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Raiden não podia acreditar no tamanho de sua burrice. Logo agora que sua vida estava finalmente entrando nos eixos… Não, isso era azar demais! Até mesmo para os seus parâmetros de pessoa extremamente azarada.
Vendo a fumaça preta tomar conta de sua casa, ela fechou os olhos e respirou profundamente, recapitulando em sua mente os últimos, e provavelmente os únicos, períodos de paz que ela teve em sua vida.
A cerca de 3 anos atrás, Ei vivia na mesma casinha pequena e afastada que vive até hoje, a diferença é que sua presença naquela época não era uma das mais desejadas. Odiada por todos os cidadãos de Inazuma, Raiden sabia que era apenas uma questão de tempo até ser expulsa de sua casa e arrastada para alguma fogueira em praça pública. As pessoas não costumam gostar da companhia de bruxas… Principalmente aquelas que eram poderosas.
Depois de séculos vivendo da bruxaria, se tornando capaz inclusive de ultrapassar sua antiga mestra e vencer as barreiras da eternidade, Raiden estava pronta para qualquer que fosse seu desafio com aquelas pessoas, ela só não contava com uma coisa.
Numa tarde gelada do inverno, Ei recebeu a visita de três estrangeiros, um homem com orelhas verdes e pontudas, outro com um capacete de lobo e cabelos brancos e uma garotinha. Os dois adultos pareciam bem, mas a garotinha, a qual ela descobriu um tempo depois que se chamava Collei, tinha seus braços enfaixados e uma aparência muito diferente dos outros jovens que ela assustava ao esbarrar na rua.
Eventualmente, ela entendeu o motivo da visita. Eles queriam que Raiden curasse a garota, estavam tão desesperados para colocarem um fim no sofrimento de Collei que tentaram todo o tipo de tratamento, e a magia de Ei era sua última opção.
Raiden obviamente colocou a mão na massa. Enquanto examinava Collei ela percebeu que aquela doença também era fruto de bruxaria. Um feitiço terrivelmente mal feito, o qual não levou nem um dia para que ela conseguisse quebrar e então livrar a pobre adolescente das amarras contaminadas que a seguravam.
O boato da bruxa má que havia curado uma pobre criança se espalhou como fogo pela cidade e, aos poucos, as pessoas começaram a vir até ela buscando serviços. As primeiras foram as jovens mulheres, buscando opções medicinais contraceptivas e para dores menstruais. Com menos de um ano depois do acontecimento, Raiden recebia pedidos de quase todas as pessoas da cidade, a maioria requisitando medicamentos. No inverno seguinte do acontecimento com Collei, Ei decidiu dar um basta na situação, informando que se a cidade quisesse continuar usufruindo de seus medicamentos, eles teriam que aprender a fazer.
Obviamente nenhum homem foi corajoso o suficiente para se dispor a aprender magia com ela, mas duas garotinhas, apenas alguns anos mais velhas que Collei, se voluntariaram para aprender quase que imediatamente.
Com o passar do tempo, as duas foram aprendendo muito bem. Shinobu tinha o dom para fazer poções medicinais, sendo a principal fonte desta no comércio de Inazuma atualmente. Yoimiya, em outra instância, tinha mais interesse em criar poções explosivas. Raiden decidiu não interferir no processo criativo de nenhuma das duas, apenas mentorando-as toda semana para que elas não caíssem em curvas perigosas da magia.
Bom, isso tudo até agora. Toda sua reputação de boa pessoa seria jogada no lixo em questão de dias até a cidade descobrir que ela havia feito… isso.
Durante sua sessão de magia e meditação diária, Ei acabou tomando uma das atitudes mais inexperientes possíveis: fazer feitiços de janela aberta. Acontece que, agora que sua reputação de bruxa boazinha havia sido definitivamente firmada pelas pessoas, a campina perto de sua casa que vivia sempre vazia e silenciosa, agora estava sempre cheia de crianças e jovens brincando e conversando.
Não demorou muito para que alguma criança com um senso de direção prejudicado fizesse sua bela janela de gol e acertasse cinco vidros de poções mágicas, derrubando-os em cima de seus círculos mágicos desenhados no chão no exato momento em que Raiden estava verbalizando as palavras de seu feitiço. Eram tantas coincidências que ela se sentia enjoada.
E bom, agora sua casa estava tomada por uma fumaça preta e um cheiro de enxofre muito forte. Ei sentia sua barriga se contorcer com o medo de o que o acidente poderia ter invocado em sua sala.
Aos poucos a fumaça foi diminuindo e Raiden começou a ouvir uma outra respiração no cômodo além da sua. Cerrando seus olhos para enxergar melhor, a morena avistou no fundo, encostada em sua estante de livros, uma silhueta humana. Ou pelo menos quase humana.
Quanto mais a fumaça diminuía, menos Raiden conseguia compreender sobre o que exatamente estava parado no meio de sua sala. A princípio ela jurou ser um ser humano, mas então avistou orelhas felpudas e rabos, pensando que talvez fosse um animal muito grande. Em seguida, ela conseguiu perceber mãos e pés, excluindo de sua cabeça a hipótese de ser um bicho.
A gota d’água foi quando ela avistou um cabelo. Mas não qualquer cabelo, um cabelo rosa.
Com um acenar de suas mãos, ela acendeu todas as velas que estavam espalhadas pelo cômodo. A iluminação repentina fez a… coisa parada na sua frente recuar assustada, batendo seu corpo com força contra a estante de livros, que tremeu com o impacto.
— Cuidado! — Raiden gritou. — Esses livros são relíquias. — Como resposta, Ei recebeu uma arqueada de sobrancelha da criatura rosa.
Com o tremeluzir das chamas sobre o ambiente, Ei conseguiu ver melhor a criatura parada na sua frente. Independente do que fosse, era definitivamente uma criatura feminina, tendo quase a mesma altura de Raiden, talvez alguns oito centímetros a menos. Ela usava uma roupa que lembrava os tradicionais kimonos da região, com mangas pretas bufantes contendo vários detalhes de chamas em um rosa brilhante. Entretanto, o corpo da peça de roupa lembrava muito mais um vestido, era mais curto que um kimono e também mais decotado, seguindo o mesmo padrão de cor, com o fundo preto e chamas rosas subindo por suas coxas até a altura de seu dorso.
