Work Text:
A chuva caía sem parar lá fora. Bem que Stanley tinha avisado, quase com o dom premonitório de uma mãe, para que Richie levasse o guarda-chuva quando saísse de casa. Richie, como sempre, não o ouviu, mas dessa vez não por puro relaxo; apenas porque seu carro tinha finalmente saído do conserto. Eddie, por outro lado, nem precisou ser avisado do temporal que havia assolado Derry, já carregava um guarda-chuva desde que sua mãe tinha permitido que ele andasse sozinho na rua, só por medo de pegar um baita resfriado que acabasse de vez com ele.
Foi por esse motivo que ele acabou aceitando a carona de Richie.
Ou melhor, foi apenas um deles.
Caso alguém lhe perguntasse, Eddie JAMAIS pegaria carona com Richie. Principalmente naquela tarde. Queria distância dele, nem respirar o mesmo ar.
Porém:
Um, seu guarda-chuva, de tão bem usado que foi durante os últimos anos, quebrou-se assim que Eddie o abriu na frente da casa de Bill. Dois, se pegasse um resfriado de novo naquele semestre, sua mãe iria enfartar de preocupação. Três, quanto mais rápido ele chegasse em casa, mais cedo poderia gritar enfiando sua cabeça no travesseiro.
E era o que ele mais queria.
Gritar. Espernear. Dormir até esquecer o que tinha acabado de acontecer naquela tarde.
De preferência, bem longe de Richie Tozier.
Porém, qual foi a surpresa dele quando o carro de repente parou no meio da estrada?
“O que aconteceu?” Ainda que fosse óbvio, Eddie não pôde evitar de perguntar. Aquela coisa de que a esperança era a última que morre, porém ela foi morrendo pouco a pouco enquanto Richie ia encostando, assim que percebeu que não conseguia dar partida no carro.
Eddie esfregou as mãos em seu rosto, incrédulo. Não era possível que o destino fosse tão cruel a ponto de colocá-lo preso no carro com a última pessoa que ele queria estar perto enquanto o mundo caía lá fora.
“Peraí, acho que eu consigo dar um jeito.”
“O quê? Que jeito, Richie? Tá maluco?” Eddie puxou a manga da camisa do outro assim que ele fez menção de sair do carro. Richie olhou para Eddie, não entendendo nada. Eddie revirou os olhos. “Você pode pegar um resfriado... Imbecil. ”
Demorou alguns segundos, mas logo Richie abriu um enorme sorriso, que fez com que Eddie fechasse seu rosto em uma carranca, desviando o olhar para a janela do carro, ainda que desse pra ver os litros de água caindo.
“Preocupado comigo, Eds my love?” Perguntou Richie. “Pensei que você me odiasse.”
“O que te faz ser tão otimista?” Eddie retrucou um tanto aéreo. De repente, a visão da janela tinha parecido muito interessante, afinal, o caminho não condizia nada com a casa dele. Eddie até mesmo ajeitou o corpo e começou a passar o braço – inutilmente, claro -para limpar a imagem do lado de fora. Mas ele estava certo. Richie não estava o levando para casa. “Richie, por que a gente tá na Rua Neibolt?”
Richie, por incrível que pareça, ficou quieto.
Eddie olhou para ele, depois para a rua, depois para frente do carro, já balançando a cabeça. Encontrava-se em um misto de raiva e nervosismo que não conseguia nem pensar direito.
Aquele ponto da Rua Neilbolt, localizado atrás do Standpipe, famosa Rota 2, era simplesmente DESERTO. Ninguém poderia nem os ajudar! Por Deus, como ele ODIAVA Richie Tozier!
“Richie, por quê estamos na Neibolt?” repetiu Eddie, com mais raiva, ainda que ele temesse a resposta.
“Eds...”
“Não me chama de Eds, caralho!”
