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Fandom:
Characters:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2024-10-10
Words:
2,727
Chapters:
1/1
Kudos:
2
Hits:
25

Além do Vazio

Summary:

Tyler sempre foi o protetor de sua irmã, Taylor, após a perda do pai. Mas, ao vê-la se aproximar de seus namorados, ele percebe que sua importância está diminuindo. Enfrentando sentimentos de perda e solidão, Tyler precisa lidar com a dolorosa realidade de que o vínculo entre eles mudou — e talvez nunca seja o mesmo.

Work Text:

Tyler estava no quintal, a leve brisa fria da noite fazia com que as folhas secas dançassem aos seus pés, como se o vento estivesse tentando reconforta-lo. Sentado no degrau da entrada, com as mãos nos bolsos, olhando para o céu, enquanto ouvia da sala as risadas que atravessavam as paredes. Todos estavam lá dentro, se divertindo.

Podia estar junto deles, rindo como eles, como sempre fez. Poderia fazer um esforço e fingir que nada estava acontecendo. Mas o aperto no peito e as vozes em sua cabeça não deram um descanso, o prendendo no degrau como se fosse um peso que ele não conseguia carregar sozinho.

Ele fechou os olhos por um segundo. Nesses momentos, quando ficava sozinho e as vozes em sua cabeça não relaxavam, se pegava lembrando do pai. A cada ano que passava o rosto dele era mais difícil de se lembrar, mas toda a responsabilidade que ele deixou para trás nunca desapareceu. Era seu dever cuidar de sua mãe e irmã. Era seu papel naquela casa.

O que Tyler nunca parou para pensar é que ele não seria para sempre o homem na vida de sua família. Em algum momento, Taylor não iria mais precisar de seu suporte. Ele só não esperava que isso aconteceria tão cedo. Sempre que a mais nova precisava de um ombro para chorar, um incentivo, um apoio, uma distração, era sempre a Tyler que ela recorria.

Mas isso mudou.

E isso afetou Tyler. Mais do que ele gostaria de acreditar.

Vendo o quão próxima ela estava ficando de Ben e Logan, o coração dele apertava. Uma distância entre eles nasceu, algo que ele nunca imaginou que existiria. Eles eram a dupla invencível, os gêmeos inseparáveis. Mas, agora, Tyler já não era mais o único homem importante na vida de Taylor. E não havia perdido o lugar para um outro cara, mas sim, dois. Isso tornava a sensação da perda ainda mais intensa e confusa.

Tyler se perguntava se esse sentimento era irracional. Talvez estivesse sendo egoísta, mas a verdade é que Taylor sempre fora seu porto seguro. Ele nunca admitiria, mas perder o pai fez com que ele se agarrasse ainda mais à presença da irmã. Agora, ver dois outros caras ocupando o espaço que outrora ele preenchia – cuidando dela, protegendo, amando – fazia ele sentir como se estivesse sendo substituído.

Não era apenas sobre perder Taylor. Era sobre perder seu papel. Por mais que Tyler se esforçasse para se convencer de que estava tudo bem, um vazio crescia em seu peito. Ele já não sabia onde se encaixava. Ela não precisava mais dele.

— Dois… tô brigando com dois…

Essa ideia martelava a mente de Tyler repetidamente. Se tivesse perdido o lugar para apenas uma pessoa, talvez fosse mais fácil. Ele poderia suprir nos momentos que o outro não pudesse. Mas são dois! Eles se suprem entre si. Isso fazia tudo parecer ainda mais distante, como se Taylor estivesse, de alguma forma, se afastando mais rápido do que ele podia acompanhar.

Cada vez que via os três juntos, seu coração apertava. Pois sabia que não era mais necessário na vida de Taylor como antes.

Lembrava-se de Taylor subindo para sua cama em cima do beliche, os olhos brilhando das lágrimas após um pesadelo. Ele a aconchegava debaixo das cobertas, contando histórias onde ela podia se distrair, até que ela relaxasse e adormecesse ao seu lado. Das tardes entediantes em que eles jogavam jogos de tabuleiro, ou videogames, onde Tyler sempre deixava Taylor ganhar, apenas para ver seu sorriso. 

Tyler havia prometido a si mesmo, em momentos de paz com a irmã, que nunca deixaria Taylor passar por nada sozinha. Mas agora, ele se sentia impotente. Estava tão próximo, mas se sentia tão longe. Era como se sua promessa estivesse sendo quebrada, não porque havia falhado, mas porque tinha outros que agora tomavam esse lugar.

