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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2024-10-18
Words:
2,690
Chapters:
1/1
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1
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217

From You I Just need Time. And Trust.

Summary:

Roier se aproxima de Cellbit, seu vizinho com TEA, por conta de um interesse em comum: Tetris, até que uma paixão surge entre ambos.

("q!" Retirado por estética, a história retrata os personagens)

Guapotober dia 14 — "From you I just need time. And trust"

Work Text:

Cellbit sempre foi alguém muito difícil de lidar. Sua mãe, uma brasileira que havia ido estudar na Inglaterra, acabou conhecendo um rapaz pela qual se apaixonou. O casal decidiu que iriam criar uma vida no Brasil assim que se casaram, e quando o garoto nasceu, não demorou para notarem que o primogênito era um pouco diferente das outras crianças.

Desde muito cedo, o garotinho apresentava comportamentos atípicos, parecia que não escutava quando as pessoas ao seu redor o chamavam, teve dificuldades ao começar a falar e não socializava como as outras crianças. Com um pouco mais de observação, não demorou muito para que recebesse o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista.

Após atingir dez anos de idade, ficou simplesmente fascinado pelo mundo dos videogames, não havia um dia que o de olhos claros não passava jogando seus jogos preferidos, resolvendo diferentes puzzles e tagarelando sobre o assunto para os seus pais sempre que tinha oportunidade. Mesmo que os mais velhos não entendessem nada sobre o assunto, se esforçavam ao máximo para interagir com o filho sobre, já que era muito melhor do que observá-lo ficar em silêncio o dia todo.

Cellbit costumava sentar na varanda de sua casa depois de chegar da escola exatamente às 13:30 para jogar em seu console portátil, enquanto ouvia os sons calmos da natureza que habitavam o seu bairro. Sua rotina costumava ser assim, pacata e confortável, até ele chegar.

Roier havia se mudado para a casa ao lado, assim que seus pais receberam uma proposta de emprego que poderia mudar a condição financeira da família. Assim que começaram a arrumar a mudança dentro da nova casa, o garoto percebeu que sempre havia uma criança sentada na própria varanda, mexendo em algo que não conseguiu identificar. Curioso como sempre era, após terem colocado as coisas da mudança em seus devidos lugares, Roier decidiu que iria se apresentar para o seu mais novo vizinho, na esperança de tê-lo como um amigo.

Segunda-feira, 14 de Outubro. Seus dedos eram ágeis em apertar os botões de seu console, estava totalmente imerso, tão imerso que sequer notou a presença de uma criança se aproximando.

— Hola! — Roier soltou de forma sorridente ao se aproximar da casa ao lado. Esperou pela resposta, mas ela não veio. — Ei! Me estás escuchando? — Proferiu um pouco mais alto, mas pareceu surtir o efeito contrário quando viu os ombros alheios se retraírem, ainda prestando atenção naquilo que fazia.

Da porta da casa, surgiu uma mulher, visivelmente parecida com o garoto. Ao ouvir vozes em frente a sua casa, resolveu averiguar o que estava acontecendo, já que sabia que Cellbit nunca falava com outras pessoas, até ter a visão que já suspeitava: alguém tentando se comunicar com ele, da forma errada.

— Boa-tarde! — A loira proferiu para o garotinho em frente a sua casa, enquanto se aproximava para ficar mais perto do mesmo. — Posso ajudar, querido?

— Por que ele não me escuta? — Perguntou de forma direta, seu sotaque em espanhol evidente em suas palavras. A mulher sorriu compreensiva e se aproximou do de cabelos acastanhados, se abaixando para ficar na mesma altura que ele.

— Ele te escuta sim, querido, é só que…ele é um pouco diferente, entende?

— Diferente? Diferente como? — Seus olhos castanhos brilhavam em curiosidade.

— Ele é um garoto autista — Tentou explicar, vendo a confusão na face do outro. — Você vai precisar de um pouco mais de cuidado ao falar com ele, tente conversar sobre o que ele gosta para que ele possa prestar mais atenção em você, tudo bem?

— E do que ele gosta? — Por mais que não entendesse muito bem a condição do menino, era visível sua vontade de tentar compreender.

