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Nova Atlantis

Summary:

O que te faz humano?
O que define amor?
Kyungsoo é um detetive solitário e ranzinza que gosta de trabalhar sozinho. Jongin, um androide enviado de Atlantis para casos policiais e investigativos. Em meio ao trabalho incessante e a dificuldade do detetive em enxergar o óbvio em seu companheiro, mal puderam imaginar que dentro daquele jeep policial, bem no fundo, estariam alimentando sentimentos um pelo outro.

Notes:

É com prazer, e após muito esperar, que anuncio o surgimento de Nova Atlantis.
O pessoal do Fest sofreu com os meus inúmeros pedidos para adiar a data de entrega, pedindo extensões e sempre com um imprevisto me pegando no meio do caminho, mas finalmente estou aqui. NA é uma fanfic com um tema que gosto muito de ler, mas que nunca havia me arriscado a escrever, então já adianto meu pedido de desculpas para qualquer incongruência que possa ter. Apesar disso, eu e minha beta (um agradecimento especial a querida que me suportou por tanto tempo, ouvindo todas as minhas ideias e reclamações, e que mesmo passando por tanto nos últimos tempos, ainda se manteve ao meu lado. Eu amo você <3) trabalhamos arduamente para que ela pudesse ser postada com o mínimo de erros possível e com a melhor coesão que minha constante tirada e retirada de cenas pode oferecer. Não quero me estender muito, então já agradeço a todos que virão dar uma curiada em NA e a todos os viajantes do projeto.
Com vocês, minha mais nova filha, Nova Atlantis!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Capítulo único;;

 

O aquecedor mantinha-se ligado dentro do Land Cruiser S.E, não que Kyungsoo sentisse frio, mas a sensação reconfortante que o calor artificial produzia o fazia manter a calma em momentos como aquele, onde seu parceiro lhe lançava perguntas um tanto peculiares. Tinha vinte e oito, conhecia uma coisa ou outra sobre o mundo e de certa forma tentava soar o mais solícito possível ao responder o colega, entretanto, com a garoa fina caindo ao lado de fora do automóvel e as luzes néon dissipando-se pela noite aproveitada do topo do estacionamento, pensava com seus botões se a temperatura não poderia aumentar em alguns graus, pois surpreendentemente suas mãos tremiam em torno do copo de café e sentia calafrios subindo por sua espinha. 

Não parecia ter entendido bem o que o androide dizia .

“Como é estar apaixonado por alguém?” Kim Jongin o questionou.

Seu coração pareceu perfurar-se pelos projéteis presos ao ímã em seu peito e o led em seu tórax pareceu refletir um azul pálido ao compreender a questão posta para ele.

 

.

.

.

 

Um ano antes.

 

O estresse estava o matando, odiava os procedimentos de manutenção de seu coração, odiava seu trabalho e odiava ainda mais Castiel, com seu sotaque britânico que parecia socar seus tímpanos a cada frase dita. Era a quinquagésima vez que Cast – era como carinhosamente o denominava nos dias em que este não estava tamborilando seus ouvidos com perturbações constantes, como naquele exato momento –   perguntava se estava tudo bem, se a investigação tinha avançado e se um parceiro não o ajudaria ao menos dessa vez. Era também a quinquagésima vez que o Do respondia que trabalhava sozinho. Não que a ideia de ter uma companhia nas noites frias de Atlantis soasse muito ruim, apenas não tinha saco para lidar com burocracias em um momento tão delicado quanto a porra da procura de um grande traficante de ródio. No primeiro centenário após a última grande guerra, metais valiosos como esse não poderiam ser negligenciados tão facilmente, e mais, Kyungsoo suspeitava que alguns assassinatos mantidos por debaixo dos panos pela mídia tinham ligação com a organização por trás de tudo isso. No entanto, o seu supervisor mantinha-se irredutível e, por consequência da sua impaciência, naquela manhã de domingo saiu acompanhado de Cast para o laboratório policial localizado na Nova Capital.

Sua única condição era não trabalhar com humanos, talvez nem com animais, se possível, não trabalhar – não se lembrava de quando haviam sido suas últimas férias, mas sabia que precisaria de uma logo logo, mesmo que sempre as negasse – , então quando chegaram em frente ao Estúdio de Produção Newtec, pensou que talvez devesse ter dito que bugigangas compostas por nanotecnologia, sem resquício algum de humanidade, também não eram uma opção, mas agora já era tarde demais. Castiel parecia radiante, ousava dizer que ele dava pequenos saltinhos em meio a caminhada, e não era para menos, em oito anos de profissão, o Agente D.O nunca havia dado brecha para qualquer tipo de parceria, sempre se esquivando, argumentava que pensava melhor nos casos sozinho, no silêncio dos jeeps da empresa, com um copo de café sem açúcar em mãos, complementava ainda que a voz irritante de outro alguém atrapalharia suas pesquisas e que não nasceu para ser babá de ninguém. Mas alguma coisa entre a vitória pelo cansaço e a subjugação forçada do detetive faziam Castiel pensar que, apenas desta  vez, o Do amoleceria, mesmo que parecesse estar odiando toda aquela situação.

 A imensa porta de vidro fosco se abriu, ambas correndo cada uma para um lado, ao aproximarem-se. O corpo de cientistas foi revelado por detrás dela, e Kyungsoo observou atentamente aquelas pessoas, cobertas por seus jalecos brancos, caminhando de um lado para o outro com suas pranchetas, quase como médicos de coisas mortas, uma piada infame em tempos como aqueles. Alguns mexiam com o cabeamento de algumas máquinas e em certa instância assemelhou-se ao local que ia para fazer os reparos mensais do eletroímã em seu peito – um adereço discreto que foi implementado a uma criança de doze anos próxima demais da explosão. Sortudo demais para ter um médico de objetos inanimados por perto, azarado demais para morrer agora – . As partes de corpos, mesmo que mecânicas, deixavam o ar desconfortável para o detetive que não conseguia parar de pensar em como aquilo se tornaria pseudo humanos em algum momento, que falavam como ele e interagiam em meio a sociedade como apenas mais um deles, nunca humanos de verdade, mas sempre tão próximos . De toda forma, não lembrava de um mundo em que as coisas não fossem assim, desde que nascera o mundo era mundo desta forma que via a sua frente, com misturas metálicas vindas de fábricas e bem, pessoas. Não se questionava sobre a viabilidade daquilo ou coisa do tipo, as histórias sobre o passado, da efemeridade e fragilidade da vida o assustavam, porque, veja bem, em um mundo onde alguns conseguem viver por centenas de anos, a tecnologia e a medicina se integraram o suficiente para se existir  por  quanto tempo fosse preciso, coisas como corpos incapazes, “imperfeitos” como os livros de história vinham dizendo, não eram problema. Todos eram perfeitos aos olhos de quem podia os consertar.

– Bom dia rapazes, como posso ajudar? – A voz familiar soou por detrás deles.

– Ah, Byunnie, que bom ver você por aqui, não achei que fosse te encontrar tão cedo pelo laboratório! – Castiel enunciou ao identificar o irmão.

– Eu estava de saída, quando vi já era de manhã, não tinha intenção de sair tão tarde... ou tão cedo. – riu envergonhado. – Oh, não acredito no que meus olhos veem! – Disse ao perceber a segunda presença.

Kyungsoo apenas acenou em um “olá” silencioso.

– Está me devendo trinta coins, porque viemos aqui escolher um parceiro para o nosso senhor “eu trabalho sozinho” – Castiel anunciou sorrindo e o Byun olhou pasmo em direção ao detetive.

– Em minha defesa, não acho que poderia continuar fazendo o meu trabalho com seu irmão me infernizando, mas também não é certeza de que algo aqui me faça querer ter alguma espécie de parceiro. – Deu de ombros.

