Work Text:
São quatro da manhã e eu estou na minha cama, acordado demais para alguém que tem uma prova às oito. Eu poderia alegar nervosismo, mas isso não combina comigo. Você me chama de gênio quando vê minhas notas e meu rosto esquenta enquanto aquele sorriso pequeno surge, mas nós dois sabemos que isso poderia ser verdade.
Não são as provas que me atormentam.
O tem me mantido de olhos abertos é você, ou melhor, a sua ausência. A cama de cima do beliche está vazia quando você deveria estar lá. Você ainda não chegou e da última vez que coloquei os olhos em você seu cheiro se parecia com lavanda e manjericão, e seu cabelo loiro despreocupadamente desarrumado caia liso em volta do rosto que atormenta cada sonho meu. Seus olhos esfumados pousaram sobre mim por um instante, mas eu sabia que você não estava me vendo. Você já estava alto demais, certo?
— Estou indo na festa do Yixing. — Você anunciou para ninguém em específico. — Vou demorar.
E então saiu. Você saiu sem me lançar aquele sorriso que costumava dar quando me via e eu só fiquei com as memórias do seu cheiro de verão no meu nariz.
São quatro da manhã agora.
Minha prova será em poucas horas.
Epidemiologia.
Não estou preocupado com ela, estou preocupado com você. Com suas ausências. Com a distância que se torna maior, com o número reduzido de minutos em que podemos estar juntos.
Você tem um vício.
Ele está com você o suficiente para serem íntimos.
Você se lembra de quando nos conhecemos? Você se lembra de como seu sorriso costumava iluminar a sala? De como sua risada conseguia mudar humores? Eu me lembro, hyung. Foi instantâneo prestar atenção em cada movimento seu desde o primeiro encontro.
Naquela época, seus olhos já escondiam alguma coisa, mas era tão pequeno, hyung. Ou talvez você sempre tenha sido um bom ator e aquele fosse o papel da sua vida.
Você era tão brilhante, eu não sabia se queria ser como você ou ter você para mim.
Somos diferentes, você e eu.
Ao contrário de você, eu sou quieto demais. Não gosto de ser o centro das atenções, não gosto de lugares cheios e nem música alta. Eu gosto da chuva, dos dias nublados, do metrô vazio, do meu quarto e dos livros na minha estante. Eu costumava ser feliz apenas com isso, mas sua presença me fez ambicioso. Você me fez querer desejar mais do que eu poderia segurar com as mãos e agora eu tenho lutado para abraçar esses anseios com todo o meu corpo.
Eu também tenho um vício, hyung.
Tenho um vício no seu sorriso quadrado, na sua risada alta, na pintinha acima do seu lábio, em suas bochechas, suas orelhas, suas mãos. Eu decorei cada pedaço, cada detalhe que você me permitiu olhar e descobrir isso me fez perceber que eu não queria ser você.
Não, Baekhyun, eu não queria ser você, essa terra não precisa de dois sóis.
Acontece que me vi desejando esse sol quente e brilhante, e essa constatação fez de mim um homem perdido. Como eu poderia querer tanto? É insanidade, certo?
Você é inalcançável, hyung.
O ponteiro do relógio se moveu pouco desde a última vez em que olhei. São quatro e quinze. Eu me viro apenas para rolar na cama de novo, mas paro na metade do arco.
Você está tentando encaixar a chave na fechadura e eu congelo, sem conseguir me levantar e abrir a porta para você.
Está bêbado demais para lembrar da senha de novo, hyung?
Mas você consegue. Você sempre consegue.
Você entra e seus passos são tortos, incertezas tropeçando pelo nosso quarto. Você não tem forças para subir a escada do beliche então deita no tapete. Sua boca entreaberta está inchada, vermelha. Eles te beijaram com força, mas você não se importa mais com isso, não quando sua cabeça bate no piso frio do quarto que dividimos há três anos.
Você se lembra da nossa primeira vez dentro desse dormitório, hyung? Você sorria porque esse era o seu sonho e eu tremia porque esse era o sonho de outras pessoas. Eu tinha tanto medo de falhar, hyung. Agora o medo se foi e a única coisa restante foi uma realização automática das vontades alheias. Você ainda diz que eu não deveria estudar medicina, mas o que eu posso fazer, hyung? Meu irmão já está morto então eu não deveria realizar seus sonhos? Não deveria fazer isso para vê-lo feliz ou os meus pais? Sem um motivo para ser útil eu não teria porque viver, hyung.
