Chapter Text
Kojiro sempre foi um filho excelente. Não era o melhor em quesito notas, e talvez não em comportamento mas... podia se dizer que ele era um bom menino. Ele não era rude, ajudava quem quer que fosse e sempre obedecia seus pais. Bom, pelo menos essa era a visão que seus pais tinham dele. Mas tinha um costume terrível de voltar horas depois do horário e cheio de machucados. Havia apenas uma coisa que Kojiro amava tanto quanto amava sua família e seus amigos; o skate.
Como costumeiro, ele deslizava sobre o skate em uma das únicas pontes planas e bem iluminadas àquele horário da noite. Que horas eram? Onze? Meia noite? Eles nunca se preocupavam o suficiente com isso. Naquela região, tão longe do centro comercial, eles não precisavam se preocupar com oficiais em ronda ou vizinhos reclamando pelo barulho. Haviam marcado o local como L.S.G.E.C.V.S. – Lugar Sem Guardas E Com Velhos Surdos. Por isso, as rodas de seu skate faziam tanto barulho e ele ao menos se preocupava com isso.
Tirando o acrílico de encontro a pedra, o único som era da risada de Kaoru, que estava apoiado contra o parapeito da ponte ao lado de Adam. Seu skate estava apoiado frouxamente sobre uma das colunas e o de Adam ia de lá para cá abaixo de seu pé enquanto ele dizia algo que parecia ser de extrema graça para Kaoru. O garoto dos cabelos rosas não era o tipo fácil de ser conquistado – mesmo que, quando o conhecera, Kojiro era na verdade quem havia aceitado sua amizade. Não é como se ele estivesse com ciúmes. De Kaoru? Não mesmo. Eles eram amigos desde o jardim de infância. Não seria um mauricinho de cabelo azul que arrancaria cherry dele, certo?
Não ficaram ali por muito mais tempo. Os barulhos de trovões os assustaram e tiveram que correr para suas casas. Adam morava em um casarão na direção oposta das casas deles, e a primeira alcançada foi a de Kojiro. Sua mãe os recebeu na porta com os sermões de sempre e deu um abraço caloroso em Kaoru.
— Kaoru querido, como você cresceu! — Kaoru esboçou seu melhor sorriso, os cabelos da mulher se enroscando nos piercings de suas orelhas — oh céus, você e esses acessórios de gente jovem. Cuidado para não se arrepender no futuro.
— já disse senhora Nanjo, eu não vou. — a mulher segurou-o pelas bochechas e sorriu.
— vou ligar para avisar seu pai que vai ficar aqui. Vão se lavar e direto para a cama.
— mas estamos com fome mãe! — Kojiro jogou os braços em torno do pescoço da mãe de forma dramática e ela o afastou.
— voltassem mais cedo então. Esperem até o desjejum.
Os dois seguiram resmungando até o quarto de Kojiro. A família Nanjo era consideravelmente mais simples do que Kaoru ou Adam, mas o primeiro nunca parecera se importar realmente com isso. Ele costumava sempre dizer que ‘o dinheiro nunca havia pagado a felicidade que ele tinha com o skate’ e que sentia algo similar quando estava naquela simples casa. Kaoru se jogou na cama já feita para ele assim que entrou, se espreguiçando feito um gato. Os skates haviam ficado na lavanderia, a caminho do quarto.
— ah céus, estou tão quebrado. — ele resmungou.
Kojiro foi até sua própria cama, ao lado de onde o amigo estava, e o observou de cima. Kaoru estava de ponta cabeça, os cabelos espalhados pelo colchão feito um mar rosado e molhado. Os olhos cintilaram ao encara-lo de volta. Sua beleza era dolorosa.
— preciso te perguntar uma coisa — Kojiro pronunciou antes que se desse conta de que o estava fazendo.
Kaoru se levantou, virou de cabeça para baixo e apoiou o rosto na mão, com um sorriso. Seus cabelos cobriram o rosto e ele os afastou com um movimento exagerado. Doloroso.
— diga então.
— te conheço à séculos sabe... — começou.
— sabe que eu odeio rodeios, apenas diga logo!
— você gosta do Adam? — a surpresa em seu rosto foi muito repentina. Se Kojiro não o conhecesse bem, não teria percebido o lábio tremer levemente ao desviar os olhos, ele estalar dois dedos e suas bochechas tomarem um pouco de cor.
— do que está falando? — sua voz tremeu um pouco. Estava exposto na cara dele.
— qual é Cherry, somos melhores amigos. — os olhos se voltaram para ele, incertos. Ainda eram melhores amigos?