— Tente falar sobre videogames, você gosta? — Sorriu ao ver o garotinho assentir animado. Olhou em seu relógio de pulso e suspirou. — Ele irá entrar para dentro de casa daqui a poucos minutos, então não acho que ele vá querer conversar com você hoje.

— Eu posso tentar falar com ele amanhã? — Seus olhos emitiam um brilho de esperança.

— Claro, ele vai estar aqui fora no mesmo horário, apenas seja compreensível, tudo bem? — Sorriu ao ver o outro assentir. — Tenho que ir, foi um prazer te conhecer! — E começou a andar para dentro de sua casa novamente.

Como havia dito, depois de exatos três minutos, o garoto loiro se levantou e se dirigiu para dentro da residência, deixando Roier sozinho do lado de fora. Ele não iria desistir.

No dia seguinte, no mesmo horário, Roier foi em direção à casa ao lado, vendo a mesma imagem do dia anterior: o menino loiro sentado na varanda, mexendo em alguma coisa. O de olhos castanhos se aproximou e viu que o outro não o olharia nem o cumprimentaria. Mesmo assim, tentou:

— Hola! — Não obteve resposta alguma. Iria começar a se sentir frustrado, até observar o que estava em suas mãos. Era um console portátil, na qual jogava Tetris de uma forma extremamente habilidosa. Se lembrou da conversa com a mãe do mesmo, e respirou fundo antes de continuar: — Você…está jogando Tetris?

Ao ouvir o nome do jogo, o garoto deu pause no mesmo instante e olhou diretamente nos olhos alheios por poucos segundos, antes de desviá-los para o chão. Seu pé esquerdo começou a se movimentar de forma rápida, estava visivelmente ansioso, a euforia correndo pelo seu corpo por terem tocado em um tópico que tanto amava.

— D-Do you know Tetris? — Para a surpresa de Roier, ouviu a frase em um idioma que pouco ouvia, e era completamente carregado por um sotaque completamente encantador. Por mais que não tivesse entendido sua pergunta, pôde notar a empolgação em sua voz baixa e gaguejada.

— Eu… — Começou um tanto incerto. — Eu não consegui te entender muito bem.

O garoto ficou em silêncio por muitos minutos, ainda balançando seu pé esquerdo. O mexicano pensou em apressar a fala alheia, mas se lembrou da mulher lhe dizendo para ser compreensível. Por mais que quisesse uma resposta rápida, suspirou e esperou o tempo que fosse necessário.

— Você…você c-conhece Tetris? — A voz baixa soou mais uma vez, dessa vez em um idioma que entendia, mas ainda um tanto carregado pelo sotaque inglês.

— Conheço! Eu gosto muito de jogar! — Respondeu animado, conseguindo ver um pequeno sorriso surgir nos lábios alheios. — Eu…eu posso me sentar ao seu lado?

Silêncio mais uma vez, e depois de algum tempo, ele apenas assentiu, permitindo que Roier se sentasse ao seu lado na varanda, mas ainda mantendo uma distância considerável.

— Me chamo Roier! — Se apresentou, agora que o menino prestava um pouco de atenção em si.

— My…meu nome é Cellbit… — Respondeu com o tom de voz baixo, mas o suficiente para que o acastanhado ouvisse, e a partir daquele dia, começaram uma rotina de se reunirem para jogar Tetris todos os dias, no mesmo horário.

Com o passar do tempo, Roier começou a aprender várias coisas sobre o novo amigo. Número um: aprendeu que Cellbit não gostava nem um pouco de toques físicos, soube disso no momento em que o garoto se assustou e se afastou subitamente de si quando Roier agarrou seu braço para que ele deixasse ver o que se passava no console. Desde então, o mexicano passou a perguntar se poderia tocá-lo.

Número dois: Cellbit se incomodava com barulhos altos, o que o fez se policiar sobre o tom de voz que usava para falar com o amigo, já que não queria assustá-lo ou deixá-lo desconfortável. Três: o loiro não olhava muito para os seus olhos, parecia que não conseguia, e estava bem com isso. Por mais que quisesse admirar o azul de seus olhos por mais tempo, entendeu que o trazia desconforto fazer tal contato, por isso, nunca insistiu para que o fizesse.

