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Summary:

“— Eu fodi com tudo, Fizz, mais uma vez. — Blitzø respondeu — Posso passar a noite aí? Não quero voltar pra casa agora, e sinto que se eu passar mais de dez minutos sozinho a chance de eu atirar contra a minha própria cabeça é muito alta.”

Dentre todas as possibilidades, a que Fizzarolli definitivamente não esperava, era receber uma ligação de Blitzø as dez da noite, pedindo para passar a noite em sua casa.

Notes:

Opa, trazendo aqui mais uma oneshot, dessa vez de Helluva Boss. Essa oneshot se passa exatamente depois dos acontecimentos de Full Moon e antes dos acontecimentos de apology tuor, provavelmente vai ter uma parte dois que vai se passar depois dos acontecimentos de apology tuor. Antes de começar, acho importante esclarecer que essa é uma ficção pelo ponto do >Blitzø< e do >Fizzarolli< sobre os acontecimentos de Full moon, e não, eu não estou querendo jogar o Stolas pra cruz ou muito menos o colocando como principal culpado dessa situação ( ele e o Blitzø ambos estão errados).

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Os pensamentos de Blitzø estavam confusos e nebulosos, ele não se lembrava em que momento exato tinha saído da entrada da casa de Stolas, mas quando seu cérebro resolveu voltar a funcionar, ele se deu conta de que estava dentro da van da empresa.

Ele não fazia ideia de quanto tempo havia se passado desde que Stolas o tinha expulsado, muito menos que horas eram agora, mas os acontecimentos da noite começaram a passar em repetição em sua cabeça, e de uma coisa Blitzø sabia, ele não queria estar sozinho agora, não podia dar a chance de sua mente distorcida e perturbada refletir demais sobre o que tinha acabado de acontecer. Nunca acaba bem para ele quando isso acontece.

O imp puxou o celular e ligou para a primeira pessoa que veio em mente, a única que ele sentia que poderia confiar totalmente.

— Blitzø? — A voz do telefone chamou, em um leve tom de confusão — Por que caralhos você ‘tá me ligando as dez da noite? Você não devia tá muito ocupado com o seu príncipe?

Blitzø suspirou, tentando não pensar muito nas palavras “ seu príncipe” e o quanto isso o fazia sentir vontade de chorar.

— Eu fodi com tudo, Fizz, mais uma vez. — Blitzø respondeu — Posso passar a noite aí? Não quero voltar pra casa agora, e sinto que se eu passar mais de dez minutos sozinho a chance de eu atirar contra a minha própria cabeça é muito alta.

Ele falou a última frase como uma piada, mas tanto Blitzø quanto Fizzarolli sabiam que tinha um fundo de verdade nessas palavras.

— Você nem precisa perguntar, é óbvio que você pode passar a noite aqui, não é como se o Ozzie fosse se importar. — Fizzarolli respondeu — E você vai me explicar direito essa história quando chegar.

E assim a ligação se encerrou.

 

***

Assim que chegou na casa de Fizz e Amodeus, seu amigo estava do lado de fora esperando por ele. Fizzarolli não perdeu tempo, assim que viu o outro imp, correu e o puxou para um abraço. Bastou isso para que Blitzø sentisse seu auto-controle quebrar.

— Eu estraguei tudo. — Blitzø murmurou, escondendo o rosto no ombro de Fizzarolli — Stolas nunca mais vai querer olhar na minha cara.

Fizzarolli sentiu seu ombro ficar molhado, Blitzø estava chorando.

— Blitzø, o que aconteceu? — Fizzarolli perguntou, preocupado com o que poderia ter deixado seu amigo tão abalado.

— Stolas…Cristal…Não me quer mais.

Blitzø estava ofegante e soluçando, tornando impossível para Fizzarolli decifrar o que ele havia dito.

— Blitzø, eu preciso que você respire fundo e tente se acalmar, — Fizz disse, muito preocupado com o quão acelerada estava a respiração do outro imp — o que aconteceu com Stolas?

Aparentemente, essa não foi uma boa pergunta a se fazer, porque o choro de Blitzø aumentou e ele apertou Fizzarolli com mais força.

“ Acho que é melhor esperar ele se acalmar e deixá-lo confortável, antes de perguntar o que aconteceu” Fizz pensou, levando o amigo para dentro. Ele devia saber melhor, afinal, Blitzø sempre teve medo de encarar os próprios problemas, ignorando-os até que não fosse mais possível, ele era assim desde criança.

Levaram trinta minutos para que Blitzø finalmente se acalmasse
e seu choro cessasse. Os dois imps se encontravam sentados no sofá da sala, Blitzø com a cabeça apoiada no ombro de Fizz, aparentando estar completamente exausto. Eles estavam em um silêncio confortável, mas Fizzarolli sabia que uma hora a conversa teria que ser iniciada.

— Por que, de todos os lugares, você escolheu vir para cá? — Fizz perguntou, mas percebendo que deve ter soado como se estivesse insatisfeito com a presença de Blitzø, rapidamente acrescentou — Não que eu não queira você aqui, muito pelo contrário, estou feliz que você tenha vindo até mim em busca de ajuda. É só que, se deslocar até o Anel da Luxúria, fica um pouco longe, não?

Blitzø permaneceu em silêncio, sua cauda se enrolando em sua perna, um claro sinal de desconforto. Quando Fizzarolli estava praticamente desistindo de tentar arrancar qualquer tipo de resposta do imp, ele ouviu um sussurro baixo, mal audível.

— O que? — Ele perguntou, não tendo compreendido o que Blitzø havia dito.

— Eu não tinha para onde ir. — Blitzø respondeu, dessa vez em um tom audível — Como eu disse, não queria voltar pra casa, simplesmente não posso encarar Loona assim, eu prefiro morrer do que deixar ela me ver nesse estado. E Millie e Moxxie? Eles já estão de saco cheio de mim, os dois já deixaram isso bem claro.

— Então, eu era a única opção disponível?

Blitzø suspirou e fechou os olhos.

— Eu acho que, no momento, você é a única pessoa que se importa de verdade comigo, Fizz. Apesar de eu achar que você não deveria.

Fizzarolli ignorou o quanto essas palavras fizeram seu coração se despedaçar.

— Óbvio que eu me importo com você, Blitzø, você é meu melhor amigo. — Fizzarolli respondeu, pegando o queixo de Blitzø na mão e fazendo-o olhar em seus olhos — Não existe nada no mundo, que vai me fazer não me importar com você.

Blitzø sentiu mais lágrimas se acumularem em seus olhos, Fizz, a pessoa que ele jurou que nunca mais o olharia na cara, aquele quem ele mais machucou, estava aqui, o consolando e garantindo que ele era amado, isso era muito para Blitzø lidar.

— Eu não mereço você, Fizz. — Blitzø murmurou, limpando algumas das lágrimas que haviam escorrido pela bochecha.