— Ty, você vem? Vamos colocar um filme para assistir. Os meninos estão fazendo pipoca. — A voz de Taylor trouxe Tyler de volta ao presente.

Ela estava na porta de casa, com um olhar caloroso, mas no fundo ele reconhecia a preocupação presente. Ela sabia que algo estava errado, mas Tyler não conseguia por em palavras o que estava sentindo, e Taylor entendia isso.

Ele apenas sorriu, um sorriso fraco que não atingiu os olhos, e acenou.

— Já to indo. Vai na frente, não esquece das cobertas.

Taylor observou por um instante antes de voltar para dentro.

Tyler se levantou e entrou na casa. Da porta já era possível ver a sala. Ashlyn e Aiden estavam no sofá menor de 2 lugares, conversando baixo, estavam num próprio mundinho. A cena no outro sofá era acolhedora, com Taylor sentada entre Ben e Logan, rindo descontraidamente, como se o mundo estivesse completo para ela. Mas para Tyler, era como se ele não pertencesse àquele cômodo.

Ele se sentou na poltrona, no canto da sala, olhando de longe. O vazio cada vez mais presente. Uma sensação de deslocamento, uma solidão que ele não sabia como expressar. Ele ainda era parte do grupo, mas, ao mesmo tempo, sentia que não precisavam mais dele ali.

 

...

 

Mesmo deitado em sua cama, o sono não vinha. O teto escuro à sua frente parecia se expandir, como se o peso das preocupações estivessem lhe engolindo. Ele virou para o lado, à procura de conforto em um travesseiro que já não trazia mais alívio. As vozes o deixavam inquieto, e a insônia se transformou em uma companheira constante.

Foi então que um som suave cortou o silêncio, uma respiração cortada e irregular. Preocupado, Tyler se sentou rapidamente, o coração disparado ao reconhecer de imediato a fonte do som. 

Ele se inclinou para a beirada do beliche, olhando para a cama de baixo, onde ela estava sentada, o rosto pálido e as lágrimas escorrendo por suas bochechas. O pesadelo havia sido real o suficiente para acordá-la em pânico.

Mas, em vez de procurar seu conforto, como sempre fizera, ela já estava com o celular em suas mãos trêmulas, digitando freneticamente. Tyler paralisou por um momento, uma mistura de alívio e dor inundando seu peito. O alívio em saber que Taylor estava bem, talvez não fosse um tão ruim como antigamente, mas a sensação contrastava com o peso que apertava cada vez mais o peito de Tyler ao perceber que, naquele momento, ela não precisava dele. Que havia outros para a proteger.

— Tay, tá tudo bem? Teve um pesadelo? — ele perguntou, tentando disfarçar a voz trêmula pela vontade de chorar.

Mas a única resposta que recebeu foi um leve aceno, os olhos fixos na tela do celular.

— Eu só… preciso falar com Ben e Logan. Eu to bem.

Tyler sentiu seu coração afundar ainda mais. Havia um tempo em que ela teria escalado a escada do beliche às pressas, buscando consolo em seus braços, mas agora, ela tinha outros para isso. 

Ele queria dizer mais, queria perguntar se ela realmente estava bem, mas se conteve. O nó na garganta parecia maior do que sua coragem para falar. Ele sabia que qualquer coisa que dissesse só o faria parecer infantil ou frágil, e esse era um território que ele evitava a qualquer custo.

Uma parte dele estava feliz que Taylor tinha alguém com quem conversar, alguém que podia socorrê-la. Mas esse pensamento o corroía por dentro. Ele deveria se sentir aliviado, mas, em vez disso, sentia-se descartável.

A solidão envolveu Tyler, e ele se sentiu como um espectador distante de sua própria vida, impotente para alcançar a irmã que cada vez mais se afastava,

Ele se virou lentamente, puxando as cobertas sobre o corpo ao se deitar na cama, sentindo o leve cheiro do amaciante que sempre o reconfortou, mas, naquela noite, o cheiro parecia distante. Seus pensamentos estavam a mil em sua mente. Era uma realidade dura, mas necessária de se enfrentar. O papel que sempre ocupou estava sendo mudado, e ele precisava entender como lidar com isso.

O som abafado do celular de Taylor ressoava na escuridão do quarto, pontuando o silêncio. O eco das risadas que havia ouvido outrora martelava sua mente, uma lembrança da alegria que agora parecia distante.