Baekhyun ajeitou os óculos que escorriam por seu nariz e sorriu em direção ao amigo.

– Bom, que bom que não fui para casa então, porque tenho ótimas opções para apresentar para vocês e quem sabe fazer você mudar de ideia. – Anunciou dando as costas e caminhando em um sinal simples que dizia “me sigam”.

– Conheço você, desde que éramos crianças e desmontávamos carros elétricos para fazermos skateboards para corrermos pela rua da Velha Atlantis. – O cientista começou a narrar. – Para ser sincero nunca achei que você fosse se tornar um detetive Soo, você sempre teve esse ar de que solucionaria o problema de todos com suas engenhocas malucas. Okay que nós fomos detidos várias vezes por conta delas, mas ainda assim… – O ar nostálgico fez Kyungsoo sorrir, sentia falta dos velhos tempos, das bobeiras de criança, quando os leds eram mais coloridos e os sonhos possíveis. Mas aquilo tudo era passado e toda a tecnologia que dispunham ainda não era o suficiente para trazer aqueles tempos de volta.

- Até hoje tento entender como ele foi aceito na elite de investigação da cidade. Ele era um delinquentezinho. – Castiel caçoou bagunçando os fios negros do menor.

Era engraçado para eles como quando estavam juntos as coisas não pareciam mudar, e tudo voltava ser como na boa e velha Old Atlantis, a pequena e marginalizada cidadezinha ao sul de onde vieram. Eram crianças pobres e geniosas, o futuro da  de uma geração abandonada naquele fim de mundo, e olha onde estavam agora. Baekhyun era um nome renomado da neurociência e mecânica quântica utilizada em androides de elite, considerado um gênio para sua idade. Castiel, seu irmão adotivo, era presidente do setor de investigação da polícia da capital desde que o Byun caçula e Kyungsoo tinham nove anos. E Kyungsoo, bem, era agora o detetive de classe especial D.O, o mais novo e renomado detetive que já obtiveram em cinquenta anos, em seus oito anos de carreira havia desvendado, sozinho, cerca de vinte casos e feito cerca de dez contribuições antes de ingressar oficialmente a equipe. Era um achado, uma pepita tirada da lama.  

– Bem, tenho trabalhado em alguns androides. Sabe, essa coisa de inteligência artificial que se adapta às necessidades do usuário. Acho que é perfeito para você Soo. – Baekhyun pontuou enquanto caminhavam por entre as parafernálias dos corredores do laboratório.

– Não soa tão ruim, fora o fato de eu não necessitar de algo como isso. – Murmurou, mas os irmãos que caminhavam ao seu lado sorriam. Era típico.

– Você tem que pensar pelo lado positivo de toda a coisa, os androides tem contato instantâneo com a rede de tráfego virtual e conseguem fazer pesquisas que demorariam meses em alguns minutos. Algumas das novas figuras que chegaram para nós, assimilam cerca de três yottabytes de informação por minuto. Diga o que quiser, mas isso é insano até para a gente. – Baekhyun explicava.

O pesquisador parou seu monólogo para retirar os óculos em frente a uma porta metálica para que a leitura de sua íris fosse feita adequadamente no aparelho em sua lateral, para que só então fosse anunciado pela voz robótica e feminina, que repercutiu por todo o ambiente, a liberação do homem tratado como “Byun Baekhyun, Cientista número 10062019” pelo sistema.

 – A linha policial com a qual temos trabalhado conseguem revisar todo o arquivo da polícia em segundos, contém reconhecimento facial de ponta no globo ocular para melhor identificação de investigados, além de serem discretos, pois as armas são embutidas em seus corpos. – Narrou ao atravessarem a porta.

O detetive paralisou após alguns passos, enquanto a porta se fechava atrás de si. Era como um catálogo de pessoas em exibição, homens, mulheres, mais velhos, mais novos, altos, pequenos, todos pendurados por uma estrutura de fios conectados aos seus corpos dentro do que parecia um tubo de vidro. Quase como se estivessem mortos . Um calafrio subiu pela espinha do moreno e por um momento dissociou. O que estava acontecendo naquele lugar? 

Baekhyun parou em frente a um grande armário de vidro fosco no fim do corredor e o abriu, como se tudo aquilo que o cercava não passasse de apenas instrumentos de pesquisas descartáveis que não lembravam a pessoas reais, como se não fossem nada, e permaneceu assim quando os três corpos foram expostos para admiração.

– Androide I-29031991. – Leu a placa sobre a cabeça da mulher à sua frente. 

Seu rosto parecia tranquilo, o cabelo castanho estava amarrado em duas maria chiquinhas, cada qual com duas tranças que escorriam por seu torso nu. Não havia nada de sexual em seu corpo pálido e liso. O material de que era feita assemelhava-se a porcelana e as suas juntas eram douradas, assim como os adornos que subiam pelo seu braço esquerdo. Ela era linda e irrealista demais.

– Androide C-09102019. – Leu acima da maior figura masculina que havia ali.

O homem deveria ter cerca de um e noventa, as orelhas maiores que o convencional estavam repletas de piercing e por alguns segundos pensou em como o homem de cabelos vermelhos, de estatura tão grande e cheio de adornos poderia passar tão despercebido quanto era prometido, por mais que se assemlhasse a pessoas humanas com mais fidelidade que os outros. Além disso, dos personagens dispostos ali, era o único com o olho meio aberto e podia observar a íris azul quase cinza opaca diante deles. Era um pouco assustador.

E por último, mas não menos intrigante, estava a última figura diante dele.

– Androide J-140805.

Kyungsoo ficou em silêncio observando homem à sua frente, parecia inacabado, menos humano que todos os outros, mas mais jovem também. A pele que cobria parcialmente seu corpo continha mais melanina que as outras e os fios que caiam sobre seu rosto eram de um tom laranja como o que via no céu ao pôr do sol. Seu lábio superior era levemente rosado e aparecia ser macio de tão real, entretanto uma incongruência o tomava. A parte inferior de sua mandíbula era feita de titânio preto e se estendia por todo seu pescoço, clavícula, ombro e braço direito. Mal conseguiu evitar sua curiosidade que quando deu-se por si já estava tocando o corpo frio do androide. A textura do material era áspera, gélida e puramente artificial, como o da figura feminina que viu antes, mas quando tocou os fios laranja e a lateral do rosto do autômato, sentiu como se ele fosse tão humano quanto o homem anterior. Tão humano quanto ele .

– Ele é lindo né, da última coleção da infantaria, só existem cinco deles até agora, cada qual com sua peculiaridade. Fora sua aparência, neste caso o braço direito é composto por um mecanismo que se reestrutura em uma arma de propulsão eletromagnética que, ao friccionar a mão em punho, dispara uma onda de energia capaz de derrubar um elefante, e que é capaz de impulsionar o alvo a uma distância de até um quilômetro e meio. É insano! – Baekhyun enunciou sorridente ao ver o repentino interesse.

– Qual o nome dele? – Questionou.

– J-140805, como você pode ler. – Explicou.

Castiel observava a interação com seriedade ao lado do irmão, era a primeira interação do colega com aquele tipo de maquinário, era normal que ficasse confuso e talvez sua interpretação de todos aqueles projetos não fosse a esperada pelo caçula, a verdade é que era surpreendente até para ele a adesão oferecida pelo detetive.

– Isso é um número de série. – Kyungsoo contrapôs.

– Bem, eles são máquinas, é tudo que eles tem que pode ser chamado de nome, quando você olha no início da coluna…

– Quando reiniciá-lo você pode inserir o nome que preferir a ele, até onde eu sei. – Disse o Byun mais velho antes de suspirar e prosseguir. – Eles não foram programados para terem nomes, mas podem responder por um quando solicitado. – Castiel concluiu.