— Vamo lá, sem autodepreciação. — Fizzarolli deu um empurrão de leve no amigo — Antes de continuar essa conversa profunda, porque você não vai ignorar seus sentimentos e fingir que nada aconteceu; você não quer trocar de roupa e colocar algo mais confortável? Posso te emprestar um pijama.

Blitzø prontamente aceitou a oferta, ficar nessas roupas, que ele escolheu minuciosamente tentando agradar Stolas, só para tudo ir por água abaixo no final, estavam fazendo-o se sentir ainda pior. Ele permaneceu sentado no sofá, esperando Fizz voltar com um pijama para ele.

Nesse meio tempo, Blitzø se perguntou onde Ozzie estava, ele não tinha o visto desde que tinha chegado. “Ele deve estar no quarto dele e de Fizz, provavelmente querendo nos dar alguma privacidade.” Blitzø pensou, pelo o que ele era grato, só Lúcifer sabe o quão mortificante seria chorar na frente de um Pecado Capital.

— Aqui. — Fizz o tirou de seus devaneios, estendendo um conjunto de pijama para ele — Você já sabe onde fica o banheiro, pode ir lá se trocar, vou tá te esperando aqui.

Blitzø pegou o pijama e foi em direção ao banheiro.

— Eu tô acabado. — Ele murmurou, conferindo seu reflexo no espelho.

Seu rosto estava uma bagunça, rastros de lágrimas em suas bochechas, os olhos vermelhos e inchados, o delineador que ele havia passado agora estava borrado, deixando-o com manchas pretas ao redor dos olhos. Blitzø suspirou e começou a se trocar, evitando ao máximo pensar sobre os acontecimentos da noite.

O pijama emprestado continha um short laranja bem curto e uma blusa de manga comprida listrada nas cores rosa e branco, a blusa era longa e cobria quase que metade do short, Blitzø acredita já ter visto Fizz usando isso em uma das vezes que eles fizeram suas festas de pijama mensais — ambos concordaram que isso era mais do que necessário, para compensar os quinze anos que eles perderam e sentiram falta dessa proximidade um com o outro —, mas ele não tinha certeza. O pijama serviu bem nele, ele e Fizzarolli tinham praticamente o mesmo tamanho.

Assim que saiu do banheiro, Blitzø se deparou com Fizzarolli sentado no sofá, também tendo trocado de roupa, usando um conjunto de pijama bem parecido com o dele, só que em tons de roxo e azul — Blitzø acreditava que ele estava usando isso antes dele interromper sua noite, forçando-o a trocar de roupa para ir atender a porta —, ele também tinha trocado o seu chapéu por um que combinava com a estampa do pijama. Apesar de ele Fizz estarem muito mais próximos, ao ponto de se sentirem totalmente confortáveis na presença um do outro, os seus chifres quebrados ainda eram um tópico muito sensível para Fizz, então essa era uma barreira que ele ainda não estava ponto para ultrapassar com ninguém além de Ozzie, nem mesmo com o seu melhor amigo. — No fundo, Fizzarolli tinha medo da reação de Blitzø ao ver o quão destruídos seus chifres estavam, principalmente porque ele o conheceu na época em que eles ainda estavam intactos e bonitos — Um limite esse que Blitzø estava mais do que feliz em respeitar.

— Então, — Fizzarolli chamou — pronto para conversar?

Blitzø suspirou, não animado para ter essa conversa com o amigo, mas sabendo que ele não tinha escapatória.

— Você não está me deixando sair disso, né? — Blitzø perguntou

— Não mesmo. — Fizzarolli concordou — Agora, fale.

— Não sei exatamente por onde começar. — Ele admitiu.

— Por que você não tenta contextualizar a situação desde o início pra mim? — Fizz perguntou — Pode ficar mais fácil pra você assimilar, e eu conseguir entender.

— Beleza. — Blitzø concordou.

Então ele contou tudo, desde a noite em que ele invadiu o palácio de Stolas, tentando roubar o grimório — Fizz ficou em choque ao descobrir que Stolas era o mesmo príncipe o qual Blitzø foi vendido para passar uma tarde brincando —, o início do seu acordo com o príncipe, o acontecimento no Ozzie’s — Fizz tentou se desculpar de novo pelas suas atitudes nesse dia, mas Blitzø prontamente o cortou —, os meses que eles passaram sem ter seu encontro mensal na lua cheia, Stolas apenas pegando o livro de volta e devolvendo no outro dia, quase não trocando palavras com Blitzø, até finalmente chegar ao dia de hoje, onde ele finalmente o dispensou de seu acordo, entregando-o o Cristal de Asmodeus.

— Pera, então ele só te deu o cristal agora?! — Fizzarolli perguntou, uma expressão confusa no rosto.

— Você sabia sobre isso?! — Blitzø perguntou, sentindo a raiva crescer em seu peito.

Percebendo o tom acusatório e agressivo do amigo, Fizz rapidamente se defendeu.

— Eu não sabia sobre o acordo de vocês com o livro, muito menos que o cristal era pra ser uma surpresa. — Ele esclareceu — No dia que nós fomos sequestrados, Stolas apareceu aqui e falou com Ozzie que queria dar um cristal pra você, já que essa é a forma mais fácil de conseguir um, falando com o próprio Asmodeus. De início, ele negou, porque, você sabe, eu te odiava na época e tudo mais, mas eu disse que estava tudo bem deixar você ter o cristal, tanto eu quanto Ozzie não sabíamos qual eram as intenções de Stolas, achávamos que ele já tinha te dado o cristal.

Ao ouvir a explicação do amigo, Blitzø relaxou, percebendo que ele estava sendo honesto e realmente não sabia sobre as intenções de Stolas.

— Tá, eu acredito em você, desculpa por surtar.

— Relaxa. — Fizzarolli tranquilizou o amigo — Eu no seu lugar, provavelmente ficaria na defensiva também, mas tá, ele te deu o cristal, e aí?

Blitzø suspirou, não estando preparado para reviver a situação da noite.

— Eu entrei em pânico, achando que ele tinha se cansado de mim e que eu não era mais útil pra ele, — Blitzø respondeu — mas calma, que ainda fica pior, nisso o Stolas praticamente se declarou pra mim, do nada, praticamente exigindo uma resposta em troca, mal me dando tempo pra pensar.

— E o que você fez? — Fizzarolli perguntou, já imaginando que a resposta seria agradável.

— Eu agi como se fosse um Roleplay. — Antes que Fizzarolli pudesse interromper, mostrando sua indignação, Blitzø acrescentou — Eu achei que ele estava brincando, na minha cabeça não fazia sentindo ele gostar de mim de volta.

Fizz resolveu ignorar por agora o “ gostar de mim de volta” que Blitzø havia proferido, praticamente assumindo que possuía sentimentos pelo príncipe Goetia, era melhor não focar nisso agora, Blitzø provavelmente iria surtar mais.