Apesar do cabelo rosa e dos inúmeros detalhes nesta cor que cobriam suas roupas, seus olhos eram roxos, talvez tão escuros quanto os olhos de Raiden se ela fosse ser honesta. Um rabo rosa e felpudo se remexia em suas costas, assim como o par de orelhas, também rosa, que pendiam nos lados de sua cabeça.
Até esse momento, Raiden julgaria a criatura como algum metamorfo ou então, o mais comum na região, um Kitsune, já que ela remetia a vários traços de uma raposa. Entretanto, tinha uma coisa que mudava absolutamente tudo: um grandioso par de chifres pontudos em sua cabeça.
Felizmente Ei era experiente no assunto, e podia afirmar com toda certeza que aquela criatura parada no canto de sua sala era um demônio.
Com a compreensão da situação caindo sobre si, Raiden arregalou levemente seus olhos e deu alguns passos para trás, na direção de sua cozinha. Sua cabeça estava um emaranhado de feitiços sobre como exorcizar demônios, em específico um que fosse genérico o suficiente para que não fosse necessário saber a origem da invocação da criatura.
De repente sua cabeça brilhou como ideia. Virando-se rapidamente na direção do demônio que lhe encarava com aqueles perigosos olhos roxos, ela perguntou:
— Você é um succubus?
O comentário de Ei foi a primeira coisa que fez a criatura perder sua expressão de medo e assumir uma carranca de surpresa misturada com indignação.
— Não!! — Ela respondeu. Suas voz era exatamente como Raiden imaginava que seria a voz de um demônio, suave mas ao mesmo tempo ameaçadora. — Isso não foi nada cortês da sua parte! Você me invoca e me acusa de ser um demônio sexual? Vocês bruxas são sempre insensíveis.
A boca de Raiden se abriu em choque. Sim, esta criatura era definitivamente um demônio. Já faziam alguns séculos que as relações entre bruxas e criaturas demoníacas não vinham sendo das melhores, isto pois as bruxas buscavam com sua magia o equilíbrio e, acima de tudo, a defesa da terra e dos princípios naturais, enquanto demônios eram voltados para a criação de caos e destruição. A boa relação entre esses extremos sempre foi um verdadeiro desafio.
— Bom, sinto muito pela grosseria, é que eu não te invoquei de propósito… — Raiden começou a se explicar, mas o som de passos e conversas lhe parou.
Olhando em direção a sua janela, Raiden avistou Shinobu e Yoimiya caminhando felizes e calmamente em direção a sua casa. Com um olhar rápido em direção ao relógio, ela percebeu que era o horário de suas aulas de magia.
— Merda! — Ela gritou. A criatura que estava parada a poucos metros de distância dela estremeceu, provavelmente assustando com o grito. — Merda, merda, merda, merda.
Levantando suas mãos e proferindo feitiços rápidos, Ei arrumou toda sua bagunça de feitiços, poções e rabiscos mágicos em questão de segundos. Em seguida, abriu algumas cortinas, apagou algumas das velas e então encarou o demônio que lhe encarava com uma expressão confusa.
Percebendo o nível da situação, Raiden se aproximou dela e sussurrou:
— Olha, eu não sei que demônio você é e que tipo de ameaça você representa. — Os olhos roxos da criatura cor-de-rosa se arregalaram com a proximidade. — Mas eu tenho certeza que, se for preciso, eu consigo fazer você virar um punhado de cinzas, então por favor respeite essas duas crianças e nós não teremos problemas no futuro.
Antes que a criatura conseguisse responder algo, batidas na porta foram ouvidas.
Raiden respirou profundamente e abriu a porta.
— Boa tarde, senhorita Raiden! — As duas disseram em uníssono.
— Trouxe bolo pra você! — Shinobu adentrou na casa com uma imensa forma em suas mãos. — Já que a senhora não cozinha com frequência, minha mãe pediu pra trazer.
Os olhos de Yoimiya foram mais rápidos, infelizmente.
— Quem é essa? — Ela perguntou com seus gigantescos olhos amarelos presos na criatura parada, a qual olhou para Raiden como se esperasse uma explicação de quem ela de fato era.
— Hrm, essa é uma… Amiga de infância minha! Senhorita… — Raiden estendeu a mão em direção a ela, como se esperasse uma ajuda na situação.
— Yae Miko! — Ela respondeu estendendo sua mão na direção das garotas. Ei não deixou de reparar nas unhas gigantescas que ela tinha. — Mas podem me chamar de Miko.
— É um prazer te conhecer. — Shinobu foi a primeira a responder e a pegar a mão de Yae Miko para comprimentá-la.
— Não sabia que a senhorita Raiden tinha amigos. — Yoimiya respondeu. Ei odiava a maneira como ela era nocivamente sincera. — É um prazer te conhecer também, me chamo Yoimiya Nagaehara e essa é minha amiga Kuki Shinobu.
— Yoimiya! — Shinobu a repreendeu. — É claro que ela tem amigos! A senhorita Kujou e a namorada sereia dela! — A resposta fez Raiden piscar lentamente. Sara provavelmente desmaiaria ao ouvir um comentário desses, mesmo que elas de fato parecessem namoradas.
A loira murchou com a bronca da amiga e Yae Miko sorriu. As presas dela pareciam bem menores comparadas com as de outros demônios que Ei já havia visto, talvez fosse algum truque para disfarçar suas características demoníacas na frente das jovens.
— É um prazer conhecer vocês meninas! Não sabia que minha amiga aqui tinha se aproximado de crianças… — Ela respondeu enquanto oscilava seu olhar entre as duas garotas e Raiden.
— Ah, metade da cidade ainda tem medo dela. — Yoimiya respondeu de maneira simplista. — Mas desde que ela curou aquela menina de Sumeru a maioria confia na senhorita Raiden.
Os olhos de Yae Miko caíram sobre Raiden com um peso de 50 toneladas. Era como se ela estivesse avaliando cada mísera parte do caráter de Ei com base nas frases das garotas. Seus olhos subiam e desciam por todo o corpo dela como se estivesse medindo o perímetro de um terreno que ela pretendia explorar.
