Work Text:
O grupo Z do prédio cinco era o que poderia se considerar uma sala de quinto ano. Eram ao todo onze garotos com os hormônios a flor da pele e péssimas personalidades, mas que por algum motivo, conseguiam se enturmar e se entender. Bem, pelo menos quando estavam fora do campo.
Haviam adotado um hábito costumeiro de dividir suas refeições. Aos com classificação mais baixa eram reservados os mais enjoativos enlatados e sem sabor pratos, enquanto aos com colocações mais superiores, a mais refinada culinária encontrada no Japão. Não se importavam em dividir. A comida era algo pelo qual não guerreariam dentro daquele quarto. Quanto aos dormitórios, aliás, não se importavam em ocupar decididamente as camas. Juntavam todos os colchões no centro do cômodo e as vezes até dividiam o espaço no colchão – isso era mais coisa de Bachira, que costumava apagar em qualquer um dos colchões ou insistia em se juntar à Isagi por nenhum motivo em especial.
Quando a noite caía e nenhum deles podia mais evitar o cansaço, costumavam se sentar em roda e contar cada um deles suas histórias. Seus objetivos quando se tornassem os melhores. Era nesse momento em que preferiam ignorar o fato de que, logo, todos eles teriam que ir contra uns aos outros. O pensamento afligia a maioria deles, mas boa parte não ligava. Não é como se eles estivessem ali para criar laços, certo? Era o que todos queriam pensar mas mesmo assim, não podia evitar.
Isagi observava seu time de forma objetiva – afinal, esse era seu ponto forte –, sentado em um canto da parede enquanto uma guerra de travesseiros era travada sobre os colchões enfileirados. Kunigami ficara surpreendentemente próximo de Chigiri. Era engraçado olhar para eles daquela maneira, sem que se dessem conta, pois Kunigami, mesmo sendo o mais ameaçador daquela sala – e talvez um dos mais ameaçadores que Isagi tenha visto dentro do Blue Lock –, ao lado de Chigiri ele parecia apenas um garotinho tentando impressionar uma garota. Foi um pensamento confuso em primeiro olhar, mas era inegável o quanto Kunigami apreciava estar ao lado de Chigiri e o quanto ficava sem jeito quando o mesmo se dirigia a ele.
Outros também tinham uma relação parecida. Gagamaru e Naruhaya tinham uma conexão engraçada desde a primeira vez que Isagi colocou os olhos neles. Eram próximos como se tivessem se conhecido a vida toda e brigavam feito irmãos. Ou algo diferente. Isagi não pensava muito sobre isso. Imamura e Iemon também mantinham uma relação amistosa. Curiosamente, Imamura sempre fazia questão de estar por perto e de consolar Iemon por ele sempre estar no gol durante os jogos. Isso era algo que Isagi nunca entendia. Nunca teria tanta bondade no coração de fazer um sacrifício como esse, logo num lugar como o Blue Lock. Enfim, Isagi sempre sentia seu nariz arder e o corpo arrepiar quando olhava para todas essas duplas.
— ei, perna de pau! — Raichi lhe chamou a atenção por um instante. — vá buscar umas bebidas para nós. E aproveite que Bachira ainda não dormiu e faça com que ele te ajude.
Isagi demorou um instante para processar, piscando devagar, e assentiu. Bachira já estava na porta.
Eles caminharam em silêncio até o refeitório – tirando a cantoria habitual de Bachira – e conversaram relativamente pouco enquanto enchiam algumas garrafas com agua fresca.
— será que é o bastante? — Isagi indagou.
— não sei. Deveríamos pegar mais algumas. Mas primeiro vou levar essas de volta.
— tudo bem, vou apanhar mais algumas nos armários. — Bachira assentiu em consentimento e empilhou algumas garrafas em seus braços.
Isagi percorreu os corredores um pouco desnorteado, de forma que chegou a um canto mais reservado do andar. Precisou andar pouco até o armário onde apanhou mais algumas garrafas, ouvindo um murmurinho baixo na sala ao lado, como o som de um celular. Não aguentou de curiosidade e teve que espiar, fazendo um esforço para não fazer nenhum barulho com as garrafas em seus braços.
Era como uma salinha de espera pouco mobiliada, apenas com um sofá, algumas revistas e uma máquina de café – como é que eles nunca haviam achado ali uma máquina de café??
No sofá, estava Mikage Reo, o mauricinho do time V, lendo uma revista com as pernas preguiçosamente jogadas sobre o sofá. Com a cabeça apoiada no colo dele, Seishiro Nagi, seu pupilo, assistindo algo em um celular pequeno. As mãos de Reo passeavam preguiçosamente sobre os cabelos de Nagi, que não parecia dar nenhuma importância para o gesto. O som que Isagi havia escutado tinha sido do celular de Nagi, que agora o dispensava para um canto com uma bufada cansada.
