Work Text:
O importante era o fim, não os meios para obtê-lo. Os ventos da guerra estavam longe de se acalmando e Aether, exausto, seguia procurando por sua irmã. Ele havia derrubado diversos magos e monstros que queriam feri-lo e ferir a crianças. Dentre todas as pessoas guerreiras que lutavam para continuar vivas em meio a aquela bagunça, Aether não conseguia pensar em si, nos ferimentos que haviam rasgado sua pele e deixado marcas. Não. Naquele momento apenas uma coisa surgia em sua mente e esta era a preocupação com sua irmãzinha.
Ele corria pelos campos, protegendo pessoas e monstros, usando seus poderes em prol de chegar na guerra principal, onde os Arcontes lutavam contra dragões e monstros e, principalmente, Lumine. Aether ouvia as explosões, os gritos, e enxergava claramente o show de luzes que ocorria.
De lanças do tamanho de montanhas a ventos tão fortes que eram capazes de varrer toda vida ao redor. Raios caiam e chamas tomavam todo o caminho até lá. A única arconte que não estava ali era a tão famigerada Tsaritsa, que planejava usar tal situação futuramente, entretanto, seus subordinados também lutavam por suas vidas, sejam pessoas de nível baixo até um mensageiro, Tartaglia.
Aether estava finalmente se aproximando de seu destino, o vento se tornava mais forte e as vozes mais distinguíveis. Mesmo com tanto barulho, ele ainda ouvia o som de sua irmã irritada, lutando com toda sua força para matar aqueles que oprimiram seu povo por tanto tempo. Aether sabia que ela iria se arrepender de tudo aquilo, olhando para trás, para todo o sangue derramado, os choros que ecoavam pelo campo de batalha, tudo aquilo era ignorado por aqueles que estavam cegos para o exterior de suas próprias guerras, era tanto poder que retardava a noção dos deuses, que deixaram suas nações lutarem por conta própria por inimigos fortes e sangrentos, obcecados com a vontade de se sentirem humanos novamente, mesmo que suas mente já tivessem se corroído.
Com força, Aether fechou suas mãos, uma energia de anemo infundiu-se ao redor de seu corpo, como uma película, aquilo talvez fosse suficiente para que ele conseguisse passar por tanta movimentação. Com tanta energia dentro de uma área só, havia sido criada um tipo de barreira que impedia qualquer humano ou besta iluminada de se aproximar, se aquele resto de energia anemo que ainda tinha no corpo falhasse, ele seria atirado para o outro lado do campo e já não teria energia para caminhar até ali.
Por um breve momento, Aether olhou para o campo de batalha, todos estavam lutando, talvez se ele tivesse se precipitado, Lumine não teria se perdido em um caminho tão escuro quanto aquele, tudo estaria bem agora, eles estariam tomando café ou contando histórias sobre os dias de guerra que haviam passado a tantos milênios atrás.
Enfim, Aether tomou coragem e correu para dentro de toda aquela bagunça elemental.
Assim que seu corpo atravessou, uma forte dor acertou seu corpo inteiro, era como se vários raios caíssem sob sua cabeça de uma vez só. Ele gritou conforme lágrimas se formavam, era muito para ele aguentar.
Então, como se fosse simples, toda a energia sendo gasta ali foi consumida, como um para-raio, Aether atraia o poder elemental de todos ali, anemo, geo, electro, pyro e, por último, mas não menos importante, a energia do abismo que emanava de Lumine e de toda terra ao redor.
Foram 1…
2…
3 segundos.
3 segundos até todos os deuses notarem o que estava ocorrendo.
A garota de cabelos loiros olhou para o seu irmão, a visão dela parecia tão borrada que levou um tempo até notar quem realmente era, mas assim que o fez, Lumine correu.
Correu com suas pernas bambas e respiração ofegante, o desespero no olhar após reconhecer os loiros cabelos bagunçados que voavam com o vento e toda a energia que rasgava o local de seu núcleo e invadia seu corpo. Nem a própria Lumine sabia o porquê daquilo estar ocorrendo, mas o grito rasgado de dor foi suficiente.
— Aether!
Quando chegou perto, ela sentiu uma mão agarrar seu pulso.
— N-Não se atreva! — Barbatos gritou com lágrimas em seus olhos, ele não era muito forte fisicamente e suas lindas asas brancas estavam feridas e bagunçadas. — Eu não vou deixar você feri-lo!
Lumine olhou para ele com repulsa e depois o empurrou.
— Não me toque! — gritou ela.
Venti caiu para trás, ele sequer conseguia se sustentar após tal batalha e o mesmo se aplicava para os outros arcontes. A adrenalina de todos havia caído e nenhum conseguia se mover mais, Venti usou tudo que lhe restava para impedir a princesa do abismo de ferir seu amigo, ele não entendia o que estava acontecendo com ele, mas se aquele monstro contra quem estava lutando se aproximasse, nada de bom sairia, apenas mais dor e o deus já estava cansado de tudo aquilo.
