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1 de Abril de 1964. Cellbit não achou que sua vida pacata teria alguma grande mudança, até aquela maldita data chegar. Antes de precisar se esconder entre becos sujos e locais abandonados como um rato, lembrava-se de ser somente um homem comum, sem muitos objetivos na vida além de poder publicar seu próprio livro de contos, o que havia conseguido. Cellbit era muito conhecido em sua região, tanto por sua obra literária, quanto por ser um homem bastante recatado e sem muitos amigos.
No auge de seus trinta anos, o loiro trabalhava duro para poder escrever sua coletânea de contos sobre histórias paranormais que tirava de sua cabeça, mas com um diferencial: as entrelinhas. Os monstros de suas histórias não chegavam a ser totalmente irreais, faziam visíveis analogias aos grandes políticos do país, ele adorava fazer com que suas histórias tivessem aprofundamentos baseados em críticas reais que presenciava no dia a dia, e aquilo acabou decidindo grande parte de sua vida dali para frente.
Naquela data em específico, lembrava de ver o país virar um pandemônio. Três anos depois, a censura chegou, e pôde observar pessoas protestando, se escondendo, lutando e sendo levadas pelos policiais para Deus sabe onde. Lembrava da noite em que acordou desesperado com policiais batendo em sua porta, dizendo que havia sido denunciado por produzir uma obra com o conteúdo “perigoso e imoral”. Não demorou mais que alguns segundos para que pudesse fugir de sua casa, sabia das atrocidades que os cidadãos sofriam nas mãos dos que se diziam justos, então, resolveu pular da janela de seu quarto, correndo para o mais longe que conseguia, deixando tudo para trás.
Haviam se passado três anos desde o começo do regime militar, e havia completado um ano desde que passou a viver escondido, dominado pelo medo e pela ansiedade de ser descoberto. Logo após a sua fuga, as notícias sobre o seu sumiço foram de grande repercussão, durante esse tempo, seu nome havia ficado mais conhecido, já que várias pessoas ponderavam por onde o “escritor solitário” poderia estar.
Mesmo foragido, não parou de produzir suas obras cheias de críticas, havia decidido lutar pela causa e pela sua liberdade. Começou a escrever vários rascunhos, alguns mais elaborados e outros somente com devaneios que vinham em sua mente, passou a carregar papel e caneta para todos os lugares, anotando o que via naquele caos para poder produzir algo posteriormente. Depois que começou a fugir das autoridades, não conseguiu nenhum meio de publicar suas histórias, fazendo com que suas obras ficassem guardadas apenas para si, mas ele não iria desistir.
Após ter fugido de sua casa e ter se escondido por um tempo considerável, conseguiu ouvir alguns boatos que rondavam os becos de sua cidade. Algumas pessoas passaram a comentar sobre um grupo que havia se formado, um grupo de artistas que pretendiam lutar contra a censura, arranjando vários jeitos de se expressar no meio daquilo tudo. Investigando um pouco, conseguiu encontrar o endereço do tal clube secreto, que ficava em um galpão velho e de aparência abandonada.
Bateu no grande portão de metal com cuidado, sussurrando a senha que descobrira ser a chave para poder entrar:
— Purgatório.
O portão foi aberto com uma certa violência, sentindo uma mão o puxar para dentro do local um tanto escuro, podendo ver algumas pessoas fazendo diferentes coisas. Um homem tocava violão sentado em uma cadeira, duas mulheres sentadas no chão pintavam um quadro e quatro homens pareciam organizar várias folhas de papel perto de uma grande mesa, onde um homem um pouco mais velho que todos estava sentado. E foi com aquele grupo que as coisas começaram a mudar em sua vida.
O grupo, que descobriu se chamar Ordem, foi de extrema ajuda para a publicação de seus livros, uma vez que alguns dos homens mantinham contato com pessoas do governo que eram cúmplices, facilitando o acesso ilegal à editoras aliadas. Passou a usar um pseudônimo para que não o identificassem, mas todos que prestassem a devida atenção, saberiam que Cucurucho era apenas um nome para o manter seguro, já que sua escrita era característica demais para não ser reconhecida por seus fãs, mas aparentemente, era o suficiente para não o perseguirem.
