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Quando era pequeno, Kunigami tendia a acreditar que, quando crescesse, alguém que o tivesse observado há tempos bateria em sua porta, diria a sua mãe de todos os esforços que ele havia feito pela humanidade – naquela época, ajudar gatos vadios, recolher o lixo na rua e carregar sacolas para sua vizinha já idosa pareciam as coisas mais dignas do mundo – e lhe ofereceria uma vaga em um time de futebol muito renomado. Acreditava que ser bom e justo o levaria a lugares bons, que algum tipo de karma positivo recairia sobre ele e ele poderia realizar todos os seus sonhos.
Bobagem. Parece que quanto mais politicamente correto ele foi, mais ele foi castigado pela vida. Mas não dá para ser uma criança doce por toda a vida. É por isso que, agora, ele comia um prato de curry sozinho no refeitório do Blue Lock enquanto escutava o choro dos eliminados do outro lado da porta. Enquanto uns, como ele, estavam cada vez mais perto de seu sonho, outros mais haviam acabado de perder a chance de suas vidas. Talvez por terem sido moles demais. Inexperientes demais. Gentis demais.
O que quer que fosse, deixava um incomodo no fundo do estomago do ruivo. Ele olhava para a comida como se ela estivesse estragada. Todo aquele lugar era podre, assim como as pessoas que o gerenciavam. Mas logo que pensava nisso, se lembrava que era sua chance de conseguir realizar um sonho, o de se tornar o melhor. Olhava para o seu prato pensando o que é que sua mãe e suas irmãs estariam comendo agora. Se sentiam sua falta. Ele sentia tanta a falta delas que lhe doía o peito fisicamente. Era mais fácil dizer que a dor era causada pelos treinos mas ele não podia mentir para si mesmo.
Escondeu o rosto nas mãos, respirando fundo. Preciso aguentar, ele pensava enquanto o desconforto se tornava ainda mais constante.
O som da porta do refeitório abrindo lhe tirou a atenção. Era Chigiri, vestindo seu pijama que ele mesmo personalizara – coisa que ele gostava, apenas para estar diferente dos outros caras – e com o cabelo preso em uma trança já desmanchando. Era reconfortante olhar para ele assim, lembrava as irmãs de Kunigami em sua personalidade fechada. O ruivo normalmente sentia-se mal de ver o amigo com a imagem de uma garota, sendo que provavelmente essa era uma das coisas pela qual ele mais lutava contra, principalmente dentro daquele ambiente.
Chigiri botou os olhos em Kunigami assim que entrou. Kunigami, desde que o ‘notara’ – eles já haviam se visto diversas vezes dentro dos jogos, mas aquele que Chigiri havia corrido pela primeira vez sem medo foi o exato dia em que Kunigami havia o enxergado de fato – o ruivo já tinha certo interesse por ele. Não, não do jeito que está pensando! Puramente profissional, visando que Chigiri era um cara muito talentoso e esforçado. Mas também não se podia dizer que era feio. Isso era consenso em todos aqueles que podiam ter olhos para ver.
— planejando dar um fim em alguém? — Chigiri apanhou seu próprio prato e se sentou à frente de Kunigami. O ruivo o observou enquanto fazia isso, cada um de seus movimentos sendo cheio de delicadeza e flexibilidade.
— só se for a mim mesmo — Kunigami riu, mas não era exatamente engraçado.
— achei que estivesse considerando aqueles dois do time V — Chigiri levantou uma sobrancelha, abocanhando uma folha de alface.
— Nagi e Reo? Não é uma ideia tão ruim. Me ajudaria com os corpos?
— com todo o prazer. Sempre tirei nota máxima em química — ele deu uma piscadela e Kunigami sentiu seu rosto esquentar.
Tomaram o silencio como confortável por um momento enquanto Kunigami deixava os pensamentos esvaziarem – ou tentava. Ele flagrava Chigiri o olhando em certos intervalos, um sorriso discreto se formando quando ele percebia que era pego. Chigiri era um cara incrivelmente atraente. As vezes olhar para ele por muito tempo deixava Kunigami tonto. Não deveria ser humanamente permitido olhar por tanto tempo pra ele como o ruivo estava fazendo agora.