Raiden, se sentindo tonta, se pronunciou:
— Bom, chega de conversa, vamos subir pro sótão. — Com a ordem dada, as duas se puseram a subir na frente, levando com elas alguns livros que Raiden já deixava separado para que pudesse dar suas aulas.
Subindo para o último andar da casa, os desenhos no chão já estavam praticamente finalizados por Shinobu. Antes de se sentar no chão, Raiden checou a tranca das janelas, por precaução.
— Meninas, onde nós paramos mesmo?
— Você tava ensinando pra gente sobre poções de curto efeito! — Yoimiya respondeu.
A memória de Raiden se clareou.
— Sim, principalmente sobre os perigos dessas poções, certo? — Shinobu concordou com a pergunta e Yoimiya afundou no chão, bufando. A sobrancelha de Raiden arqueou com a reação. — O que foi?
A loira abriu a boca para responder mas foi interrompida por batidas na madeira. Era Yae Miko subindo as escadas do sótão.
— Com licença. — As cabeças se viraram em sua direção. — Se importam se eu assistir a sua aula?
Sim. Raiden quis responder, mas infelizmente suas alunas acenaram negativamente com a cabeça e Yae Miko se sentou a poucos metros de distância delas.
Ótimo, agora ela tinha um demônio assistindo suas aulas de feitiços.
— Hrm, certo… — Raiden pigarreou enquanto desviava seus olhos do rosto sacana de Yae Miko. — Onde estávamos?
— Isso não é justo, Senhorita Raiden! — Yoimiya gritou enquanto cruzava seus braços. Honestamente, Ei era contra o uso de “senhorita” para se referir a ela, mas as duas estavam tão empenhadas que ela apenas desistiu de corrigir.
— O que não é justo, Yoimiya? — Raiden perguntou, enquanto tentava ler a situação por baixo da careta emburrada da loira e da máscara que Shinobu sempre usava.
— Você não ensinar a gente a fazer as poções mais legais! — Ela respondeu balançando seus braços, como se a resposta fosse óbvia. — Principalmente as poções do amor… — Essa última parte foi sussurrada tão baixo que Ei provavelmente não teria ouvido se a acústica de seu sótão não fosse ótima.
— Yoimiya! — Shinobu gritou, com uma expressão de puro choque. — Ela já disse que é muito perigoso! Só bruxas podem fazer esse tipo de feitiço, e nós somos feiticeiras.
Isso era verdade. Raiden tinha decidido no momento em que começou a ensinar as duas garotas que não chegaria perto delas com feitiços perigosos como poções de amor, sorte, azar, memória e outras. É claro que esse tipo de magia era possível, desde que fosse realizado por bruxas! E Yoimiya e Shinobu estavam longe de alcançar as profundezas dos rituais mágicos para se tornarem uma.
— Há! — Yoimiya respondeu de volta. — Você só fala isso porque não precisa de uma poção do amor com aquele detetive quase beijando o chão que você pisa! Mas eu preciso!
A expressão de choque no rosto de Shinobu certamente só não foi maior do que a de Raiden, a qual estava completamente despreparada para esse assunto.
— Sua…! — a mão de Shinobu subiu no ar e, por um milésimo de segundo, Raiden temeu que a esverdeada fosse estapear a amiga. — Sua mentirosa! Primeiro que eu e o Shikanoin não temos nada, ele é só meu amigo e eu nem gosto dele! Ele é irritante, petulante e convencido! — Ela parou para respirar. — E segundo que a sua querida Kamisato também falta só comprar o ar que você respira pra poder te inspirar todos os dias.
Yoimiya arregalou os olhos com a resposta, e sua bochecha tomou um brilho vermelho vivo, provavelmente pela vergonha. Antes que elas pudessem continuar com a discussão, Raiden interrompeu.
— Chega! — O grito fez as duas se virarem em sua direção assustadas. — Pelos círculos mágicos sagrados… O que tá acontecendo aqui! Vocês são… crianças! Isso não devia ser uma questão da vida de vocês!
As duas garotas trocaram olhares, confusas.
— Senhorita Raiden, nós não somos crianças… — Yoimiya respondeu. — Eu tenho 20 anos e a Shinobu 21.
Raiden levou sua mão até sua testa. Que grande diferença! Isso não era nada para alguém que viveu séculos! Mas Ei preferiu se manter em silêncio, já que seu palpite sobre a idade das duas seria o mesmo que a de Collei, 15 anos…
Enquanto as duas murmuravam insultos uma para a outra, Raiden focou sua concentração em sentir seu pulso, o qual estava, pela primeira vez em muito tempo, totalmente descompassado. Sua mente estava embaralhada com ideias desconexas e pensamentos perdidos. Ela tentou algumas vezes direcionar sua atenção para uma saída dessa situação, mas tudo lhe fugia do controle.
Até que ela entendeu.
Levantando seus olhos para Yae Miko que estava sentada no chão encostada em um dos cantos do cômodo, Ei notou o brilhante sorriso que surgia em seus lábios tiranos.
Demônios… Malditos demônios…
Sentando em formato borboleta no chão, Raiden começou a esfregar as palmas de suas mãos umas nas outras, variando na direção que suas mãos se encontravam. Aos poucos um brilho cinza claro surgiu do movimento e, então, ela separou suas palmas e as levou lentamente em direção ao chão.
No instante em que suas mãos tocaram o assoalho, Yoimiya e Shinobu pararam de brigar, sua mente clareou quase instantaneamente e o sorriso no rosto de Yae Miko se tornou uma carranca decepcionada.
É claro. Demônios tinham o poder de causar o caos onde estivessem… Desde grandes destruições até pequenas picuinhas entre jovens.
Lançando apenas um olhar mortífero na direção da criatura demoníaca em seu sótão, Raiden esperava ter deixado bem claro que se aquilo acontecesse de novo, as coisas não ficariam boas para Yae Miko. O fato da rosada ter engolido seco pareceu comprovar que a mensagem havia sido passada.
As duas garotas respiravam profundamente e piscavam repetidas vezes, como se estivessem buscando uma justificativa racional para suas ações anteriores.
— Enfim… — Raiden começou, tentando quebrar o gelo. — O detetive, então?
Shinobu afundou o rosto em suas mãos. Raiden não achava ele muita coisa, mas levando em conta que Shinobu andava com aquele… Oni inconsequente, a perspectiva de ver ela com o garoto dos cabelos vermelhos cujo o qual investigou a casa de Raiden umas quatro vezes a procura de magia das trevas era… Menos pior. Ele ao menos era mais educado.