— E por que você acha que seria tão impossível ele gostar de você? — Fizz perguntou, ele sabia que seu amigo possuía uma autoestima muito baixa, e pensava pouquíssimo de si mesmo, mas ele sentia que não era apenas esse o motivo.

— Bem, além do motivo óbvio de ser eu, — Blitzø brincou, embora Fizz não tenha rido da piada — desde o início, esse acordo foi sempre algo puramente sexual, sem qualquer tipo de sentimentos envolvidos, ele era quem sempre batia nessa tecla, ele que propôs esse acordo, em primeiro lugar! Como caralhos eu deveria supor que ele sentia algo por mim, se o tempo todo ele batia na tecla de “ relação puramente carnal”?!

Blitzø gritou essa última parte, revolta clara em seu tom.

— Então, você queria que ele tivesse sido mais claro sobre a situação? — Fizzarolli perguntou.

— Quem dera se fosse só isso, Fizz. — Blitzø resmungou, parecia que ele estava soltando toda a frustração que ele teve que lidar na noite.

— O que mais aconteceu?

Blitzø suspirou.

— Vou contar o que aconteceu depois disso.

Blitzø passou os próximos dez minutos explicando para o amigo detalhadamente tudo que havia acontecido nessa noite, desde o seu choque ao descobrir que os sentimentos de Stolas eram verdadeiros, a raiva após o príncipe sair do quarto e deixando Blitzø para trás, nem deixando-o a menos pensar ou assimilar direito a confissão. Também contou sobre a sua explosão de raiva, o que fez com que Stolas o expulsasse do palácio.

— Eu ‘tava furioso, Fizz. — Blitzø admitiu — Na verdade, eu acho que ainda estou, ele simplesmente saiu do quarto e me deixou pra trás, como se eu fosse um dos servos dele que ele estava dispensando após um serviço feito, porra ele nem me deixou pensar sobre a porra da confissão que ele jogou em cima de mim! Beleza, eu sei que acreditar que tudo era um roleplay não foi a melhor ação a ser tomada, mas ele estava me exigindo uma resposta de imediato, ele me pegou desprevenido!

Fizzarolli observou o outro imp se levantar do sofá e andar pela sala, gesticulando agressivamente com as mãos.

— E tudo isso me irrita, porque ao mesmo tempo que eu me sinto mal por ter gritado com ele, eu me sinto bravo com ele! — Blitzø gritou — Bravo com ele por ter jogado essa confissão pra cima de mim sem o menor aviso prévio, bravo principalmente porque ele ainda teve a cara de pau de jogar a cartada “ Eu penso tão alto de você Blitzø, não sabia que você pensava tão pouco de mim.” PORRA, VAI TOMAR NO CU, ÓBVIO QUE EU “PENSEI POUCO” DE VOCÊ E DA FORMA COMO VOCÊ ME VIA, OLHA A PORRA DA FORMA COMO VOCÊ ME TRATA!

Blitzø berrou essa última parte, lágrimas de frustração se acumulando nos olhos, ele estava nitidamente muito sobrecarregado com todos esses sentimentos.

— Você gritou com ele, basicamente o chamando de classicista e acusando de te tratar como um ser inferior. — Fizzarolli raciocinou em voz alta, ganhando um aceno de cabeça de Blitzø — E agora mesmo você enfatizou que isso tem principalmente a ver não só com o seu complexo de inferioridade, mas também com a forma como ele te tratou, o que você quer dizer com isso?

Blitzø suspirou, ele não queria falar sobre isso, provavelmente era apenas besteira e ele estava exagerando.

— Deixa pra lá. — Blitzø murmurou — Eu provavelmente ‘tô exagerando, não é grande coisa.

Fizz se aproximou do outro imp e segurou suas mãos, fazendo com que Blitzø olhe diretamente para ele.

— Se te deixou chateado, — Ele olhou para os olhos vermelhos de Blitzø, se recusando a quebrar o contato visual — então não é algo besta, pelo menos não pra mim.

Levou toda força de vontade que Blitzø tinha para não iniciar outra crise de choro, ele amava tanto Fizz, palavras não eram o suficiente para expressar o quão grato ele estava por ter recuperado o seu melhor amigo. Em vez de chorar, ele deu uma empurrada de leve no outro imp, quebrando o contato visual.

— Porra, Fizz, esse teu olhar dá medo, — Blitzø brincou — parece que você ‘tá olhando até o fundo da minha alma e sabe de todos os meus segredos.

— Considerando que eu cresci com você, eu provavelmente sei de boa parte dos seus segredos mais obscuros e vergonhosos. — Fizzarolli comentou, causando riso nos dois — Mas agora é sério, o que o Stolas fez para você acreditar que ele te vê como inferior?

Blitzø suspirou. “ Bom, aí vai uma longa lista.” Ele pensou, com um toque de amargor.

— Tudo.

— Tudo o que? — Fizzarolli estava confuso.

— Tudo que ele fazia em relação a mim. — Blitzø esclareceu — Toda a forma que ele agia, deixava nítido a diferença social existente entre eu e ele. Eu não acho que ele fez isso de forma proposital, ou com a intenção de me machucar, mas não muda o fato que me machucou, muito.

Fizzarolli entendeu aonde o amigo queria chegar, ele meio que conhecia o sentimento, ser um imp, a classe social mais baixa e inferior do inferno, e se relacionar com alguém que faz parte da elite. Ele estava longe de se relacionar com a ideologia de pessoas como Striker, que eles deveriam acabar com a existência das pessoa presentes na realeza do Inferno,— isso seria bem hipócrita da parte dele, ele namorava um Pecado Capital, afinal — mas ele não podia fingir que não entendia o sentimento de revolta.

— Se importa de citar alguns desses comportamentos? — Fizz pediu, mas se Stolas agisse de forma semelhante a Ozzie no início de seu namoro, ele já tinha uma ideia do que esperar.

— Se prepare para uma longa lista. — Blitzø brincou — Bom, vamo começar pelo “menos pior” ali, ele afirma pensar alto de mim e me tratar como igual, a controvérsias, mas esse não é o foco agora, mas sabe, de nada adianta se todos os imps a volta dele, ele não trata com o mesmo respeito. Todos os servos dele são imps, e pelo pouco tempo que eu passava na casa dele, eu conseguia perceber que ele não os trata da melhor forma.

— Isso é meio fodido. — Fizzarolli concordou.

— Eu não ‘tô dizendo que ele maltrata eles ou algo do tipo, ou que, sei lá, ele tem algum tipo de preconceito contra a existência dos imps, igual boa parte da população do inferno tem, — Blitzø se explicou — mas é só que, porra, eu sou um imp. Ele poderia me tratar como se eu fosse Jesus Cristo, de nada adianta se ele trata outros imps como se fossem nada mais do que criaturas inferiores a ele.