— quer me perguntar alguma coisa? — sua voz soou em seus ouvidos, o despertando.
— ah. Não. Você quem estava olhando primeiro.
Lá estava; aquele sorriso de novo.
— é que você é divertido de olhar.
— eu deveria considerar isso um elogio?
— deveria — o de olhos rosados falou, apoiando o rosto na mão — você é todo durão e prepotente. Aí venho para cá jantar e te encontro encolhido feito um coelho ferido.
— tsc. Não é assim também — Chigiri riu, um som extremamente satisfatório que fez Kunigami querer ouvir de novo. — é que você faz com que eu sinta que não preciso erguer uma barreira.
— não aposte na minha gentileza, herói. Não sou um garoto bonzinho.
— ah, eu nunca insinuei tal coisa, madame — Chigiri revirou os olhos diante do apelido. — deveria ter levado como elogio.
— não sou bom em receber elogios.
— o que é irônico. Estão todos sempre te elogiando dentro desse prédio. — Chigiri parou o garfo no ar e o soltou, entrelaçando seus dedos.
— o que foi? Está com ciúmes? — o menor abriu um sorriso sagaz. Kunigami ergueu uma sobrancelha, achando graça.
— e se eu estiver?
Os dois mantiveram os olhos um no outro por um período duramente longo. Como um campo eletromagnético, sendo atraídos um para o outro, eles não conseguiam desviar o olhar. Mas Chigiri sorria, e céus, como aquilo era uma visão divina. Mas foi este mesmo quem rompeu aquela conexão, pigarreando antes de voltar a abocanhar seu jantar.
— mas então. O que estava fazendo aqui com essa cara tão triste? — ele perguntou, tentando aliviar o clima.
— pensando. Sendo melancólico. Você não se sente sugado pela energia desse lugar?
— todos os dias. Mas não podemos fazer nada sobre isso. Não podemos parar, certo?
— você tem razão. Mas isso está me desgastando. — ele afastou sua bandeja para deitar a cabeça na mesa, metade do rosto visível para Chigiri. O segundo se levantou e se inclinou na direção do ruivo, apoiando uma mão em sua bochecha.
— mas vai ter que aguentar, herói. Ou você prefere que comecemos a torcer pelos vilões?
Os olhos de Kunigami, o olhando de baixo, pareciam expressar tudo o que ele pensava, mas mesmo assim não conseguia desviar. Uma pena que ele não conseguisse saber que, para Chigiri, aquilo lhe proporcionava sentimentos que ele nunca havia sentido antes.
— sim senhora. Senhor. — ele respondeu, se embolando nas palavras, e Chigiri sorriu, apanhando sua bandeja e saindo.
[...]
Voltar para o quarto deveria ter relaxado Kunigami. Os garotos estavam tagarelando sobre algo, e surpreendia a todos que Ego não tivesse chamado a atenção deles até o momento, considerando que já passava muito da hora de dormir. Kunigami se colocou a encarar os companheiros, e como eles pareciam animados com o que quer que fossem fazer no dia seguinte, e todos os dias depois desse. O ruivo queria compartilhar o mesmo sentimento, mas sempre que pensava nos próximos passos do Blue Lock, sentia um aperto no peito, quase como um mau agouro.
Ele não era exatamente uma pessoa apegada. Ele tinha um forte senso de justiça e lhe agradava agir com carinho e gentileza com as pessoas, mas eles não podiam se dar a esse luxo dentro do Blue Lock. Precisavam ser frios, pensar apenas neles mesmos e nunca deixar que ninguém importasse tanto quanto importavam a si mesmos. Mas mesmo assim, lá estavam eles, compartilhando suas histórias com os colegas de quarto. Como se tivessem se conhecido a vida toda. O pensamento de que, uma hora, todos eles teriam que se enfrentar, teriam de se odiar, abria um buraco em seu coração. O fato de saberem tanto sobre as motivações uns dos outros piorava a situação. Era por isso que, na maioria das vezes ele se isolava e optava por não escutar suas histórias. Alguns tinham motivações boas demais. Alguns tinham necessidade.