Mas ela não era muito fã de caras, no geral, então preferiu ficar em silêncio ao invés de correr o risco de dizer algo desnecessário.
— Aliás, senhorita Kamisato… Seria a Ayaka? — Ei perguntou, curiosa.
— Vocês se conhecem? — Yoimiya perguntou. Sua expressão era preocupada.
A verdade é que a Senhorita Ayaka foi uma das primeiras pessoas a entrar em contato com Raiden após a situação com Collei. Ela enviava cartas a Ei, dizendo o quanto admirava seus trabalhos, mas que não tinha tempo livre em sua agenda para aprender propriamente. Ela era uma das únicas pessoas que ainda encomendava poções diretamente com Raiden, e não com suas alunas.
— Conversamos algumas vezes, mas nada demais. — Ei respondeu.
— Então você vai me ajudar a fazer uma poção do amor pra ela?
— Não. — Ela respondeu, assistindo o brilho esvair de Yoimiya como mágica. — Mas tenho algo que pode ajudar vocês.
Puxando um de seus livros, Raiden folheou as páginas até encontrar o que procurava: Feitiço para encontrar sua paixão.
De maneira resumida, ela explicou como essa poção funcionava para as meninas. Não era nada mágico, capaz de enfeitiçar os sentimentos de outra pessoa. Era apenas um líquido comestível que tinha em seu cheiro e sabor traços da pessoa amada.
Curiosas para saber o resultado, as duas imediatamente colocaram a mão na massa, fazendo um imenso caldeirão de poção em questão de 20 minutos.
— Acho que nós terminamos! — Shinobu chamou.
Raiden se aproximou. O líquido era um magenta brilhante, exatamente como estava descrito no livro.
— Vamos fazer o teste. — Ela puxou uma concha. — Yoimiya, que cheiro você sente?
A loira se aproximou da panela e respirou profundamente.
— Hmm… Tem cheiro de coisa doce… Tipo, bem doce… farinha, talvez um pouco de neve? E também… Das flores de Sakura! — Raiden sorriu com a resposta. A casa de Ayaka era rodeada de árvores de Sakura…
— Experimenta! — Ei ofereceu, e Yoimiya tomou um gole.
— Continua bem doce… Mas agora é praticamente o mesmo gosto de Sakuramochi!
Shinobu riu:
— É a comida preferida da Ayaka!!
Yoimiya fez uma careta para a amiga, mas voltou seus olhos para a poção. Puxando um pequeno potinho de vidro, ela guardou alguns mililitros da mesma em seu bolso.
— Vem Shinobu, sua vez!
A esverdeada caminhou devagar, aproximando timidamente seu nariz da panela.
— Tem cheiro de… Brisa de verão, eu acho… E de coisa salgada também! Tipo… sanduiche de carne e repolho.
— Que nojo. — Yoimiya respondeu. — É com certeza o tipo de comida que o Heizou come…
— O que acha de experimentar? — Ei perguntou e Shinobu assentiu.
— Hm... Tem gosto de… Sanduíche de Katsu!! — Ela respondeu. Sua expressão parecia horrorizada. Ao julgar por isso, Raiden supôs que Yoimiya estava, de fato, certa, e que aquela era a comida preferida do detetive.
Sem dizer mais nenhuma palavra, Kuki encheu um dos vidros com o líquido do caldeirão e se sentou.
As duas garotas pareciam prestes a explodir de ansiedade para testar suas poções recém finalizadas, então Raiden decidiu apenas encerrar a aula.
— Bom, acho que por hoje é isso — Ela disse enquanto acenava suas mãos e as pilhas de livros, vidros mágicos e tapetes iam magicamente voando para seus devidos lugares. — Lembrem-se meninas, feitiços mágicos são perigosos! Às vezes pode parecer a única saída para vocês, mas a arte das poções é vasta e completa! Não existe a necessidade de se aprofundar em cantos da magia que vocês não possuem as habilidades necessárias para controlar.
— Sim, senhorita Raiden. — As duas responderam, cabisbaixas.
Descendo para o andar de baixo com seu caldeirão e livros, as duas garotas estavam prestes a sair quando Shinobu a chamou:
— Ah, Senhorita Raiden! O que acontece quando a pessoa não tá apaixonada por ninguém?
— A poção fica inodora e insípida, como um copo d’água. — Ei respondeu, enquanto colocava seu caldeirão na bancada de sua cozinha.
— Senhorita Raiden… — Agora foi a vez de Yoimiya lhe chamar. — Se não for incomodo, eu queria saber… Que cheiro você sente?
Raiden piscou lentamente. Pelo canto do olho ela conseguiu perceber Yae Miko levantando sua coluna na direção dela, como se estivesse curiosa para a resposta.
Inclinando um pouco para a frente, Raiden respirou profundamente e esperou até que o cheiro chegasse em suas narinas.
— Nada. — Ela respondeu. — Mesma coisa que cheirar um balde d’água.
Yoimiya e Shinobu bufaram decepcionadas.
— Bom… Tudo bem então! — a loira respondeu. — Tchau Senhorita Raiden! Tchau Senhorita Miko!!
Shinobu murmurou uma despedida também, mas Raiden apenas acenou, enquanto via o sorriso de Yae Miko se estender em sua direção.
Com as duas finalmente longe de sua casa, Raiden soltou o ar de seus pulmões, virando seu rosto na direção do demônio.
— Seu nome é mesmo Yae Miko? — Foi sua primeira pergunta.
— Ah, é sim, Senhorita Raiden… — A voz de Yae Miko era um sussurro leve e perigoso. Apesar de ser visualmente um demônio, Ei achava que seus trejeitos lembravam muito um felino.
— Olha, eu finalmente tô tendo um pouco de sossego na minha vida… Não te invoquei de propósito nem nada do tipo, foi um acidente! Então, se você puder, por favor, só ir embora… — Raiden suplicou enquanto se apoiava seus cotovelos em sua bancada e apoiava sua testa em suas mãos.