 

...

 

A rotina não mudou, a vida seguiu a mesma. Mas Tyler não sentia isso. 

Já haviam se passado alguns dias desde o incidente do pesadelo de Taylor. E isso não sai da sua cabeça. A distância parecia aumentar cada vez mais, como se cada interação fosse um lembrete sutil de que seu papel estava mudando. 

Da mesa da cozinha, Tyler observa Taylor na sala. Ela mexia no celular, com sorrisos bobos enquanto trocava mensagens com alguém - provavelmente Ben e Logan. Aquela sensação pesada no peito de Tyler, no entanto, só crescia.

Na teoria, nada havia mudado, mas Tyler sabia que uma distância nascia entre eles. Não havia brigas ou discussões. Era o silêncio. Um silêncio que já dizia mais do que qualquer palavra poderia expressar.

Ele tentou, várias vezes, puxar assunto com Taylor, mas as palavras sumiam no ar antes mesmo de serem ouvidas. Era como se uma barreira invisível tivesse se erguido entre os gêmeos, e a familiaridade que sempre existiu, agora escorria lentamente diante de Tyler.

Não era como se Taylor estivesse evitando Tyler, pelo contrário, ela ainda sorria, falava com ele, chamava para assistir algo juntos, junto do grupo. Mas Tyler sentia que as coisas não eram mais as mesmas. Aquele laço especial, aquela dependência, estava sumindo.

 

 

Novamente o grupo estava fazendo uma noite de filmes. Tyler observava os outros, conversando, rindo e interagindo. Os lugares já eram um padrão do grupo, Taylor continuava no grande sofá entre Ben e Logan, como se fosse um novo centro do mundo para a garota. Ele estava ali, fisicamente presente, mas se sentia mais como um observador externo do que propriamente um participante do grupo. Como se seu papel tivesse sido substituído e não tivesse mais necessidade para os outros.

Sem conseguir ignorar o incômodo, Tyler levanta e segue para o quintal, buscando algum conforto na noite. O silêncio sempre fora acolhedor, mas agora, sentia como um fardo pesado. Ele fechou os olhos, se permitindo banhar da brisa noturna, em busca de aliviar aquela sensação de impotência. Quando passos leves se aproximaram.

— Ty? Tá tudo bem? — ela perguntou, com a voz clara em preocupação.

Tyler abriu os olhos, mas não se virou para a porta de casa. Ele respirou fundo antes de responder em voz baixa e hesitante.

— Só precisava de um tempo sozinho… pensar um pouco.

Ela se aproximou, ficando ao seu lado, mas sem dizer nada. O silêncio era palpável, carregado de tudo o que ambos sentiam, mas que não conseguiam pôr em palavras.

— Você sabe que pode falar comigo, né? — Taylor quebrou o silêncio, a voz suave, os olhos nas estrelas. — Eu sei que… você tá meio distante.

Tyler se virou para olhá-la, sentindo o nó em sua garganta crescer cada vez mais.

— Não é fácil, Tay… Eu acho que… estou tentando entender como devo seguir agora. — Ele pausou, seus olhos sob os pés que balançavam no chão, numa luta para expressar a confusão que estava instaurada dentro de si. — Antes, você sempre me procurava. E agora… parece que não precisa mais de mim como antes.

Taylor o olhou por um instante, começando a entender tudo que estava acontecendo.

— Ty, eu sempre vou precisar de você. Só que… as coisas mudam, né? Eu cresci, não sou mais aquela menininha apavorada, e… você sempre foi meu porto seguro, mas agora… tem outras pessoas também. Não quer dizer que eu te ame menos.

O peso de suas palavras o atingiu de uma forma que Tyler não esperava. Ele sabia que ela estava certa, sabia que isso fazia parte do crescimento, de deixar as coisas evoluírem, mas o vazio persistia. Era o processo de aceitar aquela mudança que o machucava.

Ele balançou a cabeça, assentindo lentamente, engolindo em seco.

— Eu só… sinto falta de como as coisas eram antes.

Taylor sorriu suavemente, num carinho singelo em seu braço.

— Eu também sinto. Mas o importante é que, seja como for, você ainda é minha pessoa favorita do mundo. Vamos encontrar um jeito de lidar com isso. Juntos.