E por essa razão, agora ele saíra no corredor em busca de um lugar onde se esconder. Pensou em ir para a academia treinar mas sabia que, caso fossem procura-lo, lá seria o primeiro lugar que o achariam. Então foi para a sala de televisões, onde poderia ver clipes de jogadas anteriores. Queria estudar os seus. Bobagem. Assistiu aos momentos de todos. Os olhos estavam estalados, sem sono nenhum – mesmo que seus ombros parecessem pesar uma tonelada. Nem notou quando a porta atrás dele abriu e fechou, e um garoto com cabelos rosados se sentou ao seu lado.
— melancólico de novo? — perguntou, sua voz suave mesmo num ambiente sem o menor ruído como aquele.
— esse é meu maior defeito.
— é fofo — ele se apoiou nos cotovelos, olhando para as telas. — mas não pode deixar isso te enfraquecer, Kunigami.
— eu não vou. Não se preocupe.
— não estou preocupado. Confio em você.
Kunigami o encarou. O garoto ainda olhava as telas. Era esquisito ouvir aquilo num lugar como aquele. Era fácil ouvir algo assim sair da boca de alguém como Isagi e talvez de Bachira, mas vindo de Chigiri teve, com certeza, muito mais impacto.
— Chigiri.
— para onde foi o “madame”? — ele brincou.
— já te disse que você me lembra minhas irmãs? — Chigiri finalmente o olhou.
— não que eu me lembre. Como elas são?
— fortes. Determinadas. Com uma personalidade irritante.
— acha que eu tenho uma personalidade irritante?
— você é um pouco convencido. — Chigiri riu. Aquele som ecoou por todo o corpo de Kunigami. — estou falando sério.
— olha, se eu começar a falar o que acho de você, provavelmente vamos parar de nos dar bem.
— pensa tanta coisa ruim assim de mim? — o de cabelos rosas deu de ombros — bom, então significa que pensa em mim, certo? — talvez fosse o cansaço, mas Kunigami jurou ter visto as bochechas de Chigiri corarem.
— e depois eu sou o convencido.
— você não negou. — ele o olhou.
— não, não neguei.
Aquele momento em silencio apenas encarando um ao outro se estabeleceu novamente. Mas dessa vez, foi Kunigami quem o quebrou.
— ahm... enfim. — ele coçou a nuca, desconcertado.
— o que planeja fazer quando se tornar o melhor atacante do mundo? — a pergunta o pegou desprevenido. Ele franziu o cenho.
— está insinuando...
— estou perguntando de forma objetiva — ele começou — é obvio que serei eu, mas imagino que todos tenham um plano. — Kunigami revirou os olhos.
— eu não sei. Acho que vou me mudar para um apartamento melhor. Comprar uma casinha para minhas irmãs e minha mãe. Leva-las para viajar o mundo quando tiver tempo. Me assistirão na Copa do Mundo, é claro.
— ah sim, é verdade — ele concordou, irônico, e ficou em silencio.
— e você? O que faria se ganhasse o Blue Lock? — o ruivo indagou — hipoteticamente falando.
— acho que vou me mudar também. Para um lugar mais espaçoso e perto do campo. E vou lançar um livro.
— um livro?
— sim, uma autobiografia. E irei colocar você em minha dedicatória.
Kunigami soltou uma risada espontânea, fazendo o amigo sorrir.
— o que dirá nela?
— “ao meu querido companheiro, que me auxiliou em minha evolução e me lembrou, todos os dias no Blue Lock, que eu era o melhor”
— o nome será “o diário da princesa, versão futebol” — ambos começaram a rir juntos, esquecendo completamente que uma das regras da sala onde estavam era o silencio absoluto.
— nós deveríamos voltar para o quarto. — começou Chigiri, assim que se acalmaram.
— pois é. — mas nenhum deles se mexeu. Havia apenas o som de suas respirações na sala, as telas agora todas apagadas. A única luz era uma pequena indicação acima da saída, apenas para localização.
Por um momento, ambos viraram um na direção do outro e sorriram com a sincronia.
— esqueci de falar a última coisa em você que me lembra minhas irmãs.