— Que isso… — Ela se aproximou de Raiden, parando atrás de suas costas. — Eu acabei de chegar! — As mãos de Yae Miko pousaram sobre os ombros de Ei. — Nossa, você tá tão tensa… Posso fazer uma massagem se quiser.
Raiden resmungou como resposta. Ela podia sentir os dedos finos e fortes de Yae Miko descerem por suas omoplatas e depois subirem novamente até sua nuca. Raiden sabia exatamente o que a criatura estava fazendo, mas ela decidiu ficar em silêncio para ver até onde a outra iria.
— Alias, pra eu conseguir ir embora, você precisaria me libertar. — Yae Miko murmurou enquanto trabalhava sobre as tensões musculares de Raiden.
— Ou exorcizar. — Raiden respondeu. As mãos da outra imediatamente pararam e Ei arrumou sua postura, sorrindo. — Não caio no seus truques, demônio.
— Vocês bruxas não tem senso de humor mesmo… Enfim, se quiser me libertar, a vontade! — Ela respondeu enquanto caminhava em direção ao sofá.
Raiden suspirou e caminhou em direção a sua estante de livros. Pelas próximas horas, ela se debruçou sobre dezenas de livros atrás de um feitiço de libertação de entidade, o que se mostrou muito mais difícil do que ela imaginava. O número de feitiços de exorcismo eram muito maiores, mas Ei decidiu dar uma chance para Yae Miko.
A mesma deitou no sofá de Raiden e não moveu um músculo sequer. Sua aparência era de uma pessoa que estava dormindo, mas Ei duvidava que ela iria relaxar a esse ponto ao lado de uma bruxa.
A única coisa que vinha atormentando Ei durante sua pesquisa eram as sombras dos dedos de Yae Miko descendo por suas costas. Talvez fosse o curto período desde que a criatura havia acariciado suas costas daquela maneira. Ou talvez fosse o longo intervalo de tempo desde que Ei teve qualquer tipo de contato com outra pessoa. Ela não sabia e, honestamente, não se importava. Raiden só esperava que isso sumisse logo.
— Achei! — Já era tarde da noite quando a luz finalmente brilhou e Raiden conseguiu encontrar o feitiço que precisava.
Yae Miko abriu seus olhos e sentou em pulo.
— Se você conjurar um exorcismo eu levo sua cabeça pro inferno comigo. — Ela ameaçou.
— Ia ser divertido ver você tentar. — Raiden respondeu, rindo. — Mas não. Eu não fiquei quase 4 horas seguidas lendo meus livros pra achar um feitiço de exorcismo! Teria feito isso em 5 minutos. Achei um pra te libertar.
Yae Miko não respondeu nada, apenas piscou lentamente para Raiden e se levantou do sofá.
— Vamos, vou fazer o círculo no sótão. — Ei se levantou e seguiu seu caminho. Se teve uma lição que ela aprendeu com essa situação é que ela jamais faria feitiços longe de seu sótão novamente. Principalmente com a janela aberta.
Balançando suas mãos no ar, os círculos começaram a se desenhar sozinhos. Raiden trouxe junto de si o livro com o feitiço e alguns vidros com utensílios necessários para finalizar a libertação, colocando-os todos no chão próximo ao desenho mágico.
— Por enquanto você tá presa a mim. — Raiden começou. — Então vou precisar do seu sangue.
Yae Miko terminou de subir as escadas murmurando um “sem problemas”. Enquanto ela se aproximava do círculo, Raiden levantou seus olhos e soltou um som de surpresa.
— Você tem asas?! — Ela perguntou, com seus olhos cravados nas tímidas asas pretas que tremiam fracamente nas costas de Yae Miko.
— Eu tenho muitas coisas, querida. — Ela respondeu, abrindo suas asas para Raiden, que revirou os olhos. — É claro que eu tenho asas! Sou um demônio.
— Sinto muito por não saber o padrão estéticos de vocês! — Ei respondeu, debochada. — Mas é que, até onde eu sei, demônios também deviam ser vermelhos e feios, então você não vem seguindo muito à risca o padrão.
Yae Miko sorriu largamente. Suas presas agora eram bem maiores do que quando Shinobu e Yoimiya estavam por perto. A nuca de Raiden se arrepiou com a imagem.
— Então você me acha bonita, bruxa? — A pergunta da criatura ecoou pelo ambiente como um choque diretamente no estômago de Raiden.
Sem saber como responder, a arroxeada apenas murmurou insultos negativos junto de um “eu não disse isso” enquanto focava sua atenção em terminar o círculo mágico o quanto antes.
Yae Miko não disse mais nada, ficando parada apenas vendo Ei trabalhar. A princípio a morena achou isso reconfortante mas, depois de alguns minutos, o olhar cortante do demônio começou a deixar Raiden tensa.
— Terminei. — Ela felizmente anunciou depois de um tempo. No chão do sótão havia diversos desenhos de bruxaria poderosa, além de penas de águia e vários dentes-de-leão.
— Qual é a das penas e das flores? — Yae Miko perguntou enquanto se sentava no chão, de frente para a outra.
— A águia é um pássaro que representa a liberdade, assim como o dente-de-leão. São símbolos necessários pra sua libertação.
Sem esperar a resposta da outra, Ei começou a proferir as palavras do encanto enquanto balançava suas mãos. Yae Miko se remexia sem parar em seu assento, parecendo incomodada.
— Tudo bem aí? — Raiden decidiu perguntar na terceira vez em que teve sua concentração interrompida.
— É que tá sendo tão rápido! Nem tive tempo de te conhecer…
— Pensei que vocês não gostassem de bruxas.
— Só gosto das que têm poder suficiente pra destruir uma cidade mas mesmo assim levam uma vida de professora de adolescente.
Raiden abaixou suas mãos e parou o feitiço, olhando profundamente nos olhos de Yae Miko.
— Já foi uma “destruidora de nações”, se você quer saber. — Ela respondeu, desviando a atenção novamente para seu livro — Mas gosto da vida que levo agora. Acho que… estou tirando meus séculos de férias.
Yae Miko não respondeu nada, apenas acenou com a cabeça, fazendo com que Raiden continuasse sua magia. Levantando uma faca no ar, Ei primeiro cortou uma parte de seu pulso e derramou seu sangue sobre o amontoado de penas e flores. Em seguida, estendeu sua mão para a outra, pedindo permissão silenciosamente para que fizesse a mesma coisa.