Lumine olhou para o arconte e depois para seu irmão, a movimentação de energia finalmente havia cessado, os ventos fortes haviam se acalmado e toda a energia se esgotado. Toda a bagunça feita pelos deuses, a barreira de vento e fogo espalhado, tudo havia sumido.
Aether caiu de joelhos, seu rosto parecia exausto e vazio, mas mesmo em tal situação, ele pode sussurrar algo:
— Lumine…
O coração da garota parou e por um instante pareceu vacilar. Ela se moveu o mais rápido que pode e agarrou o corpo de seu irmão gêmeo antes que caísse no chão.
…
Venti se arrastou até a loira.
— Vamos dar uma pausa. — ela disse olhando para o deus no chão.
De repente, houve um silêncio até todos aqueles deuses verem a destruição causada pela guerra, o abismo massacrando humanos e humanos massacrando o abismo, todo o caos causado pelos governantes de ambos os lados.
Um choro começou a ressoar pelo campo e as pessoas começaram a gritar.
Houve um consenso geral de trégua entre os monstros e humanos, todos eles observavam a cena dos arcontes quase caídos e da princesa do abismo segurando firme o famoso viajante loiro. Monstros e pessoas choravam com aquele resultado, todos pareciam cansados demais, haviam sido longas horas de guerra que parecia sem fim.
— T-Tudo acabou? — Perguntou uma voz distante entre as pessoas.
Nenhum deles respondeu, pareciam sem palavras com tudo o que havia ocorrido.
…
— Aether está bem? — a voz pequena de Lumine perguntou ansiosamente.
Baizhu fechou a porta da sala e olhou para a garota, Changsheng também a observou. O médico tinha um sorriso doce, capaz de deixar qualquer pessoa confortável, enquanto a cobra em seu pescoço era ácida e parecia querer matar todos.
— Óbvio que não! — gritou o animal escamado balançando seu corpo inteiro.
— Changsheng. — Baizhu repreendeu. — Haverá alguns efeitos colaterais, mas creio que o viajante vá ficar bem. Antes que você entre, deixe-o descansar um pouco, nem seres de fora desse mundo conseguem comprimir tanta energia corrompida, fique feliz que ele está bem.
Lumine olhou para baixo e acenou.
Baizhu a encarou quase que com pena, ele se identificava um pouco com ela, mesmo tendo feito tantas coisas horríveis, aquela garota só queria proteger sua nação, tantas pessoas afetadas por castigo divino que agora havia se tornado difícil adorar Celestia do mesmo jeito que antes.
Baizhu suspirou e foi até a loira.
— Não se culpe por tudo, claro, você também tem sua parcela de culpa, mas Aether não está ferido necessariamente por sua causa, ele vai melhorar gradativamente, então não fique tão deprimida.
…
— Lumine, acha que vamos precisar disso? — Perguntou enquanto segurava um vidro cheio de leite.
A garota loira olhou para a cesta que carregava em seus braços e acenou.
— Esta na lista e ainda não pegamos. Pode trazer, Aether!
O viajante sorriu e tirou de seu bolso um pequeno pacote cheio de mora, agora ele estava usando roupas mais casuais, assim como sua irmã. Mondstadt nunca pareceu tão linda quanto estava aquele dia, um céu azul limpo com o sol brilhando fortemente.
— Humph! Paimon disse que íamos levar! — A pequena fada exclama cruzando seus braços.
Aether entrega as mora para a jovem mulher que cuidava da banca e logo se juntou a Lumine.
— Você convidou alguém para hoje à noite?
O garoto esfrega o queixo e responde:
— Todos vão vir, afinal, é o nosso aniversário hehe!
Lumine sorriu um pouco sem jeito, tudo estava melhorando desde que ela largou o abismo, mesmo as pessoas que passaram 500 anos buscando vingança haviam se acalmado, os magos pareciam dispostos a voltar a viver em sociedade novamente, em paz. Embora nem tudo fosse flores, as pessoas odiavam o Abismo com razão.
— Convidou alguém, Lumi? — Perguntou seu irmão conforme caminhava à frente.
— O Dain e alguns magos… — Respondeu hesitante.
Aether olhou para ela e desacelerou.
— Não fique assim, as pessoas vão aceitar vocês, eu sei que vão. — Ele tentou confortá-la.
Lumine caminhou ao lado dele até parar, sua mente estava cheia de perguntas, assim como a do seu irmão deveria estar, mas ela não sabia se tinha o direito de perguntar nada para ele, como: “por que você me salvou?” e “Você sabe que eu fiz coisas horríveis?”
— Você está bem? — Ela perguntou, aquela era a pergunta mais importante, Aether estava bem?
Aether riu quase de imediato, de um modo quase que forçado. Ele acenou como se nada o preocupasse, nos últimos tempos ele vinha agindo como se nada o deixasse aflito, o que fazia Lumine enlouquecer. Ela não queria que seu irmão guardasse tudo em seu peito, mas, apesar de tudo, a resposta dele foi a mesma de sempre:
— Sim, é claro, por que não estaria?