— o que? — Kunigami tomou a iniciativa de se aproximar um pouco mais, não tirando os olhos dos dele.
— elas são muito bonitas.
Chigiri estava meio desnorteado do que estava acontecendo. Sabia exatamente o que era, mas não esperava pela iniciativa de Kunigami. Porém ele também não estava disposto a quebrar o que quer que fosse aquilo.
— ah é? Sou tão bonito quanto elas? — eles estavam muito próximos, suas respirações já se misturando.
— mais. — respondeu, quase como um arquejo. Suas bocas agora estavam tão próximas que eles podiam sentir o odor de pasta de dente emanando de cada um.
— quanto? — agora suas testas se tocavam. Era apenas um passo, um impulso e eles estariam completamente ligados.
— dez. Cem vezes. — ele segurou a bochecha do menor, acariciando com o polegar — tanto que nem acredito ser possível.
Foi Chigiri quem quebrou a distância entre eles, os lábios sendo selados de uma vez. Talvez fosse ideal que começassem de uma forma mais casual, lenta e romântica, mas não. Eles não eram assim. Eles eram selvagens, deixando todo o seu desejo e euforia transbordarem deles como um copo cheio de agua que é agraciado com cubos de gelo. Eles estavam famintos, e eram dois egoístas. Queriam tudo um do outro. Tudo o que pudesse ser entregue, eles desejavam. E aquilo que não pudesse, eles arrancariam. Porque era assim que eles eram.
A mão de Kunigami desfez tão rapidamente a trança no cabelo de Chigiri quanto era possível esmagar um inseto entre o polegar e o indicador. O cheiro doce dos fios macios deslizando por seus dedos adentraram em seu nariz e o fizeram arquejar por um instante, separando o beijo.
— como você pode ser tão cheiroso — ele enfiou o rosto no pescoço de Chigiri, ignorando o arquejo do segundo. A mão de Chigiri segurava a nuca dele, apertando-o de acordo com a intensidade dos beijos e mordiscadas que o ruivo deixava na curva de seu pescoço.
Logo, ele puxou-o pelo cabelo e juntou seus lábios novamente, explorando o que podia do sabor, da essência, de tudo o que Kunigami tinha para dar. De repente, eles estavam no chão, Chigiri inclinado sobre Kunigami, que apertava sua cintura e passeava as mãos pelas costas dele. Já haviam se visto sem tudo aquilo. Já haviam visto demais. Mas era tarde. Não fariam desse o momento.
Chigiri interrompeu o beijo para tomar um pouco de ar, deixando o corpo descansar sentado sobre o de Kunigami. Este, arfava enquanto suas mãos ainda circulavam Chigiri e mantinha uma expressão quase que assustada no rosto.
— deveríamos mesmo... ir dormir. — o de cabelos rosas falou, e Kunigami quase riu. Os cabelos cobriam seu rosto feito cachoeiras e ele nunca estivera tão lindo em toda a vida.
— deveríamos sim. Você poderia deitar comigo, não é?
— não. — Chigiri se levantou, ajeitando o cabelo por cima do ombro — dormir é uma coisa sagrada. Não vou deixar você estragar minha noite de sono.
— como eu poderia estragar? — Kunigami se apoiou sobre o cotovelo. — algumas matariam para uma chance como essa, sabe?
— então peça para uma delas dormir com você. — Chigiri disse, mas estava sorrindo. — vou indo na frente para não levantar suspeitas. Nem invente de deitar comigo senão vou gritar e dizer que você me atacou.
— você é horrível — mas ele também estava sorrindo.
— eu te falei. Não sou um garoto bonzinho. Mas aparentemente você gosta, não é?
— eu adoro — ambos sorriram e Chigiri saiu, deixando Kunigami deitado, ainda em êxtase pelo ocorrido.
Kunigami não entendia bem o que estava sentindo. Não sabia ainda como lidaria com as próximas fases e nem o que era aquele sentimento de mau agouro que sentira mais cedo. Mas sabia que, independente do que fosse, não tinha a intenção de acabar com o que quer que havia acontecido naquele momento. Mesmo que, obviamente, eles chegariam em algum momento a jogar em lados contrários de um campo de futebol.
...