Era engraçado ver a cara emburrada do amigo e o semblante de confusão do irmão por ter sido interrompido. Baekhyun sempre fora o emocional do grupo enquanto Kyungsoo fazia o tipo racional ao extremo, era até estranho que ele houvesse que fazer um tipo de mediação na qual não estaria ouvindo de seu amigo que aqueles pendurados a sua frente eram apenas maquinário governamental. Mas compreendia, o Do sempre teve conflitos com esse tipo de produto. Talvez pelas perdas da infância ou pelo lugar de onde vieram, mas sua humanidade estava inegavelmente intrínseca a ele e a tudo que compreendia como humano.

– Pensando por esse lado. – Baekhyun parou cruzando um braço ao redor do corpo em apoio ao membro que continha a mão que utilizava para apoiar o rosto. – Mas isso é apenas no caso de você tiver mudado de ideia quanto a ter um parceiro e quiser utilizá-lo, porque como você pode observar, o C-09102019 é o mais completo dos três, com aparência mais humana que os demais, o mais bonito também. – Riu sozinho com o comentário. – Sei que pode pensar que ele é um tanto chamativo pela cor do cabelo, e afins, mas ele tem o melhor processador dos três o que ajuda na coleta e revisão de informações além de conter uma força bruta excelente para combates físicos…

– Mas vou querer ficar com esse, existem diversas pessoas com corpos semelhantes ao dele, em Old Atlantis a maioria das pessoas com modificações corporais tinham a aparência como a dele. – Dessa vez foi o detetive quem o interrompeu. Baekhyun fez um bico emburrado por não terminar de dizer o que queria, mas concordou com o pedido do outro, que se deu por vencido quanto ao ter um companheiro de missões. – Mande Castiel levá-lo para minha casa antes do entardecer, e dê roupas a ele. – Anunciou dando as costas para sair do ambiente em que estavam. Já se sentia claustrofóbico, precisava de ar.




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O quarto onde Kyungsoo morava não era grande coisa. Na verdade, o de ninguém era. A guerra havia tornado as coisas muito diferentes e casas deixaram de ser utilizadas para que grandes edifícios com diversos quartos pudessem ser criados para suprirem a demanda populacional existente, e ainda assim era irreal a possibilidade de abrigar a todos. A população havia triplicado de tamanho no último século, e mesmo que a guerra tivesse extinguido cerca de quarenta por cento de pessoas no mundo, muito se perdeu. A super população parecia ter se resolvido aos olhos dos leigos, não precisaria mais ser combatida como se era pregado, mas avisaram, haviam partes do mundo que demorariam milênios para se tornarem habitáveis novamente, por isso, o espaço era escasso; algumas espécies de animais e plantas foram extinguidos e a alimentação deveria ser racionalizada de uma forma adequada, não havia mais espaços nas ruas para todos, então o mínimo esperado era que se contentassem com um cubículo como lar, ao menos se contentassem aqueles que tivessem chance de tê-lo. De onde o Do viera, comida e teto eram luxo, surpreendia-se por ter sobrevivido tanto tempo e ter saído daquele lugar. Surpreendia-se ainda mais por ter sobrevivido a todo o evento cataclísmico que o fez carregar uma “lamparina” no meio do peito, pois, independente do quanto toda a tecnologia pudesse avançar, sempre haveria aqueles que não a alcançariam, então ele deveria se contentar e ser grato. E Kyungsoo se contentava, mesmo que a contragosto, por isso mantinha-se entretido jogando a bola de basebol já velha e desgastada  no teto de sua cama para que pudesse segurá-la quando voltasse em sua direção para então jogá-la novamente e assim repetidamente. 

A luz alaranjada do fim de tarde iluminava o interior do ambiente, a cadeira da mesa de canto estava no meio do espaço entre a porta e a entrada da cabine do banheiro, o óculos de realidade virtual e a luva que utilizava para poder interagir com os itens disponibilizados pelo VR estavam jogados de forma despojada sobre a mesa holográfica junto ao pequeno bonsai que cuidava, que por sinal, deveria ser tirado dali. Fora isso, a única coisa nova é que naquela manhã havia solicitado uma cabine de carregamento para o androide que chegaria em sua casa e isso tomou um pouco mais de espaço do que gostaria ao pé de sua cama, não que se incomodasse com toda aquela situação, mas pensou que seria melhor do que tê-lo pelos cantos largado como se não fosse a imagem de uma pessoa qualquer pelo cômodo de sua casa. Por isso, de certa forma, até sentiu-se contente ao ouvir a voz robotizada de seu assistente virtual anunciando a chegada de suas tão esperadas visitas.

– Sosoo querido, veja só o que eu trouxe até você. – Castiel anunciou assim que a porta foi aberta dando espaço para que o androide pudesse adentrar o ambiente. – Covil do Batman da porra hein… – murmurou.

Kyungsoo até iria retrucar a intromissão, mas não soube fazer nada além de observar em silêncio o garoto, que aparentava não ter mais de vinte anos, adentrar o cômodo. Assim como solicitado, ele utilizava um traje, discreto pela escolha monocromática de tons de preto, mas ainda assim chamativa demais para Kyungsoo. Não havia como aquele homem passar despercebido em meio a multidão, era o pensamento que corria em sua mente. Mas era agradável aos olhos o caimento da camiseta preta e a jaqueta de mesma cor que cobria apenas o braço robótico, calça cargo de lavagem escura junto ao coturno de combate formavam uma unidade inegavelmente adequada. Contudo, o que mais lhe chamou a atenção além dos cabelos alaranjados penteados para trás, que continham alguns fios teimosos que insistiam em cair sobre a testa do humanoide, foi a linha da mandíbula tapada por pele artificial. O rosto estava completo, os lábios bonitos tinham um enxerto realista como nunca vira antes e de certa forma tudo aquilo parecia muito errado.

– Não achei que seus olhos fossem ser castanhos. – Pontuou após terminar sua análise silenciosa.

– Eles podem ser da cor que você desejar, assim como a tonalidade da minha voz. – O androide respondeu, a íris passando por todas as cores da tabela RGB como se não fosse nada e aquela performance não trouxesse calafrios a espinha do detetive.

– Parece bom assim. – Foi tudo que se limitou a dizer antes de voltar sua atenção ao seu capitão.

– Todas as formatações que desejar podem ser feitas por meio de comando de voz e nada que constar como informação a partir de agora pode ser disponibilizado sem a sua devida autorização. Ele já deve te acompanhar a partir do seu próximo dia de trabalho. – Informou, dando as costas para o detetive. Mas parou antes de prosseguir apenas para ressaltar um ponto. – Não dei um nome a ele, batize-o como quiser. – Concluiu e sumiu pelo corredor, mesmo que quisesse ficar e analisar o desdobramento daquela interação.

A porta se fechou e o silêncio tomou todo o ambiente. Não havia mais luz do pôr do sol sendo refletida no ambiente e o único brilho que se via era do peito de Kyungsoo por debaixo da camisa escura e dos olhos castanhos do J-140805.

– Pode sentar na cadeira se quiser. – Kyungsoo foi o primeiro a dizer depois de um tempo.

– Meu corpo foi feito para tolerar altos níveis de cansaço, não há a necessidade de me deitar, sentar, comer ou dormir por um período mínimo de até quinze dias. – Informou.

– Certo.. – Kyungsoo murmurou, desconfortável. 

Duas palmas foram ouvidas em meio ao escuro para que as luzes fossem acesas. Kyungsoo já havia voltado a se sentar em sua cama, por outro lado, o andróide continuava parado em pé próximo a porta como em momentos antes.