O silêncio voltou a envolvê-los, mas dessa vez, não era tão pesado quanto antes. Tyler sabia que a mudança era inevitável, mas, aos poucos, começava a aceitar que seu papel na vida de Taylor não havia acabado. Apenas estava se transformando.

 

...

 

Tyler estava deitado em sua cama, o teto já não parecia mais tão escuro, mas o sono ainda não o alcançava. A casa estava silenciosa, já sua mente, ainda estava numa confusão. Seus pensamentos conflitantes, sem o deixar em paz. Sempre que fechava os olhos sua mente o lembrava. “Eu não sou mais necessário.”

Ele suspirou, virando para o lado, puxando a coberta para cima como se ela pudesse lhe proteger da sua própria mente. 

Mas, no fundo, uma parte dele começava a entender. Taylor ainda estava ali, ao seu lado. Talvez as coisas tenham mudado, mas ela nunca o deixou. Ele precisava aceitar.

Estava tão perdido em seus pensamentos que quase não percebeu o som da leve movimentação pelo quarto. A cama de baixo rangeu, e, logo em seguida, com aquele sorriso familiar e olhos sonolentos, Taylor apareceu na beira do beliche.

— Posso subir? — ela perguntou docemente, como costumava fazer quando tinha um pesadelo e precisava de companhia.

Sem pensar duas vezes, Tyler abriu espaço para ela se aconchegar ao seu lado. Taylor se deitou ao seu lado, o calor da sua presença trazendo uma sensação de conforto imediata que ele nem sabia que precisava.

Eles ficaram em silêncio por um momento, as respirações sincronizadas.

— Eu sei que você ainda tá se sentindo estranho ultimamente… — Taylor sussurrou, interrompendo o silêncio. — Mas Ty, só porque tem mais pessoas na minha vida agora, não significa que você é menos importante.

Tyler ficou em silêncio, absorvendo suas palavras. Ela o conhecia melhor do que ele imaginava.

— Eu só… não quero perder meu lugar na sua vida. — Ele respondeu baixinho. Escondendo o rosto na nuca de Taylor.

Ela se virou, de frente para ele. Segurou seu rosto com as mãos para que eles se encarassem.

— Você nunca vai perder seu lugar na minha vida. Você é meu irmão, meu único irmão, sempre foi minha base. Você me protegeu de tudo que eu precisei. E eu sempre vou precisar de você na minha vida. Agora só estamos aprendendo a dividir, e isso é algo bom. — Ela sorriu, e ele sentiu todas as palavras o inundar.

Tyler sentiu uma leveza nova dentro de si, uma compreensão que começava a nascer. Talvez ele estivesse se segurando demais a uma ideia antiga, mas agora entendia que seu papel não estava sendo tirado, apenas mudando.

 

 

A sala era iluminada pela luz suave da TV, um filme passava em segundo plano. O grupo estava reunido mais uma vez, rindo e trocando conversas entre uma cena e outra. Tyler estava no sofá menor, dessa vez sentando junto de Taylor, enquanto Ben, Logan e Aiden ocupavam o outro sofá, com Ashlyn sentada na poltrona. Todos pareciam à vontade, e pela primeira vez em muito tempo, Tyler também se sentia assim.

Ele olhou para a irmã, que estava sorrindo, distraída trocando sinais numa conversa boba com Ben. Um sentimento de conforto o preencheu. Aquele vazio não o atormentava mais, havia dissipado. Ele percebeu que, mesmo com as mudanças, ainda fazia parte do grupo, ainda era importante para Taylor. Não havia perdido seu lugar, estava o dividindo, e ele entendeu isso.

A gargalhada de Aiden o trouxe de volta à realidade, e ele se pegou rindo, um sorriso verdadeiro que chegou aos olhos. Sem o peso de antes. Tyler se acomodou melhor no sofá, sentindo o calor da companhia ao seu redor.

Em um momento, ele levou o olhar à janela aberta. Do lado de fora, a leve brisa da noite movia as folhas das árvores. Antes, aquele cenário lhe traria uma sensação de melancolia, como se o vento estivesse tentando o consolar. Mas agora, junto das estrelas no céu, a brisa o confortava. As estrelas cintilavam com tranquilidade, como velhas amigas que o observavam de longe, em silêncio, sem a carga pesada do passado.

Tyler respirou fundo, sentindo o ar preencher seus pulmões, e deixou-se recostar no ombro de Taylor ao seu lado. Ele estava exatamente onde precisava estar. E pela primeira vez em muito tempo, estava em paz.