Work Text:
“Eu quero te ver de novo, Hachiko.”
As palavras de Nana pareciam fazer cócegas nas bochechas de Hachi, mesmo que nem a voz nem o celular estivessem mais perto do seu rosto. As lágrimas tinham secado, o encontro com Shoji repousando no fundo do seu coração para ser processado com calma pelo tempo. Hachi queria ver Nana a qualquer custo, o fio perfeito do destino sempre as puxando uma para perto da outra, mesmo que às vezes apertasse demais no seu dedo. Era destino, pensava. Muitas coisas poderiam ser acaso, mas essa amizade ela tinha certeza que era destino.
Sua paixão pela BLAST também era. Hachi tinha um amor imensurável pela banda, como uma extensão de si mesma, um marido que não ousaria trair – e mesmo se traísse, voltaria chorando até ele pedindo perdão de joelhos. Ou melhor, como um cão com as orelhas caídas, o rabo tristonho escondido entre as pernas. Seria difícil não perdoá-lo com seu choro arrependido, por maior que fosse a bagunça no quarto. Hachiko era assim, mesmo que não soubesse.
A campainha do apartamento 707 tocou.
Do outro lado, Nobu reconsiderava todas as opções da sua vida. Seu coração retumbava no peito, como se um ímã o puxasse para a porta. As pernas, fracas, deixavam-se empurrar pelo vento da esperança até pararem em frente da madeira escura e brilhante. Era só um movimento com a mão e alcançaria a maçaneta.
Era inútil, não era? Não podia esquecê-la nem se quisesse.
Imaginava que expressão ela teria no rosto. Tinha dito que se a visse feliz, desistiria logo, mas agora diante da porta, não tinha mais certeza. Não tinha certeza de nada. Talvez mesmo que sorrisse, ele ainda iria querê-la. Talvez até mais do que antes. Como um tufão irritante, seu coração era egoísta e queria tudo para si, mesmo que isso fosse causar um estrago. Um pouco menos de controle e a puxaria pelo braço, imploraria que ficasse, diria tudo o que pensava sobre Takumi e ainda exageraria – não que isso pudesse piorar ainda mais a visão já terrível que todos tinham dele. Que importava se o casamento era em duas semanas? Que importava se Takumi seria um pai relativamente responsável, mesmo que frio e distante? Que importava se...
...Se ela tinha escondido tudo dele antes?
Nobu olhava a porta com melancolia e um pavor silencioso. Era mesmo digno de confiança? Era capaz de criar um filho? Quando toda aquela loucura passasse e a realidade viesse esmagando com toda força, se alegraria da sua escolha? Será que isso faria Hachi realmente feliz? Será que ela um dia conseguiria ser feliz ao lado dele?
O tempo passava. A maçaneta era fria debaixo dos seus dedos.
Um fio delicado de luz se estendeu no chão do corredor. A porta entreaberta.
-- Nana? – a voz de Hachi ecoava baixa, confusa, ainda um pouco chorosa.
Ele não tinha coragem. Não tinha coragem de puxar mais a porta, nem de mostrar o rosto. Só ir até a metade do caminho já o amedrontava o suficiente para paralisá-lo. Como uma frase cortada ao meio. Talvez nem uma frase – um som, um grunhido, uma coisa qualquer.
Por que ser feliz e realizar seus sonhos eram coisas tão diferentes?
A porta foi puxada para trás, abrindo-se timidamente.
O rosto de Hachi era iluminado por surpresa. Seus olhos tremeram, a mão subindo à boca num movimento só, um susto só. As palavras sumiram.
Nobu sentiu como se uma lança atravessasse seu corpo. O rosto inchado, o nariz avermelhado, os olhos tristes. Não, não havia coisa alguma que dissesse que Hachi estava feliz. Seu corpo exalava um aroma de tristeza, tão arrebatador que ele nem ao menos notou quando seus braços acolheram a mulher para perto de si, ignorando tudo ao redor.
Ele chorava também.
Os fogos de artifício exibiam suas cores efêmeras da janela, um show brilhante, barulhento e passageiro. O apartamento, por sua vez, era apenas silêncio abafado, lágrimas molhando corpos e roupas.
Nobu pensava que, se todos os momentos de terror e ansiedade viessem acompanhados de abraços gentis e desesperados como aquele, talvez valesse a pena ter mais um pouco de coragem. Talvez o mundo se tornasse um pouco mais brilhante.
Todas as suas preocupações se desmanchavam em lágrimas sob o afeto dos braços de Hachi. Ela o segurava como antes – como naquela vez que armaram para que os dois fossem à conveniência juntos. Tudo doía e se misturava à esperança. Dois corações batendo como um só.
Os dois se beijaram novamente. As mãos encontravam seus caminhos sozinhas, o toque tão natural como se nunca tivessem terminado. E era como se não tivessem mesmo – as memórias se borravam e davam lugar ao calor e a gentileza do outro. Coisas que não queriam ter abandonado desde o princípio, e agora estavam lá, como se nada tivesse mudado. Era bom acreditar que nada tivesse mudado. Que os dois esperavam um pelo outro apesar de toda a complexidade da vida...