– Qual o seu nome? – Questionou.

– Meu número de série é, jota - um - quatro - zero…

– Número de série não é um nome, você tem um nome? – Interrompeu.

– Nome é uma propriedade intrínseca à algumas espécies humanas que detém valor emocional e que serve para identificação familiar que pode ou não ser alterada e utilizada para fins contratuais. Andróides não possuem linhagem sanguínea ou parental com outro ser e por isso possuem apenas números de série, lotes, prazos de validade e locais de fabricação. – Ele respondeu. Artificial demais até para o homem à sua frente.

– Certo, nesse caso, você gostaria de receber um nome? – Questionou-o novamente.

– Andróides não possuem desejos ou vontades próprias, apenas nos adaptamos à vontade de nossos portadores. – Concluiu mais uma vez.

– Porra.. – murmurou já  desgostoso com toda a situação. – Stark, pesquisar nomes que se iniciam com a letra jota. – Pediu a IA do ambiente virtual de sua casa, num tom impaciente, enquanto a voz masculina logo começava a listar.

 

“Todos os nomes encontrados com a letra J:

Joshua

Juan

Jonathas

Jun

Junko

Juro

Jiwon

Jong-In…”

 

– Stark, repita o último nome listado. – Pediu e a voz masculina tornou a dizer.

 

“Jong-In”

 

– Jong-In.. – Testou a pronúncia. – Defina o nome Jong-In. – Solicitou olhando para o androide que continuava impassível a listagem proferida.

 

“Jong-In,  pode significar benevolência, bondade e humanidade…”

 

Kyungsoo manteve-se em silêncio digerindo a informação que lhe fora passada a pouco. Soava até cômico aos seus ouvidos se não fosse tão inesperado.

– J-140805, atualizar codinome para Jong-In, J-O-N-G-I-N. – Proferiu sério em direção ao pseudo-ser-humano a sua frente.

– Atualização, codinome alterado para Jong-In, J-O-N-G-I-N. – Repetiu.

– Por favor, Jongin.. – Testou. – Não repetir a palavra atualização quando iniciar atualizações no sistema, apenas confirme se ela foi realizada corretamente, com algo como “certo” . – Pediu de forma solicita ao que Jongin respondeu:

– Certo!

O sorriso satisfeito que brotou nos lábios de Kyungsoo finalizou o pequeno diálogo.




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O primeiro trimestre de companheirismo entre o detetive e o andróide havia sido cheio de contratempos devido a personalidade arredia do homem. Primeiro que Kyungsoo odiava o jeito robótico que Jongin agia, sempre tão literal e apto a tudo, como se fosse perfeito para qualquer missão; odiava também acordar pelas manhãs e dar de cara com o pseudo-humano parado, em pé, ao lado de sua cama – foram preciso cerca de duas longas horas de diálogo para que o detetive o fizesse compreender que deveria ficar dentro da cabine de carregamento mesmo que não fosse necessário  e ainda assim acordar pela manhã e vê-lo dentro daquele espaço o causava o mesmo desconforto que sentiu quando passou pelo laboratório – ; e acima de tudo, odiava como, em certos momentos, Jongin parecia ser mais humano que ele, desde a rega do bonsai à forma como colocava a própria roupa, odiava praticamente tudo nele, mesmo assim, tentava ignorar, principalmente em situações como aquela.

Estavam no carro, de tocaia, em frente a um estabelecimento de penhores bem frequentado num bairro nobre da cidade vizinha a Capital, esperando a movimentação de um homem cujas descrições o faziam crer ser um dos mandantes do grande caso que o detetive vinha investigando. Nos primeiros nove meses de investigação não haviam tido uma oportunidade como essa, soava até fácil demais, como uma isca, mas uma oportunidade como nenhuma outra e Kyungsoo não iria desperdiçá-la. Ele só não contava com Jongin e sua irracionalidade não documentada.

Quando o homem saiu da loja e Kyungsoo pôde girar a chave do automóvel, o androide abriu a porta e se direcionou para o meio da rua. Foi tudo rápido demais, ele saiu do carro, e correu em direção a algo que Kyungsoo não conseguia ver e então uma motobike o acertou em cheio, o homem que observavam adentrou o beco na lateral do prédio ao ver o rebuliço, a fumaça que surgiu dos rompimentos elétricos da motobike subiram e uma multidão de pessoas se reuniu ao redor do acontecido. Um desastre.

– Mas que.. – foi tudo que conseguiu pronunciar antes de sair batendo a porta do carro com toda a força.

As pessoas tapavam sua visão e só conseguiu se aproximar abrindo espaço empurrando bruscamente os corpos curiosos para o lado até que pudesse ver todo o estrago. Se já não estivesse acostumado talvez se alarmasse mais com a cena. A motobike feita para correr suspensa no ar estava partida no chão, com fagulhas e chamas como adornos, enquanto isso, sentado de costas para Kyungsoo, mas paralelo a tudo que acontecia ao seu redor, estava Jongin, embebido pela fumaça e com um rasgo imenso em seu braço esquerdo que denunciava o dano recém adquirido ao seu corpo.

– O que caralhos você acha que está fazendo Jongin? Seu algoritmo foi corrompido por acaso? – O detetive esbravejava enquanto caminhava em direção ao companheiro. – Eu juro que eu vou te devolver para aquele laboratório seu pedaço de lata- 

– Minah, minha pequena! – Uma voz feminina o interrompeu, passando bruscamente ao seu lado, e se jogando em direção ao android.

Enrijeceu-se ao observar o autômato endireitando-se no chão e deixando à mostra a pequena garotinha meio cyborg toda encolhida alinhada ao seu peito. Sua mandíbula era metálica como outrora Jongin tivera e sua perna direita era uma prótese repleta de adornos que agora se encontrava rachada, mas inteira. A mulher, que pareceu ser mãe da menina, agarrava o pequeno corpo como se nunca mais fosse o deixar escapar e Jongin… Jongin sorria.

– A minha Minah, você salvou a minha Minah – A mulher dizia, fungando. – Ah, veja só querido, você está ferido, seu braço… – Seu tom era maternal e cuidadoso e ela acariciou a mão do androide com tanto cuidado quanto se teria por humanos reais.

Jongin continuava sorrindo, como se sentisse algum tipo de empatia por toda a situação.

– Não tem problema, nós podemos resolver isso, não será grande coisa. Ela também pode receber manutenção, se isso te acalma. Não é mesmo Kyungsoo? – Não havia notado que o androide tinha percebido sua presença, tampouco entendia o que era aquela doçura em sua voz que parecia o deixar mais irritadiço. – O protocolo 16175 diz que em casos de acidentes envolvendo membros da federação nós podemos recorrer para que os servidores técnicos dos autômatos corrijam erros e danos causados durante missões. – A frase, um pouco mais robotizada e ensaiada tirou Kyungsoo de seus devaneios acusatórios o fazendo voltar à realidade.

– Sim, certo, podemos lidar com isso. Estão todos bem? – O detetive questionou, mudando sua atenção para a família à sua frente.

– Só um pouco arranhada, mas ele está bem pior, querido… tem certeza que não precisará de nada?

E novamente, aquele sorriso que iria perseguir os pensamentos do moreno pelos próximos dias surgiu em meio ao caos. O sermão formulado não lhe parecia certo agora, mas todo aquele conjunto de ações.. Por que Jongin não sorria assim com ele também? Foi o pensamento intrusivo que lhe veio à mente. Aquele gesto simples, delicado e tão humano, de mostrar os dentes branquinhos a alguém, esmagou o coração de Kyungsoo que sentia o peso da culpa o corroendo aos poucos e ficaria ainda meio inquieto observando todo o desenrolar daquela cena, caso a gritaria não tomasse seus ouvidos.