Desde então, passou a frequentar o local diversas vezes por semana, tanto para receber ajuda com seus livros, quanto para ajudar aqueles artistas que precisavam, até mesmo passava algumas noites escondido no galpão, por ser um local seguro e escondido. Com o tempo, a Ordem foi recebendo cada vez mais membros, todos dispostos a se ajudarem, e nisso, se passou mais um ano. E foi em mais um dia comum de produção no clube que conheceu ele.
8 de Outubro de 1969, o dia em que seus olhos ganharam um brilho diferente quando pôde observar um homem entrando pela porta escondida do clube, um homem que nunca havia visto e que, aparentemente, havia se tornado um membro. O rapaz era um pouco mais baixo que si, aparentava ser apenas três ou quatro anos mais novo, pele bronzeada, ombros largos, cabelo castanho bagunçado, maxilar marcado, olhos penetrantes, uma faixa azul marinho enfeitando sua testa e um violão nas costas. Assim que o viu entrar, seus olhos se cruzaram, se encararam por longos segundos, até desviarem o olhar por certo constrangimento. Cellbit o observou de canto de olho e o viu se sentar em uma cadeira, puxando seu violão para começar a tocar.
Foi apenas no quinto dia após a chegada do desconhecido que Cellbit resolveu se aproximar, perguntando seu nome e qual era seu objetivo indo até a Ordem. Quando ouviu a voz alheia, sentiu-se arrepiar até o último fio de cabelo por conta do sotaque em espanhol. Roier, como era chamado, apenas se apresentou de forma breve e começou a dedilhar as cordas de seu violão, mostrando a Cellbit uma de suas composições. Foi naquele exato momento que o coração do loiro disparou pela primeira vez.
Passaram a conversar cada vez mais com o passar do tempo, compartilhando histórias, vivências, objetivos e sonhos. Roier mostrava suas composições toda vez que tinha oportunidade, e Cellbit o mostrava seus rascunhos para futuros livros. Ambos se encantavam cada vez mais pela personalidade e pelo jeito alheio, os fazendo se apegarem na companhia um do outro.
Talvez fosse pela intensidade de todo o contexto em que estavam vivendo, ou talvez fosse pela faísca que havia se acendido desde o primeiro momento que se viram, mas não demorou muito para que o primeiro beijo acontecesse logo após uma conversa sobre o futuro que queriam ter, em uma tarde onde só haviam os dois rapazes no galpão.
— O que acha que vai acontecer nos próximos anos? — Pergunta Roier, de forma sussurrada, enquanto tocava uma melodia baixa em seu amado violão.
Ambos estavam sentados no chão, um ao lado do outro. Roier dedilhava o instrumento musical, enquanto Cellbit revisava algumas páginas de seu mais novo rascunho. Os cabelos loiros escuros caídos um pouco na frente de seus olhos, seus óculos de leitura redondos em harmonia com a feição concentrada em seu rosto, algumas cicatrizes na derme pálida e a barba não muito cheia. Seus dedos passavam pela própria caligrafia, a fim de analisar o que tinha escrito, fazendo o mais novo analisar suas mãos com alguns anéis prateados um tanto atraentes. Suspirou, Cellbit era tão bonito.
O mais velho parou sua leitura, se virando para o homem ao seu lado e retirando os óculos, empurrando suas madeixas para trás com a mão direita. Seus olhos azuis claros se fixaram nos castanhos, deixando o mexicano um tanto desconcertado. Eram tão intensos.
— Eu não sei, Roier… — Suspirou de forma pesada, fechando seus olhos. — Mas, eu espero que você esteja lá — Soltou de forma descontraída, surpreendendo ambos pela naturalidade da fala, fazendo Cellbit abrir os olhos de forma apressada, seus olhos se encontrando mais uma vez.
