ele contava os raios solares que apareciam por entre as folhas da árvore e iluminavam o rosto bronzeado de Jisung, pensando em como parecia ter somente eles dois no mundo nesse momento, somente eles dois e somente esse momento, com essa árvore grande e robusta, cujo tronco eles usavam de encosto, o vento refrescante, o Sol que ameaçava nascer no horizonte, o leve formigamento da grama em sua perna de onde estava sentado, o peso da cabeça de Jisung em seu ombro e a respiração calma e sossegada dele.
“Você tem mesmo que ir?” Jisung perguntou, a voz saindo arrastada, tanto pela bebida quanto pelo sono. Se Minho tivesse que adivinhar, chutaria que ele estava com os olhos fechados e sobrancelhas franzidas.
“Hannie,” Minho suspirou, os dedos traçavam pequenos padrões irreconhecíveis no braço de Jisung, “você sabe que sim.”
Com isso, um pico de energia diferente parecia ter atingido os sentidos de Jisung. Ele desencostou de Minho e da árvore, se virou para o amigo, e resmungou daquele jeito arrastado e petulante como só ele conseguia fazer.
“Minho,” ele parecia frustrado, mexendo as mãos ritmicamente. Minho sabia que ele iria soltar o argumento mais válido de todos nesse exato momento, ou pelo menos um que faria Minho duvidar de todas as suas escolhas. “Nós somos um cardume de dois peixes, é pequeno, mas eficaz! A gente se protege dos tubarões e dos peixes maiores, mas só porque estamos juntos; se você for, eu vou ficar sozinho e você também, e não teremos mais a proteção que esse cardume oferece. Vamos ficar vulneráveis, Minho. Você quer ficar vulnerável?”
Minho sorriu, somente o canto da boca, porque era exatamente o que Minho estava esperando. Porque era tão Jisung, com seus conhecimentos aleatórios e formas ainda mais aleatórias de se expressar. Porque ele amava Jisung, de uma forma tão esmagadora que ele às vezes sentia que estava doente e contaminado com um vírus que só se espalhava e alastrava, mas ele não se importava. Ele abraçava. Ele deixava se alastrar e até mesmo pedia para que ele cada vez mais tomasse conta de Minho.
Às vezes, quando ele pensava muito sobre, sentia certa dificuldade de lidar com o tamanho do papel que Jisung tinha em sua vida. Mesmo que a vida fosse de Minho, ele era apenas um coadjuvante. O verdadeiro protagonista nesse filme era Jisung. Mas ele tinha permitido isso, oras, não fora ele o responsável por permitir que Jisung interpretasse essa tarefa?
“Você vai ficar bem, Hannie,” Minho encarou Jisung apenas para ter certeza que a careta dele ficaria ainda mais forte ao invés de suavizar, e sorriu ainda mais, levando um dedo até a bochecha do amigo e cutucando-a, “é só por um ano e depois você está lá também.”
“Eu sei que eu vou,” resmungou, voltando a se sentar e encostar a cabeça no ombro do mais velho, encarando o Sol que nascia na frente deles, amarelo e quente, “mas eu não queria ficar bem sem você, ou ficar bem só daqui um ano.”
Minho ficaria, Minho rasgaria todos os planos para fazer Jisung ficar bem ao seu lado, mas tinha certos sonhos que ele não conseguia desistir, por mais que Jisung implorasse.
Jisung era um sonho real para Minho, sempre foi, ele conseguia tocar Jisung e vê-lo e saber que eles eram de verdade, mas a faculdade não. A faculdade ainda era algo que Minho precisava conhecer e tocar e viver. Era algo que ele sonhava também há muito tempo, desde que entendera que precisava fazer algo para o resto da vida.
“Se você acha que vai ficar mal sem mim, imagina eu que não conheço ninguém lá,” Minho voltou a traçar padrões irreconhecíveis no braço de Jisung, e deixou sua bochecha descansar no topo da cabeça de Jisung, “aqui você tem o Felix, o Chan.”
“Eles não são você,” e ele estava levantando a cabeça, encarando Minho fundo nos olhos, determinado e brilhando mais que o Sol que já estava exposto no céu.
E o tempo deu um sobressalto, daquele tipo que se perde e se prende nele, se arrasta e se acelera, porque, de repente, o rosto de Jisung estava logo ali, perto, e Minho conseguia sentir os resquícios de álcool na respiração do amigo, e conseguia sentir o calor, a vontade dele.
“Sim, você está certo,” Minho sussurrou, perdido entre os olhos e os lábios de Jisung, mais bêbado no amigo do que tivera a noite toda com as diferentes bebidas que misturou, “eu não sou eles.”
Por algum motivo, isso fez Jisung sorrir, como se ele tivesse conseguido o que queria. Ele fechou o olho e deixou a testa encostar e descansar na de Minho, até que as respirações fossem uma só, e os resquícios de álcool também.
“Você vem me visitar?”
“Todo fim de semana.”
“Você vai me mandar mensagem?”
“Todo dia.”
Jisung sorriu, Minho espelhou. As vozes sussurradas pareciam gritar entre eles, talvez querendo alertá-los de algo, mas nenhum dos dois ligavam.
A mão de Minho estava na bochecha de Jisung, e o dedão fazia carinho na pinta que ele tinha, próxima à boca.
Minho fechou os olhos também, porque tinha medo do que faria se continuasse olhando Jisung e se perdendo pelo rosto dele e na boca partida do amigo, tão convidativa.