– Seu filho da puta do caralho, olha a situação da minha bike! – Foi o que se ouviu até a figura do cyborg aparecer em meio a eles tomando Jongin pela camisa e o erguendo do chão.

A primeira reação de Kyungsoo foi pânico, não porque nunca havia presenciado e protagonizado enfrentamentos corpóreos, mas sim porque a aparição inesperada do homem se seguiu pelo corpo de Jongin sendo violentamente içado para o alto, o braço mecânico danificado se desprendendo, pendurado pelas fiações internas no corpo esguio do companheiro que parecia asfixiar-se com o aperto do tecido em seu pescoço, mesmo que dores físicas e ar fossem dispensáveis a existência robotizada do autômato. Sequer se deu conta do que estava fazendo, quando parou para racionalizar suas ações, já estava segurando o braço do cyborg.

– Solte-o agora! – Disse em um tom ameaçador que não esperava vindo de si.

– E quem é esse agora? – Questionou com um olhar de desdém para o detetive.

– Agente especial Do Kyungsoo – Respondeu ao apresentar sua credencial. – Solte-o agora, não me faça repetir uma terceira vez. – Rosnou entre dentes.

Seu olhar foi direcionado ao parceiro. O castanho das íris pareceram brilhar ao vê-lo, oscilando entre outros tons. Um defeito no sistema? Kyungsoo pensou e a simples ideia o fez arrepiar.

– Você não acha mesmo que… – Foi silenciado quando o punho fechado acertou em cheio a face metálica, o desestabilizando e o fazendo soltar o corpo humanoide sobre o asfalto.

A mão de Kyungsoo latejou e o sangue escorreu pelos nós dos dedos. Esbaforido ele observava o androide o encarar incrédulo e não pôde evitar o sorriso lateral que despontou nos lábios carnudos.

– Cada dia que passa vocês usam materiais mais vagabundos. – Desdenhou ao ver a pele artificial desprender-se da placa de metal na bochecha do outro. – JongIn, vá para o carro, agora! – Ordenou e o autômato levantou, ainda meio desnorteado. Reverenciou a moça e a menina que ainda olhavam aterrorizadas toda a situação e seguiu rumo ao Jip.

Quando o homem ameaçou ir em direção ao seu parceiro ele levantou o celular, mostrando um GPS, duas viaturas chegariam em alguns minutos.

– Se eu fosse você continuaria por aqui e não faria mais nenhuma gracinha, você já está muito fodido por ter machucado o meu parceiro

Tudo após o desentendimento passou como um borrão. As sirenes, os outros agentes interrogando as pessoas na cena, a ligação para Baekhyun onde implorava para ele atender Jongin o quanto antes, mas aquele sorriso, os olhos transitando entre o castanho, azul e o verde, aquilo nunca sairia de sua cabeça.

 

 

 

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A primeira coisa que fez ao chegar em casa foi jogar-se na cama, estava exausto, desapontado e preocupado. Por mais que Baekhyun houvesse lhe dado a certeza de que até o fim da noite Jongin estaria em sua casa, já consertado e apenas necessitando de uma recarga. Estar em casa sem o Android era solitário, a luz azulada da cabine onde Jongin ficava estava desligada, não havia ele sentado na cadeira do meio do apartamento ou parado próximo a janela em silêncio, e de certa forma aquela presença que antes soava tão incômoda e indesejada agora se fazia mais e mais necessária para preencher um vazio que Kyungsoo sequer lembrava de ter. O vazio que só Jongin preenchia.

Eram quase duas da manhã quando Jongin atravessou a porta, o detetive mal havia pregado os olhos durante o tempo que o esperava, fechava os olhos e tudo que via era o sorriso brilhante que em nenhum momento era direcionado a ele, e então os flashes dos destroços e do corpo humanóide sendo jogado no chão e se despedaçando em partes desiguais com tamanha fragilidade o faziam sobressaltar-se e seguia acordado mais um tempo até o ciclo se repetir. Ver Jongin parado em sua porta, as roupas rasgadas, mas o corpo renovado o trouxe um alívio que não esperava sentir, segurou o ímpeto de saltar sobre o corpo humanoide e o abraçar, mas não conseguiu conter o sorriso que despontou em seus lábios ao recebê-lo ali.

– Eu estou bem! – Jongin disse ao vê-lo sorrir. Não entendia muito bem a funcionalidade dessas convenções sociais, mas Baekhyun havia lhe dito que seria gentil de sua parte dizer ao companheiro que agora estava tudo bem e se realmente pudesse sentir algo, estaria feliz pelo sorriso que o homem lhe deu.

– Eu vejo… você está inteiro agora. – Respondeu tocando o ombro do android e era engraçado como a pele artificial parecia quente e tão humana em seu tato. – Nós vamos precisar trocar essas roupas, acho que tenho algo que cabe em você. – Concluiu abrindo espaço para que ele entrasse no ambiente que Kyungsoo entendia agora, também era sua casa.

Apesar da oferta casual, Jongin era alguns centímetros mais alto e encontrar algo que o servisse bem foi mais complicado do que esperava. A camisa preta de Kyungsoo ficava apertada nos músculos nem tão definidos do rapaz e o short de algodão havia ficado um pouco acima dos joelhos, era uma combinação estranhamente adorável e combinava com o ar jovial que ele tinha. Jongin olhou as roupas como se avaliasse o caimento e sentou-se ao lado do detetive na cama de solteiro, o surpreendendo com a ação repentina. O silêncio que pairava entre os dois era confortável, mas de toda forma haviam coisas que ainda o assombravam.

– Você quer que eu sorria mais vezes?

Kyungsoo processou a questão por longos segundos.

– O que…

– Você pareceu surpreso quando me viu sorrir, nas investigações rápidas entendi que talvez sorrir fosse o melhor método para acalmar uma criança em uma situação estressante, mas..

– Sorrir te deixa mais natural. – Interrompeu.

– O quê?

– Não é que eu queira, é só que é natural quando você sorri, muito natural, e se você quisesse… – refletiu. – Mas você não toma decisões por…

– Eu posso sorrir mais vezes já que você parece gostar. – Respondeu como quem não queria nada, talvez nem quisesse mesmo, talvez nem soubesse que podia causar sensações estranhas no companheiro,  e mesmo assim o Do sentiu-se esquentar. Tinha certeza de que estava vermelho. – Agora.. humm.. você pode deitar? 

O pedido soou estranho, quase incerto, a mente traíra de Kyungsoo sugeriu até mesmo uma timidez, mas ele não sentia esse tipo de coisa. Entretanto, mesmo que estranho, ele fez o que lhe foi pedido.

– Baekhyun disse que quando passava por situações estressantes você tinha dificuldade para dormir. – Ele comentou e Kyungsoo criou uma nota mental de xingar o Byun quando o visse novamente. Mas seus pensamentos foram silenciados quando um arrepio subiu por sua coluna ao sentir os dedos do parceiro percorrerem seu couro cabeludo em um carinho muito reconfortante. – Os humanos chamam isso de cafuné, até onde eu vi, e acho que te ajudaria a dormir. – Concluiu.

Kyungsoo se recusou a pronunciar qualquer palavra, sentia que se tentasse dizer algo, sairia um conjunto de letras sem sentido que formariam palavra alguma, e se rendeu, mesmo que conflitante, ao sentimento de paz que o carinho lhe trouxera. Sequer percebeu quando o sono o atingiu, mas soube que estava sonhando quando Jongin sorriu de uma maneira tão humana para si, que seu coração derreteu.

