Work Text:
Eu o conheci em uma manhã de outono, não me lembro de que ano e muito menos de que mês. Me lembro de ser levado até o campo do prédio da escola Jujutsu, perto de uma arvore na entrada que não tenho certeza se ainda estava lá quando fui pela última vez. Estava ventando frio e eu carregava apenas um caderno surrado e uma mochila feita às pressas. Na verdade, naquela época, me lembro bem que grande parte das coisas que eu fazia eram as pressas. Eu vivia correndo de lá para cá, sempre atrasado para algo que eu ao menos sabia o que era ou para qual direção ao certo eu deveria correr.
Até o momento em que meus olhos caíram sobre ele. Ele sempre fora um garoto escandaloso, não apenas por sua aparência mas também comportamento. Ele foi trazido aos tropeços pelo diretor enquanto resmungava alto sobre alguma coisa que eu não me lembro bem. Seus olhos demoraram um pouco para me notar, alguns metros à frente, mas quando o fez. Ah, quando o fez, eu juro que senti o mundo inteiro desacelerar. Foi como se por toda a vida eu estivesse esperando por aquele momento, aquele único instante em que tudo pararia e ficaria silencioso e tudo que eu poderia escutar e ver fosse, respectivamente, meu coração dentro de meu peito e aqueles olhos brilhantes. Foi só a primeira vez que o vi mas já sabia que nunca me esqueceria dele em toda minha vida.
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Satoru era uma pessoa extrovertida em todos os parâmetros. Ele não tinha vergonha de falar de assuntos pessoais ou se mostrar alguém vulnerável pra mim. Acho que parte disso se dava ao fato de que ele compartilhava a mesma confortabilidade que eu sentia em sua presença. E outra parte porque, por mais que fosse extrovertido – e, é claro, Satoru Gojo –, ele parecia ser tão solitário quanto eu. Nunca soube se isso era por conta de sua personalidade um tanto dissimulada ou se por escolha. Ele parecia ser o tipo de pessoa que poderia ter todos na palma da mão, mas raramente eu o via conseguir o que queria das pessoas. Na verdade, ele era alguém fácil de se frustrar, e constantemente o via choramingar pelos cantos por aqueles que não faziam sua vontade. Um grande garoto mimado.
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Eu nunca fora exatamente uma pessoa muito consumista. Sempre prezava pelo básico e valorizava o simples, mas Satoru era o contrário disso. Acho que nunca havia visto alguém conseguir gastar tanto dinheiro em coisas desnecessárias quanto ele naquele sábado que ele me arrastou para o centro. Nós andamos por um dia inteiro e o garoto parecia mais como uma mulher de meia idade que levava o companheiro junto para carregar suas sacolas. Até pararmos em uma loja de acessórios e Satoru ficar completamente fascinado. Ele insistiu que eu fizesse um piercing com ele, algo que obviamente eu não aceitei, mas quando ele me ofereceu um par de brincos de pedras, eu os aceitei de bom grado. Ele disse que combinavam com os meus olhos e até aquele momento, não pensei que ele prestasse muita atenção em mim. Éramos amigos, é claro, mas boa parte de nossas interações se tratavam de ele falar e eu escutar. Foi na verdade uma surpresa que ele realmente tivesse pagado por aquilo. E os brincos de fato combinavam muito.
Eu nunca usei qualquer outro par de brincos na vida.
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Meu primeiro aniversário na escola Jujutso foi um evento. Eu nunca fora de comemorar aniversários, mas dizer isso não foi o suficiente para impedir Satoru de planejar uma surpresa para mim na sala de aula. Ele organizou nossos colegas, comprou um bolo e chapéus de festa, fez desenhos na lousa e cantou a música de uma forma tão alegre que quase me fez apreciar a data. Quando a última vela foi apagada, todos me entregaram alguns presentes e, por último, ele puxou uma pequena caixinha das costas. Era do tamanho de minha mão e havia sido embrulhada às pressas em um papel com gatos desenhados.
— como sabia que você gosta de coisas simples e neutras, resolvi trazer só uma lembrancinha, mas algo que você pode carregar sempre consigo.
Na caixinha, havia um pequeno chaveiro de peixe branco.
— é como um amuleto, para te trazer sorte nas missões, e fora dela também. Olha, eu tenho um também! — ele mostrou o seu, na verdade preto, com um sorriso de orelha a orelha.
Eu nunca tirei aquele amuleto de perto.