Neste momento, você é um dos meus motivos.
Você resmunga do chão e eu me levanto da cama, porque nada tem me machucado mais do que o seu vício em lutar demais para continuar sentindo algo. Embora eu consiga entender, não aceito que você faça algo parecido. Você é o sol, hyung, então essa escuridão debaixo dos seus olhos não combina com você.
Coloco você na minha cama e suas roupas amarrotadas dizem o suficiente sobre a sua noite. Eu não desejo saber o restante, mas faço isso assim mesmo. Suas calças deixam seu corpo logo depois do sapato e das meias. Suas coxas têm marcas vermelhas, mas eu não estou olhando para elas. Ainda que você seja o meu vício, eu me nego a tirar qualquer vantagem de você. Existe alguma honestidade nisso então eu continuo tirando suas roupas sem me atentar ao seu corpo. O removedor de maquiagem está na cômoda, então é ele que eu alcanço para limpar o seu rosto.
Você fica limpo, quase puro.
Você sempre gostou de dormir sem calças então eu coloco uma das minhas camisas e ela cobre suas coxas nuas. Ver você nas minhas roupas me faz fantasiar com nós dois juntos, você com as minhas roupas, suas mãos no meu pescoço e sorrisos doces na sua boca. Esses pensamentos não são bons, hyung. Não quando sei que estamos longe demais de tudo isso.
Quando tenho certeza que você está confortável já são quatro e trinta e cinco. Eu subo para a sua cama e o seu cheiro me envolve com força como acontece em todas às vezes que você não consegue cuidar de si mesmo. Nos últimos meses eu tenho dormido aqui com frequência, hyung. Me sinto mal por não sugerir de uma vez que você fique com a cama debaixo, mas penso nas possíveis reações que você teria se eu dissesse. Pensar que essa simples sugestão poderia te fazer se sentir um incomodo me faz reprimir qualquer palavra.
Eu me deito e o seu cheiro me leva para longe. Para o começo.
Meu vício, seu vício.
Ambos estamos doentes, hyung? Porque eu me sinto doente.
Amar você tem sido pior que um resfriado, uma enxaqueca ou ter meus ossos triturados. Diferente dessas dores que são amenizadas com medicamentos e o tempo, o meu amor persiste como uma dor lenta e constante que me faz implorar em silêncio pelo fim.
Mas o fim não chega e minha dor não se vai, Baekhyun. Meu amor não está indo para lugar algum e suas angústias também não. Estamos ambos morrendo como dois peixes fora d'água e, hyung, a sensação de te ver sufocar até a morte me aterroriza mais do que sentir que eu mesmo estou perdendo o fôlego.
Quando acordo, você ainda está deitado e ainda se parece com um anjo. Minha prova é em uma hora e meia, os analgésicos já estão na mesa ao lado da cama e o seu café da manhã está no forno. Panquecas de chocolate são suas favoritas, então eu quero que sua manhã seja doce.
Posso sair de casa sabendo que você estará bem, mas ainda estou rezando para que esta manhã passe rápido o suficiente para que eu não o deixe sozinho por muito tempo.
Antes da prova, me sinto tentado a lhe mandar uma mensagem.
Durante a prova, eu penso em você.
Depois dela, eu quero correr para casa.
Eu volto para o nosso dormitório com um assunto novo. Pensei que você ficaria feliz em saber que eu fui muito bem, mas quando chego você não esta na cama e nem em lugar algum. O brilho que se apossou dos meus olhos no caminho para cá vai embora muito rápido quando encontro o seu bilhete.
“Obrigada por cuidar de mim, Hunnie
— B.”
É o que eu encontro na geladeira. Você tem essa estranha mania de colar post-its quando poderia mandar uma mensagem de texto. Gosto desse tipo de comunicação, hyung, mas sinto que você a usa para escapar de qualquer conversa sobre como você chegou em casa ou o que aconteceu com você na noite passada.
Mas eu não faria nenhuma pergunta, Baekhyun hyung.
Não quando te conheço o bastante para saber quando você não quer falar.
Eu não te envio uma mensagem e também não colo um post-it. Não te vejo até o começo da noite e você parece apenas um pouco mais sóbrio que da última vez. Seus olhos inchados dizem que você chorou, mas eu não faço perguntas enquanto te ajudo a tomar banho. As marcas no seu corpo estão frescas e eu as odeio mais.