 

 

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O tempo não parava. Os dias corriam rápido e o cotidiano agitado do detetive sequer o deixavam perceber isso, um exemplo disso? A troca de tiro que se seguia naquele exato momento. Sentia que era bom não estar enferrujado, conseguir apertar o gatilho quando a sombra de um inimigo aparecia. Jongin, do outro lado da rua, escorado na lataria de um desses carros velhos, apoiava o braço direito na outra mão contra o peito, a respiração descompassada antes de se levantar em um pulo, apontar e soltar um longo tiro de propulsão eletromagnética que mandou os dois últimos atiradores contra a parede. Ambos se olharam com um sorriso vitorioso, formavam uma excelente equipe. 

O cenário performático se desintegrou num azul ilusório, os itens de holograma se desfizeram e a sala de treinamento tornou-se branca novamente. Um barulho metálico pôde ser ouvido na lateral da sala quando a porta mecânica se abriu, mostrando Castiel com um sorriso de orelha a orelha. A dez meses atrás ele havia convencido Kyungsoo de que seria uma boa ideia desenrolar um parceiro para as missões, agora, vendo os dois lado a lado, se gabava mentalmnte por ter o convencido de uma ideia tão boa. Eram o par perfeito.

– É uma pena ter que dar uma folga ao meu melhor agente, olha o estrago que vocês dois podem fazer! – Lastimou entre risos.

– Eu disse que essa ideia de férias é tudo coisa da sua cabeça, eu não preciso disso. – Anunciou pelo que foi a quinquagésima vez desde que o comunicado de que entraria em férias chegou em sua mesa.

A verdade é que Kyungsoo não sabia viver sem seu trabalho, odiava como se sentia por fora das situações por não ter acompanhado o caso assiduamente, sentia-se atrasado quando voltava à sede e seus casos parados haviam sido concluídos por outrem, todos ali eram muito bons, sabia disso, mas odiava o afastamento imposto. Fora todo o drama de codependência com seu trabalho, odiava ficar sozinho, era quase claustrofóbico ficar dentro de casa olhando o teto, vendo a luz do sol mudar de lugar até o anoitecer, comia mal, dormia mal e vivia mal quando estava afastado. Ele só havia esquecido um detalhe no meio de toda a frustração por quinze dias de férias..

– Não tem discussão dessa vez! Você tem o Jongin agora, vá a um parque, faça uma comida diferente, jogue caça-palavras, não sei, se vire, mas você irá entrar de férias, você vai ver, vai passar rápido. – Castiel dizia ininterruptamente. – E Jongin, eu confio em você pra fazer esse homem viver férias tranquilas, faça ele saber o que é ter paz, por favor! – Pediu ao android que assentiu sorrindo pequeno a ele.

– Primeiro, não sorria pra ele, ele não merece! – Kyungsoo pontuou, apontando o dedo para o parceiro. Era mentira, óbvio, mas não assumiria que odiava quando o via sorrir para alguém que não fosse ele, mas até então, odiava muitas coisas. – E segundo… 

Não havia segundo, não havia nada além do comichão dentro de si que o irritava e o fazia querer sair dali. Suspirou fundo antes de virar as costas para o comandante e em passos pesados sair da sala, o android não ficou muito atrás, se curvando para o chefe e saindo no encalço do parceiro.

Jongin definia coisas, situações e parâmetros de comportamento a partir de escalas, qualquer método funcionaria bem para sua linguagem, mas de certa forma havia desenvolvido uma afinidade maior com a prática de escalonar. Muitas das coisas que fazia ou deixava de fazer se baseavam nesse método, além de vários outros tipos de análise que vieram pré programadas em si e que vinha evitando a um tempo. Não sabia como se tornar mais humano para Kyungsoo, mas em uma escala de 0 à 10, seu resultado estava aproximadamente em um 7. Mas em uma escala de 0 à 10, o Do alcançava um nove em sua escala de “adorável” caminhando nervoso como estava, ficava atrás apenas de vídeos de gatinhos filhotes com patinhas curtas, e mesmo assim ele era lindo. Sabia que não era uma falha no sistema um alcance tão alto para o companheiro nessa escala porque as pessoas ao redor pareciam concordar. Quando passava pelos corredores do departamento as mulheres e até mesmo alguns homens o olhavam com certa admiração e volúpia, e não era atoa, com aquela camisa preta remangada até acima dos cotovelos – um número menor do que deveria ser para um homem de vinte e sete anos com um porte atlético como o de Kyungsoo – que emoldurava seu corpo, o cabelo sempre bem aparado em um corte social que lhe caía tão bem, e a calça jeans que em contrapartida com todo o resto soava como um erro, um pecado libidinoso, enchia os olhos marcando as coxas fartas fruto de noites mal dormidas passadas na academia, ele era lindo, e pra isso Jongin sequer precisava de escala, por ele com certeza seria um 10.

– Acho que esse estresse é falta de cafeína no meu organismo. – Falou para si, mas num tom que claramente tinha a intenção de chamar a atenção do parceiro, pois logo após direcionou-se a ele. – Vamos?

Iria para qualquer lugar com ele, parecia que ele não havia entendido isso ainda.

– Claro! – Sorriu.

 

 

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Kyungsoo estava meio desconcertado pelo que parecia ser a milésima vez em toda a sua vida. Melhor, estava louco, pertubado. Não sabia como descrever aquela sensação horrorosa que o engolia o deixando sem fôlego toda vez em que gafes como aquela ocorriam. Haviam ido até a cafeteria, um americano e um expresso, um brownie e um croissant, duas pessoas sentadas em uma mesa, um robô e um humano. Como não havia reparado nisso antes? Como havia esquecido? Como pode estar com Jongin sem perceber que ele não era humano?

Haviam conversado sobre coisas banais, trabalho, perspectiva das investigações e até pensado em um roteiro de turismo para Jongin enquanto estavam de férias. As mãos esbarraram quando os pedidos chegaram, a pele quente era macia e real, Jongin sorria entre um gole e outro do café que ele mesmo havia escolhido, havia comentado que o café estava bom, que o brownie era muito doce para seu paladar, mesmo que houvesse comido poucas vezes durante a vida… porque a pouco menos de um ano sequer estava vivo, nunca havia experimentado comida porque sequer era recomendado que ele comesse e mesmo assim… como havia se esquecido? Como pôde esquecer?

O detetive passou pela porta e mal esperou Jongin entrar para que pudesse se trancar no banheiro minúsculo de sua casa. Jongin sabia que ele estava desconfortável, e se pudesse escolher um sentimento para aquela situação, diria que também sentia-se desconfortável em ver o parceiro daquela forma. Queria arrancá-lo do banheiro e dizer que estava tudo bem, porque realmente estava, mas em uma escala de 0 à 10, tirá-lo de lá soava como um 3. Por isso, sem muita ideia do que fazer, caminhou devagar pelo cômodo escuro e sentou-se com as costas escoradas na porta, sem saber que do outro lado, Kyungsoo fazia o mesmo.