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Satoru tinha picos de sentimentalismo as vezes. Eu não sabia bem como lidar, visto que nunca fora de lidar com meus próprios sentimentos, e lidar com o de outras pessoas seria traria um resultado ainda mais frustrante. Mas eu achava relativamente engraçado, pois seu comportamento era parecido com o que se espera de uma mulher dias antes do seu período menstrual. Ele costumava entrar em nosso quarto, em um silencio absoluto que não era típico de si, e se sentava na beirada da janela, soltando um suspiro longo e barulhento que dizia "me pergunte o que eu tenho para começarmos um papo filosófico do qual você irá ficar pensando por semanas ou esquecer assim que acordar amanhã". Eu tenho flashes de algumas dessas vezes. Mas uma vez em especifico, apenas alguns meses antes de tudo acontecer.
Eu estava sentado na cama folheando um livro chato que encontrei no fundo da minha bolsa, um edredom cobrindo as pernas e usando um moletom cinza escuro e que ficava um pouco largo em mim. Satoru entrou, usando uma social e calças, porém com os pés descalços. Se dirigiu tão silenciosamente até a janela que eu só percebi que ele já estava ali quando a janela se abriu, soprando o vento gelado sobre meu rosto. Naquela vez, ele não soltou aquele suspiro habitual. Só ficou com as duas pernas para o lado de fora, apoiado no parapeito e olhando para o céu. Eu arrisquei falar alguns segundos depois.
— o que você tem? — minha voz soou alta no silencio que fazia no cômodo. Ele não moveu nem um músculo sequer. — Satoru? — perguntei, recebendo finalmente aquele habitual suspiro.
— você acha que existe vida após a morte, Suguru?
Aquela pergunta me pegou desprevenido. Não é como se as perguntas frequentes de Satoru não se voltassem exatamente para esse tipo de pensamento mórbido, mas suas perguntas costumavam ser... como posso dizer? Na maioria das vezes, pensamentos fúteis.
— bom — eu me ajeitei na cama, deixando o livro na cabeceira. —, acredito que exista sim. Não necessariamente de uma forma religiosa mas, talvez exista sim, um tipo de reencontro.
Ouvi o leve som de sua risada quando ele baixou a cabeça.
— se houvesse um pós vida religioso, duvido que seriamos aceitos.
— você eu realmente não tenho certeza, mas eu nunca fiz nenhum mal à alguém sem que fosse de forma estritamente profissional. — falei, procurando manter a descontração. Não demorou muito para cairmos naquele silencio novamente.
— se houver alguma outra vida, eu espero que te encontre nela. — sua voz saiu tão fraca que eu pensei que houvesse escutado mal.
— acho que é o meu destino encontrar você em todos os universos possíveis, Satoru Gojo.
— seremos amigos em todos eles? — ele me espiou pelo ombro, os olhos azuis brilhando feito cristais.
— em cada um deles. — vi ele sorrir por um momento e depois voltar a atenção ao céu.
Pouco tempo se passou até que eu ouvisse o som de um choramingo vindo dele. Primeiro, pensei que fosse impressão, mas depois que ele se virou para me olhar, percebi seus olhos um pouco avermelhados e o rosto molhado pelas lágrimas. Sua expressão era de pura dor. Eu nunca o havia visto de forma tão frágil quanto daquela vez. Vi o quanto suas mãos tremiam e como as mangas da social estavam cobertas de sangue. Supondo o que eu iria dizer, ele retirou a camisa, os membros todos tremendo e a jogou em um canto do quarto. Retirei o moletom que usava e estendi para ele, que o colocou rapidamente antes de afastar o edredom de minhas pernas e se deitar ao meu lado, de forma que sua cabeça se apoiasse em meu peito.
Nenhum de nós disse nada mais naquela noite. Eu queria ter dito para ele que seu corpo estava frio feito um cadáver, ou que ele deveria ter fechado a janela antes de se deitar, ou que aquela posição estava fazendo minha coluna doer, mas não consegui dizer nada. Demorou menos de 10 minutos até os soluços cessarem e sobrar apenas a respiração pesada que acompanhava meu peito. Não sei exatamente quando minha mão chegou às suas costas e nem quando ela passou aos seus cabelos, macios e sedosos. O garoto que nasceu para ser o mais forte estava ali, dormindo sobre meu peito depois de choramingar feito uma criança. Dormindo de forma tão profunda como se eu pudesse ser a pessoa que ele mais confiava naquele mundo.
O moletom ficou com ele, até o dia que eu parti. Eu parti e levei o moletom, mas ainda tinha seu cheiro.
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Houve uma época em que não havia luz.
Só havia escuridão.