— Eu entendo o sentimento. — Fizzarolli disse, e ele entendia muito, muito bem.

— Entende? — Blitzø perguntou, não duvidando do seu amigo, apenas chocado com essa confissão.

— Óbvio que sim, seu idiota. Ou você se esqueceu que eu também sou um imp, e namoro a porra do Pecado da Luxúria? — Ele perguntou — Nem tudo eram rosas no início, Ozzie sempre foi super gentil e compreensivo comigo, não me entenda mal, ele sempre me tratou com todo o cuidado e amor do mundo, e ele também não tinha nenhum preconceito e nada contra os imps, só que ainda sim, ele tinha algumas falas infelizes às vezes.

— Nem passou pela minha cabeça que você também passava por isso, Fizz. — Blitzø comentou — Você e Ozzie são tão saudáveis e perfeitos, que eu nem cheguei a pensar nessa possibilidade.

Fizzarolli riu.

— Eu entendo como você se sente, Blitzø, eu realmente entendo. — Ele puxou o outro imp para um abraço de lado, e o trouxe de volta para se sentar no sofá com ele — Até hoje eu tenho bastante inseguranças relacionadas a isso, eu tenho medo, de um dia acordar e Ozzie se dar conta que está perdendo tempo comigo, afinal, ele é o Pecado da Luxúria, ele poderia ter literalmente quem ele quiser, não apenas um imp quebrado…

Fizzarolli teve sua fala interrompida, por um tapa forte na testa.

— Ai! — Ele levou a mão a testa, esfregando o ponto dolorido e olhou na direção de Blitzø, que havia executado o golpe. — Qual é o seu problema?!

— Nada de falar mal do meu melhor amigo!

Fizzarolli revirou os olhos, mas não pode deixar de sorrir, vendo a semelhança que a frase tinha com sua própria fala, repreendendo Blitzø por pensar tão pouco de si mesmo.

— Beleza, chega de falar de mim, eu não sou o foco aqui, estamos falando de você. — Fizzarolli direcionou a conversa para o foco inicial, não permitindo que Blitzø fuja do assunto. — Você disse que essa atitude era a “menos pior”, então, estou supondo que existem outras ações as quais te incomodam, certo?

— Você não faz ideia, ‘cê quer uma lista em ordem alfabética ou cronológica? — Blitzø brincou. Esse era o ponto forte dele, levar com humor situações complicadas que deveriam ser tratadas com total seriedade.

— Em ordem cronológica, por favor, eu não acho que você saiba soletrar o alfabeto. — Fizz brincou junto, já estando bem habituado ao mecanismo de defesa do amigo, afinal, ele próprio fazia o mesmo.

— Ei! Escuta aqui, eu sei muito bem a ordem do alfabeto, tá? Primeiro vem o A, depois…o C?

Fizz explodiu em gargalhadas.

— Vai se foder. — Blitzø mostrou o dedo do meio, mas um pequeno sorriso começava a se formar em seu rosto — Por que eu sou seu amigo mesmo?

— Porque, eu sou a única pessoa que tem saco pra aguentar suas palhaçadas, por um período maior do que trinta minutos. — Fizz respondeu — Agora, por favor, chega de enrolação e comece a citar essa longa lista.

E Blitzø listou, desde as inúmeras vezes que Stolas se referiu a eles por apelidos como “pequenino”, “meu pequeno impzinho”, e até a vez que ele ousou a referi-lo como “ meu brinquedinho”. Nenhuma dessas ocasiões aconteceu de forma isolada ou foram uma ocorrência única, não, Stolas constantemente se referia a ele por apelidos assim em público, uma vez até na frente de Millie e Moxxie, mesmo quando Blitzø nitidamente se mostrava desconfortável e gritava com o príncipe para não chamá-lo assim.

— Meu Deus. — Essa era a única coisa que Fizzarolli podia dizer, e parecia que Blitzø nem tinha terminado a lista ainda.

— E não é só isso não. — Blitzø continuou — Sempre que tínhamos que conversar sobre o grimório, o que acontecia até que bastante, porque né, era o objeto que mantinha o nosso acordo, ele falava comigo como se estivesse conversando com uma criança pequena, como se eu fosse incapaz de compreender a complexidade desse livro estúpido dele! Eu sei que eu não sou a pessoa mais inteligente do mundo, mas eu também não sou burro!

— Sim, de fato. — Fizz concordou, bem chateado com as atitudes de Stolas — Qualquer um ficaria revoltado com isso.

— E eu ainda nem contei da vez que ele apagou um cigarro nos meus chifres.

— ELE FEZ O QUE?!

Blitzø se assustou com a explosão repentina de Fizz, sentindo uma necessidade ilógica de defender Stolas.

— Quer dizer, ele não fez por mal, — Blitzø tentou justificar — era um momento pós sexo, momentos antes disso, eu usei o mesmo cigarro para queimar as cordas que ele tava preso. Sinceramente, eu só acho que ele tava tentando ser sexy, ou algo do tipo.

— Apagando um cigarro nos seus chifres? — Fizz levantou uma sobrancelha.

— Sei lá, ele provavelmente não achou que fosse me machucar, e de fato, foi algo mínimo, não foi o suficiente para causar qualquer tipo de dor.

— Mas fez você se sentir desconfortável, não fez? — Fizzarolli perguntou.

Blitzø desviou o olhar, de repente se sentindo culpado por ter contado sobre isso para o melhor amigo, Blitzø não queria fazer Stolas parecer um vilão, longe disso, ele só queria desabafar toda dor que estava sentindo.

— Ei, olha pra mim. — Fizzarolli pegou o queixo de Blitzø em suas mãos, fazendo-o olhar em seus olhos — Ele te machucou, mesmo que não fisicamente, ainda é um sentimento válido. Você não está errado por expressar frustração sobre isso.

E Fizz estava certo, Blitzø sabia disso, da mesma forma que ele sabia que as atitudes de Stolas estavam sim erradas e não eram justificáveis. Os chifres eram partes muito importantes e uma enorme fonte de autoestima para os imps, qualquer tipo de dano, ou estrago, se tornava um motivo de angústia, Fizz sabia disso melhor do que ninguém. E não era só sobre os chifres, Blitzø não conseguia deixar de se sentir menor e menos importante ao redor de Stolas, o Goetia pode ter acreditado que, após por um ponto final em seu acordo, ele finalmente estaria os igualando em nível de poder, mas essa estava longe de ser a verdade.

— Eu só não quero fazer parecer como se ele fosse um vilão. — Blitzø esclareceu — Por mais que isso tenha me machucado bastante, e eu tenha falado muitas coisas horríveis na hora da raiva, eu não odeio ele. Ele não é uma pessoa ruim, de verdade.