Eddie ouviu Richie suspirar fundo e ficou tão surpreso que acabou por olhar novamente nos olhos do rapaz. Normalmente, Richie logo emendaria com alguma piada sobre a mãe dele ou continuaria o irritando como era de costume. No entanto, ao olhar nos olhos dele naquele momento, era como se Eddie visse o óbvio. Finalmente, Richie diria se o outro verbalizasse. Porém, Kaspbrak limitou-se a encará-lo.
“Eddie, a gente precisa conversar,” Richie disse e Eddie engoliu em seco logo em seguida.
“Sobre o quê?”
“Sobre eu ir embora.”
Aquela frase voltou a fazer o peito de Eddie doer, mas ele fingiu que não, então riu.
“Achei que a tarde toda tivesse sido pra isso,” disse ele, voltando a não olhar para o outro. “Quer dizer...” nessa parte, sua voz começou a falhar, então ele limpou a garganta, fingindo uma tosse que os dois sabiam não ser convincente, e retomou a fala: “Você praticamente se despediu de todos nós hoje. Se tivesse falado mais cedo, o Mike provavelmente iria organizar alguma coisa melhor, mas você-“
“Você não vai sentir a minha falta?” Richie interrompeu. Eddie revirou os olhos, completamente indignado com aquela pergunta, por ele estar perguntando isso justamente naquele momento em que ele estava tentando não chorar com todas as suas forças. Ele nem ao menos entendia de onde vinha tudo aquilo que estava sentindo, mas doía feito o inferno. E ele também queria dizer isso a Richie. Se ele pudesse, ele diria. “Eu tô te perguntando isso porque eu vou sentir a sua. Pra caralho.”
“Todos vamos, Richie. Eu não entendo por-“
“Eu perguntei se você vai.”
“Se eu disser que sim, você me deixa em paz?”
Eddie esperou uma resposta para a sua pergunta por uns dez segundos. Surpreendentemente, Richie – justamente Richie Tozier – não disse uma única palavra, o que por si só fez Eddie olhar para ele, descrente daquela situação. Sentia-se machucado e só piorou quando viu Richie com aquele olhar perdido nos olhos, encarando a chuva caindo lá fora sem previsão de parar.
“Eu vou, Richie” disse ele depois de um longo suspiro. “Você sabe que eu vou.”
Richie torceu o nariz. Eddie ouviu quando ele fungou e notou quando ele coçou os olhos. Aquela situação estava o deixando irritado. Aquele silêncio todo em meio ao caos da chuva. Ainda mais porque ele sabia que aquele momento era provavelmente um dos últimos dos dois juntos e – mesmo odiando muito Richie Tozier ali – ele queria ouvir a voz dele.
“Você não vai falar nada?” Eddie perguntou, irritado.
Ele fez que sim com a cabeça.
“Só me dá um minuto” pediu Richie e Eddie arqueou uma das sobrancelhas.
Mas que porra estava acontecendo ali? Estava prestes a perguntar aquilo quando Richie começou a falar:
“Eddie, eu preciso te falar uma coisa e você não vai gostar nada.”
Eddie o olhou confuso.
“Você tá me assustando.”
Só vai piorar, Richie pensou.
“Você tá lembrado daquela festa de aniversário do Bill? Aquela que... bom, que tava todo mundo bêbado no Drive-in e só ficou e você do lado de fora?”
“Lembro,” Eddie respondeu rápido. Sentiu suas bochechas esquentarem e ele suspirou fundo. “Eu também estava bem bêbado.”
Richie engoliu em seco. “É, você disse isso no dia também.”
“O que aquele dia tem a ver com você ir embora?” Eddie perguntou sem muita paciência. Não gostava nada do rumo que aquela conversa estava tomando. Ainda mais quando Richie virou-se para ele.
Os olhos dele pareciam assustados, como se viesse se preparando para jogar uma bomba no colo de Eddie. E aquilo o assustou também. Eddie desviou o olhar.