Tudo o que eu conseguia ver era
Nada.
Satoru era a luz.
Eu deveria ter me agarrado à sua luz.
Talvez as coisas tivessem sido diferentes se tivesse.
Mas eu não consegui.
Sua luz não foi o suficiente.
Pela primeira vez,
ele não era o mais forte.
Porque ele não podia me fazer forte como ele.
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Depois do dia que eu parti, achei que poderia me livrar de tudo o que havia deixado na escola e me refazer por completo.
De fato eu me refiz, mas eu nunca realmente o deixei.
Satoru jogou uma maldição em mim desde a primeira vez em que botei os olhos nele.
Que eu nunca mais o esqueceria.
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Eu achei que no mínimo ele me deixaria em paz depois de tudo. Achei que, depois de tudo, ele me esqueceria. Era o que deveria ter feito. A partir do momento em que deixei aquele lugar, ele deveria ter me apagado de tudo o que lembrava. Colocado fogo em qualquer uma das coisas que eu tivesse deixado para trás. Mas não. Ao invés disso, ele deixou aquelas mensagens de voz. Malditas mensagens de voz Satoru! Eu deveria ter apagado todas elas. Melhor, eu deveria nunca tê-las aberto. Deveria ter me livrado do maldito celular e nunca mais ao menos ter pensado nele.
Fracassei. E ouvi cada uma das mensagens de voz, pelo menos três vezes ao dia. Para não esquecer como sua voz soava na caixa postal.
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A penúltima vez que nos vimos foi uma surpresa pra mim. Não era pra ser. Era para eu estar preparado, mas eu não estava. Sua voz soou às minhas costas e meu corpo todo se arrepiou. Você parecia o mesmo e, ao mesmo tempo, outra pessoa. O que era totalmente compreensível. Assim como eu, ele fingiu não se afetar com a minha presença. Satoru pode ter os seis olhos mas eu o conheço. Sei que seu lábio treme ligeiramente quando ele se sente nervoso, e os vi se repuxarem assim que eu o olhei. Nós dois tivemos a mesma reação. Mas eu sabia, de alguma forma, que aquela seria uma das ultimas vezes que olharia para ele, assim, sem que estivéssemos em lados opostos de uma guerra. Lados ainda não haviam sido travados naquele dia - por mais que eu estivesse prestes à delimitá-los. Poderíamos ter saído e tomado um café, ou só sentado e conversado sobre como havíamos sentido falta um do outro nesses dez anos.
Não podíamos. Nunca assumiríamos isso. Bom, eu não assumiria. Você assumiu.
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De alguma forma, desde pequeno eu sempre pensei que poderia escapar da morte. Que eu viveria para sempre e seria um dos feiticeiros mais formidáveis do mundo, que ajudaria muitas pessoas e seria muito amado por todos. Não cumpri nenhum desses objetivos. Acho que nenhum deles se tornou uma real prioridade. Satoru ficaria impressionado ao me ouvir dizer que eu não queria viver para sempre. Acho que fugir da morte era uma coisa dele, não minha. Então naquela tarde, quando minhas costas escorregaram pela parede até eu encontrar o chão, eu já estava certo de que morreria. E Deus, eu o desejei tanto naquela hora que, quando ele apareceu, soou como aquelas últimas refeições que os presos por prisão perpétua podem exigir, ou como os desejos que se fazem nos aniversários ou para estrelas cadentes. Sabe, coisas de primatas.
Quando ele disse meu nome, a voz embargada pelas lágrimas que jurou que não iria derramar, eu quase soltei um som de alivio. Ah, como eu gostava como meu nome soava por entre seus lábios. Eu poderia ouvi-lo falar por horas até que eu me esquecesse quem eu era. Talvez fosse a morte me dando aquele sentimento e o gosto de metal na boca. E quando me falou para dizer minhas últimas palavras, eu as soltei sem nem pensar. Apertei aquele amuleto em minha mão e até considerei ser sincero naquele momento, mas sabia que dizer aquilo pra ele tornaria tudo mais difícil. Tornaria me matar o ato mais difícil, e acho que meus olhos me entregaram assim que ele se aproximou, de frente pra mim. A última imagem que vi foi ele, e um sorriso escorregou pelos meus lábios.
Últimas palavras? Satoru Gojo, eu te amo. Você foi o melhor e único amigo que tive. Prometo que iremos nos encontrar em outras vidas, e eu estarei te esperando em todas elas. Tente me encontrar. E espero que, em alguma delas, nós consigamos, de fato, ser os mais fortes juntos.
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