— Suas roupas. — Você sussurra em uma voz quebrada que me parte junto — Gosto mais das suas roupas, Sehunnie.
Sehunnie.
Faz algum tempo desde a última vez em que te ouvi me chamar assim.
Meus pais me chamavam assim quando eu era criança e meu irmão me chamou assim até a morte, mas quando é você quem diz eu sou atingido de um jeito novo. Quando você diz, hyung, meu coração é inundado por ternura e a dor no meu peito se torna suportável porque no segundo em que essa palavra vive na sua língua, eu me sinto mais próximo de você. Nesse pequeno instante eu sinto como se pudesse tocar o sol, como se pudesse tocar você verdadeiramente.
— Tudo bem. — Eu sopro de volta. — Minhas roupas.
Estamos no sofá e não dizemos uma palavra enquanto você come o lamen que eu fiz. Sinto que deveríamos conversar, mas tenho medo de você sair voando como um pássaro que se assusta com barulho. Eu quero que você fique, hyung. Eu realmente, realmente quero que você fique.
— Me desculpe — minha voz sai baixa, mas você a escuta mesmo assim. Seus olhos de cachorrinho estão em mim quando você para de chupar o macarrão e ele termina na metade do caminho. Você não se acha fofo, mas nesses momentos eu consigo dizer que você é. Eu estou tão cansado de amar você, hyung. — Ramen era a refeição mais rápida que tínhamos em casa. Da próxima vez farei algo melhor.
Seus olhos inchados estão piscando agora. Você não quer que eu o veja chorando então eu foco na televisão desligada bem na nossa frente.
— É o melhor ramen que eu já comi. — você sussurra, puxando as pernas para cima do sofá enquanto esquenta as mãos na tigela. — E eu é quem deveria te prometer refeições deliciosas. Sou o mais velho.
— Tenho idade o suficiente para cuidar de nós dois. Não seja tão tradicional.
O modo como essa conversa parece seguir por um lugar seguro me faz respirar um pouco. Saber que você não vai fugir me deixa mais solto, mais à vontade dentro do meu próprio corpo, mais confortável para respirar o seu ar.
— Chanyeol terminou comigo. — você conta.
— De novo.
— É. De novo.
O seu suspiro pesado é o bastante para qualquer um ter uma vaga ideia do quão repetitiva esta história é. Não importa se é Chanyeol, Taeyong ou qualquer um dos caras com quem você se envolve, a história sempre termina do mesmo jeito. Você sempre se machuca e suas feridas nunca são arranhões como aquelas que acontecem quando caímos de bicicleta. Elas são profundas, feias, nunca cicatrizando o bastante até o próximo impacto violento que seu coração te obriga a sofrer, Baekhyun. Você sangra como se seu coração fosse apaixonado pela dor, viciado pela sensação dilacerante de ser reduzido a nada, de ser usado e então descartado até que outro cara fodido seja atraído pelos seus olhos esfumados, cabelo loiro, seu cheiro de verão e o seu corpo apenas para te usar de novo e te manter nesse maldito ciclo porque um amor tranquilo nunca vai prender você.
Eu nunca vou prender você.
— Você tem um vício, hyung.
Você não diz mais nada. É duro admitir para si mesmo, eu sinto o mesmo em relação a você. Estou viciado na sua presença, nos momentos em que sua atenção é minha, na sensação de ter seu ombro roçando no meu braço, nos sons da sua respiração e na sua voz mesmo sabendo que nunca terei mais do que pequenas partes suas.
Quando olho para você mais uma vez, posso ver essas lágrimas grossas escorrendo pelas suas bochechas e atingindo a tigela de lamen. Meus braços viajam para você e em um segundo está escondido no meu abraço, parecendo tão pequeno quanto jamais foi.
— Não é uma doença incurável. — Minha voz não passa de um sussurro e você se encolhe mais.
Sua respiração no meu pescoço, seus braços nos meus ombros, minhas mãos em volta da sua cintura enquanto o maldito lamen esta esquecido na mesa de centro. Sinto minhas próprias lágrimas enquanto você soluça mais forte, procurando um jeito de fazer as palavras deixarem a boca.
— Se não é incurável, porque sinto que estou morrendo a cada respiração, Sehun? Porque sinto que já fui longe demais para achar o caminho de volta? É como se afogar no vazio.