Yae acenou com a cabeça e então a bruxa cortou levemente seu antebraço, derramando seu sangue junto com o dela. Um barulho fino e irritante surgiu no fundo do ouvido das duas, além de uma pequena fumaça que começou a subir do círculo.
— Preciso que você me dê sua mão. — Raiden pediu e o demônio as estendeu sem demora.
Com isso, Ei proferiu as últimas palavras de seu encanto. O som começou a ficar mais forte, assim como a fumaça branca, que agora se misturava pelo local deixando um leve cheiro de enxofre.
— A qualquer momento agora… — Ei avisou.
— Sim… — Yae Miko respondeu. Ela tinha seus olhos fechados. — Eu consigo sentir… — A mulher de cabelos rosas apertava a mão de Ei com força e suspirava. — Sabe Raiden, se qualquer hora você quiser companhia nos seus séculos de férias, pode me chamar. Eu apareço na hora.
Antes que Ei pudesse responder, a fumaça tomou conta de seu sótão e o aperto de sua mão sumiu. Ela abanou repetidas vezes o ar rarefeito de seu cômodo, tanto para respirar melhor quanto para tentar enxergar a criatura que antes estava ali.
Mas não tinha nada. Yae Miko havia partido, deixando para trás um rastro de fumaça branca, enxofre e um estranho cheiro de… Macarrão Udon.
Para a grandiosa ironia do destino, a semana seguiu como um verdadeiro inferno para Raiden.
Primeiro que ela não conseguia mais dormir pois, eventualmente, as unhas longas de Yae Miko alcançavam suas costas e a memória da massagem de dias atrás voltava a tona com a força de um tiro e de um jeito totalmente diferente, o suficiente para fazer Ei acordar ensopada de suor quase todos os dias desde que a criatura havia partido.
Para piorar, o cheiro de enxofre e macarrão Udon havia infestado sua casa. Ela já havia conjurado pelo menos três feitiços de limpeza diferentes, e já havia ela mesmo arrastado seus móveis e limpado cada um dos cantos com os mais potentes produtos de limpeza do mercado de Inazuma. Mas nada tirava o maldito cheiro de sua casa.
Seu gato preto, Scaramouche, havia passado a maior parte dos dias lhe julgando de longe. Ele não estava em casa quando Yae Miko apareceu, mas Raiden sentia que, de alguma forma, o gato sabia que ela esteve ali, e sabia que a bagunça de Ei era culpa disso.
A situação piorou de verdade quando, cinco dias depois do acontecimento, Kujou Sara apareceu em sua casa pedindo para que Ei fizesse uma poção de paixão para ela, da mesma que havia feito para Yoimiya e Shinobu.
Agradecendo aos espíritos por finalmente ter algo para preencher sua cabeça, Raiden levou Sara para sua bancada de poções, procurando o resto da poção que havia feito com as duas garotas a menos de uma semana atrás.
No fundo de sua prateleira, Raiden encontrou o copo de vidro com o líquido dentro. Ela percebeu que algo estava errado quando a tonalidade da poção havia mudado. A cor magenta brilhante não existia mais, agora era um rosa , lembrando muito…
Não.
Pigarreando e ignorando seu crescente desespero, Ei voltou sua atenção para a poção na sua frente, separando a mesma em dois novos copos, dando um para Kujou Sara e o outro mantendo em seu alcance.
Aproximando seu nariz do recipiente, a morena começou a sentir sua vista ficar turva. Isso porque o cheiro que havia tanto incomodado Raiden nos últimos dias estava vindo deste maldito copo.
Horrorizada, ela lembra de dar alguns passos para trás e pedir para que Sara descrevesse o cheiro do líquido para ela. Para o verdadeiro horror de Ei, a descrição da senhorita Kujou foi “cheiro de mar, água salgada e sushi tamago”. E, como se não fosse o suficiente, nesse meio tempo em que o copo ficou na mão da outra, a coloração rosa dele havia sumido, dando vida um tom de azul misturado com lilás, além de várias bolhas que subiam da metade do recipiente em direção a atmosfera.
Kujou perguntou algo sobre a descrição estar correta mas Raiden apenas acenou, afirmando que a mesma não precisava pagar nada. Era por conta da casa.
Com a amiga indo embora, Ei se sentou com suas pernas bambas em uma das banquetas de sua cozinha e encarou o copo na sua frente. Ainda rosa brilhante e com o mesmo maldito cheiro.
Ei não era covarde, ela sabia o que devia fazer.
Em um movimento só, ela ingeriu metade do líquido no recipiente. A princípio, nenhum sabor veio à sua boca, o que fez ela suspirou audivelmente. Mas então…
A temperatura do líquido não era mais a mesma do ambiente, e sim algo mais quente, bem mais quente. O gosto também havia mudado, assumindo o sabor salgado de farinha, algas marinhas e peixe.
Exatamente como um macarrão Udon.
Para piorar completamente, no final de sua digestão, o gosto amargo, azedo e horrível de enxofre surgiu no fundo da garganta de Raiden, fazendo com que ela tivesse que engolir sua ânsia de vômito. Ela preferiu achar que a ânsia era pelo sabor, e não pelo significado.
Ela passou as próximas horas sentada na mesma banqueta, sem mudar um centímetro sua posição, apenas ali, parada, refletindo sobre o que tudo aquilo significava.
Quando a noite começou a cair, ela decidiu jogar o resto da poção fora, se livrando, finalmente, do cheiro que tomava conta de sua casa. Uma pena que isso não lhe trouxe tanto alívio quanto ela imaginava. Espiando as letras de rodapé de seu livro, Ei notou algo que havia passado despercebido: a poção podia mudar sua cor e temperatura de acordo com o sentimento nutrido pelo outro. Quanto maior a mudança, mais fervorosa a paixão.
Novamente, ela sentiu que poderia vomitar.
Sem saber o que exatamente fazer, Ei alimentou seu gato e decidiu tomar um longo banho. Talvez a água levasse seus pensamentos incertos para longe.
Apesar de já estar tarde, o bafo quente do verão que se aproximava de Inazuma impedia Raiden de sentir qualquer incômodo em relação ao frio, fazendo com que a morena escolhesse um morno banho de banheira como alternativa para lavar sua mente.