Roier o encarou, antes de deixar o violão de lado. Tentou ignorar a fala alheia, mas não conseguiu ignorar o efeito que aquilo havia causado em si. Suspirou e voltou a falar:
— O que…o que você quer para o futuro? — Melhorou sua pergunta, a fim de receber uma resposta mais elaborada.
— Eu… — Continuou o encarando, suas bochechas ruborizadas. — Eu quero poder voltar a publicar meus livros sendo eu mesmo, quero voltar a morar em minha casa, quero parar de me esconder… — Ficou um tempo em silêncio, até voltar a sua fala. — Quero não presenciar mais tanta violência. E você?
O silêncio pesado se fez no recinto, os olhos de Roier já não focavam nas íris azuladas, apenas observava a boca alheia se mover.
— Quero poder lançar minhas músicas sem ter medo de sofrer o pior — Soltou o que estava sentindo. — Quero me levantar todos os dias com a sensação de que está tudo bem, e… — Foi se aproximando lentamente do corpo do outro, sentindo Cellbit fazer o mesmo. — Também quero que você esteja no meu futuro, gatinho.
O apelido inusitado que saiu da boca do outro fez com que um arrepio violento passasse pela sua espinha, decidindo agir por instinto. Avançou em direção à Roier e puxou seu rosto em sua direção, selando os lábios com uma certa euforia desconhecida até então. O homem correspondeu na mesma medida, entrelaçando suas línguas de maneira intensa e um tanto bagunçada, mas que não deixava de ser incrivelmente maravilhoso. Seus corações batiam de forma sincronizada, a paixão crescendo por todos os cantos enquanto desfrutavam da sensação do corpo um do outro.
Se afastaram em busca de ar, mas não demoraram a voltar a ter o contato tão desejado por ambos. Ficaram o resto da tarde na companhia um do outro, focando em seus afazeres e vez ou outra voltando a sentir os lábios alheios. Aquele contato íntimo acendeu uma faísca dentro de ambos, os fazendo criar um vínculo ainda mais forte, se tornando almas apaixonadas em um curto período de tempo. Passaram a ter uma relação de confiança ainda mais intensa, se apoiando cada vez mais e, a cada dia, sentindo a paixão dominar cada pedaço do cérebro e coração conforme demonstravam carinho e preocupação em cada ato.
Em uma conversa descontraída pela tarde, onde se encontravam sozinhos novamente, tiveram um diálogo na qual Cellbit nunca conseguiu esquecer:
— Eu acho que eu faria tudo por você — Soltou Roier, fazendo o outro homem o olhar com a sobrancelha arqueada.
— Para que tanto exagero?
— Não é nenhum exagero — Riu fraco. — Eu percebi que nossa relação é algo especial e totalmente diferente do que eu estou acostumado. Eu sinto que… — Desviou o olhar de forma breve. — Sinto que quero fazer parte de sua vida cada vez mais.
Cellbit deixou de lado o que estava fazendo, se aproximando um pouco do corpo de Roier, sorrindo de canto.
— E…o que você faria por mim?
— Eu não sei — Respondeu, um sorriso brotando em seus lábios. — O quanto você estaria em risco?
Ambos riram e trocaram uma série de selinhos. A verdade é que não havia necessidade de saber, estava tudo bem.
Havia se passado mais um ano, e coincidentemente, estavam no dia 8 de Outubro. Roier havia conseguido lançar duas músicas com mensagens subliminares sobre o que estavam vivendo, estava sendo um sucesso. Diferente do outro rapaz, Roier não usava um pseudônimo, nem ao menos usava seu nome real, preferiu lançar suas músicas de forma anônima. Cellbit havia publicado seu terceiro livro como Cucurucho, o que o deixava extremamente feliz, ao mesmo tempo que o deixava um pouco melancólico. Ambos os rapazes tentavam ao máximo esconder sua relação dos membros da Ordem, mas era bem visível a todos o tipo de carinho que os dois adquiriram um pelo outro, e pelo visto, ninguém se importava.