Quatro: Cellbit constantemente trocava o português pelo inglês. Ele sabia que isso era mais uma característica por ele ter dupla nacionalidade do que qualquer outra coisa, mas isso o deu motivação para que aprendesse a língua para poder entendê-lo mais vezes, por mais que havia percebido que essa troca ocorria quando ele ficava muito nervoso ou ansioso.

Cinco: Cellbit raramente entendia gírias e piadas. Se lembrava das vezes em que tentava fazer um trocadilho com o amigo, mas o outro apenas franzia o cenho, visivelmente tentando entender algo que sequer havia um significado por trás se não uma brincadeira. Seis: o garoto tinha crises horríveis quando se sentia extremamente ansioso, e Roier pôde presenciar um acontecimento como esse quando ambos tinham dezessete anos.

Os anos fizeram com que criassem mais intimidade naquela amizade, e por mais que ainda existissem muitas barreiras, o laço de confiança entre eles passou a ficar mais forte, fazendo com que os encontros para jogar Tetris fossem na sala de estar do loiro ao invés da varanda.

Em um dia que os pais de Cellbit não se encontravam em casa, o console do garoto havia quebrado após ter caído no chão, o que o fez se desesperar completamente, desencadeando uma crise aterrorizante aos olhos de Roier. O loiro gritava, chorava e se machucava, e o mexicano não soube o que fazer além de observar tudo com lágrimas nos olhos.

Sabia que se o tocasse ou falasse alto iria piorar, então de forma dolorosa, assistiu o outro se debater por todos os lados até finalmente se acalmar, encostando na parede e se sentando no chão, ainda muito ansioso e soluçando de tanto chorar, porém, não estava se arranhando com suas próprias unhas, para o alívio de Roier.

Se aproximou de forma devagar, se abaixando em frente ao amigo.

— Eu posso te tocar? — Perguntou como sempre, utilizando uma voz mansa, e quando viu o loiro negar com a cabeça, suspirou e assentiu em concordância.

Pegou seu celular no bolso traseiro de sua calça, abaixando o brilho do mesmo para que não irritasse ainda mais o de olhos azuis, e abriu o Tetris que havia instalado para jogar enquanto estivesse sozinho em casa.

— Eu sei que não é a mesma coisa que um console… — Começou, entregando o celular na mão do outro. — Mas acho que pode quebrar o galho por enquanto.

Cellbit permaneceu quieto e em silêncio antes de aceitar o aparelho, começando a jogar quase que instantaneamente. Roier se aproximou e se sentou ao seu lado no chão, um pouco mais perto que o normal, e Cellbit não rejeitou a aproximação. Foi a partir daquele momento que as coisas começaram a mudar de forma drástica para ambos.

Desde aquele acontecimento, o clima entre ambos mudou. Roier passou a prestar ainda mais atenção em Cellbit, e por mais que não demonstrasse, o de olhos claros apreciava todo o cuidado, e passou a apreciar cada vez mais, de um jeito cada vez mais especial. Roier percebeu que sentimentos esquisitos começaram a aparecer em seu peito quando começou a olhar para o amigo de um jeito diferente. Seus cabelos eram tão sedosos, seu jeito quieto era tão encantador, e os seus olhos eram tão lindos.

Cellbit também percebeu certas mudanças no jeito em que olhava para o acastanhado, por mais que não compreendesse tais sentimentos, sabia que algo estava estranho. Ficava cada vez mais nervoso toda vez que o mexicano entrava em sua casa, algo se agitava em seu peito e não sabia o que fazer a respeito, mas era uma seção muito boa.

Um ou dois meses depois, Cellbit ganhou outro console de seus pais, o que o deixou completamente aliviado. Por mais que gostasse de jogar no celular do amigo, definitivamente não era a mesma coisa, e para inaugurar o novo aparelho, apenas fizeram o de sempre: começaram a jogar na sala de estar do loiro.

Os pais do garoto estavam ausentes mais uma vez, deixando o clima um pouco mais tenso por se lembrarem da última vez que haviam ficado sozinhos. Cellbit jogava de forma habilidosa como sempre, mas Roier percebeu que algo estava errado ao ver a forma afobada demais na qual os dedos alheios se mexiam.

Antes mesmo que perguntasse o que havia de errado, pôde ouvir a voz alheia proferir de forma baixa:

— Você se arrepende de…de ter um amigo como eu?

