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Kuroo não se lembra do momento exato em que começou a conversar mais livremente com as pessoas. Não exatamente se tornando uma pessoa extrovertida, já que ele optaria mil vezes por ficar jogando vídeo game com Kenma do que ir em algum evento social – bom, talvez isso tivesse mais a ver com Kenma do que com o evento em si. Mas o fato não livrou tanto ele quanto o amigo de mechas loiras de comparecerem ao aniversário de Lev.
Lev era um companheiro de seu time de vôlei da escola que, por mais que tivesse uma personalidade gentil e extrovertida, as pessoas costumavam se assustar com ele por seu tamanho e nacionalidade, antes mesmo de conhece-lo. Por isso Yaku – seu provável interesse romântico, que talvez seja correspondido (Kuroo havia apostado a ideia com Yamamoto, e a bolada só aumentava conforme os sinais que ambos davam) – havia implorado para que os membros do time comparecessem, e que Kuroo levasse Kenma, nem que fosse arrastado.
A disposição de Kenma para comparecer foi grande surpresa para o moreno, uma vez que pensou apenas por cinco horas sobre ir ou não – o ato de pensar já estava na linha de coisas impossíveis quando se tratava do loiro, mas quando o fazia, costumava demorar mais de um dia inteiro para tomar uma decisão concreta. E quando tomava, normalmente era um não, sem nenhuma volta. Kuroo então o questionou.
— Lev é um cara complicado. Mas não quero que ele ache que eu o odeio.
— você não o odeia? — Kuroo realmente estava intrigado.
— posso não gostar muito dele, mas ele ainda é um de nós.
Uma pena que Lev não tenha ouvido isso da boca de Kenma e que Kuroo não possa dize-lo – Kenma com certeza o mataria – mas aquilo, como alguém experiente em Kenma poderia dizer, queria dizer que ele gostava dele. Ou pelo menos o aturava. Já era o bastante.
A festa foi exatamente como esperada. A mãe e a avó de Lev estavam presentes, o que não deixou com que o grupo de jovens fizesse meia parte do que planejavam, mas a irmã do aniversariante salvou o dia quando expulsou ambas da sala e deixou a chave da adega na mesinha de centro. Ninguém ali podia beber, e ela sabia disso. Mas estava dando um desconto para seu irmão.
Beberam mais refrigerante do que álcool, comeram uma quantidade absurda de bolo e tagarelaram durante toda a noite. Foi divertido, claro que foi, mas Kuroo se sentia quebrado na volta para casa. Ele pedalava com esforço enquanto Kenma descansava a cabeça em suas costas. Ele parecia exausto, por mais que não tivesse feito muito além de roubar alguns doces e tomar alguns energéticos – Kuroo sempre ficava curioso para saber quando foi que os energéticos haviam parado de fazer efeito no amigo.
Quando chegaram na porta de casa, Kuroo segurou o rosto de Kenma entre as mãos para acorda-lo. Céus, como ele era bonito, mesmo apenas sob a luz daquele simples poste. Os olhos felinos se abriram para encará-lo e ele esfregou os olhos. Ele se levantou e deu espaço para Kuroo enganchar a bicicleta em seu portão.
— quer entrar? Podemos tomar um copo de leite antes de deitar. — Kenma fixou o olhar no amigo por poucos segundos antes de assentir.
Assim que entraram, Kuroo se lembrou imediatamente da ausência de seus pais. Eles haviam falado algo sobre ‘aproveitar o fim de semana sozinhos’ e desapareceram junto a algumas roupas. Não fazia tanta diferença assim para Kuroo, que passava mais tempo na casa de Kenma do que em sua própria, mas pelo menos lhe dava liberdade para acender as luzes e não se atentar tanto ao barulho interno.
Kenma, que já conhecia o caminho, foi direto para o quarto de Kuroo enquanto seu anfitrião dava conta dos copos de leite. Subindo as escadas, o moreno encontrou o amigo deitado em sua cama, olhos no teto.
— venha, pegue o seu e vamos dormir logo.
Tomaram a bebida em silêncio. Completo. Kenma, como um bom observador que sempre fora, estava de olho no violão ao canto do quarto do amigo. Quando Kuroo recolheu os copos, ele apontou o instrumento.
— voltou a tocar?
O moreno assentiu enquanto arrumava a cama improvisada para Kenma – naturalmente, quem dormiria ali seria ele. Kuroo percebeu o ligeiro interesse de Kenma no objeto e se aproveitou da situação para prender a atenção do amigo.
— quer que eu toque algo? — Kenma franziu o cenho.
— e você seria capaz? — Kuroo soltou uma risada divertida e jogou um travesseiro no loiro. Ele também estava sorrindo.
Kuroo se sentou em sua cama, de frente para Kenma e, posicionando o violão em seu colo e testando a afinação, começou com um instrumental.
— ah não — Kenma reclamou — cante uma que eu conheça.
— você deve ser a única pessoa no mundo que não conhece Coldplay — Kenma deu de ombros.
— tenho um gosto musical peculiar.
Kuroo não demorou muito para escolher outra canção. Essa, ele tinha certeza que Kenma gostaria, e isso estava escrito em seus olhos assim que a reconheceu. Ele se sentou mais para perto, olhando de forma fascinada para o violão. A reação sempre deixava Kuroo sem jeito. Kenma não era do tipo de se impressionar com muita coisa e, até agora, a maioria dos momentos em que tenha feito essa expressão, foram proporcionados pelo próprio Kuroo.
Espero que você não faça essa cara para mais ninguém. Quero ela só para mim.
O pensamento deixou Kuroo sem jeito e ele errou uma nota. Não passou despercebido pelo loiro mas ele não pareceu se importar. Assim que Kuroo continuou de onde havia errado, Kenma começou a murmurar algo que, logo, se tornaram palavras, e assim a canção. Ele fazia isso com os olhos baixos, mas logo o moreno o acompanhava e sorrisos furtivos fugiam de seus lábios. Kenma ergueu o rosto para encarar o violão e, mais tarde, seus olhos estavam no próprio Kuroo; um Kuroo que sentia uma inevitável vontade de sorrir.
Kenma não cantava exatamente bem. Não era essa a palavra. Ele era desafinado, e perdia o tempo por se esquecer da letra, mas ainda assim era lindo. Tão lindo que até Kuroo se embolava no cantar. O loiro afastou o cabelo do rosto, afim de se expor um pouco mais. Ele sempre se expunha mais com Kuroo. Ele tinha esse efeito meio bizarro sobre as pessoas, num geral.
Mas os olhos. Os olhos de ambos não paravam de se admirar. Como brilhantes pedrinhas preciosas que, por alguma explicação cientifica, se atraiam umas pelas outras. Tinham uma beleza etérea, pura, naquele olhar. Algo infantil ao mesmo tempo que maduro, segredos e verdades, alívio no caos. Faíscas. Mas era real. Kuroo e Kenma eram coisa de alma.
Por isso quando a música acabou, apenas o som de suas respirações, enquanto ainda mantinham seus olhos um no outro, foi o suficiente; e mais transparente do que quaisquer palavras no mundo sequer pudessem ser alguma vez.
[...]