– Queria que soubesse que eu vou ficar bem... – Começou, ainda sem saber como dar continuidade àquela conversa unilateral. – Baekhyun disse que eu posso me alimentar em pequenas porções e reverter isso em energia orgânica para os meus componentes, então eu fui com você porque… – Porque queria ir a qualquer lugar que ele estivesse – porque eu sabia que tudo ficaria bem. E eu sei que não sou humano o suficiente. – Kyungsoo sentiu o fôlego faltar e os olhos arderem. – Sei que você olha para uma imagem minha que quando você repara mais de perto... não é o que você esperava. – Nunca sentia angústia, nem nas missões mais difíceis, mas naquele momento teve que ligar o chuveiro para abafar o som da angústia que escorria por seus olhos. – Kyungsoo, eu sei que você queria que eu fosse como você, que eu fosse latente, que eu sentisse cada sentimento como você sente, e eu tento todos os dias, uso o leitor facial só para identificar emoções desconhecidas, busco dados na rede apenas em situações extremamentes necessárias, você prefere que eu seja mais natural não é? – Kyungsoo queria gritar. – Você disse que quando eu sorria eu parecia natural, você parece mais feliz quando eu sou natural também, e eu tô tentando aprender sozinho, sem precisar de tudo que vem embutido em mim, então eu não entendo porque você se sente assim. – Se pudesse escolher um sentimento, escolheria a frustração. – Acho que você precisa de tempo para…

A porta foi aberta abruptamente atrás de si, no momento em que o chuveiro foi desligado. O desequilíbrio o levou a cair de costas no chão e daquele ângulo, com Kyungsoo parado diante de seu rosto, o olhando com aqueles olhos vermelhos do alto, as gotas d'água pingando de seus cabelos encharcados até seu rosto,  pôde afirmar com certa convicção que sentia-se vivo, simplesmente por tê-lo ali, o encarando.

– Eu não quero que seja mais humano... – Iniciou, e o ajudou a levantar com certo esforço. – Até quero, quero sentir você sem medo de que se parta entre meus dedos. – Expôs ao tocar a palma quente do companheiro, este que já estava de pé, o encarando com atenção. – Você não é diferente de mim – Enunciou levantando a palma alheia até tocar o peito, a luz azul em seu tórax irradiando pela camisa molhada e por entre os vãos dos dedos do android. – Não posso exigir que seja humano, mas queria que fosse real!

Os sentimentos ainda pareciam complicados, irracionais e complexos, mas não insubstanciais, eram quase palpáveis entre eles.

– Eu sou real. – Jongin disse e foi sua vez de trazer a mão do companheiro até seu rosto, sorrindo de forma acolhedora para ele. – Eu pareço fictício para você?

Kyungsoo sentiu que poderia morrer ali mesmo, encarando aqueles olhos castanhos escuros como breu, que brilhavam ao olhar para ele. Não percebeu que havia parado de respirar até o momento em que se deu conta de que estava encarando os lábios do autômato, e eles pareciam tão reais, queria senti-los, estariam com o sabor do café e chocolate? Se ele fosse tão real assim, então…

– Vá trocar essas roupas Kyungsoo, você pode ficar doente assim. – O companheiro informou, e quase como se tivesse piedade, tocou as testas para então esfregar as pontas dos narizes em um carinho singelo.

Estava perdidamente apaixonado, concluiu.

 

 

 

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As estações mudaram em frente aos olhos de Kyungsoo novamente, já era outono outra vez e não havia nada que pudesse fazer contra isso. Odiava a facilidade com que o tempo fluía e escapava de si sem deixar escolhas. Não podia voltar atrás, não poderia reviver memórias e redescobrir verdades. Um ano atrás, se o dissessem que ele teria um parceiro, diria que trabalhava sozinho; se o dissessem que estaria apaixonado, diria que odiava o amor; se dissessem que estaria atrasado para um evento do pelotão para aproveitar dos carinhos, agora tão costumeiros, que o companheiro espalhava por seu corpo, chamaria quem quer que fosse de louco. Mas deitado em sua cama, a mão suave tocando a pele de seu rosto como se o decorasse, sentia que não poderia se importar menos com essas coisas, eram passado, e o passado permaneceria ali para sempre, entretanto aquele ínfimo momento de carinho jamais poderia ser vivido de novo como era naquele momento.

Com o passar do tempo, os olhos de Jongin pareciam mais atrativos, um castanho mais místico e sentimental que lhe devoravam algo, o engoliram por inteiro sem sua permissão. De repente ele era todo Jongin, desde os minutos iniciais do dia aos últimos toques da noite, mas era nada também, seja como colegas de equipe, seja como algo a mais que nunca surgiria, havia aprendido a suportar a relação platônica que mantinham. Ainda assim era difícil, principalmente quando o andróide vestia um terno preto em sua frente para o evento de condecorações anuais para o qual estavam atrasados. Imaginou-se momentaneamente apertando a gravata em seu pescoço, sentindo o cheiro de colônia masculina que Jongin vinha utilizando para parecer mais “natural”, beijando-lhe os lábios avermelhados enquanto prendia a respiração. Sentiu-se idiota também, como um adolescente em seu primeiro amor, desejando o objeto inalcançável de adoração ao qual colocava em um pedestal, nunca antes tocado, nunca antes amado, nunca antes seu.

– Acredito que eu esteja pronto, que tal? – Questionou retórico enquanto colocava o blazer sobre a blusa branca. – Pela sua cara posso dizer que devo estar bem.

Queria dizer que bem era pouco, que estava lindo. Queria tirá-lo daquelas roupas para que ninguém mais além de si o visse assim, mas não podia. Enfim, apenas pegou a chave do carro e murmurou um “vamos” para o autômato que apenas o seguiu porta afora.

Naquele ano, mais uma vez Kyungsoo ganharia a medalha de destaque em investigações criminais da organização, entretanto, quando chamado para o palco, não pôde evitar de levar Jongin junto a si, não seria nada sem seu parceiro naquele ano, e guardava para si a ideia de que o palco parecia grande demais para apenas ele, e a presença arrebatadora do colega supriria a tensão de estar sozinho. Mas sequer precisava passar por isso, já não estava mais sozinho a um tempo, e a vida anterior à chegada do autômato parecia um borrão sem sentido, como se nunca houvesse existido sem ele.

Quem os encontrou ao final da condecoração foi Baekhyun, em sua mão um copo com destilado colorido, os óculos na ponta do nariz e as bochechas vermelhas. Estava levemente alterado, mas nada prejudicial. O que chamava a atenção, na verdade, era o homem alto de cabelos escarlate atrás dele que trazia um olhar entediado enquanto tentava falhamente passar despercebido em meio a multidão.

– Vocês ficam tão fofos juntos. – Baekhyun riu. – Pareciam até um casal se apoiando, não é uma graça Channie? – Ele perguntou ao ruivo.

– Se você diz.. – Respondeu dando de ombros.

– Tenho a impressão de que… – Kyungsoo não tinha palavras, apenas apontou para o homem, depois para Baekhyun, a cara de dúvida tão óbvia.

– Ah sim, você deve se lembrar dele. – Sorriu meio sem jeito. – Soo, esse é Chanyeol, um dos androides de última geração que estavam expostos juntos ao Jongin. – Kyungsoo fez que entendeu e tomou um pouco de bebida, se afogando com a frase dita logo a seguir. – Ele é meu namorado.

– O QUÊ? – Exasperado, questionou retórico.

O mundo pareceu girar ao contrário naquele momento, aquilo sequer fazia sentido. Um homem, uma máquina, laços emocionais... parecia muito confuso.

– Sei que é estranho, mas sabe, Chanyeol é uma boa pessoa e…

– Ele é um robô. – Interrompeu um tanto incrédulo com a informação.

– Bem, o Jongin também, e eu vejo como você olha para ele. – Sugeriu, e o autômato logo atrás olhou em direção a Baekhyun.

Em uma urgência ensurdecedora Kyungsoo virou todo o líquido de seu copo e o entregou ao companheiro. Pegue mais bebida para mim, e leve o Chanyeol com você, foi tudo que se limitou a dizer. Jongin, com um olhar suspeito, apenas assentiu e fez um sinal para que Chanyeol o seguisse.

– Você não pode sair dizendo essas coisas como se fosse tudo tão simples, você tá louco? – Kyungsoo o penalizou.

– Lamento, mas não há nada demais em estar apaixonado meu amigo. 