Seus olhos se arregalaram pelo questionamento. Por mais que sua vontade fosse de responder de forma rápida e afobada, respirou fundo e procurou falar com o tom de voz calmo:

— Claro que não, Cellbit. Por que acha isso?

— Eu sei que eu p-penso diferente… — Pausou o jogo, passando a mexer os dedos das mãos e o pé de forma ansiosa. — Eu sei que ajo diferente, and… — Ficou em silêncio por algum tempo. Suas bochechas tomando cor com o pensamento que teve a seguir. Respirou fundo antes de soltar: — Eu quero beijar você.

Roier saltou no lugar, definitivamente não esperava aquele tipo de confissão no meio da conversa. Cellbit tendia a não se expressar de maneira clara, mas quando queria muito algo, ia sempre direto ao ponto, sem filtro algum, o que fez o de olhos castanhos corar intensamente.

— O que…o que você querer me beijar tem a ver com o fato de você ser “diferente”? — Manteve o tom de voz calmo para transmitir confiança ao outro, por mais que estivesse a beira de um colapso interno.

— Eu não sei se você iria querer se relacionar com alguém como…como eu — Disse o que tanto lhe atormentava quando percebeu os seus sentimentos pelo melhor amigo.

Roier sentiu seu coração afundar diante do pensamento alheio.

— Eu…eu posso te tocar? — Perguntou e Cellbit assentiu, deixando o console de lado para que Roier segurasse suas mãos. Por mais que não estivesse olhando nos olhos do mexicano, estava prestando atenção. — Cellbit, você é uma pessoa incrível, pouco me importa se você não é como eu, é exatamente por isso que eu te acho a melhor pessoa do mundo…gatinho — Corou ao perceber que havia soltado o apelido de maneira automática.

Cellbit franziu o cenho e o encarou por poucos segundos antes de fitar suas mãos novamente.

— I’m…eu não sou um gato, Roier — Proferiu de forma confusa, fazendo o outro soltar uma risada nasalada.

— Eu quis dizer que você é bonito — Reformulou um tanto tímido, podendo observar as bochechas alheias corarem na mesma intensidade.

Ficaram mais um tempo em silêncio, até o de olhos claros começar uma nova fala:

— Eu queria que você não precisasse se preocupar comigo… — Seus olhos se encheram de lágrimas. — Eu s-sei que posso ser difícil as vezes, but…from you I just need time. And trust…

Os olhos do moreno se encheram de lágrimas ao conseguir compreender as últimas falas do outro. Se aproximou um pouco mais no sofá e respirou fundo.

— Eu sei que ainda tenho muito o que aprender para fazer com que você se sinta totalmente confortável — Começou. — E eu sei que temos muito o que conversar para que possamos evitar outros incidentes como o de meses atrás, mas…isso é algo que podemos fazer juntos. Você não é um fardo, Cellbit. — Aproximou sua mão com cuidado para limpar uma de suas lágrimas. — Durante esse tempo com você, aprendi que paciência é algo extremamente importante, e que apesar de tudo, eu gosto muito de estar com você. Você pode sempre confiar em mim, não posso garantir que estarei aqui sempre que precisar, mas…estarei aqui para te dar apoio toda vez que eu puder.

Cellbit fungou ao ouvir as palavras, levantando a cabeça para olhá-lo de relance uma última vez, antes de fazer uma pergunta de modo tímido:

— Eu…posso te beijar?

Roier se surpreendeu com a iniciativa do outro, mas sorriu contente, assentindo.

Ambos se aproximaram e selaram seus lábios em um selinho longo e carinhoso, cheio de sentimentos e cuidado, nada muito grandioso ou exagerado, apenas um gesto de carinho e afeto.

Os garotos se afastaram lentamente, totalmente constrangidos pelo acontecimento, mas não menos felizes. Trocaram mais alguns pequenos beijos antes de soltarem uma risada divertida e voltarem a jogar seu jogo favorito, mas com um clima imensamente mais satisfatório no ar.

Ainda havia muito o que conversar o que discutir e o que vivenciar, mas deixariam o tempo e a confiança entre ambos fazerem todo o trabalho, tudo o que restava era aproveitar os momentos e memórias que estavam criando juntos.