Eu poderia dizer o mesmo, Baekhyun. Poderia dizer que nós dois estamos nos afogando no vazio, morrendo devagar nas armadilhas que criamos e que foram criadas para nós.
Fomos pegos. Eu e você.
— Ainda quero que você fique, hyung.
— Você tem mesmo muita fé em mim, Sehun. — Você funga contra o meu ombro e de alguma forma eu sei que estamos chegando ao fim. — Eu não nasci para dar certo então, porque lutar contra isso? Só preciso continuar até que essa merda termine.
Quando você fecha a boca, eu sinto medo e com medo eu me agarro a sua cintura para que você não fuja. O medo que me mantinha longe do seu calor se torna pequeno perto do medo de perder você, de ver você se afastando ainda mais até que eu não possa tocá-lo.
— Eu realmente quero que você fique, hyung.
— Por quê?
— Por favor, Baekhyun.
Quando suas mãos me empurram para longe e sua determinação fria me atinge, eu sei que você se afastou um pouco mais. Diante dos meus olhos, você não passa de um grande borrão e na sua frente eu não passo de um garoto.
Na sua frente, eu desmonto em uma poça sufocante de lágrimas. Ninguém me ensinou a lutar, hyung. Ninguém nunca me disse como fazer, como expressar o que eu desejava, mas aqui estou eu, chorando inconsolavelmente porque quero que você fique, porque não sei como tirar a sua dor ou a minha. Porque não sei como acabar com nossos vícios, como nos levar em segurança para a margem.
— Pare de chorar.
Isso me lembra o meu pai e, hyung, nesse momento eu consigo rir do quão cruel essa situação pode ser para nós dois porque nesses momentos você também se parece com o seu pai e com o quão duro ele queria que você fosse. Com o quão “homem” ele queria que você fosse.
— Você pode vestir uma máscara, mas não é rude, Baekhyun. — As lágrimas ainda estão lá e você ainda é uma imagem líquida, mas as palavras saem com alguma facilidade. — Fazer o que seu pai faria não vai me fazer parar e não vai me impedir de amar você. Eu não pararia mesmo que você implorasse.
— Cale a boca, Sehun. — desta vez, é a sua voz que treme. — Cala a boca.
— Estou com medo, Baekhyun, tanto medo… Mas você tem visto todos os meus medos durante todos esses anos sem dizer nada. Hyung, se vai fugir, me deixe dizer em voz alta antes.
— Não.
— Baekhyun…
— Não! Cale a boca.
— Não posso tirar a sua dor, não posso fazer você voltar a brilhar, mas Baekhyun, você não imagina o que eu faria para que algo assim fosse possível. Tenho estado apaixonado por você há tanto tempo, tantos anos… Eu pensei que poderia mastigar e engolir este sentimento, mas você sabe que eu nunca consegui. Você sempre soube que eu não conseguiria.
As lágrimas nos seus olhos me lembram culpa, hyung. Você se sente culpado? Se sente culpado porque eu estou apaixonado? Por que amo você?
— Você nunca teria conseguido me impedir.
— Não vamos mais falar sobre isso. Não vamos falar sobre isso nunca mais. — Você murmura e deixa a sala.
Quando a porta da frente bate, eu sei que perdi qualquer oportunidade. Quando você vai embora, eu sei que nossas chances, aquelas que sempre existiram na minha mente, não passam de devaneios agora. Hipóteses que jamais chegarão a acontecer na realidade em que nos encontramos.
É sentado no nosso sofá que eu penso nos eventos que nos moldaram para ser o que somos e é aqui que eu os odeio um pouco mais.
Você não volta na manhã seguinte, na semana seguinte ou no próximo mês e tudo que tenho são os rastros que você deixou enquanto a abstinência da sua presença me transporta para a ruína, onde a dor consome cada pedaço meu, deixando muito pouco para qualquer um poder levar.
Suas coisas somem do nosso apartamento depois de dois meses e tudo o que você deixa é uma nota amarela na geladeira. Quando eu a pego, sei que esta será a última e quando leio, tenho certeza.
“Não me perdoe, Sehun. — B.”
É nessa nota que entendo que fomos deixados para morrer sozinhos, hyung, e pela primeira vez não tenho mais medo da queda livre. Eu já perdi você quando tentei voar perto demais do sol, então também não me perdoe, Baekhyun. Ainda estarei amando você enquanto estivermos caindo. Ainda estou amando você bem aqui, no meio da minha queda.