A única coisa que ele sentiu antes de abrir os olhos assustado foi a boca de Jisung na sua, molhada, macia e quente. Confortável, corajosa, tal qual o dono.
Minho se viu sem saber o que fazer por milésimos de segundos, até que a consciência deixou-o, e ele retribuiu. Ainda era só um selinho, mas o tempo parecia suspenso, flutuando entre eles apenas esperando que esse momento acabasse. Minho esperava que fosse nunca.
Mas Jisung sorriu, como se ele realmente tivesse conseguido o que queria dessa vez, e beijou-o novamente, entrelaçando os braços no pescoço de Minho e abrindo a boca, deixando que Minho beijasse-o de verdade, até que suas línguas se encostassem e Minho estivesse arrepiado e com o gosto de Jisung em sua boca.
O mais engraçado, é que, para Minho, esse momento tinha sido um sonho.
Por muitos anos, Minho achou que tinha dormido com a bochecha encostada no topo da cabeça de Jisung, e o restante fosse apenas resquícios de um sonho muito real, um sonho que ele tinha se levado a sonhar para suprir seus desejos.
Mas agora, prestes a viver exatamente a mesma coisa, Minho se lembra. Tinha sido real. Jisung tinha beijado-o, e sorrido. E depois tinha beijado-o novamente, com vontade, como se não fosse apenas um ato bêbado ou ir com o flow. Jisung o beijou de verdade, com vontade e sem medos, sem hesitações, corajoso como é.
Agora, Minho consegue sentir a respiração de Jisung batendo em seu lábio, e é exatamente como da última vez. A única diferença é que, agora, Minho não pode culpar um sonho inexistente, nem a bebida. Mas ele só quer culpar a si mesmo, ele quer beijar Jisung e bater no peito e gritar que beijou Jisung, sem medos e sem hesitações, corajoso como a mãe dele fê-lo acreditar ser. Então ele faz exatamente isso.
Mais tarde do que ele gostaria, eles finalmente estão no mesmo lugar, com os lábios se encostando, e o tempo parece suspenso, flutuando por entre eles e esperando que esse momento acabe. Minho espera que ele nunca acabe. Dessa vez, no entanto, ele sabe que só depende dele. Então, ele sorri. Igual Jisung fez há quatro anos.
Ele beija Jisung enquanto acaricia o braço dele, porque o momento parece frágil e Minho tem medo de despedaçar ele, mas Jisung se aproxima, agarrando com força o pano da blusa de Minho, puxando-o para perto, entrelaçando suas línguas e suspirando ao sentir a reciprocidade do mais velho, e qualquer possível fragilidade se esvai.
E Minho sorri, porque ele finalmente conseguiu o que ele queria. Ele sorri porque o tempo ainda está suspenso e se perdendo em si mesmo, da forma que só acontece quando algo grandioso está prestes a acontecer.
Igual beijar seu melhor amigo de anos, de vida.
Minho beija Jisung, prende os dedos no queixo dele e inclina a cabeça para o lado, aprofundando o beijo e sentindo Jisung retribuir em intensidade e desejo. O gosto é o mesmo de anos atrás, a situação não.
Minho não está indo embora na outra semana, eles não são mais adolescentes bêbados.
Minho quer verdadeiramente isso, e antes dele continuar e beijar Jisung como sempre sonhou, ele precisa saber se é recíproco.
Porque Minho gosta do estável, e beijar Jisung está saindo demais dos planos dele, por mais fácil e corriqueiro que seja.
“Hannie,” ele sussurra, o lábio ainda colado no de Jisung. A respiração está acelerada, assim como o coração e o tempo e os ponteiros do relógio de parede da sala de Minho.
“Min,” ele sussurra de volta, fazendo os lábios se tocarem. Minho fecha os olhos, porque ele é covarde. Sua mãe fê-lo acreditar em muitas coisas sobre si mesmo, e ele está começando a desmistificar cada uma delas. A primeira delas é sobre essa falsa braveza dele. Então ele aperta os olhos, até que ele veja raios azuis dançando na pálpebra fechada, e se afasta de Jisung o suficiente para não se perder no amigo.
“Isso é real?” Ele pergunta baixo, ainda com os olhos fechados, espremidos. Ele tem medo da resposta, porque Jisung é a sua maior vulnerabilidade e uma vertente inteira em sua vida.
Talvez, na verdade, ele não devesse temer. Porque, no fundo, ele sabe que ele também é uma vertente inteira na vida de Jisung. Ele sabe que é a vulnerabilidade do amigo.
Mas Jisung é seu ponto de braveza e covardia. E ele precisa saber.
“Sempre foi, Min,” Jisung sorri, e um mundo novo de infinitas possibilidades se abre para Minho. Um mundo onde ele pode beijar o amigo sempre que quiser, talvez não chamá-lo mais somente de amigo, um mundo onde ele não precisa se forçar a sonhar porque a realidade vai virar palpável.
Jisung beija-o de novo, e Minho tem certeza.
Quem sabe, de agora em diante, Minho não precise mais temer essa vulnerabilidade. Talvez, Jisung vire somente um ponto forte, sem espaços para virar uma fraqueza dele. Talvez, o tempo pare de se esticar e se prender e se diminuir nele mesmo, porque isso só acontece quando algo grandioso está prestes a acontecer, mas Jisung e Minho é algo previsto. Destinado. Desde o momento que suas mães se conheceram.
Talvez, a percepção de tempo não seja algo engraçado. Talvez seja só questão de perspectiva.
