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A primavera é uma estação estranha. Os dias são quentes como o verão, mas as noites ainda sopram os ventos frios do inverno. Você pode, no mesmo dia, tomar um banho de rio antes do almoço e se cobrir em dois cobertores na hora de dormir.
Na natureza, cada animal tem o seu jeito de se aquecer. Aves e mamíferos têm pelos e penas, répteis tiram seu calor do Sol, alguns animais fazem ninhos, os mais sociáveis se agrupam… Os homens foram criativos. Dominaram o fogo, costuraram agasalhos com as peles de suas caças, construíram abrigos de barro e madeira, e, ainda assim, morrem pelas mãos do frio.
Liu’er refletia deitado na sua árvore favorita, observando o céu rosado da tarde. Que momento melhor para filosofar do que quando você está sozinho com os seus pensamentos?
O vento soprou contra seu corpo e ele estremeceu. Ui! O inverno ainda não foi embora completamente. Liu’er se abraçou e esfregou os braços, o frio havia arrepiado os pelos de seu corpo todo.
— Ou! Seis Orelhas!
A voz irritantemente familiar de Wukong tirou-o de sua paz. Ele virou o rosto para o Rei e fez uma careta de desdém.
— O que foi, ó Grande Sábio? — Liu’er debochou de um dos títulos que Wukong mais gostava, retribuindo o favor que ele o fez.
— Primeiramente, não enche. — Wukong invocou sua nuvem e voou à altura do tronco torto da árvore — Segundamente, desce dessa árvore.
— Não.
— Desce dessa árvore.
— Por quê?
— Você vai pegar frio e ficar doente.
— Nhé, eu posso lidar com um resfriadinho. — Liu’er gesticulou com a mão.
— Vem dormir na cabana.
— Ela fede, igual a você.
— Desce da árvore. — oh, agora ele soava ofendido.
— E se eu não quiser, ein? Vai fazer o que?
Wukong franziu o cenho e fez uma expressão de saco cheio. Num movimento repentino, ele pegou Liu’er pelos braços e o jogou sobre seu ombro, carregando-o, na nuvem, até a cabana na Caverna da Cortina D'água.
— WUKONG! ME SOLTA! — Liu'er gritou, batendo nas costas de Wukong e chutando seu abdômen.
— Sem paciência pra isso hoje, Liu'er.
Cada agressão era ignorada por Wukong, que voava concentrado. Liu’er resmungou o resto do caminho, mas desistiu de bater no Rei Macaco.
Em 15 minutos, eles chegaram em seu destino. Wukong desceu da nuvem, ainda com Liu’er em seus braços, e marchou para dentro da cabana. Ele passou pela sua cozinha-sala de estar, rumando ao único quarto da casa. Ele colocou Liu’er delicadamente na sua cama.
— HA! Se você acha que eu vou me deitar na mesma cama que você, então pode tirar o cavalinho da-
— Eu não vou dormir aqui, Liu’er. — Wukong o cortou.
Liu’er ficou em silêncio por cinco segundos, confuso, antes de soltar um “ãn?”
— Eu disse, eu não vou dormir aqui, Liu’er — Wukong repetiu o que já havia dito pausadamente — Eu vou dormir no sofá hoje, pode ficar com o quarto.
Liu’er ainda estava confuso, talvez até mais agora.
— Esse é o seu quarto, por que você tá me colocando pra dormir aqui sem mais nem menos? O que você quer com isso?
— Você não tem aquele problema na coluna?
— Bom, tenho, mas…
— Então dorme na minha cama, o sofá não tem acolchoado.
— Wukong, não precisa, eu…
— Só me agradece, cara, não vai cair o rabo se fizer isso.
O Rei Macaco se virou para sair do quarto e caminhou até a porta, mas foi interrompido.
— Wukong…! — Liu’er chamou, Wukong se virou para ele — Obrigado…
O Macaco de Seis Orelhas o agradeceu, desviando o olhar timidamente — porém com a cara fechada.
Wukong ponderou por alguns segundos, analisando a linguagem corporal do outro em sua cama, mas respondeu a Liu’er assim que encontrou as palavras certas em sua mente.
— Disponha, parça…
Wukong saiu do quarto calado, Liu’er se deitou para dormir, e a casa ficou em silêncio até a manhã nascer de novo na linha do horizonte.
FIM