A sensação da água na temperatura perfeita, junto das várias bombas de banho que ela havia colocado na água, fizeram as tensões musculares de Raiden sumirem em questão de segundos. Ela precisava fazer isso mais vezes. Ei não tinha certeza quanto ao tempo, mas sabia que havia ficado submersa na água por tempo suficiente para enrugar seus dedos devido ao excesso de contato com a umidade.
Infelizmente, a temperatura agradável foi, aos poucos, esvaindo pelo ar, dando vez a uma água cada vez mais gelada, o que fez Raiden finalmente se levantar e se trocar. Como de costume, ela levava seu pijama para o banheiro e se trocava lá mesmo.
Seu cabelo roxo gigante estava totalmente ensopado, fazendo necessário que ela conjurasse um feitiço simples para secá-lo, como de costume.
Se olhando no espelho enquanto esperava seu cabelo secar, Raiden tentou achar alguma saída para a situação. Pela primeira vez em sua longa vida, ela parecia estar lidando com algo totalmente novo. A sensação era horrível.
Talvez ela devesse fazer um feitiço para apagar Yae Miko de sua memória. Era arriscado, ela sabia disso, mas Raiden era uma bruxa poderosa, ela conseguiria fazer isso sem maiores danos.
Enquanto cogitava apagar ou não o demônio de sua cabeça, Ei ouviu um barulho no andar de baixo de sua casa.
— Scaramouche? — Ela chamou e o barulho se repetiu de novo. Parecia que algo estava caindo.
Com seu cabelo já parcialmente seco, Ei se dirigiu para sua sala de estar, murmurando insultos leves sobre o gato e seu apetite insaciável.
— Scara, eu já te dei janta hoje! Você precisa- — Mas seus resmungos foram cortados quando ela avistou uma figura parada no meio de sua sala. A cena era dolorosamente parecida com a de alguns dias atrás, a diferença é que, ao invés de enxofre, Yae Miko agora cheirava absurdamente bem, como flores de sakura e perfume doce.
— Olá, Ei… — A voz aveludada da outra se espalhou pela casa como fogo em um rio de gasolina. — Não sabia que você tinha um gato.
Após dizer isso, os olhos de ambas se dirigiram para o chão da sala, encontrando um pequeno Scaramouche que silvava ameaçadoramente para Yae Miko.
O demônio sorriu, se divertindo com a situação e esticou uma mão na direção do felino. Scaramouche não gostou, correndo para trás de Raiden e olhando para a bruxa como se esperasse que ela tomasse uma atitude.
— Tá tudo bem, Scara. — Ei murmurou em voz alta. Ela não sabia se estava dizendo aquilo para o gato ou para si mesma. — Senhorita Yae Miko é… Uma amiga.
O olhar do gato oscilou entre as duas algumas vezes, terminando com ele bufando e subindo aos pulos para o andar de cima. Raiden conseguiu ouvir os passos dele no telhado, mostrando que ele havia fugido pela janela aberta do banheiro.
— Parece que ele não gostou muito de mim. — Yae Miko anunciou, sorrindo fracamente.
— Ele não gosta muito de ninguém. — Raiden respondeu. Ela sentia seu coração batendo forte em sua caixa torácica. — A que devo a visita?
— Fiquei com saudade, é claro. — Ela respondeu. — Passei os últimos dias fazendo meu dever de casa, pesquisando um pouco mais sobre você… — Yae Miko dizia calmamente enquanto caminhava até a cozinha e se sentava nas banquetas. — Quer dizer que você é realmente eterna… Achei que o papo de ser velha e estar nos séculos de férias era uma hipérbole! Bruxas podem mesmo viver tanto assim?
— Só as mais poderosas. — Raiden respondeu. Não era tão comum pra ela usar frases tão carregadas de ironia. Talvez a convivência com a criatura que era a personificação do sarcasmo estivesse fazendo mal a ela. — Quer dizer que você ficou fofocando sobre mim, hm?
— Ah sim, você aguçou minha curiosidade… — Ela respondeu, com a mesma voz baixa e envolvente. A casa parecia estar bem mais quente que o normal, fazendo Raiden caminhar até o batente de sua pia e encostar nele, buscando algum frescor na pedra gelada.
— Fico honrada. — Ei respondeu, um pouco mais ríspida que o normal. — Mas, se você me dá licença, eu tava indo dormir…
— Me expulsando, Ei? — Ouvir seu nome sair da boca dela daquela forma era… Desconcertante, no mínimo. — Eu vim aqui agradecer você… Faziam muitos anos que eu não aproveitava minha liberdade.
Raiden franziu o cenho como resposta.
— Ah, isso mesmo. — Yae Miko continuou. — Pelos últimos séculos eu estive presa a um bruxo inútil que me invocou e se recusou a me libertar. — Ela se levantou e caminhou na direção da outra. — Ele me fez de refém por muito tempo, até eu… Bom, até eu aparecer na sua casa.
Ao terminar sua frase, Yae Miko estava parada na frente de Raiden. A morena percebeu que elas nunca haviam ficado tão próximas até agora.
— Sabe Ei… — Ela disse estendendo sua mão até a mão da outra e a segurando. — Sempre achei que ele fosse o bruxo mais forte vivo atualmente… — A mão dela subiu até o ombro de Raiden. — Imagina o meu choque quando apareci na sala de uma bruxa que conseguiu burlar a barreira mágica dele e me invocar por engano…
Os dedos compridos de Yae Miko roçaram levemente sobre o pescoço de Ei, que engolia seus suspiros com tanta força que podia sentir os ossos de sua mandíbula estalarem. Ela conseguiu perceber que as unhas da outra não estavam mais enormes quando antes, eram curtas o suficiente para permitir que fosse a ponta de seus dedos roçando sobre a pele de Ei.
— Enquanto assistia você dando aquela aula eu percebi que o nível de magia daquele homem não era nada. — Ela se inclinou para frente, se aproximando ainda mais da outra, deixando uma de suas mãos vagar pelo pescoço da bruxa e a outra apoiando seu peso sobre a pedra da pia. — Mesmo com todo meus esforços pra que você não descobrisse que era eu enfeitiçando as meninas, você ainda conseguiu descobrir rápido… Consigo sentir seu poder a metros de distância.