— que tédio — resmungou, e um sorriso surgiu no rosto de Reo.
— você quer ler esse quadrinho comigo?
— não, deve ser um saco. — resmungou, o olhando de ponta cabeça. Reo retribuiu seu olhar.
— ei, não fale mal do meu quadrinho. Se desse uma chance, acho que iria gostar.
— chato!! — resmungou, e virou o rosto para a almofada em que sua cabeça antes estava apoiada. Reo soltou uma risadinha e voltou a atenção ao quadrinho. Nagi ergueu os olhos ao garoto de cabelos roxos, com uma carranca. — seu quadrinho é mais interessante que eu?
— depende do ponto de vista. — Reo respondeu, mas estava sorrindo.
Nagi então se apoiou no encosto do sofá, afastou a almofada e se arrastou para deixar a cabeça cair sobre o peito de Reo. Agora, suas pernas estavam sobre as dele de forma desajeitada e Reo o abraçava com o braço livre. Ambos pareciam incrivelmente satisfeitos. O nariz de Isagi começou a coçar e ele quase espirrou. Aproveitou a oportunidade para deixar o lugar e tentar voltar para o refeitório.
Demorou um pouco até que encontrasse a porta que dava ao refeitório e os familiares cabelos loiros e castanhos de Bachira.
— Isagi! Pensei que tivesse sido morto por aí — ele sorriu enquanto o amigo vinha ajuda-lo com as garrafas.
— não era nada, apenas me perdi.
Eles começaram o trabalho de encher as novas garrafas enquanto Isagi pensava no seu nariz coçando curiosamente em situações aleatórias naquela última hora. Estava pensando em uma forma de abordar o assunto com Bachira – porque bom, era o Bachira – mas não achava um jeito pouco vergonhoso de começar o assunto.
— Bachira — o menor soltou um “hum” enquanto rosqueava uma das garrafas — sabe, eu descobri a minha habilidade de destaque, certo?
— certo. Sua percepção do campo. Como Chigiri disse.
— sim. E o cheiro de gol. Eu sinto quando e quem está prestes a fazer um gol no meio do jogo.
— uhum. E o que há com isso?
— é que hoje... — ele umedeceu o lábio, pensando. — acho que senti algo parecido. Não sobre gols. Com nossos amigos. Um... sexto sentido.
— o que? — Bachira riu. — do que você ta falando?
— você não sente? Quando olha pro Kunigami e pro Chigiri? Ou pro Gagamaru e pro Naruhaya? Até com o Nagi e o Reo! — Bachira franziu o cenho enquanto procurava entender do que Isagi estava falando. Este, pensando que estava louco, tentou se explicar. — eu não sei, sinto como se existisse algo neles que fazem com que eu saiba. Mas saber o que?
Bachira então entendeu. E quando entendeu, começou a gargalhar com um vigor impressionante. Isagi fechou a cara, pensando que ele estava zombando de si, mas o amigo não parou até que perdesse o ar e tivesse que retomar o folego.
— ah Isagi, você é tão fofo. — ele limpou as lágrimas sobre os olhos — e tão inocente.
— o que quer dizer?
— isso que você sentiu era quase como seu faro para o gol. Mas era o faro para outra coisa.
— e que outra coisa seria essa? — Bachira se colocou a rir novamente, mas dessa vez parou logo.
— deixarei que você descubra por si mesmo. Mas olha, isso de Kunigami e Chigiri é impressionante. Algo que não estava esperando.
— não vai mesmo me explicar, Bachira? — o loiro negou, apanhando algumas das garrafas.
— você não é o inteligente? Descubra.
O caminho inteiro de volta ao dormitório se deu a Isagi pensando sobre o assunto. Não entendia o que Bachira queria dizer com ‘faro de outra coisa’. Acabou que chegaram novamente ao dormitório enquanto o banquete de jantares já estava em andamento.
— tiveram a cara de pau de começarem sem nós! — Bachira resmungou.
— vocês demoraram uma eternidade para voltar. — resmungou Kunigami — o que foi que aconteceu?
— Isagi se perdeu. Mas estamos aqui, é o que importa. Deixaram curry pra mim né?
A noite seguiu em um falatório infinito e o saborear de uma variedade de comidas. Isagi se deu por satisfeito depois do segundo prato e ficou em seu canto habitual pensando. Olhando para as mesmas pessoas, sentindo o mesmo arrepio. Então, algo engraçado aconteceu. Seu olhar encontrou com o de Bachira, no outro canto da sala. Ele já estava o olhando a tempos, algo lhe dizia isso. Um olhar cálido, sutil. Inocente. E de repente, ele parecia diferente ao olhar de Isagi. Mais vivo, mais... bonito. Então ele sorriu, seus olhos sumindo quando o fez. E Isagi sentiu de novo. O mesmo faro. O mesmo arrepio.
Aconteceu de novo.