“Quando os meus pais me contaram sobre a mudança, a primeira pessoa que eu pensei... foi você, Eddie.” Richie disse. “E naquela noite.”
Eddie riu.
Por puro nervoso, não tinha nada de engraçado naquela situação.
“Richie, por favor.”
“Demorou um tempo pra eu entender, mas assim que caiu a ficha, tudo fez sentido.”
“O que fez sentido? Nada do que você tá falando faz o menor sentido!” Eddie esbravejou. Seu peito pesou e ele sentiu seus olhos começarem a arder com a vontade de chorar. Merda, como ele se odiava por querer chorar naquele momento! “Richie, me leva para casa. Agora.”
“Só escuta o que eu vou te dizer, ok?” Richie pediu. Deus, ele também estava tão nervoso. Mal conseguia acreditar que estava realmente fazendo aquilo. Mas precisava ser dito. Ele não poderia ir embora sem dizer. Sem pelo menos tentar. “A gente se conhece desde sempre e eu posso te garantir que essa sua cabeça dura não vai te levar aonde você quer. Eu tô indo embora, eu sei que você tá chateado por isso e mesmo assim prefere passar os últimos momentos comigo de cara virada ou fugindo de mim. É estupidez! E eu vou te contar o porquê é estupidez.”
Eddie sentiu as mãos de Richie em seu rosto e apesar de ter fechado os olhos com a sensação, também o invadiu com um sentimento de culpa, vergonha. Os dois se entreolharam, Eddie já derramando lágrimas e Richie emocionado.
“Porque eu sei que você sente o mesmo que eu.”
Enquanto Eddie chorava, Richie limpava suas lágrimas com a ponta dos dedos.
“Para, por favor,” Eddie pediu. “Por que você tá fazendo isso, seu idiota? Por que você tá falando isso? Só por causa de um beijo idiota? A troco de que você tá querendo relembrar isso, Richie? Você vai embora! Você vai embora! Vai para sei lá onde e me deixar sozinho aqui! O que importa tudo isso se você vai embora?”
“Eddie...”
“Você é um egoísta!” Eddie disse tentando não olhar nos olhos dele. Machucar Richie também o machucava.
“Vem comigo” Richie disse. Eddie virou-se tão rápido na direção dele que até mesmo doeu. “A gente pode dar um jeito. Sei lá! Eu vou pensar em alguma coisa. E-”
Richie não conseguiu terminar sua fala porque Eddie o beijou. Diferente da primeira vez do aniversário de Bill, não havia delicadeza, não era lento, não se tratava daquela sensação de fogos de artificio que os dois sentiram. Parecia na verdade com a sensação que os dois tiveram quando se separaram da primeira vez. Aquele alvoroço, aquela vontade de continuar e não poder e por isso era tão voraz, tão necessário, tão desesperado.
Era como se aquele beijo houvesse atravessado seus corpos até o local mais profundo de suas almas, onde encontravam-se todos os momentos felizes que haviam vivido até então. E fosse destruindo pouco a pouco enquanto se separavam.
Richie sorria, pronto para enche-lo de beijos mais uma vez, apenas se preparando para o futuro, mas parou ao ver a expressão no rosto de Eddie.
“Essa foi a nossa despedida, Richie,” disse ele, sentindo que seu coração nunca mais bateria feliz de novo da mesma forma que batia quando Richie sorria para ele. Talvez não batesse do mesmo jeito, mas ele sentiu a dor como nunca havia sentido antes ao ver o sorriso dele desabrochar de seu rosto.
Aquilo havia o mudado. Aquilo havia o destruído. Tanto que ele nem ao menos se importou quando saiu na chuva torrencial que assolava Derry. Não dava a mínima com que sua mãe fosse dizer. O que ela poderia fazer pior?
Eddie jamais seria feliz com Richie. Não enquanto o mundo fosse aquele, se é que algum dia mudaria.
Ele nunca mais veria Richie.
Nada era pior que aquilo.