Todos estavam produzindo suas coisas no clube, até que ouviram batidas na porta de metal. O homem que normalmente era deixado de guarda se aproximou, esperando a palavra secreta. Quando “purgatório” foi ouvido, o homem abriu, mas logo, foi surpreendido com um golpe em seu rosto, o fazendo se desequilibrar. Tudo foi muito rápido, pois no momento seguinte, um objeto foi lançado para dentro do galpão, começando a soltar uma fumaça esbranquiçada.
Vários homens armados entraram no recinto, começando a puxar algumas pessoas para fora com uma violência desnecessária, enquanto gritos de ambas as partes eram ouvidos. Cellbit sentiu seu corpo ser agarrado, e pôde ver fazerem o mesmo com Roier. Se olharam desesperados, começando a resistir e a gritar para os soltarem. Aquilo não poderia estar acontecendo, não depois de tudo o que haviam vivido até ali.
Ouviram os homens perguntando de forma violenta quem sabia a real identidade de Cucurucho, já que no momento, era a maior ameaça para o governo no meio artístico. Cellbit sabia que além de sua outra identidade, sua identidade verdadeira também poderia estar sendo procurada por conta de um livro que escreveu anos atrás, mas aparentemente, os policiais estavam focados demais para sequer notarem o rosto do rapaz.
Ninguém naquele recinto iria dizer a verdade, afinal, a Ordem tinha uma regra crucial: “nós não delatamos”. Cellbit se sentiu tentado a dizer que era ele próprio, só para não sofrer ainda mais com a visão de Roier se machucando nas mãos dos policiais. Antes que o fizesse, uma voz soou alta:
— Eu sou o Cucurucho!
Cellbit arregalou os olhos. Não, por favor, agora não.
— Levem ele! — Um dos policiais gritou, e o loiro pôde sentir o seu corpo ser solto, já que o homem que o segurava foi em direção à Roier para o levar dali.
— O que pensa que está fazendo?!? Você é um idiota! — Gritou de maneira desesperada, sua garganta doendo pelo esforço descomunal, enquanto Roier nem parecia resistir. Seus olhos começaram a arder por conta das lágrimas. — Parem! Não o levem!
Cellbit sentiu um soco ser desferido em seu rosto, o fazendo cair no chão, mas isso não o impediu de se levantar e tentar correr atrás do outro.
— POR QUE FEZ ISSO?! — Soltou de forma indignada, aquilo não podia estar acontecendo. Roier foi levado para longe, mas conseguiu ouvir uma última coisa:
— GATINHO, VOY POR TI! — O homem também chorava, mas tinha um sorriso no rosto. — EU TE AMO!
Cellbit se sentiu desolado por ter que ouvir aquelas três palavras naquela situação extremamente difícil, onde não teve ao menos a chance de dizer de volta, pois foi puxado bruscamente por um dos membros do clube.
— Precisamos fugir, antes que percebam que você é o Cellbit Balanar, rápido! — O mais velho da Ordem exclamou desesperado, e depois que desviou os olhos de seu amado, pôde ver a situação que se encontrava ali fora. As ruas estavam tomadas por policiais, algumas pessoas gritavam e corriam, aparentemente, uma série de denúncias contra pessoas “perigosas” foram feitas, fazendo os policiais descobrirem todas as sociedades secretas da região.
Todos os membros restantes que não foram pegos começaram a correr para longe, por um caminho estreito e de difícil acesso. A vontade de Cellbit era correr em direção à Roier e ficar alojado em seus braços para todo o sempre, mas sabia que se tentasse, iria fazer do sacrifício do rapaz um mero ato comum, e sabia que se fizesse isso, decepcionaria o outro, e o loiro preferia morrer ao ver o olhar decepcionado direcionado para si.
Suas lágrimas rolavam de forma descontrolada, seu coração estava em arritmia e ele não conseguia pensar corretamente enquanto fugia. Esperava que nada de ruim acontecesse com o amor de sua vida, que um dia pudesse reencontrá-lo. Enquanto sua mente estava uma confusão, colocou a mão em seu peito e sussurrou:
— Eu também te amo.