Pareceram horas os segundos que Kaoru tomou para pensar em uma resposta. O coração de Kojiro batia de forma descompassada. Não havia sentido em se sentir dessa forma. Seu corpo todo queimava pela ansiedade, ao mesmo tempo que ele sentia tão frio como nunca.
— o que eu faço, Koh?
Oh, então eu estava certo.
Todo o calor de seu corpo se apagou. O frio passou. Seu coração até pareceu parar por um momento. Ele respirou fundo, sentindo um vazio no peito onde costumava sentir tão cheio que parecia doer. Ele deu de ombros.
— eu não sei.
[...]
Kojiro estava há alguns minutos de seu precioso sono. Mas algo o incomodava, dentro do peito, perto daquele vazio. Ele virou de um lado para o outro e olhou para a janela. A lua brilhava lá fora, longe e solitária. As vezes Kojiro se sentia dessa forma também.
Ele levou um susto quando o telefone tocou. O toque especial apenas para os amigos era provável sinal de problema. Quando viu que era Kaoru, que nunca ligava, principalmente esse horário, teve certeza.
— Kaoru? Você sabe que horas... — ele se cortou ao ouvir o choramingo do outro lado da linha. — Cher, o que houve?
— Koh... — sua voz falhava, entrecortada. O som poderia ter quebrado o coração de Kojiro em pedaços. — o Adam, ele... — ele fez uma pausa para soluçar.
— espere, me diga onde está. Estou indo para aí agora. — o garoto hesitou um instante.
— na ponte...
Kojiro nunca havia se vestido tão rápido como fizera naquela noite. Ele apanhou o skate e patinou tão rápido até a ponte que não notou a quantidade desconcertante de pessoas acordadas no caminho. Quando chegou, Kaoru estava de costas para o parapeito, abraçando os joelhos contra o peito. Foi uma ação automática quando seus pés simplesmente abandonaram o skate e se jogou de joelhos ao seu lado.
— Cher... — o menor ergueu os olhos para ele, vermelhos e inchados, e jogou os braços sobre seus ombros. Kojiro se deixou cair sentado e envolveu a cintura do amigo, o trazendo para mais perto. — o que foi que aconteceu?
— Adam — o menção de seu nome já fazia o coração de Kojiro palpitar. Se ele tivesse feito qualquer coisa para Kaoru... — ele foi embora.
Aquilo era tudo, menos o que Kojiro esperava. Kaoru ainda soluçava contra seu pescoço, as lágrimas correndo para dentro da camisa. Adam tinha ido embora? Mas... para onde?
— para onde? — Kaoru começou a balançar a cabeça de lá para cá, evitando continuar. Kojiro o trouxe para ainda mais perto, se é que isso ainda era possível — ei, tudo bem. Eu estou aqui, ok? Não vou te deixar. — Kaoru desabou. Se Kojiro colocasse as mãos naquele desgraçado...
Demorou cerca de alguns minutos para que Kaoru se recompusesse o suficiente para irem direto para a cada de Kojiro. Entraram de fininho na casa, nas pontas dos pés para que ninguém os percebesse, e fecharam a porta do quarto atrás de si. Kaoru sentou na cama de Kojiro, abraçando a si mesmo em forma de consolo. O garoto de cabelos verdes se ajoelhou a sua frente, apoiando os braços e o rosto em seus joelhos.
— pode pegar um pijama meu, aquele azul que você gosta, e amanhã quando acordarmos, matamos aula, te faço um chocolate quente e vemos filmes de dinossauro enquanto você faz tranças no meu cabelo. — Kaoru riu, lágrimas se formando em seus olhos. Ele as limpou rapidamente e colocou a mão na bochecha do amigo.
— você é bom demais para mim. — Kojiro sorriu.
— é, você ta certo, eu sou um cara legal demais. — Kaoru empurrou seu rosto devagar e ele caiu, rindo.
— obrigado Koh. De verdade. — os olhos dele brilhavam enquanto ele agradecia, e o sorriso era tão genuíno que fez o coração de Kojiro falhar por um instante. Uma beleza dolorosa.
— amigos são para essas coisas. Melhores amigos, para mais coisas ainda.
— como por exemplo? — só agora o mais alto havia percebido que podia ser mal interpretado. Ele sentiu as bochechas quentes.
— como... deixar você ganhar no Mortal Kombat.
— então você é um ótimo amigo, porque eu sempre ganho. — Kojiro abriu a boca, perplexo.
— isso não é verdade! Teve aquela vez, na semana passada, que eu acabei com você.
Kaoru começou a rir, agora de verdade, e já estava caçoando do amigo de novo. De repente, tudo estava bem de novo, e o mundo estava em ordem.
[...]