Raiden engoliu seco, ela sabia que muitas criaturas mágicas conseguiam sentir o poder uma das outras, ela mesma fazia isso o tempo todo, só não sabia que Yae Miko poderia.
— Demônios conseguem fazer isso? — Ela perguntou, tentando ignorar o calor extremo que preenchia sua pele devido a proximidade com a outra.
Yae Miko aproximou o rosto de seu ouvido e sussurrou:
— Só os mais poderosos. — Ela respondeu, imitando a frase de Ei de alguns minutos atrás.
Aquilo foi como a gota d’água. Em um momento Raiden estava olhando nos olhos profundos e perigosos de Yae Miko, no outro, ela estava colando sua boca na da criatura.
A resposta corporal do demônio foi instantânea, abraçando Ei quase que na mesma hora, puxando o corpo da bruxa para mais próximo de si. As mãos de Raiden tremiam com a situação, como se seu corpo não suportasse a dualidade de beijar um demônio com tanto fervor e receio.
Antes que ela pudesse raciocinar melhor o que estava fazendo, Yae Miko agiu primeiro, colocando sua língua na boca da outra. A arfada de ar de Raiden foi imediata, sentindo suas pernas perderem o equilíbrio por um milésimo de segundo.
O ritmo foi ficando mais frenético, com os movimentos de Yae Miko se tornando cada vez mais rápidos e precisos, fazendo com que Ei precisasse cortar o beijo para respirar.
— Faz tempo que eu não faço isso. — Ela justificou, sentindo seu estômago se embrulhar com a visão da criatura parada na sua frente. Ela tinha as pálpebras levemente caídas, sua boca estava vermelha e seu dorso subia e descia rapidamente, por conta do pouco ar respirado nos últimos minutos. — Muito tempo.
— Faz tempo pra mim também… — A outra respondeu. Ela abaixou sua cabeça no pescoço de Raiden e começou a dar pequenos beijos ali, às vezes subindo até sua mandíbula, e às vezes descendo até o começo de seu peitoral.
Ei fechou os olhos e decidiu segurar o quadril da outra com força, temendo perder o equilíbrio se não fizesse.
— Yae Miko! — Raiden exclamou no instante em que suas mãos encostaram nela. — Minha nossa, você tá quente! Tá tudo bem?
— Me chama de Miko. — Ela respondeu, subindo o rosto de pescoço de Ei e a encarando. — E é claro que eu to quente! Sou um demônio, sabe? Criatura do inferno, e tal…
Raiden piscou. Bom, isso fazia sentido, de certa forma. Entretanto, Ei não deixou de pensar o quanto aquilo deveria ser incômodo para a outra, ter que conviver sempre com esse calor penetrante.
Decidindo tentar algo de diferente, a morena inverteu as posições, prensando Miko contra a sua pia e prendendo a garota entre suas pernas. Ela arfou em surpresa, piscando de forma curiosa para Raiden, querendo saber o que ela planejava.
Esfregando suas mãos uma na outra, Ei conjurou um feitiço simples mentalmente, fazendo com que elas tomassem uma coloração cinza clara que subia até metade de seu antebraço.
— Posso? — Ela perguntou, aguardando o consentimento de Miko, a qual acenou com a cabeça de forma positiva.
De primeira, ela tocou suas mãos nos braços da outra, que sibilou com a sensação gelada que elas provavelmente passaram.
— O que é isso? — Ela perguntou.
— Um feitiço que me deixa externamente gelada. Não sinto nada, mas quem me encosta sente um frescor leve. — Ei explicou e Miko tombou sua cabeça no ombro da outra. — Posso deixar meu corpo inteiro assim se você quiser…
— Por favor… — Seu pedido soou quase como uma súplica.
À medida que o corpo de Ei foi se tornando mais gelado, a frequência dos beijos de Yae Miko se tornaram maiores. Os sons de prazer ecoavam pela cozinha e Raiden temia que as pessoas da cidade pudessem ouvir o que eles estavam fazendo.
As mãos da morena subiam e desciam pelos lados da Miko e, a cada novo movimento, ela conseguia sentir as pernas da outra fraquejarem na sua frente, como se ela estivesse, de fato, quase desmoronando.
Os beijos oscilavam entre movimentos intensos e fervorosos com segundos de carícias mais suaves para que as duas pudessem respirar corretamente. Mesmo com o feitiço para resfriar um pouco a temperatura anormal de Miko, Raiden sentia um calor fora do normal irradiar da outra, fazendo com que respirar propriamente se tornasse uma atividade cada vez mais difícil.
— Esqueci de dizer. —Yae Miko começou. — Mas sabia que minha espécie de demônios pode viver pela eternidade também? — Ela perguntou entre os vários beijos que deixava no pescoço de Raiden. — Só precisamos garantir que não seremos exorcizados nenhuma vez…
Raiden riu.
— Tô começando a achar que isso aqui é uma espécie de seguro de vida pra você não morrer…
— Jamais! — Miko respondeu, encarando Ei nos olhos. — Eu tenho uma queda por bruxas poderosas que usam do seu poder pra… — Ela oscilou. — Cuidar de gatos e dar aula.
— Eu posso usar meu poder pra muitas coisas! — Raiden respondeu, fazendo com que a temperatura de seu corpo caísse bem mais por alguns segundos. A mudança repentina vez Yae Miko arfar e tombar com a cabeça para trás. O que quer que o frescor do feitiço fizesse com ela era certamente muito mais do que Raiden podia imaginar.
— Eu sei… — Ela respondeu, tentando fazer sua respiração voltar ao normal. Trazendo suas mãos para frente, Miko tocou brevemente o estômago de Ei e fechou os olhos. Um brilho leve vermelho surgiu e então um calor diferente cresceu por dentro de Raiden. Era como se Yae Miko estivesse incendiando ela de dentro para fora. — Eu também posso.
Agora foi a vez de Ei ofegar, sentindo os espasmos se espalharem por seu corpo com as sensações prazerosas que Miko estava lhe proporcionando.
As provocações das duas continuaram por horas, até que o primeiro brilho de sol apareceu e Raiden decidiu que elas precisavam descansar ao menos um pouco.
Yae Miko protestou de início, mas acabou cedendo aos pedidos da bruxa.
Afinal, elas tinham a eternidade inteira.