— Eu acredito em você, Blitzø. — Fizz garantiu, movendo suas mãos para agarrar as mãos do outro imp — Eu confio no seu julgamento, se você tá dizendo que ele é uma pessoa boa, então eu confio em você. Mas, você é meu melhor amigo, então eu vou sim apontar e reclamar de atitudes escrotas e classicistas que ele teve com você, Blitzø você é uma das pessoas mais importantes da minha vida, eu só quero te ver feliz.

Blitzø sentiu algumas lágrimas escorrerem pela bochecha, desse jeito, ele ia acabar desidratado antes mesmo da noite acabar.

— Obrigado, Fizz.

— Sem problemas, tô aqui pra isso. — Ele garantiu, apertando de leve as mãos de Blitzø — Então, mais algo sobre Stolas que você queira reclamar?

— Na verdade, tem sim. — Blitzø respondeu — Só uma coisa, mas acho que é uma das que mais tem me incomodado. O fato dele simplesmente não demonstrar nenhum sentimento sobre o fato da minha primeira interação com ele ter sido porque o pai dele me comprou, Stolas age como se isso fosse algo normal, sendo que, porra, tu literalmente comprou uma criança, sabe, onde caralhos isso é normal?!

— Puta que pariu. — Levando em conta todas as outras coisas que ele acabou de ouvir sobre Stolas, Fizz não estava surpreso. — Acho que nunca conheci alguém tão sem consciência de classe que nem ele.

— Eu já. — Blitzø disse — Pelo pouco que vi, a ex esposa dele é mil vezes pior, ela de fato despreza pessoas como nós, e pelo pouquíssimo que ouvi de Stolas, ela é uma pessoa horrível.

Fizzarolli notou que a voz de Blitzø continha um pouco de veneno, ao falar sobre a ex esposa de Stolas, mas ele resolveu não comentar.

— Mas apesar de tudo, — Blitzø voltou a falar — eu não acho que o Stolas seja uma pessoa ruim, pelo contrário, ele é alguém bastante gentil e cuidadoso.

— Mas ele tem bastante coisas que tem que melhorar.

— É.

Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, Blitzø se mudando para apoiar a cabeça no ombro dê Fizzarolli.

— Bom, — Fizz resolveu interromper o silêncio, vendo que Blitzø não tinha mais nada a acrescentar. — eu não acho que esse seja um grande problema para vocês dois, quer dizer, os dois saíram bastante machucados, mas não é nada que uma conversa e um pedido de desculpas não possa resolver. Vocês dois precisam conversar e esclarecer o quanto se machucaram.

— Esse é o problema, eu não sei se quero fazer isso. — Blitzø confessou.

— Você literalmente confessou que gosta do Stolas.

— Sim… — Blitzø sentiu seu rosto corar, ele não estava acostumado com esse sentimento.

— E ele literalmente confessou para você essa noite. — Fizzarolli estava realmente confuso — Qual é o problema aqui? Não tô conseguindo entender.

— Eu não quero que ele goste de mim de volta. — Blitzø respondeu.

— O que?! Por que?! — Fizzarolli estava realmente confuso.

— Porque meu amor machuca os outros, Fizz.

Fizzarolli não estava entendendo, por que Blitzø estava tão certo de que o amor dele machucava os outros?

— O que? Quem te disse isso?! — Fizz perguntou, preocupado que alguém tenha enfiado esse pensamento ridículo na cabeça do seu amigo.

— Ninguém, é apenas um fato.

— Como assim um fato, Blitzø? — Fizz perguntou — O que faz você ter tanta certeza disso?

Blitzø enterrou a cabeça no ombro de Fizz e murmurou palavras que ele não conseguiu decifrar.

— O que?

— É só olhar a minha volta, Fizz — Blitzø repetiu, ainda sem olhar nos olhos de Fizzarolli — Eu só estrago tudo. Todas pessoas que eu tentei me envolver romanticamente saíram machucados, não precisa ser um gênio para perceber o padrão.

Fizzarolli estava em choque, ele sabia que o amigo tinha uma autoestima muito baixa e era muito propenso ao auto ódio — qualquer pessoa que convivesse diariamente com Blitzø, conseguia perceber isso —, mas ele não esperava que a sua auto aversão fosse tão grande, ao ponto de Blitzø acreditar fielmente que o amor dele era nocivo. Isso o fez lembrar do dia que Blitzø foi com Stolas para o Ozzie’s, Fizzarolli se lembrava claramente de ter rido e enfatizado sobre o fato do amigo ter estragado todas as relações que ele teve. Na época, Fizz estava com raiva de Blitzø, ele queria machucá-lo, mas agora, ele não podia deixar de se sentir parcialmente culpado por aumentar a insegurança do outro imp.

— O seu amor não machuca os outros, Blitzø. — Fizz segurou o imp pelos ombros, tentando afirmar seu ponto — Dá onde que você tirou isso?

Blitzø revirou os olhos.

— Eu não preciso que você tente amenizar a situação, Fizz. — Ele debochou — Olha só quantos relacionamentos eu tive, e olha quantos deram errado, absolutamente todos. Verosika, Stolas, absolutamente inúmeros outros desavisados. Eu machuquei todos eles.

— Eu não acho que isso seja totalmente culpa sua, Blitzø. — Fizzarolli tentou contra argumentar — Só uma pessoa não é o bastante para fazer um relacionamento dar errado.

— Você não faz ideia, Fizz. — Blitzø murmurou — E isso nem é o pior de tudo, eu posso conviver com o fato de ter sido um tremenda filho da puta para pessoas aleatórias as quais eu provavelmente nem me lembro o nome, esse não é o maior problema.

— Então qual seria? — Fizz perguntou — Stolas?

— Bom, também. — Blitzø concordou — Sim, eu não queria que ele tivesse se envolvido nessa grande bagunça que eu sou, mas não tinha o que fazer, eu precisava daquele livro, como eu ia saber que ele ia começar a ter sentimentos por mim?

Blitzø se levantou do sofá e voltou a andar em círculos pela sala, divagando sobre o seu relacionamento complicado com o príncipe Goetia.

— Blitzø! — Fizz gritou, chamando a atenção do amigo para si — Foco, você ‘tá divagando.

— Sim, desculpa. — Blitzø parou de andar, mas permaneceu de pé — O ponto é que, sim eu machuquei Stolas, bastante, e eu sinto remorso por isso, só que provavelmente foi para o melhor, eventualmente ele vai superar isso, não tem nem comparação com tamanha dor e destruição que eu causei a…

Blitzø se cortou, seus rosto assumindo uma expressão de pânico.

— Bem, não importa. — Blitzø continuou, desconforto claro em sua voz — O ponto é, todas as vezes que eu tentei me relacionar de forma romântica não acabaram bem, não tem o que fazer.

