Work Text:
Megumi fazia as coisas com calma para que pudesse saborear o silêncio no ambiente. Era fim de tarde e o sol batia fracamente no horizonte que ele observava pela janela. Deixou o pano de prato de lado e apanhou uma bacia de roupas, levando para o lado de fora. O vento trazia o cheiro do pasto, no terreno ao lado, e o soprava tão forte que o ranger das folhas quase que formavam uma canção. Ao fundo, era quase possível para Megumi escutar um ruído constante de algo se quebrando, sem necessariamente uma sequência. Ignorou o sentimento e se colocou a trabalhar.
Foi cuidadoso em colocar os tecidos, pouco úmidos, nas linhas grossas do varal. O vento quase o derrubou umas boas três vezes antes que ele pudesse concluir, voltando para dentro. Então, saiu pela porta da sala para o jardim dos fundos e apanhou o regador. Por mais que houvesse chovido alguns dias atrás, o ar estava consideravelmente seco e ele não queria correr o risco de estragar as flores. Eram para Tsumiki afinal. Olhar para sua lápide sempre apertava o coração de Megumi, mas sabia que agora ela estava finalmente em paz. Tirou as folhas secas do caminho e deixou os dedos tocarem a pedra fria. Ela nunca fora tão fria daquele jeito, e para ele, nunca seria.
— Megumi! — uma voz o chamou do lado de dentro. — o sol está se pondo, vamos lá.
Ele deu a volta no quintal para chegar novamente a frente, onde Itadori estava sentado em seu banco de balanço – ele mesmo havia construído, e Megumi não tinha certeza se amava ou odiava a coisa – com duas xicaras de chocolate quente nas mãos e os cães divinos deitados preguiçosamente aos seus pés. Seu sorriso era tão genuíno e brilhante que Fushiguro duvidava que qualquer por do sol ou nascer do sol pudesse brilhar tanto quanto ele.
— não atrapalhei você, atrapalhei? — ele negou com a cabeça, se sentando ao seu lado e aceitando uma das xicaras. A sensação da caneca quente nas mãos o fez relaxar.
— estava só regando as flores.
— você acha que deveríamos ter feito o mesmo por Gojo? — a pergunta pegou Megumi desprevenido. Ele negou novamente com a cabeça.
— não vamos tornar nosso jardim dos fundos um cemitério. Além do mais, Tsumiki é um caso a parte. Gojo gostaria de saber que foi cremado junto com o melhor amigo.
— você sente falta dele?
Megumi passou tempo demais em silêncio, seu pé deslizando carinhosamente sobre o pelo do cão divino. O sol continuava a despontar no horizonte, as arvores à frente se abrindo para que a vista fosse possível. O vento trouxe o cheiro de Itadori a suas narinas e ele voltou a si.
— as vezes. Mas acredito que ele esteja melhor assim.
— as vezes acho que ele não foi feliz — Itadori comentou — sabe, toda essa coisa de ser o mais forte. Deve ter sido o que destruiu toda a sua vida. Mas também lhe deu um significado.
— ele fez o que tinha que fazer. Era a responsabilidade dele, mesmo que não fosse feliz.
— você acha que estamos fugindo de nossas responsabilidades? — sua expressão agora havia mudado.
Itadori era uma pessoa difícil de se ler, considerando que ele sempre preferia fingir que tudo estava bem e suportar suas dores sozinho, mas Megumi o conhecia, e o conhecia tão bem como se ele fosse uma parte dele. Estava horrorizado. Não que suas vidas fossem ruins, mas ambos haviam vivido tanto tempo em um mundo de guerras, mortes, destruição e perdas, que uma vida tão comum e saudável o estava realmente assustando. Fushiguro deixou sua xícara na mesinha perto do companheiro e o de cabelos rosas fez o mesmo. Apanhou suas mãos carinhosamente, beijando suas palmas lentamente antes de voltar a olhá-lo.
— nossa responsabilidade agora é ser feliz, Yuuji. E eu não quero que você duvide, nem por um instante, se merece isso ou não.
Os olhos de Itadori encheram de lágrimas e ele deu um sorriso doloroso. Megumi apoiou uma mão em sua bochecha, e ele fechou os olhos, apreciando o toque. Beijou também sua palma antes de puxá-lo para mais perto e deitar em seu ombro, os dedos entrelaçados com Fushiguro.
— não quero que isso acabe.
— não vai. — Megumi prometeu — eu não iria embora daqui nem em um milhão de anos.
O barulho inicialmente distante que Fushiguro ouvira de algo se partindo agora se tornava mais alto e próximo. Ele observou as cores no céu se misturarem e sua visão ficar turva, até escurecer por completo. Quando abriu os olhos de novo, um clarão o atingiu e ele não podia ver nada. Sentia tanta dor em... tudo. O gosto de sangue em sua língua era quase enjoativo e ele desconfiava que havia perdido algum dos dedos da mão esquerda.
Quando sua visão se acertou por um instante, os olhos conseguiram decifrar Itadori em pé a sua frente. Sua expressão era de terror absoluto, sua mão pingando sangue que Megumi sabia não ser dele. De fundo, conseguia ouvir uma voz entrecortada que ele sabia ser de Kugisaki. Estava feliz que ela havia acordado. Itadori não ficaria sozinho agora.
— nós conseguimos?
Os lábios de Itadori tremendo, lágrimas escorrendo pelas bochechas sujas. As mesmas bochechas que Megumi havia acariciado. Ou sonhara que o fizera. Ele assentiu.
— e o que isso te custou?
— tudo. — Megumi acha que o ouviu dizer. Tinham sons demais em seus ouvidos.
— oh, tudo bem. — sua voz estava rouca, quase inexistente, mas ele precisava dizer — Bom trabalho... Yuuji.
Não conseguiu mais sentir o gosto em sua boca. Na verdade, nem sentia a própria boca. Então seu corpo começou a formigar e sua visão captou apenas Itadori se ajoelhando ao seu lado. Seu último contato foi ao segurar gentilmente a cabeça de Megumi pela nuca, e então só ouviu seu choro baixinho e um sussurro de perdão.
“ah Itadori, eu teria adorado ter tido aquela vida com você. Talvez em um mundo diferente...”
Sua visão foi tomada por um clarão novamente. Agora não tinha mais volta. Ele não podia mais voltar.
— Megumi, você ta horrível — era a voz de Gojo. Com certeza era. Ele sorriu com o reconhecimento.
— estou aqui, pai.