– Primeiramente que eu não estou apaixonado. – Contrariou e Baekhyun sorriu sacana.

– Isso é mesmo uma pena, porque Jongin com certeza está apaixonado por você. – Pontuou e tomou mais um pouco de sua bebida como quem acabava de dizer que havia ido à padaria pela manhã.

– Impossível, eles não desenvolvem emoções. – Pontuou um tanto desesperado.

– Exato, mas eles compreendem emoções e podem reproduzi-las até certa instância, Chanyeol e eu por exemplo, chegamos até a…

– Não termine isso. – Interrompeu.

– Se te serve de consolo, nós não conseguimos racionalizar emoções, eles também não, então de certa forma, Jongin também deve estar confuso com toda a situação. O próprio Chanyeol quem me apresentou sua forma de amar e me perguntou se eu aceitaria aquela maneira única dele, mesmo que ela não parecesse comum e me fizesse confrontar vários estigmas, eu quis tentar e veja só… Eu amo aquele paspalho. – Declarou, olhando bobo para o namorado que conversava com Jongin, vindo em direção a ambos. – Eu sugeriria que vocês conversassem sabe, se expusessem, tenho certeza que Jongin não recusaria, mas e você? – Questionou, vendo o amigo engolir em seco.

– Qual o assunto? – Chanyeol perguntou antes de depositar um selar nos lábios do namorado, e por um segundo Kyungsoo sentiu inveja.

Poderia ser assim consigo também? Não sabia a resposta, mas sabia que todo aquele turbilhão rodou pela sua cabeça por dias, o tirando sono e ficando apático aos carinhos do companheiro. Não que tivesse passado a odiar, nunca conseguiria odiar nada que viesse de Jongin, mas tudo parecia tão confuso. Até mesmo naquela noite chuvosa.

O aquecedor mantinha-se ligado dentro do Land Cruiser S.E, não que Kyungsoo sentisse frio, mas a sensação reconfortante que o calor artificial produzia o fazia manter a calma em momentos como aquele, onde seu parceiro lhe lançava perguntas um tanto peculiares. Tinha vinte e oito, conhecia uma coisa ou outra sobre o mundo e de certa forma tentava soar o mais solícito possível ao responder o colega, entretanto, com a garoa fina caindo ao lado de fora do automóvel e as luzes néon dissipando-se pela noite aproveitada do topo do estacionamento, pensava com seus botões se a temperatura não poderia aumentar em alguns graus, pois surpreendentemente suas mãos tremiam em torno do copo de café e sentia calafrios subindo por sua espinha. 

Não parecia ter entendido bem o que o androide dizia , apenas concluiu que ele não havia sido o único a pensar na relação incomum do amigo de infância.

– Como é estar apaixonado por alguém? –  Jongin o questionou.

Seu coração pareceu perfurar-se pelos projéteis presos ao ímã em seu peito e o led em seu tórax pareceu refletir um azul pálido ao compreender a questão posta para ele. 

– Aquele dia, eu ouvi Baekhyun dizer que amava o Chanyeol e eu sei que ele é como eu, e Baekhyun como você, então como isso funcionaria, quer dizer, eu posso amar você? – Questionou ingenuamente, sem saber do turbilhão de sentimentos que causava em seu colega.

Tudo que Kyungsoo fez foi respirar fundo e organizar seus pensamentos. Precisava dizer algo, gritar que ele podia o amar, ou ao menos, tirar de seus ombros o peso de acreditar que talvez seu parceiro pudesse de fato se apaixonar por si.

– Bem.. eu não sei bem como funciona. – Escolheu o caminho mais simples, a sinceridade, e olhou o android dentro dos olhos, olhando seu próprio reflexo na piscina castanha como forma de se manter concentrado. – Amar... amar é complicado para nós. Tudo que eu sei sobre amor vem dos filmes, das sensações de enjoo decorrente do nervosismo de estar perto de quem se gosta, sabe… tudo que eu sei sobre amor vem das músicas que tocam por aí, das promessas falsas e coisas do tipo. – Suspirou. – Baekhyun não me disse como eles faziam dar certo, ou se dava certo de verdade, ele apenas disse que, de alguma maneira, o Chanyeol havia compreendido o amor, mesmo que apenas um pouco dele, e isso o fez se aproximar. Sem medo sabe.

Jongin pareceu meio ressabiado, mesmo assim, assentiu. Por um momento, Kyungsoo até acreditou que tudo acabaria ali e nunca mais tocariam no assunto. Porém, não foi bem assim.

– Em uma escala de zero a dez sobre amor, eu te amo dez…

– O quê? – Kyungsoo pareceu não ter ouvido direito, não podia ser verdade.

– Sempre que eu pesquiso e penso sobre amor, é inevitável não o associar a você. Conversei com Chanyeol, e assim como ele, eu acreditava que havia sido apenas uma falha no sistema, afinal, eu nem sou humano, – Kyungsoo sentiu o peito apertar com a frase. – mas eu me pergunto às vezes, como não amar você, e eu nunca acho uma resposta, não importa o quanto eu procure. E antes que diga que amor tem a ver com sentir, e eu sei, eu não sinto nada, – os olhos castanhos pareceram expressar uma melancolia incomum. – Eu acredito que amor não é só sobre borboletas no estômago, excitação e euforia, amar também é cuidar, e eu posso cuidar de você; amar é sobre ter confiança mútua, e eu posso confiar em você, assim como eu sei como você pode confiar em mim; amor é sobre tantas coisas sabe, sobre afeto, respeito, compreensão, companheirismo e, Kyungsoo, continue olhando nos meus olhos e diga que eu não posso oferecer isso para você, se for mentira, se eu estiver dizendo bobagens, diga isso olhando nos meus olhos. – Jongin instigou, seu timbre não tremia e sua pupila dilatada em expectativa e o que Kyungsoo poderia fazer? Não poderia dizer que ele estava errado. – Se você tiver medo, se você acredita que não sabe o que é amor, então… então me dê só essa chance de aprender sobre isso com você Soo.

O apelido o pegou desprevenido fazendo seu coração saltar algumas batidas e o olhar do autômato indo e vindo de seus lábios em direção aos seus olhos em busca de algum tipo de resposta apenas o deixavam com a mente nublada, com uma única palavra ecoando ao fundo. Sim!

Se não fizesse algo naquele exato momento, temia nunca mais fazer, então em um ímpeto de coragem, com o restante de fôlego que lhe sobrava, realizou seu desejo de experimentar da boca do outro. A boca, tão macia enquanto imaginara, se encaixava perfeitamente à sua, e foram precisos exatos quatro segundos para Kyungsoo entreabrir os lábios, sugando o semelhante com todo o cuidado, como se pudesse o desmontar se fosse mais agressivo, ou talvez, fosse apenas medo de despejar aquele desejo sobre o outro e ele sumir diante de si como um sonho inalcançável. Mas assim que Jongin se adaptou à nova ação, nada pôde fazer além de se entregar aos braços que rodearam sua cintura e o puxaram para o colo do moreno, como numa ação pré programada para derrubar todas as barreiras do Do. Sua língua sutilmente tocou os lábios do autômato numa necessidade gritante de experimentar do sabor do amor que ele tinha para lhe oferecer, e como ironia do destino, sentiu o sorriso que tanto amava se formando nos lábios que saboreava, e amou cada pedaço do companheiro que pôde sentir naquela fração de segundo infinito que compartilharam.

– Eu aprenderia qualquer coisa com você. – Sussurrou contra os lábios do androide e não conteve o sorriso que brotou em seu rosto.

 

Fim.

 

Notes:

Espero que tenham gostado do capítulo e que NA tenha feito o dia de vocês um pouco mais feliz.
Atenciosamente, ?<3