Fizzarolli pensou em deixar essa situação passar, sabendo que pressionar Blitzø por respostas iria resultar em outra explosão; mas algo no tom de voz dele, fez Fizz sentir que tinha algo que estava perturbando os pensamentos de seu amigo.

— Tamanha dor e destruição que você causou a quem? — Ele perguntou.

Blitzø desviou o olhar.

— Não é nada, Fizz, deixa isso pra lá.

Fizzarolli se levantou do sofá e se colocou na frente de Blitzø, olhando diretamente para seus olhos.

— Responda, Blitzø. — Ele exigiu.

— Você já sabe a resposta.

— O que?! — Fizzarolli perguntou — Como que eu vou saber a resposta, se você nem sequer me disse?

— Você sabe. — Blitzø insistiu.

— Não, Blitzø, eu não sei. — Fizzarolli respondeu — Eu não posso ler mentes.

— Sim, você sabe! — Blitzø gritou, se afastando de Fizzarolli — Você sabe melhor do que ninguém!

— Blitzø, se acalma. — Fizzarolli tentou segurar a mão dele, sem entender o porquê da explosão.

Blitzø se afastou de Fizzarolli, voltando a andar em círculos pela sala.

— Você quer saber a pessoa que eu mais fodi com a vida, Fizz?! — Blitzø gritou, gesticulando furiosamente enquanto andava pelo cômodo. — Quer saber o quanto eu estraguei tudo com o meu amor nocivo?! Então por que você mesmo não me diz?!

— Blitzø? Eu não tô entendendo…

— É SÓ SE OLHAR NA PORRA DO ESPELHO! — Blitzø passou a mão pelo rosto, sua voz assumindo um tom mais agressivo, embora Fizz suspeitasse que essa agressividade não era direcionada a ele — OLHA O QUE EU FIZ COM VOCÊ, FIZZ! Não tem um dia da minha vida que eu não pense nisso e me culpe, e tudo isso podia ter sido evitado, se não fosse por aquela confissão idiota.

Fizzarolli estava preste a rebater e dizer que Blitzø não tinha estragado a vida dele, e que eles já tinham superado isso, quando ele se deu conta de algo. “ Confissão idiota?” Fizzarolli se perguntou “ O que ele quis dizer com isso?”. Existia uma outra parte dessa fatídica noite que ele ainda não sabia? O que de fato tinha acontecido nessa noite? O que tinha ocasionado o incêndio? Parando agora para pensar, Fizz de fato não sabia o que tinha ocasionado o incêndio, ninguém nunca tinha lhe contado, embora ele próprio não fez questão de perguntar. E mesmo após ele e Blitzø reascenderem sua amizade, o outro imp nunca se preocupou em contar o que tinha ocasionado o fogo, apenas afirmando que não tinha sido proposital, apenas um acidente infeliz. Fizzarolli então se deu conta, que ele estava perdendo uma peça muito importante de um grande quebra cabeça.

— Blitzø. — O tom de Fizzarolli era suave, como se ele estivesse falando com um animal assustado — O que aconteceu naquele dia? O que ocasionou o incêndio?

— Pra que você quer saber disso? — O tom de Blitzø era defensivo — Eu já falei foi um acidente.

— E eu acredito em você. — Fizz garantiu — Mas você nunca me disse como que esse acidente aconteceu, eu não quero pressionar você a falar sobre um evento traumático, eu próprio prefiro não pensar nesse dia em noventa por cento do tempo. Porém, o que você me disse agora me deixou preocupado, parte desse auto ódio que você sente é por minha causa?

Blitzø sentiu o seu peito pesar de culpa, isso era tudo o que ele menos queria, fazer Fizz se sentir culpado por uma situação onde ele claramente era a vítima ali.

— Não é sua culpa, Fizz, você não tem culpa de nada. — Blitzø garantiu, tentando dispersar as preocupações do amigo.

— Então me explica, Blitzø. — Fizz insistiu.

Blitzø suspirou, ele sabia que Fizz não ia largar isso, ele provavelmente estava se afundando em um fluxo de pensamentos ansiosos e incoerentes, Blitzø foi imprudente em deixar sua impulsividade levar o melhor dele, agora ele precisa acalmar qualquer tipo de pensamentos incoerentes que Fizz estava tendo, e garantir que isso não era culpa de ninguém, além de si mesmo.

A ideia de simplesmente ir embora e não lidar com isso, assim como Blitzø fazia com a maioria das coisas em sua vida, passou em sua cabeça e parecia tentadora, mas algo o impediu, Blitzø ficou de fora da vida de Fizzarolli durante quinze anos, longos anos de sofrimento e angustia para ambos, ele não podia simplesmente sair e deixar Fizz sem nenhuma explicação, não depois de tudo que fez a ele, a pessoa que ele chamava de melhor amigo. Ele devia uma explicação a Fizz, e já tinha passado da hora.

— Seu bolo de aniversário. — Blitzø respondeu.

— O que? — Fizzarolli perguntou, confuso.

— Foi o seu bolo de aniversário que começou o incêndio. — Blitzø esclareceu — Eu esbarrei no cara que tava levando o bolo, eu acho que era pra ser uma surpresa, eu ‘tava muito chateado para conseguir prestar atenção em qualquer coisa a minha volta.

Blitzø apertou o seu próprio braço com força e evitou contato visual com o outro imp, ele ainda não tinha certeza se falar sobre esse dia era uma boa ideia, havia deixado cicatrizes em ambos, tanto físicas quanto psicológicas, e as de Blitzø ainda estavam sangrando e ardendo em carne viva, nem perto de estarem cicatrizadas.

Fizz ouviu o relato com atenção, não ousando interromper em nenhum momento, com medo de que se o fizesse, Blitzø nunca mais falaria nada sobre o ocorrido. No entanto, uma coisa ainda estava confusa para ele, por que Blitzø estava chateado? Ele se lembrava de ter visto Blitzø espreitando pela barraca onde sua festa de aniversário estava acontecendo, mas assim que Fizz o chamou para se juntar, ele se virou e saiu, e antes que Fizzarolli pudesse ir atrás do amigo, o fogo havia se iniciado.

“ Ele mais cedo mencionou algo sobre uma confissão…Será…?” Fizzarolli pensou, o que faria sentido, levando todo o contexto da situação e o fato de Blitzø cismar tanto que seu amor machucava, mas ele não queria tirar conclusões precipitadas, era melhor deixar Blitzø terminar de falar, — no fundo, Fizzarolli tinha medo de estar certo em sua própria teoria, ele não queria ter que enfrentar o que essa nova informação poderia significar — vai ver ele estava lendo a situação de uma forma errada, e não era nada disso que ele estava imaginando.

— Por que você estava chateado? — Fizzarolli resolveu perguntar, vendo que Blitzø estava quieto há bastante tempo.

— Você se lembra do que aconteceu antes do fogo? — Blitzø perguntou.

— Sim. — Fizz respondeu, ele se lembrava nitidamente dos acontecimentos desse dia, era impossível esquecer — Eu lembro de você observando a festa de longe, mas assim que eu te chamei, você se virou e foi embora, por que?

Blitzø respirou fundo, tomando coragem para o que iria falar a seguir.

— Eu saí, porque eu simplesmente me dei conta do que eu estava preste a fazer era ridículo. — Ele assumiu — Eu…eu ia me confessar pra você, eu tinha até uma carta estúpida é uma flor, mas aí eu vi aquele cartão que meu pai te deu, e eu só me dei conta do quão idiota a minha ideia era. Você merecia alguém que fosse tão incrível quanto você, não um inútil sem futuro que nem eu, porra, até o meu próprio pai reconhecia o quão imprestável eu era.

Fizzarolli estava sem palavras, nem sequer se passava pela sua própria cabeça, o quanto aquele cartão tinha afetado o seu amigo, para ele as palavras “ Queria que você fosse meu filho”, eram nada mais do que um gesto carinhoso. Fizzarolli era órfão e nunca conheceu os próprios pais, ele foi abandonado na frente do circo quando era muito pequeno, então ele sempre estava desesperado por qualquer tipo de afeto vindo de adultos, no entanto, agora ele não conseguia deixar de se sentir culpado, Blitzø sempre foi negligenciado e criticado pelo próprio pai, nada do que ele fazia estava bom o suficiente para Cash. Enquanto Fizzarolli estava sempre sob os holofotes, recebendo toda atenção e elogios do imp mais velho, óbvio, ele cresceu com uma pressão gigantesca nos próprios ombros, tendo desenvolvido uma própria autocobrança absurda enquanto ainda era apenas uma criança, no entanto, ele ainda era constantemente elogiado por Cash, que parecia ser incapaz de elogiar os próprios filhos.

Fizz não conseguia nem imaginar o quão destruidor isso foi para Blitzø, ver o seu pai que nunca demonstrou a menor forma de afeto por você, agir de forma carinhosa com alguém que nem ao menos era seu filho, e ainda expressar abertamente o quanto ele queria que esse garoto fosse seu próprio filho, enquanto ele tinha outros dois filhos totalmente negligenciados de sua atenção.

— Blitzø, eu não fazia ideia… — Fizzarolli não sabia nem o que dizer, ele se sentia péssimo pelos quinze anos que passou odiando o imp.

— Relaxa, não é como se você tivesse como saber. — Blitzø tranquilizou — Além disso, isso só prova o meu ponto, uma quase confissão de amor levou a um incêndio, a destruição do circo inteiro, a sua quase morte e a morte da minha mãe. O meu amor é tóxico, Fizz, ele não só machuca as pessoas receptoras dele, mas todos os outros que estão à volta.

Blitzø enxugou uma lágrima que escorria pela bochecha, ele estava empenhado em terminar essa conversa sem ter uma crise de choro.

— Blitzø, isso não foi culpa sua. — Fizzarolli agarrou os ombros do amigo — Você literalmente estava no lugar errado na hora errada, foi apenas um acidente infeliz.

— Mas olha tudo o que esse acidente causou! Quase custou a sua vida, Fizz! — Mais lágrimas escorriam pelo rosto de Blitzø — Eu tava tentando fazer uma coisa certa, me dando conta de que me confessar pra você seria um ato egoísta, mas parece que nem nisso eu acerto! Eu acho que eu sou simplesmente amaldiçoado, eu só trago infelicidade para os outros.

Fizz sentiu lágrimas se acumularem nos olhos, ele nunca soube que Blitzø se sentia dessa maneira, muito menos que ele era o principal culpado para isso. Ele se sentia horrível, anos que ele passou desprezando Blitzø, por acreditar que ele tinha tentado acabar com sua vida por inveja do seu sucesso, sendo que era justamente o contrário, Blitzø não se sentia digno de estar junto a ele. E o que mais doía, era o fato de que na época, Fizzarolli teria retribuído os sentimentos.

Os primeiros meses após o incêndio, foram os piores e mais dolorosos para Fizzarolli, não só por causa de todas as suas queimaduras que ainda estavam em processo de cicatrização, mas pelo sentimento de traição em seu peito, Blitzø era o mundo de Fizzarolli, seu primeiro amigo, primeiro melhor amigo e primeira paixão. Acordar para descobrir que seus braços e pernas haviam sido tão queimados pelo fogo que tiveram que amputa-los, e que seus chifres foram tão destruídos que agora eles não eram nem um terço do tamanho que já foram, e ser informado que o culpado disso foi o seu amigo de longa data e atual paixão, foi um sentimento destruidor.

Fizzarolli não sabia como reagir a isso, era óbvio que nem ele e Blitzø nutriam ainda esses sentimento, ele estando muito feliz com Ozzie, e Blitzø estando apaixonado pelo príncipe Goetia, mas ter essa confirmação de que seus sentimentos eram recíprocos, mesmo quinze anos depois, Fizzarolli não sabia como lidar com isso.

Ele sentiu Blitzø tremer em seus braços e sua camisa ficar úmida pelas lágrimas do imp, Fizz apertou o abraço em torno dele. Ele podia lidar com seus próprios sentimentos outra hora, agora, Blitzø precisava dele.

— Blitzø, você não estragou a minha vida, — Fizzarolli falou, esfregando as costas do amigo, tentando proporcionar algum conforto — eu já te disse uma vez, e vou dizer quantas vezes forem necessárias, até que você entenda.

— Mas, Fizz…

— Sem mas. — Fizz o cortou — O que aconteceu foi apenas um acidente, que você foi uma vítima tanto quanto eu.

— Mas você se machucou, você podia ter morrido. — Blitzø retrucou, a sua voz estava rouca por causa do tanto que ele havia gritado.

— E você também. — Fizz contra argumentou — Blitzø você tem queimaduras pelo corpo todo, e ficou literalmente cego de um olho. Você se machucou tanto quanto eu, e não só de forma física.

— Eu mereci. — Ele murmurou.

Fizz sentiu algumas lágrimas escorrerem pelo rosto. Blitzø era tão importante para ele, desde que eles voltaram a ser amigos, a sua vida tinha melhorado significativamente. Como seu amigo não conseguia perceber o quanto ele era importante para muitas pessoas. Era importante para ele, para Loona, a filha dele, para Millie e Moxxie, — que apesar de Moxxie constantemente reclamar sobre estar de saco cheio de Blitzø, era nítido que ele se importava bastante com o imp mais velho —, até Ozzie tinha iniciado uma boa amizade com Blitzø, sem contar o próprio Stolas, o foco central dessa conversa.

Blitzø sentiu algo molhado escorrer em sua cabeça, ele se afastou um pouco do abraço de Fizz e olhou para o rosto do amigo. Fizzarolli estava chorando.

— Fizz…

— Nunca mais diga isso! — Fizzarolli gritou, sentindo mais lágrimas escorrerem pelo rosto — Não fale como se você merecesse algum tipo de punição por algo que você nem tem culpa!

Blitzø foi pego desprevenido pela explosão de Fizz, ele não esperava que essa conversa fosse deixar deu amigo tão chateado.

— Mas é a verdade…

— Não, não é! — Fizzarolli o cortou — Blitzø você pode não acreditar, mas você é uma das melhores pessoas que eu já conheci, você é gentil, engraçado e protege aqueles que você ama. Por trás de toda essa máscara que você usa, de alguém desagradável que não se importa com os sentimentos dos outros, existe uma pessoa incrível e extremamente amável, e me deixa muito triste que você não deixe ninguém entrar o suficiente ver isso.

Isso foi o suficiente para que Blitzø caísse em um ataque de choro, lágrimas caindo pelas suas bochechas, e soluços rasgando sua garganta. Fizz realmente achava isso tudo dele, mesmo depois de tudo? Uma parte dele, estava convencida de que ele não merecia esse tipo de carinho e deveria fugir dessa conversa o mais rápido o possível, para o bem dele e Fizz. No entanto, uma outra parte estava desesperada para acreditar nas palavras de Fizzarolli, ansiando por qualquer tipo de carinho e afirmação de que ele de fato era uma boa pessoa.

— Tá tudo bem, Blitzø — Fizzarolli garantiu, guiando o amigo para que ambos voltassem a sentar no sofá — Pode chorar, você tá seguro aqui.

Blitzø afundou o rosto no pescoço de Fizzarolli, apertando os braços em torno do amigo. Parecia que ele estava desesperado por qualquer tipo de forma de afeto, Fizz imediatamente devolveu o gesto de carinho.

— Eu…sou…a-amável? — Blitzø perguntou entre soluços, sua voz estava rouca.

— Sim, Blitzø, você é.

O choro de Blitzø se intensificou, ele gritava palavras incoerentes nos ombros de Fizzarolli. A esse ponto, ele nem sabia mais se estava chorando por angústia ou alívio, provavelmente ambos.

Fizzarolli apertou o abraço em torno de Blitzø, sentindo lágrimas próprias retornarem a escorrer. Eles passaram bastante tempo tempo nessa mesma posição, abraçados e chorando um no ombro do outro.

Blitzø havia perdido totalmente a noção do tempo quando eles finalmente se separaram. Fizz conferiu as horas em seu celular, aparentemente agora eram uma da manhã, três horas haviam se passado desde que Blitzø ligou para Fizzarolli no inicio da noite.

— Puta merda, — Blitzø comentou, esfregando uma mão no rosto — eu passei 3 horas chorando, surtando e tendo uma crise existencial, não é à toa que eu me sinto péssimo.

Fizzarolli riu.

— Bem, você parece visivelmente péssimo também, — Fizzarolli brincou — os seus olhos estão inchados e vermelhos, se me dissessem que você acabou de fumar uns cinco baseados, eu teria acreditado.

Blitzø gargalhou.

— Como se você tivesse muito melhor, idiota.

Apesar de estarem emocionalmente exaustos e já ter passado de meia noite, nenhum dos dois se sentia cansado suficiente para dormir, então Fizzarolli deu a ideia deles fazerem pipoca e comerem alguns doces enquanto assistiam algum filme. Eles passaram a maior parte do tempo conversando e brincando, mal prestando atenção na trama do filme.

— Sabe, — Fizzarolli chamou a atenção do outro imp — eu provavelmente teria correspondido a sua confissão naquela época, eu também tinha uma queda por você.

— Nem fodendo. — Blitzø encarou o amigo, sua expressão perplexa.

Fizzarolli riu.

— Honestamente, eu nem sei como você não percebeu, eu era obcecado por você, a sua opinião era a que mais importava pra mim, eu praticamente te colocava em um pedestal.

— Bom, eu poderia perguntar o mesmo pra você. — Blitzø argumentou — O tempo todo eu enfatizava o quanto eu achava você incrível, ao ponto de Bar-… as outras pessoas do circo ficarem de saco cheio. Sem contar de todo o contato físico que eu iniciava com você a maior parte do tempo possível.

Fizz percebeu a maneira como Blitzø se cortou ao mencionar o nome da irmã, mas ele decidiu deixar isso passar, eles já tinham lidado com muita bagagem emocional em um dia só.

— A gente era dois idiotas. — Fizz brincou.

— Sim, a gente era. — Blitzø concordou.

Eles riram.

Blitzø se mudou para apoiar a cabeça no ombro de Fizzarolli.

— Você realmente acha que eu consigo consertar as coisas com o Stolas? — Ele perguntou, sua voz repleta de incerteza.

— Eu não posso falar por ele, — Fizzarolli respondeu, se mudando para apoiar a a própria nos chifres de Blitzø — mas eu acho que você nunca vai saber se não tentar, nem tudo pode estar perdido.

Blitzø pensou nisso, será que realmente valia a pena insistir? Ele próprio acreditava ser um caso perdido, o que Stolas poderia querer com ele, ainda mais depois da forma como Blitzø o insultou? Mas Fizz acreditava fielmente no fato de Blitzø ser alguém pelo qual se valia a pena lutar. E, bom, Fizzarolli era a pessoa em que Blitzø mais confiava, então ele pensou que valia a pena acreditar nele, mesmo que sua cabeça lhe dissesse o contrário.

— Beleza, eu vou tentar.

— Fico feliz em ter colocado um pouco de juízo na sua mente. — Fizz brincou.

A mente de Blitzø estava criando mil e um cenários diferentes de como essa conversa com Stolas poderia acontecer, e nenhum deles acabava bem. No entanto, ele tentou focar em aproveitar essa noite com Fizzarolli, — fazia tempo desde a última festa do pijama deles, e Blitzø sempre estava animado para passar algum tempo com o melhor amigo — e focar no possível desastre dessa conversa amanhã. No momento, ele estava feliz e seguro com Fizzarolli, totalmente protegido de quaisquer pensamentos que pudessem vir afligi-lo mais tarde, e isso era tudo o que importava.

Notes:

Isso ficou um pouco maior do que eu pretendia, mas espero que tenham gostado!! Se tudo der certo logo trago uma segunda parte para isso, inclusive outra coisa importante aqui, eu sei que muito provavelmente o Stolas não sabe que o pai dele comprou o Blitzø por um dia, mas o Blitzo não faz ideia disso, na cabeça dele o Stolas sabia sobre e estava totalmente bem com isso. Eu também tenho o hc que o Blitzø é cego de um olho, por conta do fogo de artifício que voou no olho dele no dia do incêndio, então a maioria das minhas fics eu vou incluir esse